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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Terça, 25 Setembro 2007 21:00

Uma Busca Sem Fim

Ora, se vivemos única e exclusivamente a procura de nossa sobrevivência, nós e um cão não teríamos muita diferença.

 

O pensamento e a vida estão ligados à linguagem de maneira tal que, muitas vezes este dado escapa Sa nossa compreensão. A força viva da palavra transmite, gera e preserva de modo dinâmico o que pensamos e sentimos. Sem a palavra, nossa percepção da realidade seria confusa ou nem sequer chegaria a ocorrer, como muito bem nos lembra o professor Luiz Jean Lauand.

Seguindo por essa vereda, apontamos para o seguinte fato: toda vez que vislumbramos um teórico da educação que apresenta a sua compreensão sobre o ato de educar, temos diante de nossas vistas não apenas a apresentação de uma técnica de ensino. Através desta temos a apresentação de toda uma visão do que se entende por ser humano e, devido a isso, acabamos construindo toda uma expectativa em relação ao infante que se apresenta diante de nossas vistas através do olhar deste ou daquele teórico.

Todas as nossas práticas, todos os nossos gestos acabam denotando um determinado juízo frente a vida. Todas as nossas ações acabam narrando algo sobre nós que, muitas das vezes, nem nós mesmos temos uma clara compreensão expressando algo sobre nosso ser e sobre a vida que nem mesmo nós tínhamos consciência.

Na verdade, não paramos para refletir sobre esta descontinuidade de nosso ser em com relação aos nossos discursos, aos nossos ensinamentos. Neste descompasso freqüente, acabamos por edificar uma imagem disforme do que vem a ser o ser humano a tal ponto que, em muitos casos, nem mesmo nós mesmos somos passíveis de sermos compreendidos dentro desta imagem.

Exacerbamos de modo impróprio determinada dimensão da experiência humana em detrimento das demais, reduzindo a pessoa humana e, deste modo, inevitavelmente, desumanizando-a. Por exemplo: se nós reduzimos tudo o que o ser humano é a um mero jogo de relações econômicas (leia-se, luta de classes ou coisa do gênero), estamos reduzindo o entendimento do que é o ser humano ao ser de um animal qualquer.

Ora, se vivemos única e exclusivamente a procura de nossa sobrevivência, nós e um cão não teríamos muita diferença.

Mas, como muito bem nos aponta uma de minhas alunas, a vida humana é muito mais do que a mera sobrevivência. Alias, o que nos torna singulares no cenário da criação (tanto para o Bem como para o mal) são traços que pouco ou nada tem haver com a questões de ordem material.

E, sobre este ponto, o finado Pontífice João Paulo II, em sua Constituição Apostólica SAPIENTIA CHRISTIANA, afirma que a sabedoria cristã “[...] incita continuamente os fiéis a que se esforcem por concatenar numa única síntese vital as vicissitudes e as atividades humanas justamente com os valores religiosos, sob cuja elevada ordenação todas as coisas se hão de coordenar para a maior gloria de Deus e para o aperfeiçoamento integral do homem, o qual compreende os bens do corpo e bens do espírito”.

Todavia, infelizmente, nos indagamos: qual é o cabedal de palavras que utilizamos para nos religar com essa realidade? Qual é a linguagem básica utilizada em nosso sistema educacional? Qual é a linguagem básica utilizada pela maioria dos teóricos da educação?

Bem, é justamente neste ponto que encontramos o grande problema da educação moderna. No que tange a compreensão dos bens do corpo e do espírito e na carência de uma linguagem apropriada para se refletir sobre estes temas.

Alias, no que concerne a diferenciação da natureza desses bens, temos a edificação de um imenso cipoal de confusões e desencontros. Para tanto basta indagarmos sobre o que vem a ser um bem de ordem espiritual que o trem já desanda praticamente por completo. E, deste modo, acabamos por compreender porquê muitos invertem com tamanha facilidade a ordem destes bens, invertendo totalmente o sentido das coisas e elevando praticamente tudo aquilo que simplesmente desejamos por uma pulsão qualquer em um patamar que seja por si justo, como se esta pulsão fosse naturalmente um direito divinal.

Neste cenário, qualquer desejo é válido, desde que não procure elevar o indivíduo a algo melhor do que um mero conjunto de insatisfações. Eis o cidadão moderno. Eis o indivíduo liberto dos laços da tradição.

Quarta, 12 Setembro 2007 21:00

Pensando a Educação do Modo Cristão

Talvez, um bom começo para a resolução desta confusa situação seja nos perguntar sobre o que é um “fim último” e refletirmos sobre o que foi eleito para educação na sociedade brasileira atual.

"Estranho que o homem, em quase todas as coisas,

deva parecer melhor ou pior do que já é". (Niccolo Tommaseo)

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Praticamente, todo debate hodierno no Brasil sobre educação gira em torno de autores de orientação materialista marxista. Em certa feita, lembro-me de uma professora que havia me dito que muitas colegas suas afirmavam enfaticamente que se o teórico da educação não fosse marxista ela não o lia. Pior que isso é termos de ouvir Párocos fundamentarem suas preleções em Paulo Freire como meus ouvidos já testemunharam.

A forma como se desenha o cenário do debate sobre a educação em nosso país dá a impressão de que apenas a partir do século XVIII é que se passou a pensar com seriedade este assunto e que apenas autores seculares trataram do tema de modo coerente.

Bem, embuste maior não há. Alias, a discussão anterior ao “século das Luzes” é infinitamente mais profícua do que todo o trololó que vem sendo dito desde a décima oitava centúria até os dias de hoje sobre o tema. E, confesso, os autores cristãos tem uma contribuição colossal que é pouco explorada, para não dizer que é desdenhada em sua inteiresa.

Alias, se formos comparar a biografia dos autores com suas obras para averiguar se há coerência entre elas, perceberemos o imenso abismo que existe entre o que se entende por educação hoje e o que as sociedades tradicionais concebiam como tal e de que modo isso era perceptível na maneira como esses pensadores viviam as suas idéias.

Por isso, temos por intento através destas minguadas linhas trazer para a arena pública as considerações feitas pelo Papa São Pio XI em sua Encíclica DIVINI ILLIUS MAGISTRI – acerca da educação Cristã dos jovens, publicada em 31 de dezembro de 1929, no oitavo ano de seu Pontificado.

São Pio XI, lembra-nos que a educação consiste essencialmente “[...] na formação do homem como ele deve ser e portar-se, nesta vida terrena, em ordem a alcançar o fim sublime para que foi criado, é claro que, assim como não se pode dar verdadeira educação sem que esta seja ordenada para o fim ultimo...”.

Este ponto, o fim último da educação (que é o fim último da vida humana), é o ponto basilar para a construção de um projeto educacional coerente, pois, quando estamos falando em educação, estamos, inevitavelmente, falando de um conceito de pessoa humana e, fundamentalmente de um sentido para a existência humana. Por isso, todo educador deveria indagar-se sobre o que é um fim último e o qual fim eleger para ocupar esse pedestal teleológico.

Infelizmente tal indagação não é levantada. Basta perguntarmos: qual o fim último da educação? Qual o propósito do ato de educar? O máximo que se chegará no cenário atual é ao apontamento de fins segundos como se estes fossem uma pedra angular da vida humana.

Mais adiante o Santo Padre nos lembra que a educação moderna em seu intento de libertar as pessoas estava por embrutece-las e a escravizá-las. Afirma ele que os educadores modernos: “[...]iludem-se miseravelmente com a pretensão de libertar, como dizem, a criança, enquanto que antes a tornam escrava do seu orgulho cego e das suas paixões desordenadas, visto que estas, por uma conseqüência lógica daqueles falsos sistemas, vêm a ser justificadas como legítimas exigências da natureza pseudo-autônoma”.

E hoje, quando vemos professores e pais a se queixar da falta de respeito de muitos jovens, fica mais do que visível os problemas gerados pelas pedagogias ditas libertadoras que direta e indiretamente fomentam nos estudantes a insatisfação, o desejo por “justiça” (sem saber exatamente o que é isso) e, principalmente, o impulso a desprezar todo o senso de hierarquia de valores por ter aprendido que a medida de seus atos é o seu orgulho e vaidade.

Pio XI advertia que isso viria a ocorrer já no início do século XX e nós, até os dias atuais, continuamos a tatear em meio ao caos gerado pelos nossos atos (des)educativos.

Talvez, um bom começo para a resolução desta confusa situação seja nos perguntar sobre o que é um “fim último” e refletirmos sobre o que foi eleito para educação na sociedade brasileira atual. Isso se não nos encontrarmos enredados em demasia em nossos enganosos atos confundindo nossa existência com essa confusa trama.

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Nota caustica: palavras do senhor Presidente da República no 3º. Congresso do PT: “Ninguém neste país tem mais autoridade moral, ética e política do que o nosso partido. Admitimos que tem gente igual a nós, mas não admitimos que tenha melhor”.

Obs.: A quem interessar possa: Encíclica DIVINI ILLIUS MAGISTRI encontra-se disponível na biblioteca de nosso web site.

Terça, 28 Agosto 2007 21:00

Crítica da Razão Turva

Ora, se você é daqueles que deseja realmente entender o abismo em que nosso país se encontra, pouca serventia lhe terá a leitura solitária de uma revista Veja, Isto É, ou Época.

Um [de]formador de opiniões é bem quisto pela sociedade brasileira hodierna não pela sua capacidade de desvelar a realidade da vida humana, mas sim, pelo grau em que este fustiga suas “críticas” a tradição judaico-cristã e bem como a toda cultura clássica.

Se o figurão senta a pua na Igreja Católica e nas demais religiões tradicionais, ele é tido como “bom”, como uma pessoa lúcida e crítica. Se ele senta o sarrafo na economia de mercado, na livre iniciativa, ele também é tido em alta conta. Porém, frisamos mais uma vez, que assim o é, não pela capacidade que desta pessoa traduzir a realidade tal qual ela É, mas sim, pelo simples fato de este elemento comunicar uma mensagem, um colóquio que corresponde diretamente ao que nós, subjetivamente, estamos sentindo em relação a vida.

Trocando por dorso, em nome da “realidade da vida” negamos a realidade dos fatos para que possamos nos sentir melhor conosco mesmo e, neste exercício de negação do real, abdicamos voluntariamente de uma possível ação humana eficaz na resolução dos problemas que lá estão, no mundo da vida, mesmo que tenhamos conseguido cognitivamente negar a sua existência. Ou seja: negamos os problemas de uma maneira pacóvia e ingênua (muitas vezes maliciosa mesmo) para assim podermos fingir que estamos resolvendo eles. E se nada disso der certo, basta que, mais uma vez, atribuamos a causa destes males a algum bode-expiatório apontado por um destes [de]formadores de opinião que nós, mais uma vez, voltamos a nos sentir bem, sem nos responsabilizar pelo mal gerado pelas nossas ações turvas.

Agimos de modo superficial e apresada em nossos juízos axiológicos. Alias, somos tão volúveis em relação a eles que os trocamos levianamente como se estes fossem roupas que devem ser trocadas de acordo com a ocasião.

Agimos assim, não por uma característica pervertida inerente a nossa pessoa. Assim nos portamos por termos um gigantesco abismo em nossa formação. Em nossa sociedade, o que temos por valores elevados é nada mais que um conjunto superficial de condutas que ostenta com orgulho macunaímico frente ao desprezo pelos estudos, pela dedicação e, principalmente, uma impaciência maldita frente as questões que se apresentam. Concordo plenamente com um amigo meu que, em certa feita, afirmou que “a pressa pela resposta é a mãe da ignorância”.

No caso da sociedade brasileira, a constatação de meu amigo, faz-se regra primordial frente a maneira como agimos, como estudamos, como escolhemos nossos representantes, como confessamos nossa religião.

Reinventamos tudo a fim de podermos nos afirmar sob nossa nesciedade, para legitimarmos nosso puro “achismo”. Desejamos reinventar tudo na base do complexo de Chicó (não sei! Só sei que é assim). Deste modo matamos com grande orgulho a a filosofia (amor a sabedoria) em nome da filodoxia (amor as opiniões) e elevamos esta segunda no lugar da primeira.

Eric Voegelin, em sua obra EVANGELHO E CULTURA, nos aponta que: “Apenas a vida milenar da razão pode dissolver a sua deformação secular. Não temos de permanecer no gueto dos problemas contemporâneos ou modernos, prescritos pelos deformadores. Se a destruição remonta a séculos, nós podemos recuar milênios para restaurar a questão tão vastamente danificado no nosso tempo”.

Ora, se você é daqueles que deseja realmente entender o abismo em que nosso país se encontra, pouca serventia lhe terá a leitura solitária de uma revista Veja, Isto É, ou Época. Pouca serventia terá qualquer telejornal, pois, nestes casos, a referência civilizacional que lhe dará o suporte epistemológico será extremamente superficial, pois, de pouco adianta ter nas mãos uma e outra peça de um quebra-cabeças sem ter a menor idéia da imagem primordial do jogo.

Agindo assim, sem esta visão, a única coisa que pode sair é a confusão elevada a categoria de fundamento. Ou seja: qualquer bobagem facilmente é aceita como verdade provisória até que uma bobagem maior supra a nossa necessidade de besteirol maquiado de criticidade.

E neste embalo, segue a brasilidade.

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Obs.: Temos disponível na biblioteca de nosso web site algumas obras do filósofo Mário Ferreira dos Santos. Quem desejar conhecer o filósofo da história que, segundo as palavras de Olavo de Carvalho, teria alguma coisa de interessante a dizer a Platão e Aristóteles acesse http://dartagnanzanela.k6.com.br

Segunda, 20 Agosto 2007 21:00

Em Busca de Um Sentido

É curioso, para não dizer patético, como muitas pessoas em sua crença de poder transformar em algo melhor, em “um mundo melhor possível”, acabam revelando, através de sua face benevolente, toda a sua truculência. Toda a sua crueldade.

“[...]ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz.

Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo te condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles”.
(Rm 2, I: 01)

 

É curioso, para não dizer patético, como muitas pessoas em sua crença de poder transformar em algo melhor, em “um mundo melhor possível”, acabam revelando, através de sua face benevolente, toda a sua truculência. Toda a sua crueldade.

Para começo de prosa, os indivíduos que condenam moralmente toda a humanidade por seus passos turvos e pelos seus tropeções aqui e acolá, apresentam, logo de cara, uma reforma total do ser humano e da sociedade só podem ser compreendidos como seres demoníacos. Nada mais e nada menos que isso.

Um indivíduo que afirma que tudo no mundo está carcomido pela corrupção e que ele, com sua cabecinha de toucinho, iluminada, tem uma proposta salvífica para todos nós está simplesmente se proclamando Deus. Isso mesmo! Um indivíduo que, muitas das vezes, decora algumas frases e outro tanto de jargões e acredita que as “suas convicções” são um bálsamo para toda humanidade é um demente perigoso.

No fundo, o que essa gente cheia de boa vontade quer é simplesmente tornar o mundo a sua imagem e semelhança (que medo) devido a seu pavor nascido de seu sentimento de impotência advindo de sua ignorância congênita. Ou seja: tenta purificar o mundo com o excremento de suas almas putrefazes.

Nenhuma das grandes tragédias que assombraram a humanidade foi desencadeada por pura crueldade. Todas elas foram movidas pelo desejo de fazer justiça, de libertar os oprimidos de construir um mundo melhor. Tudo isso feito pelas mãos de pessoas embebidas em sua vaidade tornando-se incapazes de perceber e compreender os males que estavam por desencadear, pois estas, viam-se e vêem-se, como seres acima do bem e do mal.

Desde a Revolução Francesa até as Ditaduras Comunistas (que eles denominam como “populares” ou “Democracias populares”) o cenário desenhado é este: tragédias e mais tragédias tangidas em um só couro em nome da humanidade, mesmo que isso custe a vida, a liberdade, a dignidade de milhões de seres humanos.

Ou seja: por não compreenderem de modo claro o sentido da vida, por não entenderem de modo lúcido o que é o ser humano, estas pessoas, perturbadas espiritualmente, acabam inventando toda uma nova antropovisão que só existe em suas mentes e, conseqüentemente, acabam atribuindo um novo propósito para o existir.

Deste modo, seguindo esse tipo de raciocínio, muitos pensadores acabaram elaborando sistemas filosóficos que procuravam criar uma nova fundamentação para o ser humano em total contradição com o que o ser humano é de fato.

Exemplo interessante deste problema é o marxismo que hoje se faz presente (de modo sutil ou cavalar) em todas as searas do conhecimento inerentes as ciências humanas.

Quando lemos o Manifesto do Partido Comunista de 1848, temos diante de nós o manifesto da Liga dos 12 Justos, uma sociedade secreta que Karl Marx e Friedrich Engels haviam se tornado membros em 1847. O documento que declara os intentos de um “socialismo (dito) científico” não passaria de um texto com um vocabulário modernizado dos fundamentos dos Illuminatis da Baviera que bradavam aos quatro ventos: "FIAT JUSTITIA, RUAT COELUM". (Faça-se a justiça, mesmo que desabem os céus)

Enfim, Marx foi um homem que proclamou a necessidade de transformar o mundo, não de pensá-lo. Conseguiu. Creio que ele não desejava tudo o que foi edificado a partir de sua obra, mas não havia como não o ser. Como esperar bons frutos das longas laudas de “O Capital”, obra que redigida com base em dados manipulados dos Blue books do Parlamento Britânico? Ou seja: negando extratos da realidade para melhor transforma-la de acordo com os seus propósitos.

Um homem cheio de boas intenções, mas de pouquíssimas ações sinceras. Similar aos seus seguidores que inundam o mundo hodierno com sua indignação de iluminados.

Sábado, 04 Agosto 2007 21:00

O Descontínuo em Formação

Não é à toa que este país está no estado em que se encotra. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é. Todos querem transformar o sistema, sem reconhecer nas falhas deste a sua própria contribuição.

Houve um tempo em que todos afirmavam que quando concluíam um curso superior eles estavam libertos, que não mais necessitaríam estar sentados nos bancos escolares. Houve um tempo em que um título representava a consumação de um processo de aprendizado, conferindo a este indivíduo um status de suposta superioridade.

Este tempo, obviamente, ainda não findou totalmente na mente de muitos educadores e das pessoas de um modo geral. Não por sua responsabilidade em si, mas sim, pelo fato de vivermos em uma sociedade como a brasileira onde os títulos, por mais parvos que sejam, são apresentados como sendo um símbolo de “superioridade”. Quantos já não viram um ambiente decorado com um diploma de datilógrafo ou diploma similar? O que dizer então do poder simbólico de um diploma Universitário?

Mas, em fim, o que nos interessa aqui nestas linhas é a abertura para uma reflexão sincera sobre a necessidade do estudo constante temperado por uma reflexão perene sobre o nosso ofício e, principalmente, sobre nossas pessoas, pois, triste é a vida humana que não se permite um momento de reflexão sobre a imagem construída de si. Infeliz é a pessoa que se fecha em copas para qualquer possibilidade de reflexão individual e grupal sobre suas práticas e saberes, pois, pessoas de alma obtusa como estas, são muitíssimo semelhante as rochas que, com o devir do tempo apenas se decompõem e nada mais.

Ao nosso ver, todo e qualquer momento em que mais de uma pessoa se reúnem em uma confraria ou em uma reunião formal para discutir, para aprender, temos presente um sinal de maturidade intelectual. Não há nada de errado em estar errado sobre nossa atuação docente. O que é um erro capital é temer a auto-correção deste e esquivar-se dela como o diabo se esquiva da cruz.

Diante disso, temos que ter em vista, sempre, que o nosso maior adversário está em nós mesmo. Está em nosso medo de que reconheçam a nossa humanidade, que identifiquem a nossa falibilidade. Temos a publicidade de nosso íntimo.

Ora, errar é humano. Corrigir o seu próprio erro é divino. Mas, esquivar-se de nossa humanidade e negarmos a possibilidade divinal nada mais é que estupidez e da brava. E o que é mais interessante nisso tudo: estes mesmos indivíduos que afirmam constantemente a necessidade da transformação da sociedade se negam a possibilidade de transformarem-se a si mesmos.

Não é à toa que este país está no estado em que se encotra. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é. Todos querem transformar o sistema, sem reconhecer nas falhas deste a sua própria contribuição.

Quinta, 26 Julho 2007 21:00

O Que Significa Ser Um Povo?

Eis aí uma pergunta interessante. O que nos faz ser o que somos? Fundamentalmente, de que modo poderíamos apresentar o homo brasilienses?

Eis aí uma pergunta interessante. O que nos faz ser o que somos? Fundamentalmente, de que modo poderíamos apresentar o homo brasilienses? Definir o ethos de uma sociedade não é uma tarefa fácil, de modo algum, mas, por essa mesma razão faz-se instigante.

São muitas as nuanças que acabam determinando a maneira de ser de um povo. O que é importante sempre lembrarmos é que em um exercício de reflexão deste gênero devemos atinar nossa atenção para a maneira como nos identificamos e como somos identificados para assim, neste interstício, possamos nos reconhecer enquanto membros de uma grande comunidade imaginária nominada Brasil. Ou seja: responder a indagação que se encontra enunciada no título deste libelo é justamente um exercício de reflexão sobre a nossa identidade, sobre nossa alma.

E é aí que muitas vezes nos esquivamos e preferimos o viés de respostas mais adocicadas sobre nossa imagem, preferindo respostas eivadas de bajulações do que muitas vezes a verdade nua e crua.

Por isso, neste momento, levantamos apenas alguns pontos periclitantes sobre a nossa identidade, sobre o nós, brasileiros. É comum afirmarmos que o Brasil é um país constituído por um povo alegre. Somos o país do futebol, do samba, da cachaça, da bunda. Ótimo! Mas, somos apenas isso? Será que essa é a melhor imagem que temos para externar sobre nós? Como você qualificaria uma pessoa que apresenta como sendo as suas melhores qualidades o gosto pelo futebol, samba, pinga e bunda? Porém, é isso o que demonstramos ser o que há de melhor em nós, como se os outros povos não tivessem os seus folguedos, desportos, bebidas etílicas e belos corpos.

Bem, mas esta é a imagem que é produzida sobre nós e, acima de tudo, ufanada pela maioria. Mas, somos essencialmente isso? Creio que não.

Alias, esta nossa declaração não é proferida no sentido de negar que afirmar o que é o Brasil seja algo unívoco, pois, somos cientes de que no fundo seríamos um grande emaranhado de Brasis. Entretanto, via de regra, somos sempre apresentados como um povo essencialmente lúdico e, acima de tudo e ordeiro nos mais variados Brasis, não é mesmo?

Porém, mais uma vez perguntamos: isso é o que temos de melhor para apresentar a humanidade? Esse é o ponto nosso ponto fundante? Essa é a pergunta capital sobre a identidade de um grupo humano a qual, nos esquivamos constantemente.

Terão aqueles que dirão que essa característica é nosso diferencial frente ao mundo. Maravilha! Mas em que isso nos torna melhor que outras sociedades? Em que esse diferencial poderá contribuir para a melhoria dos outros povos? Em que esse “ser brasileiro” contribuirá para o avanço da humanidade?

Ah! As pessoas se tornarão tão felizes como nós. Opa! Acabamos por cair em uma indagação de caráter filosófico. Alias, começamos mesmo a trilhar uma vereda de feitura metafísica. Isso mesmo: o que seria em si a felicidade? O que é ser feliz, em si?

Sem responder diretamente a esta pergunta, podemos iniciar fazendo uso de uma técnica filosófica bastante simples: antes de procurarmos definir o que algo é, devemos apontar o que este algo não é de modo algum. E, procedendo assim, creio que o amigo poderá chegar a uma conclusão contundente: o que nós brasileiros costumamos chamar de felicidade não passa de maya (termo hindu para ilusão). Ou não?

Estas questões aqui expressas parecem ser um tanto tolas, mas eu, em minha tolice existencial, fico muitas vezes indagando cá com meus botões como que as sociedade vindouras irão se referir a nós, brasileiros, em especial os homo brasilienses que viveram entre o fim da vigésima centúria e início da vigésima primeira? Exemplo de que seremos? Qual será a identidade que teremos frente ao tribunal da História? De que modo estamos contribuindo para a feitura desta identidade? Com essa imagem caricato de “felicidade brasileira” com bunda de fora, nada na cabeça e chuteira nos pés?

Quinta, 19 Julho 2007 21:00

Vaia Pan-Americana

Muitos ficaram impressionados com a vaia olímpica que o senhor Luiz Inácio Molusco da Silva recebeu na abertura dos jogos Pan-Americanos. Aliás, sete vaias.

Muitos ficaram impressionados com a vaia olímpica que o senhor Luiz Inácio Molusco da Silva recebeu na abertura dos jogos Pan-Americanos. Aliás, sete vaias.

Lula foi vaiado logo em sua majestosa chegada. Em seguida nas três saudações em que teve o seu nome lembrado em português, espanhol e inglês. Mais uma vez quando foi citado pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e depois ao ser chamado pelo presidente da Organização Desportiva Pan-Americana. Seis vezes. A sétima ocorreu no ensaio geral. Teríamos uma oitava, mas seus assessores o aconselharam a abrir mão de declarar abertos os jogos.

Mas, para ser sincero, isso não me impressiona muito. Coisas superficiais não costumam chamar a minha atenção. Me diverte, porém não me impressiona. O que me deixa um tanto perplexo são outras coisas que, via de regra, a impressa brasileira não dá muita importância como, por exemplo, os gastos astronômicos para a realização do Pan.

Segundo o jornal britânico The Times, a organização Jogos Pan-Americanos do Rio revelou ao mundo a face torpe de nosso Estado, principalmente a burocracia corrupta e ineficiente.

De acordo com o Jornal Britânico, a grana investida nos jogos teve como o objetivo mostrar ao mundo que o Brasil não tem condições de organizar eventos maiores (Ah! Que dó!), como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Ora, o orçamento previsto para o Pan-Americano saiu de controle devido (adivinhem) a má administração dos recursos e da corrupção endêmica, tornando o preço final para o contribuinte (os tongos de plantão) cerca de oito vezes mais caro que as estimativas iniciais.

E qual é a única atitude que a sociedade brasileira é capaz de fazer diante deste desfrute orçamentário? Vaiar o senhor Presidente e aplaudir os atletas. Nada mais, nada menos que isso.

Realmente, como sociedade, somos um grande fiasco Pan-Americano.

Quinta, 12 Julho 2007 21:00

Salvem a Professorinha!

A vida não é perfeita, mas nós, através da educação estamos dia após dia ensinando que ela pode ser pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens

é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum”. (Olavo de Carvalho)

* * *

Certa feita, uma jovem havia me dito que ela não admitia que uma autoridade afirmasse que um pai deveria ser mais enérgico com uma criança (dar-lhe umas boas palmadas) quando fosse necessário. De minha parte, confesso que não me sinto de modo algum autorizado a dizer o que um pai e uma mãe podem ou não fazer com os seus filhos em termos educacionais, visto que, muitas das vezes, a ULTIMA RATIO educacional em um lar, em muitas ocasiões, inevitavelmente são umas boas palmadas.

Todavia, para aqueles que tem o seu pensamento engessado com os ditames politicamente corretos que infectam a nossa sociedade, cabe aqui lembrarmos alguns pontos que julgo serem relevantes para serem trazidos a baila.

Um destes pontos, que julgo ser deveras simples e talvez, por isso, tão desdenhado, é o papel da educação na apresentação das possibilidades da ação humana.

Desde que o mundo é mundo a função primeira da educação é preparar o indivíduo para a vida, para seus regalos e para seus ônus. Entretanto, o que temos hoje em nossa sociedade atual é justamente o inverso. Prepara-se o indivíduo para viver em um possível mundo futuro, fomentando nestes um forte sentimento de desprezo e de insatisfação infundada pela sociedade presente. Não? Basta então ler com a devida atenção os materiais didáticos e para-didáticos que circulam pelas instituições de ensino e compreenderá o que estamos apontando.

Muitos destes materiais são repletos de indagações retóricas onde a resposta se encontra maliciosamente embutida na pergunta, todas, obviamente, com pretensão de serem materiais com alto grau criticidade. Alias, tudo que venha seguido deste jargão, criticidade, me dá arrepios, pois, na maioria das vezes não passa de doutrinação marxista descarada.

Junte à isso, um sistema educacional em que procura-se unicamente contabilizar resultados através de uma média aritmética forçada onde a porcentagem de aprovações é super-valorizada em detrimento ao mérito individual dos alunos que se esforçam. Isso mesmo, o populismo pedagógico implantado em nosso país que em nome da bonança da mediocridade geral, penaliza com o descaso os que se sobressaem pelos seus esforços e pela sua dedicação.

Haverão aqueles que afirmarão que o aprendizado deve ser algo prazeroso, lúdico e blablablá. Concordo que o aprendizado é muito mais fértil quando parte tão só do interesse o aluno, porém, isso só é possível quando os indivíduos estão em um ambiente de ensino por livre e espontânea vontade e não por uma imposição legal. Uma sala de aula, do ensino fundamental ou médio, não é um campo de futebol. Logo, essa conversa mole não funciona. Basta verificar a quantas anda a educação em nosso país. Não na mesa dos burocratas ou nos palanques de nossos demagogos. Estou falando das salas de aula. Estou falando da forma como os alunos saem das instituições de ensino e como eles se encontram nelas.

Sobre isso tudo, com muito mais propriedade que este mísero missivista, fala-nos o filósofo Olavo de Carvalho em seu artigo “O imbecil juvenil” publicado em 03 de abril de 1998 que: “Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior”.

Aí eu lhes pergunto: não estamos diante de um cenário semelhante a este? Nosso sistema educacional não está a alentar esse sentimento? Ora, se não mais é apresentado aos nossos jovens os limites necessários para que se realizem enquanto indivíduos, o que estamos fazendo? Literalmente ensinando eles a atearem fogo nas madeixas de professoras, atropelar serventes com mais de 60 anos no corredor da escola e a colocar bombas para estourar a mão de educadores em escolas técnicas.

A vida não é perfeita, mas nós, através da educação estamos dia após dia ensinando que ela pode ser pior.

E estamos conseguindo.

Quinta, 28 Junho 2007 21:00

Refletindo Sobre o Irrefletido

Estou a cada dia que passa mais convencido de que o foco de nossa educação não está simplesmente um tanto torto, fora de seu rumo, mas sim, totalmente fora de prumo.

Estou a cada dia que passa mais convencido de que o foco de nossa educação não está simplesmente um tanto torto, fora de seu rumo, mas sim, totalmente fora de prumo. Afirmamos isso não com vistas ao conteúdo presente nas mais variadas disciplinas, pois me sinto apenas autorizado a ponderar apenas sobre as disciplinas da seara das Humanidades (e olhe lá).

O que realmente, dia após dia, nos chama a atenção é a forma como se pensa o ensino e como se pensa o aprendizado e isso, meu amigo, é que desperta muitas vezes em minh'alma sentimentos de pânico.

Todavia, não é nosso intento neste breve libelo dissertar sobre todas as teorias da aprendizagem e sobre todas as práticas versadas por boa parte do professorado. Queremos apenas chamar a atenção para um singelo mal que constatamos com uma grande constância que é, por sua deixa, a forma como se usam os conceitos. Ou melhor: o que se imagina ser um conceito.

Um conceito, não é uma simples palavra. É, acima disso, uma ferramenta epistemológica que nos serve para captar a realidade tal qual ela é. A sua validade não está vinculada em seu grau de inter-subjetividade, não mesmo. Sua validade epistemológica está associada diretamente a sua capacidade de traduzir a realidade.

Porém, para se chegar a isso, não basta um breve bate-boca em um colóquio mais breve ainda em uma sala de aula e muito menos em uma efusiva e etílica troca de “idéias” em um boteco. Para realmente se chegar a uma compreensão no mínimo clara sobre os assuntos que se pretende versar é necessário, primeiro, estar aberto a aprendizagem e, em segundo, ter paciência frente as dificuldades que os temas nos apresentam. E, obviamente, não ver a si mesmo como sendo a suma autoridade frente ao mundo só pelo simples fato de você não concordar com a forma em que ele se encontra.

Alias, prendamos nossa atenção um pouco neste ponto, visto que, para boa parte das pessoas, ser uma pessoa crítica se resume na simplória postura de sentir-se autorizado a tudo questionar, mesmo que pouco, ou nada, se conheça dos assuntos questionados. Bem, o interessante que estes elementos, que não são poucos, infelizmente, permitem-se questionar a tudo, a toda inteligência da humanidade, mas, nunca se dão ao “luxo” de questionar a sua própria inteligência.

Esta postura turva é tão só uma auto-proclamação de onisciência cínica e nada mais. E pior. É o padrão médio do que se entende por educação “crítica” que, em resumidas palavras, seria uma supra valoração da subjetividade do indivíduo em detrimento da compreensão objetiva da realidade. Na verdade, a educação deveria começar pelo caminho inverso, ou seja: ensinando a duvidar de suas próprias elucubrações e não apenas (e primeiramente) das de outrem.

Sempre ouvimos aquele trololó de que devemos valorar a opinião de outrem, em relação aos assuntos que são abordados. Mas, e quando o infeliz desconhece o assunto em pauta? E quando quem está coordenando a discussão também desconhece? Que lição está sendo ensinada meu Deus do Céu? Que tudo o que você supostamente pensa deve ser valorado só porque você disse isso, pouco importando se tudo o que você disse não passa de um mero trocadilho decorado para agradar ou impressionar as pessoas e, principalmente, para iludir a si mesmo.

Segundo Olavo de Carvalho em sua obra Edmund Husserl contra o psicologismo, “é uma tendência que existe nas crianças, e que sobrevive na idade adulta, na esfera da imaginação. Para o bem da humanidade deveria ser progressivamente extirpada a medida que você evoluísse. Um exemplo disso é o fato de que as pessoas, mesmo conhecendo a distinção do verdadeiro e do falso, mesmo tendo estudado Filosofia, conhecido a Ciência, etc., continuam tendo a reação de se sentir mal quando imaginam imagens nocivas. Quando você imagina uma cena desagradável você se sente mal, como se ela estivesse acontecendo mesmo. Dificilmente você tem esse distanciamento”. (pág. 80)

Olha, para ilustrar, vamos dar um exemplo, do que estamos tratando. Olha, o dia que vocês lerem algo desse pacóvio escrivinhador sobre mudanças climáticas, aquecimento global, ou coisa do gênero, por favor, me mandem calar a boca e consumir com minha pena e tinteiro, pois, sinceramente, não me sinto autorizado a opinar sobre estes assuntos, pois, julgo que eles são por demais complexos para mim e ainda não tenho uma visão clara sobre a complexidade do mesmo visto as inúmeras divergências que existem sobre o tema.

Todavia, muitas pessoas, sem ter conhecimento destas divergências e confiando cegamente na mídia chique, no documentário premiado de Al Gore e na Xuxa estão aí a bradar aos quatro cantos as “Verdades Inconvenientes”.

Ora, se essas pessoas tivessem aprendido a analisar os fatos a partir de conceitos e não a partir de expressões não significativas, pensariam três vezes antes defender bandeiras e idéias de ocasião. Coisa que, a muito, foi deixado de lado neste país.

Quinta, 14 Junho 2007 21:00

Me Recuso

O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

Todavia, não faço uso destas linhas para ficar a tecer queixumes. Pelo contrário, venho aqui através destas (até parece ofício) para partilhar de duas experiências pedagógicas singulares que, realmente, me impressionaram muito.

Faço isso não no intuito de bajular fulano ou para vangloriar-me. Faço isso no afã de apresentar dois casos que julgo serem exemplares, de modelos de conduta a serem analisados e refletidos enquanto formas possíveis de atitudes de uma vida sabiamente vivida.

Dois alunos de turmas diferentes e que, em situações e em momentos diferentes, demonstraram a mesma grandeza de espírito que muitas das vezes carecemos.

O primeiro caso foi de um aluno que havia se equivocado em uma de suas resposta em uma de minhas avaliações e, por essa razão, veio até mim para apresentar os seus argumentos de maneira clara e educada. Um verdadeiro lord. Porém, para a infelicidade dele, a sua resposta estava equivocada e não minha correção.

Até aí, tudo bem. Mais uma cena qualquer em uma instituição de ensino. Todavia, o que recebo de suas mãos na segunda-feira? Um trabalho sobre o assunto que a questão abordava como se este fosse uma espécie de retratação frente a seu erro. Alias, este me entregou o trabalho com a simples e bem humorada justificativa: “professor, da mesma forma que fui homem para reclamar, sou homem para reconhecer o meu erro”. Já pensou se todos nós fizéssemos isso quando nos sentíssemos injustiçados?

Mas o causo não para por aqui. Vejamos um outro caso que, também, tocou meu coração. Estavam os alunos a apresentar os seus trabalhos de término de uma de minhas disciplinas. Cada grupo tinha um limite de tempo para realizar a sua apresentação e eis que chega a vez do referido grupo que, por sua deixa, extrapolou o seu tempo tendo que encerrar sua preleção de modo abrupto.

Porém, antes que os membros da equipe se deslocassem para os seus lugares, um deles, bruscamente, interpelou-me dizendo: “espere aí professor! O senhor me desculpe, mas nós vamos terminar a apresentação do trabalho. O senhor pode até descontar nota, porque pelo menos eu não fiz este trabalho pela nota, mas sim pela experiência de vida que eu adquiri”.

Olhem só, que coisa! Quantas vezes em nossas vidas nós fizemos algo sem pedir um outro algo em troca? Quantas? Quantas vezes nós estudamos algo sem uma outra recompensa senão o saber aprendido? No fundo, na maioria das vezes agimos apenas como cães adestrados que fazem truques idiotas para poder receber um pequeno biscoito. Somos, no fundo, seres esvaziados de sentimentos de grandeza, nos recusamos a ser prestativos e fingimos ser bom.

Para infelicidade geral da nação, as cenas vividas descritas acima, são exceções. Raras vezes nestes nove anos de magistério tive a grata felicidade de ver grandes atitudes como estas e, por essa razão, trago aqui esses grandes exemplos na esperança de que outras pessoas, sejam elas alunos, pais, professores, cidadãos preocupados com a educação, vejam com clareza o que é realmente ser uma pessoa com uma postura crítica.
Confesso que os dois casos me emocionaram. Não por eles em si, mas pela imensa quantidade de posturas antípodas a estas existente em nosso país.

Na verdade, temos muito mais pessoas cricas e cretinas do que críticas. Temos muito mais pessoas insatisfeitas que não compreendem a si mesmas e muito menos a sua circunstância existencial do que indivíduos cientes de suas potencialidades e da necessidade fundamental de reconhecer suas falhas, corrigi-las e, acima de tudo, serem capazes de aprender com elas para se tornarem indivíduos melhores. Tão só esta atitude, pequena e simples, seria a maturidade, como a milênios nos ensina o Estagirita e tão só isso, demonstra o quão imatura é nossa sociedade.

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