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02 Set 2005

A Canalhice dos Intelectuais

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Houve um tempo em que o vocábulo intelectual identificava aquelas pessoas que se dedicasse às coisas relativas ao intelecto, à compreender do mundo e acima de tudo, compreender a si enquanto indivíduo.

Houve um tempo em que o vocábulo intelectual identificava aquelas pessoas que se dedicasse às coisas relativas ao intelecto, à compreender do mundo e acima de tudo, compreender a si enquanto indivíduo. Alias, houve um tempo em que as pessoas que eram identificadas como intelectuais eram capazes de cortarem a língua com os próprios dentes e cuspi-la na face de seu algoz, como fez Zenão. Ou mesmo retirar a sua própria vida, como foram os casos de Sócrates e de Sêneca, recusando curvar-se diante da mediocridade da maioria.

Mas, e quanto aos intelectuais dos dias hodiernos, seriam apenas pessoas que assinam manifestos de intelectuais, como certa vez ironizou Millôr Fernandes, ou seriam algo pior? Bem, o que será que Sócrates pensaria de uma filósofa como Marilena Chauí, que se entrega ao papel puro e simples de ser porta voz do petismo a ponto de declarar que o mundo se ilumina quando Lula discursa?

O que Voltaire pensaria dos intelectuais esquerdista que imaginam ser o seu consenso monolítico sinônimo de sapiência superior chegando a ponto de se recusarem a conhecer as razões apresentadas por seus antípodas e mesmo desdenhando o direito destes apresentarem os seus argumentos? Alias, o que Descartes pensaria de intelectuais que presumem conhecer assuntos que conhecem apenas pelo viés de seus críticos sem ao menos ter se dado ao luxo de procurar conhecer uma fonte primária sobre o mesmo?

O que Sto. Tomás de Aquino pensaria de intelectuais que, em nome de uma sigla partidária e de sua ideologia, relativizam a tudo para assim melhor desqualificar os seus adversários políticos e, ao mesmo tempo, legitimar as suas posições afirmando serem os representantes da ética? O que Mário Ferreira dos Santos teria a dizer sobre pessoas que, ao mesmo tempo, que negam a existência de fundamentos perenes afirmam que a doutrina política a qual são sectários seria a forma mais decantada de modelo de organização apesar de nunca terem refletido seriamente sobre as conseqüências dela e muito menos de ter tido a humildade de reconhecer a sua participação nos erros desencadeados e acobertados em seu nome?

Alias amigo, o que dizer de pessoas que diziam sempre que determinadas práticas de nossa sociedade eram inadmissíveis agora passam a afirmar que elas, as mesmas práticas criticadas, sempre existirão e que não há outra forma de se chegar ao poder e manter-se nele. Bem, esse tipinho canalha é o intelectual esquerdista brasileiro que, por fiar-se integralmente na defesa de uma ideologia espúria que é o socialismo, acabaram esquecendo-se de seu compromisso para com a perene vereda da verdade. Quer dizer, se algum dia estes firmaram este compromisso, não é mesmo?

É triste, mas esse é um retrato de boa parte da intelectualidade brasileira que não economiza giros elípticos e cirandas erísticas para convencer a massa de que eles não erram, de que eles são detentores da verdade revelada pelo “Evangelho (pra lá de apócrifo) de São Karl Marx.

Este seria um momento para todos refletirem criticamente sobre a crise política e os erros que os intelectuais cometeram ao colaborarem na subida ao poder deste grupo que aí está, dando-lhes apoio em todas as searas abertas no descampado da formação de opinião, desde os jornais até e principalmente nas cátedras universitárias.

Mas não, o que eles preferiram fazer? Preferem classificar as mentes que estão a se manifestar como sendo a de “ideólogos tagarelas”, como o fez Marilena Chauí em entrevista concedida ao jornal O Globo, ao se referir aos filósofos que estão a criticar a atual (des)governança petista.

Sobre este ponto o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr.nos fala que: “Ela chama os que falam e reclamam não de pessoas críticas, não de intelectuais que diante da decepção têm o direito de colocar sua cobrança, mas de "ideólogos tagarelas". Então, podemos concluir que sua análise sempre apressada, no passado, era apenas a voz de uma "ideóloga tagarela"? Afinal, quando da época do Plano Cruzado, Marilena Chauí e outros petistas não esperaram nem mesmo horas para vir se manifestar dizendo que aquilo era um engodo”. Em outras palavras, lendo nas “entrelinhas”, a grande filosofante estaria reconhecendo publicamente que toda a sua trajetória intelectual teria sido uma grande farsa?

Álvaro Veloso de Carvalho, o qual a muito não se manifestava publicamente na web, diz-nos que: “Essa gente está em silêncio porque se habituou a falar pelos cotovelos repetindo chavões partidários, e, de repente, diante da exposição pública da falência do Partido, se viu sem ter mais o que dizer. Está em silêncio porque se desacostumou de pensar com a própria cabeça, e preferiu abdicar de sua própria consciência em prol de uma fraude coletiva”.

Enfim, e mesmo em “silêncio” organizam uma exibição pública de pedantismo absoluto, financiado com verbas públicas, para demonstrar a sua suposta superioridade espiritual diante dos descalabros vividos pela nação em um espetáculo canalha, que eles chamam de “discussão”.

Talvez fosse mais interessante que “os iluminados” passassem a refletir sobre os descaminhos que suas “reflexões” levaram o país, reflexões estas que frutificaram em sentenças como a que afirma de que a grande solução seria aproximarmos mais “a utopia do poder”. Ou seja: uma outra grande volta elíptica para ligar nada a lugar algum, visto que, se eles, os intelectuais orgânicos reunissem-se para discutir a omissão deles diante dos grandes crimes cometidos em nome de suas “utopias” e que eles haviam se silenciado, seria muito mais fértil do que ficarem posando de santos do pau-oco.

Pelo menos haveria neste gesto uma fagulha de dignidade intelectual, coisa que, talvez, pessoas como Chauí, se algum dia souberam, não mais saibam o que seja.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:31
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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