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21 Ago 2005

O Auto da Barca da Cidadania

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A história da sociedade brasileira teve sempre o seu transcurso invertido, onde se acabou por fazer como o caboclo que, colocando a carroça à frente dos bois acreditava estar fazendo um grande gesto.

A história da sociedade brasileira teve sempre o seu transcurso invertido, onde se acabou por fazer como o caboclo que, colocando a carroça à frente dos bois acreditava estar fazendo um grande gesto.

Vislumbrando este viés, o filósofo católico Alceu Amoroso Lima, afirma que: “[...]o Brasil se formara às avessas, começara pelo fim. Tivera Coroa antes de ter Povo. Tivera parlamentarismo antes de ter eleições. Tivera escolas superiores antes de ter alfabetismo. Tivera bancos antes de ter economias. Tivera salões antes de ter educação popular. Tivera artistas antes de ter arte. Tivera conceito exterior antes de ter consciência interna. Fizera empréstimos antes de ter riqueza consolidada. Aspirara a potência mundial antes de ter a paz e a força interior. Começara em quase tudo pelo fim. Fora uma obra de inversão”.

Por isso é deveras salutar lembrarmos sempre que toda palavra que é utilizada por uma sociedade em demasia nos denuncia que esta, no quesito tão convocado verbalmente, faz-se superficial. A referida palavra, em sua ausência de significado, reflete uma miséria existencial. Constata-se isso no excessivo e invertido uso que se faz atualmente da palavra cidadania.

Antes de qualquer coisa, cidadania é um sentimento de pertença. Se retomarmos a forma como era vivenciada nas cidades-estado gregas, veremos que o cidadão era as suas obrigações para com a sua polis, para com a sua cidade e a forma como este participava da vida pública desta. Alias, o que é ser cidadão nesta terra de desterrados chamada Brasil?

O fato de atribuirmos os mais elevados valores à cidadania não significa que esta tenha este sentido em nossas vidas. Se assim fosse, todo hipócrita seria um exemplo de vida virtuosa, não é mesmo? Pois bem, o sentido de uma palavra, enquanto um conceito está no fato de esta captar o que há através das contradições que existem entre o que este “existir” é e o que se diz “ser” ele.

Trocando em miúdos: o ethos do cidadão brasileiro seria muito mais a troca de favores, a política do toma lá da cá, o clientelismo, o mandonismo, o apadrinhamento e tutti quanti, do que os áureos valores que defendemos em público, da boca para fora, acobertando o espectro tacanho de nossa alma cívica.

E é justamente aí que a porca torce o rabo! Porque nunca somos os responsáveis pelas mazelas de nossa sociedade. São sempre os nossos “estadistas” e o tal do povo. Bem, se não somos “estadistas” e nem “povo”, o que somos? Cidadãos? Não. Covardes da pior estirpe, que se escondem nas lacunas dos atos falhos de outrem.

Os biltres que nos governam são apenas um reflexo dos valores (depre)cívicos vividos por nós e nada mais. Se realmente temos algum compromisso para com esta pátria e para com as gerações vindouras, revolucionemos a nação, subvertendo a nós mesmos. Sem galhofas ou bravatas, apenas sendo melhores do que somos e pensamos ser.



Basta que coloquemos os bois da consciência à frente da carroça da história.
Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:34
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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