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24 Jul 2005

Os Jogos de Poder e do Saber

Escrito por 

Como pensar o processo de ensino-aprendizagem em uma sociedade como a dos dias em que vivemos?

Como pensar o processo de ensino-aprendizagem em uma sociedade como a dos dias em que vivemos? Tal pergunta já fora levantada e respondida por inúmeros doutos neste assunto e mesmo assim, ainda temos infindáveis desencontros entre as hipóteses encontradas por estes e as práticas vivenciadas nos cotidianos escolares existentes no território nacional, por nós e por nossos educandos.

Por isso nos indagamos: o por que desta incongruência? Em princípio pelo fato de tratarmos um processo tão particular como o de ensino e aprendizagem, de uma maneira generalizante de modo similar a um médico que aplica um mesmo medicamente para toda e qualquer enfermidade. Afirmamos isso, pois, não se pode falar em um modo de aprender, mas sim, em maneiras diferentes de aprender e, do mesmo modo afirmamos isso com referencia ao ato do ensino [1].

Quando estamos a nos referir a formas diferentes de aprender, não estamos apontando para as diferentes teorias que existem sobre o assunto. Estamos sim, chamando a atenção para a forma como os indivíduos captam as informações do meio a sua volta e a maneira como estes as processam que, nada mais é do que uma forma de apreender e compreender o mundo não formalizada e reconhecida pelos cânones da ciência da educação [2].

De maneira similar devemos olhar para o ato de ensinar. Este não possui uma forma universal, como acreditava Coménius, mas inúmeras formas particulares de se transmitir uma informação para um ou mais indivíduos e, essas formas particulares, do mesmo modo dos processos de aprendizagem, por não serem formalizadas, acabam sendo desdenhadas como sendo algo sem valor epistemológico.

Mas, é justamente nestes processos informais de ensino e aprendizagem que acreditamos estar a verdadeira essência do ex-ducere, por estar despreocupada com a forma e centrada no ato que, no primeiro é aprender e no segundo, ensinar. E, eis aí, algo relegado ao ostracismo nas discussões em torno deste assunto: a intenção de... aprender ou não aprender e, a intenção de... ensinar ou não ensinar [3].

Partindo deste particular é que devemos e, assim o cremos, construir uma compreensão mais clara dos encontros e desencontros entre o ensinar e o aprender. Por que? Simples: pensemos em nossas aulas, reflitamos nos fatores que nos motivam a estarmos naquele espaço, a sala de aula e, o que nos motiva realmente, sem firula, a estamos ali para, a priori, para ensinar.

Em seguida, pensemos nos mancebos que ali se encontram ávidos por aprender, ou não? Sim ou não? Bem, então pensemos nos fatores que movem eles a estarem neste espaço, a sala de aula, partilhando ele com você? Quais os fatores que influem estes alunos a estarem neste local?

Antes de dar-se por concluída estas indagações, cremos que seria basilar também que nos indagássemos sobre o que eles e nós, pensamos a respeito deste local. O que é o Colégio para nós? O que é a Instituição de ensino para a comunidade em que ela está inserida? O que é o alunato para nós, educadores e o que somos para eles? O que é o bom discente para nós e para eles? O que seria o bom docente para nós e para os infantes? E para a comunidade o que seria o bom e o mau educador e o bom e o mau educando?

Com toda certeza, se formos sinceros, tais respostas nós não teremos, visto que, elas devem ser respondidas pelos sujeitos enunciados e não unicamente por nós de maneira draconiana auferindo para a vida societal deste espaço os nossos pareceres como se estes fossem decretos divinais. Do mesmo modo, não seria prudente, nos fundamentarmos em um teórico A ou em um teórico B, ou mesmo em uma miscelânea epistemológica, visto que, estas são construções teóricas edificadas a partir de outras realidades vividas e mesmo que sejam similares ao nosso vivido, essas teorias não são a nossa realidade, mas apenas um luz que podem nos auxiliar a compreender o nosso universo sócio-educacional [4].

Se tal atitude realmente fosse eficaz os nossos problemas provavelmente já teriam findado, pois, como todos nós sabemos, os projetos político-pedagógicos de nossas instituições de ensino sempre estão muito bem fundamentados no que há de mais respeitado dentro dos parâmetros da ciência da educação e, mesmo assim, continuamos a remar se rumo certo ou, na pior das hipóteses, remando em rumo e prumo para o abismo.

Por isso, cremos ser fundamental que se procure pensar o ato de aprender e de ensinar como atos distintos que podem se tornar convergentes. Como assim? Aprender é um ato de vontade, solitário, que parte da vontade de um indivíduo de ampliar os seus horizontes com informações que deseja captar para assim tornar o mundo algo que lhe seja familiar. Ensinar, por sua deixa é um ato de vontade, solidário, para com aquele que deseje aprender e que, muitas vezes, encontra dificuldades em sua caminhada pelo ermo do mundo do conhecer e do saber [5].

O que determinará o caráter de um e outro, não serão as palavras redigidas nestas laudas, mas sim, os jogos de vivencia sociais edificados entre estes indivíduos e seria esta a razão de termos tamanha dificuldade de construirmos uma fecunda relação convergente de ensino e aprendizado, pelo fato de todos nós já de antemão sabermos tudo sobre uns e outros sem nunca termos nos indagado sobre as razões do outro [6].

Por este motivo que o grande educador Hugo da Escola de São Vitor, que viveu no século XIII, afirmava que o ponto fundamental no ato de aprender e no de ensinar é a virtude da humildade, coisa que, falta em muito para nossos educandos e bem como para nós, educadores [7]. Humildade em conhecermos as regras que os educandos construíram para ordenar as suas vidas no contexto social em que eles vivem para assim entendermos de uma maneira mais construtiva a reação deles diante das regras edificadas por nós dentro do contexto escolar para ordenar a nossa vida profissional.

Conhecer as práticas e representações, os jogos sociais de convivência de um microcosmo societal, eis a chave para assim podermos dar alguns passos mais sólidos na edificação de uma educação integral de fato e não apenas de nome para assim sermos educadores de fato e não apenas diplomados.

Se não, então que postura, que atitude devemos tomar? O tempo é curto e impaciente e urge de nós uma atitude condizente com os anseios dos dias vindouros.

NOTAS:[1] Vide: CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994.

[2] Vide: SCHLIEMANN, Analúcia Dias [et. al.]. Na vida dez, na escola zero. São Paulo: Cortez, 1995.

[3] Vide: CHAVES, Eduardo. A filosofia da educação e a análise dos conceitos educacionais. Disponível na internet: http://www.chaves.com.br, acesso em 18 de julho de 2005.

[4] Vide: ELIAS, Norbert. Introdução à sociologia. Lisboa/Portugal: Ed. 70, [s/d].

[5] Vide: CARVALHO, Olavo de. A educação Liberal. Disponível na internet: http://www.olavodecarvalho.org, acesso em 17 de julho de 2002.

[6] Vide: ZANELA, Dartagnan da Silva. O ponto arquimédico. E-books Brasil: 2003. Disponível na internet: http://zanela.blogspot.com.

[7] Vide: SÃO VITOR, Hugo de. Comentários ao modo de aprender. Disponível na internet: http://www.accio.com.br/Nazare/index.html, acesso em 17 de julho de 2000.

Última modificação em Domingo, 01 Setembro 2013 13:40
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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