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03 Dez 2020

UMA DOSE DE VICODIN

Escrito por 

Conhecer alguma coisa, com relativa profundidade, não é algo que se faz com base na repetição de platitudes, rótulos e cacoetes mentais frente a cada estímulo que nos é apresentado pela realidade que nos circunda.

 

Gostava muito da série “Doutor House”. Gostava não por causa das questões médicas. Nada disso. O que eu curtia mesmo eram os dramas pessoais, a maneira como esses dramas se entrelaçavam um com o outro e, obviamente, gostava de ver o papel que o viciado em vicodin tinha nisso tudo. Além disso, e não menos emblemático, era a forma como o médico mal humorado, torturado pela dor que lhe era causada pela sua perda manca, investigava cada um dos casos, digo, cada um dos pacientes que caia em suas mãos.

Não sei se o amigo leitor já assistiu a referida série e se gostava da mesma. Independente da resposta, sigamos em frente.

House sempre se reunia com sua equipe numa sala com uma lousa onde ele ia anotando tudo, tudinho que envolvia cada caso estudado por eles. Sintomas, histórico pessoal e familiar do paciente, variáveis ambientais, resultados dos exames preliminares, possíveis doenças que essas informações, juntas e combinadas, poderiam indicar e muito mais. Tudo devidamente listado na lousa abençoada.

Feito isso, realizava-se novos testes, eliminava-se possíveis doenças, incluía-se novas possibilidades, descartava-se certas variáveis, agregava-se outras, especulava-se algumas, errava-se bastante, discutia-se muito (não para ter razão, mas para se chegar à verdade e, consequentemente, à cura), até que se chegava a um diagnóstico preciso.

Trocando em miúdos, tínhamos diante de nossos olhos uma aula do como se procede uma investigação científica. Cada episódio não iniciava com um vaticínio cabal do que o paciente teria com base naquilo que eles consideravam óbvio. Cada caso era uma aventura, porque conhecer é um tremendo desafio.

Conhecer alguma coisa, com relativa profundidade, não é algo que se faz com base na repetição de platitudes, rótulos e cacoetes mentais frente a cada estímulo que nos é apresentado pela realidade que nos circunda.

O professor Olavo de Carvalho (ain... o Olavo), logo nas primeiras aulas do seu curso de filosofia, dizia que conhecer é procurar saber aquilo que os outros não sabem; e eu, de minha parte, complemento: saber o que os outros não sabem, não querem saber e tem raiva de quem ousa querer conhecer. De mais a mais, repetir aquilo que todo mundo presume saber, não é conhecer. É apenas [presumir] saber o que todo mundo tem por correto, sem saber o por quê disso.

E se formos seguir por essa vereda, constataremos que Gregory House é a clara representação disso. Logo no primeiro episódio da série, intitulado “Todo mundo mente”, lá estava ele caminhando pelo corredor, junto com outros figurões de jaleco branco, dizendo com todas as letras que o método utilizado por ele é a velha maiêutica socrática que, segundo suas palavras, seria o melhor método de investigação que já fora criado por alguém. E ele estava coberto de razão ao afirmar isso.

Sim, algumas vezes, ele e sua equipe, utilizavam o método hipotético-dedutivo, outras vezes a redução fenomenológica, noutras ocasiões uma depuração dialética, mas, em todas as ocasiões, em todos os casos, o espírito que os guiava era a primordial impostura socrática. Não de questionar tudo simplesmente por questionar, mas sim, questionar-se diante de tudo, impressionar-se sobre tudo para procurar conhecer algo que possa nos aproximar da formosura da verdade.

Abre parêntese. É importante lembrar que questionar por questionar é vaidade da brava, motivada por uma necessidade canhestra de parecer sabido sem necessariamente ser motivado pela ânsia de querer saber alguma coisa que seja. Fecha parêntese.

De mais a mais, a maiêutica socrática é uma daquelas coisinhas fofas que todos sabemos exatamente o que é e que, inclusive, achamos bacana, mas não aplicamos em praticamente nada na nossa porca vida.

É charmoso citarmos ela num jantar com nossos amigos, mas torna-se um baita inconveniente aplicá-la com o sincero objetivo de querer conhecer algo de forma mais clara e profunda, pois, se fizermos isso, corremos o risco de nos tornarmos uma figura um tanto que fora da curva, por não mais correspondermos às expectativas que a sociedade tem frente ao papel social que desempenhamos no teatro da vida, de modo similar ao protagonista da referida série.

E ninguém quer isso, não é mesmo? Não queremos porque, no fundo, o que nós mais desejamos nessa vida não é conhecer, um cadinho que seja, a verdade e seu esplendor, mas sim, desejamos ser aceitos por um grupinho de pessoas que se consideram “boazinhas” e “decentes” e que nos deem aquela sensação de segurança [psicológica].

Pois é. E não existe nada mais artificioso e ardiloso do que posar de bom-moço. Das duas uma: ou o sujeito que se permite isso quer tirar alguma vantagem das pessoas para as quais está encenando esse pastelão existencial, ou está permitindo que um grupo de celerados torne-se a régua do que seja a tal da decência e do que venha a ser a tal da bondade e, as duas possibilidades são uma tremenda roubada.

Enfim e por fim, procuremos, na medida de nossas limitações, que não são poucas, buscar conhecer a verdade, mesmo que ela nos fira. Ela, sim, é a medida de todas as coisas. E não nos esqueçamos que Ela, a Verdade, habitou entre nós e, por isso mesmo, Ele, o Cristo, é a medida de todas as coisas, não o nosso umbigo, nem o palavrório das nossas patotas.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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