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19 Out 2010

Somente Palavras e Nada Mais

Escrito por 

Muitos educadores, cansados ou não, tem apenas em seu horizonte de inquietações o seu ordenado mensal. Muitíssimos alunos vislumbram unicamente a possibilidade de dar um migué em todas as matérias e obter uma aprovação, com ou sem a outorga do conselho de classe.

Certa feita, em uma agradável conversa que mantive com um grande amigo (que, aliás, é uma das pessoas mais ilustradas e serenas que conheci), este falou-me que o papel fundamental daqueles que estão investidos da função de instruir não seria ensinar algo novo e singular, mas sim e tão só lembrá-los o óbvio. O óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Naturalmente, este sábio irmão de fé estava coberto de razão.

Sem rodeios, explico-me: quando volvemos as meninas de nossas vistas para as preocupações que pululam as estéreis discussões em torno do tema “educação”, com grande freqüência vemos a proclamação da necessidade de se procurar atualizar os nossos métodos e conteúdos, que a prioridade número um dos educadores deve ser a adoção de uma postura diferenciada que arremesse para as vistas dos mancebos um viés formativo mais condizente com a nossa realidade hodierna. Todos nós já ouvimos aqui ou acolá esta lengalenga, quando não fomos participes desta, não é mesmo?

Pois bem, por isso mesmo retorno ao ponto levantado pela anônima voz de meu dileto amigo, agora, na forma de uma singela inquirição: mas, e quanto ao basicão? Isso mesmo! Nossos incautos púberes já se encontram suficientemente versados nos saberes, fazeres e deveres elementares para poderem se aventurar com a devida propriedade em mares epistemológicos nunca dantes navegados?

É, meu caro José. A festa nem mesmo começou e já é possível sentir aqueles ares nauseantes a entorpecer nossa percepção e a atordoar o nosso entendimento, porque apesar da erística pedagógica chinfrim reinante, a resposta que nos é dada pelos extratos da realidade a tal indagação é um retumbante não. Não se sabe e mesmo se desdenha o assim chamado “basicão”.

Para os que compreendem a gravidade do problema, isso não é apenas alarmante. É desconcertante. Todavia, não nos esqueçamos de que, para muitos, este quadro atende diretamente os seus interesses mais imediatos e primários, visto que, são inumeráveis as almas que, nisso que elas chamam de vida humana, fazem-se valer da “lei de Gerson” adaptada a era hi tech: “tô nem aí!”

De um modo geral, empurramos o problema com a barriga, com os glúteos, com o que der, para que possamos ao menos encenar uma aparente preocupação com a situação. No fundo, a maioria de nós deseja apenas tirar a sua (in)devida vantagem. Trocando por miúdos: todos sabem que a educação, de um modo geral, tornou-se atualmente um sinistro teatrinho onde todos são testemunhas do homicídio qualificado da inteligência humana, porém, nos calamos e nos silenciamos como cúmplices porque, de algum modo, estamos tirando alguma “vantagem” dessa situação.

Muitos educadores, cansados ou não, tem apenas em seu horizonte de inquietações o seu ordenado mensal. Muitíssimos alunos vislumbram unicamente a possibilidade de dar um migué em todas as matérias e obter uma aprovação, com ou sem a outorga do conselho de classe. Um bom tanto de pais apenas não quer, como se diz, incomodar-se. E, nossos (des)governantes,  é claro, anseiam saber apenas quantos votos essa demagogia toda poderá lhes render.

Definitivamente, nossa sociedade se acanalhou de forma tal que chega ser embaraçoso declarar qualquer palavra de maneira franca e séria sobre qualquer assunto, visto que, não mais conseguimos visualizar, neste doentio ambiente, almas que realmente dialoguem de maneira franca sobre o que está a sua volta e sobre o que habita dentro das vidraças da janela de seu ser.

Sabemos que o desprezo pelo conhecimento em nossa sociedade vem de longa data e é, infelizmente, uma das marcas indeléveis da brasilidade. Todavia, na atualidade este desdém autoproclama-se soberano e sujeito ativo de direitos, digno de respeito, mesmo que isso tudo seja apenas mais um fingimento, como tudo o mais, não é mesmo?

Pax et bonum

Última modificação em Segunda, 10 Março 2014 20:24
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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