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02 Nov 2008

Uma Morada Edificada Sobre a Rocha

Escrito por 

“Uma civilização só é destruída quando seus deuses o são”. (Emil Cioran)

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É de conhecimento do público em geral a visita feita pelo Papa Bento XVI ao Collège des Bernardins, no dia 12 de setembro da Era do Nosso Senhor, onde o mesmo pronunciou-se para um público composto basicamente por intelectuais e pessoas ligadas ao mundo da cultura. Mas sobre o que versa, especificamente, a referida preleção? Todos sabemos que o Sumo Pontífice norteou sua fala sobre a relação umbilical que há entre toda construção cultural com a procura humana por Deus, mas, o que isso significa? Ora, simplesmente uma verdade que deveria ser auto-evidente aos olhos de todos os seres humanos, mas que, na sociedade moderna é algo praticamente incompreensível.

A procura por Deus é uma das marcas essencialmente humanas, uma das notas que nos diferem fundamentalmente de todas as outras criaturas. Quando volvemos nossas vistas para todas as civilizações que se formaram no globo terrestre e dedicamos um mínimo de atenção para estudar a formação histórica de cada uma delas, percebemos com clareza que todas elas têm a sua fundação e organização a partir de fundamentos religiosos e, por essa razão, todas tendem para uma procura de um reencontro com o Absoluto.

Seja no extremo Oriente ou no Ocidente, toda sociedade para poder resistir ao tempo e ao espaço tem que, necessariamente, fundar-se em uma tradição que oriente os indivíduos a voltarem suas vidas para a procura do Eterno e do Infinito no Infinito e no Eterno.

Não é por menos que toda época história que é marcada pelo niilismo, pelo desespero, pela falta de sentido é, via de regra, uma época em que os valores religiosos são solapados e corroídos por toda ordem de relativismos, ceticismos e materialismos deificando assim qualquer instância contingente da sociedade como o Estado, uma Liderança Política, uma instituição social ou qualquer outra coisa vulgar para que venha a substituir Aquele que É. Por não mais se saber claramente o que seja realmente o Infinito e o Eterno os indivíduos tentam tapar o Sol da Verdade com uma peneira ideológica qualquer.

Por favor, não confundam a idéia de Estado Laico com sociedade laica. É possível e mesmo desejável a existência de um Estado laico, porém, uma sociedade que não tenha as suas instituições constituídas como o reflexo de uma ordem Sacra é algo literalmente insustentável, visto que, a vida dos indivíduos, apesar de ser experimentada em uma dimensão espacial e temporal, naturalmente tende para as outras duas dimensões citadas (para o infinito e para o eterno).

E, uma sociedade supostamente laica ou maliciosamente multicultural, não fornece ao indivíduo os cabedais simbólicos e tradicionais necessários para que uma pessoa possa encontrar o seu centro, que é O Caminho para reencontrar-se com Aquele que É.

Refletindo por esta via, podemos com certa apreensão, compreender porque no mundo contemporâneo as pessoas se encontram um tanto desnorteadas, vazias e outras tantas desesperadas a procura de um sentido para as suas vidas nulas e, outras mais, simplesmente entregues ao troca-troca pseudo-religioso, por não encontrarem a Verdade que responda aos clamores de seu ser no intento de se reencontrar com o Ser.

Ora, por essa razão que o filósofo francês Louis Lavelle nos ensina que o maior bem que podemos fazer aos outros não é oferecer-lhes nossa riqueza, mas levá-los a descobrir a deles. Nesta procura, a produção cultural sempre acabava respondendo as perguntas fundamentais da alma humana. Algo que seja chamado de Cultura e não cumpra esse papel basilar não deveria de modo algum receber essa alcunha, pois seria um total desvirtuamento do sentido da palavra.

Aliás, de todos os bens culturais que são produzidos nos dias hodiernos, quais deles realmente procuram levar o indivíduo a procurar o seu reencontro com o Eterno e com o Infinito? Quais bens culturais procuram realmente retratar o ser humano como ele realmente É, enquanto um ser imperfeito que tende a procurar Aquele que É Perfeito? Qual dos produtos culturais leva o indivíduo a encontrar o seu centro?

E mais! Você não acha estranha uma época com tanta produção livreira, com tamanha disseminação de informação e que facilita significativamente o acesso a esses bens ser justamente uma sociedade onde os indivíduos têm suas almas monstruosamente fragilizadas a tal ponto que qualquer probleminha medíocre os abale ao ponto de se deprimirem profundamente (ou fingidamente)?

Estamos a viver em um deserto Espiritual devido ao vazio religioso tradicional que se edificou, pois, apesar de boa parte das pessoas se declararem religiosas, poucas ordenam o seu centro existencial na perspectiva do RE LIGARE.

De mais a mais, o ser religioso em nossa sociedade é literalmente relegado a uma categoria secundária, reduzido a uma mera questão de gosto pessoal, subjetivo e não como sendo uma via que se fundamenta na estrutura do real para que o indivíduo assim possa compreender-se enquanto pessoa e enquanto parte integrante do real.

Para ilustrar esse ponto, permitam-me apresentar um pequeno exemplo: certa feita, um pequeno grupo de alunos me perguntou se eu não teria algumas dicas para eles poderem melhorar o seu aprendizado. De maneira lacônica disse-lhes: Rezem antes de estudar. Os jovens, mais do que depressa, me responderam: “não professor, nós estamos falando sério”. Mas eu estava e estou falando sério e expliquei para eles a seriedade do meu conselho.

Há vários dias estou a meditar sobre esta indagação feita pelos garotos e a me indagar sobre o estado em que se encontra a nossa sociedade e, principalmente, sobre a preleção feita pelo Primas de Roma, o Papa Bento XVI, feita ao mundo da cultura e confesso que realmente, conforme as palavras do Sumo Pontífice, estamos hoje vivendo em um grande deserto espiritual com dunas pseudo-culturais, multiculturais e materialistas, cientificistas e imediatistas que torturam e atormentam a alma humana.

Ora, foi no meio de um deserto espiritual similar que nasceram as grandes Tradições religiosas e, se hoje vivemos esse tormento, não reinventemos a roda. Apenas nos reencontremos com um dos caminhos já existentes. Qual deles? Sinceramente, não sei, pois a procura é sua e apenas sua. Porém, com certeza que a resposta não será encontrada em um livro de ciência, natural ou social, moderno e muito menos em um livro de auto-ajuda ou em uma seita, pois, segura não é segura a morada que é edificada sobre o lodo da soberba da auto-afirmação moderna. Não mesmo.

Procure a rocha da transcendência para firmar a mansão de seu ser na cultura que procure levá-lo ao Ser.

Ah! Já estava me esquecendo. Não é por menos que praticamente toda mídia chique e o stablishiment Universitário odeiem tanto o Sumo Pontífice Bento XVI, mesmo que nunca tenham lido uma frase escrita pelo mesmo.

“Uma civilização só é destruída quando seus deuses o são”. (Emil Cioran)

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É de conhecimento do público em geral a visita feita pelo Papa Bento XVI ao Collège des Bernardins, no dia 12 de setembro da Era do Nosso Senhor, onde o mesmo pronunciou-se para um público composto basicamente por intelectuais e pessoas ligadas ao mundo da cultura. Mas sobre o que versa, especificamente, a referida preleção? Todos sabemos que o Sumo Pontífice norteou sua fala sobre a relação umbilical que há entre toda construção cultural com a procura humana por Deus, mas, o que isso significa? Ora, simplesmente uma verdade que deveria ser auto-evidente aos olhos de todos os seres humanos, mas que, na sociedade moderna é algo praticamente incompreensível.

A procura por Deus é uma das marcas essencialmente humanas, uma das notas que nos diferem fundamentalmente de todas as outras criaturas. Quando volvemos nossas vistas para todas as civilizações que se formaram no globo terrestre e dedicamos um mínimo de atenção para estudar a formação histórica de cada uma delas, percebemos com clareza que todas elas têm a sua fundação e organização a partir de fundamentos religiosos e, por essa razão, todas tendem para uma procura de um reencontro com o Absoluto.

Seja no extremo Oriente ou no Ocidente, toda sociedade para poder resistir ao tempo e ao espaço tem que, necessariamente, fundar-se em uma tradição que oriente os indivíduos a voltarem suas vidas para a procura do Eterno e do Infinito no Infinito e no Eterno.

Não é por menos que toda época história que é marcada pelo niilismo, pelo desespero, pela falta de sentido é, via de regra, uma época em que os valores religiosos são solapados e corroídos por toda ordem de relativismos, ceticismos e materialismos deificando assim qualquer instância contingente da sociedade como o Estado, uma Liderança Política, uma instituição social ou qualquer outra coisa vulgar para que venha a substituir Aquele que É. Por não mais se saber claramente o que seja realmente o Infinito e o Eterno os indivíduos tentam tapar o Sol da Verdade com uma peneira ideológica qualquer.

Por favor, não confundam a idéia de Estado Laico com sociedade laica. É possível e mesmo desejável a existência de um Estado laico, porém, uma sociedade que não tenha as suas instituições constituídas como o reflexo de uma ordem Sacra é algo literalmente insustentável, visto que, a vida dos indivíduos, apesar de ser experimentada em uma dimensão espacial e temporal, naturalmente tende para as outras duas dimensões citadas (para o infinito e para o eterno).

E, uma sociedade supostamente laica ou maliciosamente multicultural, não fornece ao indivíduo os cabedais simbólicos e tradicionais necessários para que uma pessoa possa encontrar o seu centro, que é O Caminho para reencontrar-se com Aquele que É.

Refletindo por esta via, podemos com certa apreensão, compreender porque no mundo contemporâneo as pessoas se encontram um tanto desnorteadas, vazias e outras tantas desesperadas a procura de um sentido para as suas vidas nulas e, outras mais, simplesmente entregues ao troca-troca pseudo-religioso, por não encontrarem a Verdade que responda aos clamores de seu ser no intento de se reencontrar com o Ser.

Ora, por essa razão que o filósofo francês Louis Lavelle nos ensina que o maior bem que podemos fazer aos outros não é oferecer-lhes nossa riqueza, mas levá-los a descobrir a deles. Nesta procura, a produção cultural sempre acabava respondendo as perguntas fundamentais da alma humana. Algo que seja chamado de Cultura e não cumpra esse papel basilar não deveria de modo algum receber essa alcunha, pois seria um total desvirtuamento do sentido da palavra.

Aliás, de todos os bens culturais que são produzidos nos dias hodiernos, quais deles realmente procuram levar o indivíduo a procurar o seu reencontro com o Eterno e com o Infinito? Quais bens culturais procuram realmente retratar o ser humano como ele realmente É, enquanto um ser imperfeito que tende a procurar Aquele que É Perfeito? Qual dos produtos culturais leva o indivíduo a encontrar o seu centro?

E mais! Você não acha estranha uma época com tanta produção livreira, com tamanha disseminação de informação e que facilita significativamente o acesso a esses bens ser justamente uma sociedade onde os indivíduos têm suas almas monstruosamente fragilizadas a tal ponto que qualquer probleminha medíocre os abale ao ponto de se deprimirem profundamente (ou fingidamente)?

Estamos a viver em um deserto Espiritual devido ao vazio religioso tradicional que se edificou, pois, apesar de boa parte das pessoas se declararem religiosas, poucas ordenam o seu centro existencial na perspectiva do RE LIGARE.

De mais a mais, o ser religioso em nossa sociedade é literalmente relegado a uma categoria secundária, reduzido a uma mera questão de gosto pessoal, subjetivo e não como sendo uma via que se fundamenta na estrutura do real para que o indivíduo assim possa compreender-se enquanto pessoa e enquanto parte integrante do real.

Para ilustrar esse ponto, permitam-me apresentar um pequeno exemplo: certa feita, um pequeno grupo de alunos me perguntou se eu não teria algumas dicas para eles poderem melhorar o seu aprendizado. De maneira lacônica disse-lhes: Rezem antes de estudar. Os jovens, mais do que depressa, me responderam: “não professor, nós estamos falando sério”. Mas eu estava e estou falando sério e expliquei para eles a seriedade do meu conselho.

Há vários dias estou a meditar sobre esta indagação feita pelos garotos e a me indagar sobre o estado em que se encontra a nossa sociedade e, principalmente, sobre a preleção feita pelo Primas de Roma, o Papa Bento XVI, feita ao mundo da cultura e confesso que realmente, conforme as palavras do Sumo Pontífice, estamos hoje vivendo em um grande deserto espiritual com dunas pseudo-culturais, multiculturais e materialistas, cientificistas e imediatistas que torturam e atormentam a alma humana.

Ora, foi no meio de um deserto espiritual similar que nasceram as grandes Tradições religiosas e, se hoje vivemos esse tormento, não reinventemos a roda. Apenas nos reencontremos com um dos caminhos já existentes. Qual deles? Sinceramente, não sei, pois a procura é sua e apenas sua. Porém, com certeza que a resposta não será encontrada em um livro de ciência, natural ou social, moderno e muito menos em um livro de auto-ajuda ou em uma seita, pois, segura não é segura a morada que é edificada sobre o lodo da soberba da auto-afirmação moderna. Não mesmo.

Procure a rocha da transcendência para firmar a mansão de seu ser na cultura que procure levá-lo ao Ser.

Ah! Já estava me esquecendo. Não é por menos que praticamente toda mídia chique e o stablishiment Universitário odeiem tanto o Sumo Pontífice Bento XVI, mesmo que nunca tenham lido uma frase escrita pelo mesmo.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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