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21 Fev 2008

Uma Dica Chinfrim

Escrito por 

Se você conseguir fazer esse exercício de abstração, já estará dando o primeiro passo para a libertação de uma prisão cognitiva construída por você mesmo.

"O conselho é muito mal recebido pelos que dele mais necessitam, os ignorantes". (Leonardo da Vinci)

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Já a muito que o adágio popular nos ensina que a pressa nos leva ou a comer cru ou a queimar os beiços, não é mesmo? Esta é uma lição singela e, como toda lição deste gênero, nós a desdenhamos como todo aquele ar de arrogância e pseudo-superioridade. Porém, em meio a toda esta afobação acabamos por negligenciar as coisas mais importantes de nossas vidas em nome de um tempinho pífio a mais.

Corremos com nosso automóvel de modo irresponsável em nome de alguns minutinhos a mais, deixamos de ficar com nossa família em nome de algumas horas a mais sabe lá com quem e, de modo impróprio, tiramos sempre conclusões impensadas sobre assuntos que, de modo algum exigem esse afã de nosso ser.

A muito, já dizia um grande amigo meu, que a pressa da conclusão é amiga da ignorância. Obviamente que há inúmeras situações em que temos de tomar uma e outra decisão de supetão, todavia, quando o assunto é simplesmente emitir um parecer sobre uma notícia, um evento, uma obra, um autor, de modo algum somos obrigados a ter na ponta da língua uma resposta pífia e dissimulada com todo aquele ar pedante de suposta erudição. Alias, das manifestações da mediocridade humana, a que melhor retrata o ridículo existencial de um indivíduo é a dissimulação de sapiência que, por sua deixa, inexiste totalmente em sua alma, como muito bem nos lembra François La Rochefoucauld.

Todavia, como na maior parte das situações ridículas, a pessoa, necessariamente, não é obrigada a se colocar no referido estado. Posa nestas vestes de tolo, por desejar de maneira parva chegar a um ponto sem percorrer o caminho devido, similar a um lunático que, se joga para chegar ao pé da montanha mais cedo de os outros.

Então, se você não deseja de modo algum cair mais nesta situação ultrajante que, literalmente, toma conta de nossa sociedade, a solução é mais simples do que você possa imaginar. Basta dedicar um pouco de sua atenção aos ensinamentos do professor Mortimer J. Adler, um dos maiores educadores de todos os tempos e, talvez, por essa mesma razão, um ilustre desconhecido nestas paragens tupiniquins.

De suas obras, recomendaria a leitura do livro A ARTE DE LER, onde o mesmo apresenta, em ordem decrescente, um método simples e fantástico, para se ler um livro, uma serena problematização do sistema educacional de sua época (a obra fora publicada primeiramente na década de 40 da centúria passada) e uma sincera e cativante confissão de sua experiência pessoal com a leitura.

Este, com a humildade que é característica de todo grande mestre, e totalmente ausente nas massas bestializadas pela pretensão miúda, confessa que após concluir o seu curso superior, descobriu que não sabia ler. Não que ele não houvesse lido tudo o que ele deveria ter lido durante o seu tempo de estudante. Ele realmente era um estudante. Mas sim, que havia lido muito e aprendido muito pouco com o muito que leu.

O mesmo também nos confidencia que, para piorar a sua situação, ele tinha que dar aulas sobre aqueles livros que ele havia lido e estudado, mas que, por incrível que venha a parecer, seus conteúdos eram ilustres desconhecidos. Diante de tal confissão, cabe a pergunta que, pelo seguir destas linhas, se faz mais do que obvia: você, quando se formou (no ensino superior ou médio), não teve a mesmíssima impressão?

Pois bem, a denuncia de si feita por Adler não pára neste quesito. Como ele tinha que dar aulas sobre aquelas obras todas e tinha que encontrar uma solução para o problema que, em um primeiro momento foi a de tomar em mãos resumos, resenhas e comentários sobre as obras, ao invés de retomar as obras para lê-las novamente. E, deste modo, dissimulou para os seus alunos uma pseudo-erudição temperada com um pedantismo atroz. E, mais uma vez, não temos como não levantar a lebre: quem nunca fez isso? Quem nunca fez isso que atire o seu diploma.

Tomando consciência deste seu ridículo fundamental o professor Mortimer, depois de ter entrado em contato com o professor Charles van Doren, passou a repensar a forma como ele desenvolvia as suas leituras e a refletir sobre a forma como ele deveria proceder com as seus futuros estudos, pois, ler um texto é algo que demanda uma atenção especial. Atenção esta que, na maioria das vezes, não se encontra presente em nosso semblante.

E mais! Ler é uma arte e, como toda arte, a leitura deve ser composta de por um conjunto de técnicas que permita ao indivíduo fazer isso com a maior maestria possível, visto que, toda arte, tem por meta a perfeição e não simplesmente a feitura de algo de qualquer modo. No popular, isso seria um reles “chachixo” e, se uma gambiarra prejudica o bom andamento de qualquer coisa em nosso cotidiano, imagine o quanto uma leitura chichelenta pode ser prejudicial para o intelecto de um sujeito.

Se você conseguir fazer esse exercício de abstração, já estará dando o primeiro passo para a libertação de uma prisão cognitiva construída por você mesmo. Se não, pergunte-se: Qual foi o último livro que você leu? De que área especificamente era a obra? Qual era o tema central da mesma? Como era a estrutura da mesma? Quais eram os conceitos trabalhados pelo autor e de que modo ele os conceitua? Qual é a idéia central defendida pelo autor? Qual a relevância desta obra dentro do debate intelectual sobre o assunto tratado pelas suas laudas? Quem é o autor, qual é a sua história?

Se você não respondeu a essas perguntas temos aí um grave problema, pois, se não somos capazes de responde-las, significa simplesmente que nós lemos muito mal. Tomar consciência desse problema é o prelúdio de uma possível solução. Conhecer a obra do senhor Mortimer Adler, uma ótima opção. Porém, fingir que cada uma destas palavras escritas neste libelo não dizem nada, que não passam de um colóquio flácido é sinal de demência incurável.

Ora, e seria possível encontrar uma palavra mais apropriada para o panorama educacional em nosso país do que essa? Uma pessoa que lê uma obra e entende lhufas dela e, por não ter entendido nada, acha o autor o máximo, deve ser chamada de que?

Você pode dar o nome que quiser a realidade, mas ela continuará a ser o que é, goste você ou não dela. E, por fim, como nos lembra o historiador Issac Assimov, "Se conhecimento pode trazer problemas, não é sendo ignorante que poderemos solucioná-los". Infelizmente, não é esta compreensão que se faz reinante em nossa sociedade.

"O conselho é muito mal recebido pelos que dele mais necessitam, os ignorantes". (Leonardo da Vinci)

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Já a muito que o adágio popular nos ensina que a pressa nos leva ou a comer cru ou a queimar os beiços, não é mesmo? Esta é uma lição singela e, como toda lição deste gênero, nós a desdenhamos como todo aquele ar de arrogância e pseudo-superioridade. Porém, em meio a toda esta afobação acabamos por negligenciar as coisas mais importantes de nossas vidas em nome de um tempinho pífio a mais.

Corremos com nosso automóvel de modo irresponsável em nome de alguns minutinhos a mais, deixamos de ficar com nossa família em nome de algumas horas a mais sabe lá com quem e, de modo impróprio, tiramos sempre conclusões impensadas sobre assuntos que, de modo algum exigem esse afã de nosso ser.

A muito, já dizia um grande amigo meu, que a pressa da conclusão é amiga da ignorância. Obviamente que há inúmeras situações em que temos de tomar uma e outra decisão de supetão, todavia, quando o assunto é simplesmente emitir um parecer sobre uma notícia, um evento, uma obra, um autor, de modo algum somos obrigados a ter na ponta da língua uma resposta pífia e dissimulada com todo aquele ar pedante de suposta erudição. Alias, das manifestações da mediocridade humana, a que melhor retrata o ridículo existencial de um indivíduo é a dissimulação de sapiência que, por sua deixa, inexiste totalmente em sua alma, como muito bem nos lembra François La Rochefoucauld.

Todavia, como na maior parte das situações ridículas, a pessoa, necessariamente, não é obrigada a se colocar no referido estado. Posa nestas vestes de tolo, por desejar de maneira parva chegar a um ponto sem percorrer o caminho devido, similar a um lunático que, se joga para chegar ao pé da montanha mais cedo de os outros.

Então, se você não deseja de modo algum cair mais nesta situação ultrajante que, literalmente, toma conta de nossa sociedade, a solução é mais simples do que você possa imaginar. Basta dedicar um pouco de sua atenção aos ensinamentos do professor Mortimer J. Adler, um dos maiores educadores de todos os tempos e, talvez, por essa mesma razão, um ilustre desconhecido nestas paragens tupiniquins.

De suas obras, recomendaria a leitura do livro A ARTE DE LER, onde o mesmo apresenta, em ordem decrescente, um método simples e fantástico, para se ler um livro, uma serena problematização do sistema educacional de sua época (a obra fora publicada primeiramente na década de 40 da centúria passada) e uma sincera e cativante confissão de sua experiência pessoal com a leitura.

Este, com a humildade que é característica de todo grande mestre, e totalmente ausente nas massas bestializadas pela pretensão miúda, confessa que após concluir o seu curso superior, descobriu que não sabia ler. Não que ele não houvesse lido tudo o que ele deveria ter lido durante o seu tempo de estudante. Ele realmente era um estudante. Mas sim, que havia lido muito e aprendido muito pouco com o muito que leu.

O mesmo também nos confidencia que, para piorar a sua situação, ele tinha que dar aulas sobre aqueles livros que ele havia lido e estudado, mas que, por incrível que venha a parecer, seus conteúdos eram ilustres desconhecidos. Diante de tal confissão, cabe a pergunta que, pelo seguir destas linhas, se faz mais do que obvia: você, quando se formou (no ensino superior ou médio), não teve a mesmíssima impressão?

Pois bem, a denuncia de si feita por Adler não pára neste quesito. Como ele tinha que dar aulas sobre aquelas obras todas e tinha que encontrar uma solução para o problema que, em um primeiro momento foi a de tomar em mãos resumos, resenhas e comentários sobre as obras, ao invés de retomar as obras para lê-las novamente. E, deste modo, dissimulou para os seus alunos uma pseudo-erudição temperada com um pedantismo atroz. E, mais uma vez, não temos como não levantar a lebre: quem nunca fez isso? Quem nunca fez isso que atire o seu diploma.

Tomando consciência deste seu ridículo fundamental o professor Mortimer, depois de ter entrado em contato com o professor Charles van Doren, passou a repensar a forma como ele desenvolvia as suas leituras e a refletir sobre a forma como ele deveria proceder com as seus futuros estudos, pois, ler um texto é algo que demanda uma atenção especial. Atenção esta que, na maioria das vezes, não se encontra presente em nosso semblante.

E mais! Ler é uma arte e, como toda arte, a leitura deve ser composta de por um conjunto de técnicas que permita ao indivíduo fazer isso com a maior maestria possível, visto que, toda arte, tem por meta a perfeição e não simplesmente a feitura de algo de qualquer modo. No popular, isso seria um reles “chachixo” e, se uma gambiarra prejudica o bom andamento de qualquer coisa em nosso cotidiano, imagine o quanto uma leitura chichelenta pode ser prejudicial para o intelecto de um sujeito.

Se você conseguir fazer esse exercício de abstração, já estará dando o primeiro passo para a libertação de uma prisão cognitiva construída por você mesmo. Se não, pergunte-se: Qual foi o último livro que você leu? De que área especificamente era a obra? Qual era o tema central da mesma? Como era a estrutura da mesma? Quais eram os conceitos trabalhados pelo autor e de que modo ele os conceitua? Qual é a idéia central defendida pelo autor? Qual a relevância desta obra dentro do debate intelectual sobre o assunto tratado pelas suas laudas? Quem é o autor, qual é a sua história?

Se você não respondeu a essas perguntas temos aí um grave problema, pois, se não somos capazes de responde-las, significa simplesmente que nós lemos muito mal. Tomar consciência desse problema é o prelúdio de uma possível solução. Conhecer a obra do senhor Mortimer Adler, uma ótima opção. Porém, fingir que cada uma destas palavras escritas neste libelo não dizem nada, que não passam de um colóquio flácido é sinal de demência incurável.

Ora, e seria possível encontrar uma palavra mais apropriada para o panorama educacional em nosso país do que essa? Uma pessoa que lê uma obra e entende lhufas dela e, por não ter entendido nada, acha o autor o máximo, deve ser chamada de que?

Você pode dar o nome que quiser a realidade, mas ela continuará a ser o que é, goste você ou não dela. E, por fim, como nos lembra o historiador Issac Assimov, "Se conhecimento pode trazer problemas, não é sendo ignorante que poderemos solucioná-los". Infelizmente, não é esta compreensão que se faz reinante em nossa sociedade.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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