Imprimir esta página
25 Jan 2008

Bandidos de Estado

Escrito por 
Avalie este item
(0 votos)

Idêntica operação fazem os que apresentam os narcotraficantes das Farc como “insurgentes”, “libertadores idealistas”. Na tarefa comungam militantes brasileiros, partícipes de movimentos sociais, setores da oposição de esquerda e last but not least, grupos diminutos de clérigos.

Em discurso nas Nações Unidas (22/9/1997) Bill Clinton usou o termo rogue state para indicar os países que desobedecem leis internacionais. O termo tem origem provável no latim rogare: pedir, implorar. Em inglês ele torna-se usual no século 16 devido às enclosures. Camponeses em massa são expulsos das terras abertas ao cultivo comum, jogados nas periferias urbanas. De mendigos, muitos se transformam em bandoleiros cujo fim era assaltar e seqüestrar os cidadãos. Correta leitura do tema encontra-se em F. Aydelote (Elizabethan Rogues and Vagabonds, Oxford, 1969, 1 ed. 1913). O romantismo deu encanto heróico aos velhos bandidos. Basta citar a peça de Schiller, Die Räuber(1780). De sem terra à condição de fora-da-lei, o rogue é valorizado quando escritores e poetas entoam hinos à sua “honra”, pretensa bondade para com os desvalidos, vingança contra os ricos e poderosos. A mistificação de bandidos não se limitou aos românticos. Já no século 16 cantores exaltavam assaltantes de estradas. Um deles teve ampla presença na mitologia política e social: Robin Hood, o justiceiro.

Trágicos como Michael Kolhaas ou satíricos no modelo de Falstaff, bandidos se instalam na memória como justiceiros que roubam dos ricos e dão aos pobres. Eles são perdoados porque seus intentos consistem em fazer o bem com meios tortos. A saga de criminosos “altivos” é retomada em muitos países como o nosso (Cf. M. I. Pereira de Queiroz Os Cangaceiros: les bandits d´honneur brésilliens, Paris,1968). Com base em tais imaginários pessoas cruéis e covardes, que lideram o crime, assumem atitude “caridosa” diante dos pobres, o que lhes proporciona carapaça eficaz para manter seu comércio nauseante. A operação cosmética opera sempre. Indivíduos como Che Guevara são reverenciados e postos em camisetas fashion sem que se pense um minuto nas mortes covardes (em Cuba ou em outras terras) perpetradas por ele ou sob suas ordens.

Idêntica operação fazem os que apresentam os narcotraficantes das Farc como “insurgentes”, “libertadores idealistas”. Na tarefa comungam militantes brasileiros, partícipes de movimentos sociais, setores da oposição de esquerda e last but not least, grupos diminutos de clérigos. No resto do continente é clara a rejeição aos supostos “idealistas”. Quando o demagogo da Venezuela apresenta bandidos como gente a ser admirada, ele repete, da forma vulgar que lhe habitual, o mito instaurado pelo romantismo.

Longe de se instalarem no anti-estado, como os anarquistas, os narcotraficantes e terroristas das Farc instalaram um micro aparelho estatal. Nele, o pior do totalitarismo une-se à crueza encontrável em pessoas como Fernandinho Beira-Mar. Em A razão terrorista ressalto o fenômeno: os terroristas trazem o Estado totalitário na alma. Cito o livro: “Os monopólios do Estado moderno - força, ordem jurídica, arrecadação de impostos - para se exercitarem em democracia supõem o controle cidadão, múltiplas vontades e pensamentos reunidos de modo transparente e universal. Os três monopólios são exercidos pelo terrorista e por seu grupo banindo-se todos os demais entes humanos e qualquer debate ou transparência. O terrorista, sem receber votos faz-se poder Legislativo e decreta leis que devem ser atendidas por toda e qualquer pessoa, mesmo que esta as desconheça. O terrorista, sem eleição, faz-se poder Executivo de modo ditatorial e arranca bens e recursos vários de qualquer indivíduo ou grupo. O terrorista, sem mando legítimo, faz-se Judiciário e só ele julga com justiça plena o mundo e seus habitantes. Ele também exerce o poder de polícia, de espionagem, chegando a ser, ele também, o carrasco que “verte sangue sem culpa”, atributo dos mais antigos governos. Entre terroristas, a pena de morte é norma, e contra ela não existe apelo nem recurso. Enfim, a opinião pública é manipulada pelo terrorista, sem que seja permitida a réplica e o direito de resposta. Ou o mundo aceita a verdade, que por definição é a dele, ou está imersa na mentira”. Chávez endossa a tese. Logo, ou mentem os milhões de seres humanos que desejam a democracia e abominam ditaduras, ou as Farc e aliado são as piores fábricas de mentira das Américas.

Em discurso nas Nações Unidas (22/9/1997) Bill Clinton usou o termo rogue state para indicar os países que desobedecem leis internacionais. O termo tem origem provável no latim rogare: pedir, implorar. Em inglês ele torna-se usual no século 16 devido às enclosures. Camponeses em massa são expulsos das terras abertas ao cultivo comum, jogados nas periferias urbanas. De mendigos, muitos se transformam em bandoleiros cujo fim era assaltar e seqüestrar os cidadãos. Correta leitura do tema encontra-se em F. Aydelote (Elizabethan Rogues and Vagabonds, Oxford, 1969, 1 ed. 1913). O romantismo deu encanto heróico aos velhos bandidos. Basta citar a peça de Schiller, Die Räuber(1780). De sem terra à condição de fora-da-lei, o rogue é valorizado quando escritores e poetas entoam hinos à sua “honra”, pretensa bondade para com os desvalidos, vingança contra os ricos e poderosos. A mistificação de bandidos não se limitou aos românticos. Já no século 16 cantores exaltavam assaltantes de estradas. Um deles teve ampla presença na mitologia política e social: Robin Hood, o justiceiro.

Trágicos como Michael Kolhaas ou satíricos no modelo de Falstaff, bandidos se instalam na memória como justiceiros que roubam dos ricos e dão aos pobres. Eles são perdoados porque seus intentos consistem em fazer o bem com meios tortos. A saga de criminosos “altivos” é retomada em muitos países como o nosso (Cf. M. I. Pereira de Queiroz Os Cangaceiros: les bandits d´honneur brésilliens, Paris,1968). Com base em tais imaginários pessoas cruéis e covardes, que lideram o crime, assumem atitude “caridosa” diante dos pobres, o que lhes proporciona carapaça eficaz para manter seu comércio nauseante. A operação cosmética opera sempre. Indivíduos como Che Guevara são reverenciados e postos em camisetas fashion sem que se pense um minuto nas mortes covardes (em Cuba ou em outras terras) perpetradas por ele ou sob suas ordens.

Idêntica operação fazem os que apresentam os narcotraficantes das Farc como “insurgentes”, “libertadores idealistas”. Na tarefa comungam militantes brasileiros, partícipes de movimentos sociais, setores da oposição de esquerda e last but not least, grupos diminutos de clérigos. No resto do continente é clara a rejeição aos supostos “idealistas”. Quando o demagogo da Venezuela apresenta bandidos como gente a ser admirada, ele repete, da forma vulgar que lhe habitual, o mito instaurado pelo romantismo.

Longe de se instalarem no anti-estado, como os anarquistas, os narcotraficantes e terroristas das Farc instalaram um micro aparelho estatal. Nele, o pior do totalitarismo une-se à crueza encontrável em pessoas como Fernandinho Beira-Mar. Em A razão terrorista ressalto o fenômeno: os terroristas trazem o Estado totalitário na alma. Cito o livro: “Os monopólios do Estado moderno - força, ordem jurídica, arrecadação de impostos - para se exercitarem em democracia supõem o controle cidadão, múltiplas vontades e pensamentos reunidos de modo transparente e universal. Os três monopólios são exercidos pelo terrorista e por seu grupo banindo-se todos os demais entes humanos e qualquer debate ou transparência. O terrorista, sem receber votos faz-se poder Legislativo e decreta leis que devem ser atendidas por toda e qualquer pessoa, mesmo que esta as desconheça. O terrorista, sem eleição, faz-se poder Executivo de modo ditatorial e arranca bens e recursos vários de qualquer indivíduo ou grupo. O terrorista, sem mando legítimo, faz-se Judiciário e só ele julga com justiça plena o mundo e seus habitantes. Ele também exerce o poder de polícia, de espionagem, chegando a ser, ele também, o carrasco que “verte sangue sem culpa”, atributo dos mais antigos governos. Entre terroristas, a pena de morte é norma, e contra ela não existe apelo nem recurso. Enfim, a opinião pública é manipulada pelo terrorista, sem que seja permitida a réplica e o direito de resposta. Ou o mundo aceita a verdade, que por definição é a dele, ou está imersa na mentira”. Chávez endossa a tese. Logo, ou mentem os milhões de seres humanos que desejam a democracia e abominam ditaduras, ou as Farc e aliado são as piores fábricas de mentira das Américas.

Roberto Romano

Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Mais recentes de Roberto Romano