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23 Fev 2007

O Triângulo Invisível

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A jurisdição de Minas Gerais, metabolizou grande parte dos currais da Bahia, de Goiás e de Pernambuco, incorporando-os ao seu organismo político e econômico e deles foram brotando os núcleos de povoamento de inúmeras cidades.

Sai de tua terra, de tua parentela e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei” – GÊNESIS XII, 1

A procura da liberdade de progredir, inclinou as raízes de Minas para o interior das descobertas minerais, longe do alcance centralizador das delegações de poder metropolitano. Quando as alcançaram, seria tarde demais: o espírito mineiro já estava enraizado...

A jurisdição de Minas Gerais, metabolizou grande parte dos currais da Bahia, de Goiás e de Pernambuco, incorporando-os ao seu organismo político e econômico e deles foram brotando os núcleos de povoamento de inúmeras cidades. Bem antes,Minas despregara-se de São Paulo, cujo pioneirismo indômito de seus filhos havia despertado aquele gigante adormecido, com peito de ferro e coração cravejado de ouro e pedras preciosas, protegido pelas montanhas, florestas, incontáveis cursos d’água, feras e gentios, obstáculos que, até então, pareciam intransponíveis.

O vasto Sertão da Farinha Podre, o majestoso planalto mesopotâmico desmembrado de Goiás em 1816, é o triângulo visível incluído às Minas Gerais, graças aos pedidos da população mineira de Araxá, em grande parte originária do fantástico entreposto comercial do Desemboque – uma certa insubordinação fiscal de mercado, estabelecida pelo tropismo da sobrevivência humana.

A história daquela incorporação à província mineira, é rica em detalhes concretos, em lendas, paixões e obscurecida pelos esquecimentos lamentáveis de nossas melhores páginas de História. Aquele encontro de caminhos em busca de riqueza, o Desemboque, hoje permanece comunidade, localizada a 139 quilômetros de Uberaba, é distrito da cidade de Sacramento, de onde está distante 61 quilômetros. No local, habitam aproximadamente 80 pessoas. Muitas delas ainda garipam na região, uma das que mais extraiu ouro no final do século XVIII e início do século XIX, ao lado das cidades de Vila Rica, Sabará e Mariana. O arraial de Desemboque, berço da colonização do Triângulo Mineiro, está prestes a ruir e a desaparecer do mapa de Minas Gerais. Fundado em 1743, o pouco que sobrou preserva características do passado, misturadas com certa influência importada dos centros urbanos.

Os ondulados chapadões entre rios e os verdes relevos da Canastra, testemunharam as fraquezas e fortalezas de D. Beja, foram palmilhados e povoados por quilombolas, reinóis, mascates, padres, boiadeiros, mineradores, fugitivos dos arbítrios do oficialismo enxerido, goianos, paulistas, baianos, mineiros, homens e mulheres do mundo, que cristalizaram uma síntese ímpar do espírito autonomista brasileiro. Em pleno coração de brasís diversificados, tornou-se federalista antes que houvesse qualquer vislumbre de federação e de unidade nacional. Determinou-se, com a naturalidade de parcela distinta, contida num país de mineiros diferenciados, na unidade produtiva de uma parte do Brasil que deu certo.

Não há, em nossa Federação, outra posição mais estratégica do que a do Triângulo. O seu vértice aponta para o Sul, delimitado por águas que desfilam misturadas no caudaloso Paraná, pelo Prata banhando Buenos Aires e Montevidéu. Destinada a ser a cabeceira mais pujante do MERCOSUL Quase isósceles, sua hipotenusa é voltada à Serra da Canastra, de onde nasce o São Francisco. Seus limites com São Paulo e Goiás, são mais do que simples fronteiras fluviais de autonomias estaduais. São, na verdade, articulações sistêmicas de profundas interações sociais, de complexos interesses movidos por riquezas e progresso, dotadas de um intenso dinamismo cultural.

Mais próximo de Brasília do que da capital mineira, o Triângulo bem poderia ter sido escolhido como a região destinada para um cenário exuberante da nova capital federal, com seu valioso perfil de desenvolvimento autosustentado, produto genuíno do ir e vir em três séculos, de gentes subnacionais de grande e inestimável valor: a operosidade paulista, a solidez da simplicidade pragmática dos goianos, o labor associado ao caráter e trato fidalgo dos mineiros, com importantes acréscimos atuais de sulistas ao encontro de amplas oportunidades de prosperidade.

As razões para nossa admiração são muitas, entre as quais podemos destacar o empenho e heróico risco dos fazendeiros do Triângulo, em adquirir gado indiano da longínqua Ásia. Uma atividade inédita do início do século passado, que certamente marcou para sempre o grande desenvolvimento pecuário do Brasil e, importante salientar, do próprio continente americano.

As revelações são tantas, que a visibilidade do Triângulo torna-se excepcional e só poderá ser mensurada pela grandeza mágica da nossa própria Unidade Nacional. Uma unidade que, para se fazer útil e eficaz, deverá conter a multiplicação de “triângulos” de verdadeiras e visíveis grandezas.

Sai de tua terra, de tua parentela e da casa de teu pai, e vem para a terra que eu te mostrarei” – GÊNESIS XII, 1

A procura da liberdade de progredir, inclinou as raízes de Minas para o interior das descobertas minerais, longe do alcance centralizador das delegações de poder metropolitano. Quando as alcançaram, seria tarde demais: o espírito mineiro já estava enraizado...

A jurisdição de Minas Gerais, metabolizou grande parte dos currais da Bahia, de Goiás e de Pernambuco, incorporando-os ao seu organismo político e econômico e deles foram brotando os núcleos de povoamento de inúmeras cidades. Bem antes,Minas despregara-se de São Paulo, cujo pioneirismo indômito de seus filhos havia despertado aquele gigante adormecido, com peito de ferro e coração cravejado de ouro e pedras preciosas, protegido pelas montanhas, florestas, incontáveis cursos d’água, feras e gentios, obstáculos que, até então, pareciam intransponíveis.

O vasto Sertão da Farinha Podre, o majestoso planalto mesopotâmico desmembrado de Goiás em 1816, é o triângulo visível incluído às Minas Gerais, graças aos pedidos da população mineira de Araxá, em grande parte originária do fantástico entreposto comercial do Desemboque – uma certa insubordinação fiscal de mercado, estabelecida pelo tropismo da sobrevivência humana.

A história daquela incorporação à província mineira, é rica em detalhes concretos, em lendas, paixões e obscurecida pelos esquecimentos lamentáveis de nossas melhores páginas de História. Aquele encontro de caminhos em busca de riqueza, o Desemboque, hoje permanece comunidade, localizada a 139 quilômetros de Uberaba, é distrito da cidade de Sacramento, de onde está distante 61 quilômetros. No local, habitam aproximadamente 80 pessoas. Muitas delas ainda garipam na região, uma das que mais extraiu ouro no final do século XVIII e início do século XIX, ao lado das cidades de Vila Rica, Sabará e Mariana. O arraial de Desemboque, berço da colonização do Triângulo Mineiro, está prestes a ruir e a desaparecer do mapa de Minas Gerais. Fundado em 1743, o pouco que sobrou preserva características do passado, misturadas com certa influência importada dos centros urbanos.

Os ondulados chapadões entre rios e os verdes relevos da Canastra, testemunharam as fraquezas e fortalezas de D. Beja, foram palmilhados e povoados por quilombolas, reinóis, mascates, padres, boiadeiros, mineradores, fugitivos dos arbítrios do oficialismo enxerido, goianos, paulistas, baianos, mineiros, homens e mulheres do mundo, que cristalizaram uma síntese ímpar do espírito autonomista brasileiro. Em pleno coração de brasís diversificados, tornou-se federalista antes que houvesse qualquer vislumbre de federação e de unidade nacional. Determinou-se, com a naturalidade de parcela distinta, contida num país de mineiros diferenciados, na unidade produtiva de uma parte do Brasil que deu certo.

Não há, em nossa Federação, outra posição mais estratégica do que a do Triângulo. O seu vértice aponta para o Sul, delimitado por águas que desfilam misturadas no caudaloso Paraná, pelo Prata banhando Buenos Aires e Montevidéu. Destinada a ser a cabeceira mais pujante do MERCOSUL Quase isósceles, sua hipotenusa é voltada à Serra da Canastra, de onde nasce o São Francisco. Seus limites com São Paulo e Goiás, são mais do que simples fronteiras fluviais de autonomias estaduais. São, na verdade, articulações sistêmicas de profundas interações sociais, de complexos interesses movidos por riquezas e progresso, dotadas de um intenso dinamismo cultural.

Mais próximo de Brasília do que da capital mineira, o Triângulo bem poderia ter sido escolhido como a região destinada para um cenário exuberante da nova capital federal, com seu valioso perfil de desenvolvimento autosustentado, produto genuíno do ir e vir em três séculos, de gentes subnacionais de grande e inestimável valor: a operosidade paulista, a solidez da simplicidade pragmática dos goianos, o labor associado ao caráter e trato fidalgo dos mineiros, com importantes acréscimos atuais de sulistas ao encontro de amplas oportunidades de prosperidade.

As razões para nossa admiração são muitas, entre as quais podemos destacar o empenho e heróico risco dos fazendeiros do Triângulo, em adquirir gado indiano da longínqua Ásia. Uma atividade inédita do início do século passado, que certamente marcou para sempre o grande desenvolvimento pecuário do Brasil e, importante salientar, do próprio continente americano.

As revelações são tantas, que a visibilidade do Triângulo torna-se excepcional e só poderá ser mensurada pela grandeza mágica da nossa própria Unidade Nacional. Uma unidade que, para se fazer útil e eficaz, deverá conter a multiplicação de “triângulos” de verdadeiras e visíveis grandezas.

Última modificação em Segunda, 24 Outubro 2011 09:19
Jorge Geisel

Advogado especialista em Direito Marítimo com passagem em diversos cursos e seminários no exterior. Poeta, articulista, membro trintenário do Lions Clube do Brasil. É um dos mais expressivos defensores do federalismo e da idéia de maior independência das unidades da federação.

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