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25 Out 2005

Enganação Nunca Mais

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A propaganda, que é sempre enganosa, parece, portanto, ter encontrado seus limites na realidade e o recado está dado: enganação nunca mais.

De forma estrondosa, ultrapassando os resultados dos institutos de pesquisa, o povo consagrou o NÃO no referendo sobre a comercialização de armas.  Na Globo News, a apuração rápida dos votos foi entremeada por opiniões de cientistas políticos, que se esmeravam para explicar o que para eles era inexplicável. Entre os doutos intérpretes, Lucia Hipólito, a mais nova revelação global, contratada da CBN, “menina do Jô”, comentarista da Globo News, dona de uma coluna no O Estado de S. Paulo disse que a turma do SIM era vista como “da paz”, e a turma do NÃO como “da bala”. Depois, num rasgo de iluminação, aconselhou o governo a conservar o impedimento da comercialização legal de armas (visto que sobre o comércio ilegal não há controle por parte do Estado, o que beneficia os bandidos) através de um sutil estratagema: aumentar os impostos sobre as armas de modo a tornar quase impossível sua aquisição pelo cidadão comum. A comentarista não considerou que a “turma do NÃO” traduziu em votos mais da metade do eleitorado, ou seja, 63,94%, e que isso tem de ser respeitado.

Outro que se esmerou em explicar o maciço repúdio popular a mais uma violação dos direitos individuais por parte do governo foi o cientista político Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas, o qual com certa freqüência também é visto na Globo News. Ele parecia indignado e partiu para uma espécie de defesa dos fracos e oprimidos ao afirmar que, se os partidários do NÃO defenderam o direito de portar armas, direito é coisa universal, como os pobres não têm recursos financeiros para comprar armas, logo se deveria dar a eles, na cesta básica, um revólver ao lado da goiabada.

O especialista em política estava também muito preocupado com os partidos políticos. Para ele a participação efetiva dos partidos no referendo teria sido essencial. O jovem cientista político pareceu não se dar conta de que, em primeiro lugar, a rigor não temos partidos políticos, mas clubes de interesse e, segundo, numa democracia o poder soberano vem do povo.

Além dessas houve várias interpretações de outros cientistas políticos que desfilaram para a fama televisiva, mas não se esmiuçou pontos fundamentais que podem lançar luz sobre a decisão popular.

O primeiro ponto se refere à falência do Estado em cumprir com sua obrigação fundamental: dar segurança aos cidadãos. Isso foi percebido pelos eleitores, o que não quer dizer que os que escolheram o NÃO vão sair por aí comprando armas de forma alucinada (mesmo porque foram mantidos os vários critérios que em nada facilitam a compra) ou atirando a esmo por puro prazer.

Outro aspecto importante foi a vitória inequívoca do povo e a derrota acachapante do governo. Este perdeu de maneira ainda mais contundente do que quando fracassou em sua intenção totalitária de impor a lei da mordaça aos promotores, a censura stalinista sobre os meios de comunicação e à imprensa. Alguém se lembra do malfadado Conselho de Jornalismo?

Nesses casos houve reação de grupos profissionais envolvidos. No referendo, na verdade mais um factóide do governo Lula para distrair as atenções da crise que o atinge, foi a população que fez a escolha e nela está implícito o repúdio não só ao Estado, mas ao governo o que, sem dúvida, se refletirá nas eleições de 2006.

Recorde-se que o próprio presidente da República declarou de forma aberta e politicamente imprudente, seu voto no SIM, tornando-se mais uma vez campeão em duas modalidades de tiro: tiro no pé e tiro pela culatra.

O resultado do referendo fez, portanto, incidir uma luz amarela sobre a reeleição de Luiz Inácio, cujo governo deverá enfrentar de agora em diante sérias dificuldades na área econômica com a eclosão da febre aftosa. Por mais que se queria subestimar este imenso problema é óbvio que já está sendo abalado um dos pilares de nossa economia, o agronegócio que sustenta quase metade de nossa balança comercial.

Diante do descalabro, economistas se revezam em explicações tão mirabolantes quanto as de certos cientistas políticos. Dizem eles, que a febre aftosa é ótima porque não podendo vender para o mundo consumiremos nós mesmos a carne contaminada, o que vai barateá-la pelo aumento da oferta e, portanto, a desgraça contribuirá para baixar a inflação e, de quebra, os juros. Os economistas não mencionaram a seca no norte e a possível entrada no Brasil da gripe do frango. Parece também que a calmaria econômica internacional poderá sofrer alterações. É muita urucubaca.

A propaganda, que é sempre enganosa, parece, portanto, ter encontrado seus limites na realidade e o recado está dado: enganação nunca mais.

De forma estrondosa, ultrapassando os resultados dos institutos de pesquisa, o povo consagrou o NÃO no referendo sobre a comercialização de armas.  Na Globo News, a apuração rápida dos votos foi entremeada por opiniões de cientistas políticos, que se esmeravam para explicar o que para eles era inexplicável. Entre os doutos intérpretes, Lucia Hipólito, a mais nova revelação global, contratada da CBN, “menina do Jô”, comentarista da Globo News, dona de uma coluna no O Estado de S. Paulo disse que a turma do SIM era vista como “da paz”, e a turma do NÃO como “da bala”. Depois, num rasgo de iluminação, aconselhou o governo a conservar o impedimento da comercialização legal de armas (visto que sobre o comércio ilegal não há controle por parte do Estado, o que beneficia os bandidos) através de um sutil estratagema: aumentar os impostos sobre as armas de modo a tornar quase impossível sua aquisição pelo cidadão comum. A comentarista não considerou que a “turma do NÃO” traduziu em votos mais da metade do eleitorado, ou seja, 63,94%, e que isso tem de ser respeitado.

Outro que se esmerou em explicar o maciço repúdio popular a mais uma violação dos direitos individuais por parte do governo foi o cientista político Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas, o qual com certa freqüência também é visto na Globo News. Ele parecia indignado e partiu para uma espécie de defesa dos fracos e oprimidos ao afirmar que, se os partidários do NÃO defenderam o direito de portar armas, direito é coisa universal, como os pobres não têm recursos financeiros para comprar armas, logo se deveria dar a eles, na cesta básica, um revólver ao lado da goiabada.

O especialista em política estava também muito preocupado com os partidos políticos. Para ele a participação efetiva dos partidos no referendo teria sido essencial. O jovem cientista político pareceu não se dar conta de que, em primeiro lugar, a rigor não temos partidos políticos, mas clubes de interesse e, segundo, numa democracia o poder soberano vem do povo.

Além dessas houve várias interpretações de outros cientistas políticos que desfilaram para a fama televisiva, mas não se esmiuçou pontos fundamentais que podem lançar luz sobre a decisão popular.

O primeiro ponto se refere à falência do Estado em cumprir com sua obrigação fundamental: dar segurança aos cidadãos. Isso foi percebido pelos eleitores, o que não quer dizer que os que escolheram o NÃO vão sair por aí comprando armas de forma alucinada (mesmo porque foram mantidos os vários critérios que em nada facilitam a compra) ou atirando a esmo por puro prazer.

Outro aspecto importante foi a vitória inequívoca do povo e a derrota acachapante do governo. Este perdeu de maneira ainda mais contundente do que quando fracassou em sua intenção totalitária de impor a lei da mordaça aos promotores, a censura stalinista sobre os meios de comunicação e à imprensa. Alguém se lembra do malfadado Conselho de Jornalismo?

Nesses casos houve reação de grupos profissionais envolvidos. No referendo, na verdade mais um factóide do governo Lula para distrair as atenções da crise que o atinge, foi a população que fez a escolha e nela está implícito o repúdio não só ao Estado, mas ao governo o que, sem dúvida, se refletirá nas eleições de 2006.

Recorde-se que o próprio presidente da República declarou de forma aberta e politicamente imprudente, seu voto no SIM, tornando-se mais uma vez campeão em duas modalidades de tiro: tiro no pé e tiro pela culatra.

O resultado do referendo fez, portanto, incidir uma luz amarela sobre a reeleição de Luiz Inácio, cujo governo deverá enfrentar de agora em diante sérias dificuldades na área econômica com a eclosão da febre aftosa. Por mais que se queria subestimar este imenso problema é óbvio que já está sendo abalado um dos pilares de nossa economia, o agronegócio que sustenta quase metade de nossa balança comercial.

Diante do descalabro, economistas se revezam em explicações tão mirabolantes quanto as de certos cientistas políticos. Dizem eles, que a febre aftosa é ótima porque não podendo vender para o mundo consumiremos nós mesmos a carne contaminada, o que vai barateá-la pelo aumento da oferta e, portanto, a desgraça contribuirá para baixar a inflação e, de quebra, os juros. Os economistas não mencionaram a seca no norte e a possível entrada no Brasil da gripe do frango. Parece também que a calmaria econômica internacional poderá sofrer alterações. É muita urucubaca.

A propaganda, que é sempre enganosa, parece, portanto, ter encontrado seus limites na realidade e o recado está dado: enganação nunca mais.

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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