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Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Domingo, 18 Dezembro 2005 21:00

Torcendo Pelos Gafanhotos

Enfim uma boa notícia para as hostes petistas gaúchas e outros ingênuos companheiros de viagem nesse turismo eleitoral através do infortúnio do Estado.Os olhos do deputado exibiam um brilho há muito não visto. Durante meses, as sobrancelhas arqueavam ao peso dos escândalos, formando bico na parte central, junto à testa, em expressão que suscitava piedade e solidariedade. "Tadinho, tanta esperança naufragada nessa tormenta de fracassos e escândalos", a gente ficava pensando. Mas agora era diferente. A voz readquiria o tônus antigo e o velho punho esquerdo cerrado quase se erguia para o alto, em descontrole. Diante de si, o gráfico exibido às câmeras, mostrando que o PIB e o nível do emprego industrial do Rio Grande decresceram entre 2004 e 2005. Sem esboçar o menor constrangimento, sua excelência sugeria que tudo tinha origem no aumento de alguns impostos, aprovado em fins de 2004, e fazia comparações com os minguados e minguantes índices positivos de crescimento da economia nacional.

Assistindo-o, lembrei-me do samba de Noel Rosa: "Quem é você que não sabe o que diz? Meu Deus do céu, que palpite infeliz!" A economia gaúcha foi vítima, neste ano de 2005, da pior estiagem de sua história. Perdemos 72% da safra de soja e 64% da safra de milho, ou, em números absolutos, mais de seis milhões de toneladas do primeiro e três milhões de toneladas do segundo produto. Os danos se estenderam, também, às colheitas de arroz (-10%), trigo (-30%) e feijão (-50%). O efeito dessa catástrofe nas cadeias produtivas e no conjunto do mercado ultrapassa os sete bilhões de reais e gera um impacto negativo superior a cinco por cento no PÌB estadual. Isso é riqueza sumida e consumida ao sol, na terra seca. E sua excelência atribuía os números negativos da economia gaúcha ao aumento nas contas de luz, telefone e combustível, a partir de abril, esquecido de que: a) à exceção da telefonia, as novas alíquotas não incidem nos fornecimentos à indústria; b) esse aumento custou aos demais consumidores 300 milhões de reais; c) os mesmos preços a cujos aumentos sua excelência e outros desinformados pretendem atribuir a queda do PIB gaúcho são administrados pelo governo federal que a todos concedeu, ao longo do ano, abusivas elevações cujo ônus supera, em muito, os números do aumento do ICMS.

"Não há de ser nada", argumentaram meus botões, "verás que ele vai referir a Taxa Selic, a centralização de 60% dos recursos públicos na União, a política cambial, a questão chinesa, o preço das commodities, e tal e coisa". Mas qual o quê! Meus botões não entendem coisa alguma de PT. Sua excelência brandia o dedo sobre o gráfico como quem descobriu um ninho de éguas e mostrava que entre 2004 e 2005 o Brasil crescera e a economia gaúcha encolhera. E ponto final! Aleluia! Enfim uma boa notícia para as hostes petistas gaúchas e outros ingênuos companheiros de viagem nesse turismo eleitoral através do infortúnio do Estado. As sobrancelhas invertem a curvatura e nos olhos reluz a esperança: que peguem todos os maus-olhados e venham os gafanhotos, os terremotos, as saúvas, as sete pragas do Egito e as maldições de Malaquias. Será a glória, companheiros!
Domingo, 11 Dezembro 2005 21:00

Enfim, Quatro Poderes de Estado

O quarto poder intimida tanto quem a ele está submetido que o Internacional não apenas enfia a viola no saco, mas clama pela perpetuação da injustiça de que foi vítima, apenas para não sofrer injustiça maior.A cena é perfeitamente possível. A professora, em sala de aula, pergunta aos alunos: "Quantos são os poderes de Estado?". A turma toda responde três e o Juquinha protesta dizendo que são quatro. "Como quatro, Juquinha? Os poderes são três: executivo, legislativo e judiciário". Juquinha balança a cabeça, olha para a professora com ar de quem sente pena da ignorância alheia e, cheio de razão, vem em socorro do conhecimento da classe: "São quatro sim, gente: executivo, legislativo, judiciário e CBF. Isso se não contarmos, também, o Corínthians".

Tem inteira razão o Juquinha. O Brasil, enfim, rompeu o esquema de Montesquieu na escala de sua organização política. Infelizmente não o fez para promover a separação que tanto pleiteio entre governo, estado e administração, mas para incluir a CBF como quarto ente na esfera dos poderes nacionais. E, bem se vê, ente privilegiadíssimo pela prerrogativa de se situar fora da alçada jurisdicional, conforto de que nem mesmo os magistrados togados usufruem.

Aliás, pelo que se observa nestes dias, poderíamos afirmar, também, que a CBF se arvora à condição de Estado fora do Estado. Faz suas próprias leis, mantém relações externas autônomas e, entre muitas outras regalias, dá-se o desplante de punir quem, divergindo de suas decisões, busca refúgio nos braços abertos da Justiça. Ali, onde todos que padecem lesão de direitos encontram guarida, não há lugar para quem se sente prejudicado pela CBF.

A entrega da taça para o Corinthians não é o fato que me leva a escrever este artigo. Aquele evento, ao arrepio de expressa ordem judicial, é tão-somente a mais recente face visível de uma realidade há muito tempo berrante e aberrante. Ainda estou à espera de poder assistir o videotape dos dois jogos do Corinthians anulados monocraticamente pelo presidente do STJD, para saber se há, neles, qualquer evidência de dano causado pela arbitragem à equipe derrotada em campo. É a mínima perícia que uma justiça isenta exigiria antes de deliberar.

E tem mais. O árbitro do jogo entre Internacional e Corinthians, Márcio Rezende de Freitas, cometeu um erro escandaloso, que definiu o resultado do jogo e do campeonato. Lembrado por um repórter de que em 1995, ao anular gol legítimo do Santos, decidiu o campeonato brasileiro daquele ano em favor do Botafogo, saiu-se com esta: "Bem, dois erros em doze anos é uma média boa". Mas a dimensão dos fatos é outra: em doze anos, quase vinte por cento dos campeões brasileiros saíram de seu apito.

O quarto poder intimida tanto quem a ele está submetido que o Internacional não apenas enfia a viola no saco, mas clama pela perpetuação da injustiça de que foi vítima, apenas para não sofrer injustiça maior.
Terça, 06 Dezembro 2005 21:00

A Colheita dos Semeadores de Vento

Bispos e padres de esquerda tinham e têm como coisa reprovável ser católico e não apoiar as tropelias das invasões de propriedades e da destruição dos bens alheios.No dia 17 de novembro, o papa Bento XVI recebeu a cúpula da CNBB. Lá estavam o presidente, o vice-presidente e o secretário-geral. Na ocasião, o pontífice manifestou-se inteirado e preocupado com os projetos de liberação do aborto que tramitam no Brasil. É bom lembrar que, no começo deste ano, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (órgão do governo Lula cuja titular, Nilcéia Freire, tem status de ministra) criou uma comissão tripartite para tratar do assunto. A CNBB quis participar, mas recebeu em resposta um redondo "não". E o anteprojeto encaminhado pelo governo ao Congresso Nacional não apenas libera o aborto. Libera geral, da fecundação à véspera do parto. Essa era a visível preocupação do Papa Bento XVI na reunião do mês passado, em Roma.

O substitutivo ao PL 1135/91, que incorpora as sugestões abortistas da comissão tripartite, é mais uma triste colheita dos semeadores de vento da esquerda católica. A fidelidade dessa porção do clero ao PT, à Teologia da Libertação, ao MST e assemelhados sempre foi maior do que a fidelidade ao Papa, ao Magistério e à Doutrina Social da Igreja. E não me venham dizer que não, porque sei muito bem do que estou tratando, como testemunha, leitor do que escrevem e vítima de sua maledicência.

Bispos e padres de esquerda tinham e têm como coisa reprovável ser católico e não apoiar as tropelias das invasões de propriedades e da destruição dos bens alheios. Consideravam e consideram incompatível o cristianismo com qualquer concepção não socialista e não coletivista da sociedade. Para eles, a filiação a um partido mais ou menos comunista constituía e constitui o melhor dos sacramentos, e a tal filiação atribuem valor superior ao de qualquer outra via de participação na vida da Igreja. Durante décadas confundiram amor aos pobres com ódio aos ricos. Plantaram Lula, PT, esquerda e socialismo. Foram disciplinados companheiros de viagem. Hoje, colhem escândalos, rejeição, CPIs e propostas de liberação do aborto.

Não sei quais serão os efeitos do que está acontecendo no país sobre a conduta dessa facção do clero. Mas não presumo que tenham aprendido coisa alguma com as cotidianas lições dos últimos três anos. Tendo a crer que, depois de semearem ventos que não conheciam na política e na economia, devem estar atribuindo a desgraçada colheita a algum tipo de transgenia ocorrida na lavoura. Não, não os imagino revendo prioridades ou batendo no próprio peito.
Segunda, 28 Novembro 2005 21:00

Custo a Cair a Ficha

Independentemente do lado para o qual se incline o voto que falta para completar onze, o resultado será de seis a cinco, num tema cuja natureza jurídica está longe de ser complexa, restando a sociedade insegura sobre a perfeição da decisão.

No momento em que escrevo este artigo, o mais recente recurso do deputado José Dirceu está pendurado num prego do STF aguardando o voto de desempate que será proferido, quando ele puder, pelo ministro Sepúlveda Pertence (como disse alguém, o futuro do Dirceu a Sepúlveda pertence...). Seja como for, o fato tem suscitado grande controvérsia em relação ao Supremo, envolvendo a maneira como são providas as suas vagas, os critérios dessas escolhas, os procedimentos relapsos do Senado Federal para a aprovação dos indicados e os reflexos disso tudo nas relações institucionais no país.

Independentemente do lado para o qual se incline o voto que falta para completar onze, o resultado será de seis a cinco, num tema cuja natureza jurídica está longe de ser complexa, restando a sociedade insegura sobre a perfeição da decisão. A corte constitucional brasileira terá deliberado, mas quem garantirá que foi feita justiça? Eu me permito afirmar que o escore da votação seria onze a zero (para qualquer lado) se o personagem fosse outro e o tema não tivesse os contornos que tem.

Justifica-se, assim, a inquietação surgida nos últimos dias. As conhecidas afeições partidárias de alguns membros do Supremo, a antiga militância política de outros, os projetos eleitorais anunciados por seu atual presidente e a natureza bem alinhada de algumas de suas manifestações têm comprometido a credibilidade do STF. Por outro lado, como entender que o acesso à magistratura se faça, em toda parte, mediante rigorosos e exigentes concursos técnicos e o ingresso na mais alta corte siga critérios ideológicos e partidários? Como não situar no mesmo cenário as cogitações sobre a futura designação do advogado Tarso Genro para o mesmo tribunal, tão logo aberta uma vaga?

Também aqui, a exemplo de quase tudo mais, perdeu-se a noção de limite. O Poder Judiciário é um poder político no sentido amplo da palavra. Mas não o é no sentido ideológico e partidário. Nem deveria ser o foro privilegiado para certas autoridades da República (precisamente para aquelas autoridade com influência na indicação e aprovação de seus integrantes). A política que o Judiciário deve fazer difere, na natureza e na forma, daquela dos parlamentos e dos governos. Se não diferisse, a democracia, a razão e a ética exigiriam dos magistrados a periódica submissão ao voto popular para ali obter legitimação. Por quanto tenho ouvido nos últimos dias, parece que, finalmente, caiu a ficha sobre os erros que vêm sendo proporcionados pelas regras que regem a composição do STF. Coisa, aliás, que a maior parte dos juízes está rouca de dizer.

Sábado, 19 Novembro 2005 21:00

A Inveja Mata

A inveja nasce da comparação e se afirma como um sentimento duplamente negativo: a alegria pelo mal alheio e a tristeza pelo bem alheio.

Na encíclica Rerum Novarum, publicada em 1891, época em que o comunismo era apenas uma tese ainda distante um quarto de século de sua primeira experiência, o papa Leão XIII, referindo-se a esse modelo, escreveu: “Além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas conseqüências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim, em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria”. Foi profeta. A história veio lhe dar inteira razão.

No entanto, se as previsões do sábio pontífice foram confirmadas e pouca gente esclarecida rejeita suas afirmações sobre a ineficácia do sistema comunista, tem passado meio desapercebida a relação cuja existência ele identificou entre o comunismo e a inveja.

A inveja nasce da comparação e se afirma como um sentimento duplamente negativo: a alegria pelo mal alheio e a tristeza pelo bem alheio. Os moralistas (estudiosos das questões relativas à moral) afirmam que o invejoso é a principal vítima desse sentimento. De fato, a inveja mata. Ela é um canhão que dispara para frente e para trás. No entanto, quando força motriz de um modelo político, ela se torna genocida e pode se voltar para a extinção de uma raça, de uma classe social ou de uma nação inteira. Como só gera miséria, o comunismo é movido a inveja.

É a inveja que está nas ruas de Paris. Foi a inveja que explodiu as Torres Gêmeas. É a inveja que não consegue esconder a alegria perante tais fatos. Foi a inveja que deu causa ao holocausto. É a inveja que faz com que todo esquerdista nutra ódio mortal pelos Estados Unidos. Eles não podem conviver com tamanha evidência dos equívocos em que se afundaram. O ódio que têm ao Bush não guarda relação com humanismo e anseios de paz. Estiveram calados durante a Primavera de Praga, durante a invasão comunista do Tibet e assistiram desolados a queda do Muro de Berlim.

Recentemente, uma emissora de TV exibiu reportagem feita com jovens da periferia de Paris protagonistas das arruaças em curso. Um deles levou a repórter para ver onde vivia. Era um edifício popular, muito melhor do que as moradias de qualquer favela brasileira. Sem muito que dizer, a moça disparou: “Já se nota o contraste entre isto aqui é os palácios de Paris”. Acho que ela queria levar a rapaziada para Versailles. Enquanto isso, seu revolucionário guia apontava as más condições do prédio: paredes tomadas por pixações, a sinalizarem o caráter pouco civilizado dos moradores, e um balde, no meio da sala, marcando a existência de uma goteira, como se fosse dever do governo francês subir no telhado para reparar tão complexo problema. No fundo, é tudo inveja e eu entendo o sentimento dos franceses a respeito do que estão fazendo no país deles.

E enquanto aguardo por uma matéria jornalística feita com os proprietários dos bens que estão sendo destruídos, penso se meus bisavós italianos que imigraram para o Brasil, e aqui enfrentaram imensas dificuldades, teriam, um dia, sonhado em fazer o que esse pessoal anda fazendo na França que lhes dá cidadania, moradia, educação e assistência social.

Quarta, 16 Novembro 2005 21:00

Conversa de Bêbado?

Para poder negar o que dissera à revista Veja, e tendo a fita com a gravação de sua voz sido exibida à CPI, Poletto sustentou que, estando bêbado na ocasião, não tinha a menor idéia do que dissera ao repórter.Dois uísques disputam entre si o privilégio de serem os mais caros do mundo. São eles os Glenfiddich com mais de 50 anos e o Macallan 1946. Recentemente, seis garrafas do primeiro, datadas de 1937, foram vendidas a sete mil dólares cada unidade para o free shop do aeroporto de Hong Kong, onde a cotação do segundo fica na casa dos dois mil dólares. Trata-se, já se vê, de exotismos reservados ao consumo de alguns bilionários da revista Fortune. Pois mesmo assim eu duvido de que o prazer da posse, exibição e degustação de uma dessas relíquias fosse suficiente para fazer com que alguns Midas da modernidade se dispusesse a uma viagem internacional apenas para adquiri-las e transportá-las.

Mas isso é conduta de bilionários. Aqui no Brasil, a história do dinheiro de Cuba para a campanha petista de 2002 mostra que um pé de chinelo qualquer consegue avião particular para sair de São Paulo, ir a Brasília, seguir para Campinas e dali para São Paulo apenas com o objetivo de conduzir três caixas de um uisquezinho comum que, adquiridas em Rivera, saem por bem menos de mil dólares. Só o combustível bebido pela aeronave custa muito mais do que as 36 garrafas nele carregadas com zelos que se aproximam dos exigidos para o transporte de valores.

Quando o free shop do aeroporto de Hong Kong adquiriu as tais seis garrafas de Glenfiddich, a notícia da compra ganhou merecido destaque na imprensa mundial. Afinal, não é todo dia que alguém paga tanto por um produto das "terras altas" da Escócia. Pois agora, na terra da baixaria, podemos produzir manchetes sobre o transporte milionário de três miseráveis caixas de Johnnie Black, ou Red, ou Havana Club, com direito a atitudes sigilosas, acompanhamento de economista, avião, carro blindado e motorista.

Sobre o episódio, podem restar dúvidas em relação à procedência e ao conteúdo das caixas. Mas não cabem dúvidas sobre terem estado rotuladas como bebida e quanto ao fato de pelo menos duas serem de um frugal Johnnie Walker de 25 dólares em free shop, ou de cento e poucos reais em qualquer supermercado da paulicéia, onde se situava o destino final da encomenda.

O depoimento de Vladimir Poletto à CPI tornou a situação ainda mais exótica. Para poder negar o que dissera à revista Veja, e tendo a fita com a gravação de sua voz sido exibida à CPI, Poletto sustentou que, estando bêbado na ocasião, não tinha a menor idéia do que dissera ao repórter. Pois é. Além de tudo, amarraram cachorro com lingüiça. Encarregaram um borracho de transportar uísque...
Quarta, 09 Novembro 2005 21:00

Brincando de Casinha

Nosso presidente me passa essa impressão de um adulto brincando de casinha em seus palácios.O mundo infantil é povoado de magia. Toda criança sonha com superpoderes, capacidade de voar e o dom de reger a realidade com uma varinha de condão. Nesse mundo habitam Papai Noel, a fada madrinha e multidões de inimigos imaginários a serem derrotados. Toda criança que dispõe, no fundo do pátio, de um canto só seu, a sua casinha, sabe que ali é seu palácio, seu mundo encantado, onde ela é a senhora do destino. A transição para a realidade vem com gradual constatação de que as coisas não funcionam assim. Papai Noel tem recursos limitadíssimos. A fada madrinha é omissa e incompetente. A casinha fica pequena demais e vira tapera.

Nosso presidente me passa essa impressão de um adulto brincando de casinha em seus palácios. Lá chegou como alguém com autoridade para convocar Papai Noel, dotado de poderes para fazer o que ninguém mais fez. Sua pueril felicidade era contagiante e dezenas de milhões de brasileiros estavam convencidos da força do seu querer. Era uma multidão de crentes, para os quais o menino pobre de Garanhuns encarnava a esperança de converter em realidade todos os sonhos.

Gradualmente, o Brasil está acordando para o fato de que a utopia com que lhe acenaram durante duas décadas era exatamente isso. Mas nosso presidente permanece envolto na fantasia dos seus palácios. Não estou dizendo que seja proibido sonhar, nem impossível transformar a realidade. O que estou dizendo é que só se muda a realidade com realismo, pés no chão e ideais elevados no coração. Quem, como Lula, vive noutro mundo, fica assim como ele se mostra, distanciado dos fatos, sem os compreender, ou, mais grave ainda, sem sequer saber o que acontece à sua volta. Perdoem-me os fãs de Lula, mas o homem vive num mundo encantado. As estrelas no jardim, as mordomias, o avião e as viagens têm tudo a ver com isso. A alegria dele, há bem poucos dias, visitando o túmulo de Lênin, seria bonita não fosse o homenageado pela visita um genocida. Para encontrá-lo pessoalmente seria preciso pedir a Dante Alighieri o endereço do círculo mais quente do inferno.

Tenho ouvido muita gente dizendo que Lula viaja demais. O problema não é esse. O problema é que ele sempre volta.
Sábado, 29 Outubro 2005 21:00

Águas Passadas

Quero confessar minha admiração pelo pentecostal fervor com que os defensores do "sim" sustentaram sua posição no recente referendo.Quero confessar minha admiração pelo pentecostal fervor com que os defensores do "sim" sustentaram sua posição no recente referendo. Se eu não sou cabeça muito dura acabaria convencido de que é preciso renunciar ao direito de defesa da vida para conservar a vida. Teria admitido que o gaudério do interiorzão, longe do delegado, do juiz e do policial, deve confiar o zelo de sua propriedade e da sua família aos latidos de um par de guaipecas. Teria concordado com que o morador da cidade, se acordar com um assaltante arrombando a porta, deve entregar-se à proteção de São Dimas, o bom ladrão, para que este amoleça o coração do colega. Sempre achei lindas aquelas revoadas de pombinhas brancas e os emocionados discursos em favor da vida. Eis aí a minha turma, eu pensava, como defensor da vida e dos direitos humanos, embora convencido da obtusidade de seus argumentos nesse específico caso.

Mas se essas são águas passadas, o fato é que elas ainda podem mover moinhos. Rio abaixo, a luta em favor da vida continua. E eu, lendo-os e ouvindo-os, adquiri a convicção de que andaremos juntos em outras correntezas. Tenho certeza de que os defensores do "sim" no recente referendo são, também, defensores do meio ambiente e dos animais. Sei que a preocupação com estes últimos vai ao detalhe: protegem seus hábitats, cuidam de um ovo de tartaruga como se fosse um bebê, conhecem o período de reprodução dos bichos, zelam por esses ciclos e pelos locais de desova. Chamam santuários esses ambientes. Associam-se e contribuem para ONGs que defendem baleias, pingüins, jacarés e sagüis. E eu acho tudo isso muito bonito.

Tenho sólidas razões, portanto, para esperar que o mesmo entusiasmo com que defenderam a proibição do comércio de armas, que a mesma indignação com que investem contra a crueldade aos animais e protegem seus acasalamentos, ninhos e hábitats, os motivará agora a se unirem a nós na luta contra o aborto. Ou não? Será necessário lembrá-los de que o feto é o indefeso filhote do bicho homem? Que o embrião humano, cuja destruição e manipulação são ardorosamente postuladas, constitui, na verdade, um ovo fecundado como, por exemplo, o reverenciado ovo do jacaré de papo amarelo?

Pois é. Espero não encontrar ninguém da turma do "sim" apoiando o projeto de liberação aborto em tramitação no Congresso (PL 1135/91). Por favor! Caso contrário, apelaria para que encarassem o embrião e o feto com a mesma benevolência que dispensam à fauna e à flora. E que pleiteassem para as práticas de aborto e de destruição de embriões o mesmo rigor com que a lei trata os crimes ambientais e os maus tratos aos animais. Poderão, agora, as águas passadas do referendo acionar o moinho da defesa da vida humana na mais desprotegida de suas formas?
Segunda, 24 Outubro 2005 21:00

À Margem do Referendo: Erasmo e Brecht

A derrota do "Sim" pode e deve ser entendida como um veto nacional ao próprio Estatuto do Desarmamento, que precisa ser repensado em sua concepção.Já passou da hora de os institutos de pesquisa revisarem seus procedimentos, ou de a legislação eleitoral repensar a liberdade que lhes concede. Estão falhando demais. E creio que essa é a primeira constatação que nos impõem os números que estão sendo divulgados. Como aceitar que tais organismos, errando como têm errado nas últimas oportunidades, possam exercer sobre a política, através da opinião pública, o poder que exercem?

Não me recordo de outra ocasião em que nosso povo tenha tido oportunidade de se manifestar sobre algo tão estreitamente relacionado com a utopia quanto neste domingo. O que estava em discussão, de fato, era exatamente isto: um delírio utópico. "Adeus às armas" e viveremos em paz é coisa de lunático, algo que entra em contradição com toda experiência humana e o eleitor brasileiro percebeu. Só o tempo nos dirá, no entanto, se esse momento de contato com o realismo exercerá influência sobre outras decisões políticas que deveremos tomar nos processos eleitorais vindouros. Até agora, a cada pleito, vinha crescendo a adesão da sociedade brasileira às utopias esquerdistas. A maior parte dos desencantados com o governo Lula, por exemplo, é constituída por pessoas que acreditavam piamente na utopia petista que, na oposição, tinha solução para tudo e acusações contra todos.

Mas se a tese central da proibição do comércio de armas e a publicidade do "Sim" era um delírio, um "elogio à loucura" (para adotarmos o título da obra de Erasmo), os argumentos usados para tentar roubar aos cidadãos brasileiros um direito natural à legítima defesa, era um elogio à mentira. Esse elogio é feito por Bertold Brecht em "Die Massnahme", na famosa frase em que exalta o compromisso dos comunistas com a causa e o papel que a mentira representa para sua vitória. Portanto, entre Erasmo e Brecht, entre a loucura e a mentira, andaram a tese e a campanha do "Sim".

Domingo foi um dia esplêndido. A derrota do governo e do partido do governo, comprometidos até as orelhas com o referendo e com o "Sim", a derrota da Rede Globo e seus astros, a derrota das ONGs internacionais, a derrota da Glock (fabricante austríaca de armas) e de seus interesses no referendo brasileiro, e a derrota pessoal de Lula, que escreveu um artigo para a Folha de São Paulo com o título "Mais vida, menos armas", foram vitórias do discernimento do cidadão brasileiro. Ele percebeu onde estavam a loucura e a mentira. A utopia e a mistificação.

Agora é a vez do Congresso Nacional. A derrota do "Sim" pode e deve ser entendida como um veto nacional ao próprio Estatuto do Desarmamento, que precisa ser repensado em sua concepção. Caiu o disposto no art. 35 (a proibição à comercialização), mas o resultado foi tão acachapante que os senhores congressistas devem repensar muitas demasias embutidas na lei que aprovaram.
Sábado, 22 Outubro 2005 21:00

Surto Psicótico Depressivo?

O que ocorreu na área política está bem nítido ainda em todas as retinas. Quem diz que o mensalão não existiu imaginava, talvez, que ele correspondesse a um pagamento todo santo dia 30, com contracheque e crédito em conta.Está dado o tom à militância: afirmem aos quatro ventos e em todos os microfones, que "nada foi provado". O que existe, ensina a cartilha, é uma pressão das elites contrariadas com a nova "lógica" implantada pelo governo petista, que afronta os "interesses do grande capital". Os critérios "republicanos" do governo Lula desagradam aqueles que durante 500 anos "privatizaram" o país. Ufa! Conseguem dizer tudo isso, com ar grave e com vários adjetivos que conferem eloqüência ao discurso. É um mantra, bem ensaiadinho, trazido na ponta da língua.

Então vejamos se é assim mesmo. O governo Lula se apresenta como o pai dos pobres, mas é a mãe dos banqueiros. O Brasil ponteia, com vários corpos de vantagem, o páreo da taxa de juros entre os países planeta. A agiotagem aqui oficializada eleva a remuneração capital a níveis mais do que estratosféricos. Eles são galáticos. A esquerda da CNBB repreende o governo exatamente pela desatenção aos despossuídos, cujo zelo seus prelados imaginavam ser a mola propulsora do petismo socialmente ascendente. Pergunte aos aposentados e aos aposentandos sobre os malefícios que lhes produziu a Reforma Previdenciária do governo Lula. E, depois, indaguem aos nababos da pátria o que pensam sobre a condução petista desse e de outros assuntos da economia. Ao FMI sequer precisam interrogar porque ele se antecipa em mensagens de louvor ao governo brasileiro, gerador de um superávit primário bem maior do que o Fundo exige e quitador antecipado das parcelas da nossa dívida.

Lula se elegeu com dois terços dos votos, subiu a rampa como Jesus entrou em Jerusalém. Aprovou no Congresso tudo que quis. Enrolou-se no maior escândalo da história nacional e mantém um índice de aprovação pessoal invejável para quem se aproxima do fim do governo. Em 34 meses não corrigiu nada do que herdou errado e não apresenta benefício que não tenha recebido como herança ou que não haja lhe caído no colo a partir do ciclo de crescimento da economia mundial (devido, aliás, a uma integração que o PT sempre condenou).

O que ocorreu na área política está bem nítido ainda em todas as retinas. Quem diz que o mensalão não existiu imaginava, talvez, que ele correspondesse a um pagamento todo santo dia 30, com contracheque e crédito em conta. Convenhamos. Quase duas dezenas de deputados foram pegos na boca do caixa. Dezenas de outros receberam dos deputados Waldemar Costa Neto, José Janene e Roberto Jefferson (aos quais foram concedidos valores milionários, que alegam haver repassado, mas se recusam a dizer a quem). Dinheiro mal-havido circulou pelo país em malas, maletas e cuecas. O presidente confessou a existência e o uso do caixa dois. Pediu desculpas à nação. Renunciou todo o comando do partido do presidente. Caiu seu chefe da Casa Civil. Tombaram dirigentes de poderosas estatais. Uma dúzia de deputados está denunciada à Comissão de Ética. Meia dúzia renunciou ao mandato. E nada foi provado? Então Brasília foi acometida de um pavoroso surto psicótico depressivo
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