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Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Quarta, 08 Março 2006 21:00

A CNBB e as Orelhas de Lula

Nosso presidente não tem preparo, mas é um homem inteligente. Quero tratar, aqui, do tal "puxão de orelhas" que lhe deu o secretário-geral da CNBB ao acusá-lo de ser incoerente com as propostas eleitorais.Não, meu caro leitor, não é o que você está pensando. Nosso presidente não tem preparo, mas é um homem inteligente. Quero tratar, aqui, do tal "puxão de orelhas" que lhe deu o secretário-geral da CNBB ao acusá-lo de ser incoerente com as propostas eleitorais. E seguiu por aí o prelado, criticando os juros, o desemprego, a má distribuição da renda e o pífio crescimento econômico.

É o que também eu penso e assino embaixo. Mas o fato de a CNBB criticar o governo de um partido que, com meu profundo desagrado, sempre contou com suas bênçãos e orações, não altera minha convicção sobre essa sempre polêmica relação entre o organismo dos bispos brasileiros e os temas da nossa vida política, social e econômica.

Cabe, aqui, distinguir os campos. Primeiro, a CNBB não é, não representa nem se confunde com a Igreja Católica. Ela é apenas um órgão de serviço ao episcopado e à Igreja Católica no Brasil. Conferências episcopais não integram a hierarquia da Igreja, que é muito simples, formada pelo Papa, os bispos, os presbíteros e os diáconos. Ponto. Depois, a Igreja, na sua relação com os fiéis, exerce um Magistério que tem duas únicas vertentes: o Papa isoladamente, e o Papa, com os bispos, em Concílio. Finalmente, organismos de serviço, membros da hierarquia, em conjunto ou isoladamente - ausente o Papa - podem opinar sobre qualquer assunto, no exercício de sua cidadania. Mas não será a Igreja que então se manifesta, nem estarão fazendo doutrina com aquilo que expressam. Será apenas opinião, tão sujeita ao contraditório quanto qualquer outra.

Por isso, sempre me desgostou quando, durante Assembléias Gerais da CNBB, determinados bispos passavam a tagarelar com a imprensa sobre temas técnicos, políticos e administrativos, sendo percebidos pela opinião pública como se fossem porta-vozes do Espírito Santo. Não é bem o caso. A Doutrina da Igreja, incluída aí a sua Doutrina Social, não detalha políticas públicas, porque elas se situam no campo autônomo da política. A Igreja apenas enuncia princípios. Portanto, quando o secretário-geral da CNBB puxa as orelhas de Lula, está dando uma opinião, como tal sujeita ao contraditório, e se expondo a levar um puxão de volta porque na política as coisas são assim. Nela há divergências sobre quase tudo e quem dá um joelhaço pode esperar um cotovelaço.

É importante que essas três coisas fiquem claras: quem formula a doutrina da Igreja, a diferença entre a CNBB e a Igreja, e a diferença entre doutrina e opinião. Não é porque alguém da CNBB, depois de umas boas duas décadas, finalmente emitiu uma opinião parecida com a minha que eu vou mudar minha posição a respeito dessas declarações que dirigentes do organismo têm o hábito de emitir sobre temas que se situam fora do campo da doutrina. Com muito maior propriedade e autoridade poderiam falar, então sim, sobre a crise moral que se abateu sobre as instituições nacionais.
Terça, 28 Fevereiro 2006 21:00

Uma Tremenda Contradição

Já vi muito disso para continuar testemunhando descabidas concessões ao politicamente correto, que nada têm a ver com o verdadeiro diálogo e a verdadeira tolerância. O nome disso é relativismo e secularização.Cuba, 2003. Eu havia retornado da ilha algumas semanas antes. Em março, furiosa onda repressora se abateu sobre o país com a prisão de dezenas de jornalistas e militantes de direitos humanos. Entre estes últimos, minha venerável e valente amiga, a laureada economista Martha Beatriz Roque. No dia 3 de abril, o frustrado seqüestro de uma embarcação levou ao episódio conhecido como o "fusilamiento de los três negritos", no qual, entre a desastrada tentativa de fuga, a investigação policial, a denúncia, o julgamento, a apreciação dos recursos e a tríplice execução decorreram apenas oito dias.

Pois bem, duas semanas depois, enquanto até comunistas declarados, como Saramago e Mercedes Sosa, botavam a boca no trombone contra o que estava acontecendo, o alto comando do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC) tornou pública uma declaração dirigida "às igrejas, conselhos de igrejas, líderes eclesiais, etc.". Tenho em mãos o documento, que despeja sobre esses episódios um total de 1288 palavras. Destas, 885 estão reservadas ao clássico antiamericanismo, cimento, areia e aço dos pilares que sustentam o discurso de Fidel. O pouco restante cuida de separar, sem explicar bem por que o faz, as prisões de março das execuções de abril, emite uma tímida e genérica condenação à pena de morte, sem associar, nem de longe, tal reprovação ao caso dos "três negritos", e conclui com esta inestimável pérola: "Também as Sagradas Escrituras nos chamam à compreensão pastoral e profética dos que nos governam e zelam pelos destinos do nosso país, e que neste momento perigoso e dramático aplicaram severamente as leis vigentes". Fidel Castro deve ter mandado um beijo para todos.

Por que escrevo sobre isto? Porque dona Ofelia Ortega Suárez, pastora da Igreja Presbiteriana Reformada de Cuba, signatária daquele amontoado de disparates e tão condescendente com a violência institucionalizada em seu próprio país, acaba de ser eleita, em Porto Alegre, presidente do Conselho Mundial de Igrejas, numa Assembléia mundial marcada por manifestações em favor da paz. Tremenda contradição!

Somando-se ao que narro acima, vale lembrar que: a) a grande estrela da Assembléia do CMI, o bispo anglicano Desmond Tutu, afirmou que Deus não é cristão (e de duas uma: ou Cristo não é Deus ou seu batismo não valeu); b) um dos atos do encontro foi a badalada celebração religiosa gay na capela da PUC; e c) muitos temas cuidados pela assembléia se voltaram para assuntos como água, energia, comércio internacional, dívidas externas e coisas assim, bem mais de César do que de Deus.

Desculpem os que me convidaram, mas não, muito obrigado. Já vi muito disso para continuar testemunhando descabidas concessões ao politicamente correto, que nada têm a ver com o verdadeiro diálogo e a verdadeira tolerância. O nome disso é relativismo e secularização. A eleição de dona Ofélia não foi a gota d'água, mas é a própria água.
Sexta, 17 Fevereiro 2006 21:00

Controle de Natalidade?

Exatamente no campo da política, muitos se deixam atrair pela idéia do controle na natalidade: máximo de um filho por casal, esterilização em massa das populações pobres e facilidades estatais postas à disposição para a prática do abortamento voluntário.Malthus tirou da cachola a idéia de que a população aumentaria em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética. E previu que a Inglaterra chegaria ao final do século XIX com 112 milhões de habitantes, dos quais apenas 35 milhões teriam suas necessidades atendidas. Passou mais de um século depois da catastrófica previsão, e a Inglaterra, com 60 milhões de habitantes, atende perfeitamente as necessidades calóricas de sua população. Malthusianismo é tolice. Os contingentes populacionais miseráveis de diversos países, neste estágio de desenvolvimento da civilização, constituem matéria de reflexão para economia e para a política, muito mais do que para os demógrafos.

Exatamente no campo da política, muitos se deixam atrair pela idéia do controle na natalidade: máximo de um filho por casal, esterilização em massa das populações pobres e facilidades estatais postas à disposição para a prática do abortamento voluntário. São sugestões que transitam a uma altura sideral sobre a gravíssima natureza das questões morais e políticas envolvidas. Pensam impor aos miseráveis restrições que jamais ousariam propor aos ricos. Aliás, é possível identificar duas grandes confusões nessas propostas.

A primeira se refere à confusão entre vida e qualidade de vida. Em poucas palavras: consideram que o sujeito que vive sob marquises, driblando a fome com cachaça e festejando o pão velho que lhe jogam, não deveria ter nascido. Esquecem-se, no entanto, de que tais indigentes matam-se menos do que os abonados e de que esses mesmos cidadãos dormem pensando no amanhã e não na morte. A segunda confusão desconhece a realidade da China, que tendo adotado o controle da natalidade, precisou proibir em certas regiões os exames ecográficos pré-natais porque estava havendo abortamento em massa de bebês do sexo feminino, e passou a conviver, logo após, com o assassinato desses mesmos bebês pelos próprios pais. Uma cortina mais espessa do que a muralha da China envolve esse que talvez tenha sido o maior genocídio da história. Entre suas graves conseqüências, algo como 35 milhões de homens chineses, a partir de 2015, não encontrarão mulheres para casar em seu próprio país.

Ao nos depararmos com certas sugestões que pedem ordenamento legal para determinados problemas sociais, é sempre conveniente prestar atenção na sutil relação existente entre tais propostas e os conceitos políticos dos quais derivam. Nem sempre eles estão presentes na reflexão de quem propõe, cujos olhos benevolentes estão postos apenas no fim pretendido. Mas a relação sempre existe e é bom conhecê-la.

Assim, sob o ponto de vista político, um Estado com o poder de intervir na intimidade familiar, criminalizar a procriação e esterilizar seres humanos como se fossem reses é um ente assustador. Eu quero distância desse Estado e dessa política porque, necessariamente, formam um binômio totalitário. Quem pode isso pode muito mais. A solução correta para o excessivo crescimento demográfico das populações de baixa renda reside num efetivo planejamento familiar, na educação, no desenvolvimento econômico e na superação dos desequilíbrios sociais.
Sábado, 11 Fevereiro 2006 21:00

Sofismas e Outras Tapeações

A mentira é a pior. É muito difícil refutá-las em pleno debate porque raramente se dispõe dos elementos de prova e do tempo necessário para o cabal esclarecimento. Mentir é rápido, desmentir demora.Há quase vinte anos participo regularmente de programas de rádio, TV e debates em que o confronto político constitui a pauta. No ano passado, fiz apontamentos pensando escrever sobre isso. Acabei de totalizar os eventos a que compareci. Foram 52, sempre com adversários alinhados no lado esquerdo do leque ideológico. A longa e farta experiência, portanto, me permite produzir este sumário das mais freqüentes artimanhas que tenho observado. Nunca debati com quem que não fizesse uso de alguma delas. Nem todas são desonestas. Outras, definitivamente, o são.

A mentira é a pior. É muito difícil refutá-las em pleno debate porque raramente se dispõe dos elementos de prova e do tempo necessário para o cabal esclarecimento. Mentir é rápido, desmentir demora. Como o mentiroso mente várias vezes, resulta quase impossível desmontar tudo, sempre. Por isso, se for para um confronto assim, esteja sempre preparado para enfrentar os maus tratos à verdade. Dados e evidências são os instrumentos que permitirão chamar o mentiroso de mentiroso sem risco de parecer grosseiro.

Outro ardil é a desqualificação moral do interlocutor para reduzir sua credibilidade. Ao tempo em que o PT ostentava o manto das virgens de Vesta, era rara a ocasião em que isso não acontecia. O adversário, só por não ser de esquerda, já era tratado como suspeito das piores intenções e ações. O Dr. João Gilberto Lucas Coelho, em recente artigo, se referiu a isso a propósito de uma declaração na qual Lula afirmou esperar que no futuro lhe peçam desculpas pelo que falam dele. João Gilberto advertiu, com sabedoria, que o presidente vai entrar na ponta de extensa fila onde estão todos os injuriados pelo PT e seus aliados ao longo de duas décadas.

Também é comum atribuírem ao interlocutor algo que não foi dito e combater isso como se estivesse sendo contestado o que de fato ele afirmou. Olavo de Carvalho descreve tal situação dizendo que o sujeito "pega uma frase, uma palavra, uma vírgula que o impressionou por motivos inteiramente subjetivos, atribui a ela o sentido que bem entende e lhe opõe, não raro com eloqüência feroz, respostas que vão parar longe da discussão inicial".

Uma outra artimanha bem recorrente assume várias formas. Ante a impossibilidade de argumentar, o debatedor esquerdista apela para alguma circunstância do debate e extrai dali um adjetivo que aplica ao adversário. A verdade não muda de lado, mas a opinião pública é sensível a essas coisas. Assim, por exemplo, perante o mais tênue sinal de exaltação, o sujeito chama o interlocutor de "raivoso" (como se a esquerda fosse dada a doçuras e amabilidades...). Ora, a raiva é a mais improvável causa da exaltação. Ela pode ocorrer por entusiasmo com a tese ou com os argumentos, pode se dar por indignação com algo que tenha sido dito, pode se constituir numa forma de cortar uma interrupção, mas basta ocorrer a exaltação para que o sujeito, imediatamente, apele ao recurso e chame o adversário de raivoso. Em recente debate, o secretário Luiz Roberto Ponte desmontou um de seus interlocutores com verdadeira saraivada de dados. Eles tornaram evidente que o sujeito sabia coisa alguma daquilo que estava sendo tratado. Um verdadeiro nocaute técnico. Jogado às cordas de seu despreparo, a vítima apelou para o velho ardil e chamou o secretário de "presunçoso". E tem muito mais, mas falta espaço.
Quinta, 09 Fevereiro 2006 21:00

Do Capitólio à Rocha Tarpéia

O que vem ocorrendo arrasta o STF para a crise institucional. Já o tema da posterior candidatura é de natureza ética.Muito se tem falado e escrito nestes dias sobre as aspirações políticas do atual presidente do STF. Contudo, não há impedimento legal para que o cidadão Nelson Jobim venha a ser candidato a vice-presidente, contanto que: 1º) em tempo hábil, deixe o cargo que ocupa; 2º) preencha ficha de filiação a algum partido; 3º) seja escolhido para esse posto em convenção da legenda que o admitiu; e 4º) seja aprovado, também, pela convenção da sigla que indicar o cabeça da chapa. Providas essas condições, Dr. Jobim estará habilitado a pleitear as regalias do Palácio Jaburu. Mas se não há impedimento à candidatura, por que raios, então, todo esse auê?

O problema não está lá na frente, no pleito de outubro. Ele se coloca agora, nos atos do Supremo, que, apesar de ser um poder político, não é lugar para articulações com vistas à busca de mandatos eletivos. O que vem ocorrendo arrasta o STF para a crise institucional. Já o tema da posterior candidatura é de natureza ética. Jobim poderia ser candidato a deputado estadual, federal, síndico de prédio, vice-presidente de banco, cooperativa ou conselho paroquial. Jamais a vice-presidente da República - e, menos ainda - na chapa de Lula.

Nelson Jobim deve aos tucanos o que de melhor alcançou na vida pública. Fernando Henrique fez dele ministro da Justiça em 1995 e, em seguida, foi do seu governo que obteve indicação para integrar a alta corte constitucional a cuja presidência chegou por antiguidade. Entretanto, o 1º de janeiro de 2003 foi marcado por dois atos exóticos e significativos: a posse de Lula e a mudança de lado do ministro Jobim. A bananeira tucana já dera seus cachos.

O Supremo, repito, é um poder político vestido com a toga da juridicidade. Não lhe é impróprio decidir politicamente, embora não partidariamente.  Inaceitável de qualquer de seus membros é o exercício da atividade jurisdicional sob os influxos de aspirações eleitorais. Imagine o presidente do Tribunal de Justiça do Estado aspirando ser vice-governador, imiscuindo-se na cena política, posicionando-se nas tensões entre o Executivo e o Parlamento e entravando CPIs. Seria uma demasia incompatível com os bons costumes. As atitudes de Nelson Jobim constrangem o STF, alarmam a imprensa e escandalizam a nação. É bom lembrar que o monte Capitólio, onde ficava o templo de Júpiter, local de consagração dos heróis, também era o lugar da rocha Tarpéia, da qual se precipitavam os condenados. Essa proximidade deu origem ao provérbio: "Do Capitólio à rocha Tarpéia não vai mais que um passo". Triste sina das nossas instituições! Esse passo já fora dado pelo governo e pelo Congresso. Só faltava o STF.
Quarta, 01 Fevereiro 2006 21:00

As Pernas da Mentira

Recorte e guarde este artigo. Ele o ajudará a verificar, mais tarde, o quanto encolheram as pernas da mentira.Chuvas benfazejas caíram abundantes sobre praticamente todo o território gaúcho nas últimas duas semanas. Tudo faz crer que elas afastam o risco de uma estiagem semelhante à que derrubou o PIB gaúcho em 2005. Suponhamos que seja de fato assim. Chuvas regulares. Safras dentro dos padrões esperados. Razoáveis preços internacionais para as commodities agrícolas. O resultado dessa combinação será um salto positivo no PÌB estadual que, muito provavelmente, dado o tombo ocorrido no ano passado, crescerá acima da média nacional.

O Rio Grande festejou essas águas de janeiro, vindas após abrasadores e assustares dias quentes e secos. Mas essas mesmas chuvas, tendo a crer, deixaram alguns assustados. Refiro-me aos que, nas últimas semanas do ano passado, discursaram sobre o mau desempenho da economia estadual como se houvesse chovido bastante e a queda do PIB em 2005 tivesse sido causada pelo "tarifaço" vigente a partir de abril. Era uma forma de aliviar as responsabilidades de São Pedro pela estiagem e de São Lula e de São Palocci pelo câmbio e pela taxa de juros.

Atribuir a queda do PIB gaúcho ao aumento de alguns impostos constituía um disparate que qualquer pessoa minimamente informada sobre os números do Estado podia identificar. O PIB gaúcho é de 152 bilhões de reais. A perda de 4,8% representou, portanto, um dano de oito bilhões. É preciso respeitar muito pouco a inteligência alheia para afirmar que um aumento de cinco pontos percentuais sobre comunicações e energia elétrica não industrial, e de 4 pontos percentuais sobre gasolina e álcool combustível pudesse representar uma queda de oito bilhões de reais no PIB e uma perda  média, portanto, de 700 reais na renda anual dos 11 milhões de habitantes deste estado, quer sejam homens, mulheres, crianças eu bebês.  Não basta achar que os outros são tolos. É preciso também ser tolo para fazer uma afirmação dessas.

No entanto, repetiram-no até que muitos creram. Os mal-aventurados não viram, não fizeram as contas, mas creram. Pois eis que choveu por vários dias em quase todo o Rio Grande do Sul. E choveu assustadoramente para os que terão que se haver com a própria mistificação dentro de alguns meses. Recorte e guarde este artigo. Ele o ajudará a verificar, mais tarde, o quanto encolheram as pernas da mentira.
Segunda, 23 Janeiro 2006 21:00

Coelhos Falantes

O sujeito fala, fala, fala, desperta uma notável simpatia (porque os problemas a respeito dos quais ele tagarela incomodam a todos), mas é incapaz de sugerir uma única solução para tais dificuldades.Se o leitor já teve ou tem sob sua responsabilidade a gestão de alguma empresa, instituição ou atividade saberá, por certo, o valor de uma boa solução quando se tem algum problema. Aliás, essa mesma experiência poderá ser relatada por quem haja superado qualquer dificuldade importante.

Por isso, me espanta certa política que se resume a discursar sobre problemas. Imagine o que aconteceria numa empresa que convocasse seus acionistas para ouvir a diretoria espinafrar as dificuldades tecnológicas, desancar a concorrência, reclamar dos salários, etc.. Em pouco tempo estariam todos na calçada, bilhete-azul na mão, porque papagaio não ganha contracheque.

Na política, contudo, essa tagarelice produz, anos a fio, dividendos eleitorais. O sujeito fala, fala, fala, desperta uma notável simpatia (porque os problemas a respeito dos quais ele tagarela incomodam a todos), mas é incapaz de sugerir uma única solução para tais dificuldades. Volta e meia surgem na imprensa manifestos, declarações, cartas "tiradas" em eventos daqui e dali, não raro subscritas por eminentes personalidades, desancando problemas. E a coisa mais rara do mundo é se ver uma linha apontando soluções que possam ser consideradas viáveis, originais ou suficientes.

Mas os sedutores Coelhos Falantes tomam suas Alices pela mão e as conduzem ao País das Maravilhas, onde os problemas desaparecem apenas com enunciá-los e onde as palavras têm o poder de mudar os fatos. Lula e seu partido eram e continuam craques nisso. Depois de discursarem duas décadas contra qualquer um que tivesse a caneta na mão, chegaram ao poder sem um projetinho sequer para o país. Quando veio à tona o maior escândalo ocorrido na Terra de Santa Cruz desde que Cabral lançou âncoras em nossas areias, os Coelhos Falantes disseram para Alice que não existiu mensalão e que foi tudo traição de algum valete desconhecido.

Há alguns anos, perguntaram a um candidato a governador de onde viria o dinheiro para levar Alice ao Estado das Maravilhas. Resposta de Sua Alteza: sem andar de helicóptero e sem gastar em propaganda. Pois é. Dentro de alguns meses, os Coelhos Falantes reaparecerão. Você aprenderá com eles que o problema da habitação se resolve construindo casas; o do emprego, desenvolvendo as empresas; o da seca, com irrigação e seguro agrícola; o do salário, com aumentos dignos; o da saúde, com verbas; e o da fome, com três refeições por dia para todos. Oba!
Quarta, 18 Janeiro 2006 21:00

Sobre Delitos e Penas

Tornou-se chavão, quando se fala do sistema penal brasileiro, afirmar que a finalidade das penas e dos estabelecimentos penais é ressocializar os presos.Tornou-se chavão, quando se fala do sistema penal brasileiro, afirmar que a finalidade das penas e dos estabelecimentos penais é ressocializar os presos. Faz poucos dias, em programa de rádio, um magistrado sustentou que a pena de morte não deve ser adotada por se constituir na própria negação desse "preceito fundamental". Ora, pode-se ser contra a pena de morte por muitos outros motivos, mas não por esse. Ele não vale porque se atribuíssemos às penas exclusivamente a função indicada, nem mesmo a privação de liberdade deveria ser adotada porque nossos presídios, de fato, não ressocializam preso algum.

Quais são, na verdade, as razões pelas quais os códigos instituem penas para os delitos praticados pelos cidadãos? Elas são quatro, a saber: punir os criminosos, desestimular a prática delituosa, afastar os indivíduos perigosos do convívio social e ressocializá-los. Em circunstâncias normais seria impossível estabelecer, entre essas quatro razões, uma hierarquia aplicável a todos os casos, porque ela dependeria de cada crime, das condições do agente e das circunstâncias envolvidas. Contudo, é importante ter em conta que as três primeiras - punição, desestímulo ao crime e isolamento do criminoso - são objetivas. Aplicada a sanção, elas ocorrem em qualquer circunstância. Já a ressocialização não passa de uma possibilidade que pode ou não se verificar, mesmo se criadas as condições necessárias. Ela não depende apenas da disponibilidade dos instrumentos nem da autoridade pública, mas de modo muito particular está condicionada, por vários modos, ao indivíduo em si.

A sociedade brasileira convive com índices de criminalidade assustadores. Suas causas são inúmeras, cito algumas. O relativismo moral e a conseqüente decadência dos valores tradicionais. A banalização da violência na comunicação social. Os maus exemplos das oligarquias. A ineficiência dos órgãos de segurança pública desapetrechados para enfrentar o problema nas suas dimensões atuais. A proliferação da distribuição e consumo de drogas. A tolerância da legislação que abrevia as penas, libera presos para trabalhos externos e favorece o relaxamento de prisões ("a polícia prende e a justiça manda soltar", porque a lei assim estabelece). As explicações ideológicas da criminalidade, que acabam fornecendo um alvará de soltura à consciência de indivíduos que se julgam enquadrados nas condições apontadas como causadoras da criminalidade ("Eu não sou criminoso, criminoso é o sistema...").

Em tais circunstâncias objetivas, tendo em vista o bem comum, aquela hierarquia de que falei antes adquire um formato imperioso no Brasil. Hoje, a principal função da pena é apartar o criminoso do convívio social, com cumprimento integral da condenação, eliminando-se dos códigos os furos da tolerância, tão ameaçadores à sociedade quanto os túneis abertos sob os muros dos presídios.
Terça, 03 Janeiro 2006 21:00

"São Duras Estas Palavras"

Sim, são duras estas palavras. Mas é melhor que as ouçamos. Na pior das hipóteses, valem como advertência para nos precavermos: com exceções, nos tornamos um país de ladrões.Cabe aqui a manifestação escandalizada dos discípulos a Jesus: "São duras estas palavras. Quem as pode ouvir?" No entanto, o que direi a seguir expressa triste realidade que só pode ser alterada se admitirmos como verdadeiro o que afirmo.

Há alguns anos, viajando por Portugal, esqueci a câmara fotográfica digital que portava comigo sobre uma das muitas mesas de movimentada cafeteria da cidade de Tomar. Quase uma hora depois, percebi o fato. Voltei correndo para onde havia deixado o equipamento que, à época, era ainda mais caro e cobiçado do que hoje. Encontrado e entregue no balcão, prontamente me foi devolvido pelo atendente. Semanas depois, em Fortaleza, a mesma máquina me foi arrancada das mãos por um ladrão que saiu em disparada na sua bicicleta.

No Brasil rouba-se tudo, de todos, em toda parte. Aqui em Porto Alegre, uma menina resolveu dançar descalça durante uma festa chique. Roubaram-lhe os sapatos. Roubam-se linhas de transmissão, caneta dos colegas, placas de bronze das praças, roupas dos varais, telefones celulares, senhas de caixas eletrônicos, pertences de moradias miseráveis, cargas de caminhão, automóveis, chinelos de dedo, chupetas de crianças e moedas de cegos. Filhos roubam dos pais. Senhoras estacionam automóveis junto às praças e roubam mudas para seus jardins. Um "magnífico" reitor roubou da própria universidade. Sim, são duras estas palavras, mas, com exceções, nos tornamos um país de ladrões. Se não há quem não tenha sido roubado várias vezes, podemos falar de centenas de milhões de furtos, roubos e assaltos. A honestidade se tornou tão incomum que o gesto de devolver o que é achado virou coisa heróica, dá notícia na imprensa e rende foto com o presidente da República (que se não é descuidista, certamente é descuidado).

Não me venham com coitadismos sociológicos para explicar desonestidade epidêmica de tais proporções, nem me falem em crime organizado porque este é o único em relação ao qual as instituições podem agir. Ele é o que menos incomoda a sociedade e, em maior ou menor grau, existe no mundo inteiro. Estou falando aqui do crime desorganizado, dos milhões de ladrões oportunistas, de qualquer nível social, que infestam o país de modo implacável e que, para serem contidos, exigiriam um par de seguranças parrudos e armados, ao lado de cada cidadão de bem, 24 horas por dia.

E se o leitor destas linhas julga que estou exagerando, experimente deixar algo valioso sobre a mesa, no mais grã-fino dos ambientes, para ver o que acontece. Sim, são duras estas palavras. Mas é melhor que as ouçamos. Na pior das hipóteses, valem como advertência para nos precavermos: com exceções, nos tornamos um país de ladrões.
Sábado, 24 Dezembro 2005 21:00

As Novas Repúblicas Democráticas e Populares

Durante um século inteiro, o comunismo e as correntes políticas de esquerda que se constituíram a partir das fraudes intelectuais do marxismo quiseram chegar ao poder através da revolução. Afinal, ensinava-lhes o mestre, esse era o caminho.Durante um século inteiro, o comunismo e as correntes políticas de esquerda que se constituíram a partir das fraudes intelectuais do marxismo quiseram chegar ao poder através da revolução. Afinal, ensinava-lhes o mestre, esse era o caminho. Tentaram muitas, realizaram algumas, criaram um imperialismo revolucionário militarizado, construíram muros, aprisionaram bilhões de seres humanos, provocaram os maiores holocaustos da história, mentiram como jamais antes se viu igual, e fracassaram em tudo. Uma de suas maiores fraudes foi a que denominou suas possessões como "repúblicas democráticas e populares". Elas não eram qualquer das três coisas. Com o passar dos anos, tudo isso se tornou sabido, exceto na América Latina.

Aqui se criou o Foro de São Paulo com o intuito específico de preservar tais preciosidades filosóficas e operacionais. As universidades, que deveriam ser templos do desenvolvimento do saber, se comprazem com disputar entre si quem consegue servir mais lixo marxista à burrice acadêmica. Some-se a isso a complacência e a instrumentalização servil da grande mídia, a veneração dos seminários pela teologia da libertação (leitura dos Evangelhos com chave marxista), o despreparo das lideranças sindicais, o absurdo modelo político adotado em comum pelos países latino-americanos, e tem-se, assim, um cenário continental em tudo favorável à prevalência da mistificação e da demagogia.

De fato, sociedade de massa, povo intelectualmente retardado e eleição direta para governantes é o suficiente caldo de cultura para que os "perfeitos idiotas latino-americamos" passem a entregar o poder pelo voto àqueles que antes se esfalfavam inutilmente em estratégias revolucionárias. Chávez, Lula, Kirchner, Evo Morales e outros são a risonha novidade política de um continente cada vez mais dominado pela estultice do sistema que escolheu e das idéias pelas quais foi cavoucar no lixão da experiência humana.

Não é verdade que a inveja mata. Para esses novos falsos profetas, demagogos e mentirosos, que trabalham com os sentimentos menos nobres da alma humana, a inveja é força vital. Entre suas piores artimanhas se inclui suscitá-la em relação aos povos bem sucedidos, apontados, sempre, como responsáveis pelas nossas mazelas, e jamais como objeto de reflexão sobre os modelos que adotam e as condições do sucesso que alcançaram. De duas uma: ou os países da América Latina mudam seu modelo político ou esse modelo político vai acabar com ela. O Novo Mundo chega ao século XXI como estuário da coisa mais velha e mais velhaca que a sociedade humana construiu ao longo da história.
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