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Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Terça, 06 Junho 2006 21:00

O Código dos Bobos

Só fui ler o livro de Dan Brown vários meses depois de a obra formar pilhas que rapidamente se faziam e desfaziam, instaladas no topo das preferências literárias mundiais. Não gostei.

O autor do e-mail estava irado: "Como o senhor ainda tem coragem de se declarar católico quando todo mundo sabe que a Igreja foi uma criação de Constantino no século IV?" Meus botões concordaram comigo: "Eis aí mais um ludibriado do Código Da Vinci".

Só fui ler o livro de Dan Brown vários meses depois de a obra formar pilhas que rapidamente se faziam e desfaziam, instaladas no topo das preferências literárias mundiais. Não gostei. O enredo bem faz jus à palavra: verdadeira maçaroca, que o escritor, até as últimas páginas, visivelmente, não sabia como destrançar.

Qualquer leitor atento percebe que Dan Brown, com o intuito de suscitar o interesse do grande público, vai lançando mão e misturando misticismo, ritualismos secretos, enigmas, feminismo, new age e um elenco de ciências ocultas que, sabidamente, mexem com a imaginação de muitas pessoas. Não houvesse, de fato, fascínio por tais temas, Paulo Coelho estaria redigindo horóscopos em algum jornal de aldeia. Mas o melhor enfeites desse bolo de que se compõe o Código Da Vinci é a afirmação de que Cristo não morreu na cruz, teve filhos com Maria Madalena, e o cristianismo se constitui, portanto, numa grande conspiração que atravessa a história.

Para sustentar tal assertiva, que de um lado estrutura a novela e de outro lhe estimula o marketing, o autor não se contenta com lançar mão de invencionices. Faz pior, declarando como fato, na introdução do livro, que o Priorado de Sião foi criado em 1099. Sabe-se, porém, desde 1989, que essa sociedade secreta foi urdida nos anos 60 do século passado como parte de um golpe ensaiado pelo falsário francês Pierre Plantard com o intuito de se legitimar herdeiro do trono da França e ganhar dinheiro nisso. Plantard confessou sua tramóia, em 1993, perante a justiça de seu país. Dan Brown ainda afirma, no mesmo brevíssimo preâmbulo, sob o título "Fatos", que as descrições de obras de arte, arquitetura e documentos mencionados no livro "correspondem rigorosamente à realidade" ("are accurated", no original em inglês). É ali, portanto, nas primeiras páginas do Código, que Dan Brown se transforma num completo vigarista, sustentado pela curiosidade de muitos (entre os quais eu mesmo) e pela excessiva ignorância de outros tantos. O sujeito do e-mail fazia parte desse último grupo, o grupo dos que não adquiriram senso crítico para distinguir ficção de realidade e trampolinagem de historiografia séria.

Embora julgue que o uso de elementos históricos como base para criação literária exija um mínimo de veracidade, eu não jogaria o trabalho de Dan Brown no lixo apenas por isso. O problema da obra não está em tecer enredo sobre algo que não é verdadeiro, mas em apresentar como verdadeiro o que é falso. E o livro está repleto de erros e trambiques. Dan Brown, aliás, é um Pierre Plantard que deu certo. Este quis fazer os franceses de bobos. Aquele escreveu um verdadeiro código dos bobos.

Quarta, 31 Maio 2006 21:00

Photoshop Eleitoral

Vivemos uma política singular, por absoluta perda da pluralidade. Presenciamos a campanha de um único candidato. Lula surfa solitário sobre a maré de lama de seu governo, impulsionado pelos recursos do Erário.O Photoshop é um software para manipulação de imagens em computador que se converteu em verdadeiro achado para fotógrafos e suas modelos. Com o Photoshop desaparecem das imagens femininas todas as imperfeições. Batida a foto, a pele vira cútis e qualquer mocréia se converte em deusa, falsificada como uma cédula de cento e vinte dólares.

As últimas pesquisas eleitorais evidenciam que o governo Lula está submetido a um efeito publicitário desse tipo. Não se trata mais da velha e conhecida maquilagem. Não. Isso já era. Pintar cabelos, branquear dentes, pozinho aqui, pinceladinhas ali, são coisas do passado. Agora é tratamento completo, reconstrução geral, trabalho de laboratório feito à custa do nosso dinheiro, num esforço sem similar. Não cura o paciente, mas o deixa com jeito de quem vende saúde.

Desse modo, ele chega às telas imaculado, puro como uma virgem de Vesta. Ei-lo, então, transformado em usina de realizações. Refundador da pátria. Fez por nossa independência mais do que D. Pedro. Por nossas relações externas mais do que Rio Branco (embora, como ouvi do economista professor Ubiratan Iorio: "quem já teve em Rui Barbosa a Águia de Haia agora conta com o Pintassilgo de Garanhuns"). O SUS está a um passo da perfeição. Lula é maior do que Vargas. JK é miniatura. O Brasil, saibam os leitores, está confiado a um genuíno estadista, misto de Winston Churchill e Madre Tereza de Calcutá. Meticuloso e prevenido como ele; caridoso como ela. E dê-lhe Photoshop!

No entanto, dado que sou teimoso, creio que o país seria outro se o que está sendo gasto em publicidade fosse aplicado em casas populares, saneamento, educação, saúde e segurança. Seria outro se o governo dispensasse aos nossos quebrados (e quase alquebrados) produtores rurais a mesma diligência e boa vontade com que atende e protege sua tropa de choque, ou se dedicasse a quem produz zelo semelhante àquele com que blinda sua insolvência moral. Seria outro se tivéssemos um governante menos surpreso perante tudo que, contra a nação brasileira, fazem seus fraternos e históricos parceiros internos e externos.

Vivemos uma política singular, por absoluta perda da pluralidade. Presenciamos a campanha de um único candidato. Lula surfa solitário sobre a maré de lama de seu governo, impulsionado pelos recursos do Erário. E tudo indica que os eleitores o esperam na praia, vendo-o como sua imagem está sendo retocada para ser vista: sedutora centerfold da nudez moral do país.
Terça, 23 Maio 2006 21:00

Violência, Pacifismo e Impunidade

Mas não nos conformamos com a tolerância para com o intolerável, com a impunidade dos bandidos de todos os perfis, com as utopias dos lunáticos e com o discurso dos hipócritas.A simples idéia de que a violência possa ser enfrentada por meios pacíficos é tão absurda quanto anti-social, principalmente quando esse pacifismo é cobrado do Estado, inclusive no desempenho de suas funções relacionadas à garantia da ordem pública. O que devemos exigir, seguindo lúcidas observações que li em recente artigo do professor Wambert Di Lorenzo (PUC/RS), é um Estado pacífico, mas não pacifista. Pacífico, esclarece o referido professor, é aquele que preza e defende a paz; pacifista é quem se recusa a qualquer ato de violência.

Durante os dias em que a capital paulista e outras localidades daquele Estado foram conflagradas pelo terrorismo do PCC, eu estava na cidade de São Paulo, participando de um seminário sobre Democracia e Liberdade promovido pelas Atlas Foundation, pela Associação Comercial de São Paulo e pelo site Mídia Sem Máscara. Pude sentir de perto o pânico que tomou conta da população. Escolas, estabelecimentos comerciais e indústrias fechando às pressas. Congestionamento geral no trânsito. Terminais de ônibus desativados. Trabalhadores andando a pé, temerosos. Pais telefonando aflitos para os filhos e vice-versa. Havia um anseio comum de que os poderes públicos agissem e reagissem, evidenciando aos terroristas que o braço da lei tinha peso e vigor.

Há muitos anos, brinca-se no Brasil com a ordem pública. Em nome de um pacifismo que estimula os malfeitores, dá-se livre curso à formação e à consolidação de organizações criminosas, sejam elas dissimuladas sob a máscara protetora dos movimentos sociais, sejam ocultas embaixo de capuzes estendidos sobre o rosto da bandidagem. Aos primeiros, a ideologia concede permanente alvará de soltura e vultosos recursos públicos; aos segundos, os labirintos dos códigos e das leis franqueiam facilidades que raramente conduzem a condenações. E, quando isso resulta inevitável, as penas efetivamente cumpridas estão longe de merecer esse nome. Aos primeiros e aos segundos, somam-se os criminosos engravatados - endinheirados corruptores, e corruptos detentores de mandato -, proxenetas de um aparelho estatal prostituído, abrigados pelos foros privilegiados, pela cumplicidade dos que eventualmente são chamados a julgá-los e por uma regra do jogo político que os convida como lampiões atraem mariposas.

Não podemos lidar com o caos brasileiro como se estivéssemos vivendo na Suíça. A sociedade sabe que as condições morais, sociais e econômicas não concederão tão cedo, nesta terra, paz aos homens de boa vontade. Disso estamos todos conscientes. Mas não nos conformamos com a tolerância para com o intolerável, com a impunidade dos bandidos de todos os perfis, com as utopias dos lunáticos e com o discurso dos hipócritas.
Domingo, 14 Maio 2006 21:00

O Maior Submundo do Mundo

O leitor talvez se indague: mas o Brasil este Brasil próspero do governo Lula, com sua acatada autoridade internacional, ainda integra a comunidade terceiro-mundista?

Lembro dos filmes feitos nos anos 60 e 70, retratando o tédio da sociedade européia. A vida despida de desafios, a rotina convertida em tormento, as empresas que reconheciam o dia da semana pela gravata do patrão, a sexualidade burocratizada, o estresse da falta de estresse. Os ladrões na cadeia e os honestos nas ruas. Tudo tão certo que parecia errado.

Posto que no Brasil a rotina é o desassossego, o Walter Hugo Khoury nunca foi muito convincente ao filmar situações daquele tipo em ambiente nacional. Mas se não morremos de fastio podemos finar-nos de susto. Enquanto o Primeiro Mundo conseguiu livrar-se até mesmo da Guerra Fria, nós não conseguimos nos livrar do Plantão do Jornal Nacional nem da capa da Veja. A propósito, você já pensou, leitor, sobre o quanto deve ser aborrecido o Jornal Nacional da Suíça, noticiando coisas como a tendinite do regente do coral da Basiléia? Ou o Canal 40 da Noruega, com imagens exclusivas da visita dos produtores de cevada ao primeiro-ministro Bondevik?

Nossa agitação é própria de país "em vias de desenvolvimento" (expressão politicamente correta e estimulante com que se designava o Terceiro Mundo naqueles anos bem-educados). No Terceiro Mundo descumprimos as leis (um pouco menos, talvez do que aqueles que as fazem), gastamos horas assistindo o festival de mentiras das CPIs e cremos que é apenas através de um gasoduto e não pelo mesmo sistema político, afinidades ideológicas e grande estima aos demagogos que estamos conectados com a Bolívia.

O leitor talvez se indague: mas o Brasil este Brasil próspero do governo Lula, com sua acatada autoridade internacional, ainda integra a comunidade terceiro-mundista? Claro, assim como existe o mundo do aquém e o mundo do além, há um mundo e um submundo. E a grandeza de um é inversamente proporcional à do outro: quanto mais se avança na escala do submundo, mas se recua na escala dos mundos. Portanto, o Brasil é Terceiro Mundo devido ao porte do seu submundo.

Um país onde o submundo comanda o governo e controla, durante anos, o partido do governo, um país onde o submundo, se fosse um império, seria a pedra preciosa mais visível da coroa, tem um submundo de primeiríssimo nível, classificando-se no pior dos mundos. Augusto Comte afirmava que os vivos são cada vez mais governados pelos mortos. Eu discordo. Creio que os mortos nada governam, mas sustento que o Brasil é, cada vez mais, governado pelo seu submundo.

Quarta, 10 Maio 2006 21:00

Com a Boca na Botija

Pelo elenco de elogios com que nosso presidente envolve seu maninho cocaleiro não tenho dúvidas sobre quem seja o Abel dessa tragédia.

Conhecido lingüista brasileiro encontrava-se em seu gabinete, dedicado a certas práticas libidinosas com a secretária, quando a esposa, que silenciosamente abrira a porta, exclamou: "Fulano! Estou surpreendida!" O mestre do idioma, sem perder a compostura, imediatamente corrigiu: "Não, querida, tu estás surpresa. Eu é que fui surpreendido".

Lula também confunde os vocábulos e a todo momento se declara surpreso, traído, inadvertido, com fatos que ocorrem no círculo mais próximo de suas relações internas e externas. Não obstante, do subterrâneo ao telhado do espaço interno, tudo foi construído em seu benefício. E, no espaço externo, tudo é resultado das diretrizes do Foro de São Paulo, que ele organizou, presidiu e considera como a "consolidação daquilo que começamos em 1990, quando éramos poucos, desacreditados e falávamos muito" (pronunciamento feito no 15º Aniversário do FSP, em 02/07/2005). No caso de Evo Morales, todos sabiam que a expropriação era bandeira do líder do Movimento ao Socialismo, o MAS boliviano. E sequer a contradição entre isso e os interesses nacionais impediram que nosso Chefe de Estado se imiscuísse nas eleições daquele país nem tornasse menos explícito ou condicionado o seu apoio. O governo brasileiro tinha candidato na Bolívia, cujo atual mandatário chama Lula de "irmão mais velho". Pelo elenco de elogios com que nosso presidente envolve seu maninho cocaleiro não tenho dúvidas sobre quem seja o Abel dessa tragédia. Não, Lula não está surpreso. Lula foi surpreendido com a boca na botija de suas referências, práticas políticas, ideologias e relações pessoais.

Marco Aurélio Garcia, por exemplo, encerra um artigo intitulado "O Manifesto e a refundação do comunismo", publicado no nº. 36 de "Teoria e Debate", um ano antes da eleição de Lula, com as seguintes palavras: "Um novo pensamento crítico não negará o passado, aprenderá com seus erros, mas sobretudo saberá resgatar nas experiências das revoluções desses últimos séculos as esperanças, a generosidade e o brilho que iluminou mesmo as noites mais escuras. Se o novo horizonte buscado ainda se chama comunismo, está na hora de sua refundação". Pois é esse refundador que conduz, em nome de Lula, a política externa brasileira a uma seqüência de erros crassos.

A soma desses erros acabou por transformar, como tenho dito, a cobiçada poltrona no Conselho de Segurança da ONU num banquinho junto à sala de espera. Não, não erramos apenas agora, ao desautorizar o presidente da Petrobrás e ao ceder nosso interesse estratégico em favor da Bolívia. Nosso governo errou ao admitir a China, verdadeira senzala, como um país de economia de mercado. A escravidão laboral daquele país e sua ação predatória na economia mundial já produzem conseqüências terríveis ao Brasil. Errou ao ajudar a bloquear resoluções da Comissão de Direitos Humanos da ONU contra a China, a Rússia e Cuba. Errou ao fixar o conceito geopolítico de nossa diplomacia e a ação externa de Lula nos mesmos patamares populistas e demagógicos que o levaram a vencer a eleição nacional. Errou ao promover a lamentável Cúpula América do Sul - Países Árabes, convertida numa tribuna anti-americana e anti-israelense, na qual o conceito de democracia foi submetido aos piores tratos e o terrorismo lidado com luvas de pelica. Definitivamente, Lula e o PT escolhem a dedo seus parceiros, dentro e fora do país.

Sábado, 06 Maio 2006 21:00

Surfando na Maré de Lama

Uma simples passada pela internet mostrará que o tema da impunidade é recorrente nos textos que tratam dos mais variados crimes.Uma simples passada pela internet mostrará que o tema da impunidade é recorrente nos textos que tratam dos mais variados crimes. A afirmação que faço não é descabida: em nosso país as atividades ilegais são as mais rentáveis. E as mais seguras. O planejamento de toda ação criminosa envolve uma avaliação de ganhos e riscos. Imagino algo assim como uma fração que tenha como dividendo o ganho estimado e como divisor o risco. Tanto maior o ganho, ou tanto menor o risco, maior o quociente que expressa o resultado. Pois no Brasil, suponho que o divisor só seja considerado diferente de zero porque, se zero fosse, o quociente resultaria sempre igual e infinito. Só por isso.

A impunidade se constrói nos meandros do Código de Processo Penal em cujos labirintos se orientam os bons advogados. Na licenciosa permissividade das execuções penais e na progressão das penas (inclusive para os crimes mais hediondos). Na tolerância para com os delitos praticados contra pessoas e contra a propriedade pública e privada pelos tais "movimentos sociais". Na cotidiana repetição de fatos como o ocorrido no mês passado, quando um mesmo receptador de automóveis, proprietário de um desmanche, foi preso pela quarta vez acusado do mesmo crime. Sim, com grande freqüência, a polícia prende e a Justiça solta. Não se negue tal realidade porque um magistrado, perante o prontuário de alguém preso repetidas vezes por receptação, deve saber o que essa pessoa fará contra os cidadãos que lhe pagam o salário ao ser posta em liberdade. E a impunidade também se constrói no formato das nossas instituições, nos foros privilegiados, na politização das mais altas cortes e tribunais, nas prerrogativas especiais, bem como num sistema eleitoral que estimula a representação dos grupos de interesse, a corrupção, a infidelidade partidária e toda sorte de barganhas.

A impunidade se expressa nitidamente no fato de que, apesar de ocuparmos o 63º lugar entre os países mais corruptos do mundo, não há em nossas cadeias um só político detentor de efetivo poder preso por crime de responsabilidade. Ela se solidifica quando ficamos sabendo, através de recente artigo do Dr. Cândido Prunes, que o processo contra Zélia Cardoso de Mello se arrasta há 15 anos nas prateleiras do Poder Judiciário. Ou quando o processo sobre o valerioduto no Rio Grande do Sul é rapidamente encerrado em troca de cinco míseras cestas básicas. Ou, ainda, quando se sabe, malgré tout, que o atual presidente da República recolhe 40% das intenções de voto em todo o país.

Os petistas remanescentes ainda tocam flauta, deduzindo, desses números, que a sociedade está nem aí para as acusações que recaem sobre o governo Lula. E tudo indica que têm razão: o presidente surfa desinibido sobre a maré de lama em que se afogaram sua equipe e o alto comando de seu partido.
Terça, 25 Abril 2006 21:00

Impeachment, Sim ou Não?

Jogam, também, entre outros agentes e fatores, as forças políticas, suas composições e interesses, a opinião pública e, até mesmo, a conveniência nacional.

"That's the question!", responderia Hamlet. A nação brasileira pode ser representada pelo personagem de Shakespeare, tendo em mãos a caveira que expressa a sinistra perda de autoridade moral do governo Lula. O que fazer com ele, a partir de quanto se sabe?

Alguns parâmetros conhecidos ajudam nossa reflexão. Quando se trata de delito praticado por agente político no exercício da função, ocupante de poltrona de espaldar alto e tinta na caneta, a impunidade é uma certeza absoluta se o processo é enviado para congelamento nos freezers e para as delongas nos labirintos processuais do Poder Judiciário. As pequenas chances de condenação, incrivelmente, ficam na esfera do próprio Legislativo, onde, ocasionalmente, o jogo de interesses ainda pode produzir alguma sanção.

No caso do presidente, nosso ordenamento constitucional determina que a acusação por crime de responsabilidade precisa ser admitida por dois terços da Câmara dos Deputados, como condição para posterior julgamento perante o Senado Federal em sessão dirigida pelo presidente do STF. Nas duas situações, o foro de decisão é político e não entram em jogo, apenas, a letra da lei ou o binômio crime-castigo. Jogam, também, entre outros agentes e fatores, as forças políticas, suas composições e interesses, a opinião pública e, até mesmo, a conveniência nacional.

Lula vive a sexta parte final de seu mandato. Estamos a pouco mais de sessenta dias das convenções que indicarão os parelheiros do páreo presidencial, entre os quais se alinhará ele mesmo. A eleição se trava dentro de pouco mais de cinco meses e esse dado não pode ser afastado de qualquer juízo de conveniência sobre uma acusação por crime de responsabilidade contra o presidente. A legitimidade do Congresso Nacional para as tarefas que lhe caberiam nesse caso é derivada do poder popular. Mas não parece próprio exercê-las às vésperas do momento em que a própria sociedade disporá dos meios para julgar o presidente por suas ações e omissões.

O Caso Lula é infinitamente mais grave do que o Caso Collor, mas o calendário corre a favor do nosso estadista de Garanhuns. Na perspectiva institucional estão perfeitamente asseguradas as causas e as condições formais para o processo de acusação ao presidente, mas não estão mais disponíveis as condições políticas. Impeachment, agora, embora não o sendo, ficará muito parecido com tentativa de golpe congressual. E, ademais, alguém aí acredita que essa casa de tolerância em que se converteu o atual Congresso haveria de ser rigorosa logo com o Lula? Aliás, reparou você o sorriso macabro da caveira nas mãos do nosso fictício Hamlet? Adivinhe de quem ela ri.
"That's the question!", responderia Hamlet. A nação brasileira pode ser representada pelo personagem de Shakespeare, tendo em mãos a caveira que expressa a sinistra perda de autoridade moral do governo Lula. O que fazer com ele, a partir de quanto se sabe?

Alguns parâmetros conhecidos ajudam nossa reflexão. Quando se trata de delito praticado por agente político no exercício da função, ocupante de poltrona de espaldar alto e tinta na caneta, a impunidade é uma certeza absoluta se o processo é enviado para congelamento nos freezers e para as delongas nos labirintos processuais do Poder Judiciário. As pequenas chances de condenação, incrivelmente, ficam na esfera do próprio Legislativo, onde, ocasionalmente, o jogo de interesses ainda pode produzir alguma sanção.

No caso do presidente, nosso ordenamento constitucional determina que a acusação por crime de responsabilidade precisa ser admitida por dois terços da Câmara dos Deputados, como condição para posterior julgamento perante o Senado Federal em sessão dirigida pelo presidente do STF. Nas duas situações, o foro de decisão é político e não entram em jogo, apenas, a letra da lei ou o binômio crime-castigo. Jogam, também, entre outros agentes e fatores, as forças políticas, suas composições e interesses, a opinião pública e, até mesmo, a conveniência nacional.

Lula vive a sexta parte final de seu mandato. Estamos a pouco mais de sessenta dias das convenções que indicarão os parelheiros do páreo presidencial, entre os quais se alinhará ele mesmo. A eleição se trava dentro de pouco mais de cinco meses e esse dado não pode ser afastado de qualquer juízo de conveniência sobre uma acusação por crime de responsabilidade contra o presidente. A legitimidade do Congresso Nacional para as tarefas que lhe caberiam nesse caso é derivada do poder popular. Mas não parece próprio exercê-las às vésperas do momento em que a própria sociedade disporá dos meios para julgar o presidente por suas ações e omissões.

O Caso Lula é infinitamente mais grave do que o Caso Collor, mas o calendário corre a favor do nosso estadista de Garanhuns. Na perspectiva institucional estão perfeitamente asseguradas as causas e as condições formais para o processo de acusação ao presidente, mas não estão mais disponíveis as condições políticas. Impeachment, agora, embora não o sendo, ficará muito parecido com tentativa de golpe congressual. E, ademais, alguém aí acredita que essa casa de tolerância em que se converteu o atual Congresso haveria de ser rigorosa logo com o Lula? Aliás, reparou você o sorriso macabro da caveira nas mãos do nosso fictício Hamlet? Adivinhe de quem ela ri.

Domingo, 16 Abril 2006 21:00

A Desmoralização da Moral

Era a luta dos virtuosos contra os indecentes. Eram os defensores da dignidade seduzindo os bons brasileiros na refrega que mantinham com os degenerados da pátria. Puxa, como isso deu voto!Em dois dos últimos debates de que participei ouvi que a oposição ao governo Alckmin em São Paulo suscitou 69 CPIs. Os informantes foram dois deputados petistas, um federal e outro estadual, em programas de rádio e tevê. Acho que a  orientação já foi para a cartilha: se levantarem tema relacionado com as CPIs do Congresso, rebata-se com as que foram pedidas pelo PT contra o ex-governador e engavetadas no parlamento paulista.

Nada contra a boa organização, lubrificada, conforme se descobriu, à custa de muito dinheiro. Mas tudo, tudo mesmo, contra a desmoralização da moral num país que já ocupa o 63º lugar entre os mais corruptos do planeta. Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a oposição propôs dezenas de CPIs. Era a luta dos virtuosos contra os indecentes. Eram os defensores da dignidade seduzindo os bons brasileiros na refrega que mantinham com os degenerados da pátria. Puxa, como isso deu voto! A bancada petista no Congresso cresceu quase geometricamente nos últimos doze anos. Havia o certo e o errado, o bem e o mal, o moral e o imoral.

Com a eleição de Lula esperei pelas rigorosas investigações que não mais dependiam de CPIs. O PT detinha o comando de todos os organismos institucionais necessários e suficientes para fazer a completa varredura do entulho sórdido que, à torto e a direito, imputava aos adversários quando na oposição: ABIN, Polícia Federal, Corregedoria Geral da União, Banco Central, Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça. Chegara a hora de o Zorro trancafiar o sargento Garcia para o resto da vida.  Fizeram qualquer movimento nessa direção? Não! A maior evidência de todas as leviandades antigas foi dada em fevereiro de 2005, quando Lula escorregou no tomate e confessou ter mandado calar a boca um "alto companheiro" que lhe falou de irregularidades ocorridas no BNDES durante a gestão anterior. Lembram? Pois é. Ficou tudo por isso mesmo, resumido a um discurso feito como quem fala em mesa de bar, jogando lama de modo irresponsável sobre a honra alheia e com mais sujeitos ocultos do que teste de análise sintática em prova de língua portuguesa.

Por outro lado, no exercício do governo, acumularam tal soma de delitos que o Procurador Geral da República identificou a existência de verdadeira organização criminosa, à qual deu o nome certo de quadrilha. Mesmo assim, as lideranças petistas ainda desfilam a velha arrogância. Fazem parecer que a oposição, recolhendo fragmentos de informações que o presidente tem ou deveria  ter inteiras sobre a escrivaninha, produz tempestade em copo d'água. Falam como se estivéssemos perante trivialidades, sem sentido maior, sob o comando autista de um presidente que nada sabe, ainda que, por dever de ofício, esteja rodeado de informantes. Quando percebo que parcela significativa da sociedade está convencida de que é assim mesmo, resulta evidente, para mim, que o maior delito do governo Lula foi ter desmoralizado a moral.
Terça, 11 Abril 2006 21:00

A Força da Gravidade

E agora, olho para as pesquisas de opinião e vejo que é exatamente ali, nos grotões, à custa de farta distribuição de donativos, bolsas, vales e sacolões que Lula se entrincheira para o pleito de outubro.Muitos artigos escrevi e muitas palestras fiz ao longo dos últimos quinze anos combatendo certas frentes: as ideologias utópicas, a influência marxista na Igreja através da tal Teologia da Libertação, o apoio de muitos bispos e padres aos métodos revolucionários do MST e ao próprio PT, e as estratégias de ação desse partido. Reconheço que fui um chato de galocha, cumprindo, não sem padecimento pessoal, o papel missionário que a consciência política e a formação católica me impunham. Emitia opiniões num tempo em que não ser petista já constituía pecado grave e combater o PT era caso de excomunhão. Enfrentava apenas idéias, mas me tornei objeto da velha tática stalinista da difamação e das agressões pessoais. A carteirinha do PT era o oitavo e o mais efetivo dos sacramentos e negar que assim fosse constituía insuportável sacrilégio.

O Partido dos Trabalhadores se exibia como estuário de toda virtude nacional. No leque ideológico, só havia pecado a leste do PT, que cumpria, com furores de Torquemada, o papel de grande inquisidor das heresias políticas desalinhadas da beata esquerda tupiniquim. E eu, do alto de minhas surradas tamancas, ousava dizer que não era bem assim.

Para zilhões de brasileiros, o PT e seus correlatos eram tudo. Encarnavam a decência, a inteligência acadêmica e a conseqüente solução para todos os problemas. Eram a locomotiva capaz de levar a classe operária ao paraíso. Havia invasões, atos criminosos, quebra-quebras. Distribuíam-se, a esmo, injúrias e difamações. Mas a moral revolucionária, para ser salvadora, não pode dar bola a pequenos valores burgueses do Estado de Direito. Ali estava, por fim, o partido da sociedade de massa, do Brasil urbano, opondo-se às práticas rasteiras e corruptas das elites rurais que costumeiramente cabresteavam, com pequenos favores, o miserável eleitorado dos grotões.

De tudo isso eu me lembro. E agora, olho para as pesquisas de opinião e vejo que é exatamente ali, nos grotões, à custa de farta distribuição de donativos, bolsas, vales e sacolões que Lula se entrincheira para o pleito de outubro. A força da gravidade, inclemente, traz para baixo tudo que foi cuspido para o alto. A decência não resistiu ao menor contato com o pragmatismo. A inteligência não pariu um único projeto para o Brasil. Impôs-se o império da mentira. Operário não viaja nem como pingente no vagão para o paraíso, que trafega lotado de banqueiros. E quem viver, verá: o sucesso petista na eleição presidencial depende do mais subalterno, desinformado e corruptível dos eleitores - aquele que pode ser comprado com favores oficiais.
Terça, 04 Abril 2006 21:00

"Lição de Consciência"

E Palocci foi para o mesmo lugar onde já estão tantos ex-amigos íntimos de um presidente que, a estas alturas, só cuida de tirar o seu da reta.Há muito tempo, precisando ler ou reler algum discurso de Lula, eu acessava o site da Radiobrás onde estavam transcritas as íntegras de todos os pronunciamentos presidenciais. No último dia 28, ouvi pelo rádio do carro a fala de Lula no ato de posse de Guido Mantega. Enquanto dirigia, ia me divertindo com aquela arenga porque, bem no feitio de seus improvisos, Lula desfiava frases desconexas e saltitava entre vários assuntos, atropelando concordâncias, inventando formas verbais, discorrendo sobre a história do Brasil, e proclamando suas demasias. Naquele discurso, porém, Lula se excedeu e chegou ao cúmulo de afirmar que vai entregar o Brasil "numa situação infinitamente melhor do que recebeu". E, para não deixar dúvidas sobre o valor do expoente matemático que estava usando para definir os avanços de seu governo, repetiu sob aplausos da lúcida assistência: "infinitamente melhor!". "La pucha!", pensei eu.

Em certo momento, o presidente desandou a filosofar sobre alegrias e prazeres, sobre os fatos da vida, e, subitamente, dirigindo-se a Palocci, disparou a frase que conquistou algum destaque no dia seguinte: "Penso que tudo isto significa, para um jovem como você, apenas mais uma lição, um aprendizado, que, certamente, encaixou na sua consciência." Não li, porém, nos veículos que destacaram a frase, uma linha sequer sobre o que o presidente efetivamente quis dizer com aquilo.

Foi então que decidi escrever este artigo e acessei o site da Radiobrás para recuperar a íntegra do pronunciamento. No entanto, o banco de dados dos discursos de Lula, havia sumido. Perdeu-se aquela fonte de tolices. Para produzir as transcrições acima foi preciso um pouco de sorte e encontrar o áudio da fala presidencial ainda disponível no site de O Globo.

Num ato político tão significativo como a queda de seu ministro da Fazenda, o presidente lhe fala em "lição de consciência". Qual o significado dessa frase? Estaria o presidente afirmando que a consciência de Palocci precisava de uma lição? Como conciliar isso com o restante da fala, repleta de elogios e afeto? O que seria o "tudo isso" que Lula julga ter servido de lição ao "companheiro mais do que irmão" Palocci? Seria tudo tudinho mesmo? A multifuncional mansão no lago, os fatos de Ribeirão Preto, as persistentes relações com Buratti, o extrato da conta bancária do caseiro? É surpreendente o tratamento dispensado pela grande mídia a uma afirmação tão importante e, ao mesmo tempo, tão enigmática.

Pessoalmente cheguei a uma conclusão. Aquilo foi dito de caso pensado. Lula, enquanto abraçava e beijava Palocci, despachava-o para longe de si com uma frase cujo resumo é este: "Espero que isto te sirva de lição". E Palocci foi para o mesmo lugar onde já estão tantos ex-amigos íntimos de um presidente que, a estas alturas, só cuida de tirar o seu da reta.
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