Sáb11162019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Segunda, 14 Agosto 2006 21:00

Marxismo e Criminalidade

O ato criminoso se torna, assim, incontornável feito justiceiro e evidência das contradições do "sistema". Não há mais o mal nem o bem em si mesmos. Tudo se torna relativo, a depender do lado onde se esteja.

O surgimento de eventuais viroses culturais no meio acadêmico é da própria natureza das instituições voltadas ao conhecimento. A abertura da mente faculta o ingresso de quaisquer idéias e cabe à Razão pôr em operação os mecanismos capazes de separar o joio do trigo. Isso é normal e sempre foi assim, desde a Idade Média, quando as academias nasceram em berço católico.

No entanto, o que acontece no Brasil em relação ao marxismo se distingue da infecção eventual, que contamina aqui e ali. O que temos é resultado de um deliberado ataque bacteriológico, voltado ao extermínio e agindo sobre o próprio órgão cerebral capaz de produzir a seleção entre o certo e o errado. Através da universidade, a letal agressão atingiu seminários, comunicação social, pessoal recrutado para as atividades da administração e do Estado e produz danos em todos os espaços da vida social.

Um deles diz respeito à segurança pública. Na leitura mentalmente enferma do marxismo, a pobreza é causada pela riqueza e a criminalidade é produto do conflito entre as classes sociais. No momento em que o mal do marxismo se instala na mente humana, o portador da enfermidade começa a delirar e passa a afirmar que o bandido é vítima e a bradar que, no fundo, a vítima é o verdadeiro agressor. O ato criminoso se torna, assim, incontornável feito justiceiro e evidência das contradições do "sistema". Não há mais o mal nem o bem em si mesmos. Tudo se torna relativo, a depender do lado onde se esteja. O único absoluto é a luta de classes, critério de juízo e chave de leitura de quaisquer acontecimentos, do estupro ao mensalão, passando pelo roubo de cargas e pelo refino de cocaína.

A moral evidentemente desaba e, com ela, a ordem pública. Os criminosos merecem mais zelos, atenções e garantias do que suas vítimas. As leis penais perdem três elementos determinantes de sua eficácia - o desestímulo ao crime, a punição do ato criminoso e o isolamento dos indivíduos perigosos - sob a prevalência de uma "justiça piedosa" que outra coisa não é senão a falência da própria justiça.

Todo esse cenário, que bem conhecemos, só poderá ser modificado se e quando o vírus da análise marxista reduzir sua atividade determinante. Se e quando abrandar a influência do "politicamente correto" como forma de dominação intelectual. Se e quando a febre ceder no próprio espaço onde ele se instalou: o espaço dos fazedores de cabeça.

Sexta, 04 Agosto 2006 21:00

Assunto de Família?

Afinal, educação sexual é necessária? Sim, e muito. Nas escolas? Também. Só para os alunos? Não. Os equívocos que se tem percebido nas experiências feitas nesse campo decorrem de idéias erradas sobre o que seja educação.

A imprensa registra, periodicamente, fatos exóticos ou escandalosos envolvendo iniciativas pedagógicas no campo da educação sexual. Quando isso acontece, os pais, que provavelmente andavam preocupados com o assunto, preocupam-se ainda mais, enquanto escolas e autoridades que pretendiam avançar nesse campo refluem de suas intenções. O tema é delicado. Afinal, educação sexual é necessária? Sim, e muito. Nas escolas? Também. Só para os alunos? Não. Os equívocos que se tem percebido nas experiências feitas nesse campo decorrem de idéias erradas sobre o que seja educação.

A liberdade com que o temário é abordado nos meios de comunicação tem feito com que as crianças deste início de milênio pareçam ter vindo ao mundo perfeitamente a par dos "fatos básicos da vida" (como se dizia antigamente), da mesma forma como parecem nascer gostando de ketchup e sabendo mexer com relógio digital, telefone celular e computador.

A necessária educação sexual não deve ser confundida com simples instrução sobre anatomia, desenvolvimento dos órgãos reprodutivos e fisiologia do ato. Menos ainda há de ser vista como simples oportunidade curricular de orientar a gurizada para a prática do chamado sexo seguro. Educação vai muito além da simples informação.

Por paradoxal que possa parecer, quanto mais os jovens dão sinais de estarem informados sobre sexo, mais evidências fornecem de andarem desorientados a respeito dos muitos aspectos da vida sexual que transbordam da questão anatômica e fisiológica e que envolvem o caráter incomparavelmente humano da sexualidade. Ao contrário do que a cultura contemporânea se empenha em sustentar, nenhuma ação humana é apenas animal. Se tudo o que fazemos é humano por natureza, que dizer do ato com que a própria vida tem origem? Quanto mal produz quem transmite a jovens e a adultos conceitos que reduzem o sexo a artigo de consumo, a pessoa ao corpo, e o corpo a um parque de diversões!

A única faixa etária em que cresce o índice de natalidade é a da adolescência. É fácil presumir a quantidade de dramas ocultos por trás dessas estatísticas. Elas refletem relações desordenadas que começam por onde as afeições maduras e bem sucedidas tendem a chegar. Por tudo isso, parece urgente re-humanizar a sexualidade mediante uma educação que, como toda educação digna desse nome, a oriente para o bem.

Sustento, então, a necessidade de que as escolas, de modo correto e com profissionais habilitados, tratem desse assunto com os alunos em presença dos pais. Afinal, a última palavra sobre a educação dos filhos é atribuição deles.

Domingo, 30 Julho 2006 21:00

Vai Um Privilégio, Aí?

Imagine, leitor, que você soubesse da existência de um privilégio disponível em algum lugar e ainda não buscado por alguém. Era só ir até lá acompanhado de um "pistolão" com prestígio suficiente para concedê-lo. Você iria?

Imagine, leitor, que você soubesse da existência de um privilégio disponível em algum lugar e ainda não buscado por alguém. Era só ir até lá acompanhado de um "pistolão" com prestígio suficiente para concedê-lo. Você iria? Ao ponderar essa questão no íntimo de sua consciência você certamente levaria em conta noções do tipo: "se eu não for alguém vai", ou "pistolão existe para isso, mesmo", ou ainda, "não fui eu quem criou o privilégio, se ele está lá é para ser buscado".

Não se amargure, meu amigo, minha amiga, com a possível brecha que a questão proposta acima possa sinalizar na rigidez de seu caráter. O problema, em princípio, não está na decisão que você tome; ele reside na existência do privilégio e nos padrões políticos e sócio-culturais que o criaram. É evidente que todo privilégio é abusivo na medida em que dele fica excluída a maioria; partilhado por muitos ou por todos, o privilégio perde a finalidade (e a graça).

Existem vários tipos de privilégios. O estacionamento coberto, o elevador privativo, a carteirinha que permite entrar de graça onde outros pagam, por exemplo, são expressão pequena de um mal muito maior. Sua expressão mais nociva está nos privilégios buscados junto às instituições públicas, convertidos em lei, constituídos em direito adquirido, de modo a produzir efeitos permanentes.

Tais privilégios são a vareta dos trapezistas da cena política nacional. É graças a essa vareta que eles se equilibram e não caem. E é por causa dela que o bem comum falece e a sociedade brasileira tarda em desenvolver uma cultura de justiça e eqüidade. Examine a pauta de qualquer casa legislativa (municipal, estadual ou federal); exclua os projetos de origem dos respectivos poderes executivos, e você verá que a maior parte do esforço legislativo está centrado na distribuição de favores públicos.

Por quê? A razão é sempre a mesma: o nosso sistema eleitoral, a regra do jogo político, permite que a maioria dos parlamentares se eleja mediante votos obtidos junto a grupos de interesse em nome dos quais trabalham, junto aos quais depositam sua fidelidade e com cujo benefício se comprometem de modo exclusivo. Enquanto a sociedade não perceber isso e não se empenhar na mudança da regra do jogo, continuaremos aplaudindo os mesmos atletas e suas reprováveis piruetas.

Terça, 25 Julho 2006 21:00

Um Notável Exemplo

Confesso que descri. Quando ouvi falar em Pacto pelo Rio Grande convidei meus botões para uma reunião e lhes disse: "Essa eu frito no dedo! Políticos de diferentes partidos, em ano eleitoral, chegarem a um entendimento sobre medidas que descontentarão expressivos segmentos funcionais?

Confesso que descri. Quando ouvi falar em Pacto pelo Rio Grande convidei meus botões para uma reunião e lhes disse: "Essa eu frito no dedo! Políticos de diferentes partidos, em ano eleitoral, chegarem a um entendimento sobre medidas que descontentarão expressivos segmentos funcionais? Pago para ver!". Meus botões se conservaram no habitual silêncio e nada revelarão da conversa que mantivemos, mas, ainda assim, sou devedor deste ato de contrição. Confesso que descri. Nossa Assembléia Legislativa acabou fornecendo ao Estado e ao país um notável exemplo de responsável dedicação ao interesse público e de superação de divergências ante o realismo imposto pelo desarranjo das colunas orçamentárias.

Por si só, o expressivo conjunto de medidas aprovadas não resolve o desnível instalado entre a receita e a despesa. Outras providências, igualmente necessárias, dependem de: a) alterações constitucionais federais e estaduais; b) negociações tão imperiosas quanto difíceis com a União; e c) amplo conjunto de providências administrativas de cunho geral e pontual. Mas se as disposições agora inseridas na Lei de Diretrizes Orçamentárias ainda são insuficientes, elas revelam uma sadia disposição que sinaliza para tempos melhores. E isso aconteceu num parlamento que costuma ter ouvidos sensibilíssimos ao clamor das corporações e das galerias.

Não se invoquem contra os preceitos do Pacto - ao menos não ante os segmentos sociais conscientes das graves dificuldades financeiras do Estado - as costumeiras alegações fundadas nos preceitos constitucionais sobre independência dos Poderes. Elas afrontam a razão. Se essa independência não aceitasse restrição ou limite, o Legislativo, o Judiciário e o Executivo poderiam encaminhar suas propostas orçamentárias também isentas de limites ou restrições. Não temos três "Estados", mas três poderes de um mesmo Estado, a serviço do mesmo povo, cujos recursos são escassos. E deveriam sê-lo para todos.

A cada ano, contudo, o Judiciário e o Ministério Público aumentam sua fatia no bolo tributário. Como toda circunferência que se preze está limitada a meros 360 graus, a fatia do Executivo perde substância em notório prejuízo de um vasto conjunto de serviços públicos. Ora, se o argumento da independência dos poderes tivesse a abrangência que se alega para justificar as pretensões do Judiciário e do Ministério Público, seria forçoso reconhecer, então, que o Executivo estaria perdendo, a cada ano, um pouco da independência que lhe é constitucionalmente assegurada.

As coisas, bem se vê, não são como se alega. A independência dos poderes não pode pressupor nem implica tal largueza orçamentária. Nesse particular, há limites determinados pelo senso comum e há, sobretudo, limites impostos pelo bem comum. Foi o que a Assembléia reconheceu. Não se pode, em nome da independência, e menos ainda em nome da harmonia também constitucional, cobrar perda de "independência", penúria e sacrifício a apenas um dos poderes de Estado. Nem ampliar, ad infinitum, o déficit público e o endividamento dos rio-grandenses.

Quinta, 20 Julho 2006 21:00

Violas Ensacadas

Por isso, sou grato às muitas e estimulantes mensagens que recebo contendo reconhecimentos dos quais me considero destituído dos correspondentes méritos. Apenas combati o que via.

Primeiro eram cartas. Longas e desaforadas cartas, não raro manuscritas (só de pensar em escrever tanto assim com a mão já fico com tendinite). Depois foram as grosserias e baixarias num espaço de interação com o visitante que abri (e logo fechei) em meu site pessoal. A seguir foram os infindáveis e renitentes e-mails. De vez em quando surgia algum bem redigido, contendo argumentos e suscitando o desejo de responder e contra-argumentar. Gradualmente fui percebendo que, mesmos estes últimos, incorriam na sistemática incapacidade de conduzirem qualquer discussão ao completo esclarecimento: quando sua posição perdia substância, mudavam de assunto e abriam outro debate até comporem o mesmo e infindável rosário de vigorosos ataques e frágeis e fugidias defesas. Fui colecionando todo esse material e não exagero se afirmar que dá para escrever um livro só com ele. Não o faço porque será uma obra chata e repetitiva. Quase uma cartilha sobre como encher a paciência dos outros.

A partir de 2003, essas mensagens foram se reduzindo, minguando em freqüência e volume, até cessarem por completo. As violas acabaram sendo ensacadas e as contrariedades enrustidas num silêncio sepulcral. Não duvido de que os consultórios psiquiátricos andem repletos de novos pacientes, portadores de uma síndrome de depressão ideológica em busca de cura e saúde.

Vez por outra, algum desconhecido, ao encontrar-me nas ruas, em postos de gasolina, restaurantes, saídas da missa, vem ao meu encontro para chamar-me de profeta. Não visto a túnica, contudo, porque sei que ela não me serve. Em momento algum, ao longo das últimas duas décadas, fui capaz de prever os terríveis descaminhos pelos quais transitaria a política nacional nestes últimos anos. Seria um profeta incompetente e sem inspiração, perante a fértil perfídia evidenciada pela esquerda ao assumir o poder.

Por isso, sou grato às muitas e estimulantes mensagens que recebo contendo reconhecimentos dos quais me considero destituído dos correspondentes méritos. Apenas combati o que via. E o que via era muito menos do que seria possível intuir se tivesse capacidade para tal. Assim, posso exibir tão-somente o termômetro da interatividade acima mencionada. Ela é uma evidência, bem catalogada, de que a militância enfurecida perdeu impulso e, em muitos casos, a própria razão de existir. E isso produzirá conseqüências políticas e eleitorais nos pleitos que se avizinham.

Sábado, 08 Julho 2006 21:00

Qual é o Pior?

Duvido de que haja, entre os países democráticos, parlamento pior do que o brasileiro. Mas isso não significa que o governo seja melhor. O número de escândalos debitados na conta deste último já lhe reserva página inteira no Guiness Book.

Qual? Nosso Congresso ou nosso governo? Duvido de que haja, entre os países democráticos, parlamento pior do que o brasileiro. Mas isso não significa que o governo seja melhor. O número de escândalos debitados na conta deste último já lhe reserva página inteira no Guiness Book. No entanto, pense bem antes de embarcar na onda que pretende confundir os maus congressistas com a instituição parlamentar. Até esse Congresso, com mensaleiros e sanguessugas, é melhor do que nenhum Congresso, e serviu para conter os arroubos totalitários ensaiados pelo governo Lula.

É bom lembrar. Quando morreu Celso Daniel, durante a campanha de 2002, o alto comando petista desabou lacrimoso sobre Santo André, lançando suspeitas contra os adversários do PT e exigindo rigorosas investigações. De repente, surgiu a figura do Sombra, e o mesmo comando tratou de encerrar rapidamente o processo. O Ministério Público paulista, inconformado com o inquérito, deu seqüência às investigações que acabaram por trazer à tona um esquema de corrupção que beneficiava diretamente a Executiva Nacional do partido já então no governo. Nesse exato momento surgiu a idéia de criar uma lei que amordaçasse promotores, juízes, autoridades policiais e administrativas. Foi o projeto da Lei da Mordaça, um cadáver insepulto que pode reviver a qualquer momento.

O Conselho Nacional de Jornalismo foi outro ensaio. Como escreveu o jornalista José Nêumanne à época, aquela era uma idéia capaz de matar de inveja Stalin, Hitler e Mussolini. Em vez de apelar para a censura, o projeto criava um conselho encarregado de cassar o registro dos adversários. Na mesma linha se incluía a idéia de criar a Ancinav (Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual), para assumir "o planejamento, a regulação, a administração e a fiscalização" do setor. A Lei do Desarmamento, produto do mesmo metabolismo, felizmente foi desfigurada, em parte, pela proposta congressual do referendum. Cuidado, portanto, com quem sugere acabar com o Poder Legislativo.

Voltando à questão central. Decidir qual dos dois poderes é o pior envolve, obviamente, uma opção política. Atente, porém, para a diferença de conduta. Mesmo quem considera que o governo é pior do que o Congresso, não exime este último de suas muitas e graves responsabilidades. Em contrapartida, há quem isente o governo de tudo. E mais: o topo da pirâmide oficial está ocupado por quem se apresenta como despido de quaisquer culpas ou pecados. Em 8 de abril de 2005, durante o velório de João Paulo II, Lula se declarou sem pecados. Quarenta e cinco dias depois, Luiz Marinho foi filmado recebendo a famosa propina e batendo com a língua nos dentes. Um mês mais tarde, Roberto Jefferson jogou tudo no ventilador. E o presidente, exatamente um ano depois, continua sem culpa, sem pecado e sem saber de coisa alguma. A meu juízo, reside exatamente nesse déficit de consciência o critério decisivo para quem quiser responder bem a pergunta que dá título a este artigo.

Sábado, 08 Julho 2006 21:00

O Brasil de Parreira e Lula

Nada representa melhor a diferença entre a seleção vitoriosa de 2002 e a derrotada de 2006 do que o contraste entre o técnico Parreira sentado, mão no queixo, contemplando sua equipe arrastar-se em campo, e a esfuziante energia transmitida por Felipão durante os jogos de Portugal, esbravejando e correndo tanto quanto seus laterais pela borda do gramado.

Foi fora do campo que nossa seleção perdeu o título, a vergonha e o respeito da torcida. Escalada por interesses comerciais, dirigida com a mesma falta de discernimento com que o país é governado, sujeita a ingerências que seriam inaceitáveis por um comando dotado de pulso e caráter, a equipe nacional foi uma caricatura do que poderia ser. Por isso, os chargistas estiveram em dias de muita inspiração.

Nossos atletas vendiam cerveja, fardamento esportivo, cartão de crédito, instituições bancárias, gasolina. Mas não vendiam disposição nem energia. Corriam nos comerciais e se arrastavam durante as partidas. Praticavam malabarismos nas propagandas e se enrolavam com a bola durante os jogos. Acomodados na fortuna e na fama, postavam-se em campo de modo ridículo, mais atentos às câmeras de tevê do que às artimanhas dos adversários. O lateral Roberto Carlos, ajeitando as meias enquanto a França marcava seu golo, foi retrato fiel da falta de empenho da equipe. Se Ronaldinho Gaúcho tivesse sacudido as pernas tanto quanto balançou aquele ridículo rabo de cavalo, o Brasil teria sido um pouco mais eficiente. Se o "Fenômeno" tivesse sido mandado de volta tão logo se apresentou na concentração, mais roliço do que a bola, pesando quase cem quilos, talvez a coisa fosse diferente. Ao contrário, escalado por forças que permanecerão ocultas, foi titular em todos os jogos.

Nada representa melhor a diferença entre a seleção vitoriosa de 2002 e a derrotada de 2006 do que o contraste entre o técnico Parreira sentado, mão no queixo, contemplando sua equipe arrastar-se em campo, e a esfuziante energia transmitida por Felipão durante os jogos de Portugal, esbravejando e correndo tanto quanto seus laterais pela borda do gramado.

Aburguesada, acomodada, cheia de "esquemas" políticos e financeiros, a Canarinho foi a face futebolística da República. Nosso presidente, homem sem pecado, que nada sabe do que acontece dos subterrâneos aos telhados de seu governo, deveria ter renunciado já no ano passado. Em vez disso, busca um novo mandato. Parreira, que deveria ter-se exonerado já no vestiário, após o jogo com a França (sim, "com" a França porque "contra" a França não jogamos), também pensa em renovar seu contrato. O Brasil e sua torcida brasileira não merecem essas ofensas.

Lula, o traído, varre a lama para baixo do tapete e não bate no próprio peito. Parreira diz que é sempre assim: quando o time vence a vitória foi da equipe, quando perde a culpa passa para o treinador. Ou seja, nenhuma diferença. Estamos todos constrangidos, envergonhados, e ninguém se considera responsável por coisa alguma.

Domingo, 25 Junho 2006 21:00

A Serviço do Inimigo - 2a. Parte

Sem seus votos, estes ficarão em casa e os plenários serão ocupados por número ainda maior de safados. E empreguem sua energia para denunciar o modelo político vigente, que privilegia os demagogos, os populistas, os corruptos, os mentirosos e os negocistas de todos os matizes.

Em artigo anterior, com o mesmo título, mostrei que a campanha pelo voto nulo se presta para o contrário daquilo que desejam seus adeptos. Ainda que bem sucedida, o que é impossível, ela sugere situação semelhante à da Venezuela, onde a oposição se retirou do pleito. Resultado: houve uma abstenção de 75% e os chavistas ocuparam todas as cadeiras da Assembléia Nacional.

Alguns defensores da idéia me enviaram mensagens contestando o que escrevi. Em resumo, alegam que nossa legislação é diferente da venezuelana e que, aqui, mais da metade dos votos nulos determinam a realização de novo pleito com outros participantes. Apresentam a avassaladora vitória do "não" no referendum do desarmamento como exemplo de sucesso para o que propõem.

Seria muito bom se tivessem razão, mas não têm. O que está determinado no art. 224 do nosso Código Eleitoral se refere às hipóteses de anulação dos votos mencionadas nos artigos que o antecedem. E o que ali se lê trata de votação ocorrida de forma fraudalenta (em ofensa à lei, em folhas de votação falsas, em locais e ocasiões diferentes do designado, com quebra do sigilo e coisas desse tipo). Ou seja, não é o voto anulado pelo eleitor, mas são as anulações determinadas por procedimentos ilegais ou irregulares que podem, quando excederem metade dos votos, determinar a situação pretendida pelos defensores do voto nulo.

Admitamos, para argumentar, que a questão, aparentemente clara, admita controvérsia. Tal controvérsia, ocorrendo, terá que ser resolvida pelos Tribunais Eleitorais dos Estados nos pleitos estaduais, pelo TSE nos pleitos federais e pelo Supremo, como instância final em todos os casos. Que garantia podemos ter de que o resultado da disputa que se venha a travar nessas cortes seja aquele pretendido pelos defensores do voto nulo? Perceberam a insensatez?Tudo depende de conseguir a bagatela de 50 milhões de votos nulos quando só o Lula, sozinho, já tem quase a metade dos votos válidos, e fazer a cabeça de um bom número de magistrados.

Por outro lado, é impossível assemelhar a campanha do referendum com as eleições de outubro. Naquele, havia apenas o "sim" e o "não", dez minutos diários para cada um em cadeias de rádio e tevê, marqueteiros, etc.. Nas eleições vindouras, todas essas estruturas, e várias outras, estarão à disposição de milhares de candidatos e do vasto conjunto de interesses locais, regionais, corporativos, econômicos, sindicais, religiosos, etc., envolvidos no pleito. Os defensores do voto nulo terão apenas a internet. A estes, reitero: a causa que abraçam é tão conveniente ao governo Lula que só pode ter nascido na cabeça do Gushiken. Usem sua justa indignação para votar em bons candidatos. Sem seus votos, estes ficarão em casa e os plenários serão ocupados por número ainda maior de safados. E empreguem sua energia para denunciar o modelo político vigente, que privilegia os demagogos, os populistas, os corruptos, os mentirosos e os negocistas de todos os matizes.

Sexta, 23 Junho 2006 21:00

A Serviço do Inimigo

Cidadãos bem intencionados e ingênuos podem ser tão perigosos quanto os espertos mal intencionados.

Você se considera um cidadão esclarecido, capaz de discernir bem nesse emaranhado de mistificações? Revolta-se com a desfaçatez de tantos homens públicos? Não entende como Lula surfa nessa maré de lama e dispara nas intenções de voto? Percebe que ele, ou sabe de tudo e é igual aos outros, ou não sabe de coisa alguma e é o mais nocivo de todos? É contra mensalão e mensaleiros? Discorda do financiamento público de vândalos, invasores e saqueadores? Surpreende-se com o súbito enriquecimento do filho do presidente? Avalie, então, à luz disso tudo, a mensagem que não pára de ser enviada para meu correio eletrônico: "Anule o voto!".

Uma idéia dessas só pode ter nascido na cabeça do Gushiken para ser acolhida de braços abertos pelos ingênuos. Na prática, significa que um sujeito como você, para o bem dos safados, deve ficar tão longe quanto possível das decisões que ocorrerão no próximo mês de outubro. Ou ainda, em outras palavras, eles pretendem que você deixe essa coisa de eleição para os demagogos e suas vítimas, os populistas e sua clientela, os corruptos e seus corruptores. Faz todo sentido. Sua presença no processo eleitoral e o candidato no qual, como cidadão esclarecido, poderia votar, são tipos indesejáveis, perniciosos, que somente complicam e retardam a tomada do país pelos assaltantes do poder. Então, eles querem que você caia fora, que se mande para a praia. Seus projetos o dispensam por inteiro.

Já pensou nas conseqüências que advirão se todos os eleitores com seu perfil atenderem o que lhes está sendo solicitado? Em outubro vindouro teremos realizado os dois sonhos de Lula: a reeleição e a possibilidade de, a partir de janeiro, compor sua base de apoio com um Congresso totalmente passado a sujo.

Sim, o resultado será exatamente esse. Em 2002, é bom lembrar, 95 milhões de brasileiros compareceram às urnas e 2,7 milhões anularam o voto para deputado federal. Você imagina possível conseguir que, de repente, algo como 50 milhões resolva fazer isso em 2006, para, depois, tentar arrancar do Supremo um controverso e problemático segundo pleito? "Me engana que eu gosto!", diz o refrão popular. Mas, nesse caso, a frase toma outro feitio: "Engane-se, se gosta!". Os dois únicos resultados previsíveis dessa desmiolada campanha são: 1º) assegurar a Lula uma vitória ainda mais fácil no primeiro turno; e 2º) garantir a eleição de todos os safados que disputarem o pleito, pela simples razão de que eleitor comprado, corrupto, ou dependente dos muitos favores oficiais estará na fila de votação à primeira hora da manhã do dia 1º de outubro.

Cabe lembrar o suicídio oposicionista venezuelano. Nas eleições de agosto do ano passado, os partidos se retiraram da disputa e o governo Chávez tem, hoje, 100% dos votos da Assembléia Nacional...

Cidadãos bem intencionados e ingênuos podem ser tão perigosos quanto os espertos mal intencionados.

Sábado, 17 Junho 2006 21:00

Mona Lisa Desmascarada

Continuo à espera de que me apresentem um único argumento favorável ao aborto que escape ao denominador comum da retórica desonesta. Aqueles que os afirmam contam com a ingenuidade dos que os ouvem.

O polêmico assunto retornou ao debate, há algumas semanas, em virtude da notícia de mais um bebê encontrado vivo em lata de lixo. A líder feminista subiu nas tamancas e brandiu o dedo em defesa dos direitos da mulher sobre o próprio corpo (como se sabe, esse é um eufemismo para sustentar o direito de matar e remover do útero o corpo de um outro ser humano, o indefeso feto ali albergado).

Apontei a contradição: "A senhora incorre num paradoxo. Não lhe parece estranho lamentar um bebê jogado vivo no lixo da calçada e, simultaneamente, pleitear que esse mesmo bebê, semanas ou dias antes, possa ser morto e lançado na lixeira de um hospital?" A única resposta que obtive foi "não é bem assim", seguida por sorriso de impenetrável significado.

Toda defesa do aborto se faz com artifícios retóricos que só servem para tentar justificar o injustificável e que não resistem a uma análise racional. Aliás, Schopenhauer, em seu ensaio sobre como vencer um debate sem ter razão aponta, entre os estratagemas que podem conduzir a esse resultado, o desvio de foco. Ficou sem argumento? Mude de assunto. Foi o que a médica tratou de fazer. Apanhada em contradição, saiu-se com esta: "A Igreja Católica é a grande responsável por não termos ainda legalizado o aborto no Brasil. No entanto, esse não é um assunto religioso. Ademais, existe no Brasil a separação entre Igreja e Estado. O senhor sabia disso?".

Sim, eu sabia. E também sabia que o argumento continha outra das espertezas catalogadas por Schopenhauer. Ela consiste em retirar conclusões falsas de premissas que todos sabem ser verdadeiras. Como as pessoas concordarão com as premissas, ficarão inclinadas a concordar com a conclusão. A frase da médica era um exemplo disso. De fato, a Igreja é contra o aborto. De fato, existe a separação entre Igreja e Estado. Mas não se pode deduzir como conseqüência dessas duas afirmações que o aborto deva ser legalizado.

Foi fácil desmascarar a artimanha. "Segundo esse seu raciocínio, doutora, a tortura deveria ser legalizada no Brasil, porque a Igreja também é contra a tortura. Aliás, a lista de crimes aos quais a Igreja se opõe é mais extensa do que o Código Penal. Talvez conviesse rasgá-lo". E extraí outro sorriso daqueles, tipo Mona Lisa desmascarada.

Continuo à espera de que me apresentem um único argumento favorável ao aborto que escape ao denominador comum da retórica desonesta. Aqueles que os afirmam contam com a ingenuidade dos que os ouvem.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.