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Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Sábado, 28 Outubro 2006 21:00

Pulga Atrás da Orelha

Por isso, ao ver Lula considerar os ataques terroristas do PCC em São Paulo como o tema de debate mais proveitoso para si, confesso que fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Quais os momentos mais importantes de uma campanha presidencial? Obviamente são os debates em emissoras de tevê. Quais os debates mais importantes? Obviamente são os da Globo. Qual o debate mais importante da Globo? Obviamente é o debate do segundo turno. Quais os momentos mais importantes do debate da Globo no segundo turno? Obviamente são os momentos em que cada candidato formula as próprias perguntas ao opositor.

Talvez convenha esclarecer melhor esse ponto. Quando as indagações são feitas por pessoas do público, ou por jornalistas ou pela produção do evento, quem responde não tem total controle da situação. Mas quando lhe cabe perguntar, lhe é dada a oportunidade de atacar e explorar os pontos fracos do adversário. Estabelecem-se nessas ocasiões, portanto, os momentos mais tensos, nos quais o contraditório se torna mais revelador.

No debate final da tevê Globo, sexta-feira, foi prevista uma e somente uma pergunta direta de candidato a candidato. Ali estaria o momento agudo da refrega. Já participei de inúmeras reuniões preparatórias para debates entre candidatos. São encontros exaustivos, envolvendo o pessoal de marketing, da imprensa, cientistas políticos e pessoas experientes, nos quais se busca antecipar as indagações e antever possíveis réplicas e tréplicas. Com zelo especial, selecionam-se as perguntas que o candidato fará ao adversário, buscando evidenciar debilidades e contradições. Por isso, sei do que falo quando afirmo que a equipe de Lula, ciente que somente poderia fazer uma indagação a Alckmin, certamente optou pela que lhe pareceu mais produtiva dentre todas as inúmeras possibilidades disponíveis. E qual foi o tema escolhido? Segurança pública, visando uma réplica sobre as ações terroristas comandadas pelo PCC em São Paulo.

O leitor, por certo, está lembrado daqueles episódios. De repente, sem quê nem porquê, em maio deste ano, líderes do PCC, desde a cadeia, determinaram um conjunto de ações criminosas (incêndios, ataques a delegacias, queima de ônibus, etc.). Essas ações, que não tinham antecedentes nem objetivos, só produziram pânico entre a população e, para seus autores, danos fatais. Somente entre os bandidos, houve mais de uma centena de mortos. Ora, toda ação criminosa envolve um cálculo de riscos, perdas e ganhos. Naquele caso, para os autores, só havia risco, certeza de baixas e nenhum proveito. Pode?

Por isso, ao ver Lula considerar os ataques terroristas do PCC em São Paulo como o tema de debate mais proveitoso para si, confesso que fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Sábado, 21 Outubro 2006 21:00

Ah! Esses Debates...

Ouvir Lula comparar o número de mega-operações da Polícia Federal durante seu governo com as ocorridas na gestão anterior é mais excitante que desarmar bomba-relógio.

O australiano Steve Irwin, recentemente falecido, curtia sua dose de adrenalina brincando com cobras venenosas e crocodilos. Há quem dela se abasteça surfando em ondas de vinte metros ou se jogando de penhascos em minúsculas poças de água. Eu curto assistir debates. E, como esses outros performáticos, ainda morro disso. Aliás, minha mulher está sob forte risco de viuvez antes do dia 29.

Não é para menos. Ouvir Lula comparar o número de mega-operações da Polícia Federal durante seu governo com as ocorridas na gestão anterior é mais excitante que desarmar bomba-relógio. E a tensão se multiplica porque ninguém o adverte de que tinha que ser assim mesmo já que nenhum governo anterior deu tantos motivos para o trabalho policial. Olívio é outro que tem efeito muito positivo nas minhas supra-renais. Principalmente quando fala sobre a Ford e diz que estava "negociando com a empresa". Que negociação bem sucedida, companheiro! Se Olívio cumprisse o contrato, a empresa, por força do contrato, ficava no Estado por mais que a Bahia lhe fizesse acenos, requebros e mandingas. Para que ele, em 1999, pusesse no Caixa Único os R$ 200 milhões da Ford, os gaúchos perderam 80 mil postos de trabalho bem remunerados e a economia do Estado jogou fora algo como R$ 6 bilhões/ano, pelo resto de nossas vidas. Haja adrenalina!

Lula adotou a estratégia de mostrar que seu governo foi muito melhor do que o de FHC. E ninguém lhe diz que ele e seu partido foram contra tudo que hoje conta a favor da gestão petista: o Plano Real (que diziam ser uma mentira), o pagamento da dívida externa (que queriam calotear), as privatizações (só as teles já geraram R$ 118 bilhões em impostos), a reforma da previdência (que Lula acabou arrochando ainda mais), a abertura do mercado brasileiro (que chamavam de globalização neoliberal).

Mas nada me eleva tanto os batimentos cardíacos quanto perceber Lula e seus companheiros empenhados em assemelhar Alckmin a FHC. Mas que coisa! Não há governo mais parecido com o do FHC do que o de Lula. Muito tem sido dito, aliás, que o governo Lula é o terceiro mandato do Fernando Henrique. Alguém, aí, tem uma tenda de oxigênio?

Segunda, 16 Outubro 2006 21:00

A Pior das Desonestidades

Tudo bem coerente com a conduta de um grupo político que antes se apresentava como o único honesto e agora se esfalfa para provar que não é o mais corrupto.

Quem é mais danoso? O Silvio Pereira ao receber aquela Land Rover de uma empresa que prestava serviços ao governo ou o Ministro da Justiça quando oculta informações? O Roberto Jefferson que sabia de tudo ou o Presidente que proclama nada saber, mesmo sobre o que foi alertado? A pior das desonestidades, a meu ver, é a mentira usada como instrumento de conquista ou de manutenção do poder. Conquistadas ou mantidas as posições através da falsidade, tudo mais é conseqüência, corolário da mesma falta essencial de caráter.

Circula na internet um quadro comparativo das gestões de Lula e FHC. O leitor desprovido de capacidade de análise, memória e senso crítico, lendo aquilo, não duvidará: Lula é um estadista e seu antecessor um incompetente; Lula e o PT salvaram o Brasil de um desastre que será inevitável se Alckmin chegar à presidência.

Suponhamos que seja bem sucedida essa estratégia, à qual se somam o mensalão dos ricos, o mensalão dos pobres e a mentira adicional de que o primeiro não existiu e o segundo se extinguirá em caso de vitória oposicionista. Teremos, então, mais quatro anos com um presidente que nada sabe, rodeado por uma ciranda de patifes (há exceções), oriundos de inesgotável usina, que se vão sucedendo nas poltronas do poder assim como são trocados os bastões numa corrida de revezamento.

O tal comparativo silencia sobre verdades indispensáveis. Praticamente todos os indicadores que o governo Lula pode exibir se apóiam em políticas produzidas na gestão anterior, sob intensa oposição petista. O risco Brasil caiu? Sim, porque o país honrou seus compromissos externos. Mas enquanto era Fernando Henrique que assumia o ônus de pagar a dívida, o PT oposicionista angariava simpatias com um "plebiscito" e um acalorado discurso pelo calote. A inflação cedeu? Sim, graças ao Plano Real, concebido, criado e mantido contra a metralhadora retórica petista, que não cessava de tagarelar sobre "a mentira do Real". Lula dispôs de mais recursos para programas sociais e luxos pessoais? Sim, mas isso foi possível graças à Reforma da Previdência, à estabilidade e às privatizações. E a tudo o velho PT se opunha. Só a privatização das teles geraram R$ 118 bilhões em impostos ao proporcionar, com investimentos de R$ 135 bilhões, o salto das comunicações que se produziu no país. A balança comercial produz bons resultados? Sim, graças à abertura ao mercado global, que Lula e o PT sempre denunciaram como algo diabólico, o bebê de Rosemary do tal neoliberalismo.

Eu poderia prosseguir, mas me falta espaço para denunciar todo esse parasitismo de chupim que não apenas bota ovos no ninho alheio como ainda critica o construtor antes, durante e depois. Quem comete tais desonestidades intelectuais praticará as outras com a mesma naturalidade e a mesma falta de constrangimento. Tudo bem coerente com a conduta de um grupo político que antes se apresentava como o único honesto e agora se esfalfa para provar que não é o mais corrupto.

Segunda, 02 Outubro 2006 21:00

Quem Não Ajuda Não Atrapalha

Antes do surgimento das pesquisas, o conteúdo das urnas constituía segredo inviolável. Os votos eram contados depois da eleição. A esperança era a última que morria no coração dos candidatos e seus eleitores.

Amontoam-se na democracia brasileira problemas conceituais e operacionais. Não estou dizendo que o sistema de governo e as regras do jogo político, incluindo a lei eleitoral, a lei orgânica dos partidos e o sistema de representação estejam longe da perfeição. O que estou afirmando é que estão perto demais da imperfeição absoluta. Há pouca coisa para piorar. Nesse pernicioso contexto, que muito contribui para o desalento popular com a política, para o descrédito da democracia, para a péssima imagem dos que se dedicam à vida pública e para a institucionalização da corrupção, as pesquisas de opinião se atravessam como mais um gravíssimo complicador.

Antes do surgimento das pesquisas, o conteúdo das urnas constituía segredo inviolável. Os votos eram contados depois da eleição. A esperança era a última que morria no coração dos candidatos e seus eleitores. Com a divulgação das pesquisas, os votos são, em tese, somados antes do pleito. Não é mais a convicção do eleitor que determina seu voto. Em incontáveis ocasiões, ele deixa de votar em quem efetivamente deseja ver eleito para optar por quem lhe informam que vai ganhar ou contra quem ele quer ver derrotado. Não é mais a preferência dos contribuintes para as campanhas que determinam doações (sem as quais, no atual modelo, não se mobilizam as máquinas partidárias), mas é a posição dos candidatos nas pesquisas que define o fluxo dos recursos. As pesquisas são as novas senhoras da democracia brasileira.

Ano após ano, eleição após eleição, os institutos erram. Erram escandalosa, flagrante e desavergonhadamente. E, nem por isso, deixam de se apresentar no pleito seguinte, como arautos da vontade popular. Transformam cada eleição numa sucessão de suspeitíssimas eleições, influenciando a opinião pública e determinando votos com força infinitamente superior à qualificação dos candidatos, de suas mensagens e campanhas.

Passado este pleito, cabe indagar: a) o resultado da eleição presidencial seria o mesmo não tivessem as pesquisas assegurado, por tanto tempo e larga margem, a eleição de Lula no primeiro turno? b) Olívio Dutra não está no segundo turno estadual gaúcho graças a um movimento dos eleitores, influenciados pelas pesquisas, que visavam exatamente o contrário? c) em que proporção isso serve à nossa frágil e, por diversas razões, incompetente democracia?

Penso que está na hora de cobrar uma trégua à divulgação de pesquisas eleitorais. Elas se substituem ao desejo do eleitor e se transformaram em novas soberanas da vontade popular. Errar é humano. Errar como erram certos institutos de pesquisa é diabólico.

Domingo, 24 Setembro 2006 21:00

Governo Golpista, Eleitorado Bolsista

Claro que a cena política nacional vive clima de golpe. Mas os golpistas são outros.

O presidente Lula e a alta cúpula do seu partido vêm insinuando que as reações da oposição ao episódio do dossiê teriam características golpistas e expressariam a inconformidade das "zelites" com os avanços sociais proporcionados pela gestão petista. Em outras palavras: os que estamos indignados com toda essa desfaçatez seríamos indivíduos perversos e adversos à democracia.

Olha que é preciso ter coragem! Claro que a cena política nacional vive clima de golpe. Mas os golpistas são outros. Estão sendo golpeados o processo democrático, a ética, a lei eleitoral e, até mesmo, a tão proclamada autonomia da Polícia Federal (os delegados que descobriram a maracutaia acabam de ser afastados do processo). Adicionalmente, estão sendo esbofeteadas a dignidade nacional e a inteligência dos que a têm. Desde o episódio Waldomiro Diniz, que veio à tona em fevereiro de 2004, não passa um mês sem que estoure algum escândalo tendo como foco e objeto da conduta criminosa o projeto eleitoral do partido governista, e como principais beneficiários o detentor do poder e seus anseios políticos. Se isso não é golpe - e golpe até aqui bem sucedido - não sei o que é golpe.

Rastrear a origem de recursos que escorregam das mãos do contribuinte para o partido governista para as manchetes se converteu em quebra-cabeça nacional. E a cada vez surgem novos personagens e nomes para a infindável cadeia de ministros, assessores, amigos e companheiros do presidente. Seria no mínimo incauto supor que todas as falcatruas aprontadas por essa elástica e criativa turma tenham sido descobertas pela imprensa, pelas CPIs (que se dependessem do governo não se instalariam) e pela Polícia Federal. Não. Muitas, por certo, foram levadas a "bom termo" e produziram seus efeitos. E tudo isso é golpe na gama de dimensões que defini acima.

O eleitorado que confere a Lula mais da metade dos votos válidos, segundo as recentes pesquisas, não é golpista. É bolsista, formado por três grupos: os muito pobres, os muito ricos e os muito fiéis. Os muito pobres dependem da bolsa família, da bolsa escola, da bolsa partido, da bolsa invasão de terra, e da bolsa assentamento improdutivo; os muito ricos dependem da bolsa lucro bancário; e os muito fiéis dependem da bolsa-boca (boca no governo, na estrutura partidária e nas inúmeras ONGs que o partido organiza para distribuir dinheiro à militância).

Aliás, há um candidato a vice-governador do Rio Grande que defende a federalização do Banrisul, ou seja, quer entregar o banco para Lula. A valer o exemplo do BESC, onde o enfermeiro-churrasqueiro do presidente é diretor, se a idéia vingar logo teremos um pizzaiolo petista dirigindo o Banrisul. Será a bolsa-pizza.

Segunda, 18 Setembro 2006 21:00

Liberou Geral

Tranqüilize-se, no entanto, o senhor Berzoini: tudo bate na casca grossa e nenhum efeito eleitoral produz. Liberou geral. Acorda, Brasil!

Houve um tempo em que sequer era necessário ocorrer corrupção para que a fatura política fosse apresentada e o lucro eleitoral transferido para o caixa do denunciante. Bastava a denúncia para que raios e trovões fossem dardejados sobre os infelizes que houvessem caído na suspeição dos petistas. Aliás, não ser petista já era motivo para ser suspeito e acusado, se não dos piores atos, ao menos das piores intenções. Era inútil exibir certidões negativas de todos os foros. O partido de Lula sempre nivelava seus adversários com quaisquer maus elementos da sigla a que pertencessem.

Uma árvore que sempre comparecia à abertura das campanhas eleitorais petistas expressava perfeitamente o que descrevo. Nela eram apresentadas as mais conhecidas frutas podres da política nacional da época, e o último a ser pendurado ali, misturado com todas, era o adversário da vez. Definia-se, assim, a estratégia desmoralizadora: é tudo farinha do mesmo saco. Tal conduta, se pecava pelo absoluto desrespeito à honra alheia, tinha ao menos o mérito de gerar constrangimentos numa atividade - a política - onde a desfaçatez costuma ser freqüente. As pessoas de bem se angustiavam e se empenhavam, nos próprios partidos, em provocar processos internos de expiação de culpas.

Menos de dois anos do governo Lula foram suficientes para produzir a mais completa desmoralização da moral na atividade política. Foram tantos - mas tantos! - os escândalos produzidos sob as vistas grossas, as narinas congestionadas e os ouvidos entupidos do presidente que se formaram calos na sensibilidade moral do país. E os calos viraram casca e a casca, cada vez mais grossa, se tornou impenetrável.

Auditores do Tribunal de Contas da União, após longa investigação, denunciaram, nesta semana, que algo como dois milhões de cartilhas com louvações à gestão de Lula e críticas aos seus antecessores, foram pagas pelo governo sem que houvesse devida comprovação dos serviços gráficos. Investigações para cá, depoimentos para lá, e a coisa ficou assim: a) sabe-se quanto foi pago (R$ 11 milhões); b) sabe-se quem pagou (a Secretaria de Comunicação do governo, leia-se Gushiken); c) não se sabe quanto do material foi efetivamente elaborado; d) sabe-se que o PT informa ter recebido quase um milhão de exemplares para distribuir; e) sabe-se que o próprio Gushiken informou ao TCU que as cartilhas foram entregues ao PT.

Ora, o fato ainda não inteiramente esclarecido - possível pagamento por serviços não executados - é bem menos grave do que o fato já confessado: a entrega ao partido do governo de quase um milhão de cartilhas publicitárias confeccionadas com recursos públicos. E o presidente do partido governista, chamado às falas, limitou-se a reprovar a divulgação de mais esse escândalo em período eleitoral. Tranqüilize-se, no entanto, o senhor Berzoini: tudo bate na casca grossa e nenhum efeito eleitoral produz. Liberou geral. Acorda, Brasil!

Terça, 12 Setembro 2006 21:00

Barbas ao Molho

Olívio proferiu forte crítica aos incentivos concedidos às grandes empresas, sustentou que o Rio Grande do Sul é atrativo por si mesmo e não precisa conceder benefícios para captar investimentos.

Em entrevista ao programa Conversas Cruzadas da TVCOM, o ex-governador e candidato Olívio Dutra foi questionado sobre como agiria caso a Toyota decidisse instalar uma planta no Rio Grande do Sul. Repetiria ele o que fez com a Ford? A pergunta era absolutamente necessária e a resposta foi muito preocupante.

Olívio proferiu forte crítica aos incentivos concedidos às grandes empresas, sustentou que o Rio Grande do Sul é atrativo por si mesmo e não precisa conceder benefícios para captar investimentos. Reiterou que o governo deve estimular a "matriz produtiva local". A Toyota, e quem sonha com vê-la produzindo na área que fora reservada à Ford, deve pôr as barbas de molho. Quanto ao caso Ford, o ex-governador usou a velha técnica de considerar que somos todos desmemoriados. Disse que a Ford foi embora porque o Congresso Nacional, através dos partidos que hoje acusam o PT de haver despachado a empresa, aprovou lei que tornava mais atrativo, para ela, fazer o investimento na Bahia.

Os fatos, porém, são inolvidáveis. Quando Olívio assumiu o governo em 1999 o investimento da Ford era coisa resolvida. Contratos assinados e lei aprovada pela Assembléia. Cronograma acertado. Pagamento inicial feito e o restante dos valores relativos à participação do Estado (R$ 200 milhões) depositados em conta corrente vinculada do Banrisul. Logo no segundo trimestre do ano, soube-se posteriormente, o governo de Olívio Dutra, contra o contrato e a lei, transferiu esse dinheiro para o Caixa Único. Em seguida, passou a proporcionar aos negociadores da empresa hectolitros de chá de banco. Com o agravamento da situação, alarmaram-se os setores produtivos do Estado e a comunidade de Guaíba (para onde iria a montadora), promovendo manifestações em favor da empresa e seu investimento. Como resposta, em abril, o governo realizou um comício diante do Palácio, no qual o governador repetiu o mantra de sua campanha: "Não haverá um centavo de recurso público para quem não precisa!". Era recado direto à empresa. De fato, em 31 de março de 1999 venceu uma parcela de R$ 68 milhões e o Estado não pagou, tornando-se inadimplente. Cerca de dois meses mais tarde, a Ford jogou a toalha e foi embora.

O que disseram, nas semanas seguintes, os porta-vozes do governo? Afirmaram que a empresa desistira do investimento porque o setor automotivo estava em crise mundial. Que a empresa não dispunha dos recursos para o empreendimento. Em seguida, alegaram que a Ford iria para a Argentina. Depois, disseram que nada fora perdido, porque a empresa iria gerar apenas 1500 empregos (já são mais de 20 mil na Bahia).

Aí a Ford foi para a Bahia. E o discurso mudou para o eixo em que Olívio retomou na entrevista à TVCOM: tudo fora uma manobra de FHC e ACM para desacreditar o criterioso governo petista. E eu, ainda que fosse crédulo, já não saberia mais em que acreditar, tantas e tão contraditórias as explicações. Mas ficou faltando uma, e ela é definitiva: se o Estado tivesse cumprido o contrato e disponibilizado os miseráveis R$ 200 milhões, a Ford, por força do contrato e da lei, estaria obrigada a permanecer no Estado. Perdeu o Rio Grande algo como 4 bilhões de reais por ano, para o resto de nossas vidas. Essa mesma cegueira ideológica foi evidenciada novamente na resposta de Olívio Dutra à pergunta que lhe fizeram em relação à Toyota.

Terça, 05 Setembro 2006 21:00

Em Respeito A Si Mesmo

Talvez este artigo venha integrar uma série com o título "Quando nos tomam por bobos", sugerida pelo autor da frase "Há, na direita, políticos que às vezes pensam que somos bobos, mas os da esquerda fazem isso todos os dias".

Talvez este artigo venha integrar uma série com o título "Quando nos tomam por bobos", sugerida pelo autor da frase "Há, na direita, políticos que às vezes pensam que somos bobos, mas os da esquerda fazem isso todos os dias".

A obrigatória reverência esquerdista ao regime cubano e seu líder constitui uma das mais copiosas fontes desse comportamento que despreza a inteligência dos interlocutores. Acabo de receber, de entusiasmado defensor de Fidel, um conjunto de tabelas elaboradas com o intuito de valorizar o regime cubano em vista do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) alcançado por Cuba, e para sustentar a idéia de que a Ilha seria um paraíso socialista não sofresse o injustificável bloqueio ianque. Vamos examinar, então, esses números. O IDH avalia 177 países. No topo está a Noruega com índice 0,963. No pé a Nigéria, com 0,281. O índice brasileiro é 0,792 e o de Cuba 0,817. Ou seja, se Cuba está tão bem que pode ser apresentada como referência, e se o Brasil, alguns centésimos abaixo, está como nós bem sabemos, parece que os defensores do regime de Castro são mais exigentes aqui do que lá e amarram muito mal seus argumentos.

Para produzir os serviços de educação e saúde que conduzem o país a essa medíocre posição, o governo de Fidel, há meio século, se apropria da totalidade da renda nacional. Em seguida, paga ao trabalhador oito dólares mensais para mascarar a escravidão em que ele vive. Enquanto isso, ali, na mesma região do Caribe e da América Central, povos livres como os do México, Costa Rica, Bahamas, Trinidad e Tobago, e de outras pequenas ilhas como São Cristóvão e Névis e Antígua e Barbuda têm IDH superior ao cubano.

Quanto ao bloqueio, alega-se que tenha decretado a Cuba um prejuízo, acumulado ao longo de quase cinco décadas, da ordem de US$ 54 bilhões. Ninguém sabe de onde saiu essa cifra para uma economia que produz, na mesma superfície territorial do Rio Grande do Sul e com a mesma população, uma quarta parte do PIB gaúcho. Ademais, estranha contabilidade de uma coluna só! Ela esquece que em 1959 todo o parque produtivo industrial, todos os serviços e todas as propriedades norte-americanas no país foram tomados pelo Estado cubano sem qualquer indenização. Qual o valor desse patrimônio, capitalizado em meio século? Finalmente, porque nos tomam por bobos, omitem que no contrafluxo do bloqueio "imperialista", Cuba recebeu da extinta URSS, durante 30 anos, subsídios estimados em US$ 6 bilhões/ano, o que totaliza algo como US$ 180 bilhões ao longo do período.

Se você, leitor, ainda tiver dúvidas, vá e veja. Perceberá, então, que o tal bloqueio, além de não ser respeitado por grande número de países, entre eles Canadá, Espanha, Brasil, Venezuela, México e por aí afora, não tem qualquer significado econômico pois Cuba nada dispõe para vender nem possui divisas para comprar coisa alguma. Em respeito a si mesmo, não deixe que o tomem por bobo.

Domingo, 27 Agosto 2006 21:00

A Invisível Metade

No meu caso, se me trumbico não é por falta de comunicação. E mesmo sendo e vivendo assim, raramente encontro eleitores de Lula, exceção feita àqueles que se sentem partidariamente obrigados a votar nele.

No momento em que escrevo este artigo, a valerem as pesquisas de opinião que vêm sendo divulgadas, metade dos eleitores brasileiros vota em Lula. Não sou exatamente um ermitão morador do alto da montanha, nutrindo-me ali de ervas e ovos tomados aos ninhos das águias. Ao contrário, vivo no meio social, viajo, converso, falo, escrevo e recebo mensagens. Chacrinha dizia que quem não se comunica se trumbica. No meu caso, se me trumbico não é por falta de comunicação. E mesmo sendo e vivendo assim, raramente encontro eleitores de Lula, exceção feita àqueles que se sentem partidariamente obrigados a votar nele.

Surge, por isso, a sensação de que essa metade do Brasil se tornou invisível. Age nas sombras. Leva vida de vampiro. Desaparece aos primeiros sinais da aurora. E de que só os institutos de opinião pública são capazes de encontrá-la e de fazer com que arraste a tampa do túmulo da consciência para confissão de suas intenções. Não estou dizendo que descreio de pesquisa nem que julgo haver alguma escabrosa conspiração para promover a vitória de Lula, inflando seus índices de aceitação. Desculpem-me os que pensam assim, mas parece faltar realismo a tal análise.

O que estou dizendo é que essa metade do Brasil, esses 60 milhões de patrícios existem. Mas se não os vemos, onde estão? Quem são? Se tivermos respostas para essas indagações, descobriremos sua identidade e talvez possamos ficar sabendo, inclusive, por que estão dispostas a cometer tal desatino.

Ironias a parte, a identificação está feita e refeita. Esse eleitorado está distante dos seus e dos meus olhos. Está tão longe do seu e do meu convívio quanto afastado das fontes de conhecimento e informação. Os que têm aparelho de rádio só escutam música caipira. Os que têm TV só assistem a Globo. Jamais lêem bons jornais. Constituem, portanto, nos currais eleitorais onde vivem, presas fáceis (talvez devesse dizer "ainda mais fáceis") dos compradores de votos. São eternos suplicantes no balcão dos favores. São deserdados irmãos nossos que a cada pleito renovam os mandatos dos seus padrinhos, patrões e senhores, elegendo e reelegendo os políticos regionais que os abastecem com restos do banquete do poder. Não é coincidência que a pior metade do Congresso Nacional obtenha deles o seu mandato.

De fato, os congressistas corruptos, os trezentos picaretas que foram atraídos como moscas para a base do governo ao sentirem os odores provenientes do Palácio são representantes dessa metade invisível. Ela, a metade invisível, vai reeleger os piores congressistas da história nacional. E Lula voltará com eles. Como se vê, nada que um bom milagre não resolva.

Segunda, 21 Agosto 2006 21:00

A Síndrome da Branca de Neve

Mas persistimos na convicção de que democracia de qualidade é a que se obtém com o bem sucedido modelo que utilizamos no Brasil, na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia, no Peru, no Equador e tutti quanti.

Apesar de sua imensa significação no destino dos povos, a questão dos consensos permanece como tema restrito ao debate acadêmico. Não deveria ser assim porque o assunto é muito importante. Consensos corretos sobre coisas relevantes produzem resultados positivos e consensos errados determinam inevitáveis desastres. Sob o ponto de vista político, não hesito em afirmar que o mais danoso de nossos consensos se expressa na idéia de que as instituições nacionais não funcionam. Bem ao contrário, elas funcionam. E grande parte dos males que observamos decorre de seu funcionamento. Cito alguns dos mais evidentes: a transformação da administração pública em moeda de troca dos acordos, a hipertrofia do Estado, a politização do judiciário e a judiciarização da política, a irresponsabilização dos parlamentos, a impunidade geral, os muitos instrumentos de corrupção cristalizados nas práticas políticas, e o estímulo institucional à representação política dos grupos de interesse.

O lamentável consenso segundo o qual as instituições que temos poderiam operar dando origem a resultados diferentes e melhores, imobiliza a sociedade em relação à necessária reforma institucional e nos leva a esperar que um dia, com outros figurantes, as coisas possam andar melhor. Com isso, fulanizamos o debate político, desprezamos a imperiosa reflexão sobre as relações de causa e efeito que determinam os fatos da vida do país, e empobrecemos partidária, política, cultural, social e economicamente.

Se instituições democráticas devem ser como as que adotamos, e que para resolver nossos problemas basta fazê-las funcionar, cabe indagar: e como ficam a Alemanha, Itália, França, Holanda, Bélgica, Noruega, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal, Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda, Austrália, Canadá, Japão? Não são democracias? Não adotam outros padrões e funcionam melhor do que nós? Pois é. Mas persistimos na convicção de que democracia de qualidade é a que se obtém com o bem sucedido modelo que utilizamos no Brasil, na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, na Venezuela, na Colômbia, no Peru, no Equador e tutti quanti.

À semelhança de todos os nossos vizinhos, tornamo-nos portadores da Síndrome da Branca de Neve. Alimentamo-nos com as maçãs envenenadas que frutificam do péssimo modelo que adotamos. Entramos em letargia sobre as necessárias mudanças. E ficamos esperando o príncipe que nos conduzirá, na garupa de seu cavalo branco, para o reino encantado da boa governança. Enquanto não aparece esse nobre cavalheiro que estamos aguardando há mais de um século, nos empanturramos de análise marxista. Vamos lendo Frei Betto e Eduardo Galeano e pondo a culpa nos perversos exploradores da nossa alva e dormente inocência: o capitalismo, a globalização, o latifúndio, o FMI, o Consenso de Washington, o neoliberalismo, o Bush, o Império (para falar como o adoecido Fidel Castro) e por aí afora. A cada ano esse indigente discurso escolhe a Rainha Má da vez.

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