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Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Quarta, 24 Janeiro 2007 21:00

A Liberdade é Um Fluido

A liberdade funciona como um único fluido em vários vasos comunicantes. Quando um dos vasos está entupido, o fluido não prossegue para os demais, derrama e se perde.

A liberdade funciona como um único fluido em vários vasos comunicantes. Quando um dos vasos está entupido, o fluido não prossegue para os demais, derrama e se perde. A liberdade política se conecta à liberdade econômica, que está ligada à de consumir, que está associada à de adquirir e ter como seu (permitindo a propriedade privada), à de ir e vir, à de imprensa e opinião, e assim por diante. Os dois principais fatores capazes de entupir a comunicação entre esses vasos são a equivocada interferência do Estado e o mau uso da liberdade pelos indivíduos e suas organizações.

No primeiro caso, estados autoritários ou totalitários tendem a restringir uma, depois outra, e logo todas essas liberdades para ampliar sua própria esfera de poder recusando a livre decisão e o livre discernimento dos indivíduos. No segundo caso, tem-se, por exemplo, a ação predatória de agentes econômicos que utilizam instrumentos indecentes para eliminar a concorrência. Delfim Netto, que está longe de ser um comunista, afirmou certa vez em conferência que escutei: a irrestrita liberdade de mercado tende a acabar com a liberdade de mercado porque o sonho de todo ator da cena econômica é ficar sozinho no mercado.

Como em tudo mais, portanto, é preciso encontrar a justa medida, ou seja, manter abertos os canais por onde passa o fluido da liberdade, evitando quaisquer abusos que possam inibir sua livre circulação, sejam eles estatais (mediante ação política dos cidadãos), sejam privados (mediante ação política do Estado).

As fanfarronadas socialistas de Chávez, Morales e seus parceiros sul-americanos (veja quantas liberdades já foram agredidas por eles) não são do século XXI, como anunciam, mas do século XIX mesmo, época de sua formulação. Nada há no que dizem que não tenha sido dito então, e ao longo do século passado, por todos os comunistas que chegaram ao poder para implantar seus tenebrosos regimes. A única coisa nova é a denúncia do tal "neoliberalismo" como palavra capaz de acelerar a produção de adrenalina nas massas de manobra que arregimentam.

Os relatórios sobre liberdade econômica divulgados anualmente pela Heritage Foundation deveriam pôr sete palmos de terra sobre essas tolices. Acaba de sair o documento de 2007, no qual o Brasil ocupa a 70ª posição entre 157 países analisados. Os 10 primeiros são Hong Kong, Singapura, Austrália, Estados Unidos, Nova Zelândia, Reino Unido, Irlanda, Luxemburgo, Suíça e Canadá. Puxa vida, nenhum socialista! Ao mesmo tempo, os simpatizantes das fanfarronadas esquerdistas, para ficar apenas entre nossos vizinhos, são tão ricos e prósperos quanto Cuba (156º lugar), Venezuela (144º lugar), Bolívia (112º lugar), Equador (108º lugar). 

Tenha certeza, porém, leitor, que nenhuma universidade brasileira examinará esses dados, nem avaliará a relação entre as liberdades econômicas, os sistemas de governo, os Índices de Desenvolvimento Humano, os PIB per capita e os indicadores de liberdade de imprensa nos vários países. Bastaria isso para desmascarar suas perfídias ao saber e à verdade, em nome de uma ideologia que sepulta o futuro das gerações que deveriam estar educando.

Sexta, 19 Janeiro 2007 21:00

Falsos Democratas

Na política, a democracia é valor inestimável. Submetê-la a quaisquer outras preferências significa violentar a dignidade alheia em favor dos gostos pessoais.

Na política, a democracia é valor inestimável. Submetê-la a quaisquer outras preferências significa violentar a dignidade alheia em favor dos gostos pessoais. Todo discurso que de algum modo expresse tolerância para com o totalitarismo, ainda que esse totalitarismo contenha em si mesmo algum outro valor pelo qual se tenha apreço, significa abandono dos ideais democráticos e desabilita aquele que o profere de voltar a abraçá-los mais adiante. Quando isso acontece – e acontece freqüentemente – impõe-se desmarcar a farsa.

Nenhum outro tema supera a democracia como foco de interesse da Ciência Política. Não cabe, portanto, nos pequenos contornos deste artigo, enveredar por esse complexo conteúdo. Quero apenas rememorar o fato de que todas as pesquisas feitas na América Latina evidenciam crescente desinteresse (que em muitos casos já se tornou majoritário) pelas instituições democráticas. As pessoas tendem a preferir um ditador competente. Tal dado impõe duas indagações que ninguém faz: 1ª) por que os ibero-americanos pensam assim, ao avesso de todo o Ocidente? e 2ª) o que estes nossos países têm em comum na sua organização e prática política?

Tanto uma quanto a outra remetem aos trabalhos de Gaetano Mosca, renomado jurista italiano da segunda metade do século passado, que se dedicou ao estudo das classes políticas e à maneira como elas se formam, reproduzem, renovam, organizam e exercem o poder. Ora, a América Latina como um todo, e o Brasil em particular, adotam um modelo institucional cujas inevitáveis conseqüências estão visíveis na elite política que aqui se formou, aqui se produz, aqui se “renova”, aqui se organiza e aqui exerce o poder. Portanto, os latino-americanos descrentes da democracia deveriam subir num tijolo, ampliar seus horizontes, e concluir que o objeto de seus desagrados está nas instituições que temos e não inestimáveis valores morais da democracia.

A esquerda vive tempos festivos. Em toda parte, antigos revolucionários chegam ao poder pelo voto. Ato contínuo, vão a Havana beijar a mão esquálida e ensangüentada de Fidel Castro e passam por Caracas para agradecer a mão gorda, amiga e generosa de Hugo Chávez, que está pondo nova faixa presidencial e passando o cadeado. Não me venham dizer, estes novos governantes e todos aqueles que os aplaudem, que são democratas. É de escancarada obviedade o caráter oportunista de sua adesão, bem alinhada com a idéia de que a democracia é uma fragilidade burguesa que pode ser aproveitada para a tomada do poder.

Terça, 09 Janeiro 2007 21:00

O Enforcamento de Saddam

Em resumo, existem culturas e culturas. E não devemos ser tolerantes com monstruosidades simplesmente porque os monstros que as praticam têm, por mero acaso, ideologia semelhante à nossa ou adversários em comum conosco.

As cenas do enforcamento de Saddam Hussein, graças à filmagem furtivamente feita por um dos presentes ao ato e à propagação facultada pela internet, correram o mundo em poucas horas, despertando generalizada repulsa. De fato, o método pelo qual se executa alguém, independentemente da violência que caracteriza tal tipo de pena, pode acrescentar perversidade ao ato. E o enforcamento é um modo perverso. Para que se compreenda bem esse efeito-repulsa, é bom lembrar que na maior parte dos códigos penais do Ocidente a crueldade contra a vítima agrava a pena do criminoso. Não se trata, portanto, de ficar com dó de Saddam, nem de o considerar injustiçado, mas de reação natural ao método utilizado para mandá-lo desta para a melhor.

Saddam foi julgado por um tribunal iraquiano. Não tenho condições de afirmar se todos os atos processuais obedeceram, ou não, os devidos requisitos porque as opiniões sobre isso, como de hábito, estão divididas. É sabido, em qualquer hipótese, que o ex-ditador estava sendo julgado por ser um criminoso brutal.

O que não dá para aceitar é a imensa contradição em que incorrem alguns analistas brasileiros da situação. De um lado, estimulados pelo anti-americanismo que caracteriza o consciente, o subconsciente e o inconsciente nacional, reprovam as tentativas de se implantar uma democracia no Iraque afirmando que isso significa desconhecer e desrespeitar a cultura local. De outro, condenam uma execução procedida em conformidade com essa mesma cultura. Pode?

Ora, existem culturas respeitáveis e culturas indignas de qualquer respeito. O bandido que coopta adolescentes para os converter em homens-bomba, o faz como agente de uma cultura local que deve ser abominada e, se possível, substituída. O grupo religioso que submete suas mulheres à clitoridectomia não segue, nesse rito machista infame, qualquer valor cultural que mereça respeito. O estudante islâmico do sexo masculino, imigrante no Ocidente, que não aceita ordens de suas professoras "porque homem não obedece mulher" não deve ser respeitado por isso, mas corrigido. E, para que não se diga que não falei de nós mesmos, uma "cultura" que joga sujeira nas ruas, pisoteia canteiros das praças, destrói a Amazônia e sufoca com porcarias o rio dos Sinos, é uma cultura suja que precisa ser passada a limpo.

Em resumo, existem culturas e culturas. E não devemos ser tolerantes com monstruosidades simplesmente porque os monstros que as praticam têm, por mero acaso, ideologia semelhante à nossa ou adversários em comum conosco.

Terça, 02 Janeiro 2007 21:00

Solidariedade e Luta de Classes

Solidariedade é a mais extraordinária das virtudes sociais. Luta de classes é seu antônimo.

Solidariedade é a mais extraordinária das virtudes sociais. Luta de classes é seu antônimo. A solidariedade promove o encontro dos desiguais. A luta de classes, que segundo Marx era o próprio motor da história, busca a vitória de uma classe sobre a outra. Daí nascia, para ele, a ditadura do proletariado, cujas várias experiências históricas, de fato, acabaram sempre em ditadura, mas com o proletariado em situação ainda mais degradada.

Apesar do abismo moral que separa os dois conceitos e do mostruário de fracassos que o marxismo exibe, parcela significativa da esquerda persiste no velho projeto. É ele que inspira, por exemplo, a vasta rede de “coletivos” e organizações de base em torno dos quais se articula, hoje, o movimento comunista internacional. Isso tudo tem sido farta e reiteradamente exposto a cada versão do Fórum Social Mundial. No Brasil, ademais, dada a estagnação econômica do país, a participação nesses organismos de base se constitui, também, em forma de ascensão social através das estruturas partidárias da esquerda. E nisso os tesoureiros têm sido os mais bem sucedidos.

O discurso em torno do qual se congregam essas múltiplas organizações aparelhadas pela esquerda assume-se como legitimamente solidário e mobilizador de elevados valores humanos. Aliás, somente pessoas desalmadas a ele se poderiam opor. Quem, em sã consciência, negará aos mais carentes o direito de reivindicação, ou lhes recusará a expressão das respectivas necessidades? Contudo, não precisaremos de lunetas ou microscópios para compreender que sua real finalidade está além dos objetivos imediatos que anunciam. Os fios com os quais se tece o cordão que configura tal rede são os fios do marxismo. Seu objetivo final é um projeto de poder.

Primeiro, porque há um abismo separando, na teoria e na prática, a solidariedade e a luta de classes. A palavra mais proferida e mais motivadora em encontros desses grupos é a palavra “luta”. Luta é o que de fato fazem, por todos os meios viáveis. Ora, a luta de classes, essencial à concepção marxista da história, implica a rejeição da solidariedade e da democracia. Solidariedade não é união por interesses comuns. E a política, na democracia, não é conflito, mas resposta para a solução solidária dos conflitos.

Segundo, porque apesar de o discurso tanto falar de “luta”, “vitória”, “opressores”, justiça e solidariedade, não há qualquer nó dessa rede de organizações dedicado a interesses que não tenham significado ideológico, econômico ou classista.

Que solidariedade é essa que desconhece, por exemplo, os anciãos e seus asilos, as inúmeras instituições que se dedicam a cuidar dos dependentes químicos, as incontáveis outras que se desvelam no atendimento dos deficientes físicos, dos portadores de enfermidades degenerativas, dos orfanatos e assim por diante? Estes segmentos sociais sim, são atendidos por aqueles que vêm a solidariedade como ela de fato é – a mais elevada das virtudes sociais.

Segunda, 25 Dezembro 2006 21:00

Um Natal Para Toda a Vida

A noite de Natal é a mais diferente das noites. Silenciam as fábricas, quedam-se as ruas, ficam no solo as aeronaves. Até a mais insana das tarefas humanas, a tarefa de fazer a guerra, ganha, na noite de Natal, o silêncio das trincheiras.

A noite de Natal é a mais diferente das noites. Silenciam as fábricas, quedam-se as ruas, ficam no solo as aeronaves. Até a mais insana das tarefas humanas, a tarefa de fazer a guerra, ganha, na noite de Natal, o silêncio das trincheiras.

Numa noite assim, quando os mais nobres sentimentos varrem o pó do cotidiano e rompem a carapaça com que paradoxalmente sufocamos o bem para nos proteger do mal, inspiram-se os escritores para iluminar a literatura com páginas comoventes. São as histórias de Natal. Em cada uma delas se encontram fragmentos desse insondável mistério que é o homem, habitual espantalho de si mesmo, que cresce quando se ajoelha e se humaniza quando chora.

Entretanto, leitor amigo, por mais histórias de Natal que você tenha lido, em nenhuma delas, e sequer em todas elas, existe a força do episódio ocorrido nas cercanias de Belém, a cidade de Davi, numa noite fria da Palestina. Nasceu o Menino, o Senhor da História, o Rei dos Reis. Envolto em panos estava; deitado numa manjedoura estava.

Penso, às vezes, sobre como escreveríamos nós se nos coubesse conceber o roteiro daqueles fatos. Certamente não escolheríamos aquele local, nunca aquele povo e aquela época, jamais personagens assim. A humanidade já produziu ambientes melhores bem como circunstâncias e elenco mais promissores. E é exatamente por isso que não havia lugar na estalagem.

Essa história de Natal, a própria história do Natal, tecida com os fios sutis com que o divino autor urdiu sua rede de amor à humanidade, vence os séculos, se torna eterna e se impõe ao coração dos homens. É tempo de repetir: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade".

Que estas noites de fim de ano, tão festivas, nos permitam perceber que mais importante do que desarrolhar as garrafas com as quais erguemos brindes e celebramos o convívio é desarrolharmos nossos próprios corações. Veremos, então, que palavras incomuns, retrancadas há muito tempo, surgirão novamente para expressar afeto, falar do amor a quem amamos, manifestar gratidão e louvar a Deus. Aí, sim, começará a festa que realmente importa, aquela não devemos perder e que continuará cantando em nossas vidas.

Sexta, 15 Dezembro 2006 21:00

Cada Vez Mais Belíndia!

Foi o economista Edmar Bacha quem criou, em 1974, o termo Belíndia para designar os abismos que separam o Brasil próspero do Brasil miserável. Aquele seria como a Bélgica, este como a Índia.

Foi o economista Edmar Bacha quem criou, em 1974, o termo Belíndia para designar os abismos que separam o Brasil próspero do Brasil miserável. Aquele seria como a Bélgica, este como a Índia.

Passaram-se 32 anos. A Bélgica continua Bélgica, a Índia cresce a quase 10% ao ano e o Brasil continua patinando como correia frouxa que não sai do lugar. É verdade que desde o Plano Real contabilizam-se discretíssimos avanços nas condições de vida dos segmentos mais pobres. Essa ligeira expansão, no entanto, se dá por vias não sustentáveis. Ela depende de um crescente assistencialismo que jamais pode ser entendido como instrumento de ascensão social. Ao contrário, inoculando o vírus do paternalismo e da dependência, se converte em estagnação. É o neo-coronelismo, cuja eficácia eleitoral ficou escancarada no pleito de outubro.

Como não poderia deixar de ser, dado que do couro saem as correias, o custo desse mecanismo foi transferido para a classe média, que convive com a incessante depressão de seus indicadores de renda e qualidade de vida. Em outras palavras, quem estava no meio não vai para a Bélgica, mas se muda para a Índia. Mesmo que restrito às vicissitudes da vida privada e ao mundo da economia, onde a quantidade de empregos e a qualidade dos salários dependem de inúmeros fatores internos e externos, tal fato, por si só, já seria revelador de uma situação social tão angustiante quanto constrangedora. Todavia, ele vem se instalando com crescente intensidade no próprio setor público, nos poderes de Estado, comandando de maneira escandalosa as torneiras do Erário.

Com crescente freqüência, em algum lugar ou em alguma instância, as maiores remunerações pagas com dinheiro dos impostos garantem avanços para além da Bélgica, enquanto a imensa maioria dos servidores é jogada para a Índia dos vencimentos congelados. Criou-se uma ciranda em moto-contínuo, energizada por razões de direito: autonomia dos poderes para estabelecer seus aumentos, isonomia dos poderes para que os demais façam o mesmo, realinhamentos, direitos adquiridos, regalias das carreiras jurídicas, compensações e por aí afora. Graças a tal ciranda, detentores de poder de Estado e incontáveis categorias de servidores remuneram-se com valores que ultrapassam os cem mil euros anuais!

Acontece que remunerações desse porte, mesmo na Bélgica, correspondem a uma elite econômica. E a distorção que representam ganha contornos exponenciais quando se atenta para o fato de que cem mil euros, no Brasil, correspondem a um poder de compra três vezes maior do que cem mil euros na Bélgica, onde tudo custa três vezes mais do que aqui.

E agora vem o pior: a ciranda das autonomias e isonomias dos poderes e apadrinhados se move em absoluto desrespeito à vontade e à dignidade das condições de vida da única fonte legítima de todo poder: o povo, sem autonomia e sem isonomia, resignado e indefeso pagador de tais exorbitâncias.

Segunda, 04 Dezembro 2006 21:00

Varreram a Moral Para Baixo do Tapete

Lula comporá, por arrendamento do governo, da administração e de parcela gorda do orçamento federal, a mais avassaladora maioria parlamentar que já se formou no Congresso Nacional.

Nos meses que antecederam o pleito de outubro, inúmeros leitores me escreveram suscitando o tema do impeachment presidencial. A todos respondi com uma carta padrão na qual expunha dois argumentos contrários à medida. Em primeiro lugar, ela era inócua porque um Congresso que não concedia metade mais um de seus votos para cassar deputados mensaleiros jamais daria dois terços para a instauração de um processo dessa natureza contra o presidente. Em segundo lugar, ela era inoportuna porque, às vésperas de um pleito que obviamente seria vencido pelo presidente-candidato, recairia sobre quem apoiasse tal providência a mácula do golpismo. O povo que decidisse. E o povo decidiu como era previsto.

Ian Fleming, através de quatro décadas, vem conquistando enormes platéias para a série de livros e filmes cujo personagem central é James Bond, o mundialmente famoso e cheio de truques 007, agente do serviço secreto britânico que tem licença para matar. Pois o eleitorado brasileiro, na última eleição, concedeu diversas licenças para delinqüir, por ação ou omissão, no exercício do poder político. Aliás, o povo expediu a licença, o Congresso Nacional se ajoelha reverente, e nas vias do Judiciário acontecerá o que de hábito ocorre nesses casos, ou seja, coisa alguma. O laboratório de artimanhas onde se abastece Mr. Bond antes de cada aventura é substituído, no Brasil, por inesgotáveis ardis publicitários e mágicas jurídicas e retóricas. Os primeiros saem da cartola daquele amante da verdade que é o Sr. Duda Mendonça. As segundas saem da cachola do Dr. Márcio Thomas Bastos.

Lula comporá, por arrendamento do governo, da administração e de parcela gorda do orçamento federal, a mais avassaladora maioria parlamentar que já se formou no Congresso Nacional. Ela será, inclusive, desproporcional ao resultado das urnas que lhe concederam o segundo mandato, nas quais 39% dos eleitores optaram por seu opositor. Apesar disso, a oposição talvez não consiga somar 20% do plenário da Câmara dos Deputados. Maioria tão avassaladora, combinada com apetite voraz pelo poder cria uma cena atemorizante.

A democracia não é nem pode ser isso. Por definição, ela pressupõe a adesão a um determinado conjunto de princípios e valores e a participação honesta dos agentes políticos. Não há democracia onde o crime e a corrupção assumem o comando. O processo (eleições, partidos, etc.) no qual ela se desenvolve constitui apenas sua dimensão formal. Sua substância está na adesão aos valores porque são eles que vão inspirar a ação dos agentes políticos. E os valores morais, no Brasil, foram varridos para baixo do tapete. O que antes havia por ali, feito às escondidas, envergonhadamente, objeto de reprovação geral, foi levado para a mesa de centro, pendurado nas paredes, sob o ensurdecedor aplauso das urnas.

Terça, 28 Novembro 2006 21:00

Voto, Direito e Dever?

"Se o voto é um direito, por que fazem dele um dever?", indagam freqüentemente os eleitores. Não creio que direito e dever se excluam reciprocamente.

"Se o voto é um direito, por que fazem dele um dever?", indagam freqüentemente os eleitores. Não creio que direito e dever se excluam reciprocamente. Ao contrário, direitos implicam deveres e quase sempre confluem para o mesmo fim. Servimos melhor ao bem quando nos preocupamos mais com os deveres do que com os direitos.

Apesar disso, sou contra a obrigatoriedade de votar. Note-se que essa exigência imposta aos brasileiros com mais de 18 anos se cumpre com a presença no local de votação. Na teoria, o que o eleitor contrariado e desinteressado venha a digitar na urna é problema dele. Na prática, porém, é problema nosso. Certamente não será proveitoso ao bem comum o voto disparado por quem não atribua valor ao que faz. O título eleitoral dessa pessoa é um porte de arma confiado a quem não tem competência. Pesquisas mostram que metade dos eleitores não compareceria às urnas se isso não lhes fosse cobrado como obrigação. Que maravilha! Nos livraríamos de uma multidão de votantes para os quais tanto faz quanto tanto fez.

A qualidade de uma democracia não guarda relação com a quantidade de votantes, mas com a qualidade do voto que as pessoas dão. Não sei onde fomos buscar a idéia de que o número absoluto ou relativo de comparecimentos conceda mais legitimidade aos eleitos ou torne mais perfeito o resultado da votação. Democracias mais qualificadas do que a nossa, com instituições consistentes, melhores leis e melhor gestão pública não levam isso em conta. Quase todas elas, aliás, sequer elegem seus governantes mediante voto majoritário.

Nenhum malefício ocorre quando eleitores não comparecem, ou anulam o voto, ou votam em branco. Problemas surgem, no entanto, quando eles, contrariados, resolvem exercer seu direito de modo efetivo, votando em qualquer um, porque quando tantos votam em qualquer um, qualquer um acaba se elegendo. E qualquer um, como a experiência comprova, é o tipo de pessoa que faz qualquer coisa. É claro que muitos votantes resolutos, satisfeitos com a possibilidade de participar do processo democrático, acabam errando e se arrependendo, posteriormente, do voto que deram. Mas esse é um mal que não podemos evitar. O mal evitável é o que advém do voto dado pelo sujeito que faria melhor ficando em casa e que, por gosto, ficaria em casa mesmo. Arrastá-lo para a seção, sob pena de multa ou perda de direitos, expressa um desejo insano de se expor à irresponsabilidade alheia.

Nem mesmo a opinião bastante difundida de que o voto facultativo aumentará os votos de cabresto e o número de eleitores que cobrarão para votar (como se isso já não fosse comum) fornece justificativa suficiente a que se confie o canhão da urna a mãos ineptas. Se alguma dúvida ainda restar, responda a esta pergunta: quem contribui mais para o bom resultado de um pleito, o eleitor de 16 anos que sem ser forçado a isso vota conscientemente, porque deseja participar, ou o marmanjo que vai a urna fazer qualquer coisa? O grande dever inerente ao direito de votar é o de escolher os melhores, acima dos interesses pessoais, regionais ou de grupos, em vista do bem comum.

Segunda, 20 Novembro 2006 21:00

Afinal, Pode ou Não Pode?

A pergunta me foi proposta diversas vezes nos últimos dias com relação ao envolvimento de Lula nas eleições venezuelanas em favor do companheiro Chávez. O chefe de Estado de um país pode se manifestar e se intrometer no processo político interno de outro?

A pergunta me foi proposta diversas vezes nos últimos dias com relação ao envolvimento de Lula nas eleições venezuelanas em favor do companheiro Chávez. O chefe de Estado de um país pode se manifestar e se intrometer no processo político interno de outro?

Objetivamente, não há lei nacional que o impeça. Mas, como diz São Paulo aos coríntios, nem tudo que é lícito edifica, ou, nas palavras de outro Paulo, jurista romano: "Nem tudo que é permitido (pelo Direito) é correto". Portanto, se o chefe de Estado for pessoa prudente, saberá que pode, mas não deve; se for imprudente ou insensato, o fará. Aliás, como a experiência tem demonstrado fartamente, fará isso e muito mais porque é infinito o universo das coisas tolas e imprudentes sujeitas ao juízo ou à falta de juízo humano.

Num dado momento do discurso que proferiu, Lula disse: "Eu sei que tem eleição aqui dia 3. Eu não sou venezuelano, então não posso dar meu palpite nas eleições venezuelanas". Falou como pessoa prudente, embora confundindo o poder com o dever. Ele poderia, mas não deveria. No entanto, logo após, voltou ao estado normal e degringolou. Dirigindo-se a Chávez, disse: "O mesmo povo que elegeu a mim, que elegeu Kircher, que elegeu Daniel Ortega, que elegeu Evo Morales, certamente vai te eleger presidente da República da Venezuela". E tem gente que considera delírio direitista qualquer menção às tenebrosas articulações do Foro de São Paulo.

Abaixo dele, a ponte que estava sendo inaugurada. Sobre ele um capacete vermelho igual ao do mandatário venezuelano e na cor da campanha chavista. Qual? Vermelha, ora bolas. Havia dois meses que a obra, financiada com recursos brasileiros, estava concluída. Veículos e pedestres, entretanto, continuaram atravessando pachorrentamente o Orinoco, em balsas. A tal integração bolivariana que se arrastasse sobre o rio porque convinha a Chávez que Lula estivesse presente àquele comício de sua campanha eleitoral.

Lula não estava de férias com dona Marisa nas areias venezuelanas da Isla de Margarita. Estava em visita oficial, como representante da nação brasileira, metendo a colher torta em questão estritamente política e interna de nação amiga, onde se disputa um pleito entre dois candidatos. E se der zebra? E se Manuel Morales vencer a eleição?

O que se presenciou lá no Rio Orinoco foi a face externa do mesmo processo que, internamente, deu causa à degradação moral do governo Lula: a privatização partidária e política daquilo que é público para servir à causa. Lula fez da representação nacional que lhe corresponde serventia aos interesses ideológicos e aos projetos de poder do Foro de São Paulo.

Segunda, 06 Novembro 2006 21:00

A Prudentíssima

Não temos tido muita sorte com primeiras-damas.

Não temos tido muita sorte com primeiras-damas. Dª. Rosane Collor lembrava aquelas peças decorativas que a gente muda de lugar uma porção de vezes até perceber que ela não consegue decorar nada e põe no armário da garagem. Itamar nos deixou sem madrinha. Entrou solito e saiu avulso, pois é do tipo que faz as moças perderem tempo; quem arrastou a asa para aquele lado virou titia.

Fernando Henrique e sua patroa deram a impressão inicial de que iriam melhorar bem o escore palaciano. Não chegavam a ser um Casal 20, mas tudo indicava que com um pouco de boa vontade alcançariam uns 15 ou 16. A primeira-dama tinha jeito sério, dedicada atuação social, formação acadêmica e idéias próprias. E foi exatamente aí que começaram os problemas porque, de repente, Dª. Ruth passou a usar essas idéias para fazer frases. Quando a sociedade combatia as drogas ela defendia a legalização da maconha. Quando o Papa estava para chegar ela menosprezava sua influência. Quando lhe perguntavam sobre aborto ela se saía com o mantra de que "a mulher é dona do próprio corpo", como se o feto fosse um quisto ou uma secreção fisiológica. Ou como se a propriedade de um bem (terra, prédio, empresa) assegurasse ao titular o direito de fazer qualquer coisa com o que lhe pertença. Suas frases de efeito tinham sempre efeito contrário. Era mais ou menos o que fazia a Magda (aquela, do "cala a boca, Magda!"), mas a Magda era engraçada, ao passo que Dª. Ruth acabava parecendo um Serjão de tailleur.

Dona Marisa Letícia é um caso à parte. Não fala, não escreve e não faz coisa alguma, com visível prazer. A vida lhe deu uma bela limonada e ela prefere que seja com água Perrier. Seu marido é um partidão (essa foi bem sacada!) e madame sabe que é assim. Botou uma estrela no jardim, outra no peito e não sai de perto. Aliás, a maior dificuldade de fotógrafos e cinegrafistas é conseguir uma imagem do presidente sem que a patroa apareça junto. É uma mulher que conhece o seu lugar. E o ocupa por inteiro. Os guarda-costas guardam as costas e ela o lado direito. Toma conta do marido, no que está certa, mas privatizou o presidente, o que já uma demasia, até para uma mulher prudente. Tão prudente que, por via das dúvidas, enquanto o marido preside o Brasil, pediu e conseguiu cidadania italiana. Se é que me entendem.

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