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Percival Puggina

Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

Domingo, 29 Julho 2007 21:00

O Exemplo de Ricupero

"A mentira do Real" foi a expressão cunhada para designar a moeda que, após seis meses de preparações, contava, naquela data, seus primeiros 90 dias de circulação.

No dia 1º de setembro de 1994, o economista e diplomata Rubens Ricupero, ministro da Fazenda de Itamar Franco, preparava-se para mais uma das centenas de entrevistas que concedeu nos poucos meses em que ocupou a pasta. O Plano Real dava seus primeiros passos como alvo de especulações externas e sinistras investidas internas. Ricupero sucedera, na árdua missão, o ex-titular Fernando Henrique Cardoso que se afastara para disputar o pleito presidencial. Enquanto se ajeitavam as gravatas e as lâmpadas do estúdio, sem saber que o sinal já estava aberto para antenas parabólicas, o ministro confidenciou ao jornalista da Rede Globo, Carlos Monforte: "O que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde".

Quase treze anos depois, no dia 19 de julho de 2007, decorridas apenas 48 horas do maior acidente aéreo da aviação brasileira, Marco Aurélio Garcia, assessor presidencial para assuntos internacionais, foi flagrado por um cinegrafista da Rede Globo festejando, com gesto obsceno, a notícia de que a tragédia de Congonhas podia ter causa em um problema da aeronave.

Dois fatos, dois personagens, dois motivos, duas condutas. Rubens Ricupero segurava o rojão do plano econômico que produziu para o Brasil uma moeda sólida, estável e respeitada, libertando-nos de uma inflação socialmente criminosa e economicamente danosa. A oposição lulo-petista atacava a criatura e seus criadores com energias de medalhista olímpico. "A mentira do Real" foi a expressão cunhada para designar a moeda que, após seis meses de preparações, contava, naquela data, seus primeiros 90 dias de circulação.

A frase de Ricupero, um homem de bem, correspondia à expressão sincera de seu dever funcional. Cabia-lhe zelar pelo patrimônio nacional representado por um projeto que salvou o Brasil da hiperinflação crônica. Criminoso seria promover anúncios diários de suas angústias. Burrice inominável seria fazer o inverso do que disse, proclamando os problemas e ocultando os êxitos. Mas o PT era o guardião da moralidade nacional, o porta-estandarte do bem, da verdade e da justiça. E o simples fato de o ministro confessar que não divulgava as dificuldades de percurso enfrentadas pela nova moeda (essa mesma que o leitor traz no bolso e sabe quanto vale cada uma de suas unidades) se constituía em insuportável deslize ético. Escândalo! E o bom Rubens Ricupero, o valioso e valoroso Rubens Ricupero, um dos melhores brasileiros vivos, condenado por fazer o que devia, tratado como vilão sob os raios e trovões de um farisaísmo que o futuro se encarregou de desnudar, renunciou ao cargo para preservar o Plano Real da sanha de seus opositores.

O gesto indecente de Marco Aurélio Garcia teve outras motivações. O país era um velório onde ainda se contavam os mortos e ele vibrava com a notícia que parecia servir aos interesses do poder, cuja conquista, preservação e fins sacralizam, para ele, quaisquer meios. Deve ter feito o mesmo quando Ricupero pediu demissão, embora não seja digno de lhe desatar os sapatos. Creio que este paralelo retrata o que fizeram com o Brasil nos últimos anos.

Terça, 24 Julho 2007 21:00

Que Vivas as Causas! Morte aos Efeitos?

E por que não atacar a causa, atribuindo as responsabilidades de governo à maioria parlamentar em vez de obrigar o governo a compor e manter essa base aos custos conhecidos?

A contradição exclamada no título deste artigo caracteriza perfeitamente a maneira como se pretende lidar com a maior parte das dificuldades nacionais: trata-se de acabar com os efeitos preservando suas causas no sacrário das coisas intocáveis. É perfeitamente admissível que o povão se deixe iludir pela denúncia e pelo aparente combate dos males visíveis. No entanto, quando essa é a atitude do intelectual, ou daquele que se dedica à vida pública, ou do detentor de mandato, ou do que tem responsabilidades perante a opinião pública, bem, nesse caso, embusteiro é a palavra que melhor o designa. Pretender corrigir efeitos sem atacar aquilo que os produz é evidência de desavergonhado afeto a ambos.

Está na ordem do dia essa coisa horrorosa chamada Agência Nacional de Aviação Civil, aparelho petista e cabide de empregos para companheiros tão estranhos e alheios às funções do órgão quanto íntimos e próximos do partido e da base do governo. Mas, sabemos todos, a ANAC é, neste exato momento, apenas a cabeça mais visível da monstruosa Hidra de Lerna da administração federal, com centenas de cabeças, onde dezenas de milhares de operadores correspondem ao mesmo perfil e reproduzem os mesmos males. Como se resolve isso? Atacando a causa. Organizando a administração pública do modo como fazem os países bem geridos, aqueles onde as coisas funcionam, ou seja, retirando da mão do governo a caneta que dispõe sobre os postos administrativos, sobre as estatais e sobre as portas de tantos cofres. Simples como isso, mas tão difícil de acontecer quanto o leitor bem pode imaginar, até porque o olho de quem está na oposição enfoca, com volúpia, exatamente essa caneta, esses cargos e esses cofres.

Temos partidos em excesso? O Congresso Nacional, com tantos líderes de bancada revestidos de prerrogativas regimentais, ou está congelado ou se arrasta em câmera lenta? É impossível conter o abuso do poder econômico nos pleitos parlamentares? As corporações dominam o parlamento? Quem pode controlar os gastos reais da campanha de um candidato em quinhentos municípios? Pois é. Nossos legisladores querem resolver tais coisas com financiamento público, cláusulas de barreira e proibindo a distribuição de chaveirinhos e camisetas... Fala sério! Num sistema de eleições distritais o número de partidos cai, se tanto, para meia dúzia, todas as campanhas se fazem sob os olhos do juiz eleitoral e do promotor do distrito, as distorções saltam às vistas de todos, inclusive dos eleitores e acaba a representação política dos grupos de interesse.

Mensalão, distribuição de emendas parlamentares, o escambau? Precisamos de ética e a ética resultará da justa indignação dos bons! Será isso suficiente? E por que não atacar a causa, atribuindo as responsabilidades de governo à maioria parlamentar em vez de obrigar o governo a compor e manter essa base aos custos conhecidos? Você sabe porquê. É o desavergonhado amor às causas e suas conseqüências.

Segunda, 16 Julho 2007 21:00

Senado, Para Que Te Quero?

Nos últimos dias, setores da opinião pública dão sinais de haverem encontrado a solução para o Caso Renan: feche-se o Senado!

Nos últimos dias, setores da opinião pública dão sinais de haverem encontrado a solução para o Caso Renan: feche-se o Senado! Se essa fosse uma boa saída então teríamos perdido a chance de resolver outro problema durante o curto mandato de Severino Cavalcanti na presidência da Câmara dos Deputados: feche-se a Câmara! Lula, por sua vez, agradeça aos anjos e santos pelos ouvidos roucos e olhos complacentes da sociedade perante o que acontece à sua volta. Não fosse assim – feche-se o Planalto e jogue-se fora a chave! E não nos faltariam motivos semelhantes para fazer o mesmo com o Judiciário.

Tais posições têm viés anarquista ou totalitário e em nada contribuem para qualificar nossa democracia e as instituições que a servem. Compreender as relações de causa e efeito que se estabelecem entre as enfermidades que atacam os poderes da República em todos os níveis, perceber a natureza das reformas que se fazem necessárias e urgentes, e operar os mecanismos de pressão sem os quais nada mudará, é tarefa quase exclusiva das elites nacionais. Verdades nuas e cruas: 1ª) não se espere do cidadão comum, mourejando pelo almoço da família e preocupado com o nível do rio que ameaça alagar sua casa, que proceda às reflexões sobre os problemas institucionais do país; 2ª) não se espere que próprios detentores de poder tomem a iniciativa de modificar o que muito lhes convém.

Nas sociedades democráticas, tais reformas só ocorrem mediante movimentos de opinião e de pressão, com efeito político e eleitoral, sob responsabilidade original de uma determinada parcela de sua elite. Refiro-me àqueles cujas condições de vida, formação intelectual, capacidade de influência, acesso à mídia, liderança moral e espiritual, recursos materiais e disponibilidade de tempo, desencadeiam, nas próprias consciências, o sentimento de que têm deveres significativos em relação ao bem comum. Um de nossos problemas está em que essa específica parcela da elite nacional se encolhe perante a outra, certamente majoritária, cujos interesses vicejam à sombra das nossas anomalias institucionais.

O bicameralismo, voltemos à pauta, é um modelo indispensável à forma federal de Estado. Em Estados federais, há uma casa legislativa onde a representação é proporcional à população, e outra onde todas as unidades têm o mesmo número de representantes. É um segundo plenário, com a função de assegurar a igualdade política dos Estados-Membros. Na Câmara dos Deputados, a representação de São Paulo é 10 vezes maior do que a de Roraima, mas no Senado ambos têm o mesmo peso político.

Acabar com ele é debilitar ainda mais a Federação, com imenso ganho à voracidade de poder e de recursos fiscais que caracteriza a União. O que precisamos é robustecer as funções do Senado na Federação; suprimir-lhe atribuições redundantes com as da Câmara dos Deputados; conectar os senadores aos governos estaduais; simplificar-lhe a estrutura da Casa e reduzir seus escandalosos custos operacionais.

Terça, 10 Julho 2007 21:00

Temporão e a Ressureição

Ora, se os embriões fossem células mortas o interesse científico por eles seria quase igual a zero.

O objetivo deste artigo não é o de refutar mais um argumento dos abortistas pela simples razão de que não se pode refutar algo que não existe. Os abortistas não dispõem de qualquer argumento. O que eles têm são motivos para justificar o que defendem e isso é inegável que existe. Existem tantos motivos para fazer um aborto quanto para qualquer outro crime. Aliás, boa parte da receita de muitos advogados provém, exatamente, do arsenal de motivos que podem alinhar para justificar delitos praticados por seus clientes.

O que torna o tema do aborto fascinante, sob o ponto de vista retórico, são as teses sustentadas por seus defensores. Exatamente por não terem fundamento algum, submetê-las ao crivo da razão se constitui num exercício muito interessante. Agora, por exemplo, o ministro da Saúde juntou-se aos que sustentam que o embrião humano não tem cérebro e que, por conseqüência, ele corresponde a uma fase que pode ser comparada à da morte cerebral.

Qual o objetivo dessa exótica afirmação? Viabilizar o uso de embriões e justificar o aborto nas primeiras semanas de gravidez a partir da noção de que se trata de coisa morta, semelhante ao corpo humano com diagnóstico de morte cerebral. Cai, no entanto, um silêncio de claustro sobre como essa "coisa" morta se desenvolve durante 12 semanas até que os cientistas lhe apontem a inesperada ocorrência de um cérebro. Essa preocupação em negar a condição humana e viva do embrião e do feto corresponde a uma tentativa ridícula de tornar aceitável algo que, não sendo assim, seria moralmente intolerável. Eis o que se depreende da necessidade de construir a esdrúxula tese: se a vida do embrião e dos feto for vida humana, aborto é crime.

Basta, então, evidenciar o absurdo científico do que foi afirmado para enterrar no próprio argumento toda a tentativa de justificar moralmente o abortamento voluntário. Com efeito, a teoria inova o ciclo vital com uma espécie de ressurreição dos embriões e dos fetos como condição para que possa existir vida humana. Ora, se os embriões fossem células mortas o interesse científico por eles seria quase igual a zero. Bem ao contrário do que faz supor a idéia do ministro, embriões são tão vivos e tão vitais que dão origem a um indivíduo completo, sem outra interferência além da que ocorre por absorção dos mesmos nutrientes que os transformam em fetos, os fetos em bebês e os bebês num eventual titular da pasta da Saúde.

O embrião corresponde à mais notável, densa, compacta, misteriosa e fascinante fase do desenvolvimento do ser humano. É a primeira etapa do longo processo auto-evolutivo e auto-construtivo que só alcançará seu apogeu na idade adulta, sem prejuízo da sua natureza em qualquer dos estágios anteriores ou posteriores, da concepção até a morte.

Quarta, 04 Julho 2007 21:00

A Alegoria dos Macaquinhos

Saiba, porém, leitor: o problema não é o Senado, não é a Câmara dos Deputados, não é o Poder Judiciário nem é o governo federal. É o apagão mental que se estabelece sempre que necessário relacionar causas e conseqüências.

Diversas matérias da imprensa brasileira, na semana que passou, se detiveram a examinar o relatório divulgado pela ONG Transparência Brasil envolvendo o custo dos parlamentos em 12 países: Estados Unidos, Espanha, Canadá, França, Alemanha, Reino Unido, México, Chile, Portugal, Argentina, Itália e Brasil. No custo per capita só perdemos para os Estados Unidos, mas ganhamos disparados na relação que realmente conta, ou seja, naquela entre o custo de cada parlamentar e o PIB nacional. O orçamento do Congresso brasileiro, servido pelos cofres de um país pobre, é de R$ 6 bilhões e o dos Estados Unidos, país mais rico do planeta, equivale a R$ 8 bilhões. Cada congressista norte-americano custa R$ 15 milhões. Cada deputado federal brasileiro custa R$ 10 milhões. Mas nenhum parlamento do mundo, mesmo em termos absolutos, custa mais do que o nosso Senado Federal: R$ 33 milhões por senador! O relatório completo pode ser lido no site Transparência Brasil.

É preciso, contudo, pôr as coisas no seu devido lugar. Não, não. Se o leitor pensou em "pôr todo mundo na cadeia", errou. Não é tanto assim: só 165 deputados federais (uma terça parte dos membros da Casa) e 37% dos senadores respondem em segunda instância ou nos Tribunais Superiores por crimes contra a administração pública ou o processo eleitoral, ou foram multados pelos Tribunais de Contas quando no exercício de funções executivas. Como se vê, nada que crie constrangimentos num país cuja Corte Suprema jamais condenou um congressista.

Esses dados explicam o que está acontecendo com Renan Calheiros e a virtuosa Comissão de Ética do Senado Federal. Trata-se da mais recente versão dos macaquinhos atravessando o rio sobre um cipó. Cada um, prudentemente, segurando o rabo do outro.

Saiba, porém, leitor: o problema não é o Senado, não é a Câmara dos Deputados, não é o Poder Judiciário nem é o governo federal, cuja figura central deixou bem claro que daria dois dedos para tirar o fraterno amigo Renan da sinuca de bico em que se meteu. São as nossas instituições que produzem esse resultado. É o ordenamento jurídico que criamos. É a república como a concebemos. É a democracia como a estruturamos. É o relativismo que cultivamos. É o apagão mental que se estabelece sempre que necessário relacionar causas e conseqüências. E tudo é o espelho da sociedade que somos.

Sei que é pura vitória macabra. No entanto, em junho do ano passado, num artigo com o título "A serviço do inimigo", anunciei que o pleito que se avizinhava realizaria os dois sonhos de Lula: a reeleição e a possibilidade de, a partir de janeiro, compor base de apoio com um Congresso totalmente passado a sujo. Não deu outra.

Sábado, 30 Junho 2007 21:00

Os Novos Alquimistas

São os novos alquimistas, que transformaram em anos de ouro os anos de chumbo que provocaram.

A promoção de Lamarca a general de brigada, posto a que por certo jamais chegaria, ainda que tivesse permanecido no serviço ativo, é ato especial dentro dessa campanha do agasalho que os companheiros da luta armada conseguiram montar para benefício próprio. São os novos alquimistas, que transformaram em anos de ouro os anos de chumbo que provocaram.

Uma coisa é o clube em si mesmo, constituído para nadarem de braçada na piscina dos recursos públicos onde se derramam os impostos que todos pagamos e para cujo montante eles foram, ademais, dispensados do dever de contribuir. As indenizações e pensões que recebem, isentas de Imposto de Renda, são servidas no restaurante do clube limpas como filé de lagosta.

Certo líder metalúrgico, após liderar greve no ABC paulista em 1981, passou alguns dias na cadeia. O episódio lhe valeu uma loteria paga em prestações vitalícias de 3,3 mil reais. Bem sucedido jornalista gaúcho foi agraciado com pensão de 10,7 mil reais aos quais agregou bolada extra de um milhão e meio. Um engenheiro da mesma praça ganhou manchete com seu troféu: turbinou a pensão que já vinha recebendo, no valor de 4,4 mil reais, para 10,7 mil reais e foi premiado com mais 1,3 milhões. Conhecidíssimo jornalista carioca, alegando ter sido demitido em 1965 do jornal onde trabalhava, abiscoitou aposentadoria de 23 mil e um milhão de bônus. Já são mais de 10 mil os membros e passam de 50 mil os candidatos a sócio do clube que aguardam despacho da comissão constituída no Ministério da Justiça.

Não nego que certas indenizações sejam devidas, embora constituam uma novidade na política dos povos após conflitos internos sucedidos por anistia geral. Mas os montantes e critérios ferem a razoabilidade. Se a moda pega, teremos que promover ajustes com as vítimas do Estado Novo e com os familiares dos degolados de 1923. Faltaria papel no mundo para imprimir o dinheiro necessário a indenizar os cem milhões de mortos do comunismo e os pensionistas de seus cárceres. E eu frito no dedo se haveria anistia ampla geral, irrestrita e generosamente indenizatória se Lamarca e seus companheiros da luta armada, treinados para "defender a democracia" em Havana, Moscou e Pequim, tivessem sido vitoriosos em seus intentos revolucionários.

Como disse acima, isso é uma coisa. Outra, porém, é o caso Lamarca, porque a promoção de um desertor fere a carreira e a hierarquia militar. Trata-se, aqui, de um ato contra as Forças Armadas. Mas também isso vai passar batido no festival de escândalos urdidos para desmoralizar a alma nacional. Você talvez não perceba, leitor, mas são os seus valores e seus direitos que, a cada dia, estão sendo meticulosamente esfacelados.

Quinta, 21 Junho 2007 21:00

Lista Fechada é Duplo Golpe

Para que entendamos bem do que estamos falando no caso da lista fechada, é importante saber que golpes, na acepção política da palavra, são ações que visam a manter no poder ou destituir do poder por meios irregulares.

Pode uma votação parlamentar formal se constituir em golpe? Sim, pode. Recebe o nome de golpe congressual e tem, inclusive, antecedente histórico no episódio em que o Congresso Nacional impediu o retorno de Café Filho à presidência da República. Após o suicídio de Getúlio, lembremos, o posto foi assumido por seu vice, Café Filho, que alguns meses depois sofreu um enfarte, sendo substituído por Carlos Luz, presidente da Câmara. No dia 22 de novembro de 1955, Café, autorizado pelos médicos, enviou carta ao Congresso anunciando que iria retornar, mas as duas Casas, sem qualquer motivo de base constitucional, declararam-no impedido. Aquilo foi um golpe congressual.

Para que entendamos bem do que estamos falando no caso da lista fechada, é importante saber que golpes, na acepção política da palavra, são ações que visam a manter no poder ou destituir do poder por meios irregulares. É o que está por acontecer. Nos últimos cinco pleitos para a Câmara dos Deputados, com o sistema em vigor - lista aberta - a renovação oscilou entre um mínimo de 44% em 1998 e um máximo de 62% em 1990. Na eleição do ano passado ficou em 48%. Com a adoção da lista fechada, que impede o eleitor de votar no candidato de sua preferência, esse índice não deverá passar de 5%. Trata-se, portanto, de artimanha que visa a manter com mandato mais de um terço da Casa que a ela não retornaria pelo voto popular. Eis o golpe número um.

Entre suas conseqüências mais fáceis de antever destaca-se a potencialização do corporativismo característico da instituição, que se consolidará como clube de amigos reunidos na defesa de seus interesses, ao total resguardo da fiscalização do eleitor. Este primeiro golpe, portanto, impedirá o eleitor de retirar do Parlamento, pelo recusa do voto, os parlamentares cuja conduta moral ou política mereça rejeição. Numa Casa que se tem revelado cada vez mais tolerante para com os delitos de seus membros, isso se constitui num definitivo alvará de soltura concedido a todo o plenário.

O voto em lista fechada promove, contudo, outro golpe ainda mais sério à democracia ao cristalizar os blocos parlamentares de governo e oposição nas suas atuais proporções. Ele está no eixo do projeto de poder concebido por Lula e seu partido, e foi anunciado pelo presidente já na primeira entrevista concedida após a proclamação do resultado do pleito de 2006. Quem está mandando continuará mandando por longos anos. É o que pretendem, contra a vontade popular, numa manobra que assume como dado da realidade o fato de sermos uma casa de tolerância e um país que se deixou imbecilizar politicamente.

Segunda, 18 Junho 2007 21:00

Matemática Revolucionária

Nessa perspectiva, matemática financeira deve ser matéria neoliberal e cálculo de área coisa prá dono de latifúndio. Calcule, agora, leitor, onde essa coisa vai parar.

Há alguns dias escrevi sobre os "fazedores de cabeça" que embrutecem a inteligência acadêmica do país, alimentando-a com as rematadas tolices da literatura esquerdista. Agora, recebo outra robusta prova dos extremos a que chega esse processo. Trata-se de uma tese de doutorado. Ela se tornou conhecida pelo convite divulgado pelo autor para o ato de defesa que ocorreu no final do mês passado. A mensagem passou a circular na rede. Omitirei o autor e a instituição porque prefiro denunciar o veneno a dar publicidade à cobra. O importante, aqui, é o fato em si. O autor existe. Há diversas referências a ele na internet e o que pude ler é totalmente coerente com o que segue abaixo, na reprodução do convite que fez a seus pares. Após indicar o quando e o onde da apresentação, ele designa o trabalho que apresentará e que trata das "contribuições de Paulo Freire e Ubiratan D'Ambrosio para a formação do professor de matemática no Brasil". E resume assim o conteúdo da apresentação:

"Nos impusemos como tarefa analisar a formação do professor de matemática de modo contextualizado com a nossa realidade social atual e reconstituindo a função histórica que a nossa escola e a formação docente desempenharam como reforçadora das desigualdades sociais e mantenedoras do status quo da sociedade capitalista".

"No levantamento histórico, utilizamos as contribuições de G. Freyre, S. B. de Holanda, C. Prado Júnior, L. Basbaum, C. Furtado, F. de Azevedo, J. K. Galbraith, O. de O. Romanelli, A. Teixeira, entre outros. E, em nossa análise, nos valemos das contribuições de K. Marx, F. Engels, A. Gramsci, M. Chauí, L. Althusser, J. Contreras, O. Skovsmose A. Ponce, M. Gadotti, K. Kosik e outros referenciais próprios da área".

"A formação do professor de matemática é vista como resultado de um processo histórico-cultural que mantém ainda uma forte herança de elementos de uma sociedade colonial, corroborado pela não participação democrática do povo brasileiro em seu processo de constituição sócio-cultural numa sociedade capitalista e excludente". E segue, anunciando que "os atuais processos de formação de professor de matemática ainda são fortemente sedimentados numa formação alienada aos ditames de uma sociedade de classes, que não permite ao futuro professor compreender e fazer uso da necessária autonomia inerente à sua atuação. (...) Assim, a investigação indica a necessidade de uma atuação dos formadores no sentido de conscientizar os futuros professores de matemática de sua tarefa como intelectuais orgânicos a serviço da construção da hegemonia dos excluídos, dos explorados em geral".

Como se vê, o doutor está convencido de que a tarefa de um professor de matemática é servir à construção da hegemonia dos excluídos. Pergunto eu: de que serve, para esse fim, ensinar tabuada, trigonometria e álgebra? Qual a função revolucionária de integrais e diferenciais? Nessa perspectiva, matemática financeira deve ser matéria neoliberal e cálculo de área coisa prá dono de latifúndio. Calcule, agora, leitor, onde essa coisa vai parar.

Terça, 01 Maio 2007 21:00

Deuses ou Monstros?

Ora, o homem pode tirar-se a própria vida, mas não a pode dar-se; pode tirá-la de outrem, mas não a pode devolver.

Estamos, de novo, às voltas com a questão do aborto. O ministro Temporão quer fazer um plebiscito sobre o assunto. Há poucas semanas elaborei uma extensa matéria sobre o tema criticando os vários argumentos daqueles que o defendem. Na ocasião dei pouco relevo ao argumento religioso por me parecer que o assunto é eminentemente moral (embora as razões religiosas tenham lugar, sim, no debate de temas civis).

Lendo agora o livro "Aborto e a sociedade permissiva", de Pedro-Juan Viladrich, editado pela Quadrante, deparo-me com uma interessante linha de raciocínio. Diz o autor, no capítulo intitulado "O abortismo ideológico" (e aí se vê a razão pela qual todos os projetos que tratam de facilitar o aborto provêm da mesma vertente ideológica), vê as coisas da seguinte maneira: "Existe pessoa quando existe um mundo de consciência explícita, uma ordem de interioridade auto-consciente e um desabrochar da própria liberdade. Uma vez que não possui essas características, o feto talvez seja vida na perspectiva biológica, mas não é um ser humano do ponto de vista ideológico ou cultural; quem suprime um feto suprime vida biológica, mas não uma humanidade".

Assustadora idéia! A pessoa humana deixa de ser uma noção objetiva e uma realidade autônoma para se converter numa construção. Nas brilhantes palavras de Viladrich, tais ideólogos da cultura supõem que ao fazer uma "idéia de homem" estejam fazendo o próprio homem "à imagem e semelhança" de seu pensamento e de sua vontade.

E surge uma insuperável contradição. Só poderia criar o homem a partir de uma idéia quem pudesse criar a si mesmo a partir de uma idéia. Ora, o homem pode tirar-se a própria vida, mas não a pode dar-se; pode tirá-la de outrem, mas não a pode devolver. Por outro lado, não é a cultura que faz o homem ("porque a cultura não cria a si mesma"), mas é o homem quem faz a cultura. Logo, a cultura é a construção e o homem, o construtor.

Admitir-se o inverso, tolerar-se que a vontade de um ou de muitos possa definir o que é o humano e quem deve viver ou ser suprimido seria aceitar os autores de tais conceitos como "deuses ou como monstros". As conseqüências já conhecidas de suas teses consagram a segunda hipótese. Até porque, como ressalta Viladrich, ao triavializarem o real (a vida humana e sua essência) em benefício de sua "idéia de homem" (esta sim, absolutamente irreal, cultural, ideológica e transitória), franqueiam a humanidade inteira ao totalitarismo que tanto se empenham em vender sob os mais encantadores disfarces, ou impor pelos mais perversos méis de ação.

Segunda, 16 Abril 2007 21:00

Iconoclastia de Fraldas

Vive-se sob o império da moda: o jovem é bonito e sábio; o velho é feio e burro.

"Panta rei" - tudo flui -, afirmava o filósofo Heráclito, no séc. V a.C. Essa antiga idéia, segundo a qual a evolução é regra universal e irrestrita, associada à de que tudo caminha no sentido da perfeição, está muito presente na cultura contemporânea. A maior parte das pessoas acredita piamente nela. Que tudo muda é verdade, não é certo que toda mudança implique evolução e aperfeiçoamento.

No século passado, o evolucionismo recebeu dois importantes reforços através de Herbert Spencer e de Charles Darwin. O primeiro expôs uma teoria segundo a qual a evolução é uma passagem do simples ao complexo, do menos ao mais coerente; o segundo deu-lhe a conhecida dimensão biológica: a sobrevivência e o desenvolvimento dos indivíduos são determinados por sua capacidade evolutiva e de adaptação ao ambiente.

Não consegui localizar o ponto exato em que o evolucionismo se associou à tese do "constante aperfeiçoamento das coisas", mas aconteceu aí um abuso semelhante ao que os modernos relativistas cometeram com a teoria física da relatividade. Assim como o que era físico ganhou uma descabida dimensão "moral" (o relativismo), "mudança" passou a ser sinônimo de "aperfeiçoamento".

E daí? E daí decorre um monte de absurdos. Tudo que é antigo é imperfeito e tudo que é moderno é perfeito; o que muda evolui e o que permanece involui; tudo que se faz hoje supera o que se fazia ontem. Vive-se sob o império da moda: o jovem é bonito e sábio; o velho é feio e burro. Essa curiosa associação de novidade com qualidade produz uma espécie de iconoclastia de fraldas à qual nada antigo resiste.

A começar pelo amor - coisa antiga demais - que se esgota na curtição recíproca, não implica laços e já responde pelo passageiro sinônimo de "cumplicidade"; a prosseguir pelo respeito - elemento indispensável à relação entre as pessoas. Como estabelecer, por exemplo, a supremacia do novo sobre o antigo nas relações entre pais e filhos, entre alunos e professores, entre controladores de vôo e o Ministro da Defesa?

Poucas coisas tão antigas e, portanto, tão "superadas" quanto a instituição familiar. Cometeram-se e se cometem contra ela todas as violências e profanações; afrouxaram-lhe os laços; abriram-na e desoneraram seus membros de maiores deveres; por fim, atribuíram a alguns degenerados a tarefa de orientá-la a distância por canal de TV. Tudo moderno, bom e politicamente corretíssimo. Aliás - quer passar por panaca? - defenda coisas tão indefensáveis quanto religião, família e valores.

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