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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Quarta, 30 Abril 2008 21:00

O Paradoxo de Easterlin

Em 1974, Richard Easterlin, economista que então lecionava na Universidade da Pensilvânia, publicou um estudo no qual argumentava que o crescimento econômico não necessariamente propiciava mais satisfação.

De repente, surgem teorias exóticas na imprensa. A última, a encontrei no Invertia, do portal Terra. É que dinheiro traz felicidade. Aparentemente, foram necessários alguns milênios para que os pensadores chegassem a esta brilhante descoberta. Segundo a notícia, depois da Segunda Guerra Mundial, a economia japonesa passou por uma das maiores expansões que o mundo já viu. Entre 1950 e 1970, a produção econômica per capita cresceu em mais de 700%. O Japão, em apenas algumas décadas, se transformou de nação devastada pela guerra em um dos mais ricos países do planeta. No entanto, estranhamente, os cidadãos japoneses não pareciam estar mais satisfeitos com as suas vidas. Uma pesquisa apontava que a porcentagem de pessoas que respondeu da maneira mais positiva possível quanto ao seu grau de satisfação pessoal caiu, no país, entre o final dos anos 50 e o começo dos 70. Os japoneses enriqueceram, mas aparentemente não se tornaram mais felizes.

Daí surgiu o chamado Paradoxo de Easterlin. Em 1974, Richard Easterlin, economista que então lecionava na Universidade da Pensilvânia, publicou um estudo no qual argumentava que o crescimento econômico não necessariamente propiciava mais satisfação. As pessoas de países pobres, e isso não deve causar surpresa, se tornavam mais felizes quando passavam a ser capazes de arcar com o custo dos produtos cotidianos. Mas ganhos adicionais pareciam simplesmente redefinir os parâmetros. Para expressar a questão em termos cotidianos, ter um iPod não torna uma pessoa mais feliz, porque, quando ela o tem, passa a desejar um iPod Touch. A renda relativa - os ganhos de uma pessoa em comparação com os de pessoas que a cercam - importa bem mais que a renda absoluta, escreveu Easterlin.

Este paradoxo apontava para um instinto quase espiritual dos seres humanos de acreditar que o dinheiro não pode comprar felicidade. Na semana passada, na Brookings Institution, em Washington, dois jovens economistas, Betsey Stevenson e Justin Wolfers, concluíram - ó gênio! - que dinheiro tende a trazer felicidade, mesmo que não a garanta. A renda faria diferença. Após pesquisas conduzidas em todo o mundo, o instituto Gallup descobriu que o índice de satisfação é mais elevado nos países mais ricos. Os residentes desses países parecem compreender que vivem bastante bem, mesmo que não tenham um iPod Touch.

Essa agora! Pesquisar no mundo todo para concluir que ter dinheiro é bom. Em meus dias de jovem, a última coisa que me preocupava em minha vida era dinheiro. Sem conhecer mundo, minhas necessidades eram poucas. Tendo o de comer e o de beber, mais o carinho de uma mulher, a vida estava plena. Nos anos de universidade, vivi em pequenas kitchenetes e entre aquelas estreitas quatro paredes fazia minha vida. Não me queixo. Foi bom.

Mas a vida avança e o mundo se mostra maior do que imaginamos. Se você quer ficar em sua aldeia, tudo bem. O dinheiro não faz muita falta. Começa a fazer falta quando você sai da aldeia e descobre como é bom sair da aldeia. Em minha primeira viagem, no início dos 70, fiz a Europa de sul a norte e de leste a oeste. Sempre me hospedando precariamente, comendo sanduíches, levando queijos, patês e vinho para o hotel. O que é muito bom. Daqueles dias também não me queixo. Mas cedo descobri que melhor ainda era comer melhor em um bom restaurante, beber um vinho de melhor qualidade, hospedar-se melhor. Não falo em cinco estrelas. Três já está bom.

Uma coisa é você comer um merguez numa tendinha de árabes em Paris. Não é ruim, e sempre que vou a Paris dedico um almoço ao merguez. Mas há um surplus em jantar no Procope ou no Julien. Comer tapas em Madri é muito bom. Mas bom mesmo é um cochinillo ou cordero lechal no Sobrino de Botín. E isso exige alguma grana. Não que seja necessário ser milionário para curtir tais venturas. Mas algo se há de ter.

Que o dinheiro em si não traz satisfação, de acordo. Conheço pessoas muito ricas que não ousam sair da aldeia. Talvez por medo do anecúmeno, suponho. Em minha cidadezinha, Dom Pedrito, tive como amigo um fazendeiro de grandes posses. Era pessoa generosa, houve vezes em que, só por sentir-se contente, me enfiava no bolso um pacote de dinheiro. Fazia isso com muita gente. Bastava fazer um bom negócio, saía a distribuir dinheiro na rua. “Que é isso, Davi, não estou precisando de dinheiro”. “Então repassa para tuas mulheres”. Bom, já que era para fazer obra social, eu aceitava.

Nunca saiu da aldeia. Convidei-o certa vez para ir a Paris. Vende uns trinta ou quarenta bois, Davi, e serei teu guia. Ora, ele tinha mais de mil bois. Mas não concebia vender bois para ver o mundo. Dom Pedrito lhe bastava. Não deixa de existir uma certa razão na afirmativa de que dinheiro não traz felicidade. Há milhares, senão milhões de pessoas, que não sabem bem utilizar seus patrimônios. Mas sem um certo mínimo – que não precisa ser muito – não é fácil ser feliz. Pelo menos para quem viu um dia o mundo e seus encantos e neles se viciou. Em meus dias de Estocolmo, contraí uma grave doença nórdica, que consta que não tem cura, a resfeber. Febre de viagens. Fiquei contaminado até a alma, e até hoje não consegui ficar parado por muito tempo.

Nasci na fronteira seca entre Brasil e Uruguai. Coincidia que o Uruguai começava justo no horizonte, onde ficava a Linha Divisória. Nesta linha, de três em três quilômetros há um marco de concreto. De seis em seis, há um marco maior. Em frente a nosso rancho, ficava o Marco Grande dos Moreiras. Meu pai me erguia até o topo do marco, me fazia virar para o nascente e dizia: “Fala para os homens do Uruguai, meu filho”. Depois, me virava para o poente: “Fala agora com os homens do Brasil”. Nasci entre dois países, sempre olhando para um e outro. Daí a querer ir mais adiante foi só um passo.

Quando jovem, sempre considerei dinheiro uma bobagem. Minhas necessidades eram mínimas. Certo dia, em um livro de Bernard Shaw, li uma frase que me chocou. Cito de memória, sem muita precisão: dinheiro é saúde, cultura, educação. Talvez não fosse exatamente esta a frase, mas seu sentido era este. Naqueles anos, eu era católico e a pobreza me encantava.

Sem ser rico, tenho hoje condições de viver e viajar com conforto. Adoraria ser rico. Minha primeira providência seria oferecer viagens a amigas que nunca viajaram. Adoro apresentar cidades às pessoas que quero bem. Já sonhei em viajar com uma amiga, de olhos vendados, e largá-la direto nos canais de Amsterdã. Para chocar. Em verdade, já fiz isto, só que a moça foi sem olhos vendados. Daqui a duas semanas, vou fazer de novo.

Mas falava da brilhante tese dos jovens economistas. Só o que faltava fazer profundas pesquisas para provar que dinheiro é bom! Segundo Daniel Kahneman, psicólogo da Universidade de Princeton, laureado com o Nobel de Economia em 2002, "há um vasto e crescente volume de indícios de que o paradoxo de Easterlin talvez não exista". Só espero que não tenha recebido o Nobel por ter chegado a esta genial conclusão.

Quarta, 23 Abril 2008 21:00

Igreja é Conivente Com Pedofilia

Tarde piou o papa. Quando cardeal, foi notório o seu empenho no acobertamento dos padres pedófilos. Tampouco não temos notícia de qualquer punição de um tribunal eclesiástico.

Durante sua viagem aos Estados Unidos, ainda no avião que o transportava, sua santidade Bento XVI disse estar “profundamente envergonhado” pelos casos de pederastia da Igreja Católica nos Estados Unidos. Estou usando a palavra pederastia porque colhi a notícia no jornal madrilenho El País. É como os espanhóis chamam a pedofilia. Esta palavra é evitada na Espanha, pois teria uma conotação completamente diferente e exótica.

Tarde piou o papa. Quando cardeal, foi notório o seu empenho no acobertamento dos padres pedófilos. Tampouco não temos notícia de qualquer punição de um tribunal eclesiástico. As punições, se assim podem ser chamadas, não passaram de transferir o padre devasso para uma outra paróquia. A mesma leniência não tiveram os tribunais americanos, que condenaram as dioceses ao pagamento de milhões de dólares.

No ano passado, a Corte Superior de Los Angeles ratificou o maior acordo já pago por uma diocese católica nos Estados Unidos a 508 pessoas que sofreram abusos sexuais por parte de sacerdotes: 660 milhões de dólares em indenizações. Para poder desembolsar tais cifras, a Igreja teve de vender várias propriedades. Vários padres foram condenados e cinco bispos e arcebispos declararam falência ante a impossibilidade de indenizar em dinheiro os danos.

O escândalo veio à tona em 2002, em Boston (Massachusetts), onde mais de 500 supostas vítimas de abusos apresentaram queixas. O caso acabou com a entrega de 85 milhões de dólares aos querelantes. Em dezembro do mesmo ano, a arquidiocese aceitou desembolsar 60 milhões de dólares para chegar a um acordo com 45 supostas vítimas de padres pedófilos. Em 2004, a diocese de Orange (Califórnia) pagou 100 milhões de dólares para encerrar 90 processos e, em 2005, a também californiana Oakland entregou 56 milhões a suas 56 vítimas. Em 2006, a diocese de Convington (Kentucky) pagou 84 milhões de dólares a 350 vítimas de abusos.

“Excluiremos absolutamente a pedofilia – ou pederastia, como preferem os espanhóis - do Ministério sagrado”, disse o Pontífice aos jornalistas que viajavam no interior do avião. “Estamos profundamente envergonhados e faremos todo o possível para que isto não ocorra no futuro”.

É um propósito prudente, ou o Vaticano arrisca ir à falência. Seja como for, o “faremos todo o possível” do papa soa como palavras vãs. Bento XVI é radicalmente contra a abolição do celibato clerical. E enquanto os sacerdotes se mantiverem célibes, vai sobrar para os coroinhas e crianças próximas.

Leio hoje no noticiário on line que a Igreja Católica está estudando introduzir mudanças nas leis canônicas aplicadas aos sacerdotes que cometem abusos sexuais contra crianças.O prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal William Levada, mencionou essa possibilidade de reforma do código canônico durante um almoço em Nova York com os editores da revista Times.

Ora, o Código Canônico já prevê punições para este tipo de crime e se a Igreja não as aplicou é porque não houve determinação de aplicá-las. Verdade que não são sanções graves, privativas de liberdade, mas de qualquer forma prevêem a demissão do estado clerical. Diga-se de passagem, para a Igreja até mesmo o matrimônio constitui delito. No título V do livro VI do Código Canônico, que trata dos Delitos contra Deveres Especiais, lemos:

Cân. 1394 - § 1. Salva a prescrição do cân. 194 § 1 nº 3, o clérigo que tenta matrimônio, mesmo só civilmente, incorre em suspensão latae sententiae; e, se, admoestado, não se recuperare persistir em dar escândalo, pode ser gradativamente punido com privações ou até mesmo com a demissão do estado clerical.

§ 2. O religioso de votos perpétuos, não-clérigo, que tenta matrimônio, mesmo só civilmente, incorre em interdito latae sententiae, salva a prescrição do cân. 694.

Cân. 1395 - § 1. O clérigo concubinário, exceto o caso mencionado no cân. 1394, e o clérigo que persiste no escândalo em outro pecado externo contra o sexto mandamento do Decálogo sejam punidos com suspensão. Se persiste o delito depois de advertências, podem-se acrescentar gradativamente outras penas, até a demissão do estado clerical.

§ 2. O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.


O Código Canônico prevê punições para os crimes sexuais dos sacerdotes, e particularmente para os casos de sexo com menores. Mas não temos notícias de que alguma autoridade eclesiástica tenha privado os milhares de padres pedófilos de seus estados clericais. O máximo que se vê são transferências de paróquia, o que permite inclusive ao padre relapso encontrar carne nova para satisfação de sua lascívia. Ou seja, a Igreja sempre foi conivente com a pedofilia, já que instrumentos para combatê-la não lhe faltam.

Sábado passado, em Nova York, na homilia proferida na catedral de Saint Patrick, Bento XVI arengou para 30 mil jovens, aconselhando-os a afastar-se das armadilhas da droga e do materialismo e buscar a verdade sobre a vida. Melhor faria se os aconselhasse a afastar-se dos sacerdotes católicos.
Terça, 08 Abril 2008 21:00

A Grande Prostituta

Ao homenagear Amado, em verdade Paris está condecorando um escritor venal, que prestou os piores desserviços ao Brasil ao lutar para transformá-lo em mais uma republiqueta soviética, em nome de uma rápida ascensão literária e fortuna pessoal.

(Está sendo relançada no Brasil a obra do mais vil e prostituído dos escritores brasileiros. Me sinto obrigado a republicar artigo que escrevi há dez anos)

A palavra bordel, para quem não sabe, nasce em Paris. Na época em que as "maisons closes" ficavam às margens do Sena, quando alguém ia em busca demulheres, dizia eufemisticamente: "j'vais au bord'elle". Sena, em francês, é palavra feminina, la Seine. Portanto, quando alguém dizia "au bord'elle", queria dizer "au bord de la Seine". Daí, bordel. Não é de espantar que a capital que deu ao mundo esta palavra queira homenagear, nos dias 20 e 25 de março próximos, no 18º Salão do Livro de Paris, a prostituta maior das letras contemporâneas.

O Brasil será o país homenageado do Salão e terá como convidado de honra e representante de nossas Letras, Jorge Amado, o mais vendido escritor nacional, que começou sua carreira como estafeta do nazismo, continuou como agente do stalinismo e hoje é roteirista oficioso de Roberto Marinho. Amado ainda receberá, na ocasião, o título de Dr. Honoris Causa por uma universidade parisiense. Nada de espantar: os parisienses, de longa tradição colaboracionista e stalinista, não perderiam esta oportunidade de homenagear, neste século que finda, o colega que desde a juventude militou nas mesmas hostes.

Do nazismo ao stalinismo - Autor brasileiro mais divulgado no exterior, com traduções em mais de 40 idiomas, colaborador de publicações nazistas, ex-militante do Partido Comunista, deputado constituinte em 46, Oba Otum Arolu do candomblé Axé Opô Afonjá na Bahia, membro da Academia Brasileira de Letras, Amado nasceu em uma fazenda de cacau, em 10 de agosto de 1912, no então recém-criado município de Itabuna, na Bahia, filho de pai sergipano e mãe baiana de ascendência indígena.

Em 1936, é preso no Rio, em conseqüência da Intentona de 35, tentativa de tomada do poder ordenada pelo Kremlin e liderada no Brasil por Luís Carlos Prestes. Em 1940, durante a vigência do pacto de não-agressão germano-soviético, assinado por Stalin e Von Ribbentrop, assume a edição da página de cultura do jornal pró-nazista Meio-Dia. Em uma reunião do Partido Comunista, é denunciado por Oswald de Andrade como "espião barato do nazismo" e instado pelo escritor paulista a retirar-se de São Paulo. Quando interrogado sobre o trabalho sujo deste período, Amado diz simploriamente: “Não me lembro”. Mas Oswald de Andrade lembra. Em antiga entrevista, republicada mais recentemente, em Os Dentes do Dragão, escrevia Oswald:

"Diante de tantos erros e mistificações, retirei a minha inscrição do partido. Numa reunião da comissão de escritores, diante de quinze pessoas do PC, apelei para que o sr. Jorge Amado se retirasse de São Paulo e denunciei-o como espião barato do nazismo, antigo redator qualificado do Meio Dia. Contei então, sem que Jorge ousasse defender-se, pois tudo é rigorosamente verdadeiro, que em 1940 Jorge convidou-me no Rio para almoçar na Brahma com um alemão altamente situado na embaixada e na agência Transocean, para que esse alemão me oferecesse escrever um livro em defesa da Alemanha. Jorge, depois me informou que esse livro iria render-me 30 contos. Recusei, e Jorge ficou surpreendido, pois aceitara várias encomendas do mesmo alemão".

Em 45, Amado é eleito deputado federal pelo Partido Comunista e publica Vida de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, uma apologia ao líder comunista gaúcho e membro do Komintern. O panfleto, encomendado pelo Kremlin, foi traduzido e publicado nas democracias ocidentais e nas ditaduras comunistas, como parte de uma campanha para libertar Prestes da prisão, após sua sangrenta tentativa, em 1935, de impor ao Brasil uma tirania no melhor estilo de seu guru, o Joseph Vissarionovitch Djugatchivili, mais conhecido como Stalin.Para Amado, Prestes, é o “herói, aquele que nunca se vendeu, que nunca se dobrou, sobre quem a lama, a sujeira, a podridão, a baba nojenta da calúnia nunca deixaram rastro".

Prestes preso, segundo o escritor baiano, é o próprio povo brasileiro oprimido: “Como ele o povo está preso e perseguido, ultrajado e ferido. Mas como ele o povo se levantará, uma, duas, mil vezes, e um dia as cadeias serão quebradas, a liberdade sairá mais forte de entre as grades. ‘Todas as noites têm uma aurora’, disse o Poeta do povo, amiga, em todas as noites, por mais sombrias, brilha uma estrela anunciadora da aurora, guiando os homens até o amanhecer. Assim também, negra, essa noite do Brasil tem sua estrela iluminando os homens, Luís Carlos Prestes. Um dia o veremos na manhã de liberdade e quando chegar o momento de construir no dia livre e belo, veremos que ele era a estrela que é o sol: luz na noite, esperança; calor no dia, certeza”.

Em 46, como constituinte, Amado assina a quarta Constituição Brasileira. Dois anos depois, seu mandato é cassado em virtude do cancelamento do registro do PC. Neste mesmo ano, 1948, fixa residência em Paris, onde convive, entre outros, com Sartre, Aragon e Picasso. Em 1950, passa a residir no Castelo da União dos Escritores, em Dobris, na ex-Tchecoslováquia, onde escreve O Mundo da Paz, uma ode a Lênin, Stalin e ao ditador albanês Envers Hodja. No ano seguinte, quando o livro é publicado, recebe em Moscou o Prêmio Stalin Internacional da Paz, atribuído ao conjunto de sua obra, condecoração geralmente omitida em suas biografias.

Esta década é marcada por longas viagens, entre outras, à China continental, Mongólia, Europa ocidental e central, à ex-União Soviética e ao Extremo Oriente. “Vós sabeis, amigos, o ódio que eles têm - os homens de dinheiro, os donos da vida, os opressores dos povos, os exploradores do trabalho humano - a Stalin. Esse nome os faz tremer, esse nome os inquieta, enche de fantasmas suas noites, impede-lhes o sono e transforma seus sonhos em pesadelos. Sobre esse nome as mais vis calúnias, as infâmias maiores, as mais sórdidas mentiras. ‘O Tzar Vermelho’, leio na manchete de um jornal. E sorrio porque penso que, no Kremlin, ele trabalha incansavelmente para seu povo soviético e para todos nós, paras toda a humanidade, pela felicidade de todos os povos. Mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu. Sim, eles caluniam, insultam e rangem os dentes. Mas até Stalin se eleva o amor de milhões, de dezenas e centenas de milhões de seres humanos. Não há muito ele completou 70 anos. Foi uma festa mundial, seu nome foi saudado na China e no Líbano, na Romênia e no Equador, em Nicarágua e na África do Sul. Para o rumo do leste se voltaram nesse dia de dezembro os olhos e as esperanças de centenas de milhões de homens. E os operários brasileiros escreveram sobre a montanha o seu nome luminoso”.

Em função de sua militância no PC, no início de sua trajetória foi traduzido na China, Coréia, Vietnã e ex-União Soviética. Só depois então é puxado para os países ocidentais, pelas mãos de seu tradutor para o alemão. Em Munique, em 1978, entrevistei Curt Meyer-Clason, o responsável pela introdução de Amado na Europa ocidental.

O baiano invade com sua literatura o mundo livre, que tanto caluniou, através da finada República Democrática Alemã. “Devido à proteção do PC, a RDA incumbiu-se da publicação de todos os seus livros, já nos anos 50” -disse-me Meyer-Clason -. “Depois, por meu intermédio, passou diretamente à República Federal da Alemanha”. Não por acaso, Meyer-Clason acaba de ser denunciado, pela revista alemã Der Spiegel, como espião do Terceiro Reich no Brasil.

Da mesma forma que nega seu passado nazista, Amado não comenta seu passado stalinista. Em seu último livro, Navegação de Cabotagem, declara: "Durante minha trajetória de escritor e cidadão tive conhecimento de fatos, causas e conseqüências, sobre os quais prometi guardar segredo, manter reserva. Deles soube devido à circunstância de militar em partido político que se propunha mudar a face da sociedade, agia na clandestinidade, desenvolvendo inclusive ações subversivas. Tantos anos depois de ter deixado de ser militante do Partido Comunista, ainda hoje quando a ideologia marxista-leninista que determinava a atividade do Partido se esvazia e fenece, quando o universo do socialismo real chega a seu triste fim, ainda hoje não me sinto desligado do compromisso assumido de não revelar informações a que tive acesso por ser militante comunista. Mesmo que a inconfidência não mais possua qualquer importância e não traga conseqüência alguma, mesmo assim não me sinto no direito de alardear o que me foi revelado em confiança. Se por vezes as recordo, sobre tais lembranças não fiz anotações, morrem comigo".

Realismo Socialista - Em 1954, julgando talvez insuficiente a defesa do stalinismo feita em O Cavaleiro da Esperança e O Mundo da Paz, Amado publica os três tomos de Subterrâneos da Liberdade, onde pretende narrar a saga do Partido Comunista no Brasil. Só em 58, com Gabriela, Cravo e Canela, deixará de lado sua militância comunista e passará a fazer uma literatura eivada de tipos folclóricos baianos, que mais tarde será transposta em filmes nacionais e novelas da Rede Globo. O romancista baiano foi o introdutor nas letras brasileiras do realismo socialista, também conhecido como zdanovismo, fórmula de confecção literária para a pregação do ideário comunista, concebida pelos escritores russos Maxim Gorki, Anatoli Lunacharski, Alexander Fadéev, e sistematizada pelo coronel-general Andrei Zdanov.

Nos países em que foi traduzido, Amado é visto como um escritor que faz literatura brasileira. Em verdade, obedecia a uma fórmula tosca, mais panfletária que estética, produzida por teóricos em Moscou. Wilson Martins, em A História da Inteligência Brasileira, traduz em bom português as características do novo gênero:

“... de um lado, os bons, ou seja, os que se incluem na “chave” mística do “trabalhador”, do “operário”; de outro lado, os maus, isto é, todos os outros mas, em particular, o “proprietário” e a “polícia”, as duas entidades arimânicas deste singular universo. Os primeiros são honestos, generosos, desinteressados, amigos da instrução e do progresso, patriotas, bons pais de família, sóbrios, artesãos delicados, técnicos conscienciosos, empregados eficientes (embora revoltados),imaginativos e incansáveis, focos de poderoso magnetismo pessoal, cheios de inata vocação de comando e, ao mesmo tempo, do espírito de disciplina mais irrepreensível, corajosos, sentimentais, poetas instintivos, sede de paixões violências (oh! no bom sentido!), modelos de solidariedade grupal, argumentadores invencíveis, repletos, em suma, de uma nobreza que em torno deles resplandece como um halo. O “trabalhador” é o herói característico desses romances de cavalaria: sem medo e sem mácula, ele tem tantas relações com a realidade quanto o próprio Amadis de Gaula. Já o “proprietário” é um ser asqueroso e nojento, chafurdado em todos os vícios, grosseiro, bárbaro, corrupto, implacável na cobrança dos seus juros, lascivo na presença das viúvas jovens e perseguidor feroz das idosas, barrigudo, fumando enormes charutos, arrotando sem pudor, repleto de amantes e provavelmente de doenças inconfessáveis, membro da sociedade secreta chamada “capitalismo”,onde, como todos sabem, é invulnerável a solidariedade existente entre seus membros; indivíduo que favorece todos os deboches, inclusive dos seus próprios filhos; covarde, desonesto, egoísta, ignorante, vendido ao dólar americano, lúbrico, marido brutal e pai perverso, irritante e antipático, rotineiro, frio como uma enguia, incapaz de sinceridade, sem melhores argumentos que a força bruta, verdadeira encarnação contemporânea dos demônios chifrudos com que a Idade Média se assustava a si mesma".

Wilson Martins continua enumerando detalhadamente os demais estereótipos utilizados neste tipo de romance, entre eles a polícia, o tabelião, o posseiro, o governador, o latifundiário, o camponês. Seria por demais monótono continuar a descrição deste universo maniqueísta, como tampouco teria sentidoa companhar a repetição - ad nauseam - de uma fórmula primária de fabricar livros. Vamos então enfiar logo as mãos no lixo. Os Subterrâneos também foi escrito em Dobris, no mesmo castelo da União de Escritores Tchecoeslovacos onde Amado produzira O Mundo da Paz, de março de 1952 a novembro de 1953, ou seja, no período imediatamente posterior à obtenção do Prêmio Stalin. Como pano de fundo histórico temos, como não poderia deixar de ser, a Revolução de 1917. Outras datas e fatos posteriores determinarão poderosamente a construção dos personagens.

Em 1935, ocorre no Brasil a Intentona Comunista. Em 36, Prestes é preso, e sua mulher Olga Benário, judia alemã que é oficial do Exército Vermelho, é deportada para a Alemanha de Hitler. Getúlio Vargas consegue persuadir o Congresso e criar um Tribunal de Segurança Nacional para punir os insurgentes. Ainda neste ano de 36, eclode na Espanha a Guerra Civil, confronto que envolveu todas as nações européias e constituiu uma espécie de ensaio geral para a Segunda Guerra, detonada em 1939, circunstância amplamente explorada por Amado. Em 1937, os integralistas lançam Plínio Salgado como candidato às eleições presidenciais de janeiro do ano seguinte, abortadas a 10 de novembro pelo golpe com que Getúlio consolida o Estado Novo. Para desenvolver sua história, Amado fixará um dos mais turbulentos períodos deste século, que até hoje continua gerando rios de bibliografia.

A ação de Os Subterrâneos situa-se precisamente entre outubro de 37 (às vésperas do Estado Novo e em meio à Guerra Civil Espanhola) e finda aos 7 de novembro de 39, 23º aniversário da proclamação do regime soviético na Rússia. Amado, escritor e militante, tem por incumbência várias missões. A primeira consiste na defesa dos ideais de 17, encarnado em Lênin e Stalin, potestades várias vezes invocadas ao longo dos três volumes. Segunda, fazer a defesa do Messiasque salvará o Brasil, Luís Carlos Prestes, e não por acaso a trilogia encerra-se com seu julgamento. Missões secundárias, mas não menos vitais: denunciar o imperialismo ianque, condenar a dissidência trotskista, pintar Franco com as cores do demônio e fustigar Getúlio por ter esmagado a atividade comunista a partir de 35. Seus personagens são títeres inverossímeis e sem vontade própria,embebidos em álcool se são burgueses, ou imbuídos de certezas absolutas, mais água mineral, se são operários ou militantes, estes sempre obedientes aos ucasses emitidos às margens do Volga.

A obra, composta por três volumes - Os Ásperos Tempos, Agonia da Noite e A Luz no Túnel - constituiria apenas a primeira parte de uma trilogia mais vasta, com pretensões a ser o Guerra e Paz brasileiro. Os três tomos são publicados em maio de 1954, um ano após a morte de Stalin e dois antes do XX Congresso dos PCURSS, o que obriga o autor a interromper seu projeto. Pela segunda vez, na trajetória literária de Amado, sua ficção será determinada não por uma análise da realidade brasileira, mas por decisões tomadas em Moscou.

A onipresença do novo Deus - O personagem por excelência do romance é o Partido Comunista, onipresente como o antigo deus cristão e feito carne na figura de Stalin. A luta do PC é a luta - na ótica do autor - do povo brasileiro contra a tirania, no caso, Getúlio Vargas. Externamente, os inimigos são os Estados Unidos da América, a Alemanha, Franco e Salazar. Sem falar, é claro, na IV Internacional e nos trotskistas. O PC está infiltrado na classe dominante, disperso na classe média e fervilha nos meios operários. Invade as cidades e o campo, a pampa e a floresta, os salões burgueses, as fábricas e os portos, corações e mentes.

“Quantos outros, do Amazonas ao Rio Grande do Sul”, - reflete o militante Gonçalo -“não se encontravam nesse momento na mesma situação que ele, ante problemas complicados e difíceis, devendo resolvê-los, sem poder discutir com as direções, sem poder consultar os camaradas? Gonçalo sabe que os quadros do Partido não são muitos, alguns mil homens apenas na extensão imensa do país, alguns poucos milhares de militantes para atender à multidão incomensurável deproblemas, para manter acesa a luta nos quatro cantos da pátria, separados por distâncias colossais, vencendo obstáculos infinitos, perseguidos e caçados comoferas pelas polícias especializadas, torturados, presos, assassinados. Um punhado de homens, o seu Partido Comunista, mas este punhado de homens era o próprio coração da pátria, sua fonte de força vital, seu cérebro poderoso, seu potente braço".

Esta onipresença extrapola o país, manifesta-se onde quer que andem os personagens, no Uruguai, França, Espanha, no planeta todo. Inevitáveis as referências à foice e ao martelo. E a Stalin, naturalmente, guia, mestre e pai. A litania dirigida ao grande assassino tem por vezes características de humor negro:

“- Quantos mais formos” - diz a militante Mariana - “mais trabalho terão os dirigentes. Pense em Stalin. Quem trabalha no mundo mais que ele? Ele é responsável pela vida de dezenas de milhões de homens. Outro dia li um poema sobre ele: o poeta dizia que quando todos já dormem, tarde da noite, uma janela continua iluminada no Kremlin, é a de Stalin. Os destinos de sua pátria e de seu povo não lhe dão repouso. Era mais ou menos isto que dizia o poeta, em palavras mais bonitas, é claro...”O poeta em questão é Pablo Neruda, já citado em O Mundo da Paz: “Tarde se apaga a luz de seu gabinete. O mundo e sua pátria não lhe dão repouso.”


Consta de uma ode a Stalin, subtraída às Obras Completas do poeta chileno, onde, por enquanto, ainda se pode encontrar uma “Oda a Lenin”. Hoje, temos uma idéia precisa do que planejava Stalin nas madrugadas tardias de seu gabinete. Quando Apolinário Rodrigues, por exemplo, (personagem calcado em Apolônio de Carvalho, oficial brasileiro exilado que participara da Intentona de 35) chega a Madri, sente-se em casa pois, para onde quer que se vire, lá está o Partido. A única cor local da capital espanhola parece ser a luta pela libertação de Prestes:

“Quando chegara à Espanha, vindo de Montevidéu, vivera dias de intensa emoção, ao encontrar por toda a parte, no país em guerra, nas ruas bombardeadas das cidades e aldeias, nos muros da irredutível Madri, as inscrições pedindo aliberdade de Prestes. Cercava-o o calor da intensa solidariedade desenvolvida pelos trabalhadores e combatentes espanhóis para com os antifascistas brasileiros presos e, em particular, para com Prestes. (...) Era uma única luta em todo o mundo, pensava Apolinário, ante essas inscrições, o povo espanhol o sabia, e em meio às suas pesadas tarefas e múltiplos sofrimentos, estendia a mão solidária ao povo brasileiro".

A coincidência da instituição do Estado Novo com a explosão da Guerra Civil Espanhola é uma oportunidade única para Amado de inserir seus personagens no conflito internacional que redundaria na II Guerra, expondo ao mesmo tempo a linha do Partido. Tão única é esta oportunidade e tanto o autor quer aproveitá-la, que chega a deslocar para 1938 uma greve dos portuários de Santos, efetivamente ocorrida em 1946, o que aliás provocou um certo debate. Estaria Amado realmente sendo fiel ao método que “exige do artista uma representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário”, conforme proclamavam os estatutos da União de Escritores Soviéticos? Ao autor isto pouco importa. Deslocando a greve para 38, pode criar um navio alemão que vem buscar, no Brasil, café para a Espanha. De uma só tacada, Amado fustiga Hitler, Getúlio e Franco:

“Em algumas palavras (o velho Gregório) historiou o motivo por que adireção do sindicato havia convocado essa sessão: o governo oferecera ao general Franco, comandante dos rebeldes espanhóis (“um traidor”, gritou uma voz na sala), uma grande partida de café. Agora se encontrava no porto um navio alemão(“nazista”, gritou uma voz na sala) para levar o café".

Na Guerra Civil Espanhola, segundo Amado, há apenas “nazistas alemães e fascistas italianos”. Tão pródigo em elogios à Stalin e à União Soviética, em sua trilogia o autor silencia sobre a presença russa na Espanha, constituída por pilotos de guerra, técnicos militares, marinheiros, intérpretes e policiais. A primeira presença estrangeira em terras de Espanha foi a soviética, com o envio de material bélico e pessoal militar altamente qualificado, em troca das três quartas partes (7800 caixas, de 65 quilos cada uma) das reservas de ouro disponíveis pelo Banco de España. Pagos adiantadamente. Silêncio de Amado: a representação veridicamente concreta da realidade no seu desenvolvimento revolucionário pode esperar mais um pouco.

A presença do Partido permeará a trilogia das primeiras páginas de Os Ásperos Tempos às últimas de A Luz no Túnel. Nestas, a militante Mariana, antes de presa, assiste ao julgamento de Prestes. A voz do líder comunista é “a voz vitoriosa do Partido sobre a reação e o terror”:

“Eu quero aproveitar a ocasião que me oferecem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou um povo da tirania...”

Seria monótono e redundante perseguir esta onipresença do Partido na trilogia de Amado. Neste universo imperam o bem e o mal absolutos. O bem, evidentemente, é representado pelo novo Deus, o proletariado. O mal, pela burguesia detentora do capital. Entre um universo e outro transitam eventualmente seres camaleônicos, “traidores de classe” ou traidores do Partido. Dividir o universo em duas metades, uma boa e outra má, nada tem de novo e original. Tal princípio vem do século III, através da doutrina do persa Mani. O espantoso é que continue a viger em pleno século XX, e mais: impondo gostos, comportamentos e até mesmo filiação partidária aos personagens de um romance. Os representantes do Bem amam. Os representantes do Mal têm amantes. Os bons bebem café ou água mineral. Os maus bebem cachaça ou uísque. Os bons são magros e idealistas. Os maus são gordos e mesquinhos. Os bons têm gargalhar sadio, os maus têm dentes podres. Os bons não têm posses. Os maus são proprietários. Os bons são pobres, os maus ricos. Os bons pertencem ao Partido ou com ele colaboram. Os demais são maus. Os bons, diga-se de passagem, estão aprisionados em tal camisa-de-força ideológica que sequer podem se dar ao luxo de gostar de pintura surrealista ou naïve.

Até 1954, Amado traduzirá em sua literatura as determinações do Partido Comunista russo. Em entrevista para Isto é (18/11/81), Amado reconhece seu stalinismo:

- Não sei se o termo “realismo socialista” se aplica a todos os meus livros daquela época. Estariam em face do realismo socialista, mas o fato é que Jubiabá (1935), Mar Morto (1936) e Capitães de Areia (1937), do período ao qual você se refere, só puderam ser publicados em russo depois da morte de Stalin. Acredito que a classificação seja justa para Terras do Sem Fim (1943), Seara Vermelha (1946) e Subterrâneos da Liberdade (1954). Se existe um livro meu totalmente influenciado pelo stalinismo, é Subterrâneos da Liberdade, que reflete uma posição totalmente maniqueísta.

Denunciados os crimes do stalinismo por Kruschov, em 1954, dois anos depois Amado molha o dedinho na língua e o ergue ao ar, para sentir de onde sopram os ventos: o sentido da História é agora uma literatura popularesca, ao estilo da rede Globo. Passa então a produzir uma literatura de evasão em torno de motivos baianos. Não sem antes fazer um tímido e discreto mea culpa, publicado em 10 de outubro de 1956 pela Imprensa Popular:

“Aproximamo-nos, meu caro, dos nove meses de distância do XX Congresso do PCUS, o tempo de uma gestação. Demasiado larga essa gravidez de silêncio e todos perguntam o que ela pode encobrir, se por acaso a montanha não vai parir um rato. Creio que devemos discutir, profunda e livremente, tudo o que comove e agita o movimento democrático e comunista internacional, mas que devemos,sobretudo, discutir os tremendos reflexos do culto à personalidade entre nós,nossos erros enormes, os absurdos de todos os tamanhos, a desumanização que, como a mais daninha e venenosa das árvores, floresceu no estrume do culto aqui levado às formas mais baixas e grosseiras, e está asfixiando nosso pensamento e ação. (...) Sinto a lama e o sangue em torno de mim, mas por cima deles enxergo a luz do novo humanismo que desejamos acesa e quase foi submergida pela onda dos crimes e dos erros".

Como se o simples fato de sentir “a lama e o sangue” em torno a si o redimisse das cumplicidades passadas. Mas as denúncias dos crimes do stalinismo não geraram nenhum tribunal de Nuremberg e Jorge Amado sente-se como um ingênuo, enganado pelos ventos do século. No entanto, não mais permite a reedição de O Mundo da Paz. Quanto à sua obra ficcional, embasada no realismo socialista, esta continua sendo reeditada e traduzida.

Mas o agitprop baiano se vê obrigado a mudar de rumos e publica, em 1958, Gabriela, Cravo e Canela. Em 61, lança Os Velhos Marinheiros, considerado um dos melhores momentos de sua literatura. Neste mesmo ano, é eleito membro da Academia Brasileira de Letras, instituição que havia apedrejado e insultado em sua juventude. No discurso de posse, com a inocência de um moleque que relembra travessuras passadas, reitera sua oposição à Casa que o recebe:

"Chego à vossa ilustre companhia com a tranqüila satisfação de ter sido intransigente adversário desta instituição naquela fase da vida em que devemos ser necessária e obrigatoriamente contra o assentado e o definitivo. Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor que no início de seu caminho, não venha, quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Quanto a mim, felizmente, muita pedra atirei contra vossas vidraças, muito adjetivo grosso gastei contra vossa indiferença, muitas vaias gritei contra vossa compostura, muito combate travei contra vossa força".

Em resposta aos que o condenam, diz o escritor: "Mas tudo na vida obedece a formalidades e se eu sou socialista não quer dizer que ignoro o mundo formal que me rodeia". De Moscou, recebe o apoio de Ilya Ehremburg: "Amamos Jorge Amado e temos confiança nele. Eu só o vi numa fotografia levemente mais gordo, em fardão de acadêmico. Olhei e sorri. Aos acadêmicos brasileiros dão um luxuoso fardão. Além disso usam espadas como seus colegas franceses. Não há nada de mal em que o homem simples de ontem apareça uma vez por ano na roupagem de imortal".


De amores com o imperialismo ianque - Com a transposição de seus romances para as novelas televisivas, o revolucionário aposentado torna-se uma espécie de roteirista da Rede Globo. Gaba-se até hoje de seu passado esquerdista. Mas foi o primeiro escritor brasileiro a felicitar pessoalmente Fernando Collor de Mello por sua vitória. Claro que não foi apoiá-lo durante o impeachment. Com a nova guinada, seus livros começam a ser publicados nos Estados Unidos. Em depoimento autobiográfico, concedido em 1985 à tradutora francesa Alice Raillard, em sua mansão na Bahia, de inimigo incondicional do capitalismo, Amado vira sócio:

"Sim, esta casa... Esta casa, eu digo sempre que foi o imperialismo americano que me permitiu construí-la! Era um velho sonho meu ter uma casa na Bahia. (...) Construir uma casa na Bahia? Eu tinha vontade, mas não o dinheiro. Foi então que vendi os direitos para o cinema de Gabriela à Metro Goldwin Mayer".

Em uma entrevista concedida à Folha de São Paulo, em dezembro de 94, expõe ao repórter a mansão comprada graças aos dólares da Metro Goldwin Mayer:

"Esse é o quarto do casal. Passei a vida a xingar os americanos, mas tudo o que temos é graças ao dinheiro dos imperialistas ianques. Compramos essa casa em 63 com a venda dos direitos de Gabriela para a MGM, rodado 21 anos depois. Cobrei barato, só US$ 100 mil”.A parceria com o inimigo capitalista se revela lucrativa e permite a Amado a realização de outro sonho, morar na Paris que tanto insultou quando marxista:“Em 86, os americanos me pagaram um adiantamento alto pelos direitos de tradução de Tocaia Grande: US$ 250 mil. Juntamos com os guardados de Zélia e compramos nossa mansarda no Marais, em Paris”.

Pois este senhor, que empunhou com entusiasmo as piores e mais assassinas bandeiras do século, que no final da vida confessa sem nenhum pudor seu venalismo, é quem hoje representa o Brasil no Salão do Livro em Paris. Em verdade, tal fato não é espantar: Amado vende à Europa uma imagem que a Europa aceita como sendo a do Brasil. Ainda segundo Wilson Martins:

“A verdade é que a nossa literatura é sempre encarada como algo de exótico, de tropical. É por isso que Jorge Amado é extremamente popular nos outros países, ele oferece esse estereótipo da violência, da conquista da terra, da luta de classes e da opressão racial. Essa idéia exótica, uma espécie de ilha dos mares do sul, todos de tanga pelas ruas, armados de arco e flecha, e caçando onças na Avenida Rio Branco. Quando aparece um brasileiro branco e com grande cultura internacional, ele causa um espanto extraordinário. Nós alimentamos esse preconceito com todas as forças. Fazemos questão de mostrar que somos tropicalistas, que isto aqui é um país tropical, que somos mestiços, que branco aqui não tem vez. Quem defende tudo isso são esses grupos dos baianos e dos novos baianos, dos trios elétricos. É até um preconceito contra a cultura, no sentido ecumênico da palavra”.

Interrogado recentemente sobre como gostaria de ser lembrado em uma enciclopédia daqui a 50 anos, a grande cortesã responde com a candura dos inocentes: "Um baiano romântico e sensual. Eu me pareço com meus personagens - às vezes também com as mulheres". E talvez seja um de seus personagens femininos o que melhor representa a ambivalência do “baiano romântico e sensual”: Dona Flor, a que administrava tranqüilamente dois maridos. Ao homenagear Amado, em verdade Paris está condecorando um escritor venal, que prestou os piores desserviços ao Brasil ao lutar para transformá-lo em mais uma republiqueta soviética, em nome de uma rápida ascensão literária e fortuna pessoal.

É curioso observar como comportamentos que admiramos no mundo da ficção ou em pessoas famosas viram vício quando cultivados pelo comum dos mortais.

Essa, agora! Leio entrevista com três psicoterapeutas que definem pessoas com uma sexualidade mais exigente como tarados, pervertidos, ninfomaníacos ou depravados. Ser entusiasta do bom esporte passa a constituir algum tipo de patologia do sexo. “Mais conhecida como compulsão sexual, esse transtorno atinge homens e mulheres, sem distinção de idade”. Segundo a sexóloga Maria Cláudia Lordello, o desejo sexual hiperativo acaba resultando em uma inquietude da pessoa. "Isso a impede de fazer outras coisas importantes da vida. Tarefas cotidianas como trabalho, estudo e vida familiar acabam ficando comprometidas, pois ela deixa de realizá-las para fantasiar ou mesmo para vivenciar esses desejos".

É curioso observar como comportamentos que admiramos no mundo da ficção ou em pessoas famosas viram vício quando cultivados pelo comum dos mortais. Don Giovanni, por exemplo. Até hoje, a famosa listina de Leporello fascina multidões em todos os salões de ópera do mundo.

Madamina!

Il catalogo e questo,
Delle belle, che ano il padron mio!
Un catalogo egli e ch'ho fatto io:
Osservate, leggete con me!

In Italia seicento e quaranta,
In Allemagna duecento trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna,
Ma, ma in Ispagna, son gia mille e tre!

Verdade que Mozart, para satisfazer uma Áustria puritana, acabou jogando Don Giovanni nos infernos. Mas o personagem que nos fascina é o galantuomo ante o qual cedem todas as mulheres e não aquele que o Commendatore manda para os abismos.

V'han fra queste contadine.
Cameriere cittadine;
V'han Contesse, Baronesse,
Marchesane, Principesse,
Ev'han donne d'ogni grado,
D'ogni forma d'ogni eta.

Nella bionda, egli ha l'usanza
Di lodar la gentilezza,-
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza!
Vuol d'inverno la grassotta
Vuol d'estate la magrotta;
E la grande, maestosa;
La piccina, ognor vezzosa.

Certo, Don Giovanni é um ente de imaginação. Mas se como ente de imaginação nos fascina é porque seus feitos nos fascinam. Così ne consolò mile e ottocento, diz Leporello.

Delle vecchie fa conquista
Per piacer di porle in lista:
Sua passion predominante
E la giovin principiante
Non si picca, se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella!
Purche porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa!

Se você, pobre mortal de carne e osso, tenta consolar não digo mil e oitocentas, mas pelo menos algumas centenas, você deve ser um tarado, pervertido, ninfomaníaco ou depravado. Enfim, deixemos de lado o mundo da ficção. Não terão sido poucos os homens que terão tido mais de mil mulheres. Afinal, se nossos jantares e vinhos memoráveis se contam em quatro dígitos, porque o mesmo não ocorreria com as mulheres? Comentarei dois casos dos mais notórios.

CASANOVA - Para começar, Giacomo Casanova di Seingalt (1725 - 1798). Que, aliás, teve um encontro com Lorenzo da Ponte, o libretista da ópera de Mozart. Cidadão da Sereníssima República de Veneza, lista em suas Memórias algo em torno de duas mil mulheres, que perseguiu a cavalo e em diligência, de Madri e Londres a Moscou, na segunda metade do século XVIII. Quem for procurar o verbete na Internet, vai encontrar referência a 122 ou 123 mulheres. Isso é bobagem, cifra de qualquer moleque contemporâneo.

Aos sessenta anos, Giacomo Casanova aceita o convite do conde Emanuel de Waldstein para organizar a sua biblioteca e escrever as suas memórias. Os dias do veneziano acabam no palácio de Dux, na Boêmia, ao norte do território checo, onde encontrou teto, alimento e tempo para escrever. “Agora que não posso mais viver, sento e escrevo sobre o que vivi”. Sem jamais ter pretendido fazer literatura, Casanova entra na História da Literatura, em função de sua vida aventureira. Freqüentou cortes e bordéis, prisão e caserna, clero e políticos, conventos e salões literários. Quem quiser se debruçar sobre o século XVIII - seja historiador, seja sociólogo, seja mero curioso - terá em Casanova um excelente guia. Na edição brasileira (Rio, Livraria José Olympio Editora, 1957), suas Memórias abrangem dez volumes. “Sei que existi, porque senti; e, dando-me o sentimento este conhecimento, sei igualmente que deixarei de existir quando cessar de sentir. Se me acontecer sentir depois de morto, não duvidarei de mais nada; mas darei um desmentido a todos aqueles que me virão dizer que estou morto”.

Apesar de busca frenética de mulheres – que o caracterizaria como tarado, segundo as nossas sexólogas – teve vida intelectual intensa. Diz Agrippino Grieco no prefácio às Memórias:

Se procurassem em Casanova o intelectual, o erudito, encontrariam o matemático preocupado com a duplicação do hexaedro e a quem Charles Henry consagrou longo estudo que põe insones os amadores de raridades bibliográficas; o crítico, o filólogo, o escoliaste que esmiuçou as idéias de Homero e traduziu a Ilíada em oitavas à maneira de Boiardo e Tasso; o escritor clássico capaz de efigiar mentalmente um d’Alembert e de fornecer pitorescos detalhes sobre a intimidade do trágico Crébillon e seus gatos; o humanista à altura de discutir com Voltaire e forçá-lo a recuar em mais de um conceito sobre as letras transalpinas. (...) Jogador, sonetista satírico, duelista, marinheiro, antiquário, jurista, naturalista, dando-se à magia para engodar os tolos, foi também agente secreto dos Inquisidores e correu as estradas da Europa quando estas se achavam cheias de mascates da arte, titereiros, mímicos, músicos, dançarinos, de negociantes de perfumes, de jesuítas que haviam largado o hábito, de militares alugados, de inúmeros cavalheiros de indústria e não cavaleiros da Távola Redonda”.

Paradoxalmente, escreveu um tratado do pudor e começou a redigir um dicionário de queijos. Escreveu também uma novela utópica, Icosameron.

Cultivar o prazer dos sentidos foi sempre minha principal preocupação; nunca encontrei outra coisa mais importante. Sentindo-me nascido para o belo sexo, sempre o amei e por ele me fiz amar quanto pude. Apreciei também os bons manjares com transporte, e sempre me apaixonaram todos os objetos capazes de me excitar a curiosidade”.

Se Don Juan pertence ao território do mito, Casanova faz parte da história. Lenda ou realidade, ambos passaram a ser considerados gênios do amor. Com uma diferença: enquanto Don Juan conquista e vence as mulheres, deixando atrás de si um rastro de ódio e despeito, Casanova não quer humilhar ninguém. É uma festa para suas parceiras, que não hesitam em convidar filhas e irmãs para o bom folguedo. Em seus dias em Dux, confessa:

Não me quererão mal quando me virem esvaziar a bolsa de meus amigos para atender aos meus caprichos, pois esses amigos tinham projetos quiméricos, e, fazendo-os esperar o êxito, esperava eu mesmo curá-los desenganando-os. Enganava-os para torná-los prudentes, e não me considerava culpado, pois nunca agia movido por espírito de avareza. Para custear meus prazeres, empregava somas destinadas à obtenção de posses que a natureza não possibilita. Se hoje estivesse rico, sentir-me-ia culpado; mas nada possuo, tudo esbanjei, e isto me consola e me justifica. Era um dinheiro destinado a loucuras: pondo-o a serviço das minhas, não desviei absolutamente seu emprego”.

Ó tempora, ó mores! Três séculos depois de Casanova, Inquisição já enterrada no passado, depois da pílula e da revolução sexual do século passado, ainda há pretensos cientistas que considerariam um pervertido esse magnífico personagem do século XVIII.

SIMENON - Vamos então a um espécime mais contemporâneo, o escritor belga Georges Simenon. Nos anos 80, creio, li uma entrevista concedida pelo escritor ao cineasta Federico Fellini, na revista Nouvel Observateur, onde ele admitia ter tido cerca de dez mil mulheres. Não tinha porque falsear dados. Tarefa mais difícil seria escrever os 431 títulos que lhe são atribuídos, entre livros publicados com o próprio nome e com pseudônimos. Isso sem falar em suas viagens por todos os quadrantes do planetinha. Consta que, em sua melhor forma, Simenon podia trabalhar onze horas corridas em sua máquina de escrever, produzindo 80 páginas por dia.

Cultor de putas alegres, de criadas gorduchinhas e de “rapidinhas” nos hotéis – segundo seus biógrafos – ele foi um Don Juan impudico, mal dissimulando sua bigamia, quando dividia sua vida entre sua cozinheira e sua segunda mulher, Denyse Ouimet. “Nós fazíamos amor todos os dias, antes do café, depois da siesta e antes de dormir”, diz Denyse. “Ele era prolixo em tudo: em sua maneira de falar, de escrever, de publicar, de fazer amor”. E, pelo jeito, tinha ainda de atender a cozinheira.

Não me parece que este apetite sexual desmesurado tenha atrapalhado a vida profissional de Simenon. Como diria – e disse – Casanova: “Devo dizer que achei o excesso para menos bem mais perigoso que o excesso para mais; porque se este último ocasiona uma indigestão, o outro acarreta a morte”.

Para Simenon, em nenhum momento as tarefas cotidianas como trabalho, estudo e vida familiar ficaram comprometidas por sua sexualidade voraz, como pretende a sexóloga. O que vemos, na declaração da moça, é um moralismo tolo – típico de terapeutas – que vê doença onde existe pujança de vida.

Sábado, 22 Março 2008 21:00

Nada de Novo Sob o Sol

Se há algo a deplorar na affaire, é a hipocrisia do governador de New York. Combatia com rigor a prostituição, ao mesmo tempo em que degustava o filé do ofício.

Confesso que o escândalo em torno ao fato de o governador de Nova York, Eliot Spitzer, freqüentar prostitutas, me deixa perplexo. Parece que ninguém lembra mais de Bill Clinton, que usava uma estagiária para felações rápidas, sem sequer pagá-la do próprio bolso. De John Kennedy, que usufruía dos serviços de uma prostitutinha de Hollywood, Marilyn Monroe. Sem falar das dezenas, talvez centenas, de outras mulheres que teve. Leio nos jornais que, antes de enfrentar Richard Nixon, em seu primeiro debate na televisão, Kennedy contratou uma garota para transar. Saiu-se tão bem na TV que nunca mais dissociou os dois atos. Em todos os debates que se seguiram, a tática política foi a mesma: uma call girl antes e, no lugar do cigarro, Richard Nixon. Consta ainda que, ao receber um dignitário estrangeiro, Kennedy ordenou a seu staff que o entretivesse, enquanto se entregava ao bom folguedo com sua mulher.

Mais ainda: parece que ninguém lembra mais do santo homem Martin Luther King, que além de plagiador de textos alheios, usava o dinheiro de suas campanhas em favor da igualdade racial para orgias com profissionais do sexo. Enquanto Spitzer é demonizado, Luther King permanece envolto em uma aura de santidade.

Spitzer usou dinheiro de campanha para pagar sexo? Bom, nisto reside a indecência de sua atitude. Se as pagasse com dinheiro do próprio bolso, ninguém nada teria a ver com isso. Mas tanto Kennedy quanto Clinton se valiam de seus cargos, pagos com dinheiro público. E as orgias de Luther King também foram pagas com dinheiro público. Se assim foi, não vejo porque pegar no pé de Spitzer. Sua mulher, ao que tudo indica, aceita os pulos de cerca do marido. Como Hillary aceitou tranquilamente os de Clinton. Se o casal está de acordo, tudo bem.

Estou perplexo, dizia. Mas mais perplexo fiquei com a crônica de um articulista da Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho, intitulada “Em defesa do homem infiel”. Em seu pé biográfico, diz ter 31 anos. Deve então padecer de senilidade precoce. Sua visão da mulher indica um homem de pelo menos 90 anos, nascido naqueles dias em que o macho se julgava amo e senhor de suas teúdas e manteúdas. Em sua crônica, Coutinho vê o homem infiel como uma vítima.

A infidelidade masculina é das situações mais angustiantes e desgastantes para qualquer macho. Começa por ser um desgaste físico evidente, sobretudo quando a idade avança. No espaço de poucas horas, é necessário fazer duas maratonas, ou três, ou quatro, sem que haja a mais leve suspeita de que o equipamento de corrida foi usado horas antes. É possível alegar cansaço nos primeiros tempos. Não é possível alegar cansaço todo o tempo.

Evidente bobagem, ainda mais nestes dias de Cialis e Viagra. Além do mais, a infidelidade tende a diminuir, senão a deixar de existir, com o avanço da idade. Infidelidade é para jovens, para homens de meia-idade. Nenhum ancião está obrigado a maratonas desgastantes. Se não dá no couro, que acalme seus ímpetos.

Sem falar de desgaste financeiro. Um homem infiel é, por definição, um homem de dois orçamentos. Um homem infiel nunca paga um jantar. Paga dois. Uma jóia não é uma jóia. São dois anéis, dois colares. E se vocês acham que umas férias nas Caraíbas são o supremo sonho, desenganem-se: pagar duas passagens e dois hotéis arruina qualquer carteira. Agora multipliquem pelo número de amantes. É sempre a subir: três jantares, três anéis, três passagens, três hotéis. O mesmo homem. O mesmo desgraçado.

Outra grande bobagem. Jantares não levam ninguém à falência. Quanto a jóias, isto há muito caiu de moda. É coisa de filme antigo de Hollywood. (Claro que ainda há quem se paute pelos filmes antigos de Hollywood). No que diz respeito a viagens, se o tal de infiel escolheu bem suas parceiras, elas podem arcar com os próprios gastos. Ou seja, as viagens se tornam inclusive mais baratas. Já viajei com minha mulher e uma antiga namorada pelas ilhas gregas e cada um pagou sua parte.

E depois contamina as grandes coisas: a necessidade de elaborar planos para que as mulheres nunca se encontrem. Um homem infiel nunca vive na paz dos inocentes. Na paz da mulher enganada. Um homem infiel é uma agenda ambulante. Para ele, um dia não é um dia: é uma estratégia de batalha, com horários fixos e medos infantis de que a porta do elevador possa abrir na altura errada. O stress e a ansiedade são simplesmente intoleráveis.

Simples. Basta não mentir. Coutinho está partindo do pressuposto de que mentir é lícito. Sempre me encontrei com minhas namoradas nos mesmos bares. Todas sabiam de todas. Nunca escondi uma da outra. O que me valeu um comentário irônico do atual ministro da Justiça. Freqüentávamos os mesmos bares e certa vez Genro comentou: “O Janer deve ser uma pessoa cheia de problemas, todos os dias está com uma mulher diferente”. Ora, eu tinha muitas soluções. Problemas teria ele, que tinha uma só.

E se vocês acreditam que Borges ou Kafka eram dotados de criatividade, lamento informar-vos: não existe romancista que se compare à fértil imaginação do homem infiel. Porque ele produz e reproduz mentiras oralmente. Não as registra. Não as escreve. Ele funciona como os antigos rapsodos da Grécia, que sabiam Homero de cor e salteado. Isso exige um esforço de memória torturante para não arruinar a narrativa oficial com caprichos, ou esquecimentos, momentâneos. Um homem infiel tem de ser coerente até à insanidade.

Como dizia, o cronista considera a mentira como um recurso perfeitamente normal. Se há algo que não entendo nas relações humanas, é o fato de um cônjuge mentir para o outro. Como mentir para a pessoa com quem vivemos sob o mesmo teto, com quem compartilhamos o mesmo leito? Quem mente para esta pessoa, mente para todo mundo.

Minha vida, graças ao bom deus dos ateus, foi farta em mulheres. Nunca precisei mentir. As namoradas que mais prezei se tornaram grandes amigas de minha Baixinha e todas choraram sua morte. Mesmo as que nutriam algum ciuminho choraram. Suponho que eu não tenha sido o único de minha geração a levar tal forma de vida. Comecei minha vida afetiva lá pelos anos 60. Aliás, comecei com duas mulheres, tanto que não posso falar de uma primeira namorada. Tenho de usar o plural, as primeiras. Na época, em alguns países da Europa, particularmente na França, praticava-se o échangisme. Homem e mulher saíam juntos em busca de outros parceiros sexuais. Depois, a peste estragou a festa. De qualquer forma, nas grandes cidades ainda restam clubes de swingers. Na Internet há sites específicos para combinar encontros. Os swingers, de modo geral, constituem parcerias sólidas. Não há mentira.

Este comportamento anula o conceito de infidelidade. Não vejo infidelidade nenhuma se alguém, de comum acordo com seu parceiro ou sua parceira, se relaciona com terceiros. Se não há mentira, o conceito de infidelidade cai no vazio. É óbvio que Silda Spitzer deveria estar ciente dos casos de seu marido. Como Hillary Clinton certamente não era uma casta esposa inocentinha que ignorasse as escapadelas de Bill. O rosto contrito destas senhoras, na hora de perdoar os respectivos, é jogo de cena para a platéia. Ou melhor, para a baixa classe média. Não há pecado abaixo da linha do Equador, diziam os lusos. Não há pecado da classe média para cima, digo eu.

Se há algo a deplorar na affaire, é a hipocrisia do governador de New York. Combatia com rigor a prostituição, ao mesmo tempo em que degustava o filé do ofício. Quanto ao mais, nada de novo sob o sol. Os mais árdegos moralistas em geral são grandes devassos.

Há a hipótese de que Coutinho tenha pretendido fazer humor. Se pretendeu, foi infeliz.

Domingo, 16 Março 2008 21:00

Contribuinte Paga Salário do Terror

Se as novas gerações já não lembram, Marighella foi mais um entre tantos bolcheviques que tentaram transformar o Brasil em uma republiqueta soviética através da luta armada.

Enquanto a imprensa e a opinião pública se indignam com o escândalo do mensalão e dos cartões corporativos, a companheira de Carlos Marighella, fundador da ALN (Ação Libertadora Nacional), será indenizada com a prestação mensal permanente continuada, ou seja, vitalícia, de R$ 2.520,00. Não ouço protestos em jornal algum.

Se as novas gerações já não lembram, Marighella foi mais um entre tantos bolcheviques que tentaram transformar o Brasil em uma republiqueta soviética através da luta armada. É de sua autoria o Manual do Guerrilheiro Urbano, escrito em 1969, para servir de orientação aos movimentos armados.

Vejamos algumas pérolas deste manual:

Mas a característica fundamental e decisiva do guerrilheiro urbano é que é um homem que luta com armas; dada esta condição, há poucas probabilidades de que possa seguir sua profissão normal por muito tempo ou o referencial da luta de classes, já que é inevitável e esperado necessariamente, o conflito armado do guerrilheiro urbano contra os objetivos essenciais:

a. A exterminação física dos chefes e assistentes das forças armadas e da polícia.

b. A expropriação dos recursos do governo e daqueles que pertencem aos grandes capitalistas, latifundiários, e imperialistas, com pequenas expropriações usadas para o mantimento do guerrilheiro urbano individual e grandes expropriações para o sustento da mesma revolução.

É claro que o conflito armado do guerrilheiro urbano também tem outro objetivo. Mas aqui nos referimos aos objetivos básicos, sobre tudo às expropriações. É necessário que todo guerrilheiro urbano tenha em mente que somente poderá sobreviver se está disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão, e se está verdadeiramente dedicado a expropriar a riqueza dos grandes capitalistas, dos latifundiários, e dos imperialistas.

Uma das características fundamentais da revolução brasileira é que desde o começo se desenvolveu ao redor de expropriações da riqueza da burguesia maior, imperialista, e dos interesses latifundiários, sem a exclusão dos elementos mais ricos e dos elementos comerciais mais poderosos envolvidos com a importação e exportação de negócios.

E mediante a expropriação da riqueza dos principais inimigos do povo, a revolução brasileira foi capaz de golpeá-los em seus centros vitais, com ataques preferenciais e sistemáticos na rede bancária, isto é, os golpes mas contundentes foram contra o sistema nervoso capitalista.

Os roubos a bancos realizados pelos guerrilheiros urbanos brasileiros machucaram os grandes capitalistas tais como Moreira Salles e outros, as empresas estrangeiras que asseguram e reasseguram o capital bancário, as companhias imperialistas e os governos estatais e federais, todos eles sistematicamente expropriados desde agora.

Os frutos destas expropriações tem sido dedicados ao trabalho de aprender e aperfeiçoar as técnicas de guerrilha urbana, à compra, à produção, e ao transporte de armas e munições das áreas rurais, ao aparelho de segurança dos revolucionários, ao mantimento diário dos soldados, àqueles que foram libertados da prisão por forças armadas e àqueles que foram feridos ou perseguidos pela polícia, ou a qualquer tipo de problema que envolva camaradas que foram libertados da cadeia, ou assassinados pelos policiais e pela ditadura militar.

No Brasil, o número de ações violentas realizadas pelos guerrilheiros urbanos, incluindo mortes, explosões, capturas de armas, munições, e explosivos, assaltos a bancos e prisões, etc., é o suficientemente significativo como para não deixar dúvida em relação as verdadeiras intenções dos revolucionários. A execução do espião da CIA Charles Chandler, um membro do Exército dos EUA que venho da guerra do Vietnã para se infiltrar no movimento estudantil brasileiro, os lacaios dos militares mortos em encontros sangrentos com os guerrilheiros urbanos, todos são testemunhas do fato que estamos em uma guerra revolucionária completa e que a guerra somente pode ser livrada por meios violentos.

Esta é a razão pela qual o guerrilheiro urbano utiliza a luta e pela qual continua concentrando sua atividade no extermínio físico dos agentes da repressão, e a dedicar 24 horas do dia à expropriação dos exploradores da população. (...)

A razão para a existência do guerrilheiro urbano, a condição básica para qual atua e sobrevive, é o de atirar. O guerrilheiro urbano tem que saber disparar bem porque é requerido por este tipo de combate.

Na guerra convencional, o combate é geralmente a distância com armas de longo alcance. Na guerra não-convencional, na qual a guerra guerrilheira urbana está incluída, o combate é a curta distância, muito curta. Para evitar sua própria extinção, o guerrilheiro urbano tem que atirar primeiro e não pode errar em seu disparo. Não pode desperdiçar suas munições porque não tem grandes quantidades, por isso tem que economizar. Tampouco pode recarregar suas munições rapidamente, porque é parte de um grupo pequeno na qual cada guerrilheiro tem que se cuidar sozinho. O guerrilheiro urbano não pode perder tempo e deve poder atirar de uma só vez.

Um fato fundamental, que queremos enfatizar completamente e cuja importância fundamental não pode ser subestimada, é que o guerrilheiro urbano não deve de disparar continuamente, utilizando todas suas munições. Pode ser que o inimigo não esteja disparando precisamente, e esteja esperando que as munições do guerrilheiro hajam gastado. Em tal momento, sem ter tempo para recarregar suas munições, o guerrilheiro urbano enfrentará uma chuva de fogo inimigo e pode ser aprisionado ou morto.

A pesar do valor do fator surpresa que muitas vezes faz com que seja desnecessário o uso de suas armas, não pode ser permitido o luxo de entrar em combate sem saber atirar. Cara a cara com o inimigo, tem que estar em movimento constante de uma, posição a outra, porque o ficar em uma só posição o converte num alvo fixo e, como tal, muito vulnerável.

A vida do guerrilheiro urbano depende de atirar, na sua habilidade de manejar bem as armas de pequeno calibre como também em evitar ser alvo. Quando falamos de atirar, falamos de pontaria também. A pontaria deve de ser treinada até que se converta num reflexo por parte do guerrilheiro urbano.

Para aprender a atirar e ter boa pontaria, o guerrilheiro urbano tem que treinar sistematicamente, utilizando todos métodos de aprendizado, atirando em alvos, até em parques de diversão e em casa.

Tiro e pontaria são água e ar de um guerrilheiro urbano. Sua perfeição na arte de atirar o fazem um tipo especial de guerrilheiro urbano – ou seja, um franco-atirador, uma categoria de combatente solitário indispensável em ações isoladas. O franco-atirador sabe como atirar, a pouca distância ou a longa distância e suas armas são apropriadas para qualquer tipo de disparo. (...)

Antes de qualquer ação, o guerrilheiro urbano tem que pensar nos métodos e no pessoal disponível para realizar a ação. As operações e ações que demanda a preparação técnica do guerrilheiro urbano não podem ser executadas por alguém que carece de destrezas técnicas. Com estas precauções, os modelos de ação que o guerrilheiro urbano pode realizar são os seguintes:

a. assaltos

b. invasões

c. ocupações

d. emboscadas

e. táticas de rua

f. greves e interrupções de trabalho

g. deserções, desvios, tomas, expropriações de armas, munições e explosivos

h. libertação de prisioneiros

i. execuções

j. seqüestros

l. sabotagem

m. terrorismo

n. propaganda armada

o. guerra de nervos

Tais habilidades são exigidas para quê? Para transformar um país em uma ditadura comunista. A mulher deste celerado foi recompensada com uma pensão mensal vitalícia de 2.520 reais. Você, contribuinte, está pagando o salário do terror. Você está tão anestesiado que já nem chia.

Terça, 04 Março 2008 21:00

Reencontros

Uma das boas coisas da vida são os reencontros inesperados em insuspeitadas geografias. Tive muitos desses reencontros e deles lembro com ternura.

Nos anos de minha adolescência, havia em Dom Pedrito um maluco que se postava à frente da igreja nos dias de casamento. Maluco mas não muito. Ficava o tempo todo dizendo: “é hoje. É hoje”. Só saía da porta da igreja se lhe pagassem algo.

Uma das boas coisas da vida são os reencontros inesperados em insuspeitadas geografias. Tive muitos desses reencontros e deles lembro com ternura. Começo pelo primeiro. Deles deduzi uma lei, que chamaria de Lei de Cristaldo: todos os encontros são possíveis, desde que as pessoas se desloquem.

Nos dias de universidade, anos 60, quando já namorava minha Baixinha, encontrei na colônia de férias da URGS uma menina adorável. Ela teria doze ou treze anos e nos apaixonamos. De manhã, eu ia para a praia com minha Baixinha. À tarde, com ela. À noite, íamos juntos para os bares. Vai daí que o pai da pivetinha descobriu a história e não gostou daquele estranho trio. Prendeu a menina em casa e cortou todo contato comigo. Fiquei sem telefone nem endereço.

Corto para 71, Estocolmo. Freqüento aulas de sueco numa rua lateral ao Kungsträdgården, uma belíssima praça que, em língua de gente, quer dizer Jardim do Rei. É pleno inverno. Estou saindo da aula e a vejo no café da praça. Junto com um varão. Fui me aproximando lentamente, ela me assestou uma máquina fotográfica, parei, ela me fotografou, continuei, me aproximei dela e sem dizer palavra a beijei. O macho ao lado ficou inquieto. Normal, era seu marido. Disse então o que jamais me imaginei dizendo: “que bom encontrar brasileiros no Exterior, precisamos manter contato, me dá teu telefone”.

Ela deu, para desconforto do bruto. Dia seguinte, telefonei. Não foi fácil, ela estava com o marido ao lado. Propus: nos encontramos amanhã, às dez horas, no mesmo local. Diz apenas sim ou não. Ela disse sim. Dia seguinte, lá estava eu. Cheguei às dez. Ela já me esperava há meia hora, enregelada em um banco coberto de neve. Nos abraçamos com um carinho há vários anos contido. Fui caminhando como quem não quer nada até meu apartamento. Quando ela percebeu onde estava chegando, exclamou: “vais fazer isso comigo?”

Vou. Hoje, nem Deus te salva, respondi. Não salvou. Deus pode até ser onipotente. Mas às vezes falha. Cobrei - y con creces, como dizem os espanhóis - o que me era devido.

Anos 70, Porto Alegre. Uma de minhas namoradas me pede um favor. Uma amiga está chegando do Rio, para os Jogos Universitários, e não tem onde parar. Poderia ficar em teu apartamento? Claro que pode. A carioca ficou cinco dias lá em casa. Tinha uma preocupação, comprar botas. Para que queres botas no Rio? Não é para o Rio, quero ir à Europa. Já tens passaporte, passagem? Nada disso, primeiro eu quero as botas. Ok! Sem acreditar muito na viagem da moça, indiquei as lojas onde havia botas.

Corto para 70 e pico largo, como dizem os gaúchos. Em Amsterdã, fui a uma agência da Varig para marcar passagem. Na entrada, uma mulher divina, com casaco de peles, botas longas até o joelho e um chapéu de astracã, me abre os braços e me beija. Nossa – pensei – os serviços da Varig estão cada vez melhores. Nada disso. Era a menina que um dia recebi em Porto Alegre. Depois disso, marcamos encontro em Genebra. Claro que não deu certo. Encontro marcado é mais difícil.

Em Florianópolis, tomava um dia um cafezinho na Felipe Schmidt, no Senadinho. Frente a mim havia um personagem insólito. Perfil cervantino, boina basca e uma saharienne azul índigo. Ah! Não poderia deixar de abordar aquela figura exótica. Era um uruguaio, professor de História na Universidade Federal de Santa Catarina. Nos tornamos grandes amigos.

Corto para Madri, 87. Estou saindo do Gijón, com minha Baixinha. Sei lá porque, estava atravessando a Recoletos. Já falei do Gijón. Foi o café que sempre me impediu de pesquisar na Biblioteca Nacional da Espanha. Quando eu ia rumo à biblioteca, estava o Gijón a meio caminho. Não conseguia resistir. Ficava no Gijón e não conseguia atravessar a Recoletos. Bom, nesse dia, sei lá por que estranhas razões quis atravessar o Paseo de Recoletos. Mal boto o pé na faixa zebrada, Aníbal Abadie encosta em mim. Em nosso último encontro em Florianópolis, havíamos começado uma discussão que não chegara ao fim.

Lembrei de Fray Luís de Leon, professor da Universidade de Salamanca, condenado pela Inquisição a cinco anos de cárcere, por ter traduzido a Bíblia ao espanhol. Ao voltar à universidade, em sua primeira aula, disse o frei: “Como decíamos ayer...” Foi o que disse a meu amigo uruguaio. E continuamos, como se tivéssemos nos despedidos ontem, aquela nossa charla de anos atrás. Minha Baixinha, que olhava para o lado quando ele me abordou, ao voltar o olhar não entendeu o que estava acontecendo. Como eu voltaria a Madri alguns dias depois, marcamos encontro. Claro que não deu certo. Encontro marcado é mais difícil.

Porto Alegre, 09 de outubro de 1967. Na Rua da Praia, um amigo advogado, o Viriato Gomes, me aborda com um olhar alucinado. “Viste os olhos? É ele”. E continuou sua trajetória. Só fui entender sua frase quando vi a manchete dos jornais. Che Guevara havia sido morto no dia anterior. Corto para Paris, Natal de 1977. Estou na agência da Varig, nos Champs Elysées, para ler a imprensa brasileira. Ele se senta a meu lado. Sem sequer me cumprimentar, disse: “Viste? Morreu o homem”. Que homem? “O homem, Chaplin”. Aproveitou para pedir-me mil francos para ir ao enterro dele. Era um mitômano. Foi e acabou beijando uma Oona chorosa, como se fosse velho amigo de seu marido.

Lisboa, 1977. Embarquei no Eugenio C para cumprir uma bolsa em Paris. O navio atracou por seis horas no porto, o que me deixava algum tempo para revisitar a cidade. Ao sair do porto, vejo um casal do outro lado da rua. Olhei aleatoriamente para a mulher. O luso deu um berro – filho-da-puta! – e veio para cima de mim. Confesso que fiquei apreensivo. Não era luso coisa nenhuma. Era um antigo colega de jornal em Porto Alegre, o Clóvis Camargo Ott, que se exilara em Lisboa. Ao reconhecê-lo, pendurei-me no pescoço dele. Confraternizamos, mas não muito. O Eugenio continuava viagem.

Voltei a reencontrá-lo em Lisboa, anos mais tarde. Tomamos grandes porres, e um muito especial na Tasca do Chico, em Sintra. Chico não é o proprietário. E sim um garnizé. Que pulava em meu joelho, depois em minha cabeça e depois para sua gaiola. Falar nisso, vinte anos depois voltei à Tasca do Chico. Claro que o Chico não mais estava lá. Sentei sob sua gaiola e me pareceu ouvir uma espécie de crocitar. Ruídos fantasmas, pensei. Deveria ser minha memória que me fazia voltar no tempo. Mas os ruídos se repetiram. E o Chico saiu debaixo da mesa, pulou em minha perna, pulou na cabeça e entrou na gaiola. Seria certamente um neto do Chico original. Mas conservava nos gens os hábitos do Chico.

Corto para anos 80, Florianópolis. Eu caminhava pela praia da Barra da Lagoa, com um amigo gaúcho, e comentava exatamente este episódio de Lisboa. Foi quando recebi um forte chute no traseiro. Era o Clóvis. Todos os encontros são possíveis, desde que as pessoas se desloquem. Clóvis, eterna criança, morreu no ano passado.

Aconteceu há pouco. Ou há muito. Há uns bons vinte anos, namorei uma menina que muito quis, a mulher deste meu amigo. Circunstâncias da vida nos afastaram. Viajei, mudei de cidades, ela ficou em sua geografia. Há uns sete ou oito anos, reencontrei-a de maneira trágica. Eu estava no bar da casa Mário Quintana, em Porto Alegre. Estive ao lado dela, ela conversava com alguém, estava linda e igual àquela que um dia conheci, seu rosto sempre luminoso. Eu estava à sua frente, ela não me reconhecia. Pior ainda: tive uma pane mental e não lembrava de seu nome. Sabia perfeitamente quem era, mas naquele instante me faltava o nome. Como posso me aproximar dela - me perguntei - e ter de admitir que esqueci como se chamava?

Nestes dias, minha mente foi assaltada por canções mexicanas:

Mira como ando mujer,
por tu querer,
borracho y apasionado,
no más por tu amor.
Mira como ando mi bien
Muy dado a la borrachera
Y a la perdición.

Passei por sua mesa, fui até a sacadinha do bar, voltei e permaneci parado por alguns segundos. Quem sabe ela me reconhece e me diz "oi'. Chegou a me olhar, mas não me viu. Minhas barbas já estavam brancas. Os cabelos, que os tive hirsutos, já rareavam. Sobrava apenas uma resistência organizada no alto da testa. Um pouco antes, eu havia tropeçado com um antigo colega de jornal. Ele esbarrou em mim, me pediu desculpas e não me reconheceu. Virei fantasma, pensei. Me senti irremediavelmente velho naquele dia.

De domingo a domingo,
te vengo a ver.
Cuándo será domingo,
Cielito lindo,
para volver?

Instantes de bobeira. Me arrependi amargamente de não a ter abordado. Mas o momento havia passado e passado não volta. Pensei tê-la perdido para sempre. Eis senão quando ela me encontra pela Internet. Já no primeiro mail, fui tomado por gigabytes de ternura. De repente voltou – e voltou com força – uma antiga paixão não muito bem consumada. Eu, que considerava que aos 60 não há mais espaço para esses transportes, estou perplexo. Virei guri novo. Nestas últimas semanas, tenho contado angustiadamente os dias que me faltavam para abraçá-la. Já nem consigo ler. A lembrança de seu sorriso embaralha minhas leituras. “Gostavas de me beijar no pescoço”. Sim, ela tinha um pescoço que pedia imperiosamente beijos. Lembro Agostinho: "meu coração está inquieto enquanto não repousa em Vós, ó Senhor(a)"

Tres días sin verte mujer
tres días llorando tu amor
tres días que miro el amanecer.
No más tres días te amé
y en tu mirar me perdí
y hace tres días que no sé de ti.

Virei perdidamente mariachi.
Ela está chegando.
E é hoje.

Sábado, 23 Fevereiro 2008 21:00

Denúncias Devassam o Santo dos Santos

As denúncias chegaram ao Santo dos Santos do mundo acadêmico. Mas ainda são tímidas. No Brasil, quando se puxa um fio da corrupção, vem atrás um imenso novelo.

Desde há mais de vinte anos tenho me perguntado por que a imprensa não aborda a corrupção nas universidades. Até hoje, a universidade tem sido o Santo dos Santos, onde jornalistas não podem penetrar. O Santo dos Santos era uma sala do Templo de Salomão onde ficava guardada a Arca da Aliança. Era onde se realizava anualmente uma cerimônia de sacrifício expiatório de um cordeiro sem mácula pelos pecados dos judeus. Esta sala ficava separada do templo por uma cortina de linho. Segundo a lei de Moisés, somente ao sumo sacerdote era permitido entrar no Santo dos Santos, e ele tinha que ser cerimonialmente purificado antes que pudesse falar com Deus.

Em meus dias de UFCSTUR – como denominei a Universidade Federal de Santa Catarina – denunciei na imprensa as centenas de professores contratados sob regime de Dedicação Exclusiva e que continuavam tocando serenamente seus consultórios de médicos ou dentistas, seus escritórios de advocacia. Mais outros tantos que ganhavam bolsas em outros Estados do País ou no Exterior e voltavam de mãos abanando, após quatro ou cinco anos de turismo regiamente subsidiado – extensivo a mulheres e filhos, é claro – sem nada devolver ao Erário. Minha denúncia causou comoção na Universidade, mas ficou tudo por isso mesmo. A desfaçatez da UFSC era tamanha a ponto de a Reitoria abrigar uma agência de turismo em suas instalações. (E talvez ainda a abrigue). O reitor processou-me por calúnia e difamação, mas teve de tirar o cavalinho da chuva. Em suma, tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. A universidade é o Santo dos Santos, onde não há pecados nem impurezas.

Isso sem falar naquela corrupção perfeitamente legal, tais como doutorandos que vão a Paris ou Londres pesquisar a obra de Machado de Assis ou Nelson Rodrigues. Ora, por que não pesquisá-la aqui, onde estes autores a elaboraram? Depois de quatro ou cinco anos, elaboram um textículo de 300 ou 400 páginas, que não será lido por ninguém – talvez nem mesmo pelos participantes da banca – e ficará mofando nalguma biblioteca. Isso quando elaboram as 400 pagininhas. Pois muitos nem isso conseguem. Isso quando fica mofando nalguma biblioteca. Porque às vezes nem fica. Na UFSC, nos anos 60, um incêndio providencial numa sala da Reitoria queimou as “teses” de boa parte dos doutores da Universidade. Estranho incêndio, queimou só as teses. “Ainda bem que queimou” – me confessou um deles, doutor em História – . Porque a minha tese não se sustentava”.

Isso sem falar em professoras que voam de Porto Alegre a Tóquio, para expor durante vinte minutos um comunicado vital... sobre Literatura Comparada. Em velhotes que se candidatam a doutorado aos 50 anos, quando já estão perto da aposentadoria. O doutorado, que deveria ser um especialização para o exercício do magistério, passa a ser um prêmio de consolação na velhice. Encontrei em Paris uma de minhas colegas de magistério, uma velhota quase sexagenária com dificuldades de locomoção, pois mal conseguia enxergar um semáforo. Fazia doutorado em Lingüística. Passaram-se os anos e não escreveu uma linha. A universidade queria trazê-la de volta. Mas para isso ela tinha de ser comunicada – sei lá porque razões – aqui no Brasil. Como ela não queria receber essa comunicação, permanecia em Paris. Com seus salários e subsídios de bolsa preservados. Não sei como foi resolvida a situação.

Mas isso tudo é perfeitamente legal. A UFSC teve um caso caricatural. Um professor, que foi contemplado com uma bolsa na Bélgica, jamais foi à Bélgica. Encontrou uma fórmula para abrir uma conta em um banco belga e receber seu dinheiro no Brasil. Com a bolsa, construiu uma mansão em Itapema. Me consta que a universidade não conseguiu afastá-lo de seus quadros.

Graças ao escândalo dos cartões corporativos, a universidade brasileira finalmente entrou na berlinda. Descobriu-se que o reitor da Universidade de Brasília (UNB), Timothy Mullholland, gastou apenas 470 mil reais na reforma do apartamento em que residia. Em que residia gratuitamente, diga-se de passagem. Homem refinado, o Magnífico comprou – com o cartãozinho mágico – uma lata de lixo no valor de R$ 990 e um saca-rolhas de R$ 859. Gente fina é outra coisa.

Mais ainda. Leio hoje no Estadão (18/02) que os cartões corporativos da UnB serviram para pagar compras de valor elevado em supermercados, mercearias, açougues, peixarias e armazéns no ano passado. De 2004 a 2006, esse tipo de gasto tinha produzido uma despesa abaixo de R$ 13 mil, somadas as contas dos três anos. Levantamento do Estado mostra que somente em 2007 os cartões pagaram R$ 69.721,99 em compras feitas em estabelecimentos especializados na venda de gêneros alimentícios, como Carrefour, Pão de Açúcar, Tigrão e Oba, entre outros.

Mas também aparecem compras em lojas que vendem artigos mais refinados, como o minimercado e delicatessen La Palma, a confeitaria Monjolo - que vende biscoitos, tortas e bolos finos - e a padaria Pão Italiano, por exemplo. A profusão de compras desse tipo, pela universidade, mostra que o cartão público de débito é usado como um cartão pessoal - com a diferença de que a fatura é emitida contra o caixa do Tesouro Nacional.

É o que nos conta o jornal. Também informa que a segunda universidade com maior despesas de cartão corporativo é a Federal do Piauí, cujos gastos nem de longe rivalizam com os feitos pela UnB. Em 2007, a Universidade Federal do Piauí gastou R$ 356.772 nos cartões.

As denúncias chegaram ao Santo dos Santos do mundo acadêmico. Mas ainda são tímidas. No Brasil, quando se puxa um fio da corrupção, vem atrás um imenso novelo. E as demais universidades do país? Seus Magníficos Reitores e funcionários não usam cartões corporativos? Ora, se usam, é de supor-se que também terão caído na farra dos cartões. Alguém consegue acreditar que só as universidades de Brasília e do Piauí fazem uso indevido dos cartões?

As denúncias seguirão adiante? Duvido. Se seguirem, vai ser bom para o mercado de trabalho dos jornalistas. As empresas terão de contratar mais profissionais para apurar tanta malversação de dinheiro público.

De qualquer forma, a corrupção universitária é anterior à prática dos cartões. Corrupção são essas bolsas para pesquisas rumo ao nada, viagens para congressos inúteis, dobradinhas com Dedicação Exclusiva e exercício simultâneo de outra profissão, doutorandos que voltam de mãos vazias e nada devolvem à universidade. Em um colóquio literário, por exemplo, quem mais ganha não é a cultura, mas a hotelaria e as agências de turismo.

Puxa-se um fio e vem o novelo. Começou com o Executivo. Logo descobriu-se que Legislativo e Judiciários tinham também suas fórmulas de salário indireto. Agora, entra a Academia no baile. Antes tarde do que nunca. Mas se bem conheço os bois com que lavro, ninguém será punido. É gente demais para ser punida. Melhor então não punir ninguém.

Quarta, 13 Fevereiro 2008 21:00

Eurábia é Amanhã

O velho continente está se entregando, de pés e mãos atadas, à barbárie muçulmana.

Em crônica passada, comentei o livro Os últimos dias da Europa – Epitáfio para um velho continente, do historiador alemão Walter Laqueur. Entre outras informações que inquietam todo homem que cultiva os valores europeus, o autor nos falava da Milli Goerus, organização turca incrustada na Alemanha, que tem como projeto um país que viva segundo as estritas leis do Islã, mesmo que para isso seja preciso fazer certas concessões até que os muçulmanos constituam maioria. O grupo tem em torno de 220 mil militantes e dirige cerca de 270 mesquitas na Alemanha. “Ela visa substituir a ordem secular no país em que vivem por uma outra baseada na sharia – a lei islâmica –, primeiramente naquelas regiões em que os muçulmanos são maioria, ou uma minoria representativa, e posteriormente à medida que seu espaço se expanda”.

No livro, Laqueur aventava a possibilidade de regiões binacionais autônomas na França. Os muçulmanos poderiam fazer concessões com relação à sharia, e as autoridades francesas poderiam desistir do velho modelo republicano, com uma clara divisão entre Igreja e Estado.

Aconteceu agora no Reino Unido. Quinta-feira passada, o líder espiritual da Igreja anglicana gerou polêmica ao considerar como "inevitável" a adoção de certos aspectos da sharia, a lei islâmica, pela sociedade britânica. Em uma entrevista veiculada na BBC, o arcebispo de Cantuária, Roman Williams, disse: "O princípio de que existe apenas uma lei para todos é um pilar da nossa identidade como democracia ocidental. Mas acho que é um equívoco supor que as pessoas não tenham outras crenças que conformam e ditam como elas se comportam na sociedade. A lei precisa levar isto em conta”.

Como já afirmei, padre não briga com padre. O arcebispo cristão está fazendo o jogo dos aiatolás e mulás. "Uma abordagem da lei que simplesmente diga que só existe uma lei para todos é um tanto perigosa". Para o arcebispo, o Reino Unido precisa reconhecer que nem todos os seus cidadãos se identificam com o sistema legal britânico. "Existe espaço para encontrar o que seria uma acomodação construtiva com alguns aspectos da lei islâmica, como já existe com alguns aspectos das leis religiosas", declarou o líder anglicano.

Pelo jeito, o Brasil está fazendo escola. Aqui já temos leis específicas para brancos, para índios, para negros e para bandoleiros. Índio, por exemplo, pode matar e estuprar à vontade, pode eliminar crianças indesejáveis, pode fazer reféns e interditar estradas e nada disso constitui crime. Notas de negros em vestibular valem por dois. Os sem-terra, além de terem direito assegurado a invadir propriedades e repartições públicas, contam agora para aposentadoria o tempo em que praticam crimes.

O que está por trás das declarações do arcebispo? Está que muçulmanos têm direito a mutilar suas filhas, mesmo num continente em que mutilação física é crime. Está que muçulmanos têm direito a quatro mulheres, e até aí nada demais. O demais acontece quando a Previdência tem de assegurar os direitos a subsídios pelas quatros mulheres.

Ibrahim Mogra, porta-voz do Conselho Muçulmano do Reino Unido, foi mais longe: "Estamos falando da aplicação de apenas um pequeno aspecto da sharia para famílias muçulmanas, em assuntos como casamento, divórcio, herança, custódia das crianças e daí em diante". Pelo jeito, os árabes estão querendo introduzir no Reino Unido a lei dos três talaks. Basta o marido repetir três vezes o “eu te repudio”, e a mulher está no olho da rua.

Em sua entrevista à BBC, o arcebispo da Cantuária lamentou que cidadãos muçulmanos tenham de escolher entre "a fidelidade cultural e a fidelidade ao Estado", e sugeriu que disputas conjugais e financeiras em comunidades étnicas possam ser resolvidas através de uma corte islâmica. O que o arcebispo quer é duas legislações dentro um mesmo Estado. De certa forma, não está sendo original. Nos dias em que vivi na França, época do governo Giscard d’Estaing, os muçulmanos podiam levar para o país suas quatro mulheres e seus dez ou quinze vinte filhos. Ou seja, a poligamia estava legalizada. Na hora do desemprego, o Estado assumia o sustento de toda a tribo. Acho que dá pra imaginar a revolta de um francês, que mal pode sustentar mulher, amante e cachorro, vendo seus tributos financiando a poligamia dos cabeças-de-toalha.

A poligamia estava legalizada para os muçulmanos. Francês, se tivesse duas mulheres oficiais, respondia a processo e arriscava prisão.

Para o diretor da Fundação Ramadã, Mohammed Shafiq, “os muçulmanos se sentiriam bastante confortáveis se o governo permitisse que seus assuntos civis fossem resolvidos segundo sua fé". Em um continente onde há séculos a Igreja se separou do Estado, Shafiq está propondo nada menos que a volta das teocracias. Regime que hoje, na Europa, só existe naquele arremedo de Estado chamado Vaticano, presenteado pelo fascista Mussolini à Igreja Católica, e dominado por gerontes misóginos.

Baronesa Warsi, responsável da oposição por acompanhar assuntos comunitários, que parece desconhecer o direito já consuetudinário brasileiro, criticou o arcebispo: "O dr. Williams parece sugerir que deveria haver dois sistemas legais funcionando lado a lado, quase em paralelo, e que as pessoas tenham a possibilidade de optar por um ou por outro. Isso é inaceitável".

É espantoso que, na Europa contemporânea, um arcebispo profira tais sandices. O velho continente está se entregando, de pés e mãos atadas, à barbárie muçulmana. A Eurábia já não mais é um elemento de ficção. A Eurábia é amanhã. Sorte que então não mais estarei entre os vivos.

Segunda, 28 Janeiro 2008 21:00

Quem Financia o Astrólogo

É claro que este tipo de filosofia não pode servir a um astrólogo que, manipulando a superstição, quer exercer poder sobre seus semelhantes. Quem não teme a morte não teme deuses nem astros.

Anselmo Heidrich está se propondo a um trabalho interessante, a desmitisficação de dois engodos da imprensa eletrônica nacional, o jornal Mídia sem Máscara e seu mentor, o sedizente filósofo e astrólogo Olavo de Carvalho. Sedizente filósofo porque se pretende como tal. Astrólogo por ofício, já que escreveu três ou quatro livros de astrologia, que curiosamente prefere nem mais citar em sua bibliografia. Aliás, o “filósofo” parece ter desistido de definir-se como astrólogo, pois em seus créditos já não acrescenta o antigo ofício. Quando a profissão é infamante, melhor declarar-se bailarina.

Ok! Filósofo não é profissão regulamentada, como muito menos a de astrólogo, psicanalista ou ornitologista. Assim, quem quiser anunciar-se como filósofo, astrólogo, psicanalista ou ornitologista, esteja a gosto. Nihil obstat!

Como leitor que um dia teve algum apreço por Olavo de Carvalho e ex-colaborador censurado do Mídia sem Máscara, presto meu depoimento. Gostei de seu livro O Imbecil Coletivo. Quando Olavo o autografou na livraria Cultura, em São Paulo, fui lá prestigiá-lo. O autógrafo veio eivado daquela simpatia impessoal que os autores dedicam a um leitor quando não querem comprometer-se. Li também o Imbecil Coletivo II, menos interessante que o primeiro, como todas as suítes de filmes. Acabei sabendo que meu livro sobre a Suécia, O Paraíso Sexual-Democrata, fora citado em O Jardim das Aflições. Até hoje não entendi porquê. Meu livro nada tem a ver com o que pretende ser um tratado de filosofia.

Tratado de filosofia, umas ovas. Olavo irritou-se com uma palestra de um certo José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro, proferida no MASP, em maio de 1990, e escreveu um livro inteiro para contestar o autor. Na verdade, quem Olavo não suporta é Epicuro,o filósofo de Samos que se opôs às concepções fundamentais dos estóicos, platônicos e peripatéticos, aproximando-se dos cirenaicos, movido por uma dupla necessidade: a de eliminar o temor aos deuses e a de desprender-se do temor da morte. Segundo Ferrater Mora, “o primeiro se consegue declarando que os deuses são tão perfeitos que estão além do alcance do homem e de seu mundo; os deuses existem (pois, contrariamente à opinião tradicional, Epicuro não era ateu) mas são indiferentes aos destinos humanos. O segundo se consegue advertindo que enquanto se vive não se tem sensação da morte e quando se está morto não se tem sensação alguma. (...) A felicidade se consegue quando se conquista a ataraxia, não para insensibilizar-se por completo, mas para alcançar o estado de ausência de temor, de dor, de pena, e de preocupação”.

É claro que este tipo de filosofia não pode servir a um astrólogo que, manipulando a superstição, quer exercer poder sobre seus semelhantes. Quem não teme a morte não teme deuses nem astros. O divertido em tudo isso é que, Olavo, irritado com o Pessanha, escreveu um livro inteiro sobre sua palestra. Ora, invejo o Pessanha. Adoraria um ouvinte assim irritado. Se cada palestra minha tivesse gerado um livro, minha bibliografia hoje seria vasta. Caso típico de um tiro que saiu pela culatra.

O autor de O Jardim das Aflições revela-se mais com vocação para garçom do que para ensaísta. Elabora sofisticados coquetéis de idéias que nada têm a ver com pensamento. Mistura todo tempo filosofia e teologia e chega a proferir este despautério: “O sábio deve, por um lado, obediência às leis e costumes, caso não deseje ser excluído da comunidade humana; deve-a, por outro lado, ao Deus verdadeiro, do qual a comunidade só conhece analogias e símbolos distantes, cristalizados em ritos e mandamentos cujo sentido se perdeu”.

Que Deus verdadeiro? Teria lido o pretenso teólogo algum dia a Bíblia? Até Jeová acreditava em outros deuses, tanto que mandava destruir seus altares. Os jeovistas contemporâneos são mais jeovistas que Jeová, acham que deus é um só. Jeová não achava. Aliás, esse gambito do astrólogo é muito safado. Professa um cristianismo abstrato, manifesta sua fé no tal de Altíssimo, sem jamais dizer à qual confissão de fé pertence. Aparentemente, é a fé católica. Mas o astrólogo não pode afirmá-la, sob pena de incoerência. Ninguém pode ser católico tendo tido três mulheres. Muito menos ser astrólogo e católico ao mesmo tempo. Então, fica professando aquele cristianismo indefinido, que só convence quem adora ser convencido – para não ter de comprometer-se. Em suma, um arremedo de Nostradamus que vive de mascambilhas. Nós, ateus, podemos ter uma, dez ou vinte mulheres. Católico só pode ter uma só.

Católicos, hoje, têm se mostrado mais enrustidos que homossexuais dentro do armário. Se homossexualismo se tornou uma opção comportamental, a fé católica é mais difícil de sustentar. Essas empulhações de mãe virgem, de deus-três-em-um, de Cristo que ressuscitou, de vinho que vira sangue, de pão que vira carne, já não convencem nem mesmo os cristãos.

De escritor de textos lúcidos contra as esquerdas, Olavo de repente descambou para aiatolices. O Mídia sem Máscara seguiu o chefe. Quando escrevi sobre as práticas medievais da Opus Dei aqui em São Paulo, recebi advertência do editor Paulo Diniz. Que não era bem assim, etc e tal. Quando escrevi que Cristo nascera em Nazaré, mas não em Belém – questão que sequer constitui dogma – fui censurado. Hoje o Vaticano mostra um presépio na praça de São Pedro, onde Cristo nasce em Nazaré. Se o Vaticano mandar um artigo para o Mídia sobre o assunto, certamente será censurado. Quanto a algum artigo do Bento, talvez passe. Neste Natal passado, enquanto o Vaticano afirmava o nascimento do Cristo em Nazaré, o Bento falava em Belém. Pelo jeito, está faltando comunicação interna na Santa Sé.

É curioso observar que o Mídia – que, bem ou mal, acaba se professando católico ou algo por el estilo – não escreveu uma linha sobre a visita do papa a São Paulo. Pelo jeito, temos cisma à vista. Quem sabe o Olavo cria uma seita. Dá grana a granel – os pastores da Renascer ou da IURD que o digam – e assim Olavo não precisaria pedir esmola a seus discípulos para sustentar suas vilegiaturas na Virginia. Também é curioso observar que Olavo, defensor incondicional da cristandade, nunca disse sequer uma palavrinha contra as práticas hediondas do islamismo, como a ablação do clitóris e a infibulação da vagina.

Padre não briga com padre. Muito menos astrólogos com teólogos. O ofício é o mesmo. Como escreveu Anselmo, “o Mídia Sem Máscara hoje é um site que detém elementos claramente totalitários. E isto parte da chamada “filosofia de Olavo de Carvalho”. Mas, seu maior erro é se julgar “sem máscara” enquanto que, na verdade, apresenta dois rostos: um anticomunista e outro tão totalitário quanto o comunismo, o do fundamentalismo religioso em campanha contra o estado laico e a pluralidade de opiniões intrínseca à democracia. (...) E não diferencio isto de um lixo como Carta Capital ou Caros Amigos”.

Mantive longos debates com alguns meninos da comunidade Mídia sem Máscara, no Orkut. Todos se manifestavam católicos, mas pouco ou nada entendiam de teologia ou doutrina da Igreja. Em boa parte, defendiam a Inquisição. Mais ainda: mantinham uma postura de quem se atribuía direitos sobre a orientação do jornal. Muito estranho.

A pergunta que permanece é esta: quem financia o Mídia sem Máscara? Porque o jornal tem algum custo de edição. Seus redatores não recebem nada. Os editores recebem. Recentemente, a ministra petista Marina da Silva alinhou-se a Olavo de Carvalho na defesa do creacionismo. Quando tivermos esta resposta, saberemos a quem servem Olavo de Carvalho e seus acólitos.

Olavo estende o chapéu desde Virginia: “Estou pedindo a todos os meus leitores e amigos que me ajudem a fazer o que tenho de fazer. Doações pessoais ainda são permitidas e livres de impostos. Quem tiver sensibilidade e condições para isso, que faça uma contribuição por qualquer destes três meios, à sua escolha: “Para contribuições em dólares, por cartão de crédito, simplesmente clique o botão abaixo e siga as instruções (no formulário, em resposta ao item "payment for", escreva simplesmente "donation").

Ainda há poucos dias, o Mídia sem Máscara oferecia um curso de filosofia ministrado pelo astrólogo em Virginia, por módicos três mil e poucos dólares. Parece que o site tomou vergonha: o anúncio do curso não está mais lá.

Ora, alguém acredita que leitores financiarão um guru nos States? Guru brasileiro? Para isto é preciso manipular altos níveis de vigarice, oriundos de países que têm prestígio místico. Falo de Bento XVI, Osho, Dalai Lama, Deepak Chopra.

Não é empreitada para campineiro. Resta então a pergunta: quem financia o astrólogo?
 
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