Seg12092019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Terça, 06 Junho 2006 21:00

Testemunha do Além Absolve na Terra

Que estão esperando as autoridades que investigam os assassinatos dos prefeitos de Santo André e Campinas? Irão invocar os espíritos de Celso Daniel e Antonio da Costa Santos apenas ao final de algum júri, que só será realizado quando algum suspeito for indiciado?

Nunca convivi com espíritas. Só fui ver um há três anos. Quando morre alguém perto da gente, de onde mal se suspeita sempre salta um espírita vendendo suas muletas metafísicas. Minha mulher morrera há mais de mês e eu conversava com amigos comuns. Em dado momento, uma moça atalhou: “Eu conversei ontem com ela”. Nessas ocasiões, tomo uma atitude de crédulo. Se a moça afirmava com tanta convicção ter conversado com minha mulher, não seria eu quem iria contestá-la. Perguntei apenas o que ela havia dito. Ela deixou uma mensagem, disse a moça: “seja feliz”.

O que me lembrou a aparição de Maria aos três pastores em Fátima. Quando interrogada sobre quem era, teria dito a Virgem: “Eu sou a Nossa Senhora”. Ora, sendo Maria mais que santa, semideusa, não é de supor-se que tivesse domínio tão precário do português. Se se dirigia aos três pastores, o correto seria: “Eu sou a Vossa Senhora”. Por um descuido sintático do narrador, o milagre ficou prejudicado.

Da mesma forma, a mensagem de minha companheira. Éramos gaúchos. Depois de passarmos por Curitiba e São Paulo, ela passou a usar o você, mas apenas ao tratar com curitibanos e paulistanos. Jamais me trataria por você. Como a comunicação de Maria, a de minha mulher também ficou sob suspeita. Mas não neguei o testemunho da moça. Aproveitei o ensejo para pedir-lhe que, quando falasse de novo com ela, pedisse o código do celular, que eu havia ficado sem.

A moça entrou em pane, achava que não ia dar, códigos são coisas confidenciais, começou a perguntar que horas são e logo deu as de Vila Diogo. Contei a história mais tarde a professores universitários e um deles, também espírita, prometeu-me perguntar às instâncias do Além sobre o código do celular. Mas me alertou que o médium teria de ser muito poderoso para descobri-lo. Bem entendido, nunca mais me falou no assunto. Nem eu precisava do código, afinal sempre o tive e queria apenas divertir-me com a capacidade comunicativa dos tais de médiuns.

Talvez código de celular seja matéria de pouca monta. Assuntos de mais gravidade, como a absolvição de um crime, têm imediata atenção do Além. Aconteceu em Viamão, RS. Uma mulher de 63 anos, acusada de matar um tabelião, com dois tiros na cabeça, foi inocentada, por 5 votos a 2, da acusação de mandante de homicídio. Inocentada por quê? Porque uma carta psicografada da vítima declarava: "O que mais me pesa no coração é ver a Iara acusada desse jeito, por mentes ardilosas como as dos meus algozes (...). Um abraço fraterno do Ercy", leu o advogado de defesa, ouvido atentamente pelos sete jurados.

Vamos ao que diz a Folha de São Paulo sobre o fato:

Não consta das cartas, psicografadas pelo médium Jorge José Santa Maria, da Sociedade Beneficente Espírita Amor e Luz, a suposta real autoria do assassinato. O marido da ré, Alcides Chaves Barcelos, era amigo da vítima. A ele foi endereçada uma das cartas. A outra foi para a própria ré. Foi o marido quem buscou ajuda na sessão espírita.
O advogado, que disse ter estudado a teoria espírita para a defesa (ele não professa a religião), define as cartas como "ponto de desequilíbrio do julgamento", atribuindo a elas valor fundamental para a absolvição. (...) Os jurados não fundamentam seus votos, o que dificulta uma avaliação sobre a influência dos textos na absolvição. Os documentos foram aceitos porque foram apresentados em tempo legal e a acusação não pediu a impugnação deles.

Curvem-se as nações mais uma vez ante este colosso, o Brasil. Glória ao Rio Grande do Sul, este Estado pioneiro em matéria de ciência jurídica. Viamão über alles. Que sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra, como diz o hino rio-grandense. Esta extraordinária inovação do tribunal do júri, verdadeiro ovo de Colombo ainda não intuído pelos sistemas judiciários dos demais países, dirime definitivamente quaisquer dúvidas que possam pairar sobre os veredictos dos jurados. Quem com mais autoridade para inocentar um réu senão a vítima? Está morta, é verdade. Mas se os espíritas consideram ser possível falar com os mortos, em nome do sagrado respeito a todas as profissões de fé, não seremos nós, ateus empedernidos, que contestaremos tal crença. Só nos resta esperar que este novo recurso jurídico se integre definitivamente ao Direito Processual e seja mais e mais utilizado pelos nossos tribunais.

Que estão esperando as autoridades que investigam os assassinatos dos prefeitos de Santo André e Campinas? Irão invocar os espíritos de Celso Daniel e Antonio da Costa Santos (o Toninho do PT) apenas ao final de algum júri, que só será realizado quando algum suspeito for indiciado? Por que não invocá-los já, na fase inicial do processo, para que determinem, com aquela veracidade que conferimos aos depoimentos de defuntos, quem de fato os assassinou? No caso do prefeito de Santo André, teríamos mais sete mortos a depor. Médiuns competentes bem que poderiam organizar uma coletiva no Além, invocando todos os espíritos na mesma data e hora. O que certamente não terá inconveniente algum, já que espíritos não devem ter agendas apertadas. Como é de supor-se que mortos não mintam e seus depoimentos sejam considerados de fé pública, os crimes seriam elucidados em um átimo.

Já que falamos de crimes momentosos, começa nesta semana o julgamento de Suzane von Richthofen e seus cúmplices no assassinato de seus pais, que tiveram seus crânios esfacelados com barras de ferro. Segundo os jornais, a acusação tentará provar que Suzane matou os pais para pôr as mãos na herança da família. Já a defesa pretende que a meiga Suzane era uma moça de conduta irretocável e temperamento doce, mas de cabeça virada por influência do rapaz que a iniciou na vida sexual e no uso de drogas. É espantoso que, tendo ciência do precedente de Viamão, o tribunal do júri ainda sequer tenha aventado a hipótese de invocar os espíritos de Manfred von Richthofen e particularmente o de sua mulher, Marísia. Quem sabe Suzane não era mesmo moça de conduta irretocável e temperamento doce. Coração de mãe nunca se engana.

Claro que problemas podem ocorrer. Digamos que haja divergências nos testemunhos do Além. Nada que não se resolva com a colaboração de um perito médium, que confrontará as afirmações dos protoplasmas. E se você, leitor, pelas circunstâncias da vida, algum dia se encontrar na condição de réu de homicídio, nem pense em advogados. Contrate logo um bom médium. Aliás, considerada a trouvaille gaúcha, está mais do que na hora de regulamentar a profissão.

Terça, 23 Maio 2006 21:00

A Farsa do Toque de Recolher

Nestes dias em que o PCC resolveu mostrar quem manda na cidade, se alguém ficou preocupado foram as autoridades. O paulistano ficou apenas apreensivo, afinal se nem a polícia tem mais segurança, com que segurança posso contar eu, cidadão comum?

Toque de recolher. Semana do terror. Estas são as manchetes de capas de caderno do Estadão deste último domingo. Para o visitante ou estrangeiro que estiver passando em São Paulo, fica a certeza de que houve um toque de recolher. E que a cidade viveu uma semana de terror. De fato, no prazo de uma semana houve 166 mortes, contados policiais e civis. Ocorre que a média de assassinatos na grande São Paulo, nos fins-de-semana, produz entre 40 e 60 cadáveres. A rigor, todo fim-de-semana é de terror. Se com este terror o paulistano convive bem, não será com um ligeiro pico de mortes que a cidade vai entrar em pânico.

O que houve foi uma cidade esvaziada pela boataria irresponsável. Primeiro, surgiram os indefectíveis motoqueiros avisando o comércio para baixar as cortinas. Consciente ou inconscientemente, a polícia deu boa ajuda à bandidagem, também mandando lojas e restaurantes fecharem. O rádio e a televisão fizeram o resto. Bastou um jornalista da Record dizer: “parece um toque de recolher”, e a expressão correu a cidade. No fundo mesmo, quem decretou o toque de recolher não foi nenhuma autoridade constituída, mas a televisão.

Na segunda-feira dita negra, que de negra nada teve, a televisão descarregou imagens dos massacres de sexta-feira, sábado e domingo. O efeito foi assustador. No restaurante, o garçom me avisou que fora decretado toque de recolher na Avenida Paulista. Exagero de jornalista, pensei com meus botões. Ao pagar, fui avisado que o toque de recolher fora estendido a meu bairro, Higienópolis. Bom, aí já era mais grave. Na Angélica, algo estranho na rua. Tráfego nervoso, pessoas com ar de quem vai, não com ar de quem vem. Na altura da praça Buenos Aires, tropeço com duas amigas assustadas, que corriam para seus apartamentos. Me alertaram que estávamos sob toque de recolher e mais: que o toque de recolher fora decretado pelo PCC. “Palhaçada” – resmunguei, e continuei meu caminho despreocupadamente.

Resolvi observar melhor o mundo em torno. Bares, escolas, lojas e shopping fechando. Pelo jeito, era toque de recolher mesmo. Numa rara padaria ainda aberta, uma multidão fazendo fila, abastecendo-se como em tempo de guerra. Cheguei em casa resmungando contra a estupidez de um governo que, impotente ante a bandidagem, resolve decretar toque de recolher para fingir que está fazendo algo. Liguei a televisão, reportagens e entrevistas alarmantes, autoridades descobrindo o óbvio, que é preciso eliminar o uso de celulares por presidiários para acabar com este surto de terror em São Paulo, que naquelas últimas 48 horas já havia feito 86 cadáveres, mais da metade de policiais. Nada sobre toque de recolher. Fui então à Internet. Muito menos.

O mais parecido que encontrei foi uma notícia no Terra. As lojas da rua Teodoro Sampaio, zona oeste de São Paulo, e do Largo 13 de Maio, na zona sul, estavam de portas fechadas. Segundo os lojistas, a ordem de fechar as portas viera dos policiais que atuavam na região. Com o alarmismo do rádio e da televisão, o boato espalhou-se na cidade e as empresas começaram a liberar seus funcionários. Os ônibus deixaram de circular, as paradas ficaram lotadas de gente amedrontada com pressa de voltar para casa. O trânsito triplicou e atingiu engarrafamentos típicos de sexta-feira. As linhas de celulares congestionaram e os aparelhos ficaram mudos.

Nestes dias em que o PCC resolveu mostrar quem manda na cidade, se alguém ficou preocupado foram as autoridades. O paulistano ficou apenas apreensivo, afinal se nem a polícia tem mais segurança, com que segurança posso contar eu, cidadão comum? Num Estado que não dá garantias mínimas de segurança ao cidadão, crime já não é crime, mas fatalidade. Marcola, o delinqüente tido como líder dos ataques à polícia, em uma conversa com um delegado, foi claro: “Eu posso entrar numa delegacia e matar um policial, mas um policial não pode entrar na cadeia e me matar, pois é obrigação do Estado me proteger”.

Por trás de seu repto, está a tranqüilidade de um criminoso com salvo-conduto das ONGs e entidades dos tais de Direitos Humanos, mais a cumplicidade de políticos e a leniência dos juízes. Sabe que, ao melhor arranhão que sofrer, podem cair até secretários de Segurança, isso se não tiverem de enfrentar júri. Quanto a policiais, ele pode mandar matar à vontade. Nenhuma entidade de direitos humanos denunciará a morte de policiais.

O paulistano convive bem com o medo. Quem ainda não aprendeu a conviver com o medo foi a polícia. Para partilhar seu pânico, sem ordem judicial alguma, constrangeu comerciantes a fechar suas lojas. Para honra e glória da bandidagem, São Paulo parou.

A segunda-feira foi pintada como um dia de terror. Em verdade, foi o dia do grande fiasco. São Paulo foi paralisada por boatos, nada mais que boatos. A imprensa mostrou multidões fugindo para abrigar-se em casa. Ora, uma vez fechados bares, lojas, shoppings, escolas, não há nada melhor a fazer senão voltar para casa. Os paulistanos, acovardados pelo sensacionalismo de rádios e TVs, conferiram ao PCC um poder que o grupo criminoso não tem, o de paralisar uma cidade de dezoito milhões de habitantes. São Paulo exagera. O terror sequer começou. Teremos terror quando começarem a explodir os primeiros carros-bomba. Quando chegar este dia, o PCC terá então de fato poder sobre a cidade.

Por enquanto, o poder do PCC se exerce em outras instâncias, junto às autoridades. Ao decidir negociar com o Senhor da Guerra, o tal de Marcola, Estado e polícia renderam-se vilmente à bandidagem. Quando o Senhor da Guerra ameaçou o delegado dizendo que poderia entrar numa delegacia e matar um policial, o delegado, com o rabo entre as pernas, engoliu a ameaça.

Não bastasse a arrogância do marginal todo-poderoso, o porta-voz do PCC, advogado Anselmo Neves, proferiu nova ameaça. Que se o governo estadual não acolhesse as reivindicações da facção e não abrandasse o rigor do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), a tensão aumentaria nos próximos dias. Atemorizadas, as autoridades foram voando – literalmente – até a cela do Marcola. O Estado, humildemente, negociou um cessar-fogo com o criminoso responsável pelas matanças. Com um simples telefonema, o Senhor da Guerra encerrou um conflito que duzentos mil homens armados não conseguiram controlar.

Que podemos esperar nos próximos anos? À menor reivindicação não satisfeita dos presidiários, nova onda de matanças. Marcola está no melhor lugar em que poderia estar: em uma cela de alta segurança, protegido por centenas de policiais. Estivesse comandando a batalha no campo de batalha, correria o risco de ser ferido e mesmo morto. Encarcerado, não corre risco algum.

O Estado rendeu-se vergonhosamente. O PCC foi vitorioso em toda extensão. O que não é de espantar. Se uns comandam o crime a partir de um cárcere de São Paulo, outros comandam o crime a partir de um ministério em Brasília. Que se pode esperar de um país que teve recentemente como chefe da Casa Civil um terrorista treinado em Cuba e como ministro da Fazenda um chefe de quadrilha? E que hoje tem como ministra de Minas e Energia uma ex-assaltante de bancos e como ministro da Justiça um criminalista que fez fortuna defendendo narcotraficantes? Não dispondo da máquina estatal para roubar, Marcola faz o que pode a partir de seu cárcere.

Cláudio Lembo, o governador de São Paulo, negou com veemência a negociação óbvia: a violência só acabou depois que o Estado enviou interlocutores para parlamentar com o Senhor da Guerra. Não bastasse mentir à população, o governador teve arroubos de um Farrakhan inspirado por Lênin, ao responsabilizar a “minoria branca perversa”, a “burguesia má”, pela criminalidade. Esta mesma burguesia má que paga a uma faxineira o dobro do que o Estado paga a uma professora. O Explicador-Geral da República, Tarso Genro, acusou o governador de preferir negociar com o PCC do que aceitar a ajuda oferecida pelo governo federal. Tem toda razão o Explicador-Geral. O PT tem muito mais experiência quando se trata de negociar, vide as absolvições dos deputados mensaleiros.

Já o Supremo Apedeuta considerou que as ações do PCC eram decorrência da falta de investimentos na educação: “Na hora que você não investe em uma escola, você vai ter de investir depois em uma cadeia”. Vai ver que a quadrilha montada pelo PT em Brasília só existiu porque faltou escola ao José Dirceu, José Genoíno, Antônio Palloci, Delúbio Soares, Silvinho Pereira, Duda Mendonça, Marcos Valério e demais quadrilheiros.

Que se espera para entregar um ministério ao Marcola? Este pelo menos não brinca em serviço.

Quarta, 10 Maio 2006 21:00

Até Lá, Morreu o Neves!

É preciso terminar com essa lenda de que o crime não compensa. As novas gerações estão arriscando perder uma velhice confortável, melhor que qualquer aposentadoria, caso continuem a acreditar nessas potocas.

A justiça brasileira foi implacável na semana passada. O Tribunal Regional Federal condenou o ex-senador Luiz Estevão de Oliveira, os empresários Fábio Monteiro de Barros e José Eduardo Corrêa Teixeira Ferraz, sócios da construtora Incal, e o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto a um total de 115 anos de prisão, pelo desvio de verbas na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. Os indigitados réus foram também condenados a mais de R$ 5 milhões em multas. Verdade que, considerando-se um desvio de R$ 169,5 milhões, o investimento destes senhores teve uma rentabilidade extraordinária, fora do alcance dos comuns mortais.

O juiz Nicolau, mais conhecido na imprensa por Lalau, já condenado a 22 anos, recebeu mais 26 anos de reclusão. O ex-senador Estevão foi condenado a 31 anos de prisão: 9 anos e 4 meses pelo crime de peculato-desvio; 8 anos por estelionato qualificado; 8 anos e 8 meses por corrupção ativa; 2 anos e 6 meses por documento falso e, igualmente, 2 anos e 6 meses por formação de quadrilha. O empresário Fábio Monteiro de Barros também recebeu penas semelhantes às de Estevão, no total de 31 anos de prisão. José Eduardo Teixeira Ferraz foi condenado a 27 anos e oito meses.

Nesta mesma semana, Antonio Marcos Pimenta Neves, ex-diretor de redação do Estadão, assassino frio e confesso da jornalista Sandra Gomide, editora de Economia do mesmo jornal, no dia 20 de agosto de 2000, foi condenado pelo tribunal do júri a dezenove anos, dois meses e doze dias de prisão. Jornalista senil, não conseguindo mais exercer o direito de pernada sobre uma subordinada, preferiu matá-la. Por unanimidade, o júri considerou o jornalista culpado de crime qualificado, o que o torna sujeito à Lei de Crimes Hediondos, que prevê o cumprimento integral da pena em regime integralmente fechado. Entre o crime e a decisão do júri, decorreram cinco anos, oito meses e quinze dias. O assassino, confesso, passou a maior parte deste tempo em liberdade.

Dura lex sed lex. Finalmente o martelo da justiça abate os poderosos, estará imaginando o cidadão desavisado. Em sua inocência, este cidadão deve estar supondo que o senador, o juiz, os empresários e o jornalista estão encerrados no cárcere a que foram condenados. Acontece que estamos neste Brasil, onde o Supremo Tribunal Federal considera que criminosos devem responder a processo em liberdade, enquanto não forem esgotados os recursos a que têm direito. A situação do Lalau, 78 anos, não muda em nada. Já cumpria – e continuará cumprindo – prisão domiciliar, por problemas de saúde e de idade. A situação dos demais condenados no escândalo da construção do Fórum tampouco. Continuarão esperando o julgamento dos recursos.

Idem, Pimenta Neves, que já tem 69 anos e se aproxima da idade confortável da impunidade. A defesa vai apresentar recurso ao Tribunal de Justiça e o novo julgamento deve demorar pelo menos mais dois anos. Segundo o ex-juiz Luiz Flávio Gomes, que acompanha o caso, “até lá, Pimenta terá 70 anos e, se ficar comprovado que está doente, poderá ficar em prisão domiciliar mesmo condenado em definitivo". Considerando-se que cada instância demora cerca de três a cinco anos para julgar um recurso, o leitor já pode ter uma idéia muito precisa de quando estes senhores olharão o mundo por trás das grades: nunca.

Há alguns anos, o Estadão publicou artigo de uma ativista internacional que propunha a absolvição coletiva de todos os assassinos responsáveis pelo genocídio ocorrido em Ruanda, em 1994. Os criminosos eram tantos, de tão difícil identificação – alegava a generosa articulista – que qualquer processo se tornava impossível. No Brasil, parece que estamos rumando a esta solução proposta para Ruanda, embora os criminosos não sejam tantos e sejam perfeitamente identificáveis. O segredo da impunidade? Advogados caros e safados, que jamais discutem o mérito da questão, atendo-se aos arabescos colaterais do direito adjetivo. A persistir esta tendência do Judiciário, teremos uma privilegiada elite de megatérios, todos devidamente condenados pelo rigor das leis e gozando das delícias de suas posses, em meio à afável companhia de amigos e parentes. Com uma pequena restrição, a de não poder viajar ou sair de casa. Mas idade provecta é idade de ficar em casa mesmo. Principalmente quando lei alguma impede a entrada de bons vinhos e champanhes, boa trufa e bom caviar.

Cada vez que comento esta malandragem perfeitamente aceita nos tribunais, não resisto a citar Swift, que já no século XVIII via este recurso tão usual no século XXI. Em As Viagens de Gulliver, escreve o deão, a propósito da hipotética disputa de uma vaca:

- Ao defender uma causa,os advogados evitam cuidadosamente entrar no mérito da questão. Mas são estrondosos, violentos e enfadonhos no discorrer sobre todas as circunstâncias que não vêm a pêlo. Por exemplo, no sobredito caso, não querem saber quais ou direitos ou títulos que tem o meu adversário à minha vaca, mas se a dita vaca era vermelha ou preta, se tinha os chifres curtos ou compridos, se o campo em que eu a apascentava era redondo ou quadrado, se era ordenhada dentro ou fora da casa, a que doenças estava sujeita, e assim por diante. Depois disso, consultam os precedentes, adiam a causa de tempos a tempos e chegam, dez, vinte ou trinta anos depois, a uma conclusão qualquer. (...) por maneira que são precisos trinta anos para decidir se o campo, que me legaram há seis gerações os meus antepassados, pertence a mim ou pertence a um estranho que mora a seis milhas de distância.

Enquanto isso, o ex-motorista e ex-mecânico Marcos Mariano da Silva, 57, conseguiu também na semana passada pensão indenizatória no valor de R$ 1.200 por mês, a partir de junho. A indenização foi concedida pelos dezenove anos em que esteve preso injustamente no Recife, acusado de homicídio. Foi preso por uma questão de homonímia: o criminoso se chamava Marcos Mariano Silva. Neste período, o outro Mariano perdeu sua frota de seis táxis, sua oficina, sua mulher e suas dez filhas. Não bastassem estas perdas todas, perdeu também a visão.

Dezenove anos de vida foram roubados deste pobre coitado, como também sua família e seus olhos. Mariano não teve a chance de ter advogado caro. Luiz Inácio Lula da Silva hoje recebe R$ 4.294 mensais, por ter passado ... 31 dias na cadeia. O investimento do Supremo Apedeuta nada deixa a invejar ao investimento do Lalau e seus comparsas.

Gente fina é outra coisa. Dez, vinte, trinta anos depois..., como diz Swift. Até lá, morreu o Neves. Terão morrido também o Lalau, o Luiz Estevão, o Monteiro de Barros e o Teixeira Ferraz. Morrerão condenados, mas terão vivido até seus últimos dias como passarinhos em gaiolas douradas. É preciso terminar com essa lenda de que o crime não compensa. As novas gerações estão arriscando perder uma velhice confortável, melhor que qualquer aposentadoria, caso continuem a acreditar nessas potocas.

 

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Quarta, 03 Maio 2006 21:00

Aiatolices Ameaçam Europa

De uma amiga de Estocolmo, recebo notícias de que a maior associação de muçulmanos na Suécia está exigindo leis especiais para muçulmanos.

De uma amiga de Estocolmo, recebo notícias de que a maior associação de muçulmanos na Suécia está exigindo leis especiais para muçulmanos. A organização quer, entre outras coisas, que os divórcios entre muçulmanos sejam reconhecidos por um imã, o que seria uma mudança no direito de família sueco. “É função dos imãs decidir se a família continuará a viver junto, diz Mahamoud Aldebe, porta-voz da Sveriges Muslimka Förbund. Ou seja, como no Islã quem decide o divórcio é sempre o macho, as imigrantes muçulmanas podem abandonar qualquer veleidade de abandonar o marido e senhor.

Se na Suécia as leis especiais para muçulmanos estão ainda na fase de exigência, no Reino Unido alguns quesitos já foram conquistados. Uma outra amiga me informa que as prisões inglesas já fornecem aos prisioneiros muçulmanos vasos sanitários especiais, dispostos de forma que o crente não defeque orientado para Meca. O Islã não só invade, como já domina a Europa. Seria interessante que os europeus lessem as obras mestras dos grandes líderes muçulmanos, antes de render-se incondicionalmente às crenças dos imigrantes árabes.

Entre as pérolas de minha biblioteca, tenho uma súmula do Valayaté-Faghih, do Kachfol-Astar e do Towzihol-Masael, os três livros-chave de um escritor que, em 1979, recebeu generoso asilo em terras de França, em cidade nas cercanias de Paris. Traduzindo, pela ordem: O Reino do Erudito, A Chave dos Mistérios e A Explicação dos Problemas. O livro foi publicado em Paris, em 1979, por ocasião do exílio do autor, pelas Éditions Libres-Hallier. Pinço cá e lá algumas reflexões do erudito pensador, principalmente no que diz respeito à higiene pessoal e direito matrimonial:

·No momento de urinar ou defecar, é preciso se agachar de modo a não ficar de frente nem dar as costas para Meca.

·Não é necessário limpar o ânus com três pedras ou três pedaços de pano, uma só pedra ou um só pedaço de pano bastam. Mas, se se o limpa com um osso ou com coisas sagradas como, por exemplo, um papel contendo o nome de Deus, não se pode fazer orações nesse estado.

· É preferível agachar-se num lugar isolado para urinar ou defecar. É igualmente preferível entrar nesse lugar com o pé esquerdo e dele sair com o pé direito. Recomenda-se cobrir a cabeça durante a evacuação e apoiar o peso do corpo no pé esquerdo.

·Durante a evacuação, a pessoa não deve se agachar de cara para o sol ou para a lua, a não ser que cubra o sexo. Para defecar, deve também evitar se agachar exposto ao vento, nos lugares públicos, na porta da casa ou sob uma árvore frutífera. Deve-se igualmente evitar, durante a evacuação, comer, demorar e lavar o ânus com a mão direita. Finalmente, deve-se evitar falar, a menos que se seja forçado, ou se eleve uma prece a Deus.

·A carne de cavalo, de mula e de burro não é recomendável. Fica estritamente proibido o seu consumo se o animal tiver sido sodomizado, quando vivo, por um homem. Nesse caso, é preciso levar o animal para fora da cidade e vendê-lo.

·Quando se comete um ato de sodomia com um boi, um carneiro ou um camelo, a sua urina e os seus excrementos ficam impuros e nem mesmo o seu leite pode ser consumido. Torna-se, pois, necessário matar o animal o mais depressa possível e queimá-lo, fazendo aquele que o sodomizou pagar o preço do animal a seu proprietário.

·Onze coisas são impuras: a urina, os excrementos, o esperma, as ossadas, o sangue, o cão, o porco, o homem e a mulher não-muçulmanos, o vinho, a cerveja, o suor do camelo comedor de porcarias.

·O vinho e todas as outras cervejas que embriagam são impuros, mas o ópio e o haxixe não o são.

·O homem que ejaculou após ter tido relações com uma mulher que não é sua e que de novo ejaculou ao ter relações com a legítima esposa, não tem o direito de fazer orações se estiver suado; mas, se primeiro tiver tido relações com a sua mulher legítima e depois com uma mulher ilegítima, poderá fazer as suas orações mesmo se estiver suado.

·Por ocasião do coito, se o pênis penetrar na vagina da mulher ou no ânus do homem completamente, ou até o anel da circuncisão, as duas pessoas ficarão impuras, mesmo sendo impúberes, e deverão fazer as suas abluções.

·No caso de o homem - que Deus o guarde disso! - fornicar com animal e ejacular, a ablução será necessária.

·Durante a menstruação da mulher, é preferível o homem evitar o coito, mesmo que não penetre completamente - ou seja, até o anel da circuncisão - e que não ejacule. É igualmente desaconselhável sodomizá-la.

·Dividindo o número de dias da menstruação da mulher por três, o marido que mantiver relações durante os dois primeiros dias deverá pagar o equivalente a 18 nokhod (três gramas) de ouro aos pobres; se tiver relações sexuais durante o terceiro e quarto dias, o eqüivalente a 9 nokhod e, nos dois últimos dias, o eqüivalente a 4½ nokhod.

·Sodomizar uma mulher menstruada não torna necessários esses pagamentos.

·Se o homem tiver relações sexuais com a sua mulher durante três períodos menstruais, deverá pagar o eqüivalente em ouro a 31½ nokhod. Caso o preço tiver se alterado entre o momento do coito e o do pagamento, deverá ser tomado como base o preço vigente no dia do pagamento.

·De duas maneiras a mulher poderá pertencer legalmente a um homem: pelo casamento contínuo e pelo casamento temporário. No primeiro, não é necessário precisar a duração do casamento. No segundo, deve-se indicar, por exemplo, se a duração será de uma hora, de um dia, de um mês, de um ano ou mais.

·Enquanto o homem e a mulher não estiverem casados, não terão o direito de se olhar.

·É proibido casar com a mãe, com a irmã ou com a sogra,

·O homem que cometeu adultério com a sua tia não deve casar com as filhas dela, isto é, como suas primas-irmãs.

·Se o homem que casou com uma prima-irmã cometer adultério com a mãe dela, o casamento não será anulado.

·Se o homem sodomizar o filho, o irmão ou o pai de sua esposa após o casamento, este permanece válido.

·O marido deve ter relações com a esposa pelo menos uma vez em cada quatro meses.

·Se, por motivos médicos, um homem ou uma mulher forem obrigados a olhar as partes genitais de outrem, deverão fazê-lo indiretamente, através de um espelho, salvo em caso de força maior.

·É aconselhável ter pressa em casar uma filha púbere. Um dos motivos de regozijo do homem está em que sua filha não tenha as primeiras regras na casa paterna, e sim na casa do marido.

·A mulher que tiver nove anos completos ou que ainda não tiver chegado à menopausa deverá esperar três períodos de regras após o divórcio para poder voltar a casar.

·Qualquer comércio de objetos de prazer, como os instrumentos musicais, por menores que sejam, é estritamente proibido.

·É proibido olhar para uma mulher que não a sua, para um animal ou uma estátua de maneira sensual ou lúbrica.

O autor destes eruditos preceitos não é nenhum doente mental - ou pelo menos assim não foi oficialmente considerado - nem, pelo que me conste, esteve algum dia sob camisa de força. Ao contrário, foi líder respeitado pelas esquerdas internacionais e um dos chefes de Estado que mais freqüentou as primeiras páginas da imprensa internacional no final do século passado. Do alto de sua sabedoria e humanismo, o grande estadista ousou reptar as potências e não há hoje cerimônia oficial no Irã em que sua imagem não sobrepaire acima das autoridades. Seus despojos estão hoje abrigados em um templo mil-e-uma-noitesco em Teerã, que atrai milhões de peregrinos. O autor de tão doutas prescrições é nada menos que o aiatolá Ruhollah Khomeiny. Excertos destas suas três obras foram publicadas em vários países, no Brasil inclusive, onde teve três edições, sob o título genérico de O Livro verde dos Princípios Políticos, Filosóficos, Sociais e Religiosos do Aiatolá Khomeini, Rio, Editora Record. As edições não têm data, mas creio serem dos anos 80.

Allah-u-Akbar!

Terça, 25 Abril 2006 21:00

Voltas às Trevas

Ao que tudo indica, estamos voltando à caça às bruxas e às trevas da Idade Média. Universitários, que constituem as futuras elites da nação, violaram a privacidade de uma colega e a agridem como a uma criminosa.

Há quase meio século, mais precisamente em 1958, Louis Malle dirigiu Os Amantes, filme que passou a ser conhecido por uma única cena, quando o personagem masculino descia os lábios pelo ventre da Jeanne Moureau. A cena terminava aí. Ao ser exibido em Porto Alegre, já nos anos 60, um grupo de espectadores criou a Turma do Apito. No momento da cena, a turma apitava em protesto ao gesto abominável. Isso que a câmera não descia além do umbigo! A Turma do Apito, talvez intuindo o próprio ridículo, se manteve sempre no anonimato. Soube-se mais tarde que era liderada por um ilustre jurista, o Dr. Rui Cirne Lima, diretor da Faculdade de Direito da URGS. Na época, apesar de séculos de literatura fescenina, sexo oral era tabu. Um criminalista como Washington de Barros Monteiro, por exemplo, em seus comentários ao Código Penal, falava do “asco indizível da felatio in ore”. Se bem me lembro de minhas aulas de Direito, ele também afirmava que “mesmo no tálamo conjugal, a esposa guarda resquícios de pudor”. Assim falavam os juristas há meio século.

Alguns anos depois, la Moureau novamente mexia com a moral vigente, com Jules et Jim, filme de François Truffaut, onde a personagem central, Catherine, vivia um tranqüilo triângulo com dois amigos, o Jules e o Jim do título. O ano de feitura do filme, 1962, é emblemático, foi quando chegou a pílula anticoncepcional no Brasil. O filme terá chegado alguns mais tarde, quando já se respirava melhor em termos de costumes. O idílico romance de Catherine – ambientado em Paris, em 1912, antes da primeira guerra – foi recebido sem escândalos e saudado como um hino à vida e ao prazer, que celebrava a amizade e a ternura.

Em 65, Luchino Visconti deu mais uma sacudida nas já complacentes estruturas do que então se chamava de família burguesa. Com Vagas Estrelas da Ursa, o conde cineasta abordava o incesto entre irmãos. A transgressão foi tranqüilamente absorvida. Que mais não fosse, não era fácil ter uma irmã como la Cardinale. Em 1968, Pier Paolo Pasolini faz mais uma investida contra a fortaleza assediada. Em Teorema, um estranho se hospeda na mansão do dono de uma fábrica e seduz a mãe, o pai, a filha, o filho e nem a empregada consegue escapar de seu fascínio. Em 71, Visconti ataca de novo com A Morte em Veneza, onde narra a paixão senil do compositor Gustav Von Aschenbach pelo belo e quase imberbe Tadzio. O filme era baseado no livro homônimo de Thomas Mann, de 1912, mesmo ano em que se situa a trama de Jules et Jim. Em 76, Nagisha Oshima mostra, em O Império dos Sentidos – com direito a detalhes – o que Louis Malle apenas insinuara em Os Amantes. Proibido no Japão, o filme muito deve ter contribuído para a indústria turística... francesa. Excursões de japoneses - e japonesas, principalmente - invadiam Paris para ver o filme de Oshima. Eu o assisti em uma sala da Champs Élysées, em meio aos risos histéricos dos japas. Não que o filme fosse divertido. Rir, no Japão, é uma forma de expressar nervosismo.

No Ocidente, respirava-se bastante bem naqueles dias. Estes filmes não provocaram escândalo, mas apenas o burburinho que um bom filme provocava então. A família não morreu, como temiam os puritanos da época. Apenas tornou-se mais aberta ao prazer. As esposas haviam perdido seus resquícios de pudor no tálamo conjugal, como diziam os juristas. Naqueles tempos, ter um filho homossexual era uma desgraça. Hoje, um pai ou mãe respiram aliviados se o filho não tem Aids.

Os universitários de hoje talvez nem saibam mais quem foi Hermann Hesse. Autores fundamentais desaparecem dos catálogos da livrarias. Hoje, para encontrá-los, só fuçando em sebos. Nos dias de minhas universidades, o escritor alemão foi uma espécie de guru. Para aqueles em fuga para o Oriente, Sidarta. Para os que queriam o melhor do Ocidente, O Lobo da Estepe. Para quem preferia especulações metafísicas, O Jogo das Pérolas de Vidro.

Harry Haller, o personagem central de O Lobo da Estepe, em princípio nada tem de atraente. É um pacato burguês que vive enclausurado em uma rotina absoluta. Lá pelas tantas, encontra um teatro "só para loucos” e sua vida se transforma. O romance começa a tornar-se interessante. Hermínia, Maria e Pablo o conduzem a uma outra vida e Harry Haller aprende a dançar, passa a conhecer o universo feminino e o mundo dos bares e restaurantes. O lobo arisco e solitário se torna bicho humano.

Uma pequena frase de Hesse foi uma bandeira para minha geração. Lá pelas tantas, Haller se interessa por "alegres jogos amorosos em três ou quatro". Na época se lia muito Henry Miller - outro desaparecido dos catálogos - e em Paris os échangistes estavam em alta. Recém se havia descoberto a pílula e a Aids ainda não despontara no horizonte. Foi um interregno - como direi? - paradisíaco. Haller dava vazão à sua sensualidade adormecida por séculos de moral cristã. Hesse nos apontava um rumo, o do prazer sem peias. Em verdade, não era o primeiro a desfraldar esta bandeira. Nem seria o último.

Avanço cinco décadas após Os Amantes e a Turma do Apito. Isto é, meio século. Estamos em 2006. Uma universitária de 24 anos, estudante de Direito em Marília, no interior de São Paulo, teve de ser retirada de dentro da sala de aula pela Polícia Militar, por motivo de segurança, depois que fotos íntimas dela foram divulgadas na internet. A moça, que certamente jamais leu Herman Hesse, teria se entregado a um alegre folguedo em três. Àquele mesmo folguedo que em Jules et Jim nos soava a saudável utopia. A moça nega, diz que tudo foi montagem. Segundo o delegado Valter Bettio, responsável pelo inquérito, no depoimento a estudante disse que as roupas, acessórios e calçados que aparecem nas fotos não são dela, assim como o corpo é diferente do seu. Isto não importa. O que importa é a reação de seus colegas.

Ao chegar à faculdade onde estuda, foi ameaçada por alunos de vários cursos. Com ofensas e gritaria, os bravos guardiões da moral cristã formaram grupos do lado de fora da sala de aula onde ela estudava. Um dos professores trancou a moça na sala para protegê-la e chamou a polícia. Os PMs foram obrigados a usar gás de pimenta para desfazer o tumulto e retirar a garota da faculdade. É o que contam os jornais.

A universidade já foi arejada. Os tempos passados, também. Ao que tudo indica, estamos voltando à caça às bruxas e às trevas da Idade Média. Universitários, que constituem as futuras elites da nação, violaram a privacidade de uma colega e a agridem como a uma criminosa. Pior ainda, universitários de Direito, justo os que por ofício deveriam proteger a privacidade dos cidadãos. Como se uma boa partouse fosse prática tipificada como crime em nosso Código Penal. O ódio ao prazer, que havia sido conjurado nos anos 60, volta a imperar. Que se pode esperar no futuro desses brutos que pretendem proibir a uma menina a livre fruição de seu corpo?

Fosse um universitário flagrado com duas meninas, seria saudado como campeão. No Brasil, ao contrário da lei de Lavoisier, se nada se cria, tudo se perde e nada se transforma.

Domingo, 16 Abril 2006 21:00

O Supremo Apedeuta

O que melhor demonstra a ausência de escrúpulo dos petistas é o fato de, sendo composto majoritariamente por universitários, ter escolhido como líder um operário analfabeto. A escolha não é gratuita.

Estamos vivendo dias de madalenas arrependidas. Os jornais têm as páginas tomadas por críticos ferrenhos do PT. Olhamos suas biografias e... surpresa! São membros fundadores do PT, ativistas cujas barbas embranqueceram na militância, políticos que foram eleitos pela legenda do PT. Os ratos estão dando no pé, sinal inequívoco de que o barco está afundando. Que o diga a revista Veja, que na edição desta semana faz uma verdadeira necropsia do Partido dos Trabalhadores, aquele que se julgava o único portador autorizada da bandeira da ética.

- É que o partido, ao tomar o poder, mudou – gemem as madalenas. Mudou coisa nenhuma. Desde suas origens abrangeu um vasto leque de salafrários, que vai desde piedosos católicos a trotskistas, passando por marxistas soviéticos, maoístas, polpotistas, castristas, enfim, o rebotalho todo do século passado. A união de celerados de tão diferente extração só podia ocorrer em função de um objetivo único, a posse do poder. Eles chegaram lá. Encurralados, hoje não se pejam de acionar a máquina colossal do Estado para esmagar um coitado, que teve a desgraça de ser testemunha das reuniões da Máfia petista. O PT chegou ao poder e tudo fará para não largá-lo.

- Fomos enganados – lamuriam-se as carpideiras. Foram porque quiseram ser enganados. Votaram em um desqualificado, que passou boa parte de sua vida sustentado por um empresário, que como paga recebia favores das prefeituras petistas. Ninguém ignorava isto. Ninguém ignorava que o candidato à Suprema Magistratura da nação morava em uma cobertura, sem ter condições para tanto. Todos os eleitores de Lula fizeram ouvidos moucos às denúncias que salpicavam as páginas dos jornais. O resultado aí está: antes de terminar seu primeiro mandato, o Supremo Mandatário está indiciado como chefe de uma quadrilha jamais vista na História do país, a quadrilha do PT. A denúncia do procurador-geral da República pode não citar Lula nominalmente. Mas o indica em todas suas páginas.

Eu não fui enganado. Antes de o PT existir, eu já o denunciava. Explico. Em meus dias de jornalista em Porto Alegre, em meados dos anos 70, dediquei não poucas linhas a comunistas como Marco Aurélio Garcia, Luís Fernando Verissimo, Pila Vares, Flávio Koutzi, Tarso Genro. O que escrevi contra este último senhor daria uma pequena antologia. Em 80, como bons comunistas sedentos de poder, eles se aglutinaram no sedizente Partido dos Trabalhadores. Salvo engano, fui pioneiro nas denúncias contra o partido quadrilheiro. A serpente, eu a denunciei ainda no ovo.

Há outras madalenas carpindo cadáveres, que não as petistas.  São pessoas de minha geração que hoje atacam o marxismo com fúria. Basta uma olhadela em suas biografias e lá está: eram aguerridos militantes do Partido. Ocorre que pessoa de minha idade, se um dia foi comunista, não pode alegar que se enganou. As primeiras denúncias da tirania soviética surgiram em 1929, com Panaïti Istrati. Continuaram nos anos 30, com Koestler, Orwell, Camus, Gide, Sábato, Ignazio Silone, Richard Wright, Louis Fischer, Stephen Spender e outros tantos, que foram imediatamente denunciados pelos comunistas como agentes do imperialismo. A denúncia maior ocorreu em 1949, com a affaire Kravchenko. Em 1956, há precisos 50 anos, tivemos o relatório Kruschev. Donde concluímos que os comunistas de minha idade, em suas juventudes foram pessoas cegas ao óbvio ou agiram com dolo. Outra hipótese não há.

Em meus 15 ou 16 anos, tendo recém abandonado o catolicismo, fui cercado por comunistas, que queriam ganhar o ex-crente para a causa. Puseram em minhas mãos um novo catecismo, o Curso de Filosofia – Princípios Fundamentais, de Georges Politzer. Em verdade, com filosofia nada tinha a ver, era um manual de marxismo. Nele vi uma doutrina filosoficamente muito tosca e naqueles dias mesmo recusei a doutrina. Só mais tarde fui tomar conhecimento das denúncias que acima citei. De qualquer forma, já estava vacinado.

Volto ao PT. O que melhor demonstra a ausência de escrúpulo dos petistas é o fato de, sendo composto majoritariamente por universitários, ter escolhido como líder um operário analfabeto. A escolha não é gratuita. Desde fins do século XIX vinha sendo criado o mito de uma classe operária redentora. Mitos são fortes. Os europeus sempre gostaram da idéia de um operário no poder. Longe deles, é claro. bas! Na América Latina, por exemplo. E manifestaram entusiasmo com a candidatura de Lula. Povos distantes são sempre ótimos laboratórios para experimentos sociais.

O sumo analfabeto, com o apoio da Igreja Católica e da universidade, acabou sendo eleito. No ano mesmo de sua eleição, em crônica intitulada “Eu sou o que sou”, publicada no BagueteDiário, jornal eletrônico de Porto Alegre (29/03/2002), pareceu-me oportuno qualificá-lo como apedeuta: “Até hoje as esquerdas são pródigas em contar piadas sobre a falta de cultura de Costa e Silva. Mas Costa e Silva fez Escola Militar, cujo acesso não é para qualquer apedeuta”.

Em 19 de agosto do mesmo ano, no mesmo jornal, na crônica intitulada O neoaparatchik,voltei ao tema: “Existe uma raça de apedeutas que se sentem muito eruditos quando usam proparoxítonas ou quadrissílabos. No debate organizado pela Folha de São Paulo, na segunda feira-passada, ele se superou. Lá pelas tantas, arrotou erudição: ‘Entretanto, há coisas a serem feitas concomitantemente’. Embriagado pelo próprio verbo, feliz pelo heptassílabo, perguntou ao interlocutor: ‘Gostou do concomitantemente?’"

Em 17 de março de 2003, no artigo Armadilha para negros, publicado neste jornal, escrevi: “O atual presidente da República está longe de ser o primeiro apedeuta a assumir o poder neste país. Câmara e Senado estão repletos de analfabetos jurídicos, que nada entendem da confecção de leis nem sabem sequer distinguir lei maior de lei menor”. Na tradução do artigo para o inglês, publicada na revista Brazzil, de Los Angeles, o tradutor teve um feliz achado: First Ignoramus.

Em Fala, ó metamorfose ambulante, publicado também no MSM, em 20 de setembro de 2004, lá está: “Durante solenidade em Brasília, o Supremo Apedeuta disse que ‘o ser humano não tem que ter medo de ser uma eterna metamorfose ambulante’, fazendo referência a um dos sublimes autores que embasam sua erudição”. Na Brazzil, a expressão foi traduzida como Supreme Ignoramus. Se alguém se der ao trabalho de pesquisar nos arquivos do MSM, verá que, de 2003 para cá, escrevi pelo menos 21 crônicas, onde uso as expressões apedeuta ou Supremo Apedeuta.

Em suma, para meu prazer, a expressão foi fazendo fortuna na mídia eletrônica. Tanto o Supremo Apedeuta como o Supreme Ignoramus. Nada lisonjeia tanto um jornalista como ver seus achados correndo mundo. Outro dia, lendo ao azar a revista Primeira Leitura, vi que um jornalista tucano chapa-branca a empregava várias vezes. Maravilha, pensei, minha trouvaille já é de conhecimento dos partidos de oposição. Ocorre que, conversando com outros jornalistas, fiquei sabendo que o autor do artigo está reivindicando a autoria da expressão.

Alto lá, senhor Reinaldo Azevedo. Supremo Apedeuta é cria minha, e isto qualquer pesquisa rápida no Google pode comprovar. Use e abuse da expressão, quantas vezes quiser, divulgue-a aos quatro ventos, isto só me faz feliz. Mas não pretenda tê-la criado. Isto é muito feio para um jornalista. Ou, para usarmos uma palavra da moda, é antiético. E não fica bem para o porta-voz de um partido que pretende dar um banho de ética no partido que se dizia dono da ética tomar atitudes assim antiéticas.

O Supremo Apedeuta é meu.

Terça, 11 Abril 2006 21:00

Quem Traiu Quem?

Na esteira de bestsellers tipo "O Código da Vinci", os jornais do mundo todo estão anunciando uma suposta novidade, a de que Judas teria um papel fundamental na lenda cristã da História da Salvação.

Justo no dia em que opresidente da CPI dos Correios, o senador petista Delcídio Amaral entrou com duas representações contra o deputado, também petista, Jorge Bittar, por ter sido chamado de Judas e traidor, entre outras delicadezas, as agências internacionais anunciaram a publicação, nos Estados Unidos, da tradução de mais um evangelho apócrifo, denominado O Evangelho de Judas. O texto original teria sido escrito há 17 séculos e está em copta, língua falada pelos egípcios no começo da era cristã. Segundo um dos especialistas que examinam o documento, ele seria por sua vez tradução de um original grego da metade do século II D.C.

Na esteira de bestsellers tipo O Código da Vinci, os jornais do mundo todo estão anunciando uma suposta novidade, a de que Judas teria um papel fundamental na lenda cristã da História da Salvação. Digo suposta novidade, pois todo leitor atento dos Evangelhos percebe que, sem Judas,  nem a crucificação nem o suposto sacrifício do Cristo pela redenção dos pecadores teriam sentido. Sacrifício que, aliás, a parte interessada – os pecadores – jamais pediu. Pode-se até falar em traidor, mas a traição era imprescindível no projeto divino.

Segundo o recém-traduzido evangelho, enquanto os outros apóstolos são retratados como obtusos e incapazes de compreender o sacrifício de Cristo, Judas recebe instruções secretas e a ordem para trair Jesus. "Mas a todos excederás. Porque tu sacrificarás o homem que me reveste", diz Cristo no texto. Se Judas recebeu ordens do deus emergente para traí-lo e as cumpriu, não mais podemos considerá-lo como traidor e sim como santo. A representação do senador Delcídio, pelo menos no que a Judas se refere, fica prejudicada. Mais apropriado seria conferir a comenda a Delúbio Soares, que exercia junto ao PT a mesma função de Judas junto aos apóstolos, a de tesoureiro. E que, segundo João, roubava a caixa comum.

A idéia de Judas como santo não era estranha aos homens do medievo. Em 1387, o inquisidor Nicolas Eymeric pediu a cabeça de São Vicente Ferrer, por este ter afirmado que o arrependimento de Judas fora sincero e salutar. Como, devido à multidão, não pudera se aproximar de Cristo para pedir seu perdão, teria se enforcado e obtido, no Céu, a remissão de seus pecados. São Vicente só não foi para a fogueira por ter a proteção de Pedro de Luna, então cardeal de Aragon. Em 1394, uma vez eleito papa, sob o nome de Bento XIII, Pedro de Luna exigiu de Eymeric a entrega do dossiê e o queimou sem mais cerimônias. Por vias outras que não o arrependimento, Judas começa a fazer carreira como eleito do Senhor.

Nestes dias da Paixão, convido o leitor a apreciar a prata de casa. Judas, traidor ou traído (1968, Gráfica Record Editora, Rio) é um desses raros estudos bíblicos de valor de autoria de um brasileiro. Seu autor, Danillo Nunes, cidadão de Santa Maria (RS) não é nenhum teólogo ou historiador de religiões. Foi ministro do Tribunal de Contas, general-de-divisão R1 e professor de História Militar, Blindados e Tática Geral na Escola de Estado-Maior do Exército. Segundo o autor, se houve um traidor naqueles dias dramáticos, este não foi Judas. E se houve algum herói, este não foi o Cristo.

Diz Lucas (22:22): “Porque, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!” Para Danillo Nunes, fica claro nesta sentença contraditória, que Judas é um instrumento da vontade divina. Muito antes da tradução do Evangelho de Judas, este versículo não deixa “a quem é cristão outra alternativa senão a de considerar que Judas, cumprindo seu destino por desígnio de Deus, contribuiu com seu gesto para a glória de Jesus, o Cristo”.

O autor nos mostra um Judas gradativamente decepcionado com o Cristo. Começa quando, na segunda-feira, 11 do Nisã, Cristo expulsa os camelôs do templo e instiga os mendigos ao saque generalizado. Para Judas, Cristo passou a ser um mistificador que se apresentava como Messias, um homem perigoso que incitava os miseráveis ao motim e à baderna e os deixava entregues à própria sorte. Sua conduta atrasaria de muito o irromper da Revolução, pois não só desencantaria as massas populares, que não mais creriam nele, como acenderia a desconfiança da classe dirigente, pronta, a partir daquele momento, a reprimir qualquer veleidade de insurreição.

Ao fugir para Betânia com os seus, Cristo teve uma frase infeliz: “Vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não será deixada aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada”. Segundo Mateus, duas testemunhas assim depuseram: “Este disse: - Posso destruir o Templo de Deus e reedificá-lo em três dias”. É possível que o Cristo estivesse usando uma linguagem metafórica, escreve Nunes. Mas Judas interpretou a afirmação do Mestre em seu sentido literal e horrorizou-se, porque constituía imperdoável blasfêmia. Nunes lembra que Estevão, ao ser julgado pelo Sinédrio, dezoito dias após a crucificação do Cristo, atacou o Templo e o culto que nele celebravam. A indignação foi tão grande que a multidão o arrebatou e o levou para fora da cidade, matando-o a pedradas (Atos 7:54,60). A ofensa do Cristo fora bem mais grave.

A gota d’água para Judas seria o momento em que Cristo, interrogado se era ou não lícito pagar tributos a César, diz: “Daí, pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Ora, o que o povo mais odiava era a obrigação de pagamentos de impostos aos imperadores romanos. Não somente por serem extorsivos e permitirem os maiores abusos por parte dos publicanos, mas ainda por representarem o símbolo da escravização de Israel. Ao reconhecer a validade do imposto a César, Jesus se tornava um colaboracionista. Neste momento, Judas teria tomado sua resolução. Seu rompimento com o Cristo estava consumado.

Observemos a cronologia. Na segunda-feira, 11 do Nisã, Cristo havia bagunçado o Templo. Na terça-feira, 12, ocorre o episódio dos tributos a César. Dia seguinte, quarta-feira, 13 do Nisã, Judas se oferece para entregar o Mestre. O imaginário popular pretende que Judas teria entregue o Cristo por trinta dinheiros. Não é verdade. Marcos relata que Judas “foi ter com os principais sacerdotes para lhes entregar Jesus e eles, ouvindo-o, alegraram-se e prometeram-lhe dinheiro”.  A motivação inicial de Judas era outra que não dinheiro.

Por outro lado, o famoso beijo de Judas não teria a intenção de indicar o Cristo. Não seria difícil para os romanos reconhecerem quem havia depredado o Templo poucos dias atrás. O beijo seria para determinar o melhor momento para prender o Cristo sem provocar revolta popular. Judas era zelota, facção de nacionalismo extremado. Segundo Danillo Nunes, aos olhos de Judas, Cristo não passava de um embusteiro que, em nome de Deus, percorrera a Palestina arregimentando o povo para um levante, despertando na massa humilde a esperança, para depois desertar, deixando-a mergulhada na frustração. O inútil motim do 11 de Nizã, no Átrio dos Gentios, do qual resultara um massacre popular, trouxera descrédito à causa nacionalista. As heresias pronunciadas contra o Templo, de que poderia destruí-lo e reerguê-lo em três dias,  mostravam o Cristo como um louco ou elemento perigoso. E o reconhecimento expresso de que os romanos tinham o direito de cobrar impostos, revelavam-no um traidor. Jesus – como disse Jacques Isorni, em LeVrai Procès de Jésus – não seria um patriota, mas um apátrida de raça judia.

Para o autor, o gesto de Judas foi consciente. Quis não só punir Jesus por julgá-lo culpado de impostura, mas porque o julgava prejudicial à causa nacionalista. Se Cristo não tivesse sido condenado, provavelmente Judas o teria matado. Se conhecesse o juízo milenar e unânime da posteridade a seu respeito – conclui Danillo Nunes – quem sabe, tomado de horror, não exclamaria:

- Meu Deus, eles julgam-me um traidor!

Terça, 04 Abril 2006 21:00

1o. de Abril

Dia dos bobos, espécimes que proliferam cada vez mais aceleradamente no Brasil. Nas últimas eleições, já eram 53 milhões.

Há turistas e turistas. Eu, que já residi bom tempo na Europa, não resisto a turismos ocasionais. Turismo é bom. As preocupações de um turista são o terrível dilema de em qual restaurante comer, qual ópera assistir, qual museu visitar e assim por diante. Ao voltar, volta com uma visão idílica do país visitado. Já o residente tem outros problemas, tipo encontrar apartamento para alugar, pagar taxas inerentes à residência, renovar visto de residente na polícia, enfim, uma série de pequenos aborrecimentos dos quais o turista está isento. A visão do residente sobre o país em que reside é sempre menos deslumbrada que a do turista do país em que visita. Residir tem seus desconfortos.

Morei na Europa e também fiz muito turismo por lá. Em geral, conciliando passeio com trabalho. Nos últimos anos, tenho me dado ao luxo de passear sem trabalhar. Já fui pago por Estados e instituições, sempre estrangeiras, insisto em salientar, pois do Brasil jamais recebi um vintém. Se já viajei como jornalista, bolsista ou convidado de colóquios ou festivais, hoje pago minhas viagens com meus dinheiros. Quando fui à Rússia em 2001, a agência de turismo com a qual negociava ofereceu-me vôos espaciais. Nada de estações orbitais, bem entendido, mas eu poderia dar-me ao luxo de “pilotar” MIGs (23, 25 ou 29, à minha escolha) ou de experimentar as sensações de gravidade zero, por vinte minutos, tudo isso por módicos 15 ou 20 mil dólares. Decolando de Baikonur. Com sua indústria espacial estagnada, a ex-todo poderosa Rússia resolveu reciclar em turismo sua sucata tecnológica.

Declinei da oferta. Quinze ou 20 mil dólares me parecem muita grana para meia hora de lazer. Não pensa o mesmo o governo brasileiro, ao pagar dez milhões de dólares para mandar um garoto-propaganda ao espaço. O coronel Marcos César Pontes, nova estrela de uma mídia deslumbrada com futilidades, ficará oito dias em órbita. Ou seja, 1,25 milhão de dólares por dia de hospedagem. Confesso que jamais me ocorreu reservar hotel tão caro. Primeiro, porque não teria como pagar nem mesmo um dia. Se convidado fosse pelo rico e generoso Estado brasileiro, sentir-me-ia constrangido ao contemplar, em órbita, o traçado das favelas que o rico e generoso Estado brasileiro não consegue coibir e nem mesmo controlar. A título de comparação, uma noite no Burj Al Arab, no Dubai, talvez o hotel mais sofisticado do mundo, está custando a bagatela de 1.325 dólares. O Brasil está pagando, aproximadamente, mais de 7.500 noites num Burj Al Arab ao coronel Pontes.

Há quem tenha vaidade suficiente para tanto. Dois milionários, o americano Dennis Tito e o sul-africano Mark Shuttleworth, desembolsaram 20 milhões de dólares cada um à Agência Espacial Russa para passar uma semana em órbita. Com duas ou três diferenças. Pagaram de seu próprio bolso, sem onerar seus Estados. Não serviram de garotos-propaganda para presidentes com ambições de reeleição. Nem voltaram como heróis. Apenas como milionários extravagantes, cuja fortuna lhes permitia tais luxos.

A velha Rússia comunista revelou-se exímia na busca de dinheiro privado para suas aventuras espaciais. Em 2000, da mesma Baikonur de onde decolou o coronel Pontes, subiu ao espaço uma Soyuz com propaganda de uma rede de pizzarias e usou seus cosmonautas – russo não é astronauta, é cosmonauta – para divulgar máquinas fotográficas. Mas tampouco recusa dinheiro público, preferentemente se não sair do falido Estado russo. O Brasil, esta esplêndida e próspera nação governada pelo PT, teve um desconto de camarada para camarada.

O tour – que poderia muito bem se chamar Cosmos Maravilhoso – ficou pela metade do preço, mas a Rússia levou um troco de não se jogar fora, a utilização da base de Alcântara para lançamentos espaciais. Cientistas que trabalham na incipiente indústria espacial brasileira estão estrilando, e com razão. Os dez milhões de dólares que seriam muito oportunos à pesquisa, estão sendo volatilizados para que o novo “herói” da pátria amada faça um aceno eleitoral ao Supremo Apedeuta da nação. Ora, direis, se o governo paga, que mal tem? Ocorre que governo não paga nada. Quem paga é o contribuinte.

Pontes voltará às terras de Pindorama como astronauta e herói. Não é nenhum dos dois. Ser astronauta é profissão, não turismo financiado por contribuintes. Astronauta é quem fica seis meses em órbita, com todos os riscos de vida e saúde inerentes à prolongada exposição à gravidade zero. O turista tupiniquim curtirá as emoções da viagem. Voltará com uma visão idílica do espaço. Dos desconfortos do residir, nem pensar.

Herói muito menos, ou teríamos de conferir o título a todo turista. (A imprensa brasileira tem fome de heróis. Até uma cadela, a Catita, já foi entronizada como heroína). A melhor definição para nosso subsidiado passageiro vem da ficção científica. Está mais para alien. Pegou carona numa nave de outra civilização, invadiu uma estação orbital sem ter porquê e logo será ejetado para não atrapalhar a vida a bordo.

Assim, leitor, quando assistir às imagens do coronel Pontes em gravidade zero, sinta também os dólares decolando de seu bolso rumo ao espaço sideral para financiar este turismo estúpido, que só serve para inflar a vaidade fátua de um país que não consegue mandar ao espaço e trazer de volta viva nem mesmo uma pulga. Mas astronauta nós já temos.

Quiseram os deuses do Acaso que nosso privilegiado turista espacial entrasse na estação orbital em uma data emblemática: 1° de abril. Dia dos bobos, espécimes que proliferam cada vez mais aceleradamente no Brasil. Nas últimas eleições, já eram 53 milhões.

Quinta, 30 Março 2006 21:00

Che Ressuscita do Lixo

Já não basta termos de ver na televisão uma deputada dançando para saudar a vitória da corrupção, já não basta vermos o Estado petista assestando toda sua máquina contra um pobre caseiro, temos ainda de consumir gato por lebre e engolir as mentiras piedosas de stalinistas instalados em distribuidoras de filmes.

Em fevereiro de 2004, comentei Adeus, Lênin, este belo filme de Wolfgang Becker,  raridade nestes dias de salas inundadas por bestsellers para consumo de pobres de espírito. O drama gira em torno de uma cidadã da antiga Berlim Oriental, que caiu em coma um pouco antes da queda do Muro. Só sai do coma alguns meses depois, quando Berlim é uma cidade só. Para evitar que a mãe tenha algum infarto com a nova realidade, seu filho remonta o apartamento com os trastes da era socialista, que nesta altura já haviam sido jogados a um depósito. Toma o cuidado de fechar janelas e eliminar rádio e televisão. Dada a insistência da mãe em ter um aparelho de TV, o rapaz passa a produzir noticiários com um amigo cineasta, no melhor estilo da finada Alemanha Oriental. Ele produz uma RDA que não mais existe, para consumo da mãe em convalescença.

Um rápido detalhe, talvez despercebido aos olhos de muitos, mexeu comigo na ocasião: entre os trastes da era antiga, que o filho recupera de um depósito de objetos inúteis para manter a mãe na ilusão de que nada havia mudado, está um pôster do Che Guevara. No filme de Becker, que reproduz uma Alemanha de 1991, Che é ícone jogado ao lixo. Neste nosso país incrível, justo naqueles dias em que eu escrevia a crônica – isto é, treze anos após a queda do Muro – estava sendo ultimado Diários da Motocicleta, de Walter Salles, idílico panegírico ao assassino que tem no currículo, entre outros feitos, ter tornado Cuba um dos países mais pobres do continente, que só não é o mais o pobre porque ainda existe o Haiti.

Vi e revi o filme mais duas ou três vezes. Num destes sábados, dia 18 passado, encontrei-o na programação do Telecine. Vou deliciar-me de novo, pensei, com este irônico relato da derrocada da barbárie. Quando acabou o filme, senti uma lacuna em meu prazer. Não havia visto o momento em que o pôster do Che é retirado do lixo. Imaginei que talvez tivesse ido à cozinha ou ao banheiro e perdido a cena. Decidi então rever meu passado recente. Eu havia visto o filho retirando da parede a foto de Honecker, quando o campeão de tiro na nuca renuncia. Havia visto o rapaz repondo na estante um livro de Anna Seghers. Até ali não havia levantado do sofá. A cena do pôster teria de estar antes da chegada da mãe ao apartamento. Não estava. O episódio fora cortado.

Denunciei o fato em meu blog e recebi mensagens de pessoas que também não haviam visto a cena. Leitores incrédulos preferiram rever o filme, que seria reprisado na madrugada de terça-feira, dia 21. Sentei-me de novo ante a telinha e confirmei: a cena de fato fora cortada. Quando a mãe volta, em rápidos fotogramas vê-se o pôster reposto na parede de cabeceira da cama. Che ressurge do lixo, mas a cena em que foi retirado do lixo nos foi subtraída. É como se sempre estivesse estado naquela parede e jamais tivesse sido jogado ao lixo. A direção do Telecine – escrevi então – deve ter julgado a imagem por demais chocante para o público brasileiro.

Leitores que também curtiam o filme me alertaram: haviam-no visto em DVD e nada da cena do pôster no lixo. Para conferir, peguei um DVD na locadora. De fato, o filme estava censurado no próprio DVD. Quem julgou a imagem por demais chocante para o público brasileiro foi a distribuidora. Mas pode o Telecine distribuir um filme mutilado, só para agradar as viúvas do socialismo? A meu ver, tem a obrigação de reprisar, para o público brasileiro, o filme sem cortes.

Em pleno ano da graça de 2006, dezessete anos após a queda do Muro, quinze anos após a dissolução da União Soviética, temos ainda stalinistas de plantão preservando a imagem de um bandoleiro internacional a serviço do comunismo. Da mesma forma que Stalin mutilava fotos, para impor aos povos sua falsificação da História, mais de meio século depois da morte de Stalin temos neste Brasil censores mutilando filmes para salvar a imagem de Guevara. Se o filho da militante produzia uma RDA inexistente para manter sua mãe na ilusão de um mundo socialista, os distribuidores de Adeus, Lênin produzem um filme distinto do filme original, para manter o mito idílico de um apparatchik de gatilho fácil e sem escrúpulos.

Não por acaso, na Bolívia, Guevara é cultuado como San Ernesto de la Higuera. La Higuera é a aldeia onde Che foi preso. Um monumento ao assassino e um memorial na antiga escola são as principais atrações turísticas da área. Depois do filme de Walter Salles, a aldeia passou a fazer parte da "Ruta del Che". Eficaz intermediário entre Deus e os seres humanos, o novo santo já tem operado milagres.

Associada a causas nobres, a imagem do Che pode circular. Na terça-feira passada, 21 de março, está presente na primeira página da Folha de São Paulo, numa foto de alunos de uma escola municipal em Itaquera, São Paulo. Discreto, como convém aos santos, Che está no canto inferior direito da foto, na capa de um caderno escolar. A reportagem sequer fala do guerrilheiro. Apenas denuncia o fato de que a escola está situada acima do forno da padaria de um supermercado. O Che, você engole sem perceber.

Dois dias depois, na quinta-feira, no mesmo jornal, em página interna, uma homenagem mais evidente. Em uma foto de indígenas equatorianos protestando contra as negociações para um tratado de comércio com os EUA, lá está de novo o Che, glorioso, sobressaindo da foto, como que liderando o protesto. Como se o homem que levou um país à miséria econômica tivesse qualquer autoridade para liderar protestos contra tratados comerciais.

Já não basta termos de ver na televisão uma deputada dançando para saudar a vitória da corrupção, já não basta vermos o Estado petista assestando toda sua máquina contra um pobre caseiro, temos ainda de consumir gato por lebre e engolir as mentiras piedosas de stalinistas instalados em distribuidoras de filmes. Nestes dias, quem quiser ver o filme na íntegra, terá de viajar a Paris, Berlim ou Roma. Enfim, a países onde Che já teve o destino que sempre mereceu, a famosa lata de lixo da História. Como fazíamos na época da ditadura militar. Quem podia, viajava à Europa para ver bom cinema. Quem não podia ir à Europa, ia a Montevidéu ou Buenos Aires. Neste sentido, os cidadãos de Santana do Livramento eram privilegiados, bastava atravessar a Calle Internacional e assistir ao filme em Rivera.

Não por acaso, um filme como LaPalombella Rossa, de Nanni Moretti, jamais passou no Brasil. Estava muito perto da queda do Muro, as chagas das viúvas ainda continuavam abertas. EastSide Story, produção alemã de 1997, dirigida por Dana Ranga, cineasta romena que vive em Berlim, saudado pela imprensa americana como um dos melhores da década, passou quase clandestinamente em uma sala no Rio, outra em São Paulo. A crítica, nem um pio. Hoje, a censura é mais sutil. O filme passa. Mas que nenhuma blasfêmia seja feita aos sagrados ícones do hagiológio das esquerdas.

Sábado, 25 Março 2006 21:00

A Prostituição do Mercado Livreiro

O mercado livreiro, desde há muito, prostituiu-se. Cá e lá, restam alguns apóstolos, que inclusive se dão ao luxo de recusar vender lixo.

Você gosta da boa companhia dos livros? Então já terá observado que, nas vitrines e gôndolas das grandes livrarias, não há livro que preste. Você dá de cara com os paulos coelhos da vida, dans browns, harry potters, dalais lamas, livrecos de auto-ajuda, uns explorando o cadáver de Cristo, outros explorando os cadáveres de Platão, Nietzsche ou Schopenhauer, filosofia sucateada, enfim, puro lixo literário. Livro bom, talvez escondido nas estantes e, mesmo assim, olhe lá!

Em reportagem de uma semana atrás, a Folha de São Paulo traz à tona um segredo de polichinelo: as livrarias cobram para exibir livros nas vitrines.  Os preços de um pedaço de vitrine ou de uma pilha de livros em destaque variam, conforme as negociações, de 700 a 2.000 reais, dependendo do local e tempo de exposição. Duas das mais prestigiosas redes livreiras do país, a Cultura e Fnac, confirmaram ao jornal este procedimento. A Folha inclusive relaciona os preços: para as prateleiras que ficam nos corredores, 2.000 reais por dez dias de exposição. Para os cubos de livros montados em lugares estratégicos, 1.300 reais por um mês de exposição. Nas vitrines, 900 reais por quinze dias. Quais editores podem pagar tais preços? Os editores de bestsellers. Não é pois de espantar que você sempre encontre os paulos coelhos da vida, dans browns, harry potters, dalais lamas, livrecos de auto-ajuda, uns explorando o cadáver de Cristo, outros explorando os cadáveres de Platão, Nietzsche ou Schopenhauer.

“Todas, todas (as livrarias) fazem” – diz Ivo Camargo, diretor de vendas da Ediouro –. “A Siciliano faz. Fnac faz. Laselva faz. A  Laselva, inclusive, tem um departamento que cuida só disso. Acho que está certo. Tem que cuidar mesmo”. Ou seja, se você gosta de boa literatura, afaste-se das grandes redes do livro. Sem falar que o conceito que este tipo de livreiro tem do leitor é insultante. Ele considera que o leitor é uma besta quadrada, que compra um livro só porque este livro está bem exposto. O pior é que talvez tenha razão.

A discussão em torno à venda de livros – se é algo que possa se vender como sabonetes ou se é uma mercadoria especial – não é de hoje. Há editores e livreiros que julgam ser o livro uma mercadoria como qualquer outra. Também há os mais raros – se é que ainda existem – que consideram o livro uma mercadoria nobre. O fato é que os mercenários mandam no mercado. Eu, que sempre vivi cercado de livros, hoje tomo distância das grandes livrarias. E se, por necessidade, entro numa delas, a resposta é sempre uma só: o livro que o senhor procura, não temos no momento.

Em meus verdes anos, fui um defensor incondicional de tudo que se referisse a livro, campanhas pela leitura, feiras do livro, tardes de autógrafos. Em meus dias de jornalista em Porto Alegre, sempre incentivei a Feira do Livro, que acontecia na Praça da Alfândega quando os jacarandás começavam a florir. Abandonei Porto Alegre e, ao voltar, a feira tinha crescido. Começaram a surgir os convidados de honra, em geral autores de bestsellers, que nada tinham a ver com literatura. E quando tinham a ver, os freqüentadores da Praça não os procuravam exatamente por suas obras, mas por sua fama.

Em 95, fui convidado a fazer uma palestra na PUC gaúcha, sobre Camilo José Cela. Fui feliz a Porto Alegre, eu havia traduzido A Família de Pascual Duarte e Mazurca para Dois Mortos. O primeiro, a novela mais difundida na Espanha depois do Quixote, o segundo, um passeio pela Galícia espanhola, ao ritmo de uma estranha melodia, só ao alcance de quem curte a música das palavras. Cela, Nobel de 89, receberia um doutorado honoris causa na universidade e eu matava três ou quatro coelhos de uma só cajadada: revia meus amigos, revisitava a feira, conhecia o autor galego e fazia palestra sobre uma literatura que me fascinava.

Assim aconteceu. Mas um episódio empanou meu entusiasmo. Cela deu uma tarde de autógrafos na Feira. Formaram-se filas imensas ante o escritor, que teve de interromper os autógrafos, após duas ou três horas depois, por estar com câimbras nos dedos. Foi quando tive uma triste percepção do universo dos leitores. Aquela multidão toda, que fazia fila como russos diante de um McDonald’s, nem tinha idéia de quem fosse Cela. Estavam ali para receber o autógrafo de um prêmio Nobel. A feira havia transformado um grande autor em uma celebridade qualquer. Alguns anos mais tarde, Paulo Coelho poluiu a Praça da Alfândega. De novo, filas quilométricas. Há um tipo de leitor para quem Coelho ou Cela têm o mesmo peso. São famosos e basta. Não importa o que tenham escrito. Mesmo quando compra um bom livro, este leitor nem sabe o que está comprando.

Existe também o que chamo de perversão da leitura. Conheço não poucas pessoas que lêem com sofreguidão, em grandes doses, pelo tal prazer de ler. Lêem com o mesmo entusiasmo tanto Dostoievski como Danielle Steel, e ao final da leitura fazem tranqüilamente uma sinopse tanto de Crime e Castigo como de O Preço do Amor, não vendo diferença alguma entre uma obra e outra. Este hábito é doença das mais graves. Prazer de ler pelo prazer de ler é uma piada. Leitura é trabalho, e muitas vezes árduo. Mas falava de livros.

Leia a lista dos mais vendidos da Veja. Na liderança dos autores nacionais, ainda há pouco estavam estas sumidades das letras pátrias: Bruna Surfistinha e Danuza Leão. Na área da ficção, entre os dez mais vendidos pelo menos quatro são os Harry Potters da vida. Livros impostos ao leitor por uma publicidade agressiva, mas que nada tem a ver com boa literatura. Assim, por estas e outras razões, desde há muito mantenho distância das Bienais do livro. Não é ambiente dos melhores para um leitor exigente. Quando necessito comprar livros, busco alguma dessas livrarias pequenas, onde a bibliografia não está na memória de um disco rígido, mas na do livreiro.

Há muitos anos, passei em uma bienal. Rebanhos de criancinhas puxados por professoras, filas imensas para receber autógrafos de... Jô Soares, um calor infernal das luminárias, que não convidava ninguém a deter-se em um stand. Multidões zanzando como moscas tontas pelos corredores. Desde há muito cultivo uma filosofia, evitar qualquer coisa onde haja multidões. Naquele dia, fugi à minha filosofia. Só para voltar para casa irritado e de mãos vazias.

Emilio Calil foi à Bienal. O que Calil conta em seu blog só me reconforta: não perdi meu tempo indo até lá. Propaganda comunista, livros religiosos e de auto-ajuda, sempre em evidência. É óbvio que, garimpando, pode-se encontrar coisa boa. A verdade é que tais feiras são um fracasso total, os próprios exibidores admitem que não faturam o suficiente para cobrir o aluguel dos stands. Para que servem então tais eventos? Ao que tudo indica, para satisfazer vaidades e desovar bestsellers. Um livro com a credencial de bem vendido na Bienal tem suas vendas aceleradas.

O mercado livreiro, desde há muito, prostituiu-se. Cá e lá, restam alguns apóstolos, que inclusive se dão ao luxo de recusar vender lixo. Quando vivia em Curitiba, tirei o chapéu para o livreiro Chaim. Naqueles dias, o livro Zélia, uma paixão – fofocas em torno à ministra Zélia Cardoso de Mello – estava vendendo como pão quente. Era lucro certo para qualquer livreiro. Menos para o Chaim: “essa porcaria não entra em minha livraria”.

Seguidamente, leitores me pedem orientação para leituras. Aqui vai uma: afaste-se das feiras mercenárias. Fuja das grandes livrarias. Livro não é sabonete. Busque aquele livreiro que conhece suas exigências e é capaz de dizer: “não compra esse aí, não é bom”. E afaste-se, principalmente, dos “mais vendidos”. Só por milagre você vai encontrar algo que preste nessas listas.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.