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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Quinta, 17 Agosto 2006 21:00

PCC e PT, Mesmo Combate

Não imagine o leitor que estou desejando domingos sangrentos para a cidade. Nada disso. Ocorre que, nesta situação de falência do Estado, o pior que poderia ter acontecido era um domingo sem violência. Isto significa que o pacto entre Estado e criminosos foi consagrado.

Meus temores se confirmaram. O domingo foi calmo em São Paulo. Nenhum ônibus queimado, nada de molotovs em bancos ou prédios públicos, nenhum atentado a policiais. Não imagine o leitor que estou desejando domingos sangrentos para a cidade. Nada disso. Ocorre que, nesta situação de falência do Estado, o pior que poderia ter acontecido era um domingo sem violência. Isto significa que o pacto entre Estado e criminosos foi consagrado. Quando o Ministério Público Estadual pediu à Justiça a não-liberação dos apenados no Dia dos Pais, mais de cem atentados perturbaram a cidade. A Justiça entendeu corretamente a mensagem: liberou todo mundo. O MPE tentou ainda impedir pelo menos a liberação dos criminosos ligados ao PCC (Primeiro Comando da Capital). A Justiça foi além em sua benevolência. Chegou a oferecer tratamento privilegiado em São José do Rio Preto a cinco membros da guerrilha, transportando-os em viaturas policiais e com escolta até o aeroporto. Os cinco clientes VIP do sistema penitenciário sequer se preocuparam em comprar passagens de volta. O PCC agora já sabe como obter boas respostas às suas reivindicações. Basta incendiar algumas dezenas de ônibus, jogar algumas bombas cá e lá e sentar-se à espera dos resultados.

Antes do Dia dos Pais, o governador Cláudio Lembro pediu bom senso aos criminosos, como se tal virtude pudesse existir entre traficantes, assassinos e seqüestradores. “Estou convicto de que eles terão bom senso de se portarem de acordo com a data e de acordo com o momento”. Disse ainda esperar que os detentos pertencentes ao PCC tivessem compreensão com a sociedade e preservassem a integridade de cada um. “Acredito no ser humano. Se não acreditasse, eu estaria mal. Como acredito no ser humano, acredito ser possível que essas pessoas compreendam que há uma sociedade a ser preservada. E que há uma dignidade individual e integridade física de cada um de nós. O respeito à pessoa deve ser também observado por eles”.

A resposta do PCC a tão nobre crença no ser humano foi imediata. No sábado seqüestrou um jornalista e um técnico da rede Globo, para exigir a transmissão de um vídeo. O manifesto brande um discurso de esquerda, faz críticas ao sistema penitenciário, pede um mutirão para revisão de penas, melhores condições carcerárias e se posiciona contra o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado). Parte do texto é uma cópia ipsis litteris de um parecer do governo, assinado pelo criminalista Mariz de Oliveira. PCC e PT, mesmo combate.

Quem o transcreveu deve ser um rábula de quinta categoria, pois troca iluminismo por ilusionismo. No final, o manifesto assume um estilo mais coerente com a bandidagem. “Não queremos e não podemos sermos (sic!) massacrados”. Ou seja, os presidiários se arrogam o direito de estabelecer seu próprio sistema carcerário. Mais um pouco e exigirão ser julgados por seus pares. Visando preservar a vida de seus funcionários, a Globo aceitou retransmitir o vídeo. O PCC agora já sabe como fazer relações públicas. Basta seqüestrar jornalistas e ameaçar matá-los caso suas reivindicações não sejam transmitidas urbi et orbi.

Ao seqüestrar pessoas para forçar a difusão de uma mensagem, o PCC nada mais fez senão seguir a escola das esquerdas, cujos líderes, hoje aboletados no poder, auto-intitulam-se salvadores da nação e gozam de aposentadorias milionárias como recompensa a seus passados criminosos. Talvez ninguém mais lembre, mas Fernando Gabeira, que hoje se destaca como herói sem jaça em meio ao lodaçal do Congresso, foi um dos precursores desta eficiente estratégia. Como reconhecimento de seus notáveis feitos, foi eleito deputado. Não seria de espantar que, em futuro próximo, o erudito Marcola, o homem que teria lido mais de três mil livros, se apresente para disputar junto ao eleitorado o mesmo reconhecimento da nação.

Mal se estabeleceu a relação entre os métodos das esquerdas dos anos 70 e os do PCC, Gabeira foi logo pondo as barbas de molho. “Nós não éramos bandidos” - diz o deputado em entrevista ao Estadão. Ninguém gosta de ser diminuído. Gabeira era um celerado com uma ideologia na cabeça, que alimentava o grandioso projeto de transformar o país numa republiqueta socialista. O PCC nunca sonhou tão alto. Quer apenas alguns privilégios para os seus.

Antes do seqüestro, o Jornal da Tarde havia recebido um e-mail no qual os novos defensores dos direitos humanos protestam contra “a injustiça, abuso de poder, maus tratos, espancamentos e violência há anos às classes pobres nesse País. (...) Buscamos entre nós o máximo de respeito e solidariedade e nos apoiamos entre si dividindo um pouco de tudo que temos entre materiais e carinho humano com projetos sociais, e nossa verdadeira luta é pela dignidade humana sem discriminação, não visamos nenhum tipo de lucro material dessa luta, e por ela nos sacrificamos sem medir as forças”. Para quem chega no meio da conversa, o texto transmite a idéia de uma carta de intenções de alguma entidade beneficente, quem sabe o regimento interno de uma cartuxa. Em sua sede de justiça social, os assassinos e traficantes do PCC já não se contentam em advogar em causa própria. Exigem a redenção dos pobres e oprimidos da nação.

Não é de hoje que os comunicados da guerrilha se assemelham aos chavões da Igreja Católica e do PT. Em um comunicado anterior, o “Grito dos Oprimidos Encarcerados”, proclamavam: “Somos presos oprimidos pagando por algum tipo de erro cometido perante a sociedade, alguns nem mesmo erraram, mas sofrem as injustiças do ser humano”. A linguagem é a mesma de Lula e do PT. Em momento algum fala-se de crimes, apenas de erros. O que sempre me lembra os pruridos de Tarso Genro quando fala de desvios do stalinismo. Stalin não cometeu crimes. Apenas ligeiros desvios.

Neste caldo cultural em que crime não é crime, mas erro, em que seqüestradores não são seqüestradores mas heróis nacionais, e por isso recompensados com gordas aposentadorias e cadeiras no Congresso, nada de espantar que o PCC fizesse sua fezinha. Dando um sentido político aos crimes, quem sabe dentro em breve não se consegue uma anistia, seguida de gordas aposentadorias e indenizações pelos anos injustamente passados no cárcere. Se pegar, pegou. Se não pegar, tentar não custa. Bem entendido, não vai pegar. Falta souche de esquerda aos integrantes do PCC.

Coisa que não falta a Oscar Niemeyer, por exemplo. Os jornais todos hoje vociferam contra a audácia do crime organizado. Em página nobre da Folha de São Paulo, nesta segunda-feira, o arquiteto stalinista chora a morte dos dois maiores criminosos da América Latina, Fidel Castro e Che Guevara. O que falta a Marcola é carteirinha do Partido.

Imprensa que dá página nobre à louvação de grandes assassinos, não tem moral algum para condenar os menores.

Terça, 08 Agosto 2006 21:00

O Bode Eletrônico

Confesso que o nível cultural da programação deixa muito a desejar. Mas todas as ditaduras, desde as comunistas às islâmicas, censuram a televisão.

Um certo fatalismo parece dominar as mentes do homem contemporâneo, a ponto de fazê-lo sentir-se indefeso às tentações da publicidade, qual um Ulisses com medo ao canto das sereias. “Como posso não ser consumista” – perguntava-me recentemente uma leitora – “se este mundo capitalista me chama toda hora a consumir?”

Cantiga para ninar pardais – como dizem os lusos. A sociedade capitalista tem suas bases no consumo e chama os cidadãos ao consumo. Mas não obriga ninguém a consumir. Tenho uma amiga no Sul que hesita em visitar-me porque vivo ao lado de um shopping, e ela – Ulisses do século XXI – teme entrar no shopping e sair no vermelho. Cabe lembrar que este foi o primeiro shopping em que entrei em minha vida. Foi inaugurado no ano 2000. Entrei porque estava ali, a meu lado. Seria até preconceito não dar uma espiadela. Ou seja, só fui conhecer um shopping aos 53 anos de idade. Hoje, quando “tá sol”, como dizem os paulistanos, ou quando chove, eu o uso para atravessar a rua. Confesso que até me agrada olhar algumas vitrines, particularmente as de eletrônicos e delikatessen. No entanto, nestes últimos seis anos, nele comprei apenas um notebook, dois pares de lençóis e dois ou três pares de sapatos, coisas que necessito para viver.

Se o leitor me acompanha, desde há muito deve saber que nunca tive carro e não sei sequer dirigir. Certa vez, perguntava-me um interlocutor: mas como consegues viver em São Paulo sem um carro? Ora, vivo como os milhões de paulistanos que não têm carro. Se são milhões os motorizados, nós, os sem-carro, também somos milhões. Minha ignorância em matéria de carros é assustadora. Só reconheço a Kombi e o Fusca. Aí termina minha erudição automobilística. Depois destes, para mim todos os demais são a mesma coisa.

Vivo na mesma sociedade capitalista que minha amiga acusava. Sou submetido ao mesmo bombardeio publicitário que tanto a incomodava. No entanto, sou completamente cego ao que o mercado das futilidades oferece. Fora o comer, beber e vestir – coisas inerentes ao viver - meus gastos são em livros e música, pão para o espírito. Quando me interesso por um livro, preciso buscá-lo em uma dezena de livrarias, pois geralmente está fora de mercado. Eu, que sempre curti o que Mário Quintana chamava de “a ronda das lombadas”, hoje já quase não entro em livrarias. Nas superfícies mais expostas ao público, só encontro best-sellers, novelas idiotas americanas e livros de auto-ajuda.

Nunca precisei tapar com cera os ouvidos para não ouvir o chamado das sereias. Com os anos, adquiri um olhar seletivo que me protege de toda e qualquer publicidade. Se uma dessas maravilhas do universo do consumo for anunciada em página inteira em jornal, não a enxergo. “Propaganda para mim é preto” – disse certa vez à minha mulher, em um restaurante. Ela olhou em torno assustada, para ver se eu não ofendera algum negro. Mas não era a eles que me referia. Falava da fase do paste up nos jornais, quando os redatores recebem uma prova de página com os textos, títulos, fotos e ilustrações da edição a ser impressa, para uma última revisão. Todo o espaço reservado à publicidade fica em preto. Era deste preto que eu falava.

Semana passada, comentei a pretensão das autoridades do Butão de eliminar a televisão do país, pois o aparelhinho estaria empanando o novo indicador de bem-estar proposto por Sua Majestade Jigme Singye Wangchuck, a FIB, ou Felicidade Interna Bruta. O leitor Paulo Naparstek me escreve:

No seu último artigo fiquei um pouco confuso com a forma com a qual você traz sua opinião, afinal a própria pesquisa trazida fala que se por um lado dinheiro não traz felicidade, por outro ver seus filhos passando fome, também não ajuda. Aparentemente o ponto a ser destacado era que a excessiva busca material acaba por não trazer a felicidade pois a pessoa nunca se vê satisfeita, afinal sempre há algo novo a se buscar! É nesse conceito que entra a crítica à televisão, pois ela é certamente um veículo que traz ao espectador uma maciça quantidade de bens materiais que não podem ser alcançados pela maioria das pessoas! Não digo que a ignorância desses bens seja a solução, mas as pessoas serem bombardeadas todos os dias com a falsa sensação de necessidade desses bens com certeza não me parece ajudar!

O leitor não deixa de ter razão. O bombardeio é impiedoso. Mas não é exclusividade da televisão. Basta um ser vivente sair na rua e as tentações do consumo o assaltam por todos os lados. Não só em outdoors e capas de revista, mas também em vitrines e restaurantes, shopping centers e supermercados. Até mesmo o tráfego é uma vasta exposição de carros – de luxo ou nem tanto – eternamente aberta ao público. Nas ruas mais elegantes das cidades, o vestuário dos transeuntes já incita ao gasto com roupas de grife. Numa sociedade capitalista, da exposição à publicidade ninguém escapa. Assim, não vejo muito porque responsabilizar exclusivamente a telinha pelo consumo desbragado daqueles que se deixam iludir pelas miragens que o comércio oferece.

Pouco assisto televisão, mas sempre vejo algo. Nunca comprei absolutamente nada do que a propaganda televisiva oferece. Em minha casa não há um objeto sequer que seja imposição da publicidade. Se as pessoas são pobres de espírito a ponto de achar que tal tênis ou celular, tal Ipod ou tal automóvel vai torná-las mais felizes, a culpa não é exatamente da televisão. Além do mais, o controle remoto é um meio eficaz de fugir à propaganda. Os publicitários devem odiá-lo.

Seguidamente saem pesquisas culpando o cinema pelo tabagismo. Ora, me criei vendo seriados em que o mocinho fumava tanto ou mais do que o bandido. Todos os homens de meu clã fumavam. Isto é, me criei entre fumantes. No entanto, jamais pus um cigarro na boca. Estudiosos da mídia falam em propaganda subliminar, mensagens enviadas em fotogramas rapidíssimos imperceptíveis à visão, mas que influiriam poderosamente no inconsciente do espectador. Podem amarrar-me frente a uma tela de cinema ou televisão, emitindo toneladas da tal de propaganda subliminar, 24 horas por dia, que jamais sentirei o mais vago de fumar.

Há uma tendência generalizada na sociedade de nossos dias a absolver todo crime ou comportamento nocivo, afinal os seres humanos – coitadinhos! – são produtos do meio em que vivem. Ninguém tem a menor culpa se esfaquear alguém para comprar um par de tênis, afinal a televisão martela incessantemente que ninguém pode ser feliz se não estiver usando aqueles tênis. Não consigo participar desta mentalidade. Sou dos tempos antigos, quando se acreditava que todo homem é responsável pelo que faz ou deixa de fazer.

Não consigo ver a televisão como o bode eletrônico de nossa época, que deve ser enviado ao deserto para expiar as culpas do ser humano. Confesso que o nível cultural da programação deixa muito a desejar. Mas todas as ditaduras, desde as comunistas às islâmicas, censuram a televisão. As democracias a controlam rigidamente. Então, algo de bom deve ter. Que mais não seja, tem dois botões, on e off.

Terça, 01 Agosto 2006 21:00

PIB & FIB

Ao que tudo indica, as ideologias invadiram a geografia da felicidade e a disputam palmo a palmo. Como se felicidade tivesse geografia. Sentimento personalíssimo e subjetivo, não vejo muito bem como possa ser mensurada.

Estudiosos dessa inefável ventura, a felicidade, estão preocupados em saber onde ela reside. Nas últimas semanas, fomos bombardeados por pelo menos três pesquisas. Para o economista britânico Richard Layard, em Happiness: Lessons From a New Science, a felicidade residiria no reino budista do Butão.

O Butão é um país isolado no Himalaia, cujo rei, Sua Majestade Jigme Singye Wangchuck – o primeiro marajá da dinastia dos Wangchuk a auto-intitular-se rei – decidiu abandonar os obsoletos índices de Produto Interno Bruto e substitui-lo por um índice de Felicidade Interna Bruta. Abaixo o PIB, viva a FIB. Sua jogada de marketing parece ter agradado às eternas e azedas esquerdas, que acham que PIB não quer dizer nada. Não que acreditem nisso, mas como o PIB das nações capitalistas sempre foi superior ao das socialistas, então o PIB “é do mal”.

Mais dia, menos dia, o mal acabou entrando no paraíso. Não através da serpente, mas de algo muito mais insidioso, a televisão. Segundo Layard, "os butaneses puderam então ver a mistura comum de futebol, violência, traição sexual, propaganda, lutas e afins. Eles adoraram, mas o impacto em sua sociedade fornece um experimento notável sobre como a mudança tecnológica pode afetar atitude e comportamento. Logo se observou um aumento profundo em rompimentos familiares, crimes e consumo de drogas."

Ou seja, a realidade circundante invadiu o país. O bode a ser banido para o deserto é a televisão. “Nos últimos anos, o governo butanês vem tentando banir do país a televisão, ou ao menos os programas mais odiosos.” Confesso que jamais vi justificativa tão linda e nobre da censura. Oremos para que o Supremo Apedeuta não a ouça nem se converta ao budismo. Poderia ser tentado a acabar com a violência, os crimes e o consumo de droga mediante uma medida singela, a proibição da televisão.

Segundo pesquisa feita por Layard nos EUA, quanto mais uma pessoa assiste televisão, menos feliz ela é. A solução então é simples: retire a televisão da sala e suas chances de ser feliz aumentarão. Sua Majestade Jigme Singye Wangchuck parece ter conseguido vender ao Ocidente a idéia de que, para a felicidade geral das nações, é melhor renunciar ao presente e encerrar-se nas trevas do passado. Sob o repúdio à televisão, o livro do economista britânico esconde uma tese safada: informação é infelicidade. Do fundo de seu sarcófago, Stalin deve ter esboçado um sorriso: “finalmente fui entendido”.

De qualquer forma, não se entusiasme. Não é fácil visitar o país onde a felicidade mora. Só é permitida a entrada de pessoas autorizadas por Sua Majestade ou pelo ministério de Turismo. Essas pessoas devem efetuar o depósito de cerca de US$ 200 por dia a favor do governo. Qualquer semelhança com a velha União Soviética e a Intourist não é mera coincidência. Sua Majestade, a título de curiosidade, é casado com quatro mulheres, todas irmãs. Sua FIB deve ser muito alta.

Por outro lado, a New Economics Foundation e a ONG Friends of Earth criaram o Happy Planet Index, segundo o qual a felicidade teria estabelecido sua morada no arquipélago de Vanuatu – 83 ilhas no Pacífico, com 209 mil habitantes, na maioria pescadores e agricultores que vivem numa economia pouco além do nível da subsistência. Os vanuatuenses tiveram a melhor média de três indicadores básicos: esperança de vida ao nascer, bem-estar humano e nível dos danos ambientais causados ao país. Nesse índice, o Brasil ficou em 65º lugar, atrás da Colômbia, da Argentina, do Chile e do Paraguai – até de Bangladesh. Os Estados Unidos ficaram com o 150º lugar, um dos últimos entre 178 países. O Happy Planet Index quer evidenciar que "não é necessário esgotar os recursos naturais da Terra para se ter uma vida relativamente longa e feliz". Seus critérios são, no fundo, um panfleto contra tudo o que de bom o Ocidente oferece.

Se os vanuatenses se sentem felizes numa economia que vai pouco além da subsistência, estão confundindo ignorância do mundo contemporâneo com felicidade. “Se estamos em um quarto escuro e dizemos que não há luz é porque alguma vez vimos a luz. Algo parecido acontece com a felicidade”, escreveu Swami Tilak. A pesquisa cheira à estratégia dos ecochatos que, uma vez morto o socialismo, querem empunhar novas bandeiras contra o capitalismo triunfante. Ora, uma comunidade de 200 mil pessoas isoladas num mar oceano, que vivem numa agricultura de mão pra boca, jamais reunirá aqueles elementos que tornam a vida prazerosa.

A universidade britânica de Leicester, por sua vez, elaborou o que seria o primeiro mapa mundial da felicidade, em estudo que reúne 177 países. Segundo este, os dinamarqueses e os suíços são os mais felizes. Depois destes, vêm os cidadãos da Áustria, Islândia, Bahamas, Finlândia e Suécia. Zimbabuanos e burundineses estão nos postos mais baixos e os brasileiros em 81º lugar. Dentro de meu conceito, já não digo de felicidade, que é muito relativo, mas de bem-estar, parece-me um mapa sensato. Que a vida é agradável na Dinamarca e Suíça, disto estou ciente. Que deve ser dura no Zimbábue e Burundi, disto também estou ciente, mesmo sem jamais ter postos os pés naquelas plagas.

Ao que tudo indica, as ideologias invadiram a geografia da felicidade e a disputam palmo a palmo. Como se felicidade tivesse geografia. Sentimento personalíssimo e subjetivo, não vejo muito bem como possa ser mensurada. Para populações que desconhecem uma gastronomia elaborada, qualquer gororoba que mate a fome deve dar uma sensação de paraíso. A gastronomia, a meu ver, é algo altamente espiritualizado. O gastrônomo não come para satisfazer a vil premência física, mas a uma necessidade do espírito. Para civilizações que desconhecem bons vinhos, suco de laranja deve saber a néctar dos deuses. Faltou a prova dos nove nas três pesquisas: investigar se os vanuatenses ou os butaneses continuariam sendo felizes em suas economias precárias após degustar os requintes do Ocidente.

Não vejo grandes FIBs sem altos PIBs. Os rosseaunianos adoradores da vida frugal que me desculpem. Altos PIBs significam mais opções de lazer, mais conforto no dia-a-dia, mais acesso à cultura e à saúde, medicina de ponta na hora da doença. E essa grande aventura do espírito – as viagens – ao dispor de qualquer veneta. Quanto à felicidade, é uma questão de ambições. Já vi mendigos rindo sozinhos em uma noite gelada, felizes com uma garrafinha de cachaça. E conheço não poucas pessoas, de muitas posses e com altos saldos bancários, mergulhadas na depressão e próximas ao suicídio. Conheço inclusive pessoa que comprou carro blindado para proteger sua vida e hoje teme olhar para o revólver, por medo de não resistir a matá-la.

Certa vez, no aeroporto de Cumbica, puxei conversa com uma moça que servia cafezinho. O trabalho é duro, oito horas em pé, circulando dentro de um brete. “Eu estou feliz da vida” – me dizia a moça – “Não fosse este trabalho, eu estaria na roça, no cabo da enxada”.

Conheci o cabo da enxada e já fui feliz com uma bicicleta. Cresci, me eduquei, zanzei pelo mundo e hoje, meu conceito de paraíso mudou, mas não deixa de ser singelo: uma manhã de inverno ensolarada, na terrasse de um café em Paris – pode ser também em Copenhague ou Zurique. Ou Madri ou Roma – temperatura de uns dez graus, jornais de dois ou três países, dois ou três livros para dar as primeiras folheadas e uma Leffe radieuse. Detesto a idéia de eternidade. Mas se for assim, topo. Buñuel tinha um desejo parecido. Gostaria de, depois de morto, sair de vez em quando da tumba, esgueirar-se lívido pelos muros, ir até uma banca de jornais e voltar com alguns debaixo do braço.

Claro que PIB não significa automaticamente felicidade. Prova disto são os altos índices de suicídio dos países desenvolvidos. Mas sem altos PIBs, a tal de FIB não passa de mais uma utopia das esquerdas. Há gentes de todo azimute tentando vender a idéia de que há virtudes na pobreza. São em geral pessoas ricas, que jamais viram a miséria de perto. Ou que só a viram como turistas.

Terça, 25 Julho 2006 21:00

A Impropriedade dos Marasmos

Um silêncio mortal caiu sobre a sala. Anjos passavam por cima de nossas cabeças. Até parecia que eu havia dito alguma impropriedade. A pedagoga encerrou a aula. Disse que me dispensava das próximas, eu poderia trabalhar em casa. Recusei.

Era Porto Alegre, 1968, final de curso de Filosofia. Como o curso não fornecia créditos suficientes para bacharelato, fui obrigado a fazer algumas cadeiras de Pedagogia no Colégio de Aplicação da UFRGS, considerado na época a mais avançada experiência educacional de Porto Alegre. No primeiro dia de aula, querendo impressionar os egressos da Filosofia, as pedagogas apresentaram um jogral, interpretado pelos alunos, sobre A Náusea, de Sartre.

O resultado era de doer no estômago. Adolescentes que não tinham idéia nenhuma de existencialismo, nem mesmo do clima que antecedera a Segunda Guerra, proferiam frases de efeito. De efeito, mas vazias de qualquer significação. Protestei. Aquilo era pura masturbação mental, quando aqueles jovens estavam na idade da masturbação física, apenas. Uma das pedagogas, que tinha o peito côncavo – talvez pelo esforço de esconder os seios quando estes surgiram – ficou indignada: “O sr. está refletindo problemas pessoais”.

- Claro – respondi. Quando adolescente, eu me masturbava, professora. A senhora não?

Um silêncio mortal caiu sobre a sala. Anjos passavam por cima de nossas cabeças. Até parecia que eu havia dito alguma impropriedade. A pedagoga encerrou a aula. Disse que me dispensava das próximas, eu poderia trabalhar em casa. Recusei. Queria participar das aulas. A guerrilha estava deflagrada. Quando eu entrava na sala, o Côncavo Andando entrava em taquicardia. Tivemos outro conflito. Havia um livro proibido na mais avançada experiência educacional de Porto Alegre. Pasma, leitor: era o Dom Casmurro, do Machado. E por que proibido? Sempre sexo: deixava aberta a possibilidade de Capitu ter traído Bentinho. Ao saber da proibição do casto Machado, logo daquele autor que sempre baixava os reposteiros das alcovas quando algo iria acontecer, denunciei a censura aos jornais. Tomei a defesa do autor, logo eu que jamais tivera maior apreço por sua literatura. Resumo da ópera: recebi a primeira e única reprovação de minha vida. Fui ainda o único aluno reprovado na Filosofia, nos quatro anos de curso. E – não duvido – talvez o único aluno a ser reprovado em toda a história do curso.

Era Porto Alegre, 1968, dizia. No ano seguinte, comecei a trabalhar em jornal. Fiz uma reportagem sobre a prostituição, que intitulei de “Porque os homens pagam”. Foi para a cesta do lixo. Não se podia grafar a palavra prostituta em um jornal. Neste sentido, o Brasil em nada diferia dos países socialistas: como oficialmente não havia prostituição, jornal algum podia falar de algo que não existia. Até que entendo, com alguma boa vontade, os pudores da época. O difícil de entender é que, no ano da graça de 2006 – 38 anos após 1968 – alguém admitir na televisão que se masturba possa ainda causar escândalo. Na Idade Média, os teólogos discutiam abertamente a questão. Em latim, é verdade, mas discutiam. Teologia, a rigor, é a “ciência” que discute Deus. Mas os teólogos sempre preferiram discutir sexo.

Não assisto TV nacional. Do que ocorre nesse universo, só tenho notícia através dos jornais. O fato teria ocorrido em uma das novelas da rede Globo. Não lembro em que novela foi nem vou pesquisar para saber em qual. Me contento com o fato. Uma senhora, já de idade, afirmou que, através da masturbação, pela primeira vez teve um orgasmo. Aos 45 anos. Horror nacional! Como pode uma televisão transmitir confissão tão horrenda? A novela passará agora a ser controlada de perto pela emissora.

Hipocrisia nacional, diria eu. Você troca de canal, e lá está uma velhota canadense, a Sue Johanson, exibindo seu farto estoque de dildos e especificando as virtudes de cada um. Para quem assiste às sitcoms ianques, a impressão que fica é que cada americana carrega um vibrador na bolsa. Mas a casta Globo não pode permitir-se tais liberalidades. Você pode assistir ao que quiser na telinha, desde que a procedência desse “o que quiser” não seja nacional. O episódio nos remete à Romênia, na era dos Ceaucescu, quando a palavra orgasmo era proibida de ser grafada no país. Os escritores, para contornar a proibição, escreviam marasmos. Quando o leitor lia “Que marasmo!”, sabia que devia entender orgasmo. (Só não sei como se viravam os escritores quando queriam escrever marasmo mesmo).

Pessoas que não se masturbam ou não têm vida sexual são mais freqüentes do que se imagina. O insigne filósofo marxista Louis Althusser – aquele humanista que aos 62 anos estrangulou a própria mulher – só foi descobrir a masturbação aos 29, conforme confessa em L’avenir dure longtemps. Até lá, andava com aquela coisa rija entre as pernas sem saber o que fazer com ela. Salvador Dali foi iniciado por Gala, já em idade adulta. E o grande herói das esquerdas tupiniquins, Luís Carlos Prestes – o ídolo de Tarso Genro – esperou os 37 anos para ser deflorado por uma judia alemã, oficial do Exército Vermelho. Alguém concebe o Cavaleiro da Esperança só conhecendo mulher já nel mezzo del camin di nostra vita? Curioso que tais anomalias a ninguém causem espécie.

Tenho em minha biblioteca um setor onde coleciono um tipo de livro que defino como “abortos literários”. São aquelas obras que excelem por seu alto teor de ridículo. Um dos pontos altos desta minha coleção é L’Onanisme, do Dr. Tissot. Tem como subtítulo: dissertation sur les maladies produites par la masturbation. O livro é de 1760 e teve, até 1905, 63 edições, em alemão, inglês, russo, italiano e espanhol. Pretende ser uma abordagem científica do mal de Onan. Segundo o Dr. Tissot, esta prática conduz à descoloração da pele, à magreza, à cor de chumbo da tez, os olhos perdem seu brilho, os lábios sua vermelhidão, os dentes sua brancura e a estatura se deforma com a curvatura da espinha. A cegueira e a morte são as conseqüências naturais da masturbação. “O masturbador põe em perigo a ordem da natureza, isto é, a ordem social. Os jovens se desvirilizam. Quanto às jovens, muitas delas não se contentam com a prática infame e se tornam tríbades, assumindo assim as funções viris. Dissipando as forças da juventude, comprometendo irremediavelmente o crescimento, toda uma geração se enfraquece e, a longo termo, a qualidade da raça é diminuída pelo flagelo”.

Três séculos após o Dr. Tissot, nesta era televisiva em que sexo tornou-se o pão de cada dia do espectador e a homossexualidade já é quase regra, a rede Globo decide censurar-se após a dolorida confissão de uma senhora que desconheceu o prazer sexual em sua juventude. Mais um pouco e voltaremos aos dias do Colégio de Aplicação de Porto Alegre, quando as pedagogas não tinham orgasmos. Ou aos dias dos Ceaucescu, na Romênia, quando as mulheres tinham marasmos.

Quinta, 20 Julho 2006 21:00

Nazismo Negro e Guilda Branca

Não bastasse tal despautério, outro projeto, de iniciativa do deputado Pastor Amarildo, pretende mandar o país de volta mais longe ainda no tempo, para os dias da Idade Média, quando as guildas controlavam ferreamente o exercício das profissões.

Uma nuvem de estupidez parece pairar sobre o Congresso nacional nestes dias. Não que sobre o Congresso costumem pairar nuvens de inteligência. Mas agora a estupidez concentrou-se e ameaça cair como chuva sobre o país todo. Dois projetos, que pretendem mandar o Brasil de volta alguns séculos para trás, estão sendo discutidos em Brasília. Um deles, o do senador Paulo Paim, já aprovado no Senado, quer mandar o país de volta à América racista do tempo das leis Jim Crow, ou talvez à Alemanha hitlerista ou mesmo à África do Sul do apartheid.

Em verdade, nada de novo tenho a dizer sobre o assunto. Desde que se começou a falar de cotas, tenho denunciado esta manobra dos movimentos negros como algo que só servirá para estimular o racismo. A estupidez avança e cada vez com mais audácia. Se antes falava-se apenas em cotas, o projeto do senador Paim pretende agora identificar os brasileiros por raça, como se fazia com os judeus na Alemanha nazista. A estupidez se repete? O cronista se vê constrangido a repetir-se.

O Estatuto da Igualdade Racial, já o comentei recentemente, ao denunciar a extinção do mulato. De uma penada, o senador pretende extirpar da história do país a prova mais evidente do bom convívio racial. O expediente é elementar. Como os negros constituem apenas 5,4 % da população nacional, o senador passa a chamar de negros todo o contingente de mulatos, que são 39,9%. Mais um pouco e o Brasil será definido como majoritariamente negro, aliás como já é visto por muitos americanos e europeus. Quer-se adotar o modelo americano, que não admite miscigenação. Ou é preto ou é branco. Alguns intelectuais, fugindo ao espírito de rebanho que caracteriza a espécie, apresentaram ao Congresso um documento com 114 assinaturas, com argumentos contrários ao Estatuto e às reservas de cotas raciais. O documento foi logo satanizado como o “Manifesto da Elite Branca”, como se os malvados brancos tivessem algum interesse em manter a população negra afastada de seus territórios.

O governo, que desde então vinha insistindo na manutenção das cotas universitárias, sentiu-se constrangido a recuar. Fala agora em cotas sociais. Se por um lado desvincula a reserva de vagas do elemento racial, por outro lado mantém o absurdo propósito de mandar para a universidade pessoas que não preenchem os requisitos básicos para nela entrar, enviando de vez para o brejo o ensino universitário, hoje já extremamente deficiente. Paulo Paim pôs um bode na sala. O governo retira o bode e deixa lá o resto dos animais. Isso sem falar que tal projeto é flagrantemente inconstitucional. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza", reza o artigo 5º da Carta Magna. Se aprovado, alguns serão mais iguais que outros. Boa parte da população negra gostou da idéia de ganhar no tapetão e não percebe a armadilha em que os negros estão caindo: tendo entrado pela porta dos fundos na universidade, serão naturalmente rejeitados no mercado de trabalho.

Prevendo isso, o senador já garante em seu projeto a presença de ao menos 20% de atores e figurantes afro-brasileiros em programas e propagandas de TV. A seqüência lógica será impor estas mesmas cotas inclusive às empresas privadas em geral, acabando-se definitivamente com qualquer critério de capacitação. Embutida no projeto, vem uma disciplina obrigatória nos colégios, História Geral da África e do Negro no Brasil, como se a história da África e do negro fosse mais importante para o Brasil que a História da Grécia e dos gregos, de Portugal e dos portugueses, da Itália e dos italianos, da América e dos americanos. Seria interessante imaginar como será tratada na nova disciplina a venda de escravos aos brancos europeus pelos chefes tribais negros da África. Ou será um capítulo proibido da história, como a matança dos oficiais poloneses na floresta de Katyn pelas tropas de Stalin, como a matança de sete mil religiosos espanhóis pelos comunistas na Espanha?

O projeto do senador prevê ainda a identificação racial dos negros em documentos de identidade. Segundo o Estatuto, os negros passarão a ter carteirinha de negro. Curioso observar que nas décadas passadas os movimentos negros haviam concluído que raça não existia. Agora passou a existir e deve constar em documento. Como o branqueamento é bastante generalizado no Brasil, talvez fosse melhor uma tatuagem ou adereço bem visível, como Hitler instituiu na Alemanha para judeus e homossexuais. Se aprovado tal monstrengo, este país onde a miscigenação sempre foi regra passará a discriminar oficialmente por raça. Estamos caminhando a largos passos rumo a um nazismo negro.

Não bastasse tal despautério, outro projeto, de iniciativa do deputado Pastor Amarildo, pretende mandar o país de volta mais longe ainda no tempo, para os dias da Idade Média, quando as guildas controlavam ferreamente o exercício das profissões. No fundo, a intenção é sufocar a liberdade de expressão, regulamentando uma profissão que não pode ser regulamentada, o jornalismo. Se antes apenas exigia-se curso para o exercício do jornalismo, em função de um decreto-lei promulgado por uma junta militar em 1969, o novo projeto, aprovado pelo Congresso na calada da Copa, pretende enquadrar até mesmo colunistas e comentaristas. Ora, este dispositivo ditatorial não encontra paralelo em nenhum regime democrático do mundo. Jornalista é quem tira seus proventos do ofício de jornalismo e fim de papo.

O projeto do pastor é uma reação à rejeição da proposta de um Conselho Federal de Jornalismo, feita pela Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) e encaminhada em 2004 ao Legislativo pelo Governo Federal. Devido à pressão de jornalistas e proprietários de veículos de comunicação, a tentativa de cercear ainda mais a liberdade de expressão foi retirada no mesmo ano. De novo, as cotas. A guilda branca quer proteger a corporação. Enquanto o país se empolgava com a Copa, o projeto passou quase clandestinamente no Congresso. Depende agora de veto ou aprovação do Supremo Apedeuta. O espantoso é que tal dispositivo surge precisamente nestes dias de Internet, em que qualquer cidadão pode montar seu blog e fazer jornalismo a seu gosto.

O Supremo Apedeuta, como é sabido, não tem maiores apreços pela imprensa. Não seria de duvidar que assumisse esta excrescência jurídica. Logo nestes dias em que a WEB libertou os jornalistas dos custos de papel, gráfica e distribuição. Os blogs constituem hoje jornalismo de alto nível e mais rápido que o jornalismo em papel. Os comunistas chineses já perceberam isto e estão censurando a Internet.

Se assumir esta excrescência, o Supremo Apedeuta estará lutando em vão contra o amanhecer

 

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Domingo, 16 Julho 2006 21:00

Bento, Franco e Vicente

Católicos e astrólogos já estão pondo as barbas de molho, afinal o consumidor brasileiro está cada vez mais ciente de seus direitos e a moda pode pegar. Fé está virando questão de Procon.

Você já imaginou a Espanha sem Francisco Franco? Com a Espanha dominada pela União Soviética, Stalin controlaria dois mares, o do Norte e o Mediterrâneo. Para derrubar Portugal bastaria um piparote e a resistência francesa seria estrangulada pelo domínio dos mares. Na esteira desta invasão, provavelmente cairia também a Inglaterra. Daí à conquista de toda a Europa Ocidental, seria questão de um ameno turismo blindado.Com Moscou imperando do estreito de Gibraltar ao de Bering, a tirania comunista teria vida bem mais longa. Europa e Ásia afundariam juntas na miséria inerente aos regimes socialistas e a praga se propagaria – como aliás se propagou, mesmo sem a vitória de Stalin – além do Atlântico. O Muro não teria caído em 89 e até hoje a Europa seria algo tão triste e pobre como foram – e ainda são – os países da União Soviética.

Pelo que lemos nos jornais, os europeus ainda não perceberam o óbvio. Em Estrasburgo, um eurodeputado polonês, Maciej Marian Giertych, elogiou em uma sessão do Parlamento Europeu, na terça-feira passada, os regimes liderados por Francisco Franco, na Espanha, e Antonio Salazar, em Portugal, por terem impedido a disseminação do que ele qualificou como a praga do comunismo. Giertych é pai do vice-primeiro-ministro da Polônia, Roman Giertych e, por sua idade, sabe do que está falando. As declarações de Giertych foram imediatamente rebatidas por Martin Schulz, líder da bancada socialista no Parlamento Europeu. Segundo Schulz, as declarações eram uma encarnação do espírito do general Franco. "O que acabamos de ouvir – disse o socialista – foi um discurso fascista para o qual não existe lugar no Parlamento Europeu". O que Schulz não disse é que, sem Franco, a Europa não seria o que é hoje, um continente rico, livre e democrático.

Ao chegar em Valência, sábado último, o papa Bento XVI lembrou a tragédia que matou 42 pessoas na segunda-feira em um acidente de metrô na cidade. Os valencianos comovidos agradecem. Destacou também o caráter insubstituível que a família fundada no casamento tem para a Igreja. E neste destaque vai um recado à Espanha, que há um ano já permite o casamento de homossexuais, em virtude de lei sancionada pelo atual governo socialista. Sem falar que a idade de consenso sexual, desde há muito, é de doze anos. (Coincidentemente, mais ou menos a mesma idade em que Maria concebeu Cristo). Mas a Espanha de Zapatero está pouco preocupada com questões de família. A Asociación por la Recuperación de la Memória Histórica (ARMH) enviou uma carta a todos os bispos recomendando-os a aproveitar a visita de Ratzinger para tirar todas as placas falangistas de “caídos por Diós e por España” que ainda resistem em centenas de igrejas e pedir perdão por seu papel na guerra.

Os espanhóis estão querendo trocar a sotaina papal por uma saia justa. Verdade que Franco executou quatorze sacerdotes vascos. Acontece que o clero vasco se alinhava com as milícias republicanas que mataram cerca de sete mil religiosos católicos, entre membros do clero secular, sacerdotes, freiras e até treze bispos. Muitas freiras tiveram seus tímpanos estourados pela introdução de rosários e crucifixos. Bem ou mal, Franco tomou o partido da Igreja romana. Após ter reprovado as execuções de sacerdotes nas Provincias Vascongadas, Pio XI declarava, na encíclica Divini Redemptoris, datada de 19 de março de 1937:

“Também ali, como em nossa queridíssma Espanha, o açoite comunista (...) não se contentou com derrubar uma ou outra igreja, um ou outro convento, senão que, quando lhe foi possível, destruiu todas as igrejas, todos os conventos e até mesmo todo rastro de religião cristã, por mais ligado que estivesse aos mais insignes monumentos da arte e da ciência. O furor comunista não se limitou a matar bispos e milhares de sacerdotes, de religiosos e religiosas, buscando de modo especial aqueles e aquelas que precisamente trabalhavam com maior zelo com pobres e operários, mas também fez um número maior de vítimas entre os seculares de toda classe e condição, que diariamente, pode-se dizer, são assassinados em massa pelo mero fato de ser bons cristãos ou apenas contrários ao ateísmo comunista. E uma destruição tão espantosa é levada a cabo com um ódio, uma barbárie e uma ferocidade que não se acreditaria ser possível em nosso século. Nenhum particular que tenha bom juízo, nenhum homem de Estado consciente de sua responsabilidade, pode menos que tremer de horror ao pensar que o que acontece hoje na Espanha talvez possa repetir-se em outras nações civilizadas”.

Quando se fala em Guerra Civil espanhola, ninguém mais lembra que os grandes assassinos de religiosos foram os comunistas. Na saída do metrô, o papa depositou uma coroa de flores brancas e, ajoelhado, pediu o descanso eterno e em paz das vítimas do acidente. Sobre a retirada das placas falangistas, Bento não disse água. Nem poderia. Estaria desautorizando seu antecessor. Em nossos dias, o Vaticano se contenta com vagos apelos pela paz, sem nominar vítima nem carrasco. É mais prudente.

Valência é a terra de San Vicente Ferrer (1350 -1419), santo espanhol canonizado por Calixto III em 1455, que goza da fama de grande milagreiro. Segundo reza a tradição local, certa vez um bispo deveria visitar uma família de camponeses. A mulher, desejosa de agradar, perguntou ao santo que poderia oferecer ao prelado. “Ofereçam o que de melhor vocês têm” – respondeu o Vicente. Os camponeses prepararam então uma paella. Antes da chegada do bispo, o santo provou um pedacinho da paella, gostou e quis saber do que era feita. “É nosso filho” – respondeu a mulher – “é o melhor que nós temos”. Apavorado, Vicente desfez a paella e refez o filho. Menos o dedo mindinho. Era o pedacinho que havia degustado.

Tantos milagres fazia o santo, que um dia o alcaide o proibiu de fazê-los. Passava um dia Vicente por um prédio em construção, quando um operário caiu de um andaime. Proibido de operar milagres, o santo o deixou suspenso no ar, foi até a prefeitura e pediu que fosse revogada a proibição. Uma vez esta revogada, voltou ao prédio e fez descer suavemente o operário ao chão.

São Vicente tinha créditos junto ao todo-poderoso. O mesmo não parece ser o caso dos pastores da Igreja Universal. Em São Paulo, um fiel, encarregado de consertar o telhado de um templo, teve a garantia de um pastor evangélico de que, se tivesse fé, não cairia do telhado. Caiu e sofreu politraumatismo. Está requerendo na Justiça R$ 356.200 de indenização. O pedido foi julgado procedente. O pastor defende-se. Diz que o homem não tinha fé suficiente. Outros fiéis estão processando a mesma igreja, tanto por terem alienado bens tendo em vista uma prosperidade que não lhes foi concedida, como por terem quebrado a cabeça em sessões de “descarrego”, essa prática catártica da Universal. Católicos e astrólogos já estão pondo as barbas de molho, afinal o consumidor brasileiro está cada vez mais ciente de seus direitos e a moda pode pegar. Fé está virando questão de Procon. E é bom que assim seja. Charlatanismo é crime.

Essas promessas de vida eterna, por exemplo. Quem pode provar que nossos entes queridos têm nos céus a prometida eternidade? Ou esses horóscopos maravilhosos, que nos prometem manhãs que cantam, dias radiosos e amor a mancheias. Está na hora de, em falta de entrega da mercadoria, entrar com ação indenizatória. Queremos a competência do santo homem de Valência... ou o dinheiro de volta. Mas isto já é outro assunto.

 

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Sábado, 08 Julho 2006 21:00

As Três Vias de Acesso

No fundo, a universidade ainda vive no tempo das guildas medievais, que cercavam as profissões como quem cerca um couto de caça privado.

Após ler minha crônica sobre os cavacos do ofício do jornalismo, uma amiga me pergunta porque não estou lecionando numa universidade. Coincidentemente, a resposta está no artigo de Cláudio de Moura Castro, na Veja da semana passada:

“Na UFRJ, um aluno brilhante de física foi mandado para o MIT antes de completar sua graduação. Lá chegando, foi guindado diretamente ao doutorado. Com seu reluzente Ph.D., ele voltou ao Brasil. Mas sua candidatura a professor foi recusada pela UFRJ, pois ele não tinha diploma de graduação. Luiz Laboriou foi um eminente botânico brasileiro, com Ph.D. pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e membro da Academia Brasileira de Ciências. Mas não pôde ensinar na USP, pois não tinha graduação”.

Estas peripécias, eu as conheço de perto. Começo pelo início. Nunca me ocorreu lecionar na universidade. Eu voltara da Suécia, cronicava em Porto Alegre e fui tomado pela resfeber, doença nórdica que contraí na Escandinávia. Traduzindo: febre de viagens. Li nos jornais que estavam abertas inscrições para bolsas na França e me ocorreu passar alguns anos em Paris. A condição era desenvolver uma tese? Tudo bem. Paris vale bem uma tese. Tese em que área? Busquei algo que me agradasse. Na época, me fascinava a literatura de Ernesto Sábato. Vamos então a Paris estudar Sábato.

Mas eu não tinha o curso de Letras. O cônsul francês, ao me encontrar na rua, perguntou-me se eu não podia postular algo em outra área. Em Direito havia mais oferta de bolsas. Poder, podia. Eu cursara Direito. Mas do Direito só queria distância. Mantive minha postulação em Letras. Para minha surpresa, recebi a bolsa. A França me aceitava, em função de meu currículo, para um mestrado em Letras, curso que eu jamais havia feito. Nenhuma universidade brasileira teria essa abertura. Aliás, os componentes brasileiros da comissão franco-brasileira que examinava as candidaturas, tentaram barrar a minha. Fui salvo pelos franceses.

Fui, vi e fiz. Em função de meu currículo, aceito para mestrado, fui guindado diretamente ao doutorado. Tive o mesmo reconhecimento que o aluno do MIT. Acabei defendendo tese em Letras Francesas e Comparadas. Menção: Très bien. Não me movera nenhuma pretensão acadêmica, apenas o desejo de curtir Paris, suas ruelas, vinhos, queijos e mulheres. A tese não passou de diletantismo. De Paris, eu escrevia diariamente uma crônica para a Folha da Manhã, de Porto Alegre. Salário mais bolsa me propiciaram belos dias na França. Foi quando minha empresa faliu. Conversando com colegas, fiquei sabendo que um doutorado servia para lecionar. Voltei e enviei meu currículo para três universidades. Sei lá que loucura me havia acometido na época: um dos currículos enviei para o curso de Letras da Universidade de Brasília.

Fui a Brasília acompanhar meu currículo. Procurei o chefe do Departamento de Letras. Ele me cobriu de elogios, o que só ativou meu sistema de alarme. Que minha tese era brilhante, que meu currículo era excelente, que era um jovem doutor com um futuro pela frente. Etc. Mas... eu tinha apenas os cursos de Direito e Filosofia, não tinha o de Letras. Me sugeria enviar meu currículo ao Departamento de Filosofia, já que a tese tinha alguns componentes filosóficos.

Ingênuo, fui até o Departamento de Filosofia. O coordenador me recebeu muito bem, analisou minha tese, cobriu-a de elogios. Mas... eu não tinha o Doutorado em Filosofia. Apenas o curso. Considerando o grande número de artigos publicados em jornal, sugeria que eu fosse ao Departamento de Comunicações. Besta atroz, fui até lá. O coordenador considerou que meu currículo como jornalista era excelente. Mas... eu não tinha o Curso de Jornalismo.

Na Universidade Federal de Santa Catarina abriu um concurso para professor de Francês. Já que eu era Doutor em Letras Francesas, me pareceu que a ocasião era aquela. Duas vagas, dois candidatos. Fui solenemente reprovado. Uma das alegações foi que eu falava francês como um parisiense, e a universidade não precisava disso. A outra, e decisiva, era a de que eu tinha doutorado em Letras Francesas, mas não tinha curso de Letras.

Já estava desistindo de procurar emprego na área, quando fui convidado para lecionar Literatura Brasileira, na mesma UFSC que me recusara como professor de francês. Convidado como professor visitante, o que dispensa concurso. Mas o contrato é por prazo determinado, dois anos. O curso precisava de doutores para orientar teses e eu estava ali por perto, doutor fresquinho, recém-titulado e livre de laços com outra universidade. Fui contratado.

Acabei lecionando quatro anos, na graduação e pós-graduação. Findo meu contrato, foi aberto um concurso para professor de Literatura Brasileira. Me inscrevi imediatamente. Uma vaga, um candidato. Me pareceram favas contadas. Ledo engano. Eu não tinha o curso de Letras. Fui de novo solenemente reprovado.

Na mesma época, abriu um concurso na mesma universidade para professor de espanhol. Ora, eu já havia traduzido doze obras dos melhores autores da América Latina e Espanha (Borges, Sábato, Bioy Casares, Robert Arlt, José Donoso, Camilo José Cela). Vou tentar, pensei. Tentei. Na banca, não havia um só professor que tivesse doutorado. Pelo que me consta, jamais haviam traduzido nem mesmo bula de remédio. Mais ainda: não tinham uma linha sequer publicada. Novamente reprovado. Minhas traduções poderiam ser brilhantes. Mas eu jamais havia feito um curso de espanhol.

Melhor voltar ao jornalismo. Foi o que fiz. Anos mais tarde, já em São Paulo, por duas vezes fui convidado para participar de uma banca na Universidade Federal de São Carlos, pelo professor Deonísio da Silva, então chefe de Departamento do Curso de Letras. Uma das bancas era para escolher uma professora de Literatura Espanhola, outra uma professora de Literatura Brasileira. Deonísio sugeriu-me participar, como candidato, de um futuro concurso. Impossível, eu não tinha o curso de Letras. Quanto a julgar a candidatura de um professor de Letras, isto me era plenamente permissível.

Por estas e por outras – e as outras são também importantes, mas agora não interessam – não estou lecionando. Diz a lenda que na universidade da Basiléia havia um dístico no pórtico, indicando as três vias de acesso à universidade: per bucam, per anum, per vaginam. Lenda ou não, o dístico é emblemático. A universidade brasileira, particularmente, é visceralmente endogâmica. Professores se acasalam com professoras e geram professorinhos e para estes sempre se encontra um jeito de integrá-los a universidade. A maior parte dos concursos são farsas com cartas marcadas. Pelo menos na área humanística. As exceções ocorrem na área tecnológica, onde muitas vezes a guilda não tem um membro com capacitação mínima para proteger. Contou-me uma professora da Universidade de Brasília: “eu tive muita sorte, os dez pontos da prova oral coincidiam com os dez capítulos de minha tese”. O marido dela era um dos componentes da banca. A ingênua atroz – ou talvez cínica – falava de coincidência.

Na universidade brasileira, nem um Cervantes seria aceito como professor de Letras, afinal só teria em seu currículo o ofício de soldado e coletor de impostos. Um Platão seria barrado no magistério de Filosofia e um Albert Camus jamais teria acesso a um curso de Jornalismo. No fundo, a universidade ainda vive no tempo das guildas medievais, que cercavam as profissões como quem cerca um couto de caça privado. Na Espanha e na França, desde há muito se discute publicamente a endogamia universitária. Aqui, nem um pio sobre o assunto. E ainda há quem se queixe quando os melhores cérebros nacionais buscam reconhecimento no Exterior.

Sábado, 08 Julho 2006 21:00

Ontem Heróis, Hoje Leprosos

Desde a primeira Copa que vi, sempre torci por qualquer país que jogue contra o Brasil. Não porque tenha ódio a meu país, nada disso. Mas é preciso acabar com esse anestésico, ministrado de quatro em quatro anos, que faz com que uma nação inteira pare.

- Para quem você torce hoje? – perguntei no sábado a um motorista de táxi. O homem me olhou com estranheza e reagiu com certa hostilidade:

- Para o Brasil, ué? Sou brasileiro.

Pensei em perguntar-lhe em que código está escrito que brasileiro deve torcer pelo Brasil, mas preferi ficar calado. Com fanáticos, sejam religiosos, sejam futebolísticos, de nada adianta argumentar. O fanatismo do povinho, dizia em crônica passada, é o que me afasta do futebol. Fanatismo igual irracionalidade. Mesmo se você é daqueles leitores que ao pegar um jornal vai logo jogando fora o caderno de esportes, vale a pena dar uma olhadela nos suplementos esportivos deste domingo. É o império do irracional.

O Estadão, no sábado, titulava em primeira página:

A seleção em busca do erro zero

Bastaram 90 minutos de jogo para que, no domingo, a manchete fosse:

Um time para esquecer

A Folha, que no sábado cocoricava um ufanístico “Ou vai ... ou racha”, no domingo foi implacável: “sem mágica sem tática sem fôlego sem craque sem time sem raça sem hexa sem desculpa”. O melhor jogador do mundo em todas as épocas, do dia para a noite virou um Judas a ser malhado: “Ronaldinho Gaúcho fechou sua participação na Copa da Alemanha de forma melancólica. Jogou mal, não driblou, não deu nenhum chute na direção do gol, errou passes e, em nenhum momento, assumiu a responsabilidade. Decepcionou não só os brasileiros, mas todos na Alemanha.

O melhor do mundo nas últimas duas temporadas teria de atuar melhor. Muito melhor. O confronto com a França foi um retrato de sua participação no Mundial: apático, burocrático, medíocre, com medo de decidir. Mesmo diante de seleções mais fracas, como Croácia, Austrália, Japão e Gana, o meia-atacante do Barcelona não foi capaz de pôr em prática seu talento. Esteve apagado do primeiro ao último jogo da competição”.

Ontem heróis, hoje leprosos. Tivesse a seleção, por um mero golpe de sorte, ganho a partida, mesmo que tivessem jogado da forma canhestra como jogaram, os heróis continuariam sendo heróis. Mesmo que tivessem feito um gol com “la mano de Diós”, não seriam hoje reles bodes a serem enviados para o deserto da mídia. A mão que afaga, dizia o poeta, é a mesma que apedreja. Que essa súbita mudança de humor ocorresse junto a esta escória que infesta as ruas com cornetas e bandeiras nos dias de Copa, se entende. Mais difícil se torna entendê-la quando ela parte de jornalistas, que passam a comportar-se como fanáticos torcedores.

Há duas semanas, manifestei o desejo de uma derrota, de preferência humilhante, para meu país. O leitor já pode imaginar o sorriso imenso e feliz que me iluminou o rosto no sábado passado. Poderia ter dito ao motorista de táxi que tenho sérias razões para torcer pela França. É país onde me sinto melhor que no Brasil, foi onde vivi meus melhores dias e país do qual recebi auxílios que o Brasil jamais me deu. Durante quatro anos, além de uma bolsa, o governo francês pagou religiosamente metade de meu aluguel. A cada início de mês, o carteiro batia em minha porta, abria a carteira e me repassava um generoso pacote de francos, estalando de novinhos. Apanhava depois um porte-monnaie e completava o montante até o último centime. Eu não precisava nem mesmo ir a um guichê para receber meu auxílio-família. Recebia-o em casa. Para isso, tinha de preencher algumas condições. Entre elas, meu apartamento deveria ter alguns requisitos básicos: uma confortável metragem mínima, banheiro e sanitários (o que nem sempre existe ao mesmo tempo em um apartamento em Paris) e determinadas condições de higiene. O governo completava meu aluguel não apenas para que morasse, mas para que morasse bem.

Bem entendido, esse auxílio não era para comprar meu voto. Estrangeiro, não votava na França. Tampouco é uma esmola jogada a quem nem casa tem. É um auxílio para residir. Isto meu país jamais me deu. Nem bolsa, nem complemento de aluguel. Por que torcer pelo Brasil? Torci pela França. Mas apenas mentalmente. Pra falar a verdade, não consigo suportar uma partida de futebol por mais de cinco minutos. Me soa tão monótona como pornografia. Sempre a mesma coisa: disputa pela bola, arremetida contra o adversário, gol. Não me é fácil entender como, nestes dias de Copa, milhões de pessoas permaneçam coladas ao televisor para ver, todos os dias... o mesmo filme. Haja pobreza mental.

Torci pela França não pelos benefícios que dela recebi. Desde a primeira Copa que vi, sempre torci por qualquer país que jogue contra o Brasil. Não porque tenha ódio a meu país, nada disso. Mas é preciso acabar com esse anestésico, ministrado de quatro em quatro anos, que faz com que uma nação inteira pare. Não só pare como esqueça as mazelas todas do país, a miséria, a corrupção, o desmando, o desrespeito generalizado às leis, a começar pelas próprias autoridades que por elas deveriam zelar. Há alguns meses, o candidato das oposições, o patético Geraldo Alckmin, fazendo piadinha com sua antiga profissão, dizia que o Brasil precisa de um anestesista.

Ora, o candidato parece ignorar que anestésicos temos o ano todo. Quando não é futebol é carnaval, quando não é carnaval é loteria e se não é loteria é o jogo do bicho. A cada Copa, uma dose reforçada, cavalar, de anestesia. Se o Brasil ganha, o país todo, entorpecido, entra em euforia. O doping é geral. Vibram os ricos atrás de suas barricadas, a classe média em seu sufoco, vibra o favelado em sua miséria, o prisioneiro atrás das grades, o sem-teto debaixo do viaduto. Se um extraterrestre de longa milhagem em anos-luz aqui chegasse após a conquista da Jules Rimet, não teria dúvidas de ter chegado ao planeta de maior índice de felicidade per capita entre as galáxias.

Quando digo isto, com a velocidade de uma bola rebatida, salta a pergunta: “que estás fazendo no Brasil?”. A pergunta é feita de duas formas. Ora, de modo afável e por curiosidade. Ora, agressivamente, como quem ordena: “rua deste país!” A pergunta vem de longe, desde quando escrevi meus primeiros artigos, não contra o futebol, mas contra o fanatismo em futebol. Há mais de trinta anos ouço esta objeção e já estive perto de pugilatos em mesas de bar. Quando a pergunta vem em tom irado, tenho resposta pronta: “Tenho passaporte brasileiro, resido em qualquer lugar do Brasil sem pedir autorização a autoridade alguma, saio e entro neste país quando bem entendo e me reservo o sagrado direito de criticá-lo”. Esta censura dos fanáticos é mais violenta que a censura das ditaduras. Nas ditaduras, criticar o país sempre é permissível. O que não se permite é a crítica ao poder. Os fanáticos – que nestes dias confundem futebol com pátria – não admitem crítica alguma.

Para os que perguntam com afabilidade, esclareço também com afabilidade. Há 35 anos, fiz minhas malas e saí para não voltar. Acabei voltando. Uma mulher me chamava e todo país é lindo quando há nele alguém que amamos. Fora isto, o preço do metro quadrado na Europa é um poderoso argumento para ficar por aqui. O Brasil, apesar dos pesares, é país para onde se volta. Os exilados de 64, que degustaram em Paris ou Londres o amargo caviar do exílio, juravam só voltar de metralhadora em punho. Mal foi decretada a anistia, em 79, voltaram sem armas nas mãos e com lágrimas nos olhos.

Minhas preces por uma derrota brasileira nesta Copa foram atendidas neste sábado. Obdulio Varela ressurgiu das cinzas, desta vez falando francês. Isto não significa uma ojeriza ao Brasil. No dia em que formos reconhecidos por feitos na área da ciência ou tecnologia, no dia em que a moeda nacional for aceita no estrangeiro, no dia em que brasileiro não mais precisar lavar pratos no Primeiro Mundo, no dia em que analfabetos forem para a escola e não para o poder, nesse dia torcerei pela seleção. Esse distante dia, suspeito que nem meus hipotéticos netos verão.

Enquanto isso, é bom ver os leprosos voltando abaixo de vaias.

Quarta, 21 Junho 2006 21:00

Cavacos do Ofício

Um amigo me pergunta sobre o que seria necessário para ser um bom jornalista. Em verdade, nunca pensei no assunto e minha resposta é mais ou menos aleatória. Enumero então alguns quesitos que me parecem fundamentais, sem pretender que sejam definitivos.

Um amigo me pergunta sobre o que seria necessário para ser um bom jornalista. Em verdade, nunca pensei no assunto e minha resposta é mais ou menos aleatória. Enumero então alguns quesitos que me parecem fundamentais, sem pretender que sejam definitivos.

O jornalista deve ter uma qualidade que deveria ser inerente a todo ser humano. Jornalista que vende sua capacitação para ideologias ou partidos não passa de um venal. Conheço não poucos colegas que, em épocas de eleição, aproveitam para faturar alto. Prestam assessorias a partidos. Quem presta assessoria a um partido, seja lá qual partido for, é pessoa que vendeu sua independência e só escreve o que patrão manda. Ser chapa branca não é crime. Mas nada tem de ético. O jornalista chapa-branca – aquele que vende seu talento para o poder ou para partidos – sempre empunha o famoso argumento do leite das criancinhas. Não convence. A meu ver, uma vez que optou pela prostituição, deveria ser sumariamente excluído, e para sempre, das redações de jornal. Existe aliás uma tese de que a um jornalista não deveria ser permitido votar. É de se pensar no assunto.

Ora, direis, jornalista sempre tem patrão. De fato. Mas quando o dono de um jornal exige que seus redatores escrevam em franca oposição aos fatos, esse jornal não vai longe. Pode manter-se em ditaduras, onde os jornais são financiados pelo Estado. Em regime democrático, esse jornal morre. Neste sentido, a primeira qualidade de um jornalista deveria ser a mesma de todo cidadão decente: honestidade.

Dito isto, vamos a algumas qualificações específicas. Neste nosso mundinho globalizado, jornalista que não dominar pelo menos três línguas além da própria, nem deveria candidatar-se ao ofício. No caso do Brasil, considero o conhecimento do espanhol obrigatório. Do inglês, imprescindível. E do francês, muito oportuno. Conhecessem os jornalistas um mínimo de francês, não escreveriam bobagens com “um affaire” ou “um fondue”. Nem traduziriam – como invariavelmente traduzem – l’Arche de la Défense como o Arco de la Défense. Cada língua que dominamos é uma janela aberta para o mundo. Quanto mais janelas, melhor se vê.

Jornalista que hoje conhecer o russo, árabe ou chinês, está muito bem qualificado para entender política internacional. O Brasil jamais produziu sinólogos ou kremlinólogos. Os grandes jornais americanos e europeus sempre têm um profissional que tenha acesso a esses universos. O Brasil, que se nutre das agências de notícia, em geral não exige tais conhecimentos. Passa então a comer milho na mão das agências. O Monde, por exemplo, quando manda um correspondente ao Irã, envia alguém que saiba falar farsi. Os jornais brasileiros se contentam com alguém que arranhe o inglês. Não posso deixar de lembrar uma correspondente internacional da Folha de São Paulo, que mandou um despacho de Zagreb, noticiando que a marinha croata estava bombardeando Dubrovnik. Ela via emissões da TV iugoslava e nada entendia do que ouvia. Ora, a Croácia jamais teve Marinha, pelo menos nos dias de Iugoslávia, e jamais um militar croata bombardearia a mais linda cidade croata.

É bom que o jornalista viaje. Quanto mais países conhecer, mais apto estará para o ofício. Todo jornalista deveria saber que o Irã não é país árabe e que mulheres árabes não usam chador. No entanto, lemos todos os dias que as árabes portam chador. Viajar também nos ajuda a conhecer nosso próprio país. O homem não conhece apenas vendo. Conhece comparando. Gosto muito de repetir uma frase de Chesterton: “não se conhece uma catedral permanecendo dentro dela”. Se alguém que jamais saiu do Brasil me diz conhecer o Brasil, não acredito. O país em que nascemos, só o conhecemos mesmo olhando de longe.

Vivemos dentro de uma cultura cristã. Para entendê-la, deve o jornalista ter sólidos conhecimentos do cristianismo. Não deposito muita confiança em jornalista que não saiba percorrer com segurança a Bíblia. Nem entendo como pessoa culta quem não a tenha lido. (Não estou falando, é claro, da leitura fanática dos crentes). Queiramos ou não, neste livro estão as bases da cultura ocidental, seus mitos e crendices, seus dogmas e ideais, seus horrores e suas virtudes. Conhecessem os jornalistas, já não digo a Bíblia, mas pelo menos os Evangelhos, não repetiriam essa solene bobagem que se repete – invariavelmente – em todos os natais e em todos os jornais do mundo, a crença absurda de que Cristo nasceu em Belém.

Certa vez, escrevi que os católicos, ao beber o vinho consagrado na Eucaristia, não estão bebendo um símbolo do sangue de Cristo, mas o próprio sangue. E ao ingerir a obreia de pão ázimo, não estão ingerindo um símbolo da carne de Cristo, mas a própria carne. Fui visto como demente. Ocorre que assim são os dogmas. Jornalista que não os conhece não entende nem mesmo uma missa, este ofício celebrado e repetido todos os dias, desde séculos. Diga-se de passagem, raríssimos são os católicos que entendem uma missa.

Estamos saindo de um século que foi dominado, de ponta a ponta, pelo marxismo. Não digo que seja necessário a um jornalista ter lido O Capital. Mas se não tiver boas noções da doutrina de Marx e – principalmente – se não conhecer a história do comunismo no século XX, não terá nem idéia do mundo em que vive. Aliás, se não conhecer a história do comunismo, não conhecerá nem mesmo o século XX. As redações estão cheias de jornalistas que são comunistas sem terem a mínima idéia de que o são. A universidade e a imprensa brasileira estão profundamente impregnadas de marxismo. Se o profissional não souber separar ideologia de informação, estará fazendo inocentemente o jogo da pior ditadura do século passado. Quando um maoísta histórico como Tarso Genro afirma que direito adquirido é um arcaísmo e a imprensa não reage, isto significa que os jornalistas engolem qualquer besteira que um ministro qualquer afirma.

É bom que o jornalista tenha razoáveis noções de Direito, principalmente de Direito Constitucional. Nestes dias em que o Congresso rasga a Constituição como quem rasga papel higiênico e os jornalistas aceitam a ruptura da Constituição com a mesma indiferença com que aceitam a ruptura de papel higiênico, não se pode apostar um vintém na confiabilidade da imprensa.

O jornalista há de ter coragem. Coragem é uma virtude sem a qual todas as demais perdem o sentido. Me dói o estômago quando vejo repórteres ouvindo mentiras óbvias e respostas incoerentes de autoridades, sem ao menos adverti-las que ultrapassaram todos os limites da boa lógica. Quando um presidente ou ministro diz uma besteira, que código de ética impõe ao jornalista o silêncio? Nenhum. Se o jornalista não pede explicações sobre uma impropriedade, é porque teme o poder. Se teme o poder, melhor faria que escolhesse outra profissão, para o bem geral da nação.

Um estudante de jornalismo pode achar que estou exigindo qualificações sobre-humanas de um comunicador. Nada disso. Estas qualificações necessárias a um jornalista em nada diferem das que julgo inerentes a um homem razoavelmente esclarecido. São matérias que um curso universitário não ensina. Por estas razões, em todos os países do Ocidente, é jornalista quem retira a maior parte de seus proventos do jornalismo. Ponto final. Só neste nosso país incrível, graças ao corporativismo de uma guilda corrompida, só é jornalista quem faz curso de jornalismo.

Para concluir, o jornalista tem de escrever com correção, clareza e precisão. Isto tampouco se aprende na escola. Escrever bem faz parte dos atributos de quem pensa com correção. Quem escreve mal não pensa bem. E mais uma vez o jornalista se confunde com o homem esclarecido.

Last but not least, boas noções de grego e latim não fazem mal a ninguém.

 

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Quarta, 14 Junho 2006 21:00

Saudades do Obdulio

Você conhece algum país que faça feriado em dia de jogo de sua seleção? Se disser que conhece, vou dizer que você se engana. Esta vergonha é nossa e exclusivamente nossa.

Em 1971, residindo já há seis meses em Estocolmo, fui à polícia de Imigração renovar meu bosättningtillstånd. Melhor nem pronunciar a palavrinha, vai soar meio esquisito em português. Em todo caso, significa permissão de residência. Konstapel é o título que se dá ao policial. Registrei este momento em meu romance Ponche Verde.

- Nacionalidade?

- Brasileira.

- Ah! Então o senhor quer asilo político?

- Oh não, jag ska tacka nej, como pode muito bem ver Herr Konstapel, nesse formulário peço apenas uma permissão de estada, agradeço a generosa oferta, que aliás é pertinente. Meu país vive uma ditadura, sei disso, os dias não são os melhores para quem pensa e escreve o que pensa. Mas antes de fugir de ditaduras, Herr Konstapel, estou fugindo do país todo, fujo exatamente daquilo que para vossos patrícios é sinônimo de charme e exotismo, fujo do carnaval e do futebol, do samba e da miséria, da indigência mental e da corrupção, quero tirar umas férias do subdesenvolvimento, viver em um território onde o homem sofre os problemas da condição humana e não os da condição animal. Muito antes de os militares tomarem o poder, min Herr, eu já não suportava os civis. Veja o Sr., meu povo morre de fome e todos sorriem felizes e desdentados quando um time de futebol bate outro, se bem que a coisa não é assim tão tétrica como a pinto, veja bem, lá também existe luxo, requinte, hotéis que talvez fizessem inveja aos de vosso rico país, mansões de sonho isoladas da miséria que as envolve por arames farpados, guardas e cães, há cronistas sociais que acendem charutos com notas de cem dólares e homens catando no lixo restos de podridão para comer. E não fujo só do Brasil, Sr. Policial Superdesenvolvido, fujo também de minha condição de jornalista, pertenço a uma classe que se pretende de esquerda e entorpece multidões com doses cavalares de ... futebol.

Ou seja, não é de hoje que abomino o Brasil do futebol. Os suecos imaginavam que eu fugia do regime militar. Nada disso. Razões bem anteriores à ditadura me faziam detestar essa idiossincrasia de meu país. Em uma festa em Estocolmo, um Svenson puxou conversa comigo. Queria saber do Garincha, do Pelê, do Jairssinho. Disse-lhe que estava na Suécia exatamente para não ouvir falar dessa gente. “Então não temos mais nada a conversar”, disse-me. Varsågod, min kära! Como queira, meu caro. E fui juntar-me às tjejers, elas pelo menos não estavam interessadas em futebol. Não era a ditadura que me afastava do país. Ditaduras passam. O futebol é eterno.

Em outras viagens, sempre perambulei com a praga pregada às costas. No aeroporto de Bucareste, um guarda de fronteira, mal viu meu passaporte, abriu em um sorriso afável sua cara de laje e disse: “Pelê”. Ao entrar em Berlim oriental, outro cara de laje, após olhar um minuto para minha foto e mais um minuto para meu rosto (e aí você vê quanto custa a passar um minuto), também sorriu: “Pelê”. Nas montanhas de El Hoggar, no Saara argelino, senti nos olhos de um funcionário embuçado um brilho alegre ao ver que meu passaporte era do país de Pelé. Todos os esforços do Brasil para constituir-se como nação, toda a história nacional, todas as instituições brasileiras resumiam-se a uma palavrinha de quatro letras. Pelé passou. Em minhas últimas viagens, tive de suportar outra: Ronaldinho.

Ora, direis, o cronista abomina o futebol. Nada disso. Considero o futebol um esporte muito plástico, bonito, inteligente e mesmo excitante. Joguei muito futebol em meus dias de guri. (Eu era bom. Certa vez, até mesmo fiz um gol). O que abomino é a passionalidade. Li em algum lugar que, no século passado, um time na Inglaterra aplaudiu uma jogada brilhante do adversário. Eu, que nunca em minha vida entrei em estádio algum, gostaria de estar lá nesse dia. Isto é civilização.

Mais que o fanatismo, abomino esta mania tupiniquim de associar o futebol à nação. Toda época de copa, vivo meus dias de nojo. Já não se pode ir a um restaurante sem ter de suportar os patrioteiros berrando a cada gol. O verde e amarelo torna-se emético. Pessoas aparentemente inteligentes viram de repente brutos fanatizados. Nem precisa o Brasil jogar. Qualquer jogo é aquecimento para o dia em que a pátria entrar de chuteiras no campo. E ai de você se pedir a um garçom para baixar o volume da TV. Passará por inimigo da nação. Isso se não for corrido do restaurante.

De uma forma que lógica alguma explica, cada vitória do Brasil é vista como uma vitória do governo no poder, seja lá qual governo for. Assim foi nos dias de Médici, assim é nestes dias do Supremo Apedeuta. É como se o presidente e seus ministros tivessem suado a camiseta nos estádios. Cientes deste vício deste povinho infame, os governantes se apressam em colar-se à seleção. A copa passa a ser um fator eleitoral. Nestes dias, ninguém mais lembrará que o PT montou a mais vasta quadrilha de toda a história do país, que o presidente acha algo perfeitamente normal o caixa dois, como nada vê de mal no fato de seus filhos enriquecerem com tráfico de influência. Ninguém mais lembrará dos assassinatos em série do PT, nem do financiamento estatal à guerrilha católico-marxista. Muito menos dos ministros escorraçados de seus ministérios por participação na quadrilha. Tudo será borrado da memória nacional. Depois da copa, começa-se de zero.

Pior é o espetáculo da imprensa. Jornalistas, que por questão de ofício deveriam ser profissionais lúcidos, transformam-se em palhaços abobalhados que só repetem lugares comuns e frases vazias. Passamos a viver em pleno império das nulidades. Os jornais passam a dedicar cadernos inteiros à crônica ... do nada. Rádio e televisão ministram todos os dias doses colossais de anestésicos. Em falta de assunto, criam-se tragédias em torno às bolhas no pé de uma vedete qualquer, à lesão no menisco de outro analfabeto. Saudades dos anos 50. Outro dia, pesquisando jornais da época, tive o grato prazer de constatar que, naqueles dias, futebol não entrava na primeira página dos jornais.

O que me afasta do futebol é o fanatismo do povinho, dizia. Paradoxalmente, nestes dias de copa viro torcedor. Desde que me conheço por gente, em todas as copas, sempre torci... pela derrota do Brasil. Torço especialmente nas oitavas, quando uma derrota significa exclusão da competição. Mas também não me desagrada ver o Brasil goleado em uma semifinal ou final. Assim sendo, ergo minhas preces neste início de campeonato pela vitória da Croácia. Hrvatska, em croata. País com um nome assim bem merece uma vitória. Além do mais é país de fraldas, tem pouco mais de dez anos de vida. Que viva a Hrvatska! Uma taça lhe viria bem para apresentar-se ao mundo. Se a Hrvatska não contiver o Brasil, deposito minhas esperanças nos demais adversários pela frente. Se, na pior das hipóteses, o Brasil chegar à final, rezo para que um Obdulio Varela ressurja das cinzas para terminar a copa com fecho de ouro. Nestes dias de tão raras boas notícias, peço aos deuses um presente para mim mesmo. Uma derrota, de preferência humilhante, de meu país. Se ela ocorrer, o leitor já pode imaginar meu sorriso imenso e feliz.

Você conhece algum país que faça feriado em dia de jogo de sua seleção? Se disser que conhece, vou dizer que você se engana. Esta vergonha é nossa e exclusivamente nossa.

Você quer torcer pelo Brasil? Torça. Mas quando estiver gritando “pra frente, Brasil!” preste atenção ao eco: “Lula 2006”.

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