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Janer Cristaldo

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

Segunda, 23 Outubro 2006 21:00

Ad Usum Delphini

Nada mais prazeroso para um homem honesto do que falar de si mesmo – diz um dos personagens de Dostoievski. É muito fácil soltar um insulto ao vento – fulano é infame. Ainda mais quando não se explica porque.

Em minha última crônica, reproduzi trechos do livro Memórias Sexuais da Opus Dei, de Antonio Carlos Brolezzi, ex-numerário da organização. Tenho recebido não poucas mensagens de protesto, nas quais sou pichado ora como ateu, ora como herege, ora como infame. Houve até mesmo quem sugerisse que devia escrever em jornais bolcheviques. Ateu, creio que todos saibam que sou, e não vejo nenhum desvalor nisso. Vivemos em um Estado laico, não? Longe vão os tempos em que ser ateu era o caminho mais rápido para a fogueira. Ou alguém quer voltar àquela saudosa era?

Quanto a me recomendar para a imprensa comunista, creio que o leitor jamais deve ter lido as dezenas de crônicas que escrevi – já não digo ao longo de minha vida, mas pelo menos neste jornal – contra os bolches e seus compagnons de route. Nossa época está cheia de madalenas arrependidas, que um dia lutaram pela ideologia comunista e hoje fazem confiteor. Nunca fui madalena e muito menos arrependida. Quando havia abandonado o cristianismo, lá pelos 17 anos, fui cercado pelos camaradas. Perderam seu tempo. Eu já estudava filosofia e tinha elementos suficientes para julgar a precariedade do marxismo. Em meus dias de universidade, um amigo me definiu: “tu estás contra toda tua geração”. Levei alguns anos para entender a frase. Ele queria dizer que eu não era marxista.

Curiosamente, não li uma palavra sequer contra o depoimento de Brolezzi, o cerne de minha crônica e autor das denúncias contra a Opus Dei. Verdade que, ao final da crônica, dei um rápido depoimento pessoal de meus dias de juventude, quando os padres queriam reprimir minha sexualidade. (O que foi muito oportuno, pois reagi e joguei fora a doutrina toda). Mas minhas considerações são apenas uma nota de pé de página ao livro do atormentado ex-numerário. Há quem fale, vagamente, em calúnias contra a Opus. Ora, se são calúnias, que se processe o autor. No entanto, pela reação de alguns leitores, parece que o autor do livro é este que vos escreve.

Isto é o de menos. O que me espanta nessas mensagens todas é o desejo expresso de expulsar-me do MSM. “Sinceramente não consigo entender, não consigo captar, a razão da couraça de proteção que este MSM estende por sobre o tal Janer Cristaldo, o infame. Pela segunda vez uma minha mensagem de protesto contra um, digamos, artigo deste senhor não foi publicada, e nem sequer tive a delicadeza de receber uma resposta. Este site é conservador? É mesmo? Então por que vocês insistem em proteger as blasfêmias deste tal Cristaldo, o infame”. Sintomático que o leitor tenha me pespegado o adjetivo infame. Era o mesmo empregado por Voltaire, quando bradava: Écrasez l’infâme! (Esmaguem a infame). Só que infame, para Voltaire, era a Igreja Católica.

Nada mais prazeroso para um homem honesto do que falar de si mesmo – diz um dos personagens de Dostoievski. É muito fácil soltar um insulto ao vento – fulano é infame. Ainda mais quando não se explica porque. O leitor me acusa de blasfemo. Ao que tudo indica, porque teço críticas à Igreja Católica. Ora, se assim for, boa parte da humanidade é blasfema, pois críticas à Igreja é o que não falta ao longo da História. Blasfemos seriam também os judeus, os luteranos, os protestantes, os evangélicos, isso sem falar nos marxistas, pois houve época – antes que padres católicos optassem pelo marxismo – em que os comunistas eram inimigos declarados do Vaticano. Eu fui católico, conheço bem a doutrina católica, tenho toda uma estante em minha biblioteca sobre religiões, cristianismo e catolicismo e não costumo pregar prego sem estopa. Dessa estante constam várias bíblias, mais a Torá, mais a bíblia judaica (recentemente editada no Brasil) e também um Alcorão. O leitor em questão, citando Gustavo Corção, me compara aos “cretinos de O Pasquim”. Mais respeito, por favor. Eu conheço o tema sobre o qual escrevo e nada tenho a ver com aqueles moleques medíocres das esquerdas de Ipanema.

Que leitores discordem do que escrevo, entendo. Acho muito engraçado quando um leitor me escreve: “desculpe discordar, mas...” Ora, discordar é direito inalienável de todo leitor. Ninguém precisa pedir desculpas para discordar. Diga-se de passagem, gosto quando leitores manifestam discordâncias. Caso contrário, estaria escrevendo para mim mesmo. Que me contestem e me xinguem, também entendo. Mais difícil de entender é que pretendam calar-me. A impressão que tais leitores me passam é que querem um jornal ad usum Delphini. Aos jovens que chegaram tarde – ou não chegaram – às aulas de latim, explico. A expressão tem suas origens na França, onde vinha estampada na capa dos textos clássicos destinados à instrução do filho do rei Luís XIV, herdeiro do trono, dito o Grande Delfim. A coleção ad usum Delphini compreendia 64 volumes, censurados pelo duque de Montausier, sob a supervisão de Bossuet, um dos principais teóricos do absolutismo por direito divino.

Neste sentido, os zelosos guardiões da fé cristã em nada se distinguem dos velhos marxistas. Após 64, surgiram vários jornalecos católicos ou marxistas – Brasil Urgente, Movimento, Opinião, Versus – nos quais a uniformidade de pensamento era de um tédio atroz. Os artigos todos desses jornais levavam sempre a uma só conclusão e quem lia uma edição havia lido todas. Seus leitores os liam apenas para reforçar o que já pensavam. Não encontrávamos surpresa alguma em seus textos, nenhuma idéia nova, ou pelo menos diferente, que mais não fosse. É o que parecem pretender certos leitores deste jornal: uma uniformidade de exército, uma proibição a qualquer olhar diferente. Mestre Corção – como diz o leitor – cita a epístola de São Paulo aos Gálatas: “Ainda que eu mesmo, ou um anjo descido dos céus, vos anunciasse outro evangelho e não este que vos anunciei, seja anátema”.

Seja anátema para os cristãos, meu caro. Vivemos em um mundo plural e não me parece que o MSM seja porta-voz de qualquer religião. Leio dois ou três jornais por dia e eles estão repletos de reportagens ou artigos que não me agradam. Não será por isso que deixarei de lê-los. Pelo contrário, é por isso que os leio. Preciso saber o que pensam apparatchiks como Frei Betto, Leonardo Boff, Marilena Chauí, Tarso Genro, Emir Sader, preciso saber até mesmo o que Lula pensa que pensa. Se desconheço o que pensam os velhos bolcheviques, não tenho argumentos para combatê-los. Minha biblioteca, além de abrigar centenas de obras cristãs ou católicas, concede também um largo espaço aos autores comunistas. A derrota é certa quando não se conhece o inimigo.

Meu fanático leitor me faz lembrar um colega marxista de jornal, em meus dias de Caldas Júnior, em Porto Alegre. Estávamos em 73, por ocasião do golpe no Chile e ele fazia plantão no Correio do Povo. Quando se tornou inevitável a queda de Salvador Allende, ele não teve dúvidas: desligou o telex. Estabeleceu seu próprio ad usum Delphini. Como se, interrompendo o fluxo de notícias, conseguisse desviar os rumos da História. Dia seguinte, o editor teve de pedir ao jornal concorrente os telegramas das agências internacionais.

Meus fanáticos leitores (falo no plural porque vocês são legião): esse desejo de um jornal de pensamento único em nada difere do sonho de tiranos do século passado, desde Stalin a Mao, passando por Envers Hodja, Pol Pot, Ceaucescu e Fidel Castro. Vocês caíram em país errado. Uniformidade de pensamento, hoje, só na Pravda, no Gramma, no Osservatore Romano. Vocês pedem uma imprensa que o PT adoraria ter. Neste Brasil de hoje, nem vocês nem o PT a terão.

Quarta, 18 Outubro 2006 21:00

A Carne é Forte

A carne é fraca – diziam os padres e moralistas de meus dias de colégio. Sempre discordei deste axioma. A carne é forte, penso, tanto que tem sido fator de libertação de milhares de pessoas da opressão do obscurantismo.

São Paulo tem mistérios. Acabo de ler um depoimento insólito, relato que imaginaríamos situado nalguma aldeia espanhola ou italiana, há uns dez séculos atrás, em plena Idade Média. No entanto, acontece nesta metrópole, em pleno século XXI. Falo do livro Memórias Sexuais no Opus Dei, de Antonio Carlos Brolezzi. Não é livro que eu recomende a quem anda em busca de boa literatura. Apenas para quem gosta de informar-se sobre os abismos da miséria humana.



Brolezzi, 40 anos, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP, casado pela segunda vez e pai de uma filha, é mais uma destas pessoas que, sem ter maiores conhecimentos de história ou filosofia, caiu nas mãos de uma seita de fanáticos. Pertence àquela estirpe de pessoas como Salvador Dali, Luiz Carlos Prestes e Louis Althusser, que só foram conhecer sexo tardiamente. No caso em questão, aos 30 anos. Convidado para um curso de Astronomia por professores da USP, foi aos poucos cooptado para a Opus Dei.



“Quando eu entrei na USP para cursar Matemática começaram a me ligar, não me deixavam em paz um segundo. Criaram uma crise artificial de vocação. Vendem que somos especiais, que temos uma luz na testa, e ficamos seduzidos. Passamos a ter acesso a uma porta secreta, mostram uma sala onde só eles se reúnem. Você passa a ter uma vida secreta, não pode contar a sua família”.



Brolezzi entrou para a Opus Dei aos 19 anos, sem jamais ter tido uma relação sexual, e logo chegou à condição de numerário, isto é, integrou-se oficialmente à organização. Uma vez nela, não podia olhar para mulheres, tinha de cuidar-se nos ônibus ou metrô para não roçar os seios de alguma mulher, suas leituras de jornais ou revistas eram previamente censuradas por seus superiores. Não estava autorizado nem mesmo a ler outdoors. Em tais confinamentos de jovens, a masturbação obviamente é a regra. Brolezzi tinha um curioso método para a prática, desenhava uma vagina em um caderno. Seu confessor ficou intrigado: como ele sabia desenhar a coisa, se nunca havia visto uma? “Eu disse que imaginei como se fosse uma boca, só que na vertical”.



As restrições à masturbação na comunidade nos fazem voltar ao século XVIII, mais precisamente a 1710, quando o Dr. Tissot escreveu um dos clássicos da literatura obscurantista, L’Onanisme – dissertation sur les maladies produites par la masturbation. Neste monumento à estupidez humana, o autor nos mostra diversos aparelhos para impedir o onanismo, entre eles um cinturão e um colete antimasturbação, que serviam para impedir o toque do pênis. Para mortificar a carne, todo numerário devia portar, duas horas por dia – e todos os dias, exceto domingos e festas – um cilício, uma malha pontiaguda amarrada na coxa, que fere a pele com pontas de metal. Aos 60 anos, lhes é concedido o privilégio de não mais tomar banhos frios. Para evitar os atos solitários, seu confessor recomendou-lhe costurar uma camisa de flanela a um jeans e vestir o conjunto com o lado posterior pela frente, de modo a não ter acesso ao próprio sexo. Como em 1710, a masturbação continuava a ser vista como doença mental.



Tais precauções obsessivas com a sexualidade só produzem uma coisa: comunidades de erotômanos. A masturbação era moeda corrente. Sendo pecado mortal, os numerários não podiam comungar sem antes serem absolvidos pela confissão. A imensa fila nos confessionários tornava-se algo humilhante, pois denunciava os pecadores. Para afastar as tentações, Brolezzi adormecia rezando o terço. Em certas ocasiões, acordava com o instrumento de preces enrolado no instrumento de pecado.



Brolezzi fez mestrado na USP, entrou em ano de doutorado e, apesar do contato diário com suas colegas, continuava sem saber o que fosse a tal de vagina. Neste ponto da leitura, uma pergunta me passou pela cabeça. Como pode alguém viver numa metrópole sem ter idéia do que seja uma vagina, afinal elas estão mais ou menos expostas em qualquer banca de jornais? Minha pergunta era pertinente. Os membros da Opus Dei estão proibidos de olhar bancas de jornais e mais ainda, devem desviar de calçada se vêem uma pela frente. As restrições à leitura são de tal ordem que a própria bibliografia do doutorado em matemática tinha antes de ser revisada pelo seu confessor. Aos 30 anos, virgem ainda, foi levado por uma menina a um motel. Aconteceu o que seria de esperar-se, não conseguiu consumar a coisa.



Fiz meu ginásio em um colégio de oblatos e entendo as angústias de Brolezzi. Cilício e macacão anti-masturbação à parte, vivi todas estas peripécias. Pecado, confissão, absolvição, contrição, estado de graça. E de novo a monótona sucessão: pecado, confissão, absolvição, contrição, estado de graça. Vivia em permanente tensão, sempre em pânico antes de cada confissão, sempre humilhado pelo confessor a cada fim-de-semana e sem nunca chegar a um equilíbrio entre mim e meu sexo. As piores noites eram as de tempestade. Direis que eu era um megalomaníaco. Até pode ser. O fato é que a cada raio que caía dos céus eu sentia que o Deus todo-poderoso os endereçava a este temeroso pecador.



Até que um dia decidi ler a Bíblia com espírito crítico. Encerrei-me por três dias em meu quarto e, ao sair do quarto, estava liberto de toda aquela tralha opressiva. Não havia nada na Bíblia que determinasse aquelas punições tremendas mencionadas nos catecismos. Minha sexualidade deixou de ser sofrimento, mas motivo de alegria. Abandonei a idéia de pecado e de ilhapa também a de Deus. Bem entendido, isso ocorreu há mais de meio século atrás. Libertei-me cedo dos grilhões e tratei de recuperar o tempo perdido.



Falei de início nos mistérios de São Paulo. É espantoso constatar que estas torturas se repetem hoje, 2006, no espaço de uma megalópole cosmopolita, onde o sexo é onipresente nas ruas, praias e parques, bancas de jornais, outdoors e mesmo no vestuário das transeuntes. Mas a Opus é algo muito maior e nada tem a ver, em suas origens, com São Paulo. Foi fundada em 1928, pelo espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, monsenhor recentemente canonizado por João Paulo II. Segundo o vaticanista John Allen Jr., a Obra tem 85 mil seguidores (1.700 no Brasil), um patrimônio na casa do 2,8 bilhões de dólares e milhões de admiradores. A Opus sempre procurou se manter oculta e, não fosse o depoimento de suas ovelhas desgarradas, não teríamos conhecimentos destas barbaridades inconcebíveis no Ocidente hodierno. Depois ainda há quem se escandalize quando os muçulmanos cortam o clitóris de suas mulheres ou quando fustigam os próprios corpos até brotar sangue. A estupidez, além de universal, parece ser eterna.



A carne é fraca – diziam os padres e moralistas de meus dias de colégio. Sempre discordei deste axioma. A carne é forte, penso, tanto que tem sido fator de libertação de milhares de pessoas da opressão do obscurantismo. Aconteceu comigo, aconteceu com seminaristas e padres que não suportaram viver em conflito com o próprio corpo. Expulso do ginásio dos oblatos, antes de abandonar definitivamente a crença nas coisas do Além, militei algum tempo em JEC e JUC. Tive contato com padres mais abertos e até hoje lembro com afeto do Carlos Pretto, que costumava dizer: “Mulher e religião não se discute, se abraça”. Era também dele a frase: “Se batina fosse bronze, que badaladas!”



Praticamente todos os padres que tiveram contato conosco – isto é, com jovens, moças e rapazes – acabaram largando a batina. Não conseguiram resistir à tentação daquelas militantes árdegas e todas hormoniosas que lhes confidenciavam seus pecados mais íntimos no silêncio das sacristias. “É vício qualquer tipo de antinatureza” – escreveu Nietzsche. “A mais viciosa espécie de homens é o padre: ele ensina a antinatureza”.



Brolezzi, o doutorando da USP que não sabia como era o sexo feminino, libertou-se. Graças à carne. Quantos de seus colegas de Opus ainda não se torturam com o cilício e a abstenção sexual? Difícil saber. O que importa saber é que esta nossa época, tão científica e tão cheia de luzes, ainda abriga monstros morais dos tempos de Tissot.

Quarta, 11 Outubro 2006 21:00

Não Minta, Presidente!

O debate de domingo deu novo alento ao eleitorado que está farto de um governo atolado até o pescoço em corrupção e que pode ser reeleito graças à corrupção miúda que promove entre os mais pobres.

Sexta-feira passada, eu escrevia em meu blog:

Leio no noticiário que o presidente do PT, Ricardo Berzoini, anunciou nesta sexta-feira seu afastamento da presidência do partido. O anúncio foi feito por ele, assim que terminou a reunião da Executiva Nacional do PT. O motivo da renúncia, obviamente, foi a affaire do dossiê. Ué? Mas o caso do dossiê não era coisa do PT paulista, como afirmava Tarso Genro, o Explicador-Geral da República? A cada vez que os petistas tentam explicar o inexplicável, enredam-se cada vez mais. A grande pergunta é de onde surgiu o 1,7 milhão apreendido e destinado à paga do dossiê. Até o Supremo Apedeuta diz querer ver o caso esclarecido. Diz querer ver. Pois se quisesse realmente saber, bastaria uma atitude singela: perguntar aos petistas envolvidos de onde surgiu tanta grana. Domingo, temos debate entre Lula e Alckmin. Fosse eu Alckmin, esta seria a primeira questão que proporia a Lula. Se não propuser, terá sido por covardia ante o poder.

Alckmin não se acovardou. Propôs a pergunta e a propôs em primeiro lugar. Daí para frente, foi uma pancadaria só, que mal dava ao adversário tempo de respirar. O chamado Picolé de Chuchu, sempre com ar de aluno primeiro da classe, revelou-se um pugilista contundente e implacável. E foi desfilando diante de um Lula atônito, semiparalisado pelo estupor, todo o rol de patranhas do PT, mensalão, valerioduto, envolvimento do banco BMG. Verdade que faltaram muitas: o assassinato de Celso Daniel, do Toninho do PT, o favorecimento do Primeiro-Filho com 15 milhões de reais da Telemar e por aí vai.

Golpeado e sempre se atrapalhando com as palavras, Lula respondeu que quer saber, mais do que ninguém, “quem arquitetou esse plano maquiavélico”, quer saber o conteúdo do dossiê e a origem do dinheiro. Ora, por maquiavélico se entende algo bem arquitetado, e não o um desastre montado por três ou quatro patetas. Lula está escandalizado porque o “plano maquiavélico” falhou. Não falhasse, estaria gozando os frutos da tramóia. Quanto ao conteúdo, está amplamente divulgado na Internet. Quanto à origem do dinheiro, que é o que agora realmente importa, nada impede que o presidente pergunte a seu banqueiro-churrasqueiro: “cá entre nós, companheiro, a picanha está no ponto. Mas de onde veio mesmo aquela grana toda?”

Tentando defender-se canhestramente, Lula disse não ser policial, mas presidente da República e garantiu que a Polícia Federal irá descobrir a origem do dinheiro. "Uma investigação séria é demorada", concluiu. Ora, poderia ter recorrido aos préstimos de seu ex-ministro Antonio Palocci, que em 24 horas descobriu a colossal fortuna amealhada por um humilde caseiro nordestino. 25 mil reais se descobre na hora. 1,75 milhão, com um pacote de dólares no meio, é bem mais demorado.

“Não minta, Lula!” – disse Alckmin. Estou entrando nos 60 anos e pela primeira vez em minha vida tive o prazer de ver um opositor dizer isso a um presidente da República. Lula mentiu desde sempre, desde os dias de sindicalista até hoje. Mentiu quando vociferava contra o FMI. Hoje paga até mesmo o que nem é cobrado. Mentiu quando vociferava contras as medidas provisórias e hoje tornou-se campeão na emissão de medidas provisórias. Mentiu quando dizia defender o funcionalismo público. Mal subiu ao poder, enfiou a mão no bolso dos aposentados. Mentiu desde sempre porque está envolto em uma mentira maior, o Partido dos Trabalhadores, onde trabalhadores mesmo é o que mais falta. O PT é um partido organizado por intelectuais saudosos do bolchevismo. Precisavam de um operário como ícone e apanharam o que estava mais à mão, o mais dócil, o mais manipulável. Ocorre que o operário mais à mão estava cansado de ser operário e quando foi eleito já vivia por duas décadas escorado no mecenato de um empresário. O PT pretende que um operário chegou ao poder em 2003. Nada disso. Chegou ao poder um desocupado.

Em entrevistas televisivas, sempre vi os jornalistas engolindo as mentiras esfarrapadas de Lula, como se algum código deontológico determinasse que um jornalista tem de aceitar passivamente as potocas que um entrevistado lhe conta. Pela primeira vez em minha vida, tive a chance de ver e ouvir de um candidato aquilo que há muito deveria ter sido dito. “Não minta, Lula!” Lula recebeu a reprimenda como um menino envergonhado de suas artes. O problema é que não são artes, mas crimes.

Recorrendo a suas metáforas toscas, disse o Supremo Apedeuta: "Nem um presidente, nem um pai de família tem como saber de tudo. Quantas vezes, você está na cozinha, acontece algo na sala, e você não fica sabendo". Sem falar que um pai de família precisa ser ceguinho de carteira para não saber o que acontece na sala, não se pode admitir que um presidente da República, que dispõe de serviços de informação muito bem equipados, não saiba o que acontece em seu partido ou nas salas contíguas à sua.

“Se os companheiros erraram, têm de pagar”, disse o Supremo. Sempre evitando cuidadosamente a palavra crime. Como fazia Josiph Vissarionovitch Djugatchivili após seus massacres. “Nós erramos”, dizia Stalin. Um erro se corrige com uma admoestação, um pedido de desculpas. Crime é mais grave. Os petistas têm cometido crimes em sua tentativa desesperada de manutenção do poder e contam com um capo complacente, sempre o primeiro a definir crimes como erros.

O PT está intuindo as futuras conseqüências de seus crimes. No dia 02 deste mês, antes mesmo do debate, um dos cães de guarda do regime, Ciro Gomes, ameaçava com guerra civil: "Se a população brasileira mais pobre sentir que, mesmo por dentro das instituições, uma prática golpista tirou a possibilidade de Lula se eleger, eu temo realmente pelo dia seguinte que o Brasil vai viver". Ou seja, a oposição pode disputar uma eleição. Desde que não a ganhe. Se ganhar, é golpe. Os aprendizes de tirano aprendem rápido suas lições de casa e pensam mais longe que o próprio chefe.

Nesta segunda-feira, na Folha de São Paulo, Ciro volta a dizer que teme pelo que pode ocorrer caso Lula perca estas eleições devido às acusações de corrupção. “Imagine se esse povão achar que tomaram a eleição do Lula por manipulação de um escândalo pela televisão?” Ocorre que o escândalo não foi produzido por nenhum opositor e sim pelo próprio PT. Desconfortáveis com a idéia de ter dado um tiro – um canhonaço, eu diria – no próprio pé, os áulicos de Brasília pretendem que tenha sido a oposição quem puxou o gatilho. O PT está cheio de cadáveres no armário e não encontra um jeitinho plausível de trazê-los à luz do dia.

O debate de domingo deu novo alento ao eleitorado que está farto de um governo atolado até o pescoço em corrupção e que pode ser reeleito graças à corrupção miúda que promove entre os mais pobres. Fosse eu Alckmin, no próximo debate começaria com uma primeira pergunta: como é que é, presidente, ainda não conseguiu descobrir a origem daquele 1,7 milhão?

Somos todos ouvidos.

Segunda, 02 Outubro 2006 21:00

A Memória do Burro

Conheço não pouca gente que considera um acinte a reeleição de Lula. Penso diferente. Acinte foi sua eleição. Bem ou mal, o Brasil é uma nação dinâmica, com pretensões à modernidade. E houve por bem eleger o rebotalho do socialismo.

Recebi não poucas mensagens nas últimas semanas, todas elas transbordando de indignação, contra Lula e o PT. Em uma delas, uma senhora diz ficar pasma "há mais de um ano" ao ligar o televisor. Mas e nos anos anteriores, minha senhora? Não tinha televisor ou tinha e não ficava pasma? Tais mensagens não me convencem. A indignação é tanta que não pode ser tanta. Mais me parecem lágrimas fingidas de quem um dia votou no PT e hoje não ousa confessar que votou.

Indignado, também estou. Mas não é de hoje. Estou indignado há uns bons trinta anos. Antes mesmo de o PT existir, eu denunciava o PT. Explico. O PT nasceu em 1980. Ora, desde 75, quando colunista da Folha da Manhã, em Porto Alegre, eu desfechava minhas baterias contra senhores como Marco Aurélio Garcia, Tarso Genro, Flávio Koutzii, Luiz Pilla Vares, os pais fundadores do partido no Rio Grande do Sul. Sem falar no que escrevi contra a ideologia que os alimentava. Contra o Tarso, o que escrevi daria uma pequena antologia. Que eram todos comunistas, até as pedras da Rua da Praia sabiam. Mas ai de quem dissesse que eram comunistas! Era um infame delator, um reles dedo-duro. Em pleno regime militar, ser comunista servia como escudo protetor.

Entendo que um adolescente, lá pelos anos 80, votasse no PT. Um jovem ainda não teve tempo de ler o necessário para visualizar o DNA do partido. O PT é filho de uma partouse entre a Igreja Católica e os diversos grupos comunistas e anarquistas que vicejavam no Brasil. Conseguiu consolidar-se uma década antes da queda do Muro. Tivesse surgido depois dos anos 90, não teria cacife para chegar ao poder.

Que pobres diabos que se beneficiam de esmolas estatais votem no PT, isto também entendo. O que não se entende é ver pessoas adultas e bem informadas, intelectuais, funcionários públicos e professores universitários votando em um partido que nasce obsoleto, em um candidato tosco e semi-analfabeto. Pior ainda, que ostenta como virtude sua falta de instrução. Verdade que desde fins do século XIX alimentou-se o mito da salvação pelo proletariado. Ora, os eleitores de hoje tiveram mais de um século para constatar que proletários não salvam ninguém. O PT nasceu no Estado mais politizado do país, embalado pela USP e pela Igreja. Por essa mesma USP que foi a grande difusora do marxismo no Brasil e por essa mesma Igreja que o adotou através da sedizente Teologia da Libertação. A eleição de Lula, apoiada pelas elites intelectuais do país em pleno século XXI, significou que estas elites ainda vivem espiritualmente no século XIX.

É corrente afirmar-se que Lula comprou o voto de milhões de miseráveis com a bolsa-família. Claro que comprou. Mas o bolsa-família é extensão e cópia dos programas assistencialistas de Fernando Henrique Cardoso, como o PETI, bolsa-escola, vale-gás. O aprendiz de caudilho gostou da idéia, ampliou-a e deu-lhe novo nome. Em vez de comprar deputados a varejo, preferiu comprar eleitores a granel. O povo tem a memória do burro, dizia Martín Fierro, que nunca olvida onde come. Fernando Henrique Cardoso engendrou Lula. As aposentadorias milionárias concedidas aos bandoleiros que tentaram um dia transformar o país em republiqueta soviética, se hoje oneram o Erário, não são criação de Lula, mas do Príncipe dos Sociólogos.

Lula tem um outro tipo de eleitorado que não ousa declinar o nome de seu candidato. São pessoas que, graças à política de juros do atual governo, enquanto sentam num bar sentem os reais pingando aos punhados em seus investimentos. Não por acaso, Lula foi chamado de pai dos pobres (por alusão a Getúlio Vargas, outro demagogo) e mãe dos banqueiros. Os banqueiros são minoria. Mas os investidores são muitos. Enquanto as bolsas do Ocidente e o Ibovespa gozam de boa saúde, é Lula na cabeça. Não importa que seja tosco. Se o que lucram são as migalhas que caem do banquete dos bancos, estas migalhas constituem razão mais do que suficiente para votar em Lula. É o voto envergonhado. Votar em Lula é feio para uma pessoa de bem. Mas o voto é secreto e ninguém fica sabendo em quem votou a pessoa de bem. Estes senhores quase liquidaram a fatura no primeiro turno.

Conheço não pouca gente que considera um acinte a reeleição de Lula. Penso diferente. Acinte foi sua eleição. Bem ou mal, o Brasil é uma nação dinâmica, com pretensões à modernidade. E houve por bem eleger o rebotalho do socialismo. As eleições foram agora zeradas e assumem um caráter plebiscitário. Não me espantaria que o Supremo Apedeuta as ganhe. Mentir sempre deu mais lucros do que falar a verdade. Tanto que um presidente implicado em toda sorte de falcatruas, diariamente denunciadas na imprensa, conseguiu nada menos que 48 % dos votos. Lula mente a cada palavra que diz, se contradiz a cada dois períodos, se julga um Cristo redivivo a cada acesso de megalomania. Nada disso foi suficiente para que os eleitores o repudiassem. Há quem ache, antes do tempo, que Lula perdeu as eleições. Perdeu o primeiro turno. Por enquanto, continua na posição de vencedor.

Quem perdeu mesmo as eleições foram os institutos de pesquisa. Desde o início da campanha, atribuíram a Lula uma vitória inconteste. Ao acaso: entre 22 e 25 de agosto, em pesquisa feita em 24 Estados, o CNT/Sensus dava a Lula 62,3% das intenções de voto. A três dias das eleições, os institutos Datafolha e Ibope lhe conferiam 53% dos votos válidos. Alckmin, nas pesquisas, só com muito boa vontade chegou aos 30%. Os resultados aí estão: Lula, 48,60 % e Alckmin 41,63 %. As pesquisas, que se pretendem científicas, trabalham sempre com uma margem de erro de dois pontos percentuais. O resultado superou de longe as margens de erro.

Que ninguém se iluda. País que elegeu um analfabeto pode perfeitamente reelegê-lo. Que me conste, o nível de inteligência nacional não aumentou em nada de 2002 para cá. Não vejo vergonha maior na reeleição de Lula. Vergonha é este senhor ter chegado aonde chegou.

Segunda, 25 Setembro 2006 21:00

Os Croissants e a Arrogância dos Sarracenos

O mundo muçulmano demonstrou uma arrogância insólita, ao protestar com violência contra um papa que nada mais fez senão citar fatos históricos.

Ainda o Islã: o mundo muçulmano demonstrou uma arrogância insólita, ao protestar com violência contra um papa que nada mais fez senão citar fatos históricos. Os europeus continuam comendo croissants todos os dias e parecem não mais lembrar da História.

Semana passada, um tribunal da Turquia inocentou a escritora Elif Shafak, de 35 anos, da acusação de insultar a identidade turca no romance O Bastardo de Istambul, lançado em março deste ano – dizem os jornais. Elif era acusada por promotores nacionalistas de infringir o Artigo 301 do Código Penal, segundo o qual um cidadão pode ser condenado a até três anos de prisão por denegrir a identidade nacional turca. Eles pediram a prisão dela porque personagens do livro usam a expressão “genocídio” ao se referir ao massacre de centenas de milhares de armênios nos anos finais do Império Otomano, durante a 1ª Guerra Mundial.

Que a escritora tenha sido absolvida é uma boa notícia. A má notícia é que tenha sido processada por palavras proferidas por personagens. O massacre de um milhão e meio de cristãos armênios por turcos muçulmanos é fato histórico incontestável. E ao massacre de uma etnia convencionou-se chamar genocídio. O espantoso nesta affaire é responsabilizar um ficcionista pelo crime do personagem. É como se o Estado levasse Dostoievski à barra dos tribunais pelo crime de Raskolnikoff, acusasse Gide pelo assassinato de Lafcadio ou responsabilizasse Camus pelo gesto de Meursault. Neste caso, com um agravante: a vítima de Meursault era um árabe. Racismo óbvio de Camus.

Imagine o leitor o drama de um historiador na atual Turquia. Sendo sua afirmação bem mais grave que a de um ficcionista, o historiador terá de pular o período entre 1894 e 1915, quando ocorreram as chacinas muçulmanas. Elif foi absolvida. Mas o artigo do Código Penal turco, no qual foi enquadrada, continua em vigor. “Se o artigo 301 for interpretado dessa maneira, ninguém mais poderá escrever romances na Turquia, ninguém mais poderá fazer filmes”, disse Elif. Outros escritores e jornalistas também estão sendo processados por promotores por acusações semelhantes. A Turquia é hoje um país partido em dois. Uma metade assume os valores ocidentais e a outra se refugia no Islã. O obscurantismo desta segunda parcela é o que até hoje dificulta a entrada da Turquia na comunidade européia.

Terça-feira passada, Pervez Musharraf, pediu para a ONU proibir a difamação do Islã, em discurso diante da 61ª Assembléia Geral das Nações Unidas. "É imperativo pôr fim à discriminação racial e religiosa contra os muçulmanos e proibir a difamação do Islã", disse o presidente paquistanês. Por difamação do Islã, Musharraf entende as declarações do papa Bento XVI que vincularam a fé muçulmana à violência. Como se o papa tivesse dito alguma novidade.

Aproveitando o embalo, os países muçulmanos pediram na ONU a abertura de negociações diplomáticas para a criação de um acordo internacional que proíba a difamação religiosa. Para Doudou Diene, relator de assuntos sobre racismo, os comentários do papa foram profundamente preocupantes. O Irã, por sua vez, alerta que o direito de expressão não é absoluto quando se trata de um debate sobre as religiões. No fundo, o que estes senhores querem é que seja apagada da História a memória do Islã, pelo menos no que se refere a massacres, execuções, escravidão e intolerância.

Se alguma autoridade política ou religiosa muçulmana não acredita que o Islã se expande a fio de espada, melhor começar jogando à fogueira a obra toda de Al Tabari (839-923), o mais famoso historiador muçulmano, que compila 62 expedições guerreiras entre 624 e 632, comandadas ora por Maomé, ora por seus subordinados. Imagine-se o escândalo dos mulás se Bento XVI comentasse a crônica de ataques, pilhagens, execuções, decapitações, tomadas de escravos, degolas, matanças de judeus, raptos de mulheres e crianças e destruição de ídolos de outras religiões que marcaram a vida do profeta.

Isso sem falar nos massacres que se estenderam desde o século VIII ao XX, na Índia, Egito, Turquia, Armênia, Espanha, Grécia, Paquistão, Tunísia, Marrocos, Iêmen, judeus da África do Norte, perseguições de budistas, conversões forçadas de judeus no Irã e no Iraque, captura de cristãos na Grécia, Sérvia, Bulgária, Armênia e Albânia, massacres na Geórgia, expulsão de judeus da Arábia Saudita. Isso sem falar na invasão da Península Ibérica em 711, em mais de um milhão e meio de europeus feitos escravos entre os séculos XVI e XVII e no cerco à Viena, no século XVII, quando foram derrotados. Fosse eu Sua Santidade, eu desfiaria este rosário de horrores em resposta ao Islã. Se quiserem negar tais fatos, que neguem sua própria história e contratem novos escribas para reescrevê-la. Mas Sua Santidade, por dever de ofício, tem de usar diplomacia.

Eu não tenho. Não sou pontífice, nada tenho a ver com pontes e posso dizer o que penso. Defendo desde há muito a tese de que esta arrogância muçulmana teve suas origens em 1989, quando o indiano Salman Rushdie publicou no Ocidente Versículos Satânicos. Embora fosse indiano com nacionalidade britânica, Rushdie foi alvo de uma fatwa de Khomeini, então todo-poderoso da "revolução" no Irã. Do alto de um minarete, o aiatolá condenou um cidadão europeu à morte.

A Europa aceitou tranqüilamente a sentença do aiatolá. Em vez de isolar o Irã, o Reino Unido passou a dar proteção a Rushdie. Os demais países da comunidade se mantiveram em silêncio obsequioso. Ora, não se tratava apenas de proteger um escritor perseguido. Mas de repudiar a pretensão megalômana de um padre persa, que pretendeu legislar inclusive no estrangeiro. A apostasia, ou crime, segundo os muçulmanos, havia ocorrido em Londres, com a publicação do livro. Khomeiny ordenou não só a condenação à morte - como também a execução da sentença - de Rushdie, assim como de todos os implicados na publicação do livro, em território europeu ou onde quer que estes "criminosos" estivessem.

Só a apatia dos países europeus pode explicar a reação desmesurada dos árabes, tanto às caricaturas anódinas de um obscuro jornal do sudoeste da Dinamarca como à citação pelo papa de uma evidência histórica. Se naquele momento as democracias ocidentais tivessem cortado relações com Teerã, provavelmente não estaríamos vendo hoje este escândalo hipócrita do mundo muçulmano.

Os europeus continuam comendo seus croissants, dizia. Os croissants são decorrência do ataque do Islã à Europa. Por ocasião do cerco muçulmano à Viena, os padeiros da cidade combinaram uma senha. Quando os mouros, empunhando o crescente e as cimitarras, se aproximassem da cidade, os pães teriam a forma da lua crescente. Pela escassa reação do continente à arrogância dos sarracenos, deduzimos que os europeus contemporâneos já não conhecem História e esqueceram a origem do pão que comem.

Terça, 19 Setembro 2006 21:00

Maomé, Espada e Cristo

Apesar do anti-semitismo e totalitarismo nele expressos, não houve escândalo maior na Europa e Estados Unidos. O pronunciamento do xeque foi absorvido como a manifestação de um fanático.

Em 13 de maio do ano passado, a TV da Autoridade Palestina transmitiu o sermão das sextas-feiras do xeque Ibrahim Mudeiris. Seleciono algumas pérolas do mesmo:

“Com o estabelecimento do Estado de Israel, a nação islâmica perdeu-se em sua totalidade, porque Israel é um câncer que se espalha por todo o corpo da nação islâmica e porque os judeus são um vírus semelhante ao da AIDS, da qual o mundo inteiro sofre as dores. (...) Vocês vão descobrir que os judeus estão por trás de todos os conflitos civis deste mundo. Os judeus estão por trás do sofrimento das nações.

“Nós já governamos o mundo antes e por Alá há de chegar o dia em que o dominaremos totalmente de novo. Há de chegar o dia em que dominaremos os Estados Unidos. Há de vir o dia em que governaremos a Inglaterra e o mundo todo - exceto para os judeus. Os judeus não gozarão de uma vida tranqüila debaixo do nosso domínio, porque são traiçoeiros por natureza, como têm sido por toda a história. Há de vir o dia em que todas as coisas ficarão livres dos judeus - até mesmo as pedras e as árvores que foram feridas por eles. Ouçam o Profeta Maomé que lhes fala sobre o maligno fim reservado para os judeus. As pedras e as árvores desejarão que os mulçumanos exterminem todo judeu.”



Alguns jornais do Ocidente noticiaram o sermão. Apesar do anti-semitismo e totalitarismo nele expressos, não houve escândalo maior na Europa e Estados Unidos. O pronunciamento do xeque foi absorvido como a manifestação de um fanático.

Terça-feira passada, o papa Bento XVI citou uma frase de um imperador do século XIV, Manuel II, o Paleólogo (1391-1425), dirigida a um estudioso persa: "Mostre-me então, o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrará coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega".

Continua o Sumo Pontífice: “Após ter atacado deste jeito, o imperador argumenta, então, pormenorizadamente, porque a propagação da fé através da violência é absurda. Ela está em contradição com a essência de Deus e da alma. ‘Deus não tem prazer no sangue’, diz ele, e agir de forma irracional contraria a essência de Deus. A fé é fruto da alma, não do corpo. Quem, portanto, pretende conduzir alguém à fé, precisa da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas não de violência e ameaça... Para convencer uma alma sensata, necessita-se não de seu braço, não de instrumentos de agressão nem de outros meios pelos quais se pode ameaçar alguém de morte ..."

O Islã todo eriçou-se mundo afora. Bento XVI foi comparado com Hitler e Mussolini. Egito e Marrocos chamaram seus embaixadores no Vaticano de volta para avaliar as declarações do papa. Na Caxemira, Índia, protestos são organizados diariamente. Na Cisjordânia, homens armados atacaram cinco igreja católicas. Na Líbia, religiosos afirmam que o insulto nos leva de volta à era das Cruzadas contra os muçulmanos, liderados pelos políticos e religiosos ocidentais. Na cidade de Gaza, na Palestina, duas mil pessoas saíram às ruas para protestar contra o papa. Sábado passado, iraquianos membros do Khaiech al-Mujahedin prometeram lançar ataques contra Roma e o Vaticano, em resposta às palavras de Bento XVI. "Juramos destruir sua cruz no coração de Roma. E que o Vaticano será golpeado e irá chorar por seu papa", anunciou o grupo, que qualificou Bento XVI como “cão dos cruzados”.

Contra o Manuel, o autor da frase, não se ouve restrição alguma. No fundo, os mulás estão agindo como agitprops entrincheirados nas mesquistas e querem reproduzir o escândalo de fevereiro passado, das charges dinamarquesas. Ora, nem o papa nem o imperador disseram uma inverdade. O Islã tem se expandido pela espada e não por acaso Maomé era um guerreiro. Mais ainda: o papa não disse nada. Apenas citou um diálogo transcorrido há mais de seis séculos. Obviamente, os muçulmanos não teriam nenhum ganho político xingando o Manuel. Xingue-se então o Bento. Imagine-se o escândalo se o papa citasse Dante, que na Divina Comédia colocou Maomé no oitavo círculo do inferno, destinado aos semeadores de discórdia.

Ora, Maomé não conduziu os árabes à fé através da habilidade do bom discurso e de um raciocínio correto, mas exatamente pela violência e ameaça. Homem de guerra, o profeta liderou sete anos de sangrentas batalhas entre Medina, muçulmana, e sua cidade natal, Meca, cujos principais representantes eram pagãos. No transcurso de sua vida, Maomé comandou 27 expedições militares e organizou outras tantas, lideradas por seus subordinados. Quem não se rendesse ao Islã e pagasse o dízimo poderia ser roubado, escravizado ou morto pelos crentes.

Na batalha dos muçulmanos contra a tribo judaica de Bani Qurayzah, todos os homens foram condenados à morte e as mulheres e crianças à escravidão. Setecentos judeus foram decapitados com um golpe de espada e tiveram seus corpos jogados em valas. A matança durou o dia todo e o último grupo foi executado à luz de tochas. Quem entra em Meca, em janeiro de 630, não é um profeta imbuído de mensagens de paz, mas um Maomé conquistador à frente de um exército vitorioso. Maomé conseguiu, antes de sua morte, unificar praticamente toda a Arábia sob uma só religião, o Islã... a golpes de espada. Não bastassem estes episódios históricos, o Alcorão concita os muçulmanos em várias de suas suras a exterminar os infiéis. Se algum dia estes fatos não puderem ser mencionados no Ocidente sob pena de guerra santa, nesse dia o Ocidente terá capitulado definitivamente frente ao islamismo.

Bento XVI voltou timidamente atrás em sua declaração, dizendo-se desolado porque seus propósitos tenham sido vistos como ofensivos à sensibilidade dos fiéis muçulmanos. Ora, ofensivos não foram, a menos que se considere a História como calúnia. Por outro lado, Sua Santidade parece ter esquecido daquele Cristo que um dia disse: “eu não vim trazer paz, mas espada”. A mesma espada que viajou junto com a cruz nas expedições dos conquistadores, a mesma que degolou cátaros e albigenses, a mesma que acompanhou os Cruzados em seus massacres no Oriente. Isso sem falar, é claro, na Inquisição, que obrigou os judeus da Europa, sob pena de morte, a converter-se ao catolicismo.

Isso sem falar que o Antigo Testamento começa com um pancídio, do qual só se salvam Noé e o seus. Jeová ordena Israel a matar os amorreus, heteus, ferezeus, cananeus, heveus, jebuseus, mais tribos do que massacrou Maomé. Coisas do livro antigo, dirão almas mais complacentes. Assim fosse. No Novo Testamento, no Apocalipse, o Cordeiro volta para exterminar o que sobrou da humanidade.

O monoteísmo surge da areia, diz Michel Onfray. As três grandes religiões contemporâneas nasceram no deserto. Não é de espantar que seus livros contenham prescrições bárbaras, que só serão amenizadas com o evento da urbe. Defendo a idéia de que estes livros antigos sejam preservados como documentos históricos, mas abandonados como corpus normativo de qualquer religião que se pretenda contemporânea.

Enquanto isso, graças a uma frase pronunciada seis séculos atrás, Roma encontra-se ameaçada pelo terror islâmico. É muita hipocrisia. Se os muçulmanos não manifestaram reprovação alguma à retórica belicista do xeque Mudeiris no ano passado, não têm hoje autoridade alguma para contestar a menção de Bento XVI a fatos históricos.

Terça, 12 Setembro 2006 21:00

Nós, Os Imorais

Não poucos articulistas trabalham com a falsa hipótese de que os comunistas são ateus. Nunca foram. Apenas trocaram o deus cristão por um outro.

Não poucos articulistas trabalham com a falsa hipótese de que os comunistas são ateus. Nunca foram. Apenas trocaram o deus cristão por um outro. No caso, uma deusa, a História. Essa deusa teve uma encarnação humana, Stalin. Tanto que, em 1953, havia comunistas que não acreditavam em sua morte, afinal um deus não pode morrer. A fé absoluta na doutrina marxista era tal que um comunista sempre olhava com piedade para quem quer que dele discordasse: o coitado nada entendia do mundo. A Parusia proletária era dada como inelutável e a humanidade toda caminhava rumo ao comunismo. Poderíamos encher páginas e páginas listando os pensadores que perceberam este caráter religioso do comunismo. Vou ficar em apenas dois, Camus e Kazantzakis, que acompanharam de perto o grande embuste do século passado. Nada de novo no que segue. Apenas repito o que já escrevi, pois curta é a memória das gentes.

Em O Homem Revoltado, escreve Camus:

"O ateísmo marxista é absoluto. No entanto, ele restabelece o ser supremo ao nível do homem. A crítica da religião chega a esta doutrina na qual o homem é para o homem o ser supremo. Sob este ângulo, o socialismo é um empreendimento de divinização do homem e adquiriu certas características das religiões tradicionais".

"...o socialismo autoritário, que vai dessacralizar o cristianismo e incorporá-lo a uma Igreja conquistadora".

"O messianismo científico de Marx..."

O proletariado, "por suas dores e lutas, é o Cristo humano que resgata o pecado coletivo da alienação".

"O movimento revolucionário, no final do século XIX e no começo do XX, viveu como os primeiros cristãos, à espera do fim do mundo e da Parusia do Cristo proletário".

"A revolução russa continua só, viva contra seu próprio sistema, longe das portas celestes, com um apocalipse a organizar. A Parusia ainda está longe. A fé está intacta, mas se curva a uma enorme massa de problemas e descobertas que o marxismo não havia previsto. A nova igreja está de novo frente a Galileu: para conservar a fé, ela vai negar o sol e humilhar o homem livre".

Um outro escritor do início de século, que viveu este confuso noivado bem antes que Camus, será ainda mais incisivo nesta aproximação. Em Voyages – Russie, Nikos Kazantzakis lembra como se fez a luz em seu espírito. Para ele, todos os apóstolos do materialismo davam às questões respostas grosseiras, de uma evidência simplória. Como em todas as religiões, tentavam difundir aquelas respostas tornando-as compreensíveis para a multidão. Kazantzakis fala da existência, na Rússia, de um exército fanático, implacável, onipotente, constituído de milhões de seres, que tinha em mãos milhões de crianças e as instruía como bem entendia. Esse exército, continua o cretense, tinha seu Evangelho, O Capital. Seu profeta, Lênin, e seus apóstolos fanatizados que pregavam a Boa Nova através do mundo. Esse exército possuía também seus mártires e heróis, seus dogmas, seus padres apologistas, escolásticos e pregadores, seus sínodos, hierarquia, liturgia e mesmo a excomunhão: "somos contemporâneos deste grande momento em que nasce uma nova religião".

Ou seja, não estamos diante de ateus e sim de crentes que cultuam um novo deus. Não é pois de espantar que no passado de quase todos os antigos marxistas temos um cristão que renegou a própria religião. Tampouco causa espécie que o Partido Comunista sempre tenha sido forte em países católicos. A Rússia, é bom lembrar, era um dos maiores países católicos do mundo nos albores do século passado.

Que mais não seja, em O Idiota, através da boca do príncipe Mychkine, o ortodoxo Dostoievski há muito previra que o catolicismo romano originaria um socialismo ateu. Ateu em relação ao Deus dos céus e dos infernos, mas religioso em relação ao homem enfim divinizado. Morto o Deus judaico-cristão, deus nenhum outro à vista para sucedê-lo, o homem ocidental, órfão e carente de fé, irá criar um deus vivo.

Os russos, excitados pelo messianismo chauvinista e anti-semita de Dostoievski, já andavam procurando o seu. Por volta de 1850, Vladimir Soloviev erige o movimento revolucionário "Os Buscadores de Deus", que acaba não achando nada. Mas a semente está lançada. Será após o fracasso da revolução de 1905, que Maxim Gorki e Lunatcharski (futuro escritor oficial da era staliniana) fundarão o movimento "Os Construtores de Deus".

Gorki, que julgava a mentira necessária contra as "verdades nefastas", diz em uma carta de 1908, dirigida a Gregor Alexinski, que o "socialismo deve se transformar em culto". Em A Mãe, escrito nos Estados Unidos em 1906, um militante diz aos operários em cortejo: "nossa procissão agora marcha em nome de um deus novo". Em uma novela de 1908, A Confissão, o incipiente deus já ensaia seus poderes: à passagem de uma manifestação de operários, um paralítico deitado em uma maca se levanta e anda. E antes de morrer (suspeita-se que assassinado por seu "Deus"), Gorki afirma: "Lá onde reina o proletariado não há lugar para uma querela entre o saber e a fé, pois a fé neste caso é o resultado do conhecimento pelo homem do poder da razão".

Os tempos estão maduros para a emergência da nova fé. Marx e Engels fornecem o Livro, pois toda religião que se preze se fundamentará em um livro. Os revolucionários de 17 conquistam um território. Só faltava o Deus feito carne. Em Gori, na Geórgia, nasce o Menino.

Escreveu Ipojuca Pontes na semana passada, no Midiasemmascara: “Por se tratar de gente que não acredita em Deus, o intelectual de esquerda acha que para ele ‘tudo é permitido’: mentir, trair, caluniar, mistificar e - por que não? - através de artifícios diversos, tidos como legais, meter a mão no dinheiro do Estado. De ordinário, vivem pendurados em cátedras oficiais ou em polpudos empregos públicos, usufruindo parasitárias bolsas de estudos ou as benesses de projetos artísticos, cujos únicos atributos criativos têm sido a astúcia engendrada para convencer o burocrata de plantão a arranjar mais grana para o usufruto de ambos”.

Nada dá mais prazer a um homem honesto do que falar de si mesmo, escreveu Dostoievski. Sou ateu desde meus verdes anos. Nunca fui isso que se chama de intelectual de esquerda, e muito menos de direita. Ateu sendo, nunca menti, nunca traí, nem caluniei nem mistifiquei e muito menos meti a mão no dinheiro do Estado. (Pelo contrário, o Estado me deve uma quantia polpuda em precatórios e até hoje está me caloteando. Se metesse a mão no dinheiro estatal, estaria apenas me ressarcindo). Nunca cometi sequer essas mentiras triviais que os machos usam para esconder suas infidelidades: tive não poucas mulheres e todas sabiam de todas. Mais ainda: nunca passei um cheque sem fundo, nunca furei uma fila, nunca joguei no bicho e nunca joguei papel nas ruas.

Meu círculo de relações, por uma questão de afinidades eletivas, é formado de modo geral por pessoas que não crêem em Deus. Não conheço nenhum que tenha mentido, traído, caluniado, mistificado ou posto a mão no dinheiro do Estado. Tivessem cometido qualquer dessas vilanias, não fariam parte de meu círculo. Exatamente por ter me libertado de qualquer veleidade religiosa, não procurei outra religião ao jogar ao lixo a antiga. Havia duas igrejas na cidadezinha em que me criei, a católica e a marxista. Mal larguei a católica, a outra me cercou, empunhando bibliografias e nobres ideais. Mas eu já começara minhas leituras filosóficas e o marxismo pareceu-me uma resposta muito rude a meu intelecto.

Um amigo de longa data perguntou-me certa vez como eu podia ser honesto sem acreditar em Deus. Estava repetindo, talvez sem saber, a frase que Sartre um dia atribuiu a Dostoievski: “se Deus não existe, tudo é permitido”. (Digo que Sartre atribuiu porque Dostoievski jamais disse isso, pelo menos assim como está formulado). Mutatis mutandis, estava afirmando o que o articulista afirma: que nós, ateus, somos aéticos, imorais, desprovidos de escrúpulos. Ora, nunca precisei de deus algum para fundamentar minha ética. Não vejo como obrigatória a crença em um deus qualquer para que um homem seja honesto. Com Deus ou sem Deus, se tudo for permitido, a existência da comunidade humana é inviável.

Par contre, pergunte-se a qualquer um dos políticos que se beneficiaram de mensalões, propinas, esquema de sanguessugas, caixa 2, nepotismo, tráfico de influência ou tráfico de drogas, se ele acredita em Deus. Todos eles dirão que sim, pois não há no Brasil político que não acredite em Deus. Quem disser não, não será eleito. Quando interrogados, até mesmo o materialista dialético Fernando Henrique Cardoso e o Supremo Apedeuta vacilaram e saíram pela tangente. Hoje, os dois acreditam em Deus, lado a lado com a marxista desvairada, a Heloísa Helena.

Devagar nas pedras, meu caro Ipojuca. Não somos assim feios como nos pintam. Ateu mesmo não acredita nem nos deuses construídos pelo marxismo.

Terça, 05 Setembro 2006 21:00

Sobre Conceitos

Resumindo: não temos porque aceitar qualquer ética que nos seja proposta. Nada impede que construamos a nossa. Homem sem religião é como peixe sem bicicleta. Quanto à lei, dela ninguém escapa. Pelo menos em país decente.

Em função de minha última crônica, fui bombardeado com mails que em boa parte confundem conceitos como ética ou moral, norma religiosa e norma jurídica, pecado e crime. Tentarei destrinçar o imbróglio.

Nos últimos vinte anos, os petistas começaram a encher a boca com palavras como “a moral e a ética”, assim juntas. Verdade que o Aurélio define moral como um conjunto de regras de condutas tidas como válidas e ética como o estudo dessas regras.

Prefiro Cícero: “posto que se refere aos costumes, que os gregos chamam ethos, nós costumamos chamar essa parte da filosofia uma filosofia dos costumes, mas convém enriquecer a língua latina e chamá-la moral”. No Dicionário de Filosofia, de Ferrater Mora, lá está: “moral deriva de mores, costume, da mesma forma que ética de ethos e por isso ética e moral são empregadas às vezes indistintamente. Ferrater Mora vê inclusive um significado mais amplo no conceito de moral que no de ética. Seja como for, quando adjetivamos a palavra, ao dizer que algo é ético ou moral, a diferença entre os termos desaparece. Não por acaso, o Supremo Apedeuta adora falar em “ética e moral”. Quanto menos se conhece as palavras, mais se as maltrata.

Pretendem outros que moral – ou ética, como quiserem – coincida com lei. Assim, se aborto fere a moral, ipso facto é crime, mesmo que a lei o permita. Ora, tudo o que a lei não proíbe é permissível. Quando um Estado admite o aborto, qualquer cidadão até pode achar que é crime. Ocorre que, nessas circunstâncias, não é. Não é o palpite de qualquer cidadão que define algo como crime. Quem define o que é crime, pelo menos nas democracias ocidentais, é o Parlamento. Se os legisladores decidirem que esta ou aquela ação não é crime, permitida está. Para os que gostam de citar Aristóteles como um dos baluartes do pensamento cristão, é bom lembrar que o estagirita o recomendava como método eficaz para limitar os nascimentos e manter estáveis as populações das cidades gregas. Até mesmo para o insuspeito Santo Agostinho o aborto só seria crime quando o feto já tivesse recebido alma, o que deveria ocorrer após 40 ou 80 dias de sua concepção, conforme o feto fosse masculino ou feminino. Hoje, apenas 26% dos países não o consideram legal.

O mesmo diga-se do homossexualismo. Segundo a ONU, cerca de 80 países ainda tratam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo como um crime punível com morte, em pelo menos sete Estados. Nestes 80 países, homossexualismo é crime. Nos demais 118, é fenômeno da órbita da ética.

Surge então outra pergunta: existe uma lei moral universal? Pode ser que exista em teoria. Na prática, não. Cada religião, cada nação, cada grupo social, cada época tem seus próprios preceitos morais. Que podem ter seus pontos comuns, mas também os divergentes. Não é crime ferir uma norma ética, a menos que esta coincida com a norma legal. Você pode até sofrer sanções de sua comunidade se ferir as regras morais nela vigentes. Mas ninguém pode condená-lo à prisão ou executá-lo por tais transgressões. Voltando ao aborto: se você vive em país em que abortar não é tipificado pela lei como crime, você pode até ser expulso de sua comunidade ou de seu círculo se tiver estimulado ou praticado aborto. Do ponto de vista legal, não cometeu crime algum.

Assim como não existe lei moral universal, tampouco existe lei jurídica universal. “Divertida justiça que um rio limita” – escrevia Montesquieu – “erro além, verdade aquém dos Pirineus”. Só crê que existe lei jurídica universal o homem de tapa-olhos, que jamais saiu de seu país e pouco ou nada leu.

Pretendem os religiosos que todo pecado seja crime. Não é. Pecado é conceito da área teológica. Crime é conceito da área jurídica. Para pecados, existe o perdão. Para o crime, a punição. Verdade que, depois de Stalin, foi criado um outro parâmetro. “Foram erros”, disse Stalin, ao referir-se ao massacre dos kulaks. O PT, reverente a suas origens, jamais fala de crime e punição. Nem de pecado ou perdão. Mas de erro e desculpa. Errou? Basta pedir desculpas e está redimido.

Mandamento é coisa de religião. Lei pertence à órbita do direito. Quem descumpre um mandamento peca e pode ser perdoado. Se o Marcola confessar seus crimes, basta que faça um sincero ato de contrição e está quite com a justiça divina. Com a dos homens é diferente. Quem infringe uma lei comete crime e deve ser condenado. Contrição não basta. Bastasse, não existiriam códigos penais nem prisões. Padre perdoa tudo. Dependesse dos padres, o Marcola estaria livre como um passarinho.

O “não matarás”, antes de ser preceito jurídico, foi preceito ético-religioso. Pertencia, inicialmente, ao universo teocrático. Mesmo assim, era muito relativo. Jeová, o redator das tábuas, matou à vontade antes de redigi-las. Continuou matando com gosto depois de promulgá-las. E promete matar mais quando vier o Cordeiro. Apanhe a Bíblia. Quantos homens, quantos povos, exterminou Satã? Nenhum. Jeová massacrou com entusiasmo. Existem leis morais objetivas? – me pergunta um leitor. Não existem – respondo. O “não matarás” é o mais perfeito exemplo.

O preceito só se torna objetivo quando toma a forma de lei. O Estado sente-se obrigado a definir, com precisão, quando se pode matar. Pode matar o soldado durante a guerra e este é seu dever. Pode matar um homem ameaçado, em sua legítima defesa ou de terceiro. Pode matar o Estado, quando pune um crime. Fora estas circunstâncias, matar é crime. Jeová não teve preocupação nenhuma em regulamentar o “não matarás”. O Estado tem.

O preceito religioso concerne aos adeptos de uma religião. O preceito jurídico concerne a todos os cidadãos, quaisquer que sejam suas religiões. O preceito moral diz respeito a grupos que têm esta ou aquela visão de mundo. A lei enquadra todo cidadão, não importa o que este cidadão pense do mundo. O conflito surge nas teocracias, quando Igreja e Estado se confundem, o preceito religioso se impõe e o conceito de pecado acaba se tornando crime. Já cheguei a sugerir que cristãos deveriam ser punidos quando praticam aborto, afinal consideram o aborto um crime. Aos demais, seria permitido. Não faltou quem julgasse ser absurdo ter diferentes legislações para diferentes cidadãos.

De fato, é. Mas no Brasil já tem. Deputados e ministros têm foro privilegiado, inacessível aos demais cidadãos. Os sem-terra podem invadir terras e prédios, depredar, saquear e nenhuma sanção lhes é imposta. Índio pode matar, estuprar, interditar rodovias, manter reféns em cárcere privado e por isso não são punidos. Menores de 18 anos têm carteirinha de 007, podem matar à vontade e nenhuma prisão firme lhes será atribuída. Absurdo a mais, absurdo a menos, tanto faz como tanto fez.

Lei é sinônimo de justiça? Nem sempre. A lei sempre foi uma tentativa de se chegar à justiça. Por isso é sempre renovada e aperfeiçoada. Para o brasileiro contemporâneo, sem ir mais longe, matar uma mulher por razões passionais é crime. Nem sempre foi assim. Nestes dias, Doca Street está lançando um livro no qual relata o assassinato de Ângela Diniz, em 1976. Antes deste caso, os júris aceitavam a tese de legítima defesa da honra. Há trinta anos, matar a própria mulher era perfeitamente legal. Hoje já não é. No mundo muçulmano, matar a mulher que tem relações com outro homem, é não só ético, como também legal e justo.

Quando a legalidade se afasta irremediavelmente de qualquer ideal de justiça, surgem as revoluções. Mas as revoluções do século passado se revelaram remédio pior que a doença. Quando uma comunidade é doente, a doença passa a ser norma e a ninguém ocorre rebelar-se. Diga a um muçulmano que é criminoso cortar o clitóris de uma mulher. Ele vai achar muito estranha sua maneira de ver o mundo. A própria mulher talvez também a ache.

Em meus dias de guri, transgredi com gosto os preceitos éticos da cidadezinha em que vivia. Nunca me agradou portar cilícios. Por tê-los transgredido, fui expulso da cidade. Até hoje porto esta expulsão como comenda, emblema de minha hybris juvenil. Me senti como um Cortez queimando suas naus e pronto para enfrentar qualquer adversidade. Teria uns 16 anos. Como cachorro que se sacode para secar-se, joguei para longe de meus ombros também os preceitos religiosos. Senti então uma extraordinária sensação de liberdade. Dos preceitos éticos ou religiosos, mantive apenas aqueles que coincidem com os códigos penal ou civil. Bem entendido, cultivo até hoje uma ética, particular e muito rigorosa, mas que pouco coincide com as éticas vigentes.

Resumindo: não temos porque aceitar qualquer ética que nos seja proposta. Nada impede que construamos a nossa. Homem sem religião é como peixe sem bicicleta. Quanto à lei, dela ninguém escapa. Pelo menos em país decente.

Terça, 29 Agosto 2006 21:00

Armadilha Para Homossexuais

Não faltam crentes hoje em dia que resumem o Ocidente a um legado judaico-cristão. A equação está incompleta. O Ocidente é também greco-romano.

Não é fácil ser entendido quando se foge aos padrões do pensamento vigente. Há leitor que se confunde quando digo que sou, em princípio, contra as drogas, mas a favor da liberação das drogas. Sou contra o aborto, mas sou pela descriminalização do aborto. Não vai nisto nenhum atentado à lógica. Se sou pela liberação das drogas, é porque penso que tal liberação servirá para diminuir o consumo das mesmas. E, principalmente, para exterminar o tráfico e todos os crimes dele decorrentes. Que mais não seja, o cigarro vem matando milhões desde que se tornou símbolo do homem que sabe o que quer e até hoje seu comércio não é proibido. Verdade que, na última década, os antitabagistas conseguiram grandes avanços como vetar o fumo em restaurantes e lugares públicos. A propósito, hoje é o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Mas o cigarro está longe ainda de ser proibido. Tampouco acho que deva sê-lo. Por um lado, tudo que é proibido sempre atrai. Pelo outro, as pessoas são suficientemente adultas para consumir ou não consumir o que as mata. Quem quiser chupar câncer, que o chupe e boa sorte.

Sou contra o aborto. É absurdo abortar quando se tem ao alcance das mãos diversas alternativas anticoncepcionais. Há milhões de pessoas apelando ao aborto como anticoncepcional e isto é uma estupidez. Sou pela descriminalização do aborto porque ninguém deve ter um filho que não quis, concebido em um momento de descuido, eembriaguez ou ignorância. Só é crime o que a lei define como crime. Se a lei não define aborto como crime, então não é crime. Há quem condene o aborto em nome de um tal de direito natural, como se direito fosse algo escrito em tábuas eternas pendendo em algum desvão da eternidade. Ora, direito é construção feita por homens e cada país a erige como bem entende. As atuais objeções ao aborto são quizílias de fundamentalistas, que até hoje não aceitaram a idéia de um Estado laico. Confundem preceito moral com preceito legal e querem impor, teocraticamente, sua visão de mundo a todos os cidadãos.

Da mesma forma, sempre defendi o comportamento homossexual. Se uma pessoa se sente melhor mantendo relações com outra do mesmo sexo, ninguém tem nada a ver com isso. “Viver e deixar viver”, esta era a divisa de Casanova. Faço-a minha também. A Bíblia condena? Que condene. Homossexualismo então é condenável para aqueles que têm a Bíblia como livro normativo. Judeus e cristãos devem abster-se do homossexualismo. A Igreja de Roma condena? Que condene. Isto significa que os católicos romanos também devem abster-se do homossexualismo. Mas nada lhes dá o direito de condenar o comportamento daqueles que não aceitam nem os princípios da Bíblia nem os preceitos de Roma.

Não faltam crentes hoje em dia que resumem o Ocidente a um legado judaico-cristão. A equação está incompleta. O Ocidente é também greco-romano. Quando se fala em judaico-cristão, estamos falando de dogma e de religião. Quando se fala em greco-romano, estamos falando de direito e filosofia. Se em um universo teológico homossexualismo é pecado, em um universo jurídico ou filosófico não vige a noção de pecado. Homossexualismo fazia parte da alegria do mundo pagão. Não fosse a emergência do cristianismo, ainda hoje constituiria algo perfeitamente permissível nos costumes da urbe. O cristianismo criminalizou o homossexualismo. Se sempre defendi este tipo de comportamento, não consigo defender palhaçadas como paradas gays – especialmente quando organizadas às custas do contribuinte – ou essa nova armadilha chamada casamento homossexual.

Carolyn Conrad e Kathlyn Peterson se divorciaram na semana passada. As duas foram o primeiro casal homossexual a unir-se civilmente nos Estados Unidos, após a promulgação da lei permitindo a união civil de homossexuais, em 01 de julho de 2000, no estado de Vermont. A cerimônia foi celebrada em todo o país como um marco na luta dos homossexuais para obter equiparação legal aos direitos adquiridos pelos casais heterossexuais no casamento. Em seu pedido de divórcio, Conrad afirmou que Peterson havia se tornado violenta, ao ponto de quebrar uma parede com um soco durante uma discussão, e havia ameaçado agredir uma de suas amigas. Peterson foi proibida pela Justiça de se aproximar de Conrad.

As uniões homossexuais sacramentadas pelo Estado não passam de um engodo para aprisionar pessoas que antes eram livres. Se Carolyn e Kathlyn não tivessem se unido perante a lei, ao menor sinal de agressão uma teria se separado da outra e estamos conversados. Com a nova lei, precisam solicitar oficialmente ao Estado permissão para separar-se.

Nesta matéria, a Espanha antecedeu os Estados Unidos. Em junho passado, dois homens iniciaram os trâmites legais de divórcio, quase um ano depois de entrar em vigor a lei que permitiu o casamento entre pessoas de mesmo sexo. Ambos viviam juntos desde 1993 e se casaram em outubro de 2005 na localidade madrilena de Rivas Vaciamadrid. Hoje, um dos parceiros reclama o direito de ficar com a casa, cuidar dos cachorros e uma pensão mensal de 7.000 euro. Alega que, durante anos, "se dedicou como uma dona-de-casa e teve de abandonar suas atividades profissionais".

Bari Shamus, uma das fundadoras do Grupo Liberdade de Casamento em Vermont, disse que a separação do casal americano não deveria surpreender a população, pois "os casais homossexuais têm os mesmos problemas de relacionamento que os casais heterossexuais".

Bingo, Bari! Os problemas são ainda mais agravados quando tais casais assinam um contrato sob chancela do Estado. Se antes uma separação não implicava partilha de bens nem demandas judiciais, hoje passou a implicar. Não estamos longe do dia em que, em função de um curto namorico, um dos parceiros pedirá indenização ao outro por ter gerado falsas expectativas. Tais processos já começam a pipocar em relações heteros. Daí a passarem para o campo das homossexuais é apenas um passo. Quem viver verá.

Em função de idéias estúpidas como feminismo ou politicamente correto, os homossexuais estão renunciando aos poucos à liberdade que sempre usufruíram e caindo na armadilha do casamento sacramentado em cartório. O relacionamento homossexual, que um dia foi regido pelo desejo ou mesmo pelo sentimento de companheirismo, submete-se agora ao Direito de Família. É o que chamo de saudades dos grilhões.

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Sábado, 26 Agosto 2006 21:00

Azaléias de Agosto

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.

Era agosto. Elas se abriam em meu jardim com essa obscenidade com que sempre se abrem as flores, cumprindo sua missão natural de flores. Quanto mais floresciam, mais fenecias. Todos as manhãs eu atravessava aquele festival orgíaco de vermelho, rosa, branco e roxo, rumo ao amarelo ictérico que começava a envelopar tua pele, essa pele que por tantas décadas acarinhei. "Onde estiver, vou sentir tua falta" - me disseste, com voz que jamais senti tão grave. Querendo afagar-me, suspeitando que pela última vez, te enganavas. Não estarás em parte alguma. Partiste para o grande nada, onde nada existe e ninguém sente falta de ninguém.

Quem vai sentir tua falta, todos os dias até o último deles, é este que fica e que em algum lugar sempre estará. Pelo menos até o dia em que não mais estiver. Quem parte descansa. Sofre quem fica. O que até me consola um pouco. Quem está sofrendo, pelo menos não és tu.

De novo é agosto e elas retomaram seu ritual exibicionista. Paranóicas, escondem-se nas primaveras e agora torturam meus invernos. Não apenas os meus, mas os de tantos outros cujos seres amados escolheram agosto para partir. Certa noite de setembro, eu conversava com jovens já contaminados pela resfeber, enfermidade nórdica que significa febre de viagens. Sedentos de vida, perguntaram a este ser tantas vezes acometido pela doença: qual é a mulher mais linda do mundo? Em que geografias pode ser encontrada?

Caí em prantos. A mulher mais linda do mundo, eu a conheci. E a tive. E agora não mais a tinha. Não a encontrara em distantes longitudes nem em países exóticos. Encontrei-a a meu lado, neste prosaico país, e nunca mais a abandonei. Quis a vida - ou talvez tenha quisto eu - que tivesse centenas de mulheres, algumas muitas queridas, outras nem tanto mas também desejadas, mais uma multidão de rostos mais ou menos anônimos, corpos sempre lembrados. Mentira da vida, mentira minha. Em verdade, tive só uma. Tu, que partiste no auge das azaléias.

"Eu não tenho medo da morte" - me disseste ainda, um pouco antes da passagem rumo ao nada. Mesmo desbotada pelo palor da vida que foge, estavas linda como nunca estiveste. Em tuas quase seis décadas, conservavas ainda aquele eterno rostinho de criança, que a passagem dos anos jamais conseguiu te roubar.

Sedada, já no torpor da morte, chamaste tuas últimas energias, te ergueste no leito. Levantando o dedinho, didática qual professora falando a seus pupilos, sussurraste com o que te restava de voz: "E se fizéssemos assim: eu assino um documento: eu, TKM, em pleno uso de minhas faculdades mentais, declaro que quero ter meus restos cremados no cemitério da Vila Alpina". Reuni minhas forças e consegui balbuciar: não te preocupa, Baixinha adorada, isto há muito está combinado, verme algum sentirá o gosto de tuas carnes. Tuas cinzas, vou jogá-las de alguma ponte em Paris, uma daquelas pontes que tanto amaste, para que saias navegando mares afora.

Passada a mensagem, te reclinaste em paz. Mas descumpri o trato. Não as joguei em Paris. Ficarias muito longe de mim, navegarias talvez por mares gelados e hostis, encalharias em geleiras e te perderias em fiordes, longe de meu calor. Com carinho, te plantei entre os rododendros e todas as manhãs passo entre ti e murmuro: adorada. É bom te cumprimentar. Mas como dói.

A vida nos foi pródiga, e isso é talvez o que mais machuque. Nestes últimos meses, tenho sentido uma secreta inveja de homens que casam com megeras horrendas. Quando elas partem, começa a felicidade. Se morrer feliz é o almejo de todo homem, esta graça não mais está reservada a quem um dia foi feliz. É duro conjugar certos verbos no passado. Dizia Pessoa:

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...

Bobagens de poeta, que tanto influenciaram meus dias de jovem. Verdade que sem ti correrá tudo sem ti. Mas isto vale para as azaléias - seres insensíveis que sequer perceberam a ausência de quem as adorava tanto - e para o resto da humanidade. Para quem perdeu o ser mais lindo da vida, é mero jogo de palavras.

As azaléias em breve irão perdendo seu sorriso orgíaco, suas cores fenecerão e agosto que vem estarão de novo florescendo, despudoradas. Tuas cores feneceram agosto passado e pelo resto de meus agostos não mais te verei florir.

(in memoriam 20 de agosto de 2003)

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