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Roberto Romano

Roberto Romano

Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Quarta, 14 Dezembro 2005 22:00

Presidente e Sectários Indecorosos

Mais elevado o cargo, mais justiça, dignidade, decoro se exige de quem o exerce. O pequeno erro do funcionário menor torna-se desastre no superior.O que é o decoro no setor público? Na Roma que nos deu a língua, a qualidade de um estadista era a prudência, traduzida na modéstia. Esta última, segundo Cicero, resume-se à temperança, a forma de manter o auto-controle. A temperança no soldado chama-se disciplina. Para os filósofos estóicos, a temperança prolonga o conceito grego de “eutaxia”, modéstia que reconhece a ordem conveniente em todos os momentos e circunstâncias. Se existe prudência e temperança, a força torna-se irrelevante, impera o decoro. A pessoa prudente domina a sua ira, nunca é obrigada a usar os braços e armas para impor seu pensamento. O intemperante que não controla o vinho, fácilmente se torna furioso, agride os concidadãos com espadas ou punhos. A modéstia é virtude do político que pesa cada ato, impõe às suas próprias atitudes e falas uma progressão hierárquica digna do cargo. Entre a glória pessoal, afirma Cicero seguindo a ética que vem da Grécia, e o serviço pouco notado à cidade, o verdadeiro estadista prefere o segundo. O paradigma desse comportamento encontra-se em Agesilau: quase vencedor dos persas ele deixa a batalha e retorna para a sua cidade, Esparta, atacada por atenienses e tebanos. Defender a pátria é mais digno do que vencer um inimigo. Só a pessoa capaz de escalonar valores decide no sentido de Agesilau. Ele foi modesto (não buscando a gloríola da vitória) e prudente (percebeu que salvar a sua terra era vital para ele e para os seus).

E o que é a modéstia? É guardar a medida. Moderatio, em latim, é o nome de uma ação e deriva do verbo “moderor”, cujo primeiro sentido é “dirigir”, “regrar”. Quem dirige um cavalo, o controla com o freio. Cicero, ele novamente, diz que a moderação designa a ordem e a medida. Trata-se de uma capacidade essencial no poder, que só pode ser exercido pelos capazes de continência e temperança. A história de Roma apresenta a figura de homens capazes dessa modesta temperança, pois exerceram grandes poderes sob limites impostos pela sabedoria e utilidade públicas. Cincinatus recusou o segundo mandato consular que lhe foi oferecido, porque não seria útil ao coletivo. Scipião, o africano, recusou a ditadura perpétua e exigiu que não fossem erguidas estátuas em sua homenagem. Tiberio Graco recusou aproveitar-se do poder para colocar na cadeia um inimigo dos piores, Scipião asiático.

A temperança é noção negativa e nela o poderoso se abstém de um ato. A justiça é positiva segundo Cicero. Ela consiste em atribuir a cada um segundo seus méritos, é própria de alguém que possui auctoritas. A justiça do poderoso lhe atrai a fides, a fé pública. O dirigente injusto e intemperante produz, cedo ou tarde, a desconfiança dos cidadãos. A justiça lhe confere o crédito e, com ele, o decoro. Esta palavra tem a raiz “dec” e une-se a “decet” que se vincula ao vocábulo “dico” (mostrar com o dedo), como em digito monstratus (honrado, louvado, indicado em louvor), “digno do lugar que ocupa na sociedade e no Estado”. Os termos “dignus” e “decet” ajudam o decoro e lhe fornecem um sentido estético fundamental. A pessoa decorosa pratica ações belas, é ornada pela virtude. O indivíduo assim “vestido” mostra dignidade, o conveniente ao seu cargo.

Decus e confiança unem-se: com a raiz “dec”, um ato designa alguém “que atua como é conveniente”, segundo a decência. O decoroso exibe a virtus apreciada pelo sentimento republicano. Decus, o decoro, como a dignitas, surge da “honestas”. Somente alguém capaz de ser apontado como honesto governa para todos, com igual dignidade. Decus é essencial quando alguém se proclama salvador da república. Cicero cita a palavra “decus” entre as qualidades requeridas dos senadores. Para essa análise, o leitor pode ler o volume de Hellegouarc´h, J.: Le vocabulaire Latin des Relations et des Partis Politiques sous la République (Paris, Belles Lettres, 1972).

Mais elevado o cargo, mais justiça, dignidade, decoro se exige de quem o exerce. O pequeno erro do funcionário menor torna-se desastre no superior. O sumo magistrado não tem o direito de cometer injustiça e deve manter a língua presa, as paixões pessoais ou partidárias sob controle. Ele não pode, no exercício do cargo, agir como se integrasse um partido ou facção, pois é governante de todos. Caso contrário, cai no indecoro. Com base nesse juízo, e como professor de ética, digo sem temor: a declaração do presidente da República de que a oposição brasileira é golpista como na Venezuela, feita no exterior (o que piora a vilania) é indecorosa. Ele age como candidato, líder de facção e não como dirigente justo. Descarta a dignidade do cargo, seguido pelos sectários petistas atolados na licença e na mentira, os quais, com semelhante retórica, tentam esconder a corrupção imperante em suas fileiras. Sem receio, afirmo que o presidente age contra o decoro do cargo. Se eu fosse líder político e devesse defender a dignidade da oposição, iniciaria de imediato o processo de impedimento contra a pessoa que ocupa o cargo máximo e, necessariamente, deveria ser amiga e respeitar igualmente todos os brasileiros.
Segunda, 28 Novembro 2005 22:00

Eunucos e Censores

A boca torta do petismo continua a campanha contra a imprensa e busca intimidar os intelectuais autônomos.No dia 23 de novembro passado estive no Ministério da Defesa (Escola Superior de Guerra) para falar aos estagiários. Discorri sobre o segredo e o seu antídoto, a transparência democrática. Outro convidado, que tomou a palavra antes de mim, foi o ministro Ayres de Brito do STF. Aprendi muito com o seu discurso, mas discordei de seu juízo sobre a etiqueta enquanto ética menor. Pelo contrário! A etiqueta é o modo pelo qual os indivíduos mostram obediência aos valores e às dignidades. Só coletivos destribalizados, como os indios guaranis, sobreviventes do etnocídio feito contra sua gente pelos brancos (cristãos…) vivem sem roupa decente, nome ou título.

Quando o imaginário dono do Brasil insulta jornalistas (no mesmo instante é bajulado por radialistas que esquecem a dignidade do seu ofÍcio) ele transgride a etiqueta e mostra insensibilidade ética. A boca torta do petismo continua a campanha contra a imprensa e busca intimidar os intelectuais autônomos. Quando tentaram dar um golpe em 1935, os comunistas ficaram aborrecidos com o título de Intentona para designar o seu ato. E disseram se tratar de uma “Inventona” dos conservadores. Negar a evidência tem sido a regra dos que se julgam espertos. Tais cérebros lavados e que adoram lavar as mentes alheias, mentem com arte. O famoso “ouro de Moscou”, disseram, seria boato do “imperialismo”. Com as provas trazidas após o desmantelamento da URSS, ficou claro que o nariz de Pinóquio lhes cabia. Eles mentem com o coração, pois a mentira para a sua moral é técnica de mando. É por esse motivo que odeiam a ciência, os intelectuais livres, a imprensa; tais setores, como o menino, gritam: “o rei está pelado!”. E como é indecente a nudez petista… Diniz, Delubio, Silvinho Land Rover Pereira e quejandos mostram uma figura repulsiva para a cidadania. Até ontem eles mandavam no caixa petista, o mesmo onde se refestelam os demais, que proclamam a própria lisura. O pior é ouvir a sua confissão de malandragem, no mesmo átimo em que proclamam a própria torpeza. Quem é decente no PT, deveria exigir prestações imediatas de contas, expulsar aqueles indivíduos da agremiação. Mas a decência (como o bom senso no entender do bom Descartes), embora reivindicada por muitos, é vivida só por um número pequeno.

Alguns deles se dizem marxistas. Pobre Marx! Basta ouvir os “depoimentos” dos pobres diabos nas CPIs. Não apenas o idioma pátrio é torturado, a ignorância dos principios lógicos mostra que jamais leram uma linha de Marx. Este pensador, para ganhar o pão de cada dia, labutou na imprensa. Alguns de seus mais notáveis trabalhos sairam de um esforço jornalístico. E, ao contrário dos idiotas petistas que odeiam a imprensa livre, defendeu os jornais contra a censura, a mesma censura adorada pelos que desejavam impor mordaças aos colegas com o asqueroso Conselho de Jornalismo.

Marx tem palavras candentes contra a censura da imprensa. No artigo Notas sobre a mais recente Instrução aos Censores da Prússia (Anekdota, fevereiro de 1842) ele afirma que a censura é uma calamidade, e que “ela é péssima em geral, permanece péssima, não importa quem a pratique, se um empregado particular ou agente do governo.”. Na Gazeta Renana ele diz mais : “a censura admite não ser um fim em si mesma; que não é boa por si mesma, e assevera portanto que o fim santifica os meios. Mas um fim que necessita de meios pecadores não é santo”. E mais, diz o pensador caluniado sempre que um petista bronco (perdoem a quase tautologia…) toma o seu nome em vão (agora, com Palocci mandando e praticando o neo-liberalismo, vocábulo que habitou a boca dos petistas até pouco tempo atrás, enquanto Marx perde o trono) “é auto-evidente que a liberdade de imprensa tem uma justificação muito diversa da censura, pois a imprensa representa a forma de uma idéia, um bem positivo, enquanto a censura é uma forma de escravidão”. Se fosse lida esta tese, sem dizer o nome da fonte, no ambiente “jornalístico” petista, certamente as linguas ignaras berrariam: “liberdade pequeno-burguesa!”. Cada um tem o Marx que merece. O companheiros salivariam de ódio (o traço mais comum do petismo, pois nele se odeia quem não segue as palavras de ordem) se ouvissem algo assim: “a censura é ruim e permanece ruim, mesmo que traga bons resultados, porque esses resultados são bons apenas enquanto representam a imprensa livre no interior da imprensa censurada. (…) A livre imprensa permanece boa, mesmo que traga resultados ruins, porque tais resultados são apóstatas da imprensa livre. Um eunuco permanece um homem ruim, mesmo que tenha uma boa escolha. A natureza permanece boa, mesmo ao parir abortos”. Que tal? Lembram das primeiras linhas da proposta do Conselho de Jornalismo?

Marx fornece o nome dos jornalistas que defendem a “boa” censura, a de seu partido, bem como a “boa” política, a de seus dirigentes (Delubio e Silvinho garantiram seu comando no PT, com o beneplácito dos “bons” militantes): eunucos, porque odeiam a fertilidade de espírito e de alma de quem que não freqüenta os seus festivais de ódio à liberdade e ao verdadeiro. Os petistas odeiam o jornalismo porque eles mentem fingindo dizer verdades. Sua fala inteira é mendaz porque recusam incertezas. Seus líderes pensam por eles e sua língua repete dogmas, nunca probabilidades. “Os totalitarismos”, diz Amelia Valcárcel, especialista em ética, “nunca reivindicaram a si mesmos como prováveis, mas como verdadeiros”. E sua verdade matou milhões para glória dos ditadores que se apavoram diante da livre imprensa.
Quinta, 20 Outubro 2005 22:00

Considerações Sobre o Referendo

Quando o Estado é democrático, o povo soberano cede aos que operam nos três poderes, o monopólio da força física, o que legitima o seu uso pelas autoridades.Quando o Estado é democrático, o povo soberano cede aos que operam nos três poderes - simples representantes do mesmo povo - o monopólio da força física, o que legitima o seu uso pelas autoridades. "Autoridade" é quem recebe licença popular. Semelhante autorização é simultânea a duas outras, a da norma jurídica e a que ordena a extração de impostos. Mas o povo não cede a soberania aos que o representam ("todo poder emana do povo e em seu nome será exercido"). Ele não pode passar aos seus funcionários (é o termo para definir o presidente da República e o vereador) o monopólio absoluto das armas.

As milicias são aceitas, da Grécia até hoje. Se um país perde a guerra (usou a força de modo incorreto), o povo deve ter armas para se defender, direito inalienável. Mesmo que no referendo a maioria apoie a lei em debate, o princípio da auto-defesa é válido e o "sim," abuso da maioria. Quem imagina que o direito às armas é individual inverte o princípio democrático. Este afirma limites para o poder dos governantes, que podem normatizar o uso da arma, punir quem as usa para desobedecer a lei, cobrar impostos dos fabricantes etc. Se o Estado tivesse o direito de proibir armas, mesmo com o consentimento da maioria, seria legítimo e legal abolir o direito de auto-defesa. Até Hobbes, apologista do governo absoluto, reconhece aquele direito. A excusa da não destreza técnica dos usuários civis no manejo das armas, supõe um desvio lógico. O treino pode ser conseguido, mas o principio é vigente ou não. E o princípio democrático enuncia que o cidadão pode usar armas.

É possível que pessoas, grupos, partidos ou igrejas defendam um Estado que açambarque os direitos do povo soberano. Mas sua propaganda deve exigir a tutela da plebe e a majestade, como em outros regimes como o aristocrático, que reserva as armas apenas para os nobres. A lei submetida ao referendo não retira dos abastados os exércitos particulares, com o nome de "Serviços de Segurança". Os políticos contam com "seguranças" para se proteger. A lei do suposto desarmamento é iníqua e oposta à justiça. Outro argumento afirma que no Brasil as armas assassinam "por motivos fúteis". Quem conhece a nossa sociedade sabe que a dita "futilidade" tem causas profundas. No Brasil, a "honra" dos indivíduos pobres liga-se ao favor e à dependência em relação aos poderosos. Os estudos sobre a formação da sociedade brasileira, inclusive quanto ao uso de gente jovem para o narco-tráfico, mostram que os crimes "fúteis" são explicáveis por complexa rede de dominação social. Se os que matam por "honra" não tiverem armas de fogo, terão facas e outros instrumentos.

Tratando-se de meios letais, as estatísticas do trânsito brasileiro evidenciam verdadeiras guerras civis. O governo irá impor uma lei proibindo o uso de carros? E quem impedirá setores da policia de vender armas às quadrilhas? E quem impedirá o abuso das armas pela polícia? A tese que abandona o direito individual tem nome: totalitarismo. Este último matou algo em torno de seis milhões de pessoas nos campos de concentração. Quem o enfrentou? Os que, em Varsóvia, se levantaram com as armas que tinham (paus, pedras, punhos) contra o nazismo. No Brasil, a sementeira autoritária tem história e se transformou na "verdade" de que os indivíduos não possuem direitos. "O Estado não conhece direitos de indivíduos contra a coletividade. Os indivíduos não têm direitos, têm deveres! Os direitos pertencem à coletividade!" (Getúlio Vargas, Discurso de Primeiro de Maio, 1938).

Medidas contra a violência? Menor concentração de renda, mais recursos na educação das massas para a ciência e tecnologias de ponta e saúde pública. Modificação do modus operandi político (acabando com o foro privilegiado dos políticos, que mantêm os costumes dos coronéis etc.). Mas tudo isso requer coragem dos governantes. Atenuar o superavit primário seria louvável. É mais suave o caminho da covardia, arrancar impostos de assalariados e fornecer benesses a banqueiros. É fácil arrancar armas do cidadão que tem nome e endereço e paga impostos (e no Brasil, a compra de uma caixa de fósforos gera taxas, o pobre sendo o mais lesado). Se o intento fosse discutir com a cidadania a lei que segue para referendo, fosse imitada a Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Esta editou um Código das Águas exemplar para o mundo após ouvir as populações, os técnicos universitários, os juristas. Se algo assim tivesse sido feito, seguindo-se um plebiscito, haveria ilegitimidade menor na lei de desarmanento, que resulta de um golpe de Estado, mais um dos muitos cometidos pelos governos brasileiros, como nos "planos econômicos", quando a população nunca foi ouvida. Gabriel Naudé, o autor do primeiro livro sobre o golpe de Estado (Considerações Políticas sobre o golpe de Estado, 1639), diz que a sua essência encontra-se na surpresa: depois que ele é dado, o povo se pronuncia. Como no próximo referendo.
Quarta, 12 Outubro 2005 21:00

Cidadão Honesto Desarmado

Em questões éticas ou políticas, honesto é assumir atitude própria, presa ao exame dos fatos e dos princípios universais.

Em questões éticas ou políticas, honesto é assumir atitude própria, presa ao exame dos fatos e dos princípios universais. Lastimável - e muito -, no Brasil de nossos tempos a reiteração dos lugares comuns e dos truques fraudulentos usados pelo governo petista para mergulhar o País na aventura do Estado forte, que açambarca os direitos da cidadania. O pior exemplo tem origem no Chefe do Estado. Em artigo de jornal, o escritor da presidência comete algo inacreditável (no Estado democrático de direito): "Sei que algumas pessoas, peritas em armamento, consideram a vedação ao porte uma ofensa a seu direito individual. Essas pessoas, contudo, são exceções e a lei não é feita para as exceções. Todos os países do mundo admitem restrições aos direitos individuais quando seu exercício pode colocar em risco os direitos ou a vida de terceiros.

O direito ilimitado por excelência é o direito de opinião" (Folha de São Paulo, 9/10/2005). Embora o presidente ocasional não saiba escrever nem ler com destreza, o secreto redator retoma uma "idéia" antiga e totalitária do pai do povo: "Acho que a liberdade individual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que você cria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece. Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que você precisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidade possa participar das decisões". (Palavras da mesma pessoa que hoje preside a república, na Folha de São Paulo, naquela data (1986), relutante defensora da luta armada.

O presidente não gosta de ler e o exercício do direito e da lógica passam longe de suas arengas. O escritor fantasma que o serve, no entanto, antes de publicar artigos de enorme responsabilidade pública, deveria consultar juristas e lógicos. Claro, se o alvo do seu texto consistisse em defender a democracia. Não é o caso do aranzel publicado. Nele, o indivíduo deve curvar-se ao coletivo. Este último, como não tem personalidade própria (nem o governante, nem o seu escritor fantasma mostram leitura de Hobbes, mas neste ponto situa-se a base mesma do Leviatã), é personificado pelo presidente e demais "autoridades". Assim, o truque primário de reduzir direito universal e um princípio à reivindicação de "algumas pessoas", nega a amplitude da lei, transforma os que exigem respeito pela Constituição em "exceções".

Bem na linha de Hobbes, mas sem ter consciência (se abrir livros é impossível para o presidente e seus acólitos, imaginem esmiuçar volumes do ardiloso defensor do arbitrio!). A escrita de Hobbes não combina com Zeca Pagodinho que, sabemos, é o grande mestre da filosofia e do direito que regem o Planalto. Chefe de Estado e seu escriba só permitem as liberdades públicas no "direito de opinião", que não se traduz em leis, atos e fatos. Um direito que não é um direito. O poder, pelo menos, constata a loucura de arrancar o pensamento das pessoas, façanha tentada sem sucesso pelos totalitarismos pretéritos.

O presidente insulta os contrários ao "desarmamento" (desarmamento enganoso, porque os ricos e os políticos terão os seus exércitos de "seguranças" armados) e publica sua opinião sobre o referendo. Ele tem o direito de opinar. Mas convocado um referendo, todo o poder estatal, incluindo o governo, torna-se magistrado. O presidente representa todos os brasileiros e tem o dever de acatar a opinião de todos e de não se pronunciar antes das urnas. O "artigo" citado é ato de guerra contra os que discordam da política governamental. Nele, se afirma sem provas idôneas que a culpa da violência encontra-se nos que defendem o porte de armas para auto-defesa. Estivéssemos num país que respeita as leis, o presidente responderia pela calúnia contra uma parte considerável da cidadania. A atitude presidencial seria apenas hilária se não definisse o destino de seres humanos, como no referendo convocado para validar a lei imposta no Congresso com o modus operandi habitual, delatado por Roberto Jefferson, o companheiro do presidente, a quem este último daria um cheque em branco.

Não confio em Jefferson e tenho certeza de que ser contra desarmamento é seguir a doutrina mais antiga do mundo democrático e do ensino cristão. Nas Revoluções inglesa, norte-americana e francesa, sem as quais não conheceríamos direitos humanos, a prerrogativa do particular possuir armas é sagrada. Tomás de Aquino reconhece o direito à defesa própria (Summa, IIa IIae q. 64 a. 7). Prefiro aqueles movimentos e Tomás de Aquino, em vez da hipocrisia bem pensante que entrega os cidadãos aos fora da lei e aos donos do poder, os quais não têm coragem e meios para enfrentá-los. Na lógica de nossos governos, é mais seguro arrancar impostos, trair a confiança, impedir o armamento dos cidadãos honestos, com endereço e lugar de trabalho conhecidos. Não existe, para esse método, outro nome senão covardia.

Segunda, 03 Outubro 2005 21:00

O PT Foi Partido

As preocupações dos que analisam o Estado encontram-se nos partidos políticosAs preocupações dos que analisam o Estado encontram-se nos partidos políticos. As reformas propostas no Parlamento trazem a marca da economia, como se a corrupção fosse ligada apenas ao corredor onde escoam as finanças públicas e particulares. É inegável a força do vil metal no apodrecimento das instituições nacionais. De Valério (incluindo Buratti e amigos) ao Dr. Nicolau, passando pelas operações do Ministério Público e PF, todos os setores do Estado foram atingidos pelo dinheiro ilícito. A corrupção material, no entanto, não explica os eventos que a cidadania assiste na mídia.

Da Grécia à república de Roma, pensadores identificaram na vida social e política alguns fenômenos não presos à riqueza, mas às paixões. Filósofos juristas temiam os partidos políticos. Como o nome indica, o partido é uma ruptura no todo político e social. Quando um indivíduo assume atitude partidária, diziam gregos e latinos, ele perde a fidelidade ao povo e deixa de viver conforme o ideal clássico elogiado por Rousseau: “Um cidadão de Roma não era nem Caio, nem Lucio, era um romano”. Na modernidade, os partidos foram aceitos (na ordem democrática), mas sempre um deles pretendeu excluir os demais, durando a sua ditadura o tempo garantido pela eficácia na reunião das massas ou produtividade econômica. Os jacobinos, na Revolução Francesa, duraram o tempo do Terror, durante o qual perderam apoio das multidões e dos ricos. Mas quiseram banir os demais partidos. Os “honestos” não faziam concessões aos adversários, chegaram guilhotinar Camille Desmoulins (5/4/1794) pela “traição” de admitir a liberdade de pensamento, a diversidade dos partidos. “Deveis punir não apenas os traidores, mas os próprios indiferentes; deveis punir todos os passivos na República e que nada fazem por ela: pois, desde que o povo francês manifestou sua vontade, tudo o que lhe é oposto está fora do soberano; tudo o que está fora do soberano é inimigo” (Saint Just).

Uma análise terrível do pensamento político encontra-se na Fenomenologia do Espirito de Hegel. Ao chegar ao poder, os jacobinos desejaram reinar sozinhos. Quem não estivesse no seu partido seria suspeito. E os suspeitos deveriam morrer. O terror foi o instrumento dessa política que extermina as diferenças. A morte da alteridade, diz Hegel, tornou-se banal, “sem maior significado do que cortar uma cabeça de repolho ou de engolir uma gota d’agua”. Uma facção é um partido no partido. Ali, começa a exclusão moral dos adversários. Quando chega ao poder, se julga preciso, ela assassina os líderes e militantes das tendências opostas. Depois, segue para o extermínio dos que resistem ao seu mando na sociedade.

Assim ocorreu com o Nacional-Socialismo. Nutrido por juristas como Carl Schmitt, os nazistas assumiram a tese de que “a essência do político reside no conflito extremo, até a morte física de um homem. A política é vista em função de um perigo interno e externo”. Tais frases de Yves Charles Zarka, um dos mais relevante filósofos políticos de nossos dias (Cf. Un détail nazi dans la pensée de Carl Schmitt, PUF, 2005) são reforçadas por Franz Neumann, citado pelo mesmo Zarka: a política nazista “é uma relação de amigo contra inimigo. Em última análise, o inimigo é todo aquele deve ser exterminado físicamente. Todo relacionamento humano pode tornar-se político neste sentido, porque todo adversário pode se transformar em inimigo suscetível de ser eliminado físicamente”. O mesmo ocorreu com o poderio stalinista. As facções que se digladiavam no Partido foram eliminadas moral e fisicamente, sine ira et studio, das células à direção superior, resultando nos Processos de Moscou e no Gulag. Enquanto os nazistas fizeram sua estréia com seus companheiros da SA, assassinados em grupo, os donos do proletariado mataram seus pares (William Waack prova tais atos lancinantes em seu livro Camaradas, Companhia das Letras, 2000) e depois seguiram para o assassinato de milhões.

A noção da política como luta mortal contra os “inimigos” internos e externos instalou-se nas mentes de muitos petistas. Eles falam de “golpe” e de “elites” para indicar os seus inimigos. Realistas em política (“é preciso sujar as mãos, não fazemos omeletes sem quebrar os ovos”), e como se entregaram à elite financeira e à corrupção (o que introduz o banditismo na política, conforme a descrição genial do fenômeno escrito por Karl Marx no 18 Brumário), os líderes do “campo majoritário” no PT, uma facção truculenta, não recusou o costume de matar moralmente seus oponentes. No caso de Celso Daniel eles tentaram intimidar o Ministério Público e a imprensa, para que uma versão que lhes era favorável fosse a definitiva. Mesmo que não tenham chegado aos extremos de seus ancestrais stalinistas, sua arrogância e fuga da verdade mostra que eles pensam os seus adversários como candidatos à morte, espiritual ou física. Resultado: homens partidos, partidos, partidos…
Segunda, 19 Setembro 2005 21:00

Pseudocracia e Desculpas Presidenciais

A chamada “razão de Estado” é uma arte de utilizar a mentira e o segredo, de modo a enganar os cidadãos e os estrangeiros para o “bem da pátria”.

Domingo, 14 Agosto 2005 21:00

Vergonha! Contra Os Acordos Espúrios

“Só criticam a injustiça os que, devido à covardia ou fraqueza devida à idade, não possuem força para ser injustos".

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