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Roberto Romano

Roberto Romano

Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Domingo, 16 Julho 2006 21:00

Baderneiros e Excrementos

Aqueles indivíduos, cujos cérebros são imersos nos excrementos da alma, foram mantidos, até então, pelo governo petista, para efetivar atos de vandalismo.

"Dis, front blanc que Phébus tanna, /De combien de dollars se rente/PedroVelasquez, Habana;/Incague la mer de Sorrente. /Où vont les Cygnes par milliers ;/ Que tes Strophes soient des réclames…" (Rimbaud, Ce qu´on dit au poète à propos des fleurs). Os versos do poeta são precisos e francos. Tento traduzí-los com a ousadia trôpega que me é habitual: "Diga, testa alva que Febus amorenou,/Quantos dólares vale/Pedro Velasquez, Havana;/ Caga o mar de Sorrento./Para onde vão os cisnes aos milhares; /Que tuas estrofes sejam propaganda…" . O leitor cultivado não tem direito aos eufemismos hipócritas. Ele sabe perfeitamente que as palavras só têm sentido quando usadas para afirmar coisas de modo exato. Em tempos de linguagem covarde e "políticamente correta" (e, justo por isto, na maioria das vezes éticamente incorreta) o eufemismo impera no Brasil. É assim que roubo e caixa dois, quando praticados por líderes petistas, se transformaram em "recursos não contabilizados" . Orwell teria muito a aprender com os éticos aposentados, e hoje apenas cínicos, do Partido dos Trabalhadores.

Há uma saborosa expressão francesa sobre alguém que não teme falar o termo certo na hora aprazada: "il ne mache pas les mots" (ele não masca as palavras). Ou seja: enuncia o que deve, sem temor. Outra fórmula saborosa da lingua manipulada com destreza por Rabelais e por tantos outros artistas do verbo na França : "il n´a pas froid aux yeux" (ele não tem frio nos olhos), não pisca quando se trata de afirmar algo "desagradável" aos poderosos. Rabelais foi mestre da língua franca e livre, a de um povo inteligente e generoso que, ao lado do mais estrito respeito pela tradição, inovou muito o vocabulário decoroso do cristianismo. Basta ler o Gargantua, onde surge a mais hilária e correta definição dos confessores. Estes seriam os "mâchemerdes" do mundo. Os pecadores fazem "aquilo" e os padres os limpam… O século 17, dito clássico, censurou a lingua e os costumes, de modo a disciplinar elites e populacho, para que fosse bem obedecido o poder absoluto do Rei. Desde então, a lingua francesa perdeu a força que dela fez a mais encantadora torrente verbal da modernidade.

Volto aos palavrões. O verbo usado por Rimbaud, "incaguer" (transitivo, derivado do italiano "incacare" ) é conhecido desde 1552, época de Rabelais e da Renascença. Daí, passou para a nossa "inculta e bela" , sempre com o mesmo significado. Em francês ele designa "incomodar" (com o sinônimo, "emmerder" ) e por volta de 1561 passou a assumir o traço de "desprezar, tratar com desprezo" . Na lingua popular brasileira, alguém atoleimado, sem destreza mental ou digital, sempre comete algo passível de ser designado pelo vocábulo.

Os baderneiros que invadiram a Câmara Federal para intimidar deputados, senadores e, sobretudo, os "inimigos" da vida civil (a maioria que não aceita seus métodos e supostas doutrinas) prepararam com frieza metódica a sua intervenção. A fita gravada do encontro que mantiveram para ordenar o crime, mostra um deles, com voz boçal e fanatismo notório, arengando os seus pares sobre a relevância do grande feito a ser cumprido. Tratava-se, no seu entendimento, de levar o desgaste aos partidos da oposição, visto que o presidente da república, na dianteira das pesquisas eleitorais, estaria defecando e andando para tudo.

Aqueles indivíduos, cujos cérebros são imersos nos excrementos da alma, foram mantidos, até então, pelo governo petista, para efetivar atos de vandalismo. Entre outros "feitos" invadiram o Ministério da Fazenda, recebendo bençãos e dinheiros governamentais (ou seja, nossos). Covardes, souberam escolher agora a sua vítima certa: o Congresso nacional onde os seus companheiros de "ideologia" promoveram a maior expulsão de dejetos éticos da nossa história, com as absolvições dos mensaleiros e danças ridículas para comemorá-las. Aliás, devido à lama espalhada por eles no plenário da Câmara, vários deputados receberam de cidadãos enojados, envelopes com dejetos humanos mal cheirosos. Estava preparada a ação dos baderneiros: um símbolo nacional conspurcado por parlamentares indignos, só poderia mesmo servir como receptáculo dos excrementos humanos mantidos pelo Executivo da república. Como diz o "líder" Sua Excelência o presidente está….. E paro por aí.


Caro leitor: não me queira mal se uso as palavras certas. Como indiquei, Rabelais e Rimbaud, grandes escritores, empregaram os mesmos termos hoje reproduzidos na boca imunda dos terroristas que invadiram o Congresso. Só que nos franceses o palavrão tinha sentido ético. Tratava-se de criticar costumes fedorendos, cujo símile físico só poderia algo desagradável à narina. Quando os mesmos termos aparecem em bandidos pagos pelo governo para nos atemorizar, o significado expressa a essência do mesmo governo. Para falar de modo chic, o atual governo é uma bela maneira de "incaguer" , nada mais. PT, saudações.

Quarta, 21 Junho 2006 21:00

Gordura, Bebedeira, Caráter

A troca de insultos entre Lula e Ronaldo atinge planos delicados do mundo civil. Se o primeiro estivesse correto, Ronaldo seria, pela comilança, uma besta. Se o insinuado pelo segundo fosse verdade…

“Abandonar a moderação quando se come ou bebe é uma quebra do dever para com a nossa pessoa. Os vícios da comilança e da bebedeiras são bestiais e degradam o homem. Alguns deles estão além da natureza humana e não podem ser reconciliados com o caráter de uma pessoa. Pelos vícios bestiais o homem degrada a si mesmo e desce abaixo dos bichos…” (I. Kant)

O trecho kantiano, que cito segundo a tradução inglêsa (Lectures on Ethics, Hackett Ed., 1963, página 159) traz pistas para se entender algumas confusões ocorridas nos últimos tempos em nosso triste Brasil. Os leitores espertos já notaram, nas próprias linhas de Kant, o meu alvo inicial: a briga entre o peso de Ronaldo e a bebida de sua Excelência. As acusações trocadas pelos conhecidos personagens tocam em pontos delicadíssimos da moralidade individual e coletiva.

Os desejos humanos desconhecem cancelas. Justo por semelhante motivo surgem as piores tragédias. A saga dos átridas, na Grécia, partem de comilanças nas quais as fronteiras entre humanidade e selvageria são desrespeitadas. Percebendo Tiestes como traidor, Atreu convida o irmão, com extremo dolo, para um jantar. O cardápio traz os filhos de Tiestes. Acabada a janta, os restos das crianças foram exibidos ao pai atormentado que as devorou . Esta é a origem das mais belas e terríveis tragédias gregas, desenvolvidas em clima de comilança sem freios e em ambiente de embriaguez delirante. Não por acaso a tragédia e o deus Dionisios unem-se para ampliar o desespero humano que se afoga no vinho e estraçalha carnes e alma. Quem ignora medidas ao ingerir alimentos ou sugar o vinho, termina devorando os músculos, bebendo o sangue de suas próprias entranhas. É o que se passou com Agamenon que sacrificou sua filha Ifigênia para se garantir no poder. Se não a devora físicamente, ele inagura a história política ocidental, um açougue como diz o filósofo Hegel.

Os limites entre a humanidade e a selvageria são tênues. Os homens só deixam a ferocidade permanente pela educação, quando começam a respeitar os direitos mútuos. Mas a cultura espiritual, resultado do processo educativo, está permanentemente ameaçada pela vontade que desconhece limites. O desejo de tudo comer, tudo beber, tudo controlar, encontra-se na gênese da violência política e social. Ainda segundo Hegel, “a história universal é o domínio da violência desenfreada com que se manifesta a vontade natural”. Contra esta tendência, apenas a educação oferece alguma tregua, alguma paz. “A educação”, diz Hegel, forma os indivíduos e povos “para a liberdade subjetiva”, porque domestica a fera que habita corpos e almas selvagens: “Die Weltgeschichte ist die Zucht von der Unbändifkeit des natürlichen Willens zum Allgemeinen und zur subkjektiven Freiheit” (“Lições sobre a Filosofia da História”). O termo principal nessas linhas é a palavra alemã “Zucht”. Ela conota educação, disciplina, cultivo, e repressão da animalidade humana. Quem não é forçado, pela educação, a respeitar os limites entre o humano e o feroz, ignora a moral, a ética, as leis, os costumes sadios. O beberrão e o glutão, diz Kant, integram a lista dos que atentam contra a própria humanidade.

A troca de insultos entre Lula e Ronaldo atinge planos delicados do mundo civil. Se o primeiro estivesse correto, Ronaldo seria, pela comilança, uma besta. Se o insinuado pelo segundo fosse verdade… Termino com uma nota sobre o presidente. Ele foi interpelado pelo STF para explicar quem é o jornalista “bandido” e “sem caráter” que supostamente o desrespeitou. Ainda na semana passada, Sua Excelência disse que à oposição ao seu governo falta caráter. Interessante esta obsessão com o termo e a coisa por ele sugerida. Caráter é o impulso natural da vontade, algo que reside no lado feroz do ser humano e que deve ser moderado para que o seu portador seja acolhido no convívio civil. Não basta ter caráter: é preciso que a educação o torne bom. Caso oposto, é possível perfeitamente que o voluntarioso seja mau-caráter. Poderosos devem receber educação do caráter, para moderar seus ímpetos. Os piores tiranos desconheceram os limites entre sua vontade e as exigências do convívio. Napoleão, Hitler, Stalin e outros, impuseram seu caráter aos Estados que deveriam servir. Quando o governante não recebe críticas de partidários e aliados (tirania é bajulação), resta aos opositores realizar este mister. Para isto é preciso muito caráter, mas envolvido em valores universais. Caso oposto, o caráter se esgota no auto-elogio, no qual Lula é mestre. Como dizem os caipiras, “gavação em causa própria é vitupério”. Entenda o presidente que, segundo a Constituição, ele é responsável pelos desmandos dos auxiliares. Se estes cairam, o que esperar do mestre? Votos aos milhões não apagam as manchas do seu governo. Na Alemanha, na URSS e em outros regimes autoritários, milhões votaram nos Líderes voluntariosos. Mas sobre eles hoje impera o silêncio.

Terça, 06 Junho 2006 21:00

Orgulho e Ridículo

O presidente Lula, devido às intenções de voto que recebe nas pesquisas eleitorais, além de negar conhecimento de crimes cometidos por seu Partido e governo, desafia a ética ao dizer que os ouvidos nas CPIs são “vítimas de tortura”.

O presidente Lula, devido às intenções de voto que recebe nas pesquisas eleitorais, além de negar conhecimento de crimes cometidos por seu Partido e governo, desafia a ética ao dizer que os ouvidos nas CPIs são “vítimas de tortura”. Ele assim justifica o que fizeram Delúbio Soares, Silvio Pereira, Antonio Palocci e a quadrilha denunciada pelo Procurador Geral da República. Não comentarei a manobra demagógica. Indicarei aos leitores cristãos do PT e dos segmentos opostos a ele, o quanto o presidente temporário (a menos que deseje se perpetuar no poder, a exemplo de Fidel Castro) é vítima de um defeito capital, segundo a ordem cristã dos valores. Perdoem as citações eruditas após os enunciados. Elas são necessárias devido à gravidade do assunto.

Lula não sabe, porque nada leu de teologia e de filosofia moral, mas nos Evangelhos o orgulho marca uma das piores tentações de Cristo, em passagem unida diretamente ao poder político : “Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e lhe disse: ´Tudo isto te darei se, prostado, me adorares´. Então Jesus lhe ordenou: ´Retira-te, Satanás, porque está escrito : Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto´”. (Mateus, 4, 8-10). Na Primeira Epístola de João, três coisas nos afastam de Deus : a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, a “soberba da vida” (2, 16). O último elemento liga-se ao poder governamental, como enunciam comentaristas abalizados do catolicismo (Lula se diz católico...). Para eles, no mundo político ocorre “um desejo incontrolado de honras, estima, hierarquia, pompa e espetáculos, ligados aos vícios do orgulho, ambição, vaidade e auto-exaltação”. (A Catholic Commentary on Holy Scripture). E como Lula exalta a si mesmo...

A fórmula grega alazoneia utilizada para expressar superbia, tem uma constelação de significados trágicos e ridículos. Na lingua política grega o termo implica a impostura perigosa, sobretudo nos discursos demagógicos que imitam o verdadeiro. Os gloriosos são tragicômicos que usam palavras e signos para enganar os incautos. (Cf. J. Hesk, Deception and Democracy in Classical Athens) A sátira, sobretudo a de Luciano, relevantíssima na cultura cristã primitiva, nutre-se da crítica à “alazoneia”. (Braham, R.B. : Unruly Eloquence. Lucian and the Comedy of Traditions).

No Eclesiástico, livro canônico para a Igreja Católica, o tema do orgulho segue imediatamente após o do bom governo: “tal o governante do povo, tais os seus ministros; qual o que governa a cidade, tais todos os seus habitantes. Um rei sem instrução arruinará seu povo, uma cidade será construída graças à inteligência dos chefes. Nas mãos do Senhor está o governo do mundo; ele suscita, no tempo oportuno, o homem que convém” (10, 2-5). E logo a seguir: “o orgulho é odioso tanto ao Senhor como aos homens, e ambos têm horror da injustiça. O poder passa de uma nação a outra pela injustiça, pela violência e pela riqueza (...) O Senhor derruba o trono dos poderosos e assenta os mansos em seus lugares. O Senhor arranca a raiz dos orgulhosos e planta os humildes em seu lugar. O Senhor destrói o território das nações e aniquila-as até o subsolo” (10, 7-9 e 14-17). A chave da leitura católica encontra-se no versículo 14 do trecho: “Initium superbiae hominis apostatare a Deo” (O princípio do orgulho é o homem afastar-se do Senhor). A soberba inspira o afastamento em relação a Deus e suscita a tentativa sacrílega de atingir o divino com as próprias mãos, como na Torre de Babel. Diz o comentário católico, “o escritor sacro foi movido pela convicção profunda de que o governo absoluto de Deus sobre o mundo lhe ensina que a tentativa humana desagradou o Senhor e a narrativa sugere que o pecado foi a desmesura do orgulho humano e da auto-suficência” (Cf. A Catholic Commentary). O maior sinal do orgulho encontra-se na figura diabólica. No trecho que mencionei acima, a tentação de Jesus, resume-se o núcleo do cristianismo no relativo ao nexo entre política e saber religioso. Na passagem, Jesus chama o tentador com o seu nome de origem - Satan - enquanto a tradução grega traz a palavra diábolos, cujo significado é “um inimigo”, ou acusador legal. O diabo é o grande acusador do homem diante do Altíssimo. (Jó, 1, 6-2,7).

Lula pode afastar o perigo das CPIs e receber votos aos milhões, mas ainda é um orgulhoso “rei sem instrução” . Colaboram para este seu vezo os oportunistas que ontem falavam em ética e hoje riem dos valores. Eles são acometidos de “alazonéia” e cupidez, alimentam o orgulho do governante com os seus rapapés. Como diz o Padre Vieira, são peixes parasitas - os “pegadores”- que se alimentam dos vermes apegados nas costas do peixe grande. E como existem aduladores nos dias atuais!


PS: o recado vale para os oposicionistas de fachada que só pensam em 2010, traindo seus compromissos de agora. No próximo artigo comentarei o excelente livro de Luciana Genro e R. Robaina, A Falência do PT. (L&PM Editores, 2006).

Quarta, 03 Maio 2006 21:00

Imposturas Intelectuais

Nem sempre o charlatão é apedeuta. Nem todo analfabeto é “estadista”, como Lula é apresentado no impagável livro de Aloizio Mercadante, “Brasil: primeiro Tempo”.Analistas políticos que aplicam-se à bola de cristal sempre erram. Aliás, todos os que se aplicam à referida esfera translúcida, tropeçam gravemente. Há um livro traduzido pela Editora Unesp sobre as traquinagens de cientistas (ou ex-cientistas) na astrologia. O nível de algumas universidades brasileiras desceu tanto que nelas existem cursos e “pesquisas” astrológicas. E dinheiro escorre dos cofres públicos em prol da idiotia delirante. Certa feita escrevi que, a seguir a tendência populista atual, breve os diplomas seriam distribuídos em comícios. E se eles fossem entregues entre números circenses? A ciência seria fácil, leve, agradável, não exigiria esforço intelectual ou ético. Bastariam os truques. Num país que recebe o último lugar do mundo no ensino da matemática, é crime aplicar verbas estatais em patifarias noéticas. O título do livro citado? A Impostura Científica em Dez Lições, de Michel de Pracontal.

Ocorrem diferenças entre cientistas e charlatães da astrologia e quejandos. Os primeiros “não param de questionar, revisar hipóteses, corrigir teorias”. Já os que se dizem alternativos em relação à “ciência oficial” mostram-se “mais dogmáticos do que os denunciados por eles”. Nem sempre o charlatão é apedeuta. Nem todo analfabeto é “estadista”, como Lula é apresentado no impagável livro de Aloizio Mercadante, “Brasil: primeiro Tempo”. A metáfora futebolística do título mostra a distância entre o “estadista” e o demagogo. Nem todo charlatão fugiu da escola. Alguns, os que obtem maior sucesso, conhecem técnicas, teorias, métodos, doutrinas e dominam o jargão científico.

Vejamos o caso de Joël Sternheimer. Formado em física, ele diz ter descoberto algo sensacional previsto por Pitágoras, Platão e aceito no século 18 pelo músico Rameau: o universo é composto segundo escalas musicais! Para Sternheimer, a massa das partículas estáveis da natureza se repartem como as notas da gama cromática temperada do Ocidente. Se acrescentarmos as partículas instáveis, o conjunto forma uma gama mais fina, síntese das gamas ocidentais e orientais. Proclama o descobridor que “a maioria das partículas deixa um traço visível numa câmara com bolhas (que persistam pelo menos alguns átimos), procedem de uma tonalidade em lá menor, do qual ômega-menos é a dominante. Se tais partículas seguem a gama introduzida por Bach, a música que elas produzem (centrada na dominante) é mais próxima de Mozart, um tanto parecida com a de Satie (e não duvidando, se incluirmos as partículas instáveis, se forem empregados intervalos próprios às músicas, orientais)”.

A “descoberta” parte de uma coincidência numérica: as massas das partículas têm uma repartição que recorda a dos intervalos musicais. Daí, a fantasia conduz a varinha mágica do expositor. Tais devaneios foram apresentados na mais prestigiosa instituição acadêmica francesa: o Colégio de França (Cf. Joël Sternheim, “Musique des particules élémentaires”, comunicação ao Seminário de Física Matemática do Colégio de França, janeiro de 1984). Os que estudam o campo, sabem que foi efetivado pelo expositor do seminário um abuso metafórico. Mas quem se preocupa com análises empíricas, controles e experiências? É tão mais sugestivo acreditar que vivemos e nos desenvolvemos imersos em música... Somos entes musicais ! Corações se movem, sentimentos reverentes despertam e logo temos uma nova linha para o “esboço inteligente” do universo. Inteligente e belo. Todas as vias para a prova da existência divina são fornecidas. Pobre Aquino, prosaico e difícil… Eu me esquecia: o expositor não pensa em termos teológicos. Ele pediu patente de seu trabalho na França e promete construir instrumentos acústicos e eletrônicos que permitem tocar a música das partículas. E os tais instrumentos até que funcionam, abrindo novos campos para a criação artística. Mas o que provam ?

No caso, trata-se de expansão poética próxima às da “física” romântica alemã, francesa e inglesa do século 19. Mas semelhantes delírios passam dogmaticamente para as chamadas ciências humanas e são acolhidos na filosofia acadêmica. Nesta última, professores e professoras famosos aplicam-se a “teorizar” sobre a relatividade e números matemáticos, como foi o caso da Dra. Marilena Chaui. Pega no bote por um colega especialista, o recurso dos seus áulicos foi dizer que o referido crítico era tucano. Logo… Mas pior que a Dra. Chaui é o imenso batalhão dos que, na filosofia e nas ciências humanas usam o jargão e o prestígio das ciências para parolar sobre coisas desconhecidas pelo público. Um trabalho útil e ético de profilaxia foi realizado pelos corajosos Alan Sokal e Jean Bricmont num livro impagável, impiedoso e verdadeiro (Cf. Imposturas intelectuais, o abuso da ciências pelos filósofos pós-modernos). Claro que o escrito é maldito na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia e demais cenáculos. Mas este é um assunto conexo, mas diferente.
Domingo, 09 Abril 2006 21:00

Respeitem o Povo Brasileiro

O Partido dos Trabalhadores usou a ética e a moralidade públicas, durante mais de 20 anos, como elemento de propaganda. Ele se apresentou como campeão do povo brasileiro, caluniado e sofrido. No poder, revelou-se a hipocrisia que marca os discursos dos seus líderes.O Partido dos Trabalhadores usou a ética e a moralidade públicas, durante mais de 20 anos, como elemento de propaganda. Ele se apresentou como campeão do povo brasileiro, caluniado e sofrido. No poder, revelou-se a hipocrisia que marca os discursos dos seus líderes. Diante das evidências de sua falta de respeito aos parâmetros éticos, espalham a lama. E usam a técnica do gambá, evocada por mim quando critiquei o pai do “é dando que se recebe” no Congresso Nacional, em artigo na Folha de São Paulo ( “O Prostíbulo Risonho”). Descobertas as falcatruas, dizem os culpados que os outros são iguais a eles. Não contente em caluniar a classe política — existem políticos que não agem como Delúbio Soares, Silvinho Land Rover etc. — o PT, com ajuda do Ibope, tenta ampliar as bases desse procedimento. Não apenas os políticos, mas cerca de 70% do povo brasileiro seria corrompido! Trata-se de operação a ser denunciada pelas pessoas sapientes, de bem e que possuem dignidade.

As ciências sociais desenvolveram métodos para apurar os surveys, testá-los, corrigi-los, tendo em vista deles afastar perguntas que induzam respostas. Todo estudante de sociologia, antropologia, psicologia social, economia, sabe que o mais árduo em termos científicos é produzir questionários sem subjetivismo (indicando valores do próprio pesquisador) ou questões que nada medem do que se deseja, ou medem o que não se deseja. As questões colocadas pelo Ibope aos pesquisados induzem as respostas para um resultado só, o da própria corrupção. Caso fossem postas perguntas ligadas apenas a fatos positivos, e inseridas na mesma ordem utilizada na pesquisa, teríamos 70% de anjos no Brasil. Nem uma coisa, nem outra.

As ciências sociais aprimoraram instrumentos analíticos que permitem controlar os dados postos pela consciência dos atores coletivos e individuais. Não é preciso ser marxista, freudiano, nietzcheano para perceber naqueles pensadores algo essencial das ciências humanas: há enorme diferença entre “pensar” algo sobre si mesmo e “ser” algo. Marx, Freud, Nietzsche foram chamados pelo grande filósofo Paul Ricouer, não por acaso, como “os mestres da suspeita”. Eles reforçaram a necessária cautela diante do conteúdo imediato da consciência, rigor exigido de quem deseja fazer ciência e não repetir preconceitos ou valores. Não é científico passar (sem análises empíricas e lógicas) da “consciência” de que se é “bom” ou “ruim”, para o “ser” bom ou ruim. Um coletivo pode se considerar excelente, sendo perverso. Mas ele também pode se considerar péssimo, e ser uma sociedade razoável. Não seria preciso os mestres da suspeita. Basta abrir os textos platônicos: existe diferença entre a opinião (doxa) que alguém possui dos outros e de si mesmo e a ciência (epistême). Esta última, não raro, deixa insatisfeitos os que têm de sua gente e costumes uma idéia falsa. A resistência ao grande Darwin possui esta fonte: os sujeitos se imaginavam seres únicos no interior da natureza. A evolução destruiu esta opinião. A ciência não repete o que os sujeitos pensam sobre si mesmos. Ela investiga a verdade das suas assertivas.

É possível inculcar nos agentes coletivos e individuais falsas opiniões sobre o próprio valor. B. Bettelheim, no livro The Informed Heart, the human condition in modern mass society, mostra como os carrascos nazistas domesticaram prisioneiros dos campos de concentração. Eles usaram técnicas que induziam os aprisionados à perda da auto-estima, à idéia de si mesmos como gente sem valor. Médicos, advogados, economistas, escritores, engenheiros, acostumados ao tratamento social como “vós”, foram obrigados ao tratamento com o “tu”, forma de acentuar a sua pretensa inferioridade. O povo brasileiro foi domesticado e envilecido por charlatães com “teorias” como o eugenismo, cujo alvo era estabelecer diferenças falsas entre povos “normais” e “degenerados”. Na esteira do eugenismo, os mentirosos reforçaram os mitos da “preguiça brasileira”, a nossa pretensa inferioridade devido à mestiçagem etc. Propagadas, aquelas doutrinas mostraram-se compatíveis com as práticas fascistas, ajudaram a corroer o caráter e a auto-estima da nossa gente. Fosse veraz o Ibope, nenhum contrato seria cumprido no País, nenhum ofício seria realizado e não haveria o número biliardário do superavit e os juros que engordam, com impostos, as burras do governo e de seus aliados.

Como suprema traição aos seus 20 anos, o governo “dos trabalhadores” recebe poderosa ajuda de um instituto que mede a opinião popular intoxicada pela propaganda policialesca de jornalistas e intelectuais contrários à democracia. Este é um passo a mais na corrosão do caráter nacional. Não, senhores do PT e do Ibope! Basta de lama jogada na face de mulheres e homens, jovens ou velhos, que saem de casa às 4 da manhã, seguem para o serviço em conduções péssimas, se alimentam de modo irregular e ganham o pão com o suor do rosto. E pagam impostos tigrescos. Sindicalistas que subiram na vida mentindo ao povo e hoje nadam na lama, respeitem quem é honesto! A tentativa de assassinar o caráter das pessoas retas deste País é genocídio espiritual. Basta!
Quarta, 01 Fevereiro 2006 22:00

Pilotos, Médicos, Políticos

Trata-se de um vínculo que prende os dependentes ao personagem superior no Estado e na sociedade, mas o submete à obrigação de responder aos apelos dos que nele confiam.Uma noção difícil em filosofia, política e moral, refere-se à fé. Como o conceito de tempo, ela tornou-se familiar no mundo moderno, mas sua definição apresenta óbices imensos. No mundo romano que forneceu as matrizes de nossas instituições jurídicas e políticas — refinadas pela teoria grega — a fé (fides) corresponde à uma qualidade social e não ao sentimento dos indivíduos e grupos. A palavra aplica-se à posição do sujeito altamente colocado na ordem política e comanda uma coletividade que dele depende. Um indivíduo assim não pode falhar quando se trata de ajuda aos subordinados. A fé é uma condição essencial dos que possuem autoridade (auctoritas) ou poder (potestas). Trata-se de um vínculo que prende os dependentes ao personagem superior no Estado e na sociedade, mas o submete à obrigação de responder aos apelos dos que nele confiam. O líder de um grupo jamais pode falhar para com seus subordinados se deseja ser obedecido. Esta é a regra da famosa “governabilidade”. A fé (fides) tornou-se sinônimo de constância (constantia) e comprovada honra (probitas), presentes no homem sério, dotado da gravidade que concede peso à sua fala. Quem não honra a sua palavra para os amigos e inimigos é leve, inconfiável, desonesto e não merece autoridade. A fé (fides) fundamenta a justiça. Esta última (iustitia), torna-se a noção “sobre a qual se apoia, sinceramente ou não, uma grande parte da conduta política dos grandes personagens de Roma, tanto no interior quanto no plano externo. Ela comanda até as relações com a cidade e a fides rei publicae aparece como o equivalente antigo da nossa moderna noção de ‘patriotismo’. A fides é citada entre os ornamentos do candidato ao cargo de consul”. (Hellegouarc´h, J.: Le vocabulaire latin des relations et des partis politiques sous la République).

A fé pública é essencial no regime republicano. Sem ela, nenhuma autoridade é de fato digna de exercer o governo efetivo. Ela pode possuir momentaneamente o cargo e o nome, mas é apenas um asno em pele de leão. Trata-se da mesma confiança que deve imperar entre o médico e o doente, o piloto do navio e os passageiros. Os indivíduos neles confiam por muitos motivos: sabem que estudaram e praticaram o seu ofício, sabem que são honestos, sabem que não são mercenários etc. Este “saber”, caso desmentido por evidente ignorância técnica ou irresponsabilidade ética ou moral, nunca se regenera. O profissional dos transportes ou da saúde pode continuar abusando da boa fé alheia, mas quem os conhece desconfia. E, com o tempo, o círculo dos bem informados aumenta a fama de imperitus do capitão, do médico, do governante.

Os conceitos romanos foram refinados pela filosofia grega. Cicero, Seneca e demais latinos conheciam Aristóteles e Platão. Eles sabiam o peso do vocabulário técnico nas exposições platônicas ou aristotélicas. No governo, elemento fundamental do platonismo é que o governante não pode agir às cegas, mas precisa dirigir o Estado com base na razão, longe do ódio, da inveja, das ambições de ganho ou glória. A realidade, diz Sócrates (Fedro, 247c) só pode ser contemplada pelo piloto da alma, a inteligência. O governante que orienta o povo segundo a realidade — e não segundo imagens enganosas e propaganda mentirosa — obedece a razão, o piloto da alma. Esta, afirma Platão nas Leis (963a) “desempenha o papel de piloto, de médico, de general” no mundo verdadeiro, oposto ao caótico universo demagógico. Quando os dirigentes seguem a razão, eles imitam os deuses, pilotos da natureza e dos homens (Critias 109c).

A política ideada como oceano atormentado, é perigo permanente. O navio que abriga os homens não lhes arranca a condição de náufragos potenciais. Sem a confiança no piloto, some a probabilidade de vencer a morte. Construir navios sólidos e rápidos é uma técnica, educar pilotos/dirigentes é outra. Ambas permitem a confiança dos passageiros de que chegarão ao porto. (Pierre Louis, Les métaphores de Platon). Ampère, no século 19, cunhou o termo “cibernética” para designar o governo (Essai sur la philosophie des sciences, 1834). Ele já tinha a idéia e a palavra prontas, nos textos platônicos.

Caro leitor, vejamos o caso brasileiro. Imagine-se jogado no mar. Ou imagine-se acometido de grave doença. Você confiaria em pessoas que agiram como os políticos que “interrogaram” o ministro Palocci na semana passada? Se soubesse que o piloto vendeu a sua segurança — políticos tiveram seus pedidos liberados pelo ministro, logo após manifestar “compreensão” no Congresso — você confiaria nele? Pesquisas dizem que só parcela menor da população confia nos representantes. Não é ilógico? Ninguém confia no médico imperito, quando conhecida esta condição do esculápio. Ninguém confia no motorista irresponsável e venal. Como é possível confiar em políticos que defendem os seus interesses e não respeitam o Bem Comum? Responda leitor e veja se você não é culpado pela escolha. Nas eleições, é possível mandar os improbos para a cadeia ou para casa. Façamos isto!
Terça, 24 Janeiro 2006 22:00

Celso Daniel

Celso Daniel foi assassinado, torturado e mentiram sobre estes fatos. Quem mentiu e mente sobre os mesmos fatos é hipócrita, finge virtude para melhor assaltar a vida e a alma do povo brasileiro.Na sexta feira passada, em Santo André, foi oficiada a missa em memória do prefeito Celso Daniel. As palavras perderam o significado, nosso tempo é o da novilingüa exposta por G. Orwel (releia-se o Apêndice sobre o tema, no livro 1984). Naquele idioma, o “ministério da verdade” dedica-se à mentira e assim por diante. Na tentativa de entender o que se passou no dia 20 de janeiro, ano fatídico de 2000, abri o dicionário de idéias mais estratégico para a nossa modernidade, a Enciclopédia dirigida por Diderot no Século das Luzes. Abro a página no verbete “assassinato”. Nas primeiras linhas, vem algo insuportável para todo ser humano que pensa e sente: “pode-se definir o assassinato como um atentado premeditado contra a vida de um homem, bem diferente portanto da morte involuntária cometida no caso de uma defesa legítima”. E mais adiante, retoma o autor: “O assassinato é um dos maiores crimes que perturbam a ordem da sociedade, sendo conveniente puni-lo com as penalidades mais severas”.

O século 18 não foi leniente com a prática do assassinato. Como uma base necessária para punir realmente o assassino, o devido processo judicial é defendido pelos filósofos e juristas daquela época. Contra a tortura (chamada na França “a questão”, pois perguntas eram feitas ao acusado, em práticas atrozes de estraçalhamento dos corpos e das almas), os pensadores pregavam a necessária verdade dos autos, sem que a propaganda religiosa ou política se intrometesse nos procedimentos policiais ou no tribunal. A verdade integra a punição do culpado, permite a defesa do inocente. A verdade é uma questão lógica, empírica, existencial. O mentiroso não pode ser livre nem democrata, pensam os filósofos do século 18, e repetem até hoje as pessoas retas. A mentira é o simulacro da justiça, o simulacro do ser humano. O verbete “mentira” da mesma Enciclopédia (lida no Brasil do mesmo século 18 por Tiradentes, o estraçalhado na tortura portuguesa) afirma que ela é uma “falsidade desonesta ou ilícita que consiste em se exprimir deliberadamente por palavras ou sinais, de um jeito falso para fazer o mal”. E quem mente assim, o que é? Ainda no dicionário mais importante da cultura democrática moderna, lido por todos os que defenderam um Estado em que a segurança individual deve ser a norma, indica o nome do que usa o assassinato, a tortura, a mentira: hipócrita. Este é “um homem que se mostra com um caráter que não é o seu (…) tudo na vida tem os seus hipócritas: a virtude, o vício, o prazer, a dor, etc. Mas o nome de hipócrita é dado mais particularmente aos homens perversos e falsos que, sem virtude e religião, pretendem fazer respeitar neles as maiores virtudes e o amor da religião. Eles empregam todo o zelo para se dispensar de serem honestos, Empregam todo o zelo para se dispensarem de serem bons, parecendo santos ou heróis. “(…) O céu está nos seus olhos, o inferno em seus corações”.

Celso Daniel foi assassinado, torturado e mentiram sobre estes fatos. Quem mentiu e mente sobre os mesmos fatos é hipócrita, finge virtude para melhor assaltar a vida e a alma do povo brasileiro. Celso Daniel sofreu os piores castigos, sobretudo o da morte nas mãos de carrascos a soldo de interesses os mais espúrios. Numa república honesta, sua morte seria investigada com apoio universal, os assassinos descobertos e punidos. Mas não é o que se viu e o que se nota. Não apenas ele, mas várias pessoas foram assassinadas, enquanto a mentira e a hipocrisia mimetizam com perversidade a virtude, a ética, encobrem os assassinos torturadores.

Sem o Ministério Público, a mentira, a tortura, a hipocrisia sairiam ilesas no caso Celso Daniel. O povo brasileiro deve aos bravos promotores de justiça este serviço mais do necessário, uma liturgia sublime. A familia de Celso Daniel recebe ameaças cotidianas, enquanto os hipócritas e mentirosos continuam sua farsa. Após a morte “misteriosa” do legista que apontou a tortura no corpo de Celso Daniel, outro legista repete o mesmo laudo: estraçalharam aquele homem covardemente. Há uma pergunta no Direito que não pode calar: “a quem interessa”? Quem se beneficiou com o crime? Ajudemos a corajosa família de Celso Daniel a responder tal questão. Com ela, virá a paz aos que merecem justiça. Só então o prefeito de Santo André será verdadeiramente sepultado. Só então o cheiro da morte abandonará a pavorosa cena política brasileira. Sim, os mentirosos e hipócritas que usaram o assassinato possuem o céu nos olhos, o inferno nos corações. Que Deus tenha piedade de nosso povo.
Terça, 03 Janeiro 2006 22:00

Para Entender o PT

Numa crise, o debate é feito ignorando-se o passado. Muita coisa torna-se inteligível no PT se observarmos os movimentos que ajudaram o seu nascimento

Numa crise, o debate é feito ignorando-se o passado. Muita coisa torna-se inteligível no PT se observarmos os movimentos que ajudaram o seu nascimento. Ora, as correntes do petismo surgiram de movimentos autoritários nos quais os "quadros superiores" tudo decidem, restando ao militante obedecer. O primeiro "pai" do PT é o marxismo que se debatia entre a opção eleitoral e a luta armada. Os partidos comunistas adoecidos de burocratismo imaginaram atingir o poder pelas sucessivas eleições burguesas. Determinado pelas eleições ou pelas armas, o mecanismo e a lógica burocrática treinam e formam quadros para mover o partido. Este imaginário é antigo na cultura ocidental. Ele desce no tempo até Platão e sua idéia do mundo e da sociedade enquanto máquinas. Na modernidade, Hobbes elaborou o Estado com a figura tecnológica e maquinal. O pensamento leninista apresenta diferenças e continuidades com o modelo antigo da mecânica política. Se o Estado deve ser conquistado eleitoralmente para depois ser dissolvido em prol da revolução proletária ou se ele deve ser quebrado pela ação direta das armas com apoio das massas, importa que ele, na qualidade de burguês, seria ilegítimo, tirânico, deveria sumir. Representantes dessa tendência estavam e estão no PT.

Outras correntes estiveram na gênese petista, como os grupos trotskistas que criticavam, na trilha do seu inspirador, a burocracia partidária e a forma de Estado que resultou da URSS. Tais agrupamentos viam o plano internacional como elemento maior da luta revolucionária. Daí, a sua suspeita primeira contra a idéia do PT e do sindicalismo que o inspirou. Alguns deles chegaram a assumir as críticas sobre Lula, dizendo ser ele (é algo que deve ser investigado) um líder pré-fabricado pelos EUA, cujo treino teria ocorrido na Universidade John Hopkins, em programas específicos. Os vários setores trotskistas entraram com maior lentidão no PT e nele sempre criticaram o poder diretivo. Não por acaso partidos como o PSTU e o PSOL, resultaram de expulsões ou de saídas voluntárias do PT. Apesar desse radicalismo, os trotskistas conduziram a luta contra a direção partidária no interior "da máquina" . Vários de seus integrantes assumiram alianças e estratégias do grupo egresso do Partido Comunista ou das organizações armadas. Esta fusão heteróclita originou o Campo Majoritário.

Também estava na origem do PT o progressismo católico, dos socialistas radicais aos moderados, próximos à Pastoral Católica. Tal setor teve sua formação política nos anos sessenta, quando a Igreja modificou sua relação com a sociedade capitalista, radicalizando as Encíclicas sociais e o Concílio Vaticano 2, sobretudo a Declaração Gaudium et Spes. Naquela década, surgiu a Ação Popular (AP) inspirada nas idéias de Teilhard Chardin e de Hegel, seguindo o padre jesuíta Henrique Vaz. O socialismo estaria contido na evolução cósmica e os cristãos deveriam assumi-lo para garantir a sua face humana contra o totalitarismo. A AP surgiu como alternativa ao comunismo, bem no plano da pastoral eclesiástica. Intregavam o movimento como fundadores líderes como Herbert de Souza, o Betinho. A expansão do movimento deu-se pouco antes 1964. A presidência da UNE foi conquistada por católicos como José Serra, em detrimento do Partido Comunista. A AP, no entanto, buscou outras sendas que não a cristã. Ela recebeu o impacto das fórmulas guerrilheiras baseadas em Cuba.

Após 1964, setores da AP se dirigiram à França, onde conheceram o estruturalismo segundo L. Althusser e o marxismo nos padrões chineses. A união entre estruturalismo e comunismo chinês definiu parte da AP. Esta, no Brasil, exigiu que, para manter-se no movimento, era preciso assumir o "marxismo, leninismo, maoísmo, ateísmo" . Isto afastou muitos setores, como os frades dominicanos, mais tarde presos e acusados de manter elos com a ALN dirigida por Carlos Marighela. Em rumoroso processo, eles foram julgados após anos de prisão. A sua captura recebe várias interpretações. O seu advogado, dr. Mario Simas, publicou um livro em que os isenta da morte de Marighela. Jacó Gorender os apresenta como o fio condutor que levou a polícia ao líder da ALN. Esse ponto merece maiores estudos e pesquisas e o assunto precisa receber mais luzes. Mas importa indicar que a maioria dos dominicanos que rompeu com a AP, e sofreu revezes com Marighela, apoiou o PT a exemplo de Frei Betto, que chegou a exercer uma assessoria especial no Planalto até data recente. Os religiosos enxergaram no PT a oportunidade de unir doutrina eclesiástica e socialismo. A sua desilusão permite perceber o quanto eles, ao investir no PT, semearam em terra árida. Juntar comunistas históricos, trotskistas, católicos, numa salada ideológica como o "partido do Lula" , só poderia gerar a salada indigesta que ameaça os intestinos da república. Os comunistas eram realistas. Trostskistas e católicos se imaginavam anjos puros. Com os "recursos não contabilizados" , o PT mostra-se corrupto e autoritário.

Quarta, 14 Dezembro 2005 22:00

Presidente e Sectários Indecorosos

Mais elevado o cargo, mais justiça, dignidade, decoro se exige de quem o exerce. O pequeno erro do funcionário menor torna-se desastre no superior.O que é o decoro no setor público? Na Roma que nos deu a língua, a qualidade de um estadista era a prudência, traduzida na modéstia. Esta última, segundo Cicero, resume-se à temperança, a forma de manter o auto-controle. A temperança no soldado chama-se disciplina. Para os filósofos estóicos, a temperança prolonga o conceito grego de “eutaxia”, modéstia que reconhece a ordem conveniente em todos os momentos e circunstâncias. Se existe prudência e temperança, a força torna-se irrelevante, impera o decoro. A pessoa prudente domina a sua ira, nunca é obrigada a usar os braços e armas para impor seu pensamento. O intemperante que não controla o vinho, fácilmente se torna furioso, agride os concidadãos com espadas ou punhos. A modéstia é virtude do político que pesa cada ato, impõe às suas próprias atitudes e falas uma progressão hierárquica digna do cargo. Entre a glória pessoal, afirma Cicero seguindo a ética que vem da Grécia, e o serviço pouco notado à cidade, o verdadeiro estadista prefere o segundo. O paradigma desse comportamento encontra-se em Agesilau: quase vencedor dos persas ele deixa a batalha e retorna para a sua cidade, Esparta, atacada por atenienses e tebanos. Defender a pátria é mais digno do que vencer um inimigo. Só a pessoa capaz de escalonar valores decide no sentido de Agesilau. Ele foi modesto (não buscando a gloríola da vitória) e prudente (percebeu que salvar a sua terra era vital para ele e para os seus).

E o que é a modéstia? É guardar a medida. Moderatio, em latim, é o nome de uma ação e deriva do verbo “moderor”, cujo primeiro sentido é “dirigir”, “regrar”. Quem dirige um cavalo, o controla com o freio. Cicero, ele novamente, diz que a moderação designa a ordem e a medida. Trata-se de uma capacidade essencial no poder, que só pode ser exercido pelos capazes de continência e temperança. A história de Roma apresenta a figura de homens capazes dessa modesta temperança, pois exerceram grandes poderes sob limites impostos pela sabedoria e utilidade públicas. Cincinatus recusou o segundo mandato consular que lhe foi oferecido, porque não seria útil ao coletivo. Scipião, o africano, recusou a ditadura perpétua e exigiu que não fossem erguidas estátuas em sua homenagem. Tiberio Graco recusou aproveitar-se do poder para colocar na cadeia um inimigo dos piores, Scipião asiático.

A temperança é noção negativa e nela o poderoso se abstém de um ato. A justiça é positiva segundo Cicero. Ela consiste em atribuir a cada um segundo seus méritos, é própria de alguém que possui auctoritas. A justiça do poderoso lhe atrai a fides, a fé pública. O dirigente injusto e intemperante produz, cedo ou tarde, a desconfiança dos cidadãos. A justiça lhe confere o crédito e, com ele, o decoro. Esta palavra tem a raiz “dec” e une-se a “decet” que se vincula ao vocábulo “dico” (mostrar com o dedo), como em digito monstratus (honrado, louvado, indicado em louvor), “digno do lugar que ocupa na sociedade e no Estado”. Os termos “dignus” e “decet” ajudam o decoro e lhe fornecem um sentido estético fundamental. A pessoa decorosa pratica ações belas, é ornada pela virtude. O indivíduo assim “vestido” mostra dignidade, o conveniente ao seu cargo.

Decus e confiança unem-se: com a raiz “dec”, um ato designa alguém “que atua como é conveniente”, segundo a decência. O decoroso exibe a virtus apreciada pelo sentimento republicano. Decus, o decoro, como a dignitas, surge da “honestas”. Somente alguém capaz de ser apontado como honesto governa para todos, com igual dignidade. Decus é essencial quando alguém se proclama salvador da república. Cicero cita a palavra “decus” entre as qualidades requeridas dos senadores. Para essa análise, o leitor pode ler o volume de Hellegouarc´h, J.: Le vocabulaire Latin des Relations et des Partis Politiques sous la République (Paris, Belles Lettres, 1972).

Mais elevado o cargo, mais justiça, dignidade, decoro se exige de quem o exerce. O pequeno erro do funcionário menor torna-se desastre no superior. O sumo magistrado não tem o direito de cometer injustiça e deve manter a língua presa, as paixões pessoais ou partidárias sob controle. Ele não pode, no exercício do cargo, agir como se integrasse um partido ou facção, pois é governante de todos. Caso contrário, cai no indecoro. Com base nesse juízo, e como professor de ética, digo sem temor: a declaração do presidente da República de que a oposição brasileira é golpista como na Venezuela, feita no exterior (o que piora a vilania) é indecorosa. Ele age como candidato, líder de facção e não como dirigente justo. Descarta a dignidade do cargo, seguido pelos sectários petistas atolados na licença e na mentira, os quais, com semelhante retórica, tentam esconder a corrupção imperante em suas fileiras. Sem receio, afirmo que o presidente age contra o decoro do cargo. Se eu fosse líder político e devesse defender a dignidade da oposição, iniciaria de imediato o processo de impedimento contra a pessoa que ocupa o cargo máximo e, necessariamente, deveria ser amiga e respeitar igualmente todos os brasileiros.
Segunda, 28 Novembro 2005 22:00

Eunucos e Censores

A boca torta do petismo continua a campanha contra a imprensa e busca intimidar os intelectuais autônomos.No dia 23 de novembro passado estive no Ministério da Defesa (Escola Superior de Guerra) para falar aos estagiários. Discorri sobre o segredo e o seu antídoto, a transparência democrática. Outro convidado, que tomou a palavra antes de mim, foi o ministro Ayres de Brito do STF. Aprendi muito com o seu discurso, mas discordei de seu juízo sobre a etiqueta enquanto ética menor. Pelo contrário! A etiqueta é o modo pelo qual os indivíduos mostram obediência aos valores e às dignidades. Só coletivos destribalizados, como os indios guaranis, sobreviventes do etnocídio feito contra sua gente pelos brancos (cristãos…) vivem sem roupa decente, nome ou título.

Quando o imaginário dono do Brasil insulta jornalistas (no mesmo instante é bajulado por radialistas que esquecem a dignidade do seu ofÍcio) ele transgride a etiqueta e mostra insensibilidade ética. A boca torta do petismo continua a campanha contra a imprensa e busca intimidar os intelectuais autônomos. Quando tentaram dar um golpe em 1935, os comunistas ficaram aborrecidos com o título de Intentona para designar o seu ato. E disseram se tratar de uma “Inventona” dos conservadores. Negar a evidência tem sido a regra dos que se julgam espertos. Tais cérebros lavados e que adoram lavar as mentes alheias, mentem com arte. O famoso “ouro de Moscou”, disseram, seria boato do “imperialismo”. Com as provas trazidas após o desmantelamento da URSS, ficou claro que o nariz de Pinóquio lhes cabia. Eles mentem com o coração, pois a mentira para a sua moral é técnica de mando. É por esse motivo que odeiam a ciência, os intelectuais livres, a imprensa; tais setores, como o menino, gritam: “o rei está pelado!”. E como é indecente a nudez petista… Diniz, Delubio, Silvinho Land Rover Pereira e quejandos mostram uma figura repulsiva para a cidadania. Até ontem eles mandavam no caixa petista, o mesmo onde se refestelam os demais, que proclamam a própria lisura. O pior é ouvir a sua confissão de malandragem, no mesmo átimo em que proclamam a própria torpeza. Quem é decente no PT, deveria exigir prestações imediatas de contas, expulsar aqueles indivíduos da agremiação. Mas a decência (como o bom senso no entender do bom Descartes), embora reivindicada por muitos, é vivida só por um número pequeno.

Alguns deles se dizem marxistas. Pobre Marx! Basta ouvir os “depoimentos” dos pobres diabos nas CPIs. Não apenas o idioma pátrio é torturado, a ignorância dos principios lógicos mostra que jamais leram uma linha de Marx. Este pensador, para ganhar o pão de cada dia, labutou na imprensa. Alguns de seus mais notáveis trabalhos sairam de um esforço jornalístico. E, ao contrário dos idiotas petistas que odeiam a imprensa livre, defendeu os jornais contra a censura, a mesma censura adorada pelos que desejavam impor mordaças aos colegas com o asqueroso Conselho de Jornalismo.

Marx tem palavras candentes contra a censura da imprensa. No artigo Notas sobre a mais recente Instrução aos Censores da Prússia (Anekdota, fevereiro de 1842) ele afirma que a censura é uma calamidade, e que “ela é péssima em geral, permanece péssima, não importa quem a pratique, se um empregado particular ou agente do governo.”. Na Gazeta Renana ele diz mais : “a censura admite não ser um fim em si mesma; que não é boa por si mesma, e assevera portanto que o fim santifica os meios. Mas um fim que necessita de meios pecadores não é santo”. E mais, diz o pensador caluniado sempre que um petista bronco (perdoem a quase tautologia…) toma o seu nome em vão (agora, com Palocci mandando e praticando o neo-liberalismo, vocábulo que habitou a boca dos petistas até pouco tempo atrás, enquanto Marx perde o trono) “é auto-evidente que a liberdade de imprensa tem uma justificação muito diversa da censura, pois a imprensa representa a forma de uma idéia, um bem positivo, enquanto a censura é uma forma de escravidão”. Se fosse lida esta tese, sem dizer o nome da fonte, no ambiente “jornalístico” petista, certamente as linguas ignaras berrariam: “liberdade pequeno-burguesa!”. Cada um tem o Marx que merece. O companheiros salivariam de ódio (o traço mais comum do petismo, pois nele se odeia quem não segue as palavras de ordem) se ouvissem algo assim: “a censura é ruim e permanece ruim, mesmo que traga bons resultados, porque esses resultados são bons apenas enquanto representam a imprensa livre no interior da imprensa censurada. (…) A livre imprensa permanece boa, mesmo que traga resultados ruins, porque tais resultados são apóstatas da imprensa livre. Um eunuco permanece um homem ruim, mesmo que tenha uma boa escolha. A natureza permanece boa, mesmo ao parir abortos”. Que tal? Lembram das primeiras linhas da proposta do Conselho de Jornalismo?

Marx fornece o nome dos jornalistas que defendem a “boa” censura, a de seu partido, bem como a “boa” política, a de seus dirigentes (Delubio e Silvinho garantiram seu comando no PT, com o beneplácito dos “bons” militantes): eunucos, porque odeiam a fertilidade de espírito e de alma de quem que não freqüenta os seus festivais de ódio à liberdade e ao verdadeiro. Os petistas odeiam o jornalismo porque eles mentem fingindo dizer verdades. Sua fala inteira é mendaz porque recusam incertezas. Seus líderes pensam por eles e sua língua repete dogmas, nunca probabilidades. “Os totalitarismos”, diz Amelia Valcárcel, especialista em ética, “nunca reivindicaram a si mesmos como prováveis, mas como verdadeiros”. E sua verdade matou milhões para glória dos ditadores que se apavoram diante da livre imprensa.
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