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Roberto Romano

Roberto Romano

Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Segunda, 25 Setembro 2006 21:00

Sofisma e Pseudofilia: O Lobo Petista

Os aplausos exibidos pelo candidato Luis Inácio da Silva em seu programa eleitoral são falsos como a ética que seu partido defendeu, a transparência sempre exigida pelos “militantes” e afastada no atual governo.

Os aplausos exibidos pelo candidato Luis Inácio da Silva em seu programa eleitoral são falsos como a ética que seu partido defendeu, a transparência sempre exigida pelos “militantes” e afastada no atual governo. As aparências daquela agremiação partidária mostram hoje seu lado puramente propagandístico. Em ideologia, ética, programa, governo, os dirigentes do partido “dos trabalhadores” repetem uma forte e imensa fraude, manipulam imagens e sons para mostrar um governo cuja melhor definição encontra-se na palavra inglesa: fake. Note-se que os aplausos foram roubados: eles se dirigiam ao Secretário da ONU que deixa o cargo. Em eventos semelhantes, mesmo dirigentes medíocres daquele organismo internacional recebem ovações, porque na verdade o alvo das homenagens é a própria ONU. Seria razoável colocar no programa do PT encômios ao presidente. Afinal, raciocínio similar ao empregado para a Organização Internacional pode ser feito: homenageia-se o governante do país, não tanto a figura que o representa no momento. Mas a fome de poder e a pseudofilia petista ignoram limites. Trata-se daquela paixão da alma que os gregos denominavam hybris, a desmesura que leva à violência, à perseguição dos opositores, à tirania.

O sofista denunciado por Platão, unido ao demagogo, manipula a arte das aparências para ganhar dinheiro e poder. O chamado “escândalo” do dossiê comprado por milhões aos Vedoin para o PT mostra a técnica manipuladora em ato. O principal é que tal dossiê continha ataques a todos os partidos, inclusive o mesmo PT. Ou seja: ao entregar à revista Isto é os papeluchos criminosos, Vedoin - com a cumplicidade petista - selecionou o material, deixou apenas as insinuações contrárias a José Serra. Fraude dentro da fraude. Voltando aos aplausos. Em programas de auditório manipulados, sempre que o ator ou canastrão termina sua fala alguém exibe um cartaz exigindo aprovação da platéia. Na falta de audiência real, o manipulador petista foi direto ao ponto: arrancou palmas de outra pessoa e as atribuiu ao presidente. Na extinta União Soviética os funcionários do Partido eram obrigados a ovacionar durante horas os discursos imbecilizantes de Stalin e de seus camaradas. No fundo das salas, faxineiros mantinham baldes de água fria para aliviar as mãos dos sectários por conveniência ou convicção. Na alma petista não há espaço para a escuta das críticas. Ela exige aplausos, mesmo quando mete a mão em dejetos. Se falham as palmas, elas são produzidas. Daí a fraude cometida contra as imagens e sons divulgados pela ONU. Prestidigitação é um ingrediente poderoso da escalada petista que garante ao seu candidato a preferência dos que recebem esmolas pagas com dinheiro público.

Outra característica de sofistas e demagogos: eles preparam a via do tirano. De tanto adular os ouvidos dos eleitores, os técnicos da empulhação produzem surdos voluntários. Quando o povo não mais escuta as advertências de perigo, o tirano se instala, abolindo a democracia. Na tradição que aponta similaridades entre políticos e animais, Platão insiste em mostrar que o tirano é o ente humano mais próximo do lobo feroz e faminto. Mas o bicho causa medo aos indivíduos sadios. O lobo não tem a capacidade, exibida pela serpente, de hipnotizar as vítimas. O tirano precisa dos sofistas e demagogos: eles secretam o veneno do descuido, da surdez aos argumentos. O PT, como seus predecessores totalitários, surgiu de uma esperta, eficaz e intencional operação de marketing. A sua face ética no pretérito era fake e também os seus programas (as “bravatas”). Tudo no universo do petismo cheira a manipulação sofística e demagógica.

Nos Federalists Papers, Jefferson diz que o povo é o único censor dos governos. Cabe-lhe recordar aos governantes “os verdadeiros princípios das instituições”. Desde que o povo soberano seja indiferente aos citados princípios, “você, eu e o Congresso, e Assembléias, juízes e governadores, seremos transformados em lobos”. A progaganda petista conseguiu, até agora, tornar a maioria dos que pretendem eleger o presidente, surda e alheia aos princípios éticos e morais. Ovelhas preparam o parto do lobo. Se este último as devorar, nada deve ser cobrado dele, mas delas e dos partidos de oposição que não assumiram, em tempo certo, a tarefa de indicar o nascimento da alcatéia. Os ricos (sobretudo os banqueiros) estão salvos e destinam esmolas aos pobres. O elo entre os dois segmentos contraditórios chama-se PT. Karl Marx dizia que a diferença entre o proletariado romano e o moderno estava no fato de que o primeiro vivia da sociedade, enquanto o segundo a sustentaria. Este foi a grande façanha petista: levar a república aos idos da Roma corrupta, na qual com farinha (pão…) e encenações espetaculares (circo…) os tiranos mantinham o seu poder. Até que um dia a “cidade eterna” chegou à máxima abjeção e um governante assim eleito escolheu seu cavalo Incitatus como Senador. É para tal fim que ruma a política nacional. Boas eleições para todos.

Domingo, 10 Setembro 2006 21:00

Dulce Bellum Inexpertis

É injusto chamar a guerra de fato animalesco. As feras combatem com armas que lhes deu a natureza. Os homens usam armas contrárias à natureza, "imaginadas por uma arte diabólica".

O título é extraído de um escrito publicado por Erasmo de Roterdam. Inimigo da guerra, o humanista clamou até o último alento contra o fato bélico. Se quisermos traduzir a frase, devemos alongar os seus termos, tristeza de nossa língua, mais analítica do que o latim. O título em português seria o seguinte: "A guerra é bela, para quem dela não teve a experiência" . Contrário às lutas contra os turcos e avesso às batalhas de conquista que enriqueciam e forneciam poder aos europeus de seu tempo, Erasmo diz que os cristãos produziram uma imagem dos árabes como horrendos, mas a máscara escabrosa cabia mais nos rostos espanhóis, lusitanos, ingleses, franceses e outros. A história sempre traz o artifício: os desonestos apontam a felonia alheia para agir com maior vileza. Mas não existe nem jamais existiu em campos como a política, a guerra, a religião, lobos maléficos e inocentes réplicas de chapeuzinho vermelho. O que não impede a tarefa de indicar quando chapeuzinho vermelho age como lobo, e vice-versa.

Os franceses - inventores da palavra e maiores usuários da coisa nomeada - sabem o que significa o termo "Imagem de Epinal" . Trata-se de uma figura forçadamente otimista que ilustra apenas o lado bom da França, enquanto as qualidades estrangeiras são apagadas. Em sentido assim, tanto os que habitam o chamado "ocidente" quanto os que nasceram e vivem no "oriente" (sobretudo os árabes) usam e abusam da imagem de Epinal. O assassino, por definição, é o outro. Esta fantasmagoria em cinza e branco é necessária para jogar cabeças ingênuas nos combates guerreiros, em exércitos regulares ou grupos terroristas. E tudo é santificado com o nome de Deus. Não, os homens não se responsabilizam pela matança. Foi ordem divina... Tal blasfêmia, pensa Erasmo, chega ao ponto de atrbuir ao ser divino os ardis e práticas diabólicas empregados na guerra.

Quem na modernidade (nos dias de Erasmo e, infelizmente, nos nossos…) critica a guerra, diz o pensador, recebe estranheza e escárnio, sendo acusado de irreligião ou de heresia, "como se a guerra não fosse a coisa mais bandida e calamitosa. Seria importante saber qual gênio maléfico, qual flagelo, qual horror, qual Fúria dos infernos jogou um instinto tão bestial no coração humano" . Mesmo os gramáticos intuíram a essência da guerra. Esta teria como nome latino o de "bellum" , por antítese, porque nela nada seria bom ou belo. A guerra seria "bela" como as Fúrias seriam "Eumênides" .

É injusto chamar a guerra de fato animalesco. As feras combatem com armas que lhes deu a natureza. Os homens usam armas contrárias à natureza, "imaginadas por uma arte diabólica" . E para arrancar das bocas mentirosas dos governantes e religiosos os motivos "nobres" dos atos bélicos, Erasmo afirma que todos os males se infiltram "na vida humana com aparência falaciosa do bem" . Não é permitido invocar o divino, pensa Erasmo, para garantir um ato demoníaco, pois "se existe reino de Satanás, ele encontra-se na guerra" .

Quem arma emboscadas e invasões contra seu próximo entra na roda infernal e dela não sai incólume. Tomemos guerra entre Israel e o Hisbolá. De um lado, temos o desígnio dos guerrilheiros de usar escudos humanos no Líbano e jogar bombas sobre civis israelenses. De outro, a reação desmedida que tombou na armadilha dos terroristas. Como diz Erasmo, os males começam com fatos menores. O seqüestro de soldados recomeçou a guerra. O governo de Israel reconheceu que a eficácia contra o Hisbolá esteve longe de ser alcançada. Mas os estragos foram aterradores. No Hisbolá, o dirigente máximo diz-se arrependido do seqüestro pois não sabia as consequências daquele ato. Entre a ordem imprudente de ambos (para começar as batalhas) e as mães cobertas de sangue de seus filhos, não há crença religiosa ou política, razão de Estado ou causa que absolva os culpados.

Alega-se que os israelenses possuem armas atômicas e que eles uniram-se aos EUA para garantir seu território. São muitos os atentados ao direito internacional cometidos tanto pelos EUA quanto por Israel. Mas quando o povo judeu foi assassinado aos milhões, quando errava pelo mundo sem casa e sem direitos? E o que fizeram os árabes para acolher os seus primos segundo Abraão? Nada. E vários líderes cooperaram com os carrascos anti-semitas. O Irã nega o holocausto e ameaça jogar judeus ao mar. É errado dizer que só os judeus são culpados na situação atual. Se um indivíduo põe a faca no pescoço de outro, não espere afagos. Judeus e árabes conviviam sob a tolerância oficial do Estado brasileiro. Noto que o seu convívio está envenenado. Peço a Deus que atos de guerra não ocorram entre nós, como as bombas jogadas contra templos judaicos argentinos. Nenhum brasileiro merece a morte nesta luta. Seria bom lembrar o ponto para todos os que aqui foram recebidos de braços e corações abertos. Não transformem o Brasil, já cheio de problemas, em inferno bélico!

Sábado, 26 Agosto 2006 21:00

Fábula Brasileira

Sim, aqueles dias em que eles eram conhecidos como a quadrilha dos quarenta. Tristes horas.

Ambiente brilhante e imagens policrômicas, melodias moderadas e agradáveis de Gilberto Gil e Caetano. De vez em quando, pedaços de letras escritas por Chico Buarque, seguidas de sons instrumentais edulcorados. Nada de muitas palavras, sons em poucos tons. Meninos e meninas belíssimos servem quentão e pipoca aos presentes, para recordar os tempos heróicos vividos pelos que promovem a festa. Sim, aqueles dias em que eles eram conhecidos como a quadrilha dos quarenta. Tristes horas. Hoje eles são os donos do Brasil. Donos absolutos (é bom lembrar que “absoluto” significa “o que não tem nenhum laço”) de uma terra bendita, sem traumas e sem oposições desagradáveis. Em todos os cantos da sala imensa, figuras dos mártires cultuados pelo Estado maravilha: Delúbio Soares, José Genoino, Paulo Okamoto e outros de mesmo porte. Num canto especial do salão, icones dos que não foram aceitos no altar sublime: o inefável carequinha Valério (o nome recorda os mártires cristãos da Roma antiga), Ideli Salvati, Silvio Land Rover, Duda Mendonça. Num antro escuro, imagens dos demônios vencidos pela confraria dos bons dirigentes: Roberto Jefferson, sobretudo, mas também seres coletivos personificados como o Ministério Público, a Imprensa da elite, os intelectuais golpistas. Uma pressurosa mãe sussura ao filhinho travesso: “se você insiste em não mentir, chamo o Roberto Jefferson prá te assustar à noite. Ou então, chamo o MP pra te levar pro xilindró!”. E o menino verte xixi, com muito medo. Promete nunca mais dizer verdades. A mãe, fiel seguidora do PT o afaga, sorri e volta aos aplausos.

E quem é aplaudido? O microfone rompe a melodia embalsamadora do ambiente: “Vamos acolher de pé o senhor do Estado brasileiro, ex-república do Brasil, Sua Majestade o Excelentíssimo Senhor Lulinha Paz e Amor III, neto do Grande Lula e filho de Lulinha, o dono do maior conglomerado midiático da América. Sua Alteza foi escolhida em reunião secreta pelos nossos veteranos e disciplinados dirigentes, o Sr. Berzoini Filho, conde da Previdência, a Sra. Lurian Segunda, marquesa das ONGS, a Sra. Salvati terceira, duquesa de Santa Catarina, o Sr. Aécio Neves Segundo, barão das Minas Gerais, seguidos pelo Duque Luizinho e de outros personagens importantes como o visconde da CUT, o barão dos Bancários, o Marquês das Peruas e dos Transportes.”

No centro da imensa assembléia, sorri a imagem de trinta metros do Grande Benefactor, abençoando a distribuição de bondades aos pobres mortais. Sobre o retrato, o nome do Partido da Casa Real: PC. A polissemia agrada os ouvidos veteranos: ela recorda o melhor da era Collor, herdada pelos santos e o melhor da era Stalin. E PC ainda tem a vantagem de anunciar a essência da nova casa reinante: “Panem et Circencis”. Para dar o tom chique do quadro, abaixo do Benefactor vem o dístico das dinastias estrangeiras: “Honni soi qui mal y pense” e “Tel est mon bon plaisir”. Na convocatória para a entronização e a falação real do Companheiro, é citado o decreto real (de 2010) no qual Lula o Grande avisava à Nação que a salvara da turbulência eleitoral. E que também deixara de existir o tormento Judiciário. O Benefactor seria três em um: Executivo, Legislativo, Justiça. Em suas mãos benéficas o Estado não precisaria mais pensar. Tudo seria resolvido pelo Egocrata. Fato curioso: o decreto vinha referendado pelos antigos ocupantes dos abolidos poderes, além de conter o nome de todos da abolida oposição. O único pleito dos velhos adversários do Rei era o de receberem o título honorífico de “Fiel oposição de Sua Majestade”. Eles receberam medalhas no peito e aboliram siglas como PSDB, PFL, PMDB e outras. O entusiasmo percorreu os políticos nacionais: a política fora enterrada! Nomes de jornalistas e de universitários não faltaram ao excelso decreto.

Narram os historiadores oficiais da dinastia que o Benefactor, ao chegar ao Paraíso, reuniu os anjos, arcanjos, serafins e todos os santos, propondo democracia no céu, contra a elite antiga e atrasada que o governava. E comícios angélicos foram realizados nas paragens celestes. Até que o Grande Benefactor foi eleito senhor do Empírio. E acabou com a governança partilhada da arcaica Trindade, inaugurando o verdadeiro monoteísmo. O seu. Como se trata de versão histórica oficial, os maldosos de sempre, os que desejam na terra o retorno à maldita democracia, afirmam que, depois dos comícios, sob vaias, o Grande Benefactor foi acusado de plagiar uma idéia antiga, narrada por John Milton no “Paraíso Perdido”. Como fruto do golpe, o pretenso novo dono do Universo teria sido lançado no Pandemônio, quartel dos poderosos mundanos cheios de orgulho e de arrogância. Este modesto escrevinhador não garante se a verdade histórica encontra-se nos livros financiados pelas empresas estatais da nova dinastia, ou se está nos volumes editados clandestinamente pelos perigosos democratas elitistas. Só pode ele balançar a cabeça diante das duas versões e dizer, desalentado :”Se non è vero, è bene trovato”…

Domingo, 16 Julho 2006 21:00

Baderneiros e Excrementos

Aqueles indivíduos, cujos cérebros são imersos nos excrementos da alma, foram mantidos, até então, pelo governo petista, para efetivar atos de vandalismo.

"Dis, front blanc que Phébus tanna, /De combien de dollars se rente/PedroVelasquez, Habana;/Incague la mer de Sorrente. /Où vont les Cygnes par milliers ;/ Que tes Strophes soient des réclames…" (Rimbaud, Ce qu´on dit au poète à propos des fleurs). Os versos do poeta são precisos e francos. Tento traduzí-los com a ousadia trôpega que me é habitual: "Diga, testa alva que Febus amorenou,/Quantos dólares vale/Pedro Velasquez, Havana;/ Caga o mar de Sorrento./Para onde vão os cisnes aos milhares; /Que tuas estrofes sejam propaganda…" . O leitor cultivado não tem direito aos eufemismos hipócritas. Ele sabe perfeitamente que as palavras só têm sentido quando usadas para afirmar coisas de modo exato. Em tempos de linguagem covarde e "políticamente correta" (e, justo por isto, na maioria das vezes éticamente incorreta) o eufemismo impera no Brasil. É assim que roubo e caixa dois, quando praticados por líderes petistas, se transformaram em "recursos não contabilizados" . Orwell teria muito a aprender com os éticos aposentados, e hoje apenas cínicos, do Partido dos Trabalhadores.

Há uma saborosa expressão francesa sobre alguém que não teme falar o termo certo na hora aprazada: "il ne mache pas les mots" (ele não masca as palavras). Ou seja: enuncia o que deve, sem temor. Outra fórmula saborosa da lingua manipulada com destreza por Rabelais e por tantos outros artistas do verbo na França : "il n´a pas froid aux yeux" (ele não tem frio nos olhos), não pisca quando se trata de afirmar algo "desagradável" aos poderosos. Rabelais foi mestre da língua franca e livre, a de um povo inteligente e generoso que, ao lado do mais estrito respeito pela tradição, inovou muito o vocabulário decoroso do cristianismo. Basta ler o Gargantua, onde surge a mais hilária e correta definição dos confessores. Estes seriam os "mâchemerdes" do mundo. Os pecadores fazem "aquilo" e os padres os limpam… O século 17, dito clássico, censurou a lingua e os costumes, de modo a disciplinar elites e populacho, para que fosse bem obedecido o poder absoluto do Rei. Desde então, a lingua francesa perdeu a força que dela fez a mais encantadora torrente verbal da modernidade.

Volto aos palavrões. O verbo usado por Rimbaud, "incaguer" (transitivo, derivado do italiano "incacare" ) é conhecido desde 1552, época de Rabelais e da Renascença. Daí, passou para a nossa "inculta e bela" , sempre com o mesmo significado. Em francês ele designa "incomodar" (com o sinônimo, "emmerder" ) e por volta de 1561 passou a assumir o traço de "desprezar, tratar com desprezo" . Na lingua popular brasileira, alguém atoleimado, sem destreza mental ou digital, sempre comete algo passível de ser designado pelo vocábulo.

Os baderneiros que invadiram a Câmara Federal para intimidar deputados, senadores e, sobretudo, os "inimigos" da vida civil (a maioria que não aceita seus métodos e supostas doutrinas) prepararam com frieza metódica a sua intervenção. A fita gravada do encontro que mantiveram para ordenar o crime, mostra um deles, com voz boçal e fanatismo notório, arengando os seus pares sobre a relevância do grande feito a ser cumprido. Tratava-se, no seu entendimento, de levar o desgaste aos partidos da oposição, visto que o presidente da república, na dianteira das pesquisas eleitorais, estaria defecando e andando para tudo.

Aqueles indivíduos, cujos cérebros são imersos nos excrementos da alma, foram mantidos, até então, pelo governo petista, para efetivar atos de vandalismo. Entre outros "feitos" invadiram o Ministério da Fazenda, recebendo bençãos e dinheiros governamentais (ou seja, nossos). Covardes, souberam escolher agora a sua vítima certa: o Congresso nacional onde os seus companheiros de "ideologia" promoveram a maior expulsão de dejetos éticos da nossa história, com as absolvições dos mensaleiros e danças ridículas para comemorá-las. Aliás, devido à lama espalhada por eles no plenário da Câmara, vários deputados receberam de cidadãos enojados, envelopes com dejetos humanos mal cheirosos. Estava preparada a ação dos baderneiros: um símbolo nacional conspurcado por parlamentares indignos, só poderia mesmo servir como receptáculo dos excrementos humanos mantidos pelo Executivo da república. Como diz o "líder" Sua Excelência o presidente está….. E paro por aí.


Caro leitor: não me queira mal se uso as palavras certas. Como indiquei, Rabelais e Rimbaud, grandes escritores, empregaram os mesmos termos hoje reproduzidos na boca imunda dos terroristas que invadiram o Congresso. Só que nos franceses o palavrão tinha sentido ético. Tratava-se de criticar costumes fedorendos, cujo símile físico só poderia algo desagradável à narina. Quando os mesmos termos aparecem em bandidos pagos pelo governo para nos atemorizar, o significado expressa a essência do mesmo governo. Para falar de modo chic, o atual governo é uma bela maneira de "incaguer" , nada mais. PT, saudações.

Quarta, 21 Junho 2006 21:00

Gordura, Bebedeira, Caráter

A troca de insultos entre Lula e Ronaldo atinge planos delicados do mundo civil. Se o primeiro estivesse correto, Ronaldo seria, pela comilança, uma besta. Se o insinuado pelo segundo fosse verdade…

“Abandonar a moderação quando se come ou bebe é uma quebra do dever para com a nossa pessoa. Os vícios da comilança e da bebedeiras são bestiais e degradam o homem. Alguns deles estão além da natureza humana e não podem ser reconciliados com o caráter de uma pessoa. Pelos vícios bestiais o homem degrada a si mesmo e desce abaixo dos bichos…” (I. Kant)

O trecho kantiano, que cito segundo a tradução inglêsa (Lectures on Ethics, Hackett Ed., 1963, página 159) traz pistas para se entender algumas confusões ocorridas nos últimos tempos em nosso triste Brasil. Os leitores espertos já notaram, nas próprias linhas de Kant, o meu alvo inicial: a briga entre o peso de Ronaldo e a bebida de sua Excelência. As acusações trocadas pelos conhecidos personagens tocam em pontos delicadíssimos da moralidade individual e coletiva.

Os desejos humanos desconhecem cancelas. Justo por semelhante motivo surgem as piores tragédias. A saga dos átridas, na Grécia, partem de comilanças nas quais as fronteiras entre humanidade e selvageria são desrespeitadas. Percebendo Tiestes como traidor, Atreu convida o irmão, com extremo dolo, para um jantar. O cardápio traz os filhos de Tiestes. Acabada a janta, os restos das crianças foram exibidos ao pai atormentado que as devorou . Esta é a origem das mais belas e terríveis tragédias gregas, desenvolvidas em clima de comilança sem freios e em ambiente de embriaguez delirante. Não por acaso a tragédia e o deus Dionisios unem-se para ampliar o desespero humano que se afoga no vinho e estraçalha carnes e alma. Quem ignora medidas ao ingerir alimentos ou sugar o vinho, termina devorando os músculos, bebendo o sangue de suas próprias entranhas. É o que se passou com Agamenon que sacrificou sua filha Ifigênia para se garantir no poder. Se não a devora físicamente, ele inagura a história política ocidental, um açougue como diz o filósofo Hegel.

Os limites entre a humanidade e a selvageria são tênues. Os homens só deixam a ferocidade permanente pela educação, quando começam a respeitar os direitos mútuos. Mas a cultura espiritual, resultado do processo educativo, está permanentemente ameaçada pela vontade que desconhece limites. O desejo de tudo comer, tudo beber, tudo controlar, encontra-se na gênese da violência política e social. Ainda segundo Hegel, “a história universal é o domínio da violência desenfreada com que se manifesta a vontade natural”. Contra esta tendência, apenas a educação oferece alguma tregua, alguma paz. “A educação”, diz Hegel, forma os indivíduos e povos “para a liberdade subjetiva”, porque domestica a fera que habita corpos e almas selvagens: “Die Weltgeschichte ist die Zucht von der Unbändifkeit des natürlichen Willens zum Allgemeinen und zur subkjektiven Freiheit” (“Lições sobre a Filosofia da História”). O termo principal nessas linhas é a palavra alemã “Zucht”. Ela conota educação, disciplina, cultivo, e repressão da animalidade humana. Quem não é forçado, pela educação, a respeitar os limites entre o humano e o feroz, ignora a moral, a ética, as leis, os costumes sadios. O beberrão e o glutão, diz Kant, integram a lista dos que atentam contra a própria humanidade.

A troca de insultos entre Lula e Ronaldo atinge planos delicados do mundo civil. Se o primeiro estivesse correto, Ronaldo seria, pela comilança, uma besta. Se o insinuado pelo segundo fosse verdade… Termino com uma nota sobre o presidente. Ele foi interpelado pelo STF para explicar quem é o jornalista “bandido” e “sem caráter” que supostamente o desrespeitou. Ainda na semana passada, Sua Excelência disse que à oposição ao seu governo falta caráter. Interessante esta obsessão com o termo e a coisa por ele sugerida. Caráter é o impulso natural da vontade, algo que reside no lado feroz do ser humano e que deve ser moderado para que o seu portador seja acolhido no convívio civil. Não basta ter caráter: é preciso que a educação o torne bom. Caso oposto, é possível perfeitamente que o voluntarioso seja mau-caráter. Poderosos devem receber educação do caráter, para moderar seus ímpetos. Os piores tiranos desconheceram os limites entre sua vontade e as exigências do convívio. Napoleão, Hitler, Stalin e outros, impuseram seu caráter aos Estados que deveriam servir. Quando o governante não recebe críticas de partidários e aliados (tirania é bajulação), resta aos opositores realizar este mister. Para isto é preciso muito caráter, mas envolvido em valores universais. Caso oposto, o caráter se esgota no auto-elogio, no qual Lula é mestre. Como dizem os caipiras, “gavação em causa própria é vitupério”. Entenda o presidente que, segundo a Constituição, ele é responsável pelos desmandos dos auxiliares. Se estes cairam, o que esperar do mestre? Votos aos milhões não apagam as manchas do seu governo. Na Alemanha, na URSS e em outros regimes autoritários, milhões votaram nos Líderes voluntariosos. Mas sobre eles hoje impera o silêncio.

Terça, 06 Junho 2006 21:00

Orgulho e Ridículo

O presidente Lula, devido às intenções de voto que recebe nas pesquisas eleitorais, além de negar conhecimento de crimes cometidos por seu Partido e governo, desafia a ética ao dizer que os ouvidos nas CPIs são “vítimas de tortura”.

O presidente Lula, devido às intenções de voto que recebe nas pesquisas eleitorais, além de negar conhecimento de crimes cometidos por seu Partido e governo, desafia a ética ao dizer que os ouvidos nas CPIs são “vítimas de tortura”. Ele assim justifica o que fizeram Delúbio Soares, Silvio Pereira, Antonio Palocci e a quadrilha denunciada pelo Procurador Geral da República. Não comentarei a manobra demagógica. Indicarei aos leitores cristãos do PT e dos segmentos opostos a ele, o quanto o presidente temporário (a menos que deseje se perpetuar no poder, a exemplo de Fidel Castro) é vítima de um defeito capital, segundo a ordem cristã dos valores. Perdoem as citações eruditas após os enunciados. Elas são necessárias devido à gravidade do assunto.

Lula não sabe, porque nada leu de teologia e de filosofia moral, mas nos Evangelhos o orgulho marca uma das piores tentações de Cristo, em passagem unida diretamente ao poder político : “Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e lhe disse: ´Tudo isto te darei se, prostado, me adorares´. Então Jesus lhe ordenou: ´Retira-te, Satanás, porque está escrito : Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto´”. (Mateus, 4, 8-10). Na Primeira Epístola de João, três coisas nos afastam de Deus : a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, a “soberba da vida” (2, 16). O último elemento liga-se ao poder governamental, como enunciam comentaristas abalizados do catolicismo (Lula se diz católico...). Para eles, no mundo político ocorre “um desejo incontrolado de honras, estima, hierarquia, pompa e espetáculos, ligados aos vícios do orgulho, ambição, vaidade e auto-exaltação”. (A Catholic Commentary on Holy Scripture). E como Lula exalta a si mesmo...

A fórmula grega alazoneia utilizada para expressar superbia, tem uma constelação de significados trágicos e ridículos. Na lingua política grega o termo implica a impostura perigosa, sobretudo nos discursos demagógicos que imitam o verdadeiro. Os gloriosos são tragicômicos que usam palavras e signos para enganar os incautos. (Cf. J. Hesk, Deception and Democracy in Classical Athens) A sátira, sobretudo a de Luciano, relevantíssima na cultura cristã primitiva, nutre-se da crítica à “alazoneia”. (Braham, R.B. : Unruly Eloquence. Lucian and the Comedy of Traditions).

No Eclesiástico, livro canônico para a Igreja Católica, o tema do orgulho segue imediatamente após o do bom governo: “tal o governante do povo, tais os seus ministros; qual o que governa a cidade, tais todos os seus habitantes. Um rei sem instrução arruinará seu povo, uma cidade será construída graças à inteligência dos chefes. Nas mãos do Senhor está o governo do mundo; ele suscita, no tempo oportuno, o homem que convém” (10, 2-5). E logo a seguir: “o orgulho é odioso tanto ao Senhor como aos homens, e ambos têm horror da injustiça. O poder passa de uma nação a outra pela injustiça, pela violência e pela riqueza (...) O Senhor derruba o trono dos poderosos e assenta os mansos em seus lugares. O Senhor arranca a raiz dos orgulhosos e planta os humildes em seu lugar. O Senhor destrói o território das nações e aniquila-as até o subsolo” (10, 7-9 e 14-17). A chave da leitura católica encontra-se no versículo 14 do trecho: “Initium superbiae hominis apostatare a Deo” (O princípio do orgulho é o homem afastar-se do Senhor). A soberba inspira o afastamento em relação a Deus e suscita a tentativa sacrílega de atingir o divino com as próprias mãos, como na Torre de Babel. Diz o comentário católico, “o escritor sacro foi movido pela convicção profunda de que o governo absoluto de Deus sobre o mundo lhe ensina que a tentativa humana desagradou o Senhor e a narrativa sugere que o pecado foi a desmesura do orgulho humano e da auto-suficência” (Cf. A Catholic Commentary). O maior sinal do orgulho encontra-se na figura diabólica. No trecho que mencionei acima, a tentação de Jesus, resume-se o núcleo do cristianismo no relativo ao nexo entre política e saber religioso. Na passagem, Jesus chama o tentador com o seu nome de origem - Satan - enquanto a tradução grega traz a palavra diábolos, cujo significado é “um inimigo”, ou acusador legal. O diabo é o grande acusador do homem diante do Altíssimo. (Jó, 1, 6-2,7).

Lula pode afastar o perigo das CPIs e receber votos aos milhões, mas ainda é um orgulhoso “rei sem instrução” . Colaboram para este seu vezo os oportunistas que ontem falavam em ética e hoje riem dos valores. Eles são acometidos de “alazonéia” e cupidez, alimentam o orgulho do governante com os seus rapapés. Como diz o Padre Vieira, são peixes parasitas - os “pegadores”- que se alimentam dos vermes apegados nas costas do peixe grande. E como existem aduladores nos dias atuais!


PS: o recado vale para os oposicionistas de fachada que só pensam em 2010, traindo seus compromissos de agora. No próximo artigo comentarei o excelente livro de Luciana Genro e R. Robaina, A Falência do PT. (L&PM Editores, 2006).

Quarta, 03 Maio 2006 21:00

Imposturas Intelectuais

Nem sempre o charlatão é apedeuta. Nem todo analfabeto é “estadista”, como Lula é apresentado no impagável livro de Aloizio Mercadante, “Brasil: primeiro Tempo”.Analistas políticos que aplicam-se à bola de cristal sempre erram. Aliás, todos os que se aplicam à referida esfera translúcida, tropeçam gravemente. Há um livro traduzido pela Editora Unesp sobre as traquinagens de cientistas (ou ex-cientistas) na astrologia. O nível de algumas universidades brasileiras desceu tanto que nelas existem cursos e “pesquisas” astrológicas. E dinheiro escorre dos cofres públicos em prol da idiotia delirante. Certa feita escrevi que, a seguir a tendência populista atual, breve os diplomas seriam distribuídos em comícios. E se eles fossem entregues entre números circenses? A ciência seria fácil, leve, agradável, não exigiria esforço intelectual ou ético. Bastariam os truques. Num país que recebe o último lugar do mundo no ensino da matemática, é crime aplicar verbas estatais em patifarias noéticas. O título do livro citado? A Impostura Científica em Dez Lições, de Michel de Pracontal.

Ocorrem diferenças entre cientistas e charlatães da astrologia e quejandos. Os primeiros “não param de questionar, revisar hipóteses, corrigir teorias”. Já os que se dizem alternativos em relação à “ciência oficial” mostram-se “mais dogmáticos do que os denunciados por eles”. Nem sempre o charlatão é apedeuta. Nem todo analfabeto é “estadista”, como Lula é apresentado no impagável livro de Aloizio Mercadante, “Brasil: primeiro Tempo”. A metáfora futebolística do título mostra a distância entre o “estadista” e o demagogo. Nem todo charlatão fugiu da escola. Alguns, os que obtem maior sucesso, conhecem técnicas, teorias, métodos, doutrinas e dominam o jargão científico.

Vejamos o caso de Joël Sternheimer. Formado em física, ele diz ter descoberto algo sensacional previsto por Pitágoras, Platão e aceito no século 18 pelo músico Rameau: o universo é composto segundo escalas musicais! Para Sternheimer, a massa das partículas estáveis da natureza se repartem como as notas da gama cromática temperada do Ocidente. Se acrescentarmos as partículas instáveis, o conjunto forma uma gama mais fina, síntese das gamas ocidentais e orientais. Proclama o descobridor que “a maioria das partículas deixa um traço visível numa câmara com bolhas (que persistam pelo menos alguns átimos), procedem de uma tonalidade em lá menor, do qual ômega-menos é a dominante. Se tais partículas seguem a gama introduzida por Bach, a música que elas produzem (centrada na dominante) é mais próxima de Mozart, um tanto parecida com a de Satie (e não duvidando, se incluirmos as partículas instáveis, se forem empregados intervalos próprios às músicas, orientais)”.

A “descoberta” parte de uma coincidência numérica: as massas das partículas têm uma repartição que recorda a dos intervalos musicais. Daí, a fantasia conduz a varinha mágica do expositor. Tais devaneios foram apresentados na mais prestigiosa instituição acadêmica francesa: o Colégio de França (Cf. Joël Sternheim, “Musique des particules élémentaires”, comunicação ao Seminário de Física Matemática do Colégio de França, janeiro de 1984). Os que estudam o campo, sabem que foi efetivado pelo expositor do seminário um abuso metafórico. Mas quem se preocupa com análises empíricas, controles e experiências? É tão mais sugestivo acreditar que vivemos e nos desenvolvemos imersos em música... Somos entes musicais ! Corações se movem, sentimentos reverentes despertam e logo temos uma nova linha para o “esboço inteligente” do universo. Inteligente e belo. Todas as vias para a prova da existência divina são fornecidas. Pobre Aquino, prosaico e difícil… Eu me esquecia: o expositor não pensa em termos teológicos. Ele pediu patente de seu trabalho na França e promete construir instrumentos acústicos e eletrônicos que permitem tocar a música das partículas. E os tais instrumentos até que funcionam, abrindo novos campos para a criação artística. Mas o que provam ?

No caso, trata-se de expansão poética próxima às da “física” romântica alemã, francesa e inglesa do século 19. Mas semelhantes delírios passam dogmaticamente para as chamadas ciências humanas e são acolhidos na filosofia acadêmica. Nesta última, professores e professoras famosos aplicam-se a “teorizar” sobre a relatividade e números matemáticos, como foi o caso da Dra. Marilena Chaui. Pega no bote por um colega especialista, o recurso dos seus áulicos foi dizer que o referido crítico era tucano. Logo… Mas pior que a Dra. Chaui é o imenso batalhão dos que, na filosofia e nas ciências humanas usam o jargão e o prestígio das ciências para parolar sobre coisas desconhecidas pelo público. Um trabalho útil e ético de profilaxia foi realizado pelos corajosos Alan Sokal e Jean Bricmont num livro impagável, impiedoso e verdadeiro (Cf. Imposturas intelectuais, o abuso da ciências pelos filósofos pós-modernos). Claro que o escrito é maldito na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia e demais cenáculos. Mas este é um assunto conexo, mas diferente.
Domingo, 09 Abril 2006 21:00

Respeitem o Povo Brasileiro

O Partido dos Trabalhadores usou a ética e a moralidade públicas, durante mais de 20 anos, como elemento de propaganda. Ele se apresentou como campeão do povo brasileiro, caluniado e sofrido. No poder, revelou-se a hipocrisia que marca os discursos dos seus líderes.O Partido dos Trabalhadores usou a ética e a moralidade públicas, durante mais de 20 anos, como elemento de propaganda. Ele se apresentou como campeão do povo brasileiro, caluniado e sofrido. No poder, revelou-se a hipocrisia que marca os discursos dos seus líderes. Diante das evidências de sua falta de respeito aos parâmetros éticos, espalham a lama. E usam a técnica do gambá, evocada por mim quando critiquei o pai do “é dando que se recebe” no Congresso Nacional, em artigo na Folha de São Paulo ( “O Prostíbulo Risonho”). Descobertas as falcatruas, dizem os culpados que os outros são iguais a eles. Não contente em caluniar a classe política — existem políticos que não agem como Delúbio Soares, Silvinho Land Rover etc. — o PT, com ajuda do Ibope, tenta ampliar as bases desse procedimento. Não apenas os políticos, mas cerca de 70% do povo brasileiro seria corrompido! Trata-se de operação a ser denunciada pelas pessoas sapientes, de bem e que possuem dignidade.

As ciências sociais desenvolveram métodos para apurar os surveys, testá-los, corrigi-los, tendo em vista deles afastar perguntas que induzam respostas. Todo estudante de sociologia, antropologia, psicologia social, economia, sabe que o mais árduo em termos científicos é produzir questionários sem subjetivismo (indicando valores do próprio pesquisador) ou questões que nada medem do que se deseja, ou medem o que não se deseja. As questões colocadas pelo Ibope aos pesquisados induzem as respostas para um resultado só, o da própria corrupção. Caso fossem postas perguntas ligadas apenas a fatos positivos, e inseridas na mesma ordem utilizada na pesquisa, teríamos 70% de anjos no Brasil. Nem uma coisa, nem outra.

As ciências sociais aprimoraram instrumentos analíticos que permitem controlar os dados postos pela consciência dos atores coletivos e individuais. Não é preciso ser marxista, freudiano, nietzcheano para perceber naqueles pensadores algo essencial das ciências humanas: há enorme diferença entre “pensar” algo sobre si mesmo e “ser” algo. Marx, Freud, Nietzsche foram chamados pelo grande filósofo Paul Ricouer, não por acaso, como “os mestres da suspeita”. Eles reforçaram a necessária cautela diante do conteúdo imediato da consciência, rigor exigido de quem deseja fazer ciência e não repetir preconceitos ou valores. Não é científico passar (sem análises empíricas e lógicas) da “consciência” de que se é “bom” ou “ruim”, para o “ser” bom ou ruim. Um coletivo pode se considerar excelente, sendo perverso. Mas ele também pode se considerar péssimo, e ser uma sociedade razoável. Não seria preciso os mestres da suspeita. Basta abrir os textos platônicos: existe diferença entre a opinião (doxa) que alguém possui dos outros e de si mesmo e a ciência (epistême). Esta última, não raro, deixa insatisfeitos os que têm de sua gente e costumes uma idéia falsa. A resistência ao grande Darwin possui esta fonte: os sujeitos se imaginavam seres únicos no interior da natureza. A evolução destruiu esta opinião. A ciência não repete o que os sujeitos pensam sobre si mesmos. Ela investiga a verdade das suas assertivas.

É possível inculcar nos agentes coletivos e individuais falsas opiniões sobre o próprio valor. B. Bettelheim, no livro The Informed Heart, the human condition in modern mass society, mostra como os carrascos nazistas domesticaram prisioneiros dos campos de concentração. Eles usaram técnicas que induziam os aprisionados à perda da auto-estima, à idéia de si mesmos como gente sem valor. Médicos, advogados, economistas, escritores, engenheiros, acostumados ao tratamento social como “vós”, foram obrigados ao tratamento com o “tu”, forma de acentuar a sua pretensa inferioridade. O povo brasileiro foi domesticado e envilecido por charlatães com “teorias” como o eugenismo, cujo alvo era estabelecer diferenças falsas entre povos “normais” e “degenerados”. Na esteira do eugenismo, os mentirosos reforçaram os mitos da “preguiça brasileira”, a nossa pretensa inferioridade devido à mestiçagem etc. Propagadas, aquelas doutrinas mostraram-se compatíveis com as práticas fascistas, ajudaram a corroer o caráter e a auto-estima da nossa gente. Fosse veraz o Ibope, nenhum contrato seria cumprido no País, nenhum ofício seria realizado e não haveria o número biliardário do superavit e os juros que engordam, com impostos, as burras do governo e de seus aliados.

Como suprema traição aos seus 20 anos, o governo “dos trabalhadores” recebe poderosa ajuda de um instituto que mede a opinião popular intoxicada pela propaganda policialesca de jornalistas e intelectuais contrários à democracia. Este é um passo a mais na corrosão do caráter nacional. Não, senhores do PT e do Ibope! Basta de lama jogada na face de mulheres e homens, jovens ou velhos, que saem de casa às 4 da manhã, seguem para o serviço em conduções péssimas, se alimentam de modo irregular e ganham o pão com o suor do rosto. E pagam impostos tigrescos. Sindicalistas que subiram na vida mentindo ao povo e hoje nadam na lama, respeitem quem é honesto! A tentativa de assassinar o caráter das pessoas retas deste País é genocídio espiritual. Basta!
Quarta, 01 Fevereiro 2006 21:00

Pilotos, Médicos, Políticos

Trata-se de um vínculo que prende os dependentes ao personagem superior no Estado e na sociedade, mas o submete à obrigação de responder aos apelos dos que nele confiam.Uma noção difícil em filosofia, política e moral, refere-se à fé. Como o conceito de tempo, ela tornou-se familiar no mundo moderno, mas sua definição apresenta óbices imensos. No mundo romano que forneceu as matrizes de nossas instituições jurídicas e políticas — refinadas pela teoria grega — a fé (fides) corresponde à uma qualidade social e não ao sentimento dos indivíduos e grupos. A palavra aplica-se à posição do sujeito altamente colocado na ordem política e comanda uma coletividade que dele depende. Um indivíduo assim não pode falhar quando se trata de ajuda aos subordinados. A fé é uma condição essencial dos que possuem autoridade (auctoritas) ou poder (potestas). Trata-se de um vínculo que prende os dependentes ao personagem superior no Estado e na sociedade, mas o submete à obrigação de responder aos apelos dos que nele confiam. O líder de um grupo jamais pode falhar para com seus subordinados se deseja ser obedecido. Esta é a regra da famosa “governabilidade”. A fé (fides) tornou-se sinônimo de constância (constantia) e comprovada honra (probitas), presentes no homem sério, dotado da gravidade que concede peso à sua fala. Quem não honra a sua palavra para os amigos e inimigos é leve, inconfiável, desonesto e não merece autoridade. A fé (fides) fundamenta a justiça. Esta última (iustitia), torna-se a noção “sobre a qual se apoia, sinceramente ou não, uma grande parte da conduta política dos grandes personagens de Roma, tanto no interior quanto no plano externo. Ela comanda até as relações com a cidade e a fides rei publicae aparece como o equivalente antigo da nossa moderna noção de ‘patriotismo’. A fides é citada entre os ornamentos do candidato ao cargo de consul”. (Hellegouarc´h, J.: Le vocabulaire latin des relations et des partis politiques sous la République).

A fé pública é essencial no regime republicano. Sem ela, nenhuma autoridade é de fato digna de exercer o governo efetivo. Ela pode possuir momentaneamente o cargo e o nome, mas é apenas um asno em pele de leão. Trata-se da mesma confiança que deve imperar entre o médico e o doente, o piloto do navio e os passageiros. Os indivíduos neles confiam por muitos motivos: sabem que estudaram e praticaram o seu ofício, sabem que são honestos, sabem que não são mercenários etc. Este “saber”, caso desmentido por evidente ignorância técnica ou irresponsabilidade ética ou moral, nunca se regenera. O profissional dos transportes ou da saúde pode continuar abusando da boa fé alheia, mas quem os conhece desconfia. E, com o tempo, o círculo dos bem informados aumenta a fama de imperitus do capitão, do médico, do governante.

Os conceitos romanos foram refinados pela filosofia grega. Cicero, Seneca e demais latinos conheciam Aristóteles e Platão. Eles sabiam o peso do vocabulário técnico nas exposições platônicas ou aristotélicas. No governo, elemento fundamental do platonismo é que o governante não pode agir às cegas, mas precisa dirigir o Estado com base na razão, longe do ódio, da inveja, das ambições de ganho ou glória. A realidade, diz Sócrates (Fedro, 247c) só pode ser contemplada pelo piloto da alma, a inteligência. O governante que orienta o povo segundo a realidade — e não segundo imagens enganosas e propaganda mentirosa — obedece a razão, o piloto da alma. Esta, afirma Platão nas Leis (963a) “desempenha o papel de piloto, de médico, de general” no mundo verdadeiro, oposto ao caótico universo demagógico. Quando os dirigentes seguem a razão, eles imitam os deuses, pilotos da natureza e dos homens (Critias 109c).

A política ideada como oceano atormentado, é perigo permanente. O navio que abriga os homens não lhes arranca a condição de náufragos potenciais. Sem a confiança no piloto, some a probabilidade de vencer a morte. Construir navios sólidos e rápidos é uma técnica, educar pilotos/dirigentes é outra. Ambas permitem a confiança dos passageiros de que chegarão ao porto. (Pierre Louis, Les métaphores de Platon). Ampère, no século 19, cunhou o termo “cibernética” para designar o governo (Essai sur la philosophie des sciences, 1834). Ele já tinha a idéia e a palavra prontas, nos textos platônicos.

Caro leitor, vejamos o caso brasileiro. Imagine-se jogado no mar. Ou imagine-se acometido de grave doença. Você confiaria em pessoas que agiram como os políticos que “interrogaram” o ministro Palocci na semana passada? Se soubesse que o piloto vendeu a sua segurança — políticos tiveram seus pedidos liberados pelo ministro, logo após manifestar “compreensão” no Congresso — você confiaria nele? Pesquisas dizem que só parcela menor da população confia nos representantes. Não é ilógico? Ninguém confia no médico imperito, quando conhecida esta condição do esculápio. Ninguém confia no motorista irresponsável e venal. Como é possível confiar em políticos que defendem os seus interesses e não respeitam o Bem Comum? Responda leitor e veja se você não é culpado pela escolha. Nas eleições, é possível mandar os improbos para a cadeia ou para casa. Façamos isto!
Terça, 24 Janeiro 2006 21:00

Celso Daniel

Celso Daniel foi assassinado, torturado e mentiram sobre estes fatos. Quem mentiu e mente sobre os mesmos fatos é hipócrita, finge virtude para melhor assaltar a vida e a alma do povo brasileiro.Na sexta feira passada, em Santo André, foi oficiada a missa em memória do prefeito Celso Daniel. As palavras perderam o significado, nosso tempo é o da novilingüa exposta por G. Orwel (releia-se o Apêndice sobre o tema, no livro 1984). Naquele idioma, o “ministério da verdade” dedica-se à mentira e assim por diante. Na tentativa de entender o que se passou no dia 20 de janeiro, ano fatídico de 2000, abri o dicionário de idéias mais estratégico para a nossa modernidade, a Enciclopédia dirigida por Diderot no Século das Luzes. Abro a página no verbete “assassinato”. Nas primeiras linhas, vem algo insuportável para todo ser humano que pensa e sente: “pode-se definir o assassinato como um atentado premeditado contra a vida de um homem, bem diferente portanto da morte involuntária cometida no caso de uma defesa legítima”. E mais adiante, retoma o autor: “O assassinato é um dos maiores crimes que perturbam a ordem da sociedade, sendo conveniente puni-lo com as penalidades mais severas”.

O século 18 não foi leniente com a prática do assassinato. Como uma base necessária para punir realmente o assassino, o devido processo judicial é defendido pelos filósofos e juristas daquela época. Contra a tortura (chamada na França “a questão”, pois perguntas eram feitas ao acusado, em práticas atrozes de estraçalhamento dos corpos e das almas), os pensadores pregavam a necessária verdade dos autos, sem que a propaganda religiosa ou política se intrometesse nos procedimentos policiais ou no tribunal. A verdade integra a punição do culpado, permite a defesa do inocente. A verdade é uma questão lógica, empírica, existencial. O mentiroso não pode ser livre nem democrata, pensam os filósofos do século 18, e repetem até hoje as pessoas retas. A mentira é o simulacro da justiça, o simulacro do ser humano. O verbete “mentira” da mesma Enciclopédia (lida no Brasil do mesmo século 18 por Tiradentes, o estraçalhado na tortura portuguesa) afirma que ela é uma “falsidade desonesta ou ilícita que consiste em se exprimir deliberadamente por palavras ou sinais, de um jeito falso para fazer o mal”. E quem mente assim, o que é? Ainda no dicionário mais importante da cultura democrática moderna, lido por todos os que defenderam um Estado em que a segurança individual deve ser a norma, indica o nome do que usa o assassinato, a tortura, a mentira: hipócrita. Este é “um homem que se mostra com um caráter que não é o seu (…) tudo na vida tem os seus hipócritas: a virtude, o vício, o prazer, a dor, etc. Mas o nome de hipócrita é dado mais particularmente aos homens perversos e falsos que, sem virtude e religião, pretendem fazer respeitar neles as maiores virtudes e o amor da religião. Eles empregam todo o zelo para se dispensar de serem honestos, Empregam todo o zelo para se dispensarem de serem bons, parecendo santos ou heróis. “(…) O céu está nos seus olhos, o inferno em seus corações”.

Celso Daniel foi assassinado, torturado e mentiram sobre estes fatos. Quem mentiu e mente sobre os mesmos fatos é hipócrita, finge virtude para melhor assaltar a vida e a alma do povo brasileiro. Celso Daniel sofreu os piores castigos, sobretudo o da morte nas mãos de carrascos a soldo de interesses os mais espúrios. Numa república honesta, sua morte seria investigada com apoio universal, os assassinos descobertos e punidos. Mas não é o que se viu e o que se nota. Não apenas ele, mas várias pessoas foram assassinadas, enquanto a mentira e a hipocrisia mimetizam com perversidade a virtude, a ética, encobrem os assassinos torturadores.

Sem o Ministério Público, a mentira, a tortura, a hipocrisia sairiam ilesas no caso Celso Daniel. O povo brasileiro deve aos bravos promotores de justiça este serviço mais do necessário, uma liturgia sublime. A familia de Celso Daniel recebe ameaças cotidianas, enquanto os hipócritas e mentirosos continuam sua farsa. Após a morte “misteriosa” do legista que apontou a tortura no corpo de Celso Daniel, outro legista repete o mesmo laudo: estraçalharam aquele homem covardemente. Há uma pergunta no Direito que não pode calar: “a quem interessa”? Quem se beneficiou com o crime? Ajudemos a corajosa família de Celso Daniel a responder tal questão. Com ela, virá a paz aos que merecem justiça. Só então o prefeito de Santo André será verdadeiramente sepultado. Só então o cheiro da morte abandonará a pavorosa cena política brasileira. Sim, os mentirosos e hipócritas que usaram o assassinato possuem o céu nos olhos, o inferno nos corações. Que Deus tenha piedade de nosso povo.
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