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Roberto Romano

Roberto Romano

Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Quarta, 03 Maio 2006 21:00

Imposturas Intelectuais

Nem sempre o charlatão é apedeuta. Nem todo analfabeto é “estadista”, como Lula é apresentado no impagável livro de Aloizio Mercadante, “Brasil: primeiro Tempo”.Analistas políticos que aplicam-se à bola de cristal sempre erram. Aliás, todos os que se aplicam à referida esfera translúcida, tropeçam gravemente. Há um livro traduzido pela Editora Unesp sobre as traquinagens de cientistas (ou ex-cientistas) na astrologia. O nível de algumas universidades brasileiras desceu tanto que nelas existem cursos e “pesquisas” astrológicas. E dinheiro escorre dos cofres públicos em prol da idiotia delirante. Certa feita escrevi que, a seguir a tendência populista atual, breve os diplomas seriam distribuídos em comícios. E se eles fossem entregues entre números circenses? A ciência seria fácil, leve, agradável, não exigiria esforço intelectual ou ético. Bastariam os truques. Num país que recebe o último lugar do mundo no ensino da matemática, é crime aplicar verbas estatais em patifarias noéticas. O título do livro citado? A Impostura Científica em Dez Lições, de Michel de Pracontal.

Ocorrem diferenças entre cientistas e charlatães da astrologia e quejandos. Os primeiros “não param de questionar, revisar hipóteses, corrigir teorias”. Já os que se dizem alternativos em relação à “ciência oficial” mostram-se “mais dogmáticos do que os denunciados por eles”. Nem sempre o charlatão é apedeuta. Nem todo analfabeto é “estadista”, como Lula é apresentado no impagável livro de Aloizio Mercadante, “Brasil: primeiro Tempo”. A metáfora futebolística do título mostra a distância entre o “estadista” e o demagogo. Nem todo charlatão fugiu da escola. Alguns, os que obtem maior sucesso, conhecem técnicas, teorias, métodos, doutrinas e dominam o jargão científico.

Vejamos o caso de Joël Sternheimer. Formado em física, ele diz ter descoberto algo sensacional previsto por Pitágoras, Platão e aceito no século 18 pelo músico Rameau: o universo é composto segundo escalas musicais! Para Sternheimer, a massa das partículas estáveis da natureza se repartem como as notas da gama cromática temperada do Ocidente. Se acrescentarmos as partículas instáveis, o conjunto forma uma gama mais fina, síntese das gamas ocidentais e orientais. Proclama o descobridor que “a maioria das partículas deixa um traço visível numa câmara com bolhas (que persistam pelo menos alguns átimos), procedem de uma tonalidade em lá menor, do qual ômega-menos é a dominante. Se tais partículas seguem a gama introduzida por Bach, a música que elas produzem (centrada na dominante) é mais próxima de Mozart, um tanto parecida com a de Satie (e não duvidando, se incluirmos as partículas instáveis, se forem empregados intervalos próprios às músicas, orientais)”.

A “descoberta” parte de uma coincidência numérica: as massas das partículas têm uma repartição que recorda a dos intervalos musicais. Daí, a fantasia conduz a varinha mágica do expositor. Tais devaneios foram apresentados na mais prestigiosa instituição acadêmica francesa: o Colégio de França (Cf. Joël Sternheim, “Musique des particules élémentaires”, comunicação ao Seminário de Física Matemática do Colégio de França, janeiro de 1984). Os que estudam o campo, sabem que foi efetivado pelo expositor do seminário um abuso metafórico. Mas quem se preocupa com análises empíricas, controles e experiências? É tão mais sugestivo acreditar que vivemos e nos desenvolvemos imersos em música... Somos entes musicais ! Corações se movem, sentimentos reverentes despertam e logo temos uma nova linha para o “esboço inteligente” do universo. Inteligente e belo. Todas as vias para a prova da existência divina são fornecidas. Pobre Aquino, prosaico e difícil… Eu me esquecia: o expositor não pensa em termos teológicos. Ele pediu patente de seu trabalho na França e promete construir instrumentos acústicos e eletrônicos que permitem tocar a música das partículas. E os tais instrumentos até que funcionam, abrindo novos campos para a criação artística. Mas o que provam ?

No caso, trata-se de expansão poética próxima às da “física” romântica alemã, francesa e inglesa do século 19. Mas semelhantes delírios passam dogmaticamente para as chamadas ciências humanas e são acolhidos na filosofia acadêmica. Nesta última, professores e professoras famosos aplicam-se a “teorizar” sobre a relatividade e números matemáticos, como foi o caso da Dra. Marilena Chaui. Pega no bote por um colega especialista, o recurso dos seus áulicos foi dizer que o referido crítico era tucano. Logo… Mas pior que a Dra. Chaui é o imenso batalhão dos que, na filosofia e nas ciências humanas usam o jargão e o prestígio das ciências para parolar sobre coisas desconhecidas pelo público. Um trabalho útil e ético de profilaxia foi realizado pelos corajosos Alan Sokal e Jean Bricmont num livro impagável, impiedoso e verdadeiro (Cf. Imposturas intelectuais, o abuso da ciências pelos filósofos pós-modernos). Claro que o escrito é maldito na Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia e demais cenáculos. Mas este é um assunto conexo, mas diferente.
Domingo, 09 Abril 2006 21:00

Respeitem o Povo Brasileiro

O Partido dos Trabalhadores usou a ética e a moralidade públicas, durante mais de 20 anos, como elemento de propaganda. Ele se apresentou como campeão do povo brasileiro, caluniado e sofrido. No poder, revelou-se a hipocrisia que marca os discursos dos seus líderes.O Partido dos Trabalhadores usou a ética e a moralidade públicas, durante mais de 20 anos, como elemento de propaganda. Ele se apresentou como campeão do povo brasileiro, caluniado e sofrido. No poder, revelou-se a hipocrisia que marca os discursos dos seus líderes. Diante das evidências de sua falta de respeito aos parâmetros éticos, espalham a lama. E usam a técnica do gambá, evocada por mim quando critiquei o pai do “é dando que se recebe” no Congresso Nacional, em artigo na Folha de São Paulo ( “O Prostíbulo Risonho”). Descobertas as falcatruas, dizem os culpados que os outros são iguais a eles. Não contente em caluniar a classe política — existem políticos que não agem como Delúbio Soares, Silvinho Land Rover etc. — o PT, com ajuda do Ibope, tenta ampliar as bases desse procedimento. Não apenas os políticos, mas cerca de 70% do povo brasileiro seria corrompido! Trata-se de operação a ser denunciada pelas pessoas sapientes, de bem e que possuem dignidade.

As ciências sociais desenvolveram métodos para apurar os surveys, testá-los, corrigi-los, tendo em vista deles afastar perguntas que induzam respostas. Todo estudante de sociologia, antropologia, psicologia social, economia, sabe que o mais árduo em termos científicos é produzir questionários sem subjetivismo (indicando valores do próprio pesquisador) ou questões que nada medem do que se deseja, ou medem o que não se deseja. As questões colocadas pelo Ibope aos pesquisados induzem as respostas para um resultado só, o da própria corrupção. Caso fossem postas perguntas ligadas apenas a fatos positivos, e inseridas na mesma ordem utilizada na pesquisa, teríamos 70% de anjos no Brasil. Nem uma coisa, nem outra.

As ciências sociais aprimoraram instrumentos analíticos que permitem controlar os dados postos pela consciência dos atores coletivos e individuais. Não é preciso ser marxista, freudiano, nietzcheano para perceber naqueles pensadores algo essencial das ciências humanas: há enorme diferença entre “pensar” algo sobre si mesmo e “ser” algo. Marx, Freud, Nietzsche foram chamados pelo grande filósofo Paul Ricouer, não por acaso, como “os mestres da suspeita”. Eles reforçaram a necessária cautela diante do conteúdo imediato da consciência, rigor exigido de quem deseja fazer ciência e não repetir preconceitos ou valores. Não é científico passar (sem análises empíricas e lógicas) da “consciência” de que se é “bom” ou “ruim”, para o “ser” bom ou ruim. Um coletivo pode se considerar excelente, sendo perverso. Mas ele também pode se considerar péssimo, e ser uma sociedade razoável. Não seria preciso os mestres da suspeita. Basta abrir os textos platônicos: existe diferença entre a opinião (doxa) que alguém possui dos outros e de si mesmo e a ciência (epistême). Esta última, não raro, deixa insatisfeitos os que têm de sua gente e costumes uma idéia falsa. A resistência ao grande Darwin possui esta fonte: os sujeitos se imaginavam seres únicos no interior da natureza. A evolução destruiu esta opinião. A ciência não repete o que os sujeitos pensam sobre si mesmos. Ela investiga a verdade das suas assertivas.

É possível inculcar nos agentes coletivos e individuais falsas opiniões sobre o próprio valor. B. Bettelheim, no livro The Informed Heart, the human condition in modern mass society, mostra como os carrascos nazistas domesticaram prisioneiros dos campos de concentração. Eles usaram técnicas que induziam os aprisionados à perda da auto-estima, à idéia de si mesmos como gente sem valor. Médicos, advogados, economistas, escritores, engenheiros, acostumados ao tratamento social como “vós”, foram obrigados ao tratamento com o “tu”, forma de acentuar a sua pretensa inferioridade. O povo brasileiro foi domesticado e envilecido por charlatães com “teorias” como o eugenismo, cujo alvo era estabelecer diferenças falsas entre povos “normais” e “degenerados”. Na esteira do eugenismo, os mentirosos reforçaram os mitos da “preguiça brasileira”, a nossa pretensa inferioridade devido à mestiçagem etc. Propagadas, aquelas doutrinas mostraram-se compatíveis com as práticas fascistas, ajudaram a corroer o caráter e a auto-estima da nossa gente. Fosse veraz o Ibope, nenhum contrato seria cumprido no País, nenhum ofício seria realizado e não haveria o número biliardário do superavit e os juros que engordam, com impostos, as burras do governo e de seus aliados.

Como suprema traição aos seus 20 anos, o governo “dos trabalhadores” recebe poderosa ajuda de um instituto que mede a opinião popular intoxicada pela propaganda policialesca de jornalistas e intelectuais contrários à democracia. Este é um passo a mais na corrosão do caráter nacional. Não, senhores do PT e do Ibope! Basta de lama jogada na face de mulheres e homens, jovens ou velhos, que saem de casa às 4 da manhã, seguem para o serviço em conduções péssimas, se alimentam de modo irregular e ganham o pão com o suor do rosto. E pagam impostos tigrescos. Sindicalistas que subiram na vida mentindo ao povo e hoje nadam na lama, respeitem quem é honesto! A tentativa de assassinar o caráter das pessoas retas deste País é genocídio espiritual. Basta!
Quarta, 01 Fevereiro 2006 22:00

Pilotos, Médicos, Políticos

Trata-se de um vínculo que prende os dependentes ao personagem superior no Estado e na sociedade, mas o submete à obrigação de responder aos apelos dos que nele confiam.Uma noção difícil em filosofia, política e moral, refere-se à fé. Como o conceito de tempo, ela tornou-se familiar no mundo moderno, mas sua definição apresenta óbices imensos. No mundo romano que forneceu as matrizes de nossas instituições jurídicas e políticas — refinadas pela teoria grega — a fé (fides) corresponde à uma qualidade social e não ao sentimento dos indivíduos e grupos. A palavra aplica-se à posição do sujeito altamente colocado na ordem política e comanda uma coletividade que dele depende. Um indivíduo assim não pode falhar quando se trata de ajuda aos subordinados. A fé é uma condição essencial dos que possuem autoridade (auctoritas) ou poder (potestas). Trata-se de um vínculo que prende os dependentes ao personagem superior no Estado e na sociedade, mas o submete à obrigação de responder aos apelos dos que nele confiam. O líder de um grupo jamais pode falhar para com seus subordinados se deseja ser obedecido. Esta é a regra da famosa “governabilidade”. A fé (fides) tornou-se sinônimo de constância (constantia) e comprovada honra (probitas), presentes no homem sério, dotado da gravidade que concede peso à sua fala. Quem não honra a sua palavra para os amigos e inimigos é leve, inconfiável, desonesto e não merece autoridade. A fé (fides) fundamenta a justiça. Esta última (iustitia), torna-se a noção “sobre a qual se apoia, sinceramente ou não, uma grande parte da conduta política dos grandes personagens de Roma, tanto no interior quanto no plano externo. Ela comanda até as relações com a cidade e a fides rei publicae aparece como o equivalente antigo da nossa moderna noção de ‘patriotismo’. A fides é citada entre os ornamentos do candidato ao cargo de consul”. (Hellegouarc´h, J.: Le vocabulaire latin des relations et des partis politiques sous la République).

A fé pública é essencial no regime republicano. Sem ela, nenhuma autoridade é de fato digna de exercer o governo efetivo. Ela pode possuir momentaneamente o cargo e o nome, mas é apenas um asno em pele de leão. Trata-se da mesma confiança que deve imperar entre o médico e o doente, o piloto do navio e os passageiros. Os indivíduos neles confiam por muitos motivos: sabem que estudaram e praticaram o seu ofício, sabem que são honestos, sabem que não são mercenários etc. Este “saber”, caso desmentido por evidente ignorância técnica ou irresponsabilidade ética ou moral, nunca se regenera. O profissional dos transportes ou da saúde pode continuar abusando da boa fé alheia, mas quem os conhece desconfia. E, com o tempo, o círculo dos bem informados aumenta a fama de imperitus do capitão, do médico, do governante.

Os conceitos romanos foram refinados pela filosofia grega. Cicero, Seneca e demais latinos conheciam Aristóteles e Platão. Eles sabiam o peso do vocabulário técnico nas exposições platônicas ou aristotélicas. No governo, elemento fundamental do platonismo é que o governante não pode agir às cegas, mas precisa dirigir o Estado com base na razão, longe do ódio, da inveja, das ambições de ganho ou glória. A realidade, diz Sócrates (Fedro, 247c) só pode ser contemplada pelo piloto da alma, a inteligência. O governante que orienta o povo segundo a realidade — e não segundo imagens enganosas e propaganda mentirosa — obedece a razão, o piloto da alma. Esta, afirma Platão nas Leis (963a) “desempenha o papel de piloto, de médico, de general” no mundo verdadeiro, oposto ao caótico universo demagógico. Quando os dirigentes seguem a razão, eles imitam os deuses, pilotos da natureza e dos homens (Critias 109c).

A política ideada como oceano atormentado, é perigo permanente. O navio que abriga os homens não lhes arranca a condição de náufragos potenciais. Sem a confiança no piloto, some a probabilidade de vencer a morte. Construir navios sólidos e rápidos é uma técnica, educar pilotos/dirigentes é outra. Ambas permitem a confiança dos passageiros de que chegarão ao porto. (Pierre Louis, Les métaphores de Platon). Ampère, no século 19, cunhou o termo “cibernética” para designar o governo (Essai sur la philosophie des sciences, 1834). Ele já tinha a idéia e a palavra prontas, nos textos platônicos.

Caro leitor, vejamos o caso brasileiro. Imagine-se jogado no mar. Ou imagine-se acometido de grave doença. Você confiaria em pessoas que agiram como os políticos que “interrogaram” o ministro Palocci na semana passada? Se soubesse que o piloto vendeu a sua segurança — políticos tiveram seus pedidos liberados pelo ministro, logo após manifestar “compreensão” no Congresso — você confiaria nele? Pesquisas dizem que só parcela menor da população confia nos representantes. Não é ilógico? Ninguém confia no médico imperito, quando conhecida esta condição do esculápio. Ninguém confia no motorista irresponsável e venal. Como é possível confiar em políticos que defendem os seus interesses e não respeitam o Bem Comum? Responda leitor e veja se você não é culpado pela escolha. Nas eleições, é possível mandar os improbos para a cadeia ou para casa. Façamos isto!
Terça, 24 Janeiro 2006 22:00

Celso Daniel

Celso Daniel foi assassinado, torturado e mentiram sobre estes fatos. Quem mentiu e mente sobre os mesmos fatos é hipócrita, finge virtude para melhor assaltar a vida e a alma do povo brasileiro.Na sexta feira passada, em Santo André, foi oficiada a missa em memória do prefeito Celso Daniel. As palavras perderam o significado, nosso tempo é o da novilingüa exposta por G. Orwel (releia-se o Apêndice sobre o tema, no livro 1984). Naquele idioma, o “ministério da verdade” dedica-se à mentira e assim por diante. Na tentativa de entender o que se passou no dia 20 de janeiro, ano fatídico de 2000, abri o dicionário de idéias mais estratégico para a nossa modernidade, a Enciclopédia dirigida por Diderot no Século das Luzes. Abro a página no verbete “assassinato”. Nas primeiras linhas, vem algo insuportável para todo ser humano que pensa e sente: “pode-se definir o assassinato como um atentado premeditado contra a vida de um homem, bem diferente portanto da morte involuntária cometida no caso de uma defesa legítima”. E mais adiante, retoma o autor: “O assassinato é um dos maiores crimes que perturbam a ordem da sociedade, sendo conveniente puni-lo com as penalidades mais severas”.

O século 18 não foi leniente com a prática do assassinato. Como uma base necessária para punir realmente o assassino, o devido processo judicial é defendido pelos filósofos e juristas daquela época. Contra a tortura (chamada na França “a questão”, pois perguntas eram feitas ao acusado, em práticas atrozes de estraçalhamento dos corpos e das almas), os pensadores pregavam a necessária verdade dos autos, sem que a propaganda religiosa ou política se intrometesse nos procedimentos policiais ou no tribunal. A verdade integra a punição do culpado, permite a defesa do inocente. A verdade é uma questão lógica, empírica, existencial. O mentiroso não pode ser livre nem democrata, pensam os filósofos do século 18, e repetem até hoje as pessoas retas. A mentira é o simulacro da justiça, o simulacro do ser humano. O verbete “mentira” da mesma Enciclopédia (lida no Brasil do mesmo século 18 por Tiradentes, o estraçalhado na tortura portuguesa) afirma que ela é uma “falsidade desonesta ou ilícita que consiste em se exprimir deliberadamente por palavras ou sinais, de um jeito falso para fazer o mal”. E quem mente assim, o que é? Ainda no dicionário mais importante da cultura democrática moderna, lido por todos os que defenderam um Estado em que a segurança individual deve ser a norma, indica o nome do que usa o assassinato, a tortura, a mentira: hipócrita. Este é “um homem que se mostra com um caráter que não é o seu (…) tudo na vida tem os seus hipócritas: a virtude, o vício, o prazer, a dor, etc. Mas o nome de hipócrita é dado mais particularmente aos homens perversos e falsos que, sem virtude e religião, pretendem fazer respeitar neles as maiores virtudes e o amor da religião. Eles empregam todo o zelo para se dispensar de serem honestos, Empregam todo o zelo para se dispensarem de serem bons, parecendo santos ou heróis. “(…) O céu está nos seus olhos, o inferno em seus corações”.

Celso Daniel foi assassinado, torturado e mentiram sobre estes fatos. Quem mentiu e mente sobre os mesmos fatos é hipócrita, finge virtude para melhor assaltar a vida e a alma do povo brasileiro. Celso Daniel sofreu os piores castigos, sobretudo o da morte nas mãos de carrascos a soldo de interesses os mais espúrios. Numa república honesta, sua morte seria investigada com apoio universal, os assassinos descobertos e punidos. Mas não é o que se viu e o que se nota. Não apenas ele, mas várias pessoas foram assassinadas, enquanto a mentira e a hipocrisia mimetizam com perversidade a virtude, a ética, encobrem os assassinos torturadores.

Sem o Ministério Público, a mentira, a tortura, a hipocrisia sairiam ilesas no caso Celso Daniel. O povo brasileiro deve aos bravos promotores de justiça este serviço mais do necessário, uma liturgia sublime. A familia de Celso Daniel recebe ameaças cotidianas, enquanto os hipócritas e mentirosos continuam sua farsa. Após a morte “misteriosa” do legista que apontou a tortura no corpo de Celso Daniel, outro legista repete o mesmo laudo: estraçalharam aquele homem covardemente. Há uma pergunta no Direito que não pode calar: “a quem interessa”? Quem se beneficiou com o crime? Ajudemos a corajosa família de Celso Daniel a responder tal questão. Com ela, virá a paz aos que merecem justiça. Só então o prefeito de Santo André será verdadeiramente sepultado. Só então o cheiro da morte abandonará a pavorosa cena política brasileira. Sim, os mentirosos e hipócritas que usaram o assassinato possuem o céu nos olhos, o inferno nos corações. Que Deus tenha piedade de nosso povo.
Terça, 03 Janeiro 2006 22:00

Para Entender o PT

Numa crise, o debate é feito ignorando-se o passado. Muita coisa torna-se inteligível no PT se observarmos os movimentos que ajudaram o seu nascimento

Numa crise, o debate é feito ignorando-se o passado. Muita coisa torna-se inteligível no PT se observarmos os movimentos que ajudaram o seu nascimento. Ora, as correntes do petismo surgiram de movimentos autoritários nos quais os "quadros superiores" tudo decidem, restando ao militante obedecer. O primeiro "pai" do PT é o marxismo que se debatia entre a opção eleitoral e a luta armada. Os partidos comunistas adoecidos de burocratismo imaginaram atingir o poder pelas sucessivas eleições burguesas. Determinado pelas eleições ou pelas armas, o mecanismo e a lógica burocrática treinam e formam quadros para mover o partido. Este imaginário é antigo na cultura ocidental. Ele desce no tempo até Platão e sua idéia do mundo e da sociedade enquanto máquinas. Na modernidade, Hobbes elaborou o Estado com a figura tecnológica e maquinal. O pensamento leninista apresenta diferenças e continuidades com o modelo antigo da mecânica política. Se o Estado deve ser conquistado eleitoralmente para depois ser dissolvido em prol da revolução proletária ou se ele deve ser quebrado pela ação direta das armas com apoio das massas, importa que ele, na qualidade de burguês, seria ilegítimo, tirânico, deveria sumir. Representantes dessa tendência estavam e estão no PT.

Outras correntes estiveram na gênese petista, como os grupos trotskistas que criticavam, na trilha do seu inspirador, a burocracia partidária e a forma de Estado que resultou da URSS. Tais agrupamentos viam o plano internacional como elemento maior da luta revolucionária. Daí, a sua suspeita primeira contra a idéia do PT e do sindicalismo que o inspirou. Alguns deles chegaram a assumir as críticas sobre Lula, dizendo ser ele (é algo que deve ser investigado) um líder pré-fabricado pelos EUA, cujo treino teria ocorrido na Universidade John Hopkins, em programas específicos. Os vários setores trotskistas entraram com maior lentidão no PT e nele sempre criticaram o poder diretivo. Não por acaso partidos como o PSTU e o PSOL, resultaram de expulsões ou de saídas voluntárias do PT. Apesar desse radicalismo, os trotskistas conduziram a luta contra a direção partidária no interior "da máquina" . Vários de seus integrantes assumiram alianças e estratégias do grupo egresso do Partido Comunista ou das organizações armadas. Esta fusão heteróclita originou o Campo Majoritário.

Também estava na origem do PT o progressismo católico, dos socialistas radicais aos moderados, próximos à Pastoral Católica. Tal setor teve sua formação política nos anos sessenta, quando a Igreja modificou sua relação com a sociedade capitalista, radicalizando as Encíclicas sociais e o Concílio Vaticano 2, sobretudo a Declaração Gaudium et Spes. Naquela década, surgiu a Ação Popular (AP) inspirada nas idéias de Teilhard Chardin e de Hegel, seguindo o padre jesuíta Henrique Vaz. O socialismo estaria contido na evolução cósmica e os cristãos deveriam assumi-lo para garantir a sua face humana contra o totalitarismo. A AP surgiu como alternativa ao comunismo, bem no plano da pastoral eclesiástica. Intregavam o movimento como fundadores líderes como Herbert de Souza, o Betinho. A expansão do movimento deu-se pouco antes 1964. A presidência da UNE foi conquistada por católicos como José Serra, em detrimento do Partido Comunista. A AP, no entanto, buscou outras sendas que não a cristã. Ela recebeu o impacto das fórmulas guerrilheiras baseadas em Cuba.

Após 1964, setores da AP se dirigiram à França, onde conheceram o estruturalismo segundo L. Althusser e o marxismo nos padrões chineses. A união entre estruturalismo e comunismo chinês definiu parte da AP. Esta, no Brasil, exigiu que, para manter-se no movimento, era preciso assumir o "marxismo, leninismo, maoísmo, ateísmo" . Isto afastou muitos setores, como os frades dominicanos, mais tarde presos e acusados de manter elos com a ALN dirigida por Carlos Marighela. Em rumoroso processo, eles foram julgados após anos de prisão. A sua captura recebe várias interpretações. O seu advogado, dr. Mario Simas, publicou um livro em que os isenta da morte de Marighela. Jacó Gorender os apresenta como o fio condutor que levou a polícia ao líder da ALN. Esse ponto merece maiores estudos e pesquisas e o assunto precisa receber mais luzes. Mas importa indicar que a maioria dos dominicanos que rompeu com a AP, e sofreu revezes com Marighela, apoiou o PT a exemplo de Frei Betto, que chegou a exercer uma assessoria especial no Planalto até data recente. Os religiosos enxergaram no PT a oportunidade de unir doutrina eclesiástica e socialismo. A sua desilusão permite perceber o quanto eles, ao investir no PT, semearam em terra árida. Juntar comunistas históricos, trotskistas, católicos, numa salada ideológica como o "partido do Lula" , só poderia gerar a salada indigesta que ameaça os intestinos da república. Os comunistas eram realistas. Trostskistas e católicos se imaginavam anjos puros. Com os "recursos não contabilizados" , o PT mostra-se corrupto e autoritário.

Quarta, 14 Dezembro 2005 22:00

Presidente e Sectários Indecorosos

Mais elevado o cargo, mais justiça, dignidade, decoro se exige de quem o exerce. O pequeno erro do funcionário menor torna-se desastre no superior.O que é o decoro no setor público? Na Roma que nos deu a língua, a qualidade de um estadista era a prudência, traduzida na modéstia. Esta última, segundo Cicero, resume-se à temperança, a forma de manter o auto-controle. A temperança no soldado chama-se disciplina. Para os filósofos estóicos, a temperança prolonga o conceito grego de “eutaxia”, modéstia que reconhece a ordem conveniente em todos os momentos e circunstâncias. Se existe prudência e temperança, a força torna-se irrelevante, impera o decoro. A pessoa prudente domina a sua ira, nunca é obrigada a usar os braços e armas para impor seu pensamento. O intemperante que não controla o vinho, fácilmente se torna furioso, agride os concidadãos com espadas ou punhos. A modéstia é virtude do político que pesa cada ato, impõe às suas próprias atitudes e falas uma progressão hierárquica digna do cargo. Entre a glória pessoal, afirma Cicero seguindo a ética que vem da Grécia, e o serviço pouco notado à cidade, o verdadeiro estadista prefere o segundo. O paradigma desse comportamento encontra-se em Agesilau: quase vencedor dos persas ele deixa a batalha e retorna para a sua cidade, Esparta, atacada por atenienses e tebanos. Defender a pátria é mais digno do que vencer um inimigo. Só a pessoa capaz de escalonar valores decide no sentido de Agesilau. Ele foi modesto (não buscando a gloríola da vitória) e prudente (percebeu que salvar a sua terra era vital para ele e para os seus).

E o que é a modéstia? É guardar a medida. Moderatio, em latim, é o nome de uma ação e deriva do verbo “moderor”, cujo primeiro sentido é “dirigir”, “regrar”. Quem dirige um cavalo, o controla com o freio. Cicero, ele novamente, diz que a moderação designa a ordem e a medida. Trata-se de uma capacidade essencial no poder, que só pode ser exercido pelos capazes de continência e temperança. A história de Roma apresenta a figura de homens capazes dessa modesta temperança, pois exerceram grandes poderes sob limites impostos pela sabedoria e utilidade públicas. Cincinatus recusou o segundo mandato consular que lhe foi oferecido, porque não seria útil ao coletivo. Scipião, o africano, recusou a ditadura perpétua e exigiu que não fossem erguidas estátuas em sua homenagem. Tiberio Graco recusou aproveitar-se do poder para colocar na cadeia um inimigo dos piores, Scipião asiático.

A temperança é noção negativa e nela o poderoso se abstém de um ato. A justiça é positiva segundo Cicero. Ela consiste em atribuir a cada um segundo seus méritos, é própria de alguém que possui auctoritas. A justiça do poderoso lhe atrai a fides, a fé pública. O dirigente injusto e intemperante produz, cedo ou tarde, a desconfiança dos cidadãos. A justiça lhe confere o crédito e, com ele, o decoro. Esta palavra tem a raiz “dec” e une-se a “decet” que se vincula ao vocábulo “dico” (mostrar com o dedo), como em digito monstratus (honrado, louvado, indicado em louvor), “digno do lugar que ocupa na sociedade e no Estado”. Os termos “dignus” e “decet” ajudam o decoro e lhe fornecem um sentido estético fundamental. A pessoa decorosa pratica ações belas, é ornada pela virtude. O indivíduo assim “vestido” mostra dignidade, o conveniente ao seu cargo.

Decus e confiança unem-se: com a raiz “dec”, um ato designa alguém “que atua como é conveniente”, segundo a decência. O decoroso exibe a virtus apreciada pelo sentimento republicano. Decus, o decoro, como a dignitas, surge da “honestas”. Somente alguém capaz de ser apontado como honesto governa para todos, com igual dignidade. Decus é essencial quando alguém se proclama salvador da república. Cicero cita a palavra “decus” entre as qualidades requeridas dos senadores. Para essa análise, o leitor pode ler o volume de Hellegouarc´h, J.: Le vocabulaire Latin des Relations et des Partis Politiques sous la République (Paris, Belles Lettres, 1972).

Mais elevado o cargo, mais justiça, dignidade, decoro se exige de quem o exerce. O pequeno erro do funcionário menor torna-se desastre no superior. O sumo magistrado não tem o direito de cometer injustiça e deve manter a língua presa, as paixões pessoais ou partidárias sob controle. Ele não pode, no exercício do cargo, agir como se integrasse um partido ou facção, pois é governante de todos. Caso contrário, cai no indecoro. Com base nesse juízo, e como professor de ética, digo sem temor: a declaração do presidente da República de que a oposição brasileira é golpista como na Venezuela, feita no exterior (o que piora a vilania) é indecorosa. Ele age como candidato, líder de facção e não como dirigente justo. Descarta a dignidade do cargo, seguido pelos sectários petistas atolados na licença e na mentira, os quais, com semelhante retórica, tentam esconder a corrupção imperante em suas fileiras. Sem receio, afirmo que o presidente age contra o decoro do cargo. Se eu fosse líder político e devesse defender a dignidade da oposição, iniciaria de imediato o processo de impedimento contra a pessoa que ocupa o cargo máximo e, necessariamente, deveria ser amiga e respeitar igualmente todos os brasileiros.
Segunda, 28 Novembro 2005 22:00

Eunucos e Censores

A boca torta do petismo continua a campanha contra a imprensa e busca intimidar os intelectuais autônomos.No dia 23 de novembro passado estive no Ministério da Defesa (Escola Superior de Guerra) para falar aos estagiários. Discorri sobre o segredo e o seu antídoto, a transparência democrática. Outro convidado, que tomou a palavra antes de mim, foi o ministro Ayres de Brito do STF. Aprendi muito com o seu discurso, mas discordei de seu juízo sobre a etiqueta enquanto ética menor. Pelo contrário! A etiqueta é o modo pelo qual os indivíduos mostram obediência aos valores e às dignidades. Só coletivos destribalizados, como os indios guaranis, sobreviventes do etnocídio feito contra sua gente pelos brancos (cristãos…) vivem sem roupa decente, nome ou título.

Quando o imaginário dono do Brasil insulta jornalistas (no mesmo instante é bajulado por radialistas que esquecem a dignidade do seu ofÍcio) ele transgride a etiqueta e mostra insensibilidade ética. A boca torta do petismo continua a campanha contra a imprensa e busca intimidar os intelectuais autônomos. Quando tentaram dar um golpe em 1935, os comunistas ficaram aborrecidos com o título de Intentona para designar o seu ato. E disseram se tratar de uma “Inventona” dos conservadores. Negar a evidência tem sido a regra dos que se julgam espertos. Tais cérebros lavados e que adoram lavar as mentes alheias, mentem com arte. O famoso “ouro de Moscou”, disseram, seria boato do “imperialismo”. Com as provas trazidas após o desmantelamento da URSS, ficou claro que o nariz de Pinóquio lhes cabia. Eles mentem com o coração, pois a mentira para a sua moral é técnica de mando. É por esse motivo que odeiam a ciência, os intelectuais livres, a imprensa; tais setores, como o menino, gritam: “o rei está pelado!”. E como é indecente a nudez petista… Diniz, Delubio, Silvinho Land Rover Pereira e quejandos mostram uma figura repulsiva para a cidadania. Até ontem eles mandavam no caixa petista, o mesmo onde se refestelam os demais, que proclamam a própria lisura. O pior é ouvir a sua confissão de malandragem, no mesmo átimo em que proclamam a própria torpeza. Quem é decente no PT, deveria exigir prestações imediatas de contas, expulsar aqueles indivíduos da agremiação. Mas a decência (como o bom senso no entender do bom Descartes), embora reivindicada por muitos, é vivida só por um número pequeno.

Alguns deles se dizem marxistas. Pobre Marx! Basta ouvir os “depoimentos” dos pobres diabos nas CPIs. Não apenas o idioma pátrio é torturado, a ignorância dos principios lógicos mostra que jamais leram uma linha de Marx. Este pensador, para ganhar o pão de cada dia, labutou na imprensa. Alguns de seus mais notáveis trabalhos sairam de um esforço jornalístico. E, ao contrário dos idiotas petistas que odeiam a imprensa livre, defendeu os jornais contra a censura, a mesma censura adorada pelos que desejavam impor mordaças aos colegas com o asqueroso Conselho de Jornalismo.

Marx tem palavras candentes contra a censura da imprensa. No artigo Notas sobre a mais recente Instrução aos Censores da Prússia (Anekdota, fevereiro de 1842) ele afirma que a censura é uma calamidade, e que “ela é péssima em geral, permanece péssima, não importa quem a pratique, se um empregado particular ou agente do governo.”. Na Gazeta Renana ele diz mais : “a censura admite não ser um fim em si mesma; que não é boa por si mesma, e assevera portanto que o fim santifica os meios. Mas um fim que necessita de meios pecadores não é santo”. E mais, diz o pensador caluniado sempre que um petista bronco (perdoem a quase tautologia…) toma o seu nome em vão (agora, com Palocci mandando e praticando o neo-liberalismo, vocábulo que habitou a boca dos petistas até pouco tempo atrás, enquanto Marx perde o trono) “é auto-evidente que a liberdade de imprensa tem uma justificação muito diversa da censura, pois a imprensa representa a forma de uma idéia, um bem positivo, enquanto a censura é uma forma de escravidão”. Se fosse lida esta tese, sem dizer o nome da fonte, no ambiente “jornalístico” petista, certamente as linguas ignaras berrariam: “liberdade pequeno-burguesa!”. Cada um tem o Marx que merece. O companheiros salivariam de ódio (o traço mais comum do petismo, pois nele se odeia quem não segue as palavras de ordem) se ouvissem algo assim: “a censura é ruim e permanece ruim, mesmo que traga bons resultados, porque esses resultados são bons apenas enquanto representam a imprensa livre no interior da imprensa censurada. (…) A livre imprensa permanece boa, mesmo que traga resultados ruins, porque tais resultados são apóstatas da imprensa livre. Um eunuco permanece um homem ruim, mesmo que tenha uma boa escolha. A natureza permanece boa, mesmo ao parir abortos”. Que tal? Lembram das primeiras linhas da proposta do Conselho de Jornalismo?

Marx fornece o nome dos jornalistas que defendem a “boa” censura, a de seu partido, bem como a “boa” política, a de seus dirigentes (Delubio e Silvinho garantiram seu comando no PT, com o beneplácito dos “bons” militantes): eunucos, porque odeiam a fertilidade de espírito e de alma de quem que não freqüenta os seus festivais de ódio à liberdade e ao verdadeiro. Os petistas odeiam o jornalismo porque eles mentem fingindo dizer verdades. Sua fala inteira é mendaz porque recusam incertezas. Seus líderes pensam por eles e sua língua repete dogmas, nunca probabilidades. “Os totalitarismos”, diz Amelia Valcárcel, especialista em ética, “nunca reivindicaram a si mesmos como prováveis, mas como verdadeiros”. E sua verdade matou milhões para glória dos ditadores que se apavoram diante da livre imprensa.
Quinta, 20 Outubro 2005 22:00

Considerações Sobre o Referendo

Quando o Estado é democrático, o povo soberano cede aos que operam nos três poderes, o monopólio da força física, o que legitima o seu uso pelas autoridades.Quando o Estado é democrático, o povo soberano cede aos que operam nos três poderes - simples representantes do mesmo povo - o monopólio da força física, o que legitima o seu uso pelas autoridades. "Autoridade" é quem recebe licença popular. Semelhante autorização é simultânea a duas outras, a da norma jurídica e a que ordena a extração de impostos. Mas o povo não cede a soberania aos que o representam ("todo poder emana do povo e em seu nome será exercido"). Ele não pode passar aos seus funcionários (é o termo para definir o presidente da República e o vereador) o monopólio absoluto das armas.

As milicias são aceitas, da Grécia até hoje. Se um país perde a guerra (usou a força de modo incorreto), o povo deve ter armas para se defender, direito inalienável. Mesmo que no referendo a maioria apoie a lei em debate, o princípio da auto-defesa é válido e o "sim," abuso da maioria. Quem imagina que o direito às armas é individual inverte o princípio democrático. Este afirma limites para o poder dos governantes, que podem normatizar o uso da arma, punir quem as usa para desobedecer a lei, cobrar impostos dos fabricantes etc. Se o Estado tivesse o direito de proibir armas, mesmo com o consentimento da maioria, seria legítimo e legal abolir o direito de auto-defesa. Até Hobbes, apologista do governo absoluto, reconhece aquele direito. A excusa da não destreza técnica dos usuários civis no manejo das armas, supõe um desvio lógico. O treino pode ser conseguido, mas o principio é vigente ou não. E o princípio democrático enuncia que o cidadão pode usar armas.

É possível que pessoas, grupos, partidos ou igrejas defendam um Estado que açambarque os direitos do povo soberano. Mas sua propaganda deve exigir a tutela da plebe e a majestade, como em outros regimes como o aristocrático, que reserva as armas apenas para os nobres. A lei submetida ao referendo não retira dos abastados os exércitos particulares, com o nome de "Serviços de Segurança". Os políticos contam com "seguranças" para se proteger. A lei do suposto desarmamento é iníqua e oposta à justiça. Outro argumento afirma que no Brasil as armas assassinam "por motivos fúteis". Quem conhece a nossa sociedade sabe que a dita "futilidade" tem causas profundas. No Brasil, a "honra" dos indivíduos pobres liga-se ao favor e à dependência em relação aos poderosos. Os estudos sobre a formação da sociedade brasileira, inclusive quanto ao uso de gente jovem para o narco-tráfico, mostram que os crimes "fúteis" são explicáveis por complexa rede de dominação social. Se os que matam por "honra" não tiverem armas de fogo, terão facas e outros instrumentos.

Tratando-se de meios letais, as estatísticas do trânsito brasileiro evidenciam verdadeiras guerras civis. O governo irá impor uma lei proibindo o uso de carros? E quem impedirá setores da policia de vender armas às quadrilhas? E quem impedirá o abuso das armas pela polícia? A tese que abandona o direito individual tem nome: totalitarismo. Este último matou algo em torno de seis milhões de pessoas nos campos de concentração. Quem o enfrentou? Os que, em Varsóvia, se levantaram com as armas que tinham (paus, pedras, punhos) contra o nazismo. No Brasil, a sementeira autoritária tem história e se transformou na "verdade" de que os indivíduos não possuem direitos. "O Estado não conhece direitos de indivíduos contra a coletividade. Os indivíduos não têm direitos, têm deveres! Os direitos pertencem à coletividade!" (Getúlio Vargas, Discurso de Primeiro de Maio, 1938).

Medidas contra a violência? Menor concentração de renda, mais recursos na educação das massas para a ciência e tecnologias de ponta e saúde pública. Modificação do modus operandi político (acabando com o foro privilegiado dos políticos, que mantêm os costumes dos coronéis etc.). Mas tudo isso requer coragem dos governantes. Atenuar o superavit primário seria louvável. É mais suave o caminho da covardia, arrancar impostos de assalariados e fornecer benesses a banqueiros. É fácil arrancar armas do cidadão que tem nome e endereço e paga impostos (e no Brasil, a compra de uma caixa de fósforos gera taxas, o pobre sendo o mais lesado). Se o intento fosse discutir com a cidadania a lei que segue para referendo, fosse imitada a Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Esta editou um Código das Águas exemplar para o mundo após ouvir as populações, os técnicos universitários, os juristas. Se algo assim tivesse sido feito, seguindo-se um plebiscito, haveria ilegitimidade menor na lei de desarmanento, que resulta de um golpe de Estado, mais um dos muitos cometidos pelos governos brasileiros, como nos "planos econômicos", quando a população nunca foi ouvida. Gabriel Naudé, o autor do primeiro livro sobre o golpe de Estado (Considerações Políticas sobre o golpe de Estado, 1639), diz que a sua essência encontra-se na surpresa: depois que ele é dado, o povo se pronuncia. Como no próximo referendo.
Quarta, 12 Outubro 2005 21:00

Cidadão Honesto Desarmado

Em questões éticas ou políticas, honesto é assumir atitude própria, presa ao exame dos fatos e dos princípios universais.

Em questões éticas ou políticas, honesto é assumir atitude própria, presa ao exame dos fatos e dos princípios universais. Lastimável - e muito -, no Brasil de nossos tempos a reiteração dos lugares comuns e dos truques fraudulentos usados pelo governo petista para mergulhar o País na aventura do Estado forte, que açambarca os direitos da cidadania. O pior exemplo tem origem no Chefe do Estado. Em artigo de jornal, o escritor da presidência comete algo inacreditável (no Estado democrático de direito): "Sei que algumas pessoas, peritas em armamento, consideram a vedação ao porte uma ofensa a seu direito individual. Essas pessoas, contudo, são exceções e a lei não é feita para as exceções. Todos os países do mundo admitem restrições aos direitos individuais quando seu exercício pode colocar em risco os direitos ou a vida de terceiros.

O direito ilimitado por excelência é o direito de opinião" (Folha de São Paulo, 9/10/2005). Embora o presidente ocasional não saiba escrever nem ler com destreza, o secreto redator retoma uma "idéia" antiga e totalitária do pai do povo: "Acho que a liberdade individual está subordinada à liberdade coletiva. Na medida em que você cria parâmetros aceitos pela coletividade, o individualismo desaparece. Ou seja, não há razão para a defesa da liberdade individual. O que você precisa é criar mecanismos para que a grande maioria da comunidade possa participar das decisões". (Palavras da mesma pessoa que hoje preside a república, na Folha de São Paulo, naquela data (1986), relutante defensora da luta armada.

O presidente não gosta de ler e o exercício do direito e da lógica passam longe de suas arengas. O escritor fantasma que o serve, no entanto, antes de publicar artigos de enorme responsabilidade pública, deveria consultar juristas e lógicos. Claro, se o alvo do seu texto consistisse em defender a democracia. Não é o caso do aranzel publicado. Nele, o indivíduo deve curvar-se ao coletivo. Este último, como não tem personalidade própria (nem o governante, nem o seu escritor fantasma mostram leitura de Hobbes, mas neste ponto situa-se a base mesma do Leviatã), é personificado pelo presidente e demais "autoridades". Assim, o truque primário de reduzir direito universal e um princípio à reivindicação de "algumas pessoas", nega a amplitude da lei, transforma os que exigem respeito pela Constituição em "exceções".

Bem na linha de Hobbes, mas sem ter consciência (se abrir livros é impossível para o presidente e seus acólitos, imaginem esmiuçar volumes do ardiloso defensor do arbitrio!). A escrita de Hobbes não combina com Zeca Pagodinho que, sabemos, é o grande mestre da filosofia e do direito que regem o Planalto. Chefe de Estado e seu escriba só permitem as liberdades públicas no "direito de opinião", que não se traduz em leis, atos e fatos. Um direito que não é um direito. O poder, pelo menos, constata a loucura de arrancar o pensamento das pessoas, façanha tentada sem sucesso pelos totalitarismos pretéritos.

O presidente insulta os contrários ao "desarmamento" (desarmamento enganoso, porque os ricos e os políticos terão os seus exércitos de "seguranças" armados) e publica sua opinião sobre o referendo. Ele tem o direito de opinar. Mas convocado um referendo, todo o poder estatal, incluindo o governo, torna-se magistrado. O presidente representa todos os brasileiros e tem o dever de acatar a opinião de todos e de não se pronunciar antes das urnas. O "artigo" citado é ato de guerra contra os que discordam da política governamental. Nele, se afirma sem provas idôneas que a culpa da violência encontra-se nos que defendem o porte de armas para auto-defesa. Estivéssemos num país que respeita as leis, o presidente responderia pela calúnia contra uma parte considerável da cidadania. A atitude presidencial seria apenas hilária se não definisse o destino de seres humanos, como no referendo convocado para validar a lei imposta no Congresso com o modus operandi habitual, delatado por Roberto Jefferson, o companheiro do presidente, a quem este último daria um cheque em branco.

Não confio em Jefferson e tenho certeza de que ser contra desarmamento é seguir a doutrina mais antiga do mundo democrático e do ensino cristão. Nas Revoluções inglesa, norte-americana e francesa, sem as quais não conheceríamos direitos humanos, a prerrogativa do particular possuir armas é sagrada. Tomás de Aquino reconhece o direito à defesa própria (Summa, IIa IIae q. 64 a. 7). Prefiro aqueles movimentos e Tomás de Aquino, em vez da hipocrisia bem pensante que entrega os cidadãos aos fora da lei e aos donos do poder, os quais não têm coragem e meios para enfrentá-los. Na lógica de nossos governos, é mais seguro arrancar impostos, trair a confiança, impedir o armamento dos cidadãos honestos, com endereço e lugar de trabalho conhecidos. Não existe, para esse método, outro nome senão covardia.

Segunda, 03 Outubro 2005 21:00

O PT Foi Partido

As preocupações dos que analisam o Estado encontram-se nos partidos políticosAs preocupações dos que analisam o Estado encontram-se nos partidos políticos. As reformas propostas no Parlamento trazem a marca da economia, como se a corrupção fosse ligada apenas ao corredor onde escoam as finanças públicas e particulares. É inegável a força do vil metal no apodrecimento das instituições nacionais. De Valério (incluindo Buratti e amigos) ao Dr. Nicolau, passando pelas operações do Ministério Público e PF, todos os setores do Estado foram atingidos pelo dinheiro ilícito. A corrupção material, no entanto, não explica os eventos que a cidadania assiste na mídia.

Da Grécia à república de Roma, pensadores identificaram na vida social e política alguns fenômenos não presos à riqueza, mas às paixões. Filósofos juristas temiam os partidos políticos. Como o nome indica, o partido é uma ruptura no todo político e social. Quando um indivíduo assume atitude partidária, diziam gregos e latinos, ele perde a fidelidade ao povo e deixa de viver conforme o ideal clássico elogiado por Rousseau: “Um cidadão de Roma não era nem Caio, nem Lucio, era um romano”. Na modernidade, os partidos foram aceitos (na ordem democrática), mas sempre um deles pretendeu excluir os demais, durando a sua ditadura o tempo garantido pela eficácia na reunião das massas ou produtividade econômica. Os jacobinos, na Revolução Francesa, duraram o tempo do Terror, durante o qual perderam apoio das multidões e dos ricos. Mas quiseram banir os demais partidos. Os “honestos” não faziam concessões aos adversários, chegaram guilhotinar Camille Desmoulins (5/4/1794) pela “traição” de admitir a liberdade de pensamento, a diversidade dos partidos. “Deveis punir não apenas os traidores, mas os próprios indiferentes; deveis punir todos os passivos na República e que nada fazem por ela: pois, desde que o povo francês manifestou sua vontade, tudo o que lhe é oposto está fora do soberano; tudo o que está fora do soberano é inimigo” (Saint Just).

Uma análise terrível do pensamento político encontra-se na Fenomenologia do Espirito de Hegel. Ao chegar ao poder, os jacobinos desejaram reinar sozinhos. Quem não estivesse no seu partido seria suspeito. E os suspeitos deveriam morrer. O terror foi o instrumento dessa política que extermina as diferenças. A morte da alteridade, diz Hegel, tornou-se banal, “sem maior significado do que cortar uma cabeça de repolho ou de engolir uma gota d’agua”. Uma facção é um partido no partido. Ali, começa a exclusão moral dos adversários. Quando chega ao poder, se julga preciso, ela assassina os líderes e militantes das tendências opostas. Depois, segue para o extermínio dos que resistem ao seu mando na sociedade.

Assim ocorreu com o Nacional-Socialismo. Nutrido por juristas como Carl Schmitt, os nazistas assumiram a tese de que “a essência do político reside no conflito extremo, até a morte física de um homem. A política é vista em função de um perigo interno e externo”. Tais frases de Yves Charles Zarka, um dos mais relevante filósofos políticos de nossos dias (Cf. Un détail nazi dans la pensée de Carl Schmitt, PUF, 2005) são reforçadas por Franz Neumann, citado pelo mesmo Zarka: a política nazista “é uma relação de amigo contra inimigo. Em última análise, o inimigo é todo aquele deve ser exterminado físicamente. Todo relacionamento humano pode tornar-se político neste sentido, porque todo adversário pode se transformar em inimigo suscetível de ser eliminado físicamente”. O mesmo ocorreu com o poderio stalinista. As facções que se digladiavam no Partido foram eliminadas moral e fisicamente, sine ira et studio, das células à direção superior, resultando nos Processos de Moscou e no Gulag. Enquanto os nazistas fizeram sua estréia com seus companheiros da SA, assassinados em grupo, os donos do proletariado mataram seus pares (William Waack prova tais atos lancinantes em seu livro Camaradas, Companhia das Letras, 2000) e depois seguiram para o assassinato de milhões.

A noção da política como luta mortal contra os “inimigos” internos e externos instalou-se nas mentes de muitos petistas. Eles falam de “golpe” e de “elites” para indicar os seus inimigos. Realistas em política (“é preciso sujar as mãos, não fazemos omeletes sem quebrar os ovos”), e como se entregaram à elite financeira e à corrupção (o que introduz o banditismo na política, conforme a descrição genial do fenômeno escrito por Karl Marx no 18 Brumário), os líderes do “campo majoritário” no PT, uma facção truculenta, não recusou o costume de matar moralmente seus oponentes. No caso de Celso Daniel eles tentaram intimidar o Ministério Público e a imprensa, para que uma versão que lhes era favorável fosse a definitiva. Mesmo que não tenham chegado aos extremos de seus ancestrais stalinistas, sua arrogância e fuga da verdade mostra que eles pensam os seus adversários como candidatos à morte, espiritual ou física. Resultado: homens partidos, partidos, partidos…
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