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Roberto Romano

Roberto Romano

Roberto Romano da Silva é Professor titular de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professor de Ética, também pela Unicamp. Doutor em Filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris e membro do Instituto de Filosofia e de Ciências Humanas da Unicamp, é autor dos livros "Brasil, Igreja contra Estado", de 1979, "Copo e Cristal, Marx Romântico", de 1985, e "Conservadorismo Romântico", de 1997.

Sábado, 10 Março 2007 21:00

Feras Sem Coração Seguem Leis?

Um problema que atormenta os estadistas verdadeiros, os que se preocupam com a sorte de sua gente - tais pessoas são raras - é a difícil obediência às leis.

Um problema que atormenta os estadistas verdadeiros, os que se preocupam com a sorte de sua gente - tais pessoas são raras - é a difícil obediência às leis. Já no Velho Testamento e no Código de Hamurabi, surge o imperativo ético e jurídico : “Extirparás o Mal do teu meio”. Todo governante ou cidadão é obrigado a lutar contra os assassinatos, os roubos, a hipocrisia, a má fé, as traições. Ninguém pode se desculpar, jogando a responsabilidade sobre o rei, os sacerdotes, os juízes. Por tal motivo, ocorre algo nas ordenações legais arcaicas, considerado cruel nos tempos modernos: pagavam pelo crime de um familiar todo o clan ou mesmo o povo inteiro.

Com a irrupção dos indivíduos na arena política, religiosa e jurídica (alguns dizem ter sido este um invento de Sócrates, outros de Jesus e mesmo de Paulo) a responsabilidade pelos crimes passou a ser encarada em duas frentes, a coletiva e a pessoal. Os erros são imputados ao indivíduo ou a um grupo, até mesmo a um coletivo, conforme a intenção, motivo, técnica empregada, maior ou menor ódio nos atos, cumplicidades em vários matizes. Restou o imperativo que se repete a cada instante: ninguém pode alegar desconhecimento da lei, ninguém pode alegar a própria torpeza para fugir das consequências de seus atos. Uma coisa, no entanto, é conhecer a lei. Outra, obedecê-la. Mesmo juristas capazes de perceber, nas vírgulas de um código penal, o certo e o errado, podem efetivar coisas assustadoras. Conhecimento e vontade não se unem com facilidade. Para a obediência legal, o saber e o querer devem ser desenvolvidos, no sentido do bem.

Platão tinha consciência desse ponto, pois ensinava que as leis escritas podem ser lidas e esquecidas pelos indíviduos e povos. A educação, no seu entender, era estratégica para evitar o desconhecimento e o olvido dos ordenamentos. Usando a metáfora tecnológica, ele diz que é preciso “tingir as almas com a tintura das leis”. Se um jovem apenas lê o texto legal, ou escuta alguém enunciá-lo oralmente, ele o esquece, diz ainda Platão, como os indivíduos que bronzeiam a pele na praia. O bronzeado logo desaparece. Assim também a lei. É preciso que elas sejam impressas na alma dos cidadãos. Se isto ocorre, eles obedecem não a algo externo (a polícia, o juíz, o professor, o pai, o governante) mas a si mesmos. A obediência, agora, significa fidelidade à própria mente e coração. Antes dessa unidade é inevitável que, para impôr obediência, seja preciso usar a força física externa à alma. Quanto menor obediência interior à lei - ou seja, quanto menos educação da inteligência e da vontade - mais violações existem, mais força física é requerida.

Rousseau e Kant copiam a noção platônica da obediência às leis. Rousseau proclama no capítulo sobre as leis (uso os manuscritos editados por Vaughn): “o único estudo conveniente para um bom povo é o das leis. É preciso que ele as medite sem parar, para observá-las, mesmo para corrigí-las, com as precauções que exige um assunto desta relevância, quando a necessidade é imperiosa e bem conhecida. Todo Estado no qual existem mais leis do é possível conter na memória dos cidadãos é péssimamente constituído; e todo homem que não souber de cor as leis de seu país é péssimo cidadão; assim Licurgo desejou escrever as suas leis apenas no coração dos espartanos”. A nota de Rousseau é elucidativa: “Um lacedemônio, interrogado por certos estrangeiro sob a pena aplicada por Licurgo aos parricidas, respondeu que os assassinos de seus pais deveriam fazer pastar um boi do cume do monte Tegeta, de modo que o animal pudesse beber nas águas do rio Eurotas. ‘Como’, gritou o estrangeiro, ‘seria possível achar um tal boi?’ - ‘Mais facilmente’, replicou o lacedemônio, ‘do que um parricida em Esparta’. O terror pode conter os celerados; mas nunca é pelos grandes crimes que começa a corrupção do povo; para prevenir esses começos, é preciso empregar toda a força das leis”.

No Brasil, os próprios legisladores debocham das leis e as burlam, absolvem seus pares improbos e ostentam arrogante foro privilegiado; uma pesquisa da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) mostra que 46,8% dos juízes por ela congregados considera o Supremo Tribunal Federal ruim, ou muito ruim, no quesito agilidade; a instrução pública é apenas um gordo conjunto de cargos, com imensas verbas para acertos políticos; a propaganda ensina a esperteza e não a confiança nos outros. É difícil que a lei seja gravada, em nossa terra, no coração das pessoas. Resulta a selvageria dos particulares, abonada pela selvageria dos que dominam o Estado. Estamos, portanto, nos limites do reino natural onde o homem é lobo do homem. Que ninguém lamente a força, único remédio, embora ineficaz, quando pessoas como os assassinos do Rio esquartejam uma criança em plena luz do dia, diante de todos. E a platéia cúmplice dança e bebe num bacanal nojento, a folia de Momo. Assim, só pode existir olvido das leis, sem obediência. Feras ativas ou passivas não têm intelecto ou coração.

Segunda, 05 Fevereiro 2007 22:00

Crise no Ensino do Direito e Filosofia

Sem Kant ou Fichte toda uma corrente poderosa de doutrina jurídica, o pensamento de Hans Kelsen, por exemplo, não chegaria a existir.

A literatura testemunha a importante presença de advogados na defesa dos direitos. Um episódio que marcou a minha alma encontra-se em Graciliano Ramos, nas Memórias do Cárcere. A cena rápida resume a vida política nacional da época (e o que depois de 1964 ocorreu em nossa pátria) com simplicidade. Um advogado é preso no quartel. Na entrada, ele ainda acredita em códigos legais que o protegem. Arrogante, se imagina possuidor de garantias no exercício da profissão. No tempo em que atravessa o terreno interno, submetido à força física dos fardados, perde crenças e esperanças que dele faziam sujeito superior, apto a intermediar o nexo entre pessoas comuns e a lei. Ele se percebe humano como os outros submetidos à brutalidade ditatorial.

As páginas de Graciliano, eu as tinha lido na juventude. E não percebera, com os meus 16 anos, toda a sua gravidade. As reli na cela 7 do Presídio Tiradentes, quando fui acusado de subverter a ordem. Em mais de um ano naquela moradia, tive a assistência digna e competente do Dr. Mário Simas, pessoa humilde e sem afetações. Ele percebeu o perigo da hora e o quanto era preciso para libertar seus clientes. Com ele, aumentou a minha admiração pelos advogados, admiração que também vinha de outros profissionais presos comigo, como o agora juiz Américo Lacombe. Sempre me curvei perante sábios perseguidos pelos autoritários: Evandro Lins e Silva, Hermes Lima, Sobral Pinto. A lista é imensa. Aqueles vultos foram tidos pela nossa geração como paradigmas de altivez e patriotismo ilustrado. No rol, incluo o venerável Goffredo Telles Junior, corajoso redator da Carta aos Brasileiros. Durante o curso filosófico, da graduação ao doutorado, privilegiei os pensadores que se preocupavam com a justiça e o direito, de Platão aos nossos dias. Isto serviu muito na escrita de minha tese de doutorado em Paris. Nela, analiso os complexos elos entre Igreja e poder no Brasil.

É o respeito máximo que nutro pelo direito que me levou ao convívio com advogados, juízes, promotores em plano nacional e internacional. Participar de eventos onde são debatidos problemas jurídicos e políticos é para mim oportunidade excelente de aprender com os que militam na área. Nunca recuso convites de magistrados e demais operadores do direito. A reiteração dos convites (para 2007 aceitei 4 deles) trazidos pelo setor, me indica que sou ouvido com algum respeito naqueles âmbitos. Textos meus são publicados ou citados em livros de reflexão sobre a ética e a filosofia do direito.

Tal acatamento mútuo levou-me a auxiliar movimentos em favor da livre ação de advogados, contra autoritarismos do governo, sobretudo nos últimos tempos. Os que desejam informações sobre tal ponto, podem ler artigos meus como Em defesa da livre advocacia no Brasil (Folha de São Paulo 15/7/2005, republicado no site do Instituto dos Advogados de São Paulo - http://iasp.org.br/), ou abrir as páginas do Jornal do Advogado da OAB/São Paulo, na edição de outubro de 2005. Alí, em longa entrevista, manifesto pleno apoio aos que lutam pelos direitos em nosso país.

O trato com o setor deu-me alguns conhecimentos sobre a erudição e a prudência mantida por boa parte dos que militam na advocacia. O primeiro conhecimento é que muitos advogados excelentes buscam saberes que ajudem no aprimoramento de seu campo. Estes abrem-se ao debate e às críticas, como em todo trato acadêmico digno deste nome. Outros, no entanto, passeiam arrogância exatamente quando exibem triste prática de ignoratio elenchi. Imaginando seu campo inexpugnável pelos "leigos" , permitem a si mesmos decretar erros como se fossem verdades certas. E tomar evidências como problemáticas. É o que ocorre quando se afirma, sem pestanejar, que o ensino jurídico nos séculos 18 e 19 estava engatinhando. Sem Kant ou Fichte toda uma corrente poderosa de doutrina jurídica, o pensamento de Hans Kelsen, por exemplo, não chegaria a existir. Pensadores como Norberto Bobbio dedicaram anos de sua vida ao paciente estudo de Kant, nele procurando inspiração para resolver as aporias do mundo jurídico e político de hoje. Mas sem Kant ou Fichte, sequer os adversários de Kelsen, como Carl Schmitt, encontrariam maneiras de formular suas propostas doutrinárias. Escritores decisivos para a nossa história estatal, do Padre Feijó a Miguel Reale, empregaram seu tempo na leitura de Kant.

É difícil argumentar contra pessoas que ignoram ser a história do direito tão antiga quanto a cultura na Grécia ou em Roma (cf. entre muitos, Gagarin M., e Cohen, D., : Ancient Greek Law, Cambridge, 2005) e que daquelas raízes surgiram as bases do ensino em Bolonha, por volta de mil anos atrás... Se no século 19 o ensino jurídico engatinhava, era um infante de dois mil anos, muito preguiçoso... Nos próximos artigos retomo a crise do ensino do direito e a história daquele ensino, analisando as universidades européias que nasceram no final da Idade Média, todas orgulhosas de seu ensino jurídico. Espero, naturalmente, não ser proibido por alguns sábios campineiros do setor...

Terça, 16 Janeiro 2007 22:00

Filosofia e Crise no Ensino do Direito

Caso o ensino do Direito fique preso em si mesmo, sem o trato com outros ângulos da cultura, ele será fragmentário, sem condições de ser aceito pelas demais áreas de pesquisa.

Apesar dos intelectuais que ajudaram a definir o direito democrático, o ensino jurídico não raro foi percebido de maneira negativa. Quando se tratou de instituir a Universidade de Berlim, vários projetos foram consultados. Embora a escolha tenha recaído sobre o plano de Humboldt, algumas propostas foram marcantes, dentre elas, a do jacobino Fichte, admirador da Revolução Francesa e seu propagandista na Alemanha. O autor, como seria inevitável num discípulo de Kant, enxerga a Faculdade de Direito de maneira negativa, na companhia da Medicina e Teologia. A maior reprovação às referidas escolas vem do fato de que elas se isolaram no interior do estudo acadêmico.

As três faculdades pretensamente superiores”, escreve Fichte, “teriam prosperado há bom tempo se, ao considerar sua verdadeira essência, elas tivessem reconhecido a si mesmas no todo coerente do saber e se, por conseguinte, não tivessem colocado a si mesmas, em se gloriando de sua necessidade prática e de seu favor junto à multidão, como uma realidade independente e eminente, mas pelo contrário se subordinassem a este conjunto coerente e, com a humildade que convém, tivessem reconhecido sua dependência. Na medida em que desprezaram as demais, foram desprezadas e os estudantes de outros domínios não tiveram nenhum conhecimento daquilo que elas desejavam possuir exclusivamente para si mesmas - foi então muito prejudicial tanto ao seu estudo quanto ao saber em geral na sua totalidade.” (Plano Dedutivo de um Estabelecimento de Ensino Superior).

Ao indicar a auto-suficiência da Faculdade de Direito, o seu isolamento das demais disciplinas científicas e humanísticas, Fichte apresenta o alvo ideal dos estudos jurídicos. “A matéria científica da jurisprudência é um capítulo da história e do modo pelo qual foi tratada até hoje, ela é apenas um fragmento desse capítulo. Ela deveria ser uma história da formação e do desenvolvimento do conceito de direito entre os homens, conceito do direito que, ele mesmo, independentemente desta história, enquanto soberano, não como servidor, já deveria ter sido descoberto pelo filosofar. Na perspectiva habitual, puramente prática (...) ela é a história desta formação do conceito nos países em que vivemos e no máximo, sob os romanos, e nisto ela é apenas um fragmento. Mas seu alvo prático último é formar o legislador e, neste ângulo, o capítulo inteiro poderia ser-lhe bem necessário. Pois embora o que deveria ser uma lei seja conhecido absolutamente a priori, no entanto a arte de descobrir a figura particular desta lei para cada época e adaptá-la a ela deveria exigir neste assunto a experiência da época, conhecida em sua totalidade”(Plano Dedutivo...).

A formação correta exige que o ensino do Direito não se limite a um fragmento teórico ou prático (estudar a jurisprudência ou o direito romano, de um lado, ou formar os “operadores do Direito”, de outro). O ensino deve abranger capítulos inteiros do livro onde foi escrita a história, livro que contém as ciências físicas, as matemáticas, e as humanidades. Caso o ensino do Direito fique preso em si mesmo, sem o trato com outros ângulos da cultura, ele será fragmentário, sem condições de ser aceito pelas demais áreas de pesquisa. Ele deve unir a tradição do Direito, o Direito romano, por exemplo, ao que se passa aqui e agora. O culto de uma lei ou conjunto de leis sem historicidade é vazio.

O ensino jurídico forma operadores do Direito e legisladores. Estas “são aplicações práticas da história. Assim, a jurisprudência tem como sua enciclopédia primeira a história, enquanto solo no qual repousa.(...) O preparo para a aplicação prática na vida cai fora do domínio da escola, e neste ponto seria preciso mandar os jovens para colégios de exercício, sob a vigilância dos quais - mas não sob a responsabilidade dos magistrados a quem seriam confiados - eles se preparassem para a futura administração dos assuntos”. Os estudos jurídicos seriam dirigidos por uma Comissão de enciclopedistas, encarregados pela formação prática, independemente da escola jurídica. Os currículos deveriam conter menor quantidade de matérias, visto que seria encorajado o princípio da pesquisa em união com o todo acadêmico.

O Direito foi visto com desdém pelos teóricos posteriores a Fichte. Schelling nele via só o elemento prático, sem elevá-lo ao conceito científico. Ele deveria ser exposto aos estudantes na medida em que era praticado nos assuntos particulares e públicos, diante dos tribunais. Seu estudo não poderia se mesclar à ciência, profanando-a. O Direito não poderia ser elevado à condição das outras ciências universitárias. O curso jurídico é visto com reticências depois de Kant. Nos dias atuais, responsáveis acadêmicos pretendem aperfeiçoá-lo com doses homeopáticas de filosofia (na melhor das hipóteses), abandonando a pesquisa tecnológica, biológica, física, química, humanística (e outras). Importa ler os que moldaram o pensamento científico e a cultura modernos. Alguns sustos são previsíveis...

Quinta, 28 Dezembro 2006 22:00

O Aparelhamento da Imprensa

Após a recondução do atual presidente ao Planalto, o país assiste um ataque ardiloso do Agitprop petista contra a imprensa.

Após a recondução do atual presidente ao Planalto, o país assiste um ataque ardiloso do Agitprop petista contra a imprensa. O último a se empenhar nesta batalha é o professor Kucinski (USP), conselheiro do poder petista. Ele exige que a Radiodrás assuma uma “narrativa nova” dos fatos ocorridos no primeiro mandato do governo angélico. A referida narrativa não poderia usar termos como “mensalão”, etc. É fantástico: depois dos “companheiros” tentarem desviar a opinião pública do que se passou na república, transformando por eufemismo o caixa em “recursos não contabilizados” e quejandos, o amigo presidencial quer um passo a mais dos meios de comunicação liderados pela Radiobrás. Ele ordena que palavras sejam apagadas, como apagadas foram as fotos de Trotsky ao lado de Lenine, na era de ouro estalinista.

Vejamos um trecho estratégico de entrevista concedida na semana passada, pelo mesmo Kucinski, à Folha On Line. “Folha - Na sua opinião, como deveria ser a cobertura da Radiobrás do episódio do mensalão? - Kucinski - Uma empresa com a responsabilidade de pertencer ao aparelho de Estado, tida como referência pelo resto da imprensa e pela imprensa estrangeira, não poderia ter aderido à narrativa de ilações, insinuações e de presunção de culpa, nem a linguagem de mensalão e mensaleiros, adotadas pela grande imprensa; também deve evitar tratamento sensacionalista, não só nesse caso, em todos os temas e situações. Deveria respeitar os princípios básicos do jornalismo, que a grande imprensa não respeitou: ouvir sempre o outro lado, em especial os acusados, não prejulgar, ser objeTiva, ponderada e isenta, atendo-se o mais possível aos fatos comprovados.”

O repertório teórico dos petistas é pequeno e não é preciso muita erudição para chegar às suas fontes. No trecho acima, o termo consagrado na escola do oficialismo marxista diz tudo. A noção de “aparelho” tem base leninista, basta ter lido O Estado e a Revolução e Que fazer? Trata-se de um resquício do paradigma mecânico, tal como empregado na política desde o século 17 (leia-se Hobbes). Aquele modelo perdeu força nos séculos 18 e 19 devido ao triunfo do pensamento vitalista, que forneceu à política a metáfora exemplar de organismo. Lenine uniu os pressupostos orgânicos à imagética mecânica anterior, incorporou as “intuições geniais” de Hegel, lido por ele no exílio inglês. Para maiores informações, consultar Guy Planty Bonjour : Hegel en Russie (Martinus Nijhoff Ed.) Desde então, a esquerda autoritária alimentou-se tanto do imaginário orgânico quanto do mecânico. É o que explica a idéia que define a ditadura do proletariado com o controle do aparelho de Estado pela vanguarda revolucionária. Tal controle seria feito em nome do proletariado e contra ele porque, Lenine dixit, os operários não iriam além das reivindicações econômicas e salariais. Os quadros da classe média, com seus intelectos privilegiados, dariam “de fora” a consciência política ao movimento revolucionário, para destruir a velha máquina estatal.

Note-se a linguagem. Nos grupos armados brasileiros dos anos sessenta as casas usadas pelos militantes chamavam-se “aparelhos”. Tratava-se de mover os pequenos aparelhos (note-se a ambiguidade lógica e imagética) da organização revolucionária contra o aparelho do Estado burguês. O jargão mecânico foi ampliado por Louis Althusser e seus pares, com a figura dos “aparelhos ideológicos de Estado”. Houve quem, no Brasil, afirmasse que a Igreja Católica seria um desses aparelhos. Analisei esta tolice em meu livro Brasil, Igreja contra Estado.

Depois disso, um monte de sectários assumiu tal “verdade” e a transformou em teses de doutoramento, mestrado, etc. A garantia teórica vinha dos rasos manuais de Marta Harnecker, cujos esquemas eram mais abstratos e desprovidos de pensamento do que os textos de Althusser. Na cabeça de quem rezava pelas cartilhas ideológicas, era preciso desmontar os aparelhos ideológicos de Estado como a escola, as igrejas, e outros, para ali impor a lógica dos “novos aparelhos”, os do Partido. A imprensa foi entendida como “aparelho ideológico de Estado”, entre vários outros, como o religioso, o jurídico, o político, o sindical, o que domina os esportes, etc. Pode-se entender, pois, o que diz Kucinski. Trata-se de destruir o velho aparelho da imprensa trocando-o pelo novo, o revolucionário. Também fica mais clara a idéia de uma “narrativa” nova para substituir a antiga, própria da burguesia. Aparelho novo precisa de combustível novo. E tal combustível ideológico é produzido com o monopólio do PT, a Petrobrás do espírito. O nome da nova aparelhagem estatal seria Conselho de Jornalismo. E a narrativa anunciada resultaria da ética revolucionária. Alguns críticos do totalitarismo já a denominaram, não por acaso, “novilingua”. Ela opera desde o começo do governo petista.

Segunda, 25 Setembro 2006 21:00

Sofisma e Pseudofilia: O Lobo Petista

Os aplausos exibidos pelo candidato Luis Inácio da Silva em seu programa eleitoral são falsos como a ética que seu partido defendeu, a transparência sempre exigida pelos “militantes” e afastada no atual governo.

Os aplausos exibidos pelo candidato Luis Inácio da Silva em seu programa eleitoral são falsos como a ética que seu partido defendeu, a transparência sempre exigida pelos “militantes” e afastada no atual governo. As aparências daquela agremiação partidária mostram hoje seu lado puramente propagandístico. Em ideologia, ética, programa, governo, os dirigentes do partido “dos trabalhadores” repetem uma forte e imensa fraude, manipulam imagens e sons para mostrar um governo cuja melhor definição encontra-se na palavra inglesa: fake. Note-se que os aplausos foram roubados: eles se dirigiam ao Secretário da ONU que deixa o cargo. Em eventos semelhantes, mesmo dirigentes medíocres daquele organismo internacional recebem ovações, porque na verdade o alvo das homenagens é a própria ONU. Seria razoável colocar no programa do PT encômios ao presidente. Afinal, raciocínio similar ao empregado para a Organização Internacional pode ser feito: homenageia-se o governante do país, não tanto a figura que o representa no momento. Mas a fome de poder e a pseudofilia petista ignoram limites. Trata-se daquela paixão da alma que os gregos denominavam hybris, a desmesura que leva à violência, à perseguição dos opositores, à tirania.

O sofista denunciado por Platão, unido ao demagogo, manipula a arte das aparências para ganhar dinheiro e poder. O chamado “escândalo” do dossiê comprado por milhões aos Vedoin para o PT mostra a técnica manipuladora em ato. O principal é que tal dossiê continha ataques a todos os partidos, inclusive o mesmo PT. Ou seja: ao entregar à revista Isto é os papeluchos criminosos, Vedoin - com a cumplicidade petista - selecionou o material, deixou apenas as insinuações contrárias a José Serra. Fraude dentro da fraude. Voltando aos aplausos. Em programas de auditório manipulados, sempre que o ator ou canastrão termina sua fala alguém exibe um cartaz exigindo aprovação da platéia. Na falta de audiência real, o manipulador petista foi direto ao ponto: arrancou palmas de outra pessoa e as atribuiu ao presidente. Na extinta União Soviética os funcionários do Partido eram obrigados a ovacionar durante horas os discursos imbecilizantes de Stalin e de seus camaradas. No fundo das salas, faxineiros mantinham baldes de água fria para aliviar as mãos dos sectários por conveniência ou convicção. Na alma petista não há espaço para a escuta das críticas. Ela exige aplausos, mesmo quando mete a mão em dejetos. Se falham as palmas, elas são produzidas. Daí a fraude cometida contra as imagens e sons divulgados pela ONU. Prestidigitação é um ingrediente poderoso da escalada petista que garante ao seu candidato a preferência dos que recebem esmolas pagas com dinheiro público.

Outra característica de sofistas e demagogos: eles preparam a via do tirano. De tanto adular os ouvidos dos eleitores, os técnicos da empulhação produzem surdos voluntários. Quando o povo não mais escuta as advertências de perigo, o tirano se instala, abolindo a democracia. Na tradição que aponta similaridades entre políticos e animais, Platão insiste em mostrar que o tirano é o ente humano mais próximo do lobo feroz e faminto. Mas o bicho causa medo aos indivíduos sadios. O lobo não tem a capacidade, exibida pela serpente, de hipnotizar as vítimas. O tirano precisa dos sofistas e demagogos: eles secretam o veneno do descuido, da surdez aos argumentos. O PT, como seus predecessores totalitários, surgiu de uma esperta, eficaz e intencional operação de marketing. A sua face ética no pretérito era fake e também os seus programas (as “bravatas”). Tudo no universo do petismo cheira a manipulação sofística e demagógica.

Nos Federalists Papers, Jefferson diz que o povo é o único censor dos governos. Cabe-lhe recordar aos governantes “os verdadeiros princípios das instituições”. Desde que o povo soberano seja indiferente aos citados princípios, “você, eu e o Congresso, e Assembléias, juízes e governadores, seremos transformados em lobos”. A progaganda petista conseguiu, até agora, tornar a maioria dos que pretendem eleger o presidente, surda e alheia aos princípios éticos e morais. Ovelhas preparam o parto do lobo. Se este último as devorar, nada deve ser cobrado dele, mas delas e dos partidos de oposição que não assumiram, em tempo certo, a tarefa de indicar o nascimento da alcatéia. Os ricos (sobretudo os banqueiros) estão salvos e destinam esmolas aos pobres. O elo entre os dois segmentos contraditórios chama-se PT. Karl Marx dizia que a diferença entre o proletariado romano e o moderno estava no fato de que o primeiro vivia da sociedade, enquanto o segundo a sustentaria. Este foi a grande façanha petista: levar a república aos idos da Roma corrupta, na qual com farinha (pão…) e encenações espetaculares (circo…) os tiranos mantinham o seu poder. Até que um dia a “cidade eterna” chegou à máxima abjeção e um governante assim eleito escolheu seu cavalo Incitatus como Senador. É para tal fim que ruma a política nacional. Boas eleições para todos.

Domingo, 10 Setembro 2006 21:00

Dulce Bellum Inexpertis

É injusto chamar a guerra de fato animalesco. As feras combatem com armas que lhes deu a natureza. Os homens usam armas contrárias à natureza, "imaginadas por uma arte diabólica".

O título é extraído de um escrito publicado por Erasmo de Roterdam. Inimigo da guerra, o humanista clamou até o último alento contra o fato bélico. Se quisermos traduzir a frase, devemos alongar os seus termos, tristeza de nossa língua, mais analítica do que o latim. O título em português seria o seguinte: "A guerra é bela, para quem dela não teve a experiência" . Contrário às lutas contra os turcos e avesso às batalhas de conquista que enriqueciam e forneciam poder aos europeus de seu tempo, Erasmo diz que os cristãos produziram uma imagem dos árabes como horrendos, mas a máscara escabrosa cabia mais nos rostos espanhóis, lusitanos, ingleses, franceses e outros. A história sempre traz o artifício: os desonestos apontam a felonia alheia para agir com maior vileza. Mas não existe nem jamais existiu em campos como a política, a guerra, a religião, lobos maléficos e inocentes réplicas de chapeuzinho vermelho. O que não impede a tarefa de indicar quando chapeuzinho vermelho age como lobo, e vice-versa.

Os franceses - inventores da palavra e maiores usuários da coisa nomeada - sabem o que significa o termo "Imagem de Epinal" . Trata-se de uma figura forçadamente otimista que ilustra apenas o lado bom da França, enquanto as qualidades estrangeiras são apagadas. Em sentido assim, tanto os que habitam o chamado "ocidente" quanto os que nasceram e vivem no "oriente" (sobretudo os árabes) usam e abusam da imagem de Epinal. O assassino, por definição, é o outro. Esta fantasmagoria em cinza e branco é necessária para jogar cabeças ingênuas nos combates guerreiros, em exércitos regulares ou grupos terroristas. E tudo é santificado com o nome de Deus. Não, os homens não se responsabilizam pela matança. Foi ordem divina... Tal blasfêmia, pensa Erasmo, chega ao ponto de atrbuir ao ser divino os ardis e práticas diabólicas empregados na guerra.

Quem na modernidade (nos dias de Erasmo e, infelizmente, nos nossos…) critica a guerra, diz o pensador, recebe estranheza e escárnio, sendo acusado de irreligião ou de heresia, "como se a guerra não fosse a coisa mais bandida e calamitosa. Seria importante saber qual gênio maléfico, qual flagelo, qual horror, qual Fúria dos infernos jogou um instinto tão bestial no coração humano" . Mesmo os gramáticos intuíram a essência da guerra. Esta teria como nome latino o de "bellum" , por antítese, porque nela nada seria bom ou belo. A guerra seria "bela" como as Fúrias seriam "Eumênides" .

É injusto chamar a guerra de fato animalesco. As feras combatem com armas que lhes deu a natureza. Os homens usam armas contrárias à natureza, "imaginadas por uma arte diabólica" . E para arrancar das bocas mentirosas dos governantes e religiosos os motivos "nobres" dos atos bélicos, Erasmo afirma que todos os males se infiltram "na vida humana com aparência falaciosa do bem" . Não é permitido invocar o divino, pensa Erasmo, para garantir um ato demoníaco, pois "se existe reino de Satanás, ele encontra-se na guerra" .

Quem arma emboscadas e invasões contra seu próximo entra na roda infernal e dela não sai incólume. Tomemos guerra entre Israel e o Hisbolá. De um lado, temos o desígnio dos guerrilheiros de usar escudos humanos no Líbano e jogar bombas sobre civis israelenses. De outro, a reação desmedida que tombou na armadilha dos terroristas. Como diz Erasmo, os males começam com fatos menores. O seqüestro de soldados recomeçou a guerra. O governo de Israel reconheceu que a eficácia contra o Hisbolá esteve longe de ser alcançada. Mas os estragos foram aterradores. No Hisbolá, o dirigente máximo diz-se arrependido do seqüestro pois não sabia as consequências daquele ato. Entre a ordem imprudente de ambos (para começar as batalhas) e as mães cobertas de sangue de seus filhos, não há crença religiosa ou política, razão de Estado ou causa que absolva os culpados.

Alega-se que os israelenses possuem armas atômicas e que eles uniram-se aos EUA para garantir seu território. São muitos os atentados ao direito internacional cometidos tanto pelos EUA quanto por Israel. Mas quando o povo judeu foi assassinado aos milhões, quando errava pelo mundo sem casa e sem direitos? E o que fizeram os árabes para acolher os seus primos segundo Abraão? Nada. E vários líderes cooperaram com os carrascos anti-semitas. O Irã nega o holocausto e ameaça jogar judeus ao mar. É errado dizer que só os judeus são culpados na situação atual. Se um indivíduo põe a faca no pescoço de outro, não espere afagos. Judeus e árabes conviviam sob a tolerância oficial do Estado brasileiro. Noto que o seu convívio está envenenado. Peço a Deus que atos de guerra não ocorram entre nós, como as bombas jogadas contra templos judaicos argentinos. Nenhum brasileiro merece a morte nesta luta. Seria bom lembrar o ponto para todos os que aqui foram recebidos de braços e corações abertos. Não transformem o Brasil, já cheio de problemas, em inferno bélico!

Sábado, 26 Agosto 2006 21:00

Fábula Brasileira

Sim, aqueles dias em que eles eram conhecidos como a quadrilha dos quarenta. Tristes horas.

Ambiente brilhante e imagens policrômicas, melodias moderadas e agradáveis de Gilberto Gil e Caetano. De vez em quando, pedaços de letras escritas por Chico Buarque, seguidas de sons instrumentais edulcorados. Nada de muitas palavras, sons em poucos tons. Meninos e meninas belíssimos servem quentão e pipoca aos presentes, para recordar os tempos heróicos vividos pelos que promovem a festa. Sim, aqueles dias em que eles eram conhecidos como a quadrilha dos quarenta. Tristes horas. Hoje eles são os donos do Brasil. Donos absolutos (é bom lembrar que “absoluto” significa “o que não tem nenhum laço”) de uma terra bendita, sem traumas e sem oposições desagradáveis. Em todos os cantos da sala imensa, figuras dos mártires cultuados pelo Estado maravilha: Delúbio Soares, José Genoino, Paulo Okamoto e outros de mesmo porte. Num canto especial do salão, icones dos que não foram aceitos no altar sublime: o inefável carequinha Valério (o nome recorda os mártires cristãos da Roma antiga), Ideli Salvati, Silvio Land Rover, Duda Mendonça. Num antro escuro, imagens dos demônios vencidos pela confraria dos bons dirigentes: Roberto Jefferson, sobretudo, mas também seres coletivos personificados como o Ministério Público, a Imprensa da elite, os intelectuais golpistas. Uma pressurosa mãe sussura ao filhinho travesso: “se você insiste em não mentir, chamo o Roberto Jefferson prá te assustar à noite. Ou então, chamo o MP pra te levar pro xilindró!”. E o menino verte xixi, com muito medo. Promete nunca mais dizer verdades. A mãe, fiel seguidora do PT o afaga, sorri e volta aos aplausos.

E quem é aplaudido? O microfone rompe a melodia embalsamadora do ambiente: “Vamos acolher de pé o senhor do Estado brasileiro, ex-república do Brasil, Sua Majestade o Excelentíssimo Senhor Lulinha Paz e Amor III, neto do Grande Lula e filho de Lulinha, o dono do maior conglomerado midiático da América. Sua Alteza foi escolhida em reunião secreta pelos nossos veteranos e disciplinados dirigentes, o Sr. Berzoini Filho, conde da Previdência, a Sra. Lurian Segunda, marquesa das ONGS, a Sra. Salvati terceira, duquesa de Santa Catarina, o Sr. Aécio Neves Segundo, barão das Minas Gerais, seguidos pelo Duque Luizinho e de outros personagens importantes como o visconde da CUT, o barão dos Bancários, o Marquês das Peruas e dos Transportes.”

No centro da imensa assembléia, sorri a imagem de trinta metros do Grande Benefactor, abençoando a distribuição de bondades aos pobres mortais. Sobre o retrato, o nome do Partido da Casa Real: PC. A polissemia agrada os ouvidos veteranos: ela recorda o melhor da era Collor, herdada pelos santos e o melhor da era Stalin. E PC ainda tem a vantagem de anunciar a essência da nova casa reinante: “Panem et Circencis”. Para dar o tom chique do quadro, abaixo do Benefactor vem o dístico das dinastias estrangeiras: “Honni soi qui mal y pense” e “Tel est mon bon plaisir”. Na convocatória para a entronização e a falação real do Companheiro, é citado o decreto real (de 2010) no qual Lula o Grande avisava à Nação que a salvara da turbulência eleitoral. E que também deixara de existir o tormento Judiciário. O Benefactor seria três em um: Executivo, Legislativo, Justiça. Em suas mãos benéficas o Estado não precisaria mais pensar. Tudo seria resolvido pelo Egocrata. Fato curioso: o decreto vinha referendado pelos antigos ocupantes dos abolidos poderes, além de conter o nome de todos da abolida oposição. O único pleito dos velhos adversários do Rei era o de receberem o título honorífico de “Fiel oposição de Sua Majestade”. Eles receberam medalhas no peito e aboliram siglas como PSDB, PFL, PMDB e outras. O entusiasmo percorreu os políticos nacionais: a política fora enterrada! Nomes de jornalistas e de universitários não faltaram ao excelso decreto.

Narram os historiadores oficiais da dinastia que o Benefactor, ao chegar ao Paraíso, reuniu os anjos, arcanjos, serafins e todos os santos, propondo democracia no céu, contra a elite antiga e atrasada que o governava. E comícios angélicos foram realizados nas paragens celestes. Até que o Grande Benefactor foi eleito senhor do Empírio. E acabou com a governança partilhada da arcaica Trindade, inaugurando o verdadeiro monoteísmo. O seu. Como se trata de versão histórica oficial, os maldosos de sempre, os que desejam na terra o retorno à maldita democracia, afirmam que, depois dos comícios, sob vaias, o Grande Benefactor foi acusado de plagiar uma idéia antiga, narrada por John Milton no “Paraíso Perdido”. Como fruto do golpe, o pretenso novo dono do Universo teria sido lançado no Pandemônio, quartel dos poderosos mundanos cheios de orgulho e de arrogância. Este modesto escrevinhador não garante se a verdade histórica encontra-se nos livros financiados pelas empresas estatais da nova dinastia, ou se está nos volumes editados clandestinamente pelos perigosos democratas elitistas. Só pode ele balançar a cabeça diante das duas versões e dizer, desalentado :”Se non è vero, è bene trovato”…

Domingo, 16 Julho 2006 21:00

Baderneiros e Excrementos

Aqueles indivíduos, cujos cérebros são imersos nos excrementos da alma, foram mantidos, até então, pelo governo petista, para efetivar atos de vandalismo.

"Dis, front blanc que Phébus tanna, /De combien de dollars se rente/PedroVelasquez, Habana;/Incague la mer de Sorrente. /Où vont les Cygnes par milliers ;/ Que tes Strophes soient des réclames…" (Rimbaud, Ce qu´on dit au poète à propos des fleurs). Os versos do poeta são precisos e francos. Tento traduzí-los com a ousadia trôpega que me é habitual: "Diga, testa alva que Febus amorenou,/Quantos dólares vale/Pedro Velasquez, Havana;/ Caga o mar de Sorrento./Para onde vão os cisnes aos milhares; /Que tuas estrofes sejam propaganda…" . O leitor cultivado não tem direito aos eufemismos hipócritas. Ele sabe perfeitamente que as palavras só têm sentido quando usadas para afirmar coisas de modo exato. Em tempos de linguagem covarde e "políticamente correta" (e, justo por isto, na maioria das vezes éticamente incorreta) o eufemismo impera no Brasil. É assim que roubo e caixa dois, quando praticados por líderes petistas, se transformaram em "recursos não contabilizados" . Orwell teria muito a aprender com os éticos aposentados, e hoje apenas cínicos, do Partido dos Trabalhadores.

Há uma saborosa expressão francesa sobre alguém que não teme falar o termo certo na hora aprazada: "il ne mache pas les mots" (ele não masca as palavras). Ou seja: enuncia o que deve, sem temor. Outra fórmula saborosa da lingua manipulada com destreza por Rabelais e por tantos outros artistas do verbo na França : "il n´a pas froid aux yeux" (ele não tem frio nos olhos), não pisca quando se trata de afirmar algo "desagradável" aos poderosos. Rabelais foi mestre da língua franca e livre, a de um povo inteligente e generoso que, ao lado do mais estrito respeito pela tradição, inovou muito o vocabulário decoroso do cristianismo. Basta ler o Gargantua, onde surge a mais hilária e correta definição dos confessores. Estes seriam os "mâchemerdes" do mundo. Os pecadores fazem "aquilo" e os padres os limpam… O século 17, dito clássico, censurou a lingua e os costumes, de modo a disciplinar elites e populacho, para que fosse bem obedecido o poder absoluto do Rei. Desde então, a lingua francesa perdeu a força que dela fez a mais encantadora torrente verbal da modernidade.

Volto aos palavrões. O verbo usado por Rimbaud, "incaguer" (transitivo, derivado do italiano "incacare" ) é conhecido desde 1552, época de Rabelais e da Renascença. Daí, passou para a nossa "inculta e bela" , sempre com o mesmo significado. Em francês ele designa "incomodar" (com o sinônimo, "emmerder" ) e por volta de 1561 passou a assumir o traço de "desprezar, tratar com desprezo" . Na lingua popular brasileira, alguém atoleimado, sem destreza mental ou digital, sempre comete algo passível de ser designado pelo vocábulo.

Os baderneiros que invadiram a Câmara Federal para intimidar deputados, senadores e, sobretudo, os "inimigos" da vida civil (a maioria que não aceita seus métodos e supostas doutrinas) prepararam com frieza metódica a sua intervenção. A fita gravada do encontro que mantiveram para ordenar o crime, mostra um deles, com voz boçal e fanatismo notório, arengando os seus pares sobre a relevância do grande feito a ser cumprido. Tratava-se, no seu entendimento, de levar o desgaste aos partidos da oposição, visto que o presidente da república, na dianteira das pesquisas eleitorais, estaria defecando e andando para tudo.

Aqueles indivíduos, cujos cérebros são imersos nos excrementos da alma, foram mantidos, até então, pelo governo petista, para efetivar atos de vandalismo. Entre outros "feitos" invadiram o Ministério da Fazenda, recebendo bençãos e dinheiros governamentais (ou seja, nossos). Covardes, souberam escolher agora a sua vítima certa: o Congresso nacional onde os seus companheiros de "ideologia" promoveram a maior expulsão de dejetos éticos da nossa história, com as absolvições dos mensaleiros e danças ridículas para comemorá-las. Aliás, devido à lama espalhada por eles no plenário da Câmara, vários deputados receberam de cidadãos enojados, envelopes com dejetos humanos mal cheirosos. Estava preparada a ação dos baderneiros: um símbolo nacional conspurcado por parlamentares indignos, só poderia mesmo servir como receptáculo dos excrementos humanos mantidos pelo Executivo da república. Como diz o "líder" Sua Excelência o presidente está….. E paro por aí.


Caro leitor: não me queira mal se uso as palavras certas. Como indiquei, Rabelais e Rimbaud, grandes escritores, empregaram os mesmos termos hoje reproduzidos na boca imunda dos terroristas que invadiram o Congresso. Só que nos franceses o palavrão tinha sentido ético. Tratava-se de criticar costumes fedorendos, cujo símile físico só poderia algo desagradável à narina. Quando os mesmos termos aparecem em bandidos pagos pelo governo para nos atemorizar, o significado expressa a essência do mesmo governo. Para falar de modo chic, o atual governo é uma bela maneira de "incaguer" , nada mais. PT, saudações.

Quarta, 21 Junho 2006 21:00

Gordura, Bebedeira, Caráter

A troca de insultos entre Lula e Ronaldo atinge planos delicados do mundo civil. Se o primeiro estivesse correto, Ronaldo seria, pela comilança, uma besta. Se o insinuado pelo segundo fosse verdade…

“Abandonar a moderação quando se come ou bebe é uma quebra do dever para com a nossa pessoa. Os vícios da comilança e da bebedeiras são bestiais e degradam o homem. Alguns deles estão além da natureza humana e não podem ser reconciliados com o caráter de uma pessoa. Pelos vícios bestiais o homem degrada a si mesmo e desce abaixo dos bichos…” (I. Kant)

O trecho kantiano, que cito segundo a tradução inglêsa (Lectures on Ethics, Hackett Ed., 1963, página 159) traz pistas para se entender algumas confusões ocorridas nos últimos tempos em nosso triste Brasil. Os leitores espertos já notaram, nas próprias linhas de Kant, o meu alvo inicial: a briga entre o peso de Ronaldo e a bebida de sua Excelência. As acusações trocadas pelos conhecidos personagens tocam em pontos delicadíssimos da moralidade individual e coletiva.

Os desejos humanos desconhecem cancelas. Justo por semelhante motivo surgem as piores tragédias. A saga dos átridas, na Grécia, partem de comilanças nas quais as fronteiras entre humanidade e selvageria são desrespeitadas. Percebendo Tiestes como traidor, Atreu convida o irmão, com extremo dolo, para um jantar. O cardápio traz os filhos de Tiestes. Acabada a janta, os restos das crianças foram exibidos ao pai atormentado que as devorou . Esta é a origem das mais belas e terríveis tragédias gregas, desenvolvidas em clima de comilança sem freios e em ambiente de embriaguez delirante. Não por acaso a tragédia e o deus Dionisios unem-se para ampliar o desespero humano que se afoga no vinho e estraçalha carnes e alma. Quem ignora medidas ao ingerir alimentos ou sugar o vinho, termina devorando os músculos, bebendo o sangue de suas próprias entranhas. É o que se passou com Agamenon que sacrificou sua filha Ifigênia para se garantir no poder. Se não a devora físicamente, ele inagura a história política ocidental, um açougue como diz o filósofo Hegel.

Os limites entre a humanidade e a selvageria são tênues. Os homens só deixam a ferocidade permanente pela educação, quando começam a respeitar os direitos mútuos. Mas a cultura espiritual, resultado do processo educativo, está permanentemente ameaçada pela vontade que desconhece limites. O desejo de tudo comer, tudo beber, tudo controlar, encontra-se na gênese da violência política e social. Ainda segundo Hegel, “a história universal é o domínio da violência desenfreada com que se manifesta a vontade natural”. Contra esta tendência, apenas a educação oferece alguma tregua, alguma paz. “A educação”, diz Hegel, forma os indivíduos e povos “para a liberdade subjetiva”, porque domestica a fera que habita corpos e almas selvagens: “Die Weltgeschichte ist die Zucht von der Unbändifkeit des natürlichen Willens zum Allgemeinen und zur subkjektiven Freiheit” (“Lições sobre a Filosofia da História”). O termo principal nessas linhas é a palavra alemã “Zucht”. Ela conota educação, disciplina, cultivo, e repressão da animalidade humana. Quem não é forçado, pela educação, a respeitar os limites entre o humano e o feroz, ignora a moral, a ética, as leis, os costumes sadios. O beberrão e o glutão, diz Kant, integram a lista dos que atentam contra a própria humanidade.

A troca de insultos entre Lula e Ronaldo atinge planos delicados do mundo civil. Se o primeiro estivesse correto, Ronaldo seria, pela comilança, uma besta. Se o insinuado pelo segundo fosse verdade… Termino com uma nota sobre o presidente. Ele foi interpelado pelo STF para explicar quem é o jornalista “bandido” e “sem caráter” que supostamente o desrespeitou. Ainda na semana passada, Sua Excelência disse que à oposição ao seu governo falta caráter. Interessante esta obsessão com o termo e a coisa por ele sugerida. Caráter é o impulso natural da vontade, algo que reside no lado feroz do ser humano e que deve ser moderado para que o seu portador seja acolhido no convívio civil. Não basta ter caráter: é preciso que a educação o torne bom. Caso oposto, é possível perfeitamente que o voluntarioso seja mau-caráter. Poderosos devem receber educação do caráter, para moderar seus ímpetos. Os piores tiranos desconheceram os limites entre sua vontade e as exigências do convívio. Napoleão, Hitler, Stalin e outros, impuseram seu caráter aos Estados que deveriam servir. Quando o governante não recebe críticas de partidários e aliados (tirania é bajulação), resta aos opositores realizar este mister. Para isto é preciso muito caráter, mas envolvido em valores universais. Caso oposto, o caráter se esgota no auto-elogio, no qual Lula é mestre. Como dizem os caipiras, “gavação em causa própria é vitupério”. Entenda o presidente que, segundo a Constituição, ele é responsável pelos desmandos dos auxiliares. Se estes cairam, o que esperar do mestre? Votos aos milhões não apagam as manchas do seu governo. Na Alemanha, na URSS e em outros regimes autoritários, milhões votaram nos Líderes voluntariosos. Mas sobre eles hoje impera o silêncio.

Terça, 06 Junho 2006 21:00

Orgulho e Ridículo

O presidente Lula, devido às intenções de voto que recebe nas pesquisas eleitorais, além de negar conhecimento de crimes cometidos por seu Partido e governo, desafia a ética ao dizer que os ouvidos nas CPIs são “vítimas de tortura”.

O presidente Lula, devido às intenções de voto que recebe nas pesquisas eleitorais, além de negar conhecimento de crimes cometidos por seu Partido e governo, desafia a ética ao dizer que os ouvidos nas CPIs são “vítimas de tortura”. Ele assim justifica o que fizeram Delúbio Soares, Silvio Pereira, Antonio Palocci e a quadrilha denunciada pelo Procurador Geral da República. Não comentarei a manobra demagógica. Indicarei aos leitores cristãos do PT e dos segmentos opostos a ele, o quanto o presidente temporário (a menos que deseje se perpetuar no poder, a exemplo de Fidel Castro) é vítima de um defeito capital, segundo a ordem cristã dos valores. Perdoem as citações eruditas após os enunciados. Elas são necessárias devido à gravidade do assunto.

Lula não sabe, porque nada leu de teologia e de filosofia moral, mas nos Evangelhos o orgulho marca uma das piores tentações de Cristo, em passagem unida diretamente ao poder político : “Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e lhe disse: ´Tudo isto te darei se, prostado, me adorares´. Então Jesus lhe ordenou: ´Retira-te, Satanás, porque está escrito : Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto´”. (Mateus, 4, 8-10). Na Primeira Epístola de João, três coisas nos afastam de Deus : a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos, a “soberba da vida” (2, 16). O último elemento liga-se ao poder governamental, como enunciam comentaristas abalizados do catolicismo (Lula se diz católico...). Para eles, no mundo político ocorre “um desejo incontrolado de honras, estima, hierarquia, pompa e espetáculos, ligados aos vícios do orgulho, ambição, vaidade e auto-exaltação”. (A Catholic Commentary on Holy Scripture). E como Lula exalta a si mesmo...

A fórmula grega alazoneia utilizada para expressar superbia, tem uma constelação de significados trágicos e ridículos. Na lingua política grega o termo implica a impostura perigosa, sobretudo nos discursos demagógicos que imitam o verdadeiro. Os gloriosos são tragicômicos que usam palavras e signos para enganar os incautos. (Cf. J. Hesk, Deception and Democracy in Classical Athens) A sátira, sobretudo a de Luciano, relevantíssima na cultura cristã primitiva, nutre-se da crítica à “alazoneia”. (Braham, R.B. : Unruly Eloquence. Lucian and the Comedy of Traditions).

No Eclesiástico, livro canônico para a Igreja Católica, o tema do orgulho segue imediatamente após o do bom governo: “tal o governante do povo, tais os seus ministros; qual o que governa a cidade, tais todos os seus habitantes. Um rei sem instrução arruinará seu povo, uma cidade será construída graças à inteligência dos chefes. Nas mãos do Senhor está o governo do mundo; ele suscita, no tempo oportuno, o homem que convém” (10, 2-5). E logo a seguir: “o orgulho é odioso tanto ao Senhor como aos homens, e ambos têm horror da injustiça. O poder passa de uma nação a outra pela injustiça, pela violência e pela riqueza (...) O Senhor derruba o trono dos poderosos e assenta os mansos em seus lugares. O Senhor arranca a raiz dos orgulhosos e planta os humildes em seu lugar. O Senhor destrói o território das nações e aniquila-as até o subsolo” (10, 7-9 e 14-17). A chave da leitura católica encontra-se no versículo 14 do trecho: “Initium superbiae hominis apostatare a Deo” (O princípio do orgulho é o homem afastar-se do Senhor). A soberba inspira o afastamento em relação a Deus e suscita a tentativa sacrílega de atingir o divino com as próprias mãos, como na Torre de Babel. Diz o comentário católico, “o escritor sacro foi movido pela convicção profunda de que o governo absoluto de Deus sobre o mundo lhe ensina que a tentativa humana desagradou o Senhor e a narrativa sugere que o pecado foi a desmesura do orgulho humano e da auto-suficência” (Cf. A Catholic Commentary). O maior sinal do orgulho encontra-se na figura diabólica. No trecho que mencionei acima, a tentação de Jesus, resume-se o núcleo do cristianismo no relativo ao nexo entre política e saber religioso. Na passagem, Jesus chama o tentador com o seu nome de origem - Satan - enquanto a tradução grega traz a palavra diábolos, cujo significado é “um inimigo”, ou acusador legal. O diabo é o grande acusador do homem diante do Altíssimo. (Jó, 1, 6-2,7).

Lula pode afastar o perigo das CPIs e receber votos aos milhões, mas ainda é um orgulhoso “rei sem instrução” . Colaboram para este seu vezo os oportunistas que ontem falavam em ética e hoje riem dos valores. Eles são acometidos de “alazonéia” e cupidez, alimentam o orgulho do governante com os seus rapapés. Como diz o Padre Vieira, são peixes parasitas - os “pegadores”- que se alimentam dos vermes apegados nas costas do peixe grande. E como existem aduladores nos dias atuais!


PS: o recado vale para os oposicionistas de fachada que só pensam em 2010, traindo seus compromissos de agora. No próximo artigo comentarei o excelente livro de Luciana Genro e R. Robaina, A Falência do PT. (L&PM Editores, 2006).

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