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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

Sexta, 16 Dezembro 2005 22:00

Quem Foi JK?

Com o conhecimento dos fatos, fica mais difícil idolatrar tanto assim JK, o “mito” da política nacional.

Vem aí a nova minissérie da Rede Globo, sobre o ex-presidente JK. Somente pelas chamadas nos intervalos, fica claro que o viés será bastante pró Juscelino, pintando um quadro lindo sobre seu governo e sua pessoa. Depois do que fizeram com a imagem da comunista Olga, espero qualquer coisa! Melhor então resgatar logo alguns fatos. Quem foi JK?

Juscelino iniciava seu governo numa fase de grande conturbação, com sua posse sendo questionada pela pequena margem de ganho e um sistema de apoio instável. Tinha plena consciência de que a essência da democracia é a administração de conflitos, e revelou-se um exímio equilibrista político. Eis seu grande “mérito”: um político nato!

JK revelava um toque de antiamericanismo, alegando a indiferença com que fora recebido seu plano de desenvolvimento e a falta de sensibilidade de Washington às aspirações latino americanas. Enxergava atitudes conspiratórias nas organizações internacionais, particularmente no FMI, supostamente interessado na "aniquilação do Brasil" e em manter-nos na situação colonial de fornecedores de matérias-primas. Esse discurso culminou no rompimento com o FMI no fim de seu governo, em discurso extremamente nacionalista ao lado de Luís Carlos Prestes. Podia ter ficado sem essa mancha em sua história.

No começo de seu governo, o câmbio era uma variável chave em questão. Roberto Campos e outros economistas mais bem preparados tentaram convencer Juscelino de que uma reforma cambial se fazia necessária, pondo fim no sistema duplo de câmbios, que resultava num rombo da balança de pagamentos. Representava uma taxação indireta para exportadores subsidiando o consumo de produtos importados, como petróleo e papel. Mas JK acreditava no mito que "desvalorização derruba governos", e não levou adiante esta importante reforma, que poderia ter colocado o Brasil em posição similar aos Tigres Asiáticos na década de 80. Logo, JK defendeu um modelo errado de taxas de câmbio artificialmente sobrevalorizadas. O país pagou um elevado preço por tal erro.

Em termos de gastos públicos, JK foi altamente irresponsável. O projeto faraônico de Brasília é o melhor exemplo, tendo custado cerca de 3% do PIB e sem nenhuma grande justificativa racional por trás. Não se tendo tornado nem um pólo industrial, nem um pólo comercial auto-sustentável, Brasília viria a transformar-se ao longo dos anos numa inexorável fonte de déficit, sempre cobertos pelo Tesouro.

A implantação da indústria automobilística era a “menina dos olhos” de JK. Entretanto, tocou este projeto com incrível pressa e irresponsabilidade. O índice de nacionalização chegou a 90%, que num mercado ainda restrito, impediu os benefícios de uma economia de escala. Além disso, partiu com mesma velocidade e intensidade para produção de automóveis de passageiros e caminhões e tratores, que deveriam ter aguardado uma indústria já mais avançada dos primeiros, que acarretaria um barateamento de componentes. Isso tornaria menos dispendiosa a fabricação de tratores e veículos utilitários, fundamentais para o desenvolvimento industrial competitivo do país. Demonstra bem o "desenvolvimento" a qualquer custo de JK.

As conseqüências desse "desenvolvimento às caneladas" de JK começaram a cobrar seu preço, com a inflação saindo de 7% em todo o ano de 1957 para 9% apenas no primeiro semestre de 1958. As perspectivas do balanço de pagamentos eram sombrias, com rombos crescentes. Juscelino se persuadira, então, de que a mobilização nacionalista do país reconquistar-lhe-ia espaço político. Assim, rompeu com o FMI, com intensa mobilização popular, que lhe trouxe a curto prazo grandes dividendos políticos. No seu ver, ele tinha salvo o Plano de Metas. Na realidade, ele tinha apenas decretado a permanência de um modelo errado e insustentável de desenvolvimento, condenando o país à bancarrota cambial. Na prática, portanto, as teses de Juscelino eram uma subvenção ao consumo, que subtraía recursos que poderiam ser destinados ao investimento de fato.

Apesar de tantas evidências históricas desses erros cometidos por JK, nada impediu que ele se transformasse num mito nacional. Isso não é tão difícil de entender. Qualquer governo consegue apresentar números aparentemente interessantes por um curto período de tempo, deixando a conta a pagar para seu sucessor. JK foi um exemplo disso. Claro que tinha várias qualidades, e sua ideologia "futurível" transformou o desenvolvimentismo numa fonte de otimismo psicológico para o país. Mas o fato é que JK colheu os dividendos do que pareceu um tempo áureo para o Brasil, mas deixou um enorme rombo como herança. Como diz Milton Friedman, "não existe almoço grátis". Não se faz, de forma prudente, 50 anos em 5, da mesma forma que não se faz um bebê em um mês engravidando 9 mulheres diferentes: certas coisas simplesmente levam tempo. Infelizmente, a visão dos leigos é míope, e alcança somente o imediato.

Com o conhecimento dos fatos, fica mais difícil idolatrar tanto assim JK, o “mito” da política nacional. Mas com uma dose de manipulação dos autores, e forte pitada de ignorância popular, nada é impossível. Tornam a tarefa do iconoclasta algo um tanto hercúleo!

Domingo, 11 Dezembro 2005 22:00

Ouro Negro

Desde que Edwin Drake fez a primeira perfuração bem sucedida na Pensilvânia em 1859, o petróleo tem sido o recurso mais fundamental do mundo industrializado, deixando o carvão para trás.

"My crispest conclusion is this: it is virtually impossible for Saudi Arabia ever to produce the 20 to 25 million barrels a day envisioned by the forecasters." (Matthew Simmons)

Desde que Edwin Drake fez a primeira perfuração bem sucedida na Pensilvânia em 1859, o petróleo tem sido o recurso mais fundamental do mundo industrializado, deixando o carvão para trás. Seu domínio já dura mais de um século, sem parecer ameaçado no futuro visível. Entretanto, existem riscos do lado da oferta, que pode estar chegando ao seu pico, enquanto a demanda continua crescente, principalmente pelos novos consumidores, como os colossos China e Índia. Essa combinação entre demanda crescente e oferta limitada poderá jogar o preço do petróleo nas alturas. O movimento já pode ter começado, tendo o preço do barril triplicado desde 2002. Talvez o mundo tenha que aprender a conviver com novos patamares de preço do petróleo.

Vale antes um caveat: tentar prever o preço do petróleo ou o declínio da sua produção é uma tarefa quase impossível. No excelente livro The Prize, onde Daniel Yergin faz um relato brilhante da história dessa commodity, vemos que ainda no século XIX alguns "especialistas" alertavam para a queda iminente e vertiginosa da produção de petróleo. Erraram feio! Especialistas com PhD e CEOs de empresas vivem errando em suas previsões. Esse é o ponto que concede algum conforto, pois veremos adiante que os riscos de um declínio na produção mundial de petróleo são concretos.

As informações a seguir vêm principalmente do livro Twilight in the Desert, de Matthew Simmons, um especialista da indústria de energia com MBA em Harvard. É consenso na indústria que a Arábia Saudita possui capacidade ociosa e poderá sempre servir como fiel da balança no setor, suprindo a demanda não atendida. O ponto que Simmons chama a atenção diz respeito justamente a esta crença, baseada mais no desejo que nos fatos. Veremos de forma bastante simplificada suas principais conclusões.

Em primeiro lugar, há muito pouca informação confiável e disponível do setor petrolífero da Arábia Saudita, que responde por cerca de 13% da produção mundial de petróleo. Os relatórios por campo deixaram de ser publicados há mais de duas décadas. A transparência vem desaparecendo, e uma camada de segredo esconde os principais dados da Aramco, estatal responsável pelo petróleo. Os poucos dados disponíveis, entretanto, apontam para inúmeros problemas nos principais campos do país, mas são largamente ignorados pelos analistas. Declarações de funcionários do tempo em que a Aramco pertencia às empresas estrangeiras corroboram com a visão de que podem existir diversos problemas de produção na Arábia Saudita. Entrementes, a Aramco publica ter mais de 250 bilhões de reservas provadas, valor estável por 17 anos, período no qual o país produziu quase 50 bilhões de barris de petróleo. Como pode, sem nenhuma grande descoberta nova? Em 1977, a empresa reportava 100 bilhões de barris de reservas. Em 1979, ela foi totalmente nacionalizada, e deixou de reportar os dados por campo. Entretanto, em 1988 a empresa reportava um aumento de 100 bilhões de barris nas reservas. Como confiar nesses números?

Em segundo lugar, algo como 90% de todo o petróleo produzido na Arábia Saudita veio de apenas 7 campos gigantes, e todos eles estão maduros e velhos, mas ainda são responsáveis pela mesma parcela da produção total. Os dois maiores, Ghawar e Safaniya, produzem cerca de 75% do total. Vários campos menores foram descobertos ao longo dos anos, mas nenhum chegou a produzir enormes quantidades de petróleo. Isso a despeito dos pesados investimentos do reino, sempre utilizando tecnologia do estado da arte. A verdadeira história do petróleo na Arábia Saudita difere bastante da sabedoria popular. Desde a década de 1970, nenhum grande campo promissor foi descoberto, mesmo com muita dedicação e investimento por parte da Aramco.

Outro problema é o uso da injeção de água para manter elevadas pressões nos poços. O país iniciou este experimento em 1956, conseguindo eliminar o problema da capa de gás que se forma no topo do poço e mantendo o fluxo de petróleo elevado. Entretanto, tal esforço não vem sem custos. A super produção pode levar ao declínio da capacidade produtiva mais rapidamente. A corrosão é outro problema. Como os donos estrangeiros da Aramco sabiam das intenções do governo de comprar suas participações, podem ter acelerado o uso dos campos para extrair o máximo de petróleo no menor tempo possível. Em menos de uma década, a produção de petróleo na Arábia Saudita cresceu por um fator de 4! Não há nada similar na história do petróleo mundial. As conseqüências desse abuso ainda são desconhecidas.

Em 2004, a Saudi Aramco revelou seus planos para investimentos em exploração e produção de petróleo, e o orçamento até 2007 projetava US$18 bilhões de gastos, um aumento de um terço frente ao gasto médio dos últimos 10 anos. Tais investimentos, entretanto, não buscam o aumento da produção, mas apenas repor a capacidade perdida. Informações fragmentadas como esta, se compiladas e concatenadas por um cético, podem levar à conclusões alarmantes. No restante da península árabe, incluindo Yemen, Oman e Emirados, a exploração tem sido intensa, sem muito sucesso na descoberta de novos campos. O mesmo ocorre com Jordânia e Irã. O rei dos reis, Ghawar, que já trouxe ao mundo algo como 55 bilhões de barris de petróleo, foi descoberto em 1948, seguido pelo Abquaiq 8 anos depois. Desde 1968, entretanto, nenhum campo de peso foi encontrado na Arábia Saudita. O pico de produção do Ghawar se deu em 1981, quando foram produzidos 5,7 milhões de barris diários.

Um estudo comparativo feito com outros grandes campos de diferentes países mostra um certo padrão na curva de produção. Eventualmente, todos atingem o pico! Na média, a produção cai pela metade, pelo menos, nos 10 anos após o pico. Foi assim na Rússia, no Mar do Norte, no Irã, enfim, na grande maioria dos casos. Quando os soviéticos expandiram a produção de forma agressiva, dobrando o volume entre 1978 e 1988, a queda foi drástica depois. A produção total caiu de 12,2 milhões de barris diários em 1989 para 7,1 milhões 7 anos depois. Até quando o rei Ghawar irá agüentar manter seu ritmo de produção em torno de 5 milhões de barris diários? É uma incógnita...

Sobre os combustíveis alternativos, não cabe um aprofundamento aqui. No livro The Oil Factor, Stephen Leeb dedica um bom espaço para defender sua teoria de que não temos substitutos viáveis no curto prazo. São inúmeros problemas em cada um deles, tanto técnicos como comerciais. Energia solar, nuclear, cada uma encontra infinitas barreiras pela frente, não representando um plano B viável. Simmons concorda que um dos maiores riscos atualmente é a ausência desse plano B, de uma alternativa. Ambos acreditam que o petróleo, no médio prazo, tem uma só direção. Vai subir! Sem falar dos riscos de uma guerra nova, envolvendo o Irã, por exemplo. E destacando que a maior parte dos países produtores de petróleo contém problemas políticos, como Nigéria e Venezuela, sem falar do Oriente Médio. Riscos de rupturas nesses países não devem ser descartados.

Não quero ter a pretensão de acertar o preço futuro do petróleo, que chegou a bater em US$70 por barril recentemente. Mas juntando os dados que li nos diferentes livros, não ficaria nada espantado se visse o petróleo acima de US$100 por barril em breve. Muitos outros fatores podem alterar radicalmente este cenário. Porém, estou bastante convencido de que, ceteris paribus, entramos em uma era de novo patamar de preço para o ouro negro.

Sexta, 09 Dezembro 2005 22:00

O Custo Chávez

Nada mais perigoso do que uma análise totalmente parcial, fruto do uso de lentes míopes que resultam da ideologia dogmática.

Nada mais perigoso do que uma análise totalmente parcial, fruto do uso de lentes míopes que resultam da ideologia dogmática. O velho brocardo já dizia que o pior cego é aquele que se recusa a enxergar. Assim são todos os que comemoram o crescimento espetacular da economia venezuelana em 2004, que chegou a quase 18%. Os hormônios dos populistas logo se exaltam, e uma tentação incontrolável pela heterodoxia demagógica toma conta de seus cérebros atrofiados. Eis o risco de abdicar da razão em nome da fé ideológica.

A Venezuela é altamente dependente do petróleo. Esta commodity responde por cerca de um terço do Produto Interno Bruto do país, assim como 80% do total das exportações. Corresponde ainda a metade da receita do governo. Poderíamos afirmar que a Venezuela é uma grande empresa de petróleo. Infelizmente para os cerca de 25 milhões de venezuelanos, uma empresa estatal. Interesses políticos dominam a pauta da PDVSA, cujo resultado não poderia ser outro que não a ineficiência. Mas o fato é que a natureza fez sua parte, e o resto do mundo, crescendo de forma impressionante, completou o trabalho. A Venezuela tinha tudo para estar vivendo em um céu de brigadeiro. Entretanto, está muito longe disso, mais perto de um céu com pesadas nuvens negras. A culpa toda é do governo e seu protótipo a ditador, Hugo Chávez.

O preço do barril de petróleo, medido pelo WTI, estava perto dos US$20 em meados de 2002. Com a forte demanda, puxada em boa dose pela China, esse preço triplicou, oscilando atualmente próximo dos US$60. A Venezuela exporta mais de 2 milhões de barris diários. Usando matemática elementar, temos que apenas o efeito do aumento do preço por barril geraria algo como US$80 milhões por dia a mais para o país. Isso é equivalente a US$2,4 bilhões por mês, ou aproximadamente US$30 bilhões por ano. O PIB da Venezuela em 2003 estava perto de US$125 bilhões. Ou seja, esse incremento causado apenas pela variação do preço do petróleo significaria um aumento de mais de 20% no valor total.

Não obstante, o PIB venezuelano sofreu abrupta queda em 2002 e 2003, da ordem de 9% por ano. O crescimento de quase 18%, portanto, é calculado em cima de uma base extremamente baixa. Analisando o triênio de 2002 a 2004, vemos que a economia venezuelana ficou praticamente estagnada, enquanto o mundo cresceu bastante, para não falar dos países produtores de petróleo. Em resumo, enquanto o petróleo, de longe o principal produto venezuelano, triplicou de preço, a economia do país ficou atolada no lamaçal criado pelo populismo de Chávez. Isso sem nada falar da inflação, que está em patamares extremamente elevados na Venezuela, ainda acima de 15% ao ano. A miséria na Venezuela aumentou, mesmo com tantos petro-dólares entrando no país. A Venezuela ostenta a triste posição de 146 em liberdade econômica medida pelo Heritage Foundation, em um total de 155 países. E na eterna mania que alguns têm de idolatrar o fracasso, ainda conseguem comemorar tamanha mediocridade. Viva Chávez!

O mercado financeiro acusou o golpe, e como bom reflexo da confiança dos investidores no país, mostra que a Venezuela vai de mal a pior. Neste ano, os países com melhor performance na bolsa de valores são Dubai, com alta de 152% em dólares, Jordânia, com 106%, Arábia Saudita, com 105%, Kwait, com 86%, e Rússia, com alta de 76%. Todos são, não por coincidência, países bastante dependentes do petróleo. E onde está a Venezuela neste ranking? O índice de ações da Venezuela amargou uma queda violenta de 40% em 2005, simplesmente a pior performance do mundo! Eis o custo Chávez.

Reparem que estou focando aqui exclusivamente nas questões econômica e financeira, pois se fosse falar de liberdades, a Venezuela ficaria ainda pior na foto. A imprensa tem perdido enorme grau de liberdade, a intervenção estatal nas empresas beira o fascismo e a democracia anda totalmente capenga. Algo como 75% dos eleitores não compareceram às urnas nas últimas eleições. Chávez é uma espécie de Fidel Castro, só que sem a barba, e com muito petróleo. Pobres venezuelanos, caminhando rumo à desgraça cubana. 

Quinta, 01 Dezembro 2005 22:00

A Transformação da Nova Zelândia

Existe vasta experiência empírica para corroborar com a lógica e eficácia das teorias liberais, e tenho dedicado alguns artigos ao tema. Os casos de sucesso de Hong Kong e Cingapura já refutam de cara vários dogmas esquerdistas.

Existe vasta experiência empírica para corroborar com a lógica e eficácia das teorias liberais, e tenho dedicado alguns artigos ao tema. Os casos de sucesso de Hong Kong e Cingapura já refutam de cara vários dogmas esquerdistas. Mas como ideologias costumam cegar para os fatos, alguns discípulos de Marx ainda conseguem ignorar a estrondosa evidência do sucesso liberal, apelando para escusas como o tamanho desses lugares. Ora, mesmo que outros países pequenos, como Haiti ou Cuba, sejam completamente miseráveis justamente pelo forte afastamento da receita liberal, isso não parece ser suficiente para derrubar esse “argumento” desesperado de quem foge da verdade como o diabo foge da cruz. Portanto, decidi escrever algo sobre o caso da enorme transformação da Nova Zelândia, após uma série de reformas liberais. Tratando-se do mesmo país, outras variáveis ficam isoladas, como o tamanho da nação, sua cultura etc. Podemos, assim, verificar em detalhes as mudanças ocorridas como conseqüência do maior grau de liberdade econômica adotado.

As reformas que alteraram o rumo da Nova Zelândia começaram em 1984, paradoxalmente por um governo tido como de centro-esquerda. Como a cor do gato é menos importante do que o fato dele comer ou não o rato, veremos que as medidas tomadas pelo Partido Trabalhista tiveram forte cunho liberal, e por isso foram eficientes na captura do rato. Ocorreram privatizações, a intervenção estatal na economia foi bem reduzida, o welfare na indústria e agricultura foi cortado e ocorreu uma mudança de foco do imposto de renda para consumo. O governo chegou a propor, sem sucesso, um imposto flat de 21%. A economia experimentou um expressivo crescimento, de cerca de 4% ao ano por um longo período. Foi o maior crescimento de emprego entre todos os países da OECD.

Creio ser relevante voltarmos um pouco no tempo. A Nova Zelândia era um dos países mais ricos em termos per capita no começo do século XX. Foi após o governo populista e corporativista de Robert Muldoon que o país viu abrupto declínio de riqueza relativa. Políticas protecionistas e interventoras fizeram com que a Nova Zelândia fosse perdendo rapidamente posições no ranking para países mais liberais. Medidas claramente socialistas, como controle de preços e salários e elevado gasto público para comprar o apoio dos sindicatos, plantaram as sementes do fracasso. Em apenas 10 anos, a partir de 1974, a dívida externa subiu de 11% do PIB para 95%! A inflação estava em dois dígitos. Foi neste contexto que se deu a mudança de trajetória, rumo ao maior liberalismo econômico, que salvou o país.

Os reformadores foram influenciados por pensadores como Mancur Olson, Ronald Coase e James Buchanan. Os subsídios governamentais para indústria e agricultura caíram de 16% dos gastos públicos para apenas 4%. Desde a drástica redução nos subsídios agrícolas, o setor aumentou sua parcela no PIB, e o ganho de produtividade foi espetacular durante anos, acima de 6% ao ano por quase uma década! A reforma fiscal transformou a Nova Zelândia num dos países com a estrutura mais linear de impostos, e a maior taxa de imposto de renda caiu pela metade, de 66% para 33%. O mercado de trabalho foi liberalizado, e o desemprego caiu bastante. Atualmente, está em torno de 4%. O banco central teve autonomia operacional com mandato explícito para a estabilidade de preços, e a inflação foi controlada. O Ato de Responsabilidade Fiscal passou a exigir que o governo publicasse objetivos de longo prazo para indicadores-chave como gasto público, arrecadação fiscal e endividamento estatal. A Nova Zelândia experimentou oito anos consecutivos de superávit fiscal, uma verdadeira ruptura das décadas de déficit.

Atualmente, a Nova Zelândia ocupa a quinta posição no ranking de liberdade econômica do Heritage Foundation. A participação da agricultura ainda é relevante na produção nacional, e o setor emprega cerca de 10% da mão-de-obra total. Os subsídios agrícolas, entretanto, são os menores entre os países desenvolvidos. A economia é uma das mais desregulamentadas da OECD, e aproximadamente 95% das importações são duty-free. O ambiente econômico é transparente e competitivo, com reduzida burocracia. Como resultado disso tudo, a renda per capita cresceu vários anos seguidos, ultrapassando a marca dos US$20 mil.

A Nova Zelândia está longe de ser um paraíso liberal. O governo ainda gasta muito, e intervém mais que o necessário na economia. Faltam reformas ainda mais liberalizantes para que o país alcance um patamar de liberdade e riqueza como o de Hong Kong e Cingapura. Entretanto, analisar a experiência da Nova Zelândia é um exercício bem interessante, por mostrar os grandes avanços frutos da maior aproximação da receita liberal, curiosamente iniciada por um partido de esquerda. Atualmente, as conquistas econômicas, resultado do bom senso e respeito às leis de mercado, tornaram-se “vacas sagradas”, e o debate político acaba focado em outros temas, como ocorre na Inglaterra desde Thatcher. Melhor para os 4 milhões de habitantes da Nova Zelândia, que agradecem essa boa transformação.

Sábado, 26 Novembro 2005 22:00

O Caso de Cingapura

Com tal postura, partindo de uma forte liberdade econômica, reduzida burocracia e intervenção estatal, Cingapura foi capaz de prosperar, mesmo sem recursos naturais.

Cingapura foi fundada como uma colônia britânica em 1819. Ela juntou-se à Federação da Malásia em 1963 mas se separou dois anos depois, tornando-se independente. Atualmente, é um dos países mais prósperos do mundo, em termos per capita. Boa parte desse sucesso deve-se ao elevado liberalismo econômico. O porto de Cingapura é um dos mais ocupados do mundo, e sua plena abertura comercial possibilita o constante progresso da nação.

Os recursos naturais do país são praticamente nulos, e a pesca é uma das poucas atividades que podem ser obtidas diretamente da natureza por lá. A população é de cerca de 4,4 milhões de habitantes, com expectativa de vida ao nascimento de 81,6 anos. Existem poucos analfabetos, uma boa mistura religiosa convivendo pacificamente, a grande diversidade de línguas faladas. A mortalidade infantil é muito baixa, em 2,29 mortes a cada mil nascimentos.

O país é conhecido pelo rigor de suas leis, que são baseadas no common law inglês. A economia é altamente desenvolvida, e calcada no livre mercado. O país ocupa a segunda posição no índice de liberdade econômica do Heritage Foundation. A economia é fortemente dependente das exportações, particularmente de eletrônicos e manufaturados. Durante a crise asiática, o crescimento sofreu um revés, mas já foi retomado em ritmo acelerado, acima de 8% em 2004. O país não tem agricultura, e cerca de um terço do Produto Interno Bruto vem da indústria, com o restante vindo de serviços. A taxa de desemprego é ínfima, um pouco acima dos 3% apenas. A renda per capita chega a quase US$30 mil, entre as maiores do mundo. Qual o segredo de Cingapura?

O governo de Cingapura é totalmente amigável aos negócios. O país participa de acordos de livre comércio com os Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Japão, fora inúmeros outros em negociação. Segundo o Banco Mundial, a média ponderada das tarifas alfandegárias de Cingapura em 2003 estava em zero. A burocracia é muito reduzida, e há poucos casos de corrupção. A maior taxa de imposto sobre a renda é 22%, o mesmo valor dos impostos corporativos. Em 2003, segundo o Departamento de Estatísticas de Cingapura, os gastos públicos sobre o PIB ficaram em 17,1%. A intervenção estatal na economia é bastante reduzida. A política monetária é eficiente, e a inflação de 1994 a 2003 ficou em apenas 0,36% ao ano.

As leis para investimentos são claras e justas. Tanto investidores domésticos como estrangeiros são tratados da mesma maneira, e não existem requerimentos de parcela local nos produtos. Segundo a Economist Intelligence Unit, os investimentos privados estrangeiros foram a principal força por trás do rápido desenvolvimento econômico dos últimos 30 anos. No setor de manufaturados, por exemplo, os investimentos estrangeiros respondem por quase 80% do total. Não existe controle governamental sobre transferências monetárias ou repatriação de lucros.

Os preços e salários são determinados praticamente na íntegra pelo livre mercado, apesar do Ministério de Comércio e Indústria ter o poder para impor algum controle se necessário. Na prática, isso raramente ocorre, e atualmente, apenas o arroz e o porco estão sob o regime de controle de preços. Cingapura, tal como Hong Kong, não possui um salário mínimo. A propriedade privada é totalmente protegida, sem ameaças de expropriação. Os contratos são seguros, e tanto o profissionalismo como a eficiência das agências são amplamente reconhecidos. As regulações são objetivas e simples, e o processo para a obtenção de licenças é rápido e transparente. Impostos, trabalho, regras de comércio, tudo em Cingapura é formulado levando-se em conta os interesses dos investidores estrangeiros e das empresas locais. A mentalidade marxista não tem vez alguma por lá!

Com tal postura, partindo de uma forte liberdade econômica, reduzida burocracia e intervenção estatal, Cingapura foi capaz de prosperar, mesmo sem recursos naturais. O país é visto como bastante transparente, e a corrupção não é um grave problema. O crescimento econômico tem sido elevado e sustentável, assim como a inflação tem sido mantida em patamares tranqüilos. A renda per capita é uma das maiores do mundo. Alguns tentam diminuir tal sucesso mencionando o tamanho do país, mas ignoram que Cuba e Haiti, para citar apenas dois, são bem pequenos mas ainda assim miseráveis. Não há como negar: Cingapura é um caso de sucesso! Tudo graças à liberdade econômica com império da lei.

Quarta, 23 Novembro 2005 22:00

O Sucesso de Hong Kong

Uma análise sobre a economia de Hong Kong é mais que suficiente para derrubar uma infinidade de mitos divulgados pela esquerda protecionista e estatolatra.

"A autoridade tem que enfrentar a alternativa: ou aceita o mercado e suas leis como são, ou tenta substituir a economia de mercado por um sistema sem mercado, ou seja, pelo socialismo." (Mises)

Uma análise sobre a economia de Hong Kong é mais que suficiente para derrubar uma infinidade de mitos divulgados pela esquerda protecionista e estatolatra. O país é realmente um caso de expressivo sucesso da free market economy, desmentindo uma por uma das falácias tidas como dogmas por certas pessoas. Entender o que permitiu que esse pequeno país se tornasse rico é fundamental para mudarmos a mentalidade do nosso povo.

Em primeiro lugar, Hong Kong é totalmente pobre em termos de recursos naturais. Praticamente inexiste agricultura lá, tendo os alimentos que serem importados. O país não produz sequer um barril de petróleo. De cara, vemos que não há necessidade de recursos naturais para ser rico. O fator genético do povo não poderia explicar o sucesso também, posto que quase todos são chineses, e a China é paupérrima. O homem acaba sendo um produto do meio, e é o modelo de Hong Kong que faz toda a diferença no final.

Esse modelo é baseado em uma forte liberdade econômica, sendo Hong Kong o líder no ranking do Heritage Foundation, que mede justamente o grau de liberdade das economias. O país é praticamente duty free, não existindo cotas ou políticas de anti-dumping. Licenças são requeridas para poucos produtos apenas, e a autorização costuma ser muito rápida. A intervenção estatal na economia é praticamente nula, e os gastos públicos giram em torno de 10% do Produto Interno Bruto. O governo de Hong Kong é um dos mais receptivos do mundo em termos de investimentos externos, sem discriminar entre investidores estrangeiros ou locais. Virtualmente, não existem restrições ao capital estrangeiro e ao controle de propriedades e empresas. Não existem controles para a repatriação de lucros. Os bancos são independentes do governo, e quase não existem restrições para os bancos estrangeiros. Não existe salário mínimo para os trabalhadores locais, e o mercado costuma ser livre para acordos entre patrões e empregados. O governo garante o direito de propriedade privada, e exige o cumprimento dos contratos. As regulações governamentais são poucas, e aplicadas de maneira uniforme. A burocracia é ínfima, e abrir ou fechar uma empresa é tarefa relativamente simples, que leva menos de uma semana. O sistema legal é baseado no common law inglês, bastante objetivo.

A economia de Hong Kong é absurdamente aberta, e as exportações são maiores que o próprio PIB. Mesmo antes do país ser devolvido pela Inglaterra a China, em 1997, o comércio com esta era bastante elevado. A China responde por cerca de 40% tanto das importações como das exportações. O setor de serviços corresponde a mais de 88% do PIB, enquanto a participação da agricultura é praticamente nula. Trata-se de uma nação na terceira onda, pelo conceito de Alvin Toffler.

De forma resumida, foi este modelo, altamente liberal e com intervenção estatal bastante limitada, que garantiu o sucesso desse país com quase 7 milhões de habitantes. A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, é de apenas 2,97 para cada mil nascimentos, uma das menores do mundo. A expectativa de vida está em 81,5 anos. Praticamente não há analfabetos. O PIB cresceu 5% ao ano de 1989 a 1997. Em 2004 cresceu 8%. A inflação oscila abaixo de 3% por anos. O desemprego está abaixo de 6%. Em 2003, cerca da metade da população já tinha acesso à Internet, e existem mais celulares que habitantes. A renda per capita, medida pela paridade de poder de compra, estava em torno de US$34 mil em 2004. Hong Kong é um dos países mais ricos do mundo, por habitante!

Tudo isso sem milagres, sem recursos naturais, sem governo impondo muitas regras ou intervindo na economia. Não há a mentalidade paternalista lá, mas sim um forte individualismo, e enorme respeito pela meritocracia do mercado. Não há políticos tomando quase metade da riqueza produzida pelo setor privado em nome da "justiça social". Não há a crença de que burocratas irão proteger os trabalhadores e os consumidores da "exploração" do capital ou das multinacionais. Não existem "conquistas" trabalhistas empurradas na marra pela caneta estatal, mas sim bons salários pela alta produtividade do capital humano, com ampla liberdade de atuação. Hong Kong possui uma das economias mais livres do mundo, e não por acaso, é um exemplo de sucesso. Exemplo esse que deveria ser seguido, mas que desperta pânico nos burocratas, políticos populistas e pseudos-intelectuais socialistas, que acabam enganando os leigos por interesses pérfidos. A ignorância não é uma bênção! O povo perde, pois teria muito a aprender com o sucesso de Hong Kong.

Quarta, 16 Novembro 2005 22:00

A Terceira Onda

Enquanto isso, os atrasados ainda surfam a primeira onda, em alguns casos a segunda, da fase industrial. Ainda debatem a questão da reforma agrária e aturam os crimes de um MST da vida.

“Knowledge is the most democratic source of power.” (Alvin Toffler)

Alvin Toffler escreveu The Third Wave em 1980, mas muito do que o autor disse na época ainda parece totalmente ignorado. Toffler descreve três tipos de sociedades, baseadas no conceito de ondas. A primeira onda teria sido a mudança da cultura nômade de caçadores para uma revolução agrária, onde a terra era o recurso básico. A segunda onda foi calcada na produção industrial, com distribuição de massa, onde o capital e trabalho eram as ferramentas principais. A terceira onda seria justamente a era pós-industrial, com maior diversidade, foco em nichos de mercado e subgrupos, onde a informação substitui os recursos materiais e torna-se o principal insumo dos trabalhadores.

Apesar dessa transformação parecer mais evidente hoje, muitos ainda ignoram seus efeitos concretos, incluindo economistas presos nos conceitos da era industrial, como os fisiocratas antes deles, que não conseguiram abandonar a mentalidade da fase agrária. Isso gera distorções nas análises sobre o quadro atual, prejudicando o diagnóstico dos problemas e suas soluções.

As novas empresas vencedoras são como plataformas, operando modelos enxutos, sem grande necessidade de capital físico. Isso permite maior agilidade, foco na marca, inovação e força de vendas. As enormes fábricas não mais precisam ficar sob a estrutura dessas empresas, que podem terceirizar a produção dos bens que vendem. Uma das conseqüências disso é a transferência da parte mais volátil e dispendiosa do negócio para países menos desenvolvidos. A troca é mutuamente benéfica, pois gera milhões de empregos nos países emergentes. Para essas empresas plataforma, que focam nos serviços, os ganhos também são evidentes, com lucros mais estáveis e excelentes retornos sobre capital investido, possíveis pelos ativos mais “leves”.

O novo business model é não produzir nada, mas vender em todo lugar. As empresas plataforma sabem onde os clientes estão, o que desejam, e onde conseguir tais produtos. Elas organizam esse processo de demanda dos consumidores e oferta dos produtores, adicionando suas marcas, cuidando da logística e faturando pelo serviço prestado. São estas empresas que retêm o valor das pesquisas, desenvolvimento de novos serviços e marketing. Exemplos de empresas plataforma seriam a Dell, IKEA, Microsoft, Intel etc.

Para o sucesso desse modelo, alguns pilares são fundamentais, como a existência do livre comércio, direito de propriedade e excesso de capacidade produtiva. Tais características são comuns ao capitalismo, que pode ser visto como o pai das empresas plataforma. Essas empresas vão prosperar onde há maior liberdade de comércio entre fronteiras, para que possam decidir com maior eficácia a alocação de recursos. Vão prosperar onde o direito de propriedade, incluindo a intelectual, é garantido, para que os investimentos em pesquisa e inovação possam dar retorno. Vão prosperar onde a infra-estrutura de logística é decente, com boa comunicação, portos, estradas e aeroportos. Vão prosperar se houver excesso de produção, para que tenham flexibilidade e poder de barganha com os fornecedores. E por fim, vão prosperar onde o modelo tributário é amigável, já que podem migrar mais facilmente para outros países, por não terem raízes físicas em fábricas gigantescas.

Essa última característica coloca em xeque o modelo de welfare state, com pesados gastos sociais por parte do governo. A competição para atrair as empresas plataforma poderá forçar um enxugamento da máquina estatal nos países desenvolvidos, assim como a adoção de regras tributárias mais simples e sobre consumo, não renda. Afinal, nada impede que a sede dessas empresas vá para um país que ofereça condições mais favoráveis. Desta forma, a tendência será uma gradual liberalização da economia, com a falência do modelo social-democrata, que engessa através da burocracia e impostos a competitividade dessas empresas. Tanto a “destruição criativa” de Schumpeter como as “vantagens comparativas” de Ricardo deverão ficar livres para exercerem sua influência no crescimento econômico. Quanto mais o governo tentar impedir a atuação dessas forças de mercado, mais ele afastará as empresas vencedoras, com o modelo de plataforma. Para termos uma idéia melhor disso, basta compararmos a quantidade de empregos gerados nos Estados Unidos na última década com os empregos criados na Europa, menos liberal economicamente. A Europa perdeu de “goleada”.

Como evidência empírica das vantagens desse modelo, temos que a média da participação de serviços no total da produção de riquezas dos vinte países mais ricos do mundo está acima de 70%, enquanto no Brasil está próxima de 50%. A participação da agricultura no PIB dos países ricos é ínfima, abaixo de 2% do total, enquanto nos países mais pobres ainda é superior a 20% do total. Os países ricos já abandonaram tanto a primeira como a segunda onda, e estão vivendo na era do capital intelectual, das empresas plataforma. Suas economias estão com volatilidade bem menor, lucros mais previsíveis e retornos crescentes. Tudo graças ao progresso do modelo capitalista, com império da lei, direito de propriedade, ambiente favorável aos negócios e liberdade econômica.

Enquanto isso, os atrasados ainda surfam a primeira onda, em alguns casos a segunda, da fase industrial. Ainda debatem a questão da reforma agrária e aturam os crimes de um MST da vida. E permanecem culpando o sucesso alheio pela sua miséria, resultado exclusivo do modelo que adotaram, com pouca liberdade econômica, asfixiante presença estatal e ausência do império da lei. Quem não quiser perder a onda, terá que nadar rápido na direção certa. E a corrente aponta na direção do capitalismo liberal. A alternativa é ficar eternamente “pegando jacaré” na beira do mar...

Segunda, 14 Novembro 2005 22:00

Liberdade de Expressão

Vivemos na era do politicamente correto, da ditadura da maioria e do relativismo moral exacerbado.

“É fácil ser um defensor da liberdade de expressão quando isso se aplica aos direitos daqueles com quem estamos de acordo.” (Walter Block)

Vivemos na era do politicamente correto, da ditadura da maioria e do relativismo moral exacerbado. Tais características impõem sérios riscos à liberdade de expressão, ferramenta das mais valiosas da humanidade, que garante nosso progresso contínuo. Pretendo justificar a seguir, com argumentos, tal assertiva.

Em primeiro lugar, devemos entender que a liberdade de expressão diz que o indivíduo pode expressar suas idéias sem medo de coerção ou agressão. Ninguém é obrigado a lhe ceder os veículos de comunicação necessários. Cabe ao Estado apenas garantir sua segurança ao se expressar. Dito isso, devemos ter em mente que tal liberdade trará consigo o risco de escutarmos idéias controversas, que poderemos considerar até mesmo sórdidas. A liberdade somente existirá se as minorias forem livres para pregarem suas idéias, por mais absurdas que possam parecer. Natan Sharansky, autor de The Case for Democracy, chegou a criar um método simples de se avaliar quão livre é uma nação, bastando verificar se o indivíduo pode ir em praça pública e contrariar com palavras o governo, ou o consenso.

Infelizmente, muitos confundem liberdade com democracia, e ignoram que essa pode até mesmo acabar com aquela. Quando democracia não passa de uma ditadura da maioria, onde essa, mesmo que formada por 51% do povo, manda arbitrariamente no restante, não há liberdade verdadeira. Liberdade existe quando as minorias também são livres, e por isso as regras devem ser sempre isonômicas, válidas igualmente para todos. A fim de evitar este risco da ditadura de maiorias instáveis, os americanos criaram, logo na Primeira Emenda, o direito de liberdade de expressão, estendido a todos. Vindo em forma de pacote, as pessoas aceitam tal liberdade quase irrestrita, mesmo que tenham, com isso, que aturar as idéias opostas às suas. Em resumo, no Liberalismo, até mesmo um socialista, que prega a destruição do Liberalismo, pode se expressar. Já no Socialismo, o liberal possivelmente acabará em um gulag ou paredon. Eis mais uma grande distinção moral entre os dois modelos.

Tal ideal de liberdade de expressão está longe de ser nossa realidade. O patrulhamento do politicamente correto anula totalmente esta liberdade. O teste é quando temos que agüentar o discurso contrário ao nosso, não quando garantimos a liberdade de repetirem, como vitrolas arranhadas, o consenso. E precisamos lembrar que a regra deve ser objetiva, válida igualmente para todos. Não é difícil citar exemplos contrários a tal modelo livre. A tentativa do governo do PT de impor uma cartilha politicamente correta foi o mais assustador passo na direção da supressão da liberdade de expressão. Mas fora isso, inúmeros outros casos demonstram pouca liberdade. Eu sinto enorme repúdio tanto pelo nazismo como pelo comunismo, ambos regimes genocidas e até mesmo similares em vários aspectos. Entretanto, é vetado por lei defender o nacional-socialismo ou ostentar a suástica, enquanto até mesmo o presidente da Câmara pertence ao Partido Comunista do Brasil, com a foice e o martelo como símbolo. Por que? Por que os nazistas não podem pregar suas idéias, e os comunistas, que mataram bem mais gente, podem? Eu, particularmente, adoraria que ninguém mais fosse tão mentecapto a ponto de defender qualquer um desses dois regimes. Mas não acho correto e justo usurpar a liberdade de expressão dos seus defensores. Creio que até os néscios devem ser livres para defenderem suas estultícies!

O caso do racismo também é sintomático. Atualmente, um sujeito pode acabar até mesmo preso por chamar outro de preto, mesmo que ele seja preto. Ora, e se for chamado de “branquelo”? Onde isso vai acabar? Ninguém mais poderá contar piadas de judeu, português etc? Em que mundo queremos viver? Num mundo onde uma cúpula de burocratas decide o que pode e o que não pode ser dito, cedendo às pressões dos grupos de interesses? Ou em um mundo onde as regras são simples e isonômicas, e há liberdade de expressão até o limite das ameaças ou fraudes?

O relativismo moral entra também nesse conjunto que ameaça a liberdade de expressão. Como exemplo podemos citar o caso de Salman Rushdie, romancista que escreveu Versos Satânicos, e foi jurado de morte por radicais islâmicos porque teria “ofendido” Khomeini. Os relativistas logo afirmaram que o autor não respeitou as crenças islâmicas, justificando o injustificável: a ameaça de morte porque o indivíduo expressou suas idéias! O livro de Dan Brown, O Código Da Vinci, sucesso de vendas, desagradou bastante a Igreja Católica. Ora, será que vamos defender o direito do Vaticano de ameaçar o autor? Dois pesos e duas medidas, outro grande risco à liberdade.

Por fim, o cerceamento da liberdade de expressão coloca em risco o nosso progresso. É simples ver isso, bastando pensar como estaria o mundo se as idéias controversas do passado tivessem sido caladas pelo politicamente correto, pela defesa do status quo vigente. Darwin, Einstein, Galileu, Newton e vários outros não teriam tido a oportunidade de levantarem suas teorias, que ajudaram a mudar o mundo. Como diz Walter Block, “é imperativo que os inimigos da liberdade de expressão sejam vistos exatamente como são: oponentes do progresso da civilização”.

Pelo bem da humanidade, devemos abraçar essa idéia com força! Com a exceção de ameaças ou fraudes, os indivíduos devem ser livres para falarem aquilo que quiserem, não importa o quanto incomode ou choque a visão do consenso. Posso considerar um perfeito idiota o sujeito que achar tudo o que eu disse completamente idiota. Mas nesse mundo que defendo, com ampla liberdade de expressão, ambos poderemos expor nossas idéias. No dele, este artigo estaria vetado, e eu estaria perdido... 

Quarta, 09 Novembro 2005 22:00

O Lixo de Maradona

Maradona, que entende de bola e não de política, recebeu muita atenção da mídia pelos seus comentários políticos sobre o presidente americano.

O bode chegou! Todo governante autoritário em casa precisa de um bode expiatório fora, para justificar as atrocidades domésticas. Bush é o bode expiatório perfeito. Afinal, é presidente do país mais poderoso do mundo, e ainda por cima adota medidas políticas contrárias ao consenso esquerdista, predominante nas rodas de pseudos-intelectuais que abundam na mídia. Crime grave!

Não gosto de Bush, por vários motivos que sequer vem ao caso, bastando dizer que não são os mesmos que geram ódio patológico em certos acéfalos. Para começar, Bush é político, e raramente gosto de políticos. Mas o fato é que Bush representa o símbolo perfeito para a causa de todos os males do mundo, pela ótica canhestra. A ignorância, quando aliada à desonestidade intelectual, exige um rótulo que simplifique o "entendimento" do mundo. Bush passa a encarnar Lúcifer em pessoa. Se tem um furacão, é culpa de Bush. Se há miséria no mundo, culpa do Bush. Se mais um atentado terrorista ocorre, em uma série que vem sendo construída há décadas, pode ter certeza que foi culpa de Bush. Se alguém sofre de prisão de ventre, deve ter ligação com Bush. Carrapatos que matam? Tem dedo do Bush nessa história!

O aparato anti-Bush montado pelos latinos americanos foi incrível, nesta visita do presidente americano. Uma lista de "notáveis" mereceu destaque, pela quantidade de adeptos conquistados para o rebanho monolítico, como pelas acusações feitas, vindo de quem veio. Hugo Chavez, o projeto a Fidel Castro sem barba e com muito petróleo, é sempre uma atração a parte. Seus discursos inflamados, repletos de populismo, ainda emocionam as massas de idiotas úteis. Uma curiosidade científica e tanto! Chimpanzés aprenderiam mais rápido que certos humanos ou não? Eis a questão que me intriga...

Evo Morales, o cocaleiro socialista que tem boas chances de se tornar presidente da Bolívia, foi outro destaque no evento contra Bush. Se eu fosse Bush, ficaria ao menos muito contente com essa oposição. Triste seria alguém como Morales fazer um elogio a você! Certas figuras falando bem da gente é pior que o mundo nos criticando. Morales considera o capitalismo como o maior mal da humanidade. A liberdade de comprar e vender, participar de trocas voluntárias, deve ser terrível mesmo para os que gostariam de impor seus produtos goela abaixo. Talvez a cocaína seja o grande bem da humanidade então...

Por fim, o ex-craque de futebol, Diego Maradona, foi o grande articulador do movimento anti-Bush. Seu carinho por Fidel Castro chega a emocionar, e o genocida mereceu até uma tatuagem como homenagem do jogador. Entendo a amizade de Maradona com Evo Morales, afinal, este vende algo que aquele adora. Mas a paixão por Fidel parece estranha. Talvez seja pelos mesmos motivos que Chico Buarque nutre profunda admiração pelo ditador assassino: ambos são ricos e vivem bem longe da ilha presídio! Assim, com certeza, fica mais fácil falar bem do regime cubano. Afinal, se eles morassem em Cuba e vivessem com dez dólares mensais, empurrando suas filhas para a prostituição para terem o que comer, provavelmente detestariam Fidel. Claro, não poderiam nem mesmo afirmar isso, a não ser que atravessassem os tubarões até Miami.

Maradona, que entende de bola e não de política, recebeu muita atenção da mídia pelos seus comentários políticos sobre o presidente americano. Disse ele que Bush é o lixo humano! E disse isso um dia depois de trocar abraços carinhosos com Fidel Castro, o diamante humano, pela ótica do craque argentino. Como já disse, não gosto nada de Bush. Mas confesso que, diante desses relatos, não posso evitar certa simpatia pelo texano. Quem é detestado pelos admiradores de Fidel Castro sobe automaticamente no meu conceito.

Domingo, 06 Novembro 2005 22:00

Ranço Mercantilista

Temos visto, recentemente, uma grande celebração com os recordes de saldo comercial brasileiro. Isso é uma herança da mentalidade mercantilista.

“The danger is not that a particular class is unfit to govern; every class is unfit to govern.” (Lord Acton)

 

Durante o reinado de Luís XIV, as finanças francesas ficaram sob o comando de Jean-Baptiste Colbert, um dos grandes defensores da doutrina mercantilista. Colbert acreditava que a chave para o sucesso era a expansão do comércio, mantendo sempre um saldo superavitário na balança. Suas políticas incluíram o direcionamento de capital para empresas exportadoras, assim como medidas de substituição de importações, como tarifas protecionistas e até mesmo a proibição de comércio estrangeiro nas colônias francesas. Em resumo, um enorme dirigismo estatal focado no aumento das exportações.

 

O excesso de intervenção estatal acabou asfixiando os comerciantes franceses, e a indústria doméstica acabou negligenciada. Colbert ignorava certos conceitos econômicos básicos, como a identidade entre balança comercial e conta de capital. As exportações, no fundo, são os recursos usados para o pagamento das importações, em algum momento. O foco obsessivo no saldo da balança comercial ignora os efeitos na conta de capital, assim como a eficiência da alocação dos finitos recursos. Se o superávit comercial fosse o segredo para o sucesso, os Estados Unidos seriam um grande fracasso, enquanto os países do Oriente Médio seriam os ícones do sucesso. O déficit comercial americano ultrapassa setecentos bilhões de dólares, e creio que ninguém preferiria como modelo econômico o exemplo de uma Arábia Saudita.

 

Temos visto, recentemente, uma grande celebração com os recordes de saldo comercial brasileiro. Isso é uma herança da mentalidade mercantilista. Ora, o Brasil, um país pobre em desenvolvimento, está exportando poupança, na verdade. Se o país importa menos que exporta, significa que não está achando boas alternativas de investimentos domésticos, e esse saldo é enviado para o exterior pela conta de capital. Em um país como o Japão, de população mais rica e velha, faz mais sentido o superávit comercial. Os japoneses financiam investimentos em outros lugares do mundo. Mas no caso brasileiro deveríamos estar importando mais, e não comemorando as baixas alternativas de investimento produtivo no país, fazendo com que os recursos busquem melhores opções em outros lugares. São quase cem bilhões de dólares de brasileiros oficialmente no exterior, sendo quase 70% desse total sob a forma de investimentos diretos.

 

O ranço da visão mercantilista é tão forte, que o presidente Lula discursa apelando para a retórica de que sempre que vai ao exterior, consegue aumentar as exportações brasileiras, como se o governo fosse o responsável pelas exportações, não a competitividade das empresas. Os recursos são finitos, e faria muito mais sentido as empresas estarem alocando-os em investimentos para atender a demanda doméstica, ainda bastante aquém do seu potencial. Mas faltam é justamente boas oportunidades de investimentos, por causa do custo país, existente pelo excesso de intervenção estatal. A carga tributária é alta demais, a burocracia é asfixiante, a confiança dos investidores nas regras do mercado é baixa e a morosidade jurídica assusta. Exatamente pelo tamanho do Estado é que as empresas brasileiras preferem exportar poupança, em vez de investir mais no Brasil. E o governo ainda comemora...

 

A máxima laissez-nous faire é atribuída à frase que o comerciante Legendre dirigiu a Colbert, por volta do fim do século XVII. Colbert teria perguntado o que mais o governo poderia fazer pelos comerciantes, no que Legendre respondeu apenas que os deixasse em paz. O primeiro autor a empregar a frase, e usá-Ia numa clara associação com a doutrina, foi o Marquês d'Argenson, aproximadamente em 1751. O Marquês foi o primeiro homem a se entusiasmar pelas vantagens econômicas de os governos deixarem o comércio livre. Dizia ele que, para governar melhor, é preciso governar menos. A verdadeira causa do declínio de nossas manufaturas, declarava, está no protecionismo que lhes temos concedido. A seguir, em 1776, Adam Smith lançou sem clássico A Riqueza das Nações, defendendo com profundo embasamento e lógica o livre comércio. Infelizmente, o espírito de Colbert tem muito mais força na Terra Brasilis que as idéias de Smith. Triste é ter que ouvir da esquerda que o Brasil é liberal, e por isso fracassou. Os países mais liberais prosperaram, na totalidade dos casos, enquanto os países com forte ranço mercantilista, como o Brasil, são eternas esperanças futuras, já que o presente é lamentável.

 

Em vez de vibrar com o dirigismo estatal voltado para mais e mais exportações, devemos é lutar para que o Estado saia da frente da economia, e deixe as empresas livres, possibilitando que as alocações de recursos sejam bem mais eficientes. Os consumidores e pagadores de impostos agradecem!

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