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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

Quarta, 03 Maio 2006 21:00

O Fator Exógeno

A acusação mais injusta que fazem a FHC é a de "neoliberal". Maldade com os liberais!Defensores do governo petista - e eles ainda existem - têm focado bastante em números da economia, comparando a era FHC com a era Lula. Creio que o foco míope na árvore os impede de enxergar a floresta. Na verdade, a melhora em alguns indicadores econômicos vem quase toda de fora. O país surfa na onda de liquidez e crescimento mundial. No governo Lula, temos coisas boas e coisas novas. Entretanto, as boas não são novas, e as novas não são boas. O que permitiu o aproveitamento do vento externo foi justamente o PT ter ignorado tudo que sempre pregou na macroeconomia. Sem ousar neste campo, esquecendo o que sempre defendeu, ao menos não prejudicou tanto as vantagens provenientes de fora.

A acusação mais injusta que fazem a FHC é a de "neoliberal". Maldade com os liberais! FHC combateu a inflação, mas não através do corte abrupto de gastos públicos, receita liberal, mas sim com o aumento do endividamento estatal e da carga tributária. Mas justiça seja feita, seu governo enfrentou graves crises internacionais, como a da Ásia, Rússia, LTCM, Y2K, Argentina e Nasdaq. Que tal compararmos esse ambiente hostil com o contexto mundial em que Lula "governou"?

O mundo nunca passou por uma fase tão próspera assim. São várias as causas, como a entrada da China e Índia no mercado globalizado, liquidez abundante no Japão, revolução tecnológica etc. O resultado é um crescimento econômico mundial acima de 4% ao ano por vários anos seguidos, sem pressão inflacionária. Os países emergentes apresentam números ainda melhores, crescendo cerca de 6% por ano. O promissor BRIC, que junta Brasil, Rússia, Índia e China, vai ainda melhor, com o Brasil na lanterna. A China cresce perto de 10% ao ano. O Brasil tem que melhorar para ficar medíocre. Consegue ganhar do Haiti, e olhe lá! Mas ainda tem petista que comemora isso.

A balança comercial brasileira virou, apresentando elevado superávit. Novamente, nenhum mérito de Lula. Não foram as suas viagens para o Gabão ou Cuba que possibilitaram tal virada, mas sim a elevação dos preços das principais commodities que exportamos, como o minério-de-ferro. O CRB, índice de uma cesta de diferentes commidities, saiu de 200 pontos em 2002 para mais de 350 atualmente, uma alta de 75%. A China merece grande mérito por isso. O governo Lula, nenhum. Pelo contrário: seu governo contribuiu bastante para o aumento de invasões dos criminosos do MST, gerando instabilidade no agronegócio.

Falam da queda nos juros internacionais pagos pelo governo brasileiro também. Agora escutamos até petistas falando no tal "risco país", antes tratado como um bicho estranho usado por engravatados de Wall Street para criticar as propostas heterodoxas do então candidato a presidente pelo PT. De fato, o risco país despencou. Os títulos do Brasil negociam perto de 220 pontos base acima dos títulos do governo americano. Uma beleza, ainda mais se comparado aos 2.000 pontos que atingimos em 2002. Na verdade, era mais para perto dos 1.000 pontos no final do governo FHC, mas o próprio risco Lula fez o risco disparar. Depois voltou a cair, quando viram que Lula não seria na verdade o Lula que sempre havia sido. E iniciou uma forte trajetória descendente. Mérito de Lula? Complicado defender tal tese quando vemos que o risco da Turquia, que também chegou aos 1.000 pontos em 2002, está hoje abaixo dos 200 pontos. A média dos mercados emergentes, que chegou a bater nos 900 pontos em 2002, está abaixo dos 180 pontos atualmente. O spread dos títulos de high yield, de empresas americanas mais arriscadas, desabaram de 1.100 pontos base em 2002 para perto de 300 pontos hoje. Enfim, se Lula é a causa da drástica redução do risco país, ele merece o lugar de santo, não de presidente. Afinal, trata-se de um milagre ele ter feito o risco do mundo inteiro cair tanto!

Poderíamos continuar ad nauseam aqui refutando cada falso argumento que os petistas usam para enaltecer o governo Lula. Isso para não falar do fator ética, totalmente ignorado mesmo com o "mensalão" comprovado. Como os petistas não têm mais como se agarrar nessa bandeira, totalmente esgarçada pelas traças do poder, partem para o "rouba mas faz", focando nos avanços econômicos. Acontece que esses avanços, muito aquém do potencial, não são mérito algum desse governo. Suas causas podem ser encontradas em fatores exógenos.

Os petistas terão que martelar apenas no quesito economia nas próximas eleições. Seria útil que os eleitores tivessem, portanto, maior conhecimento sobre o que ocorreu de fato. A esperança dos petistas é a ignorância popular - além da compra de votos com o assistencialismo populista, claro. Os fatos jogam contra o PT, e por isso os petistas fogem tanto deles. Nosso presidente já está no mundo da lua, considerando a saúde brasileira perto da perfeição. Veremos nas eleições o quanto alienado encontra-se o povo brasileiro.
Terça, 25 Abril 2006 21:00

A Destruição do Ego

Abdicar da razão é viver como um animal irracional, reagindo por instinto. Enfim, é não ser homem!

"Não se dê aos outros a ponto de não poder mais se dar a si mesmo." (Baltasar Gracián)

 

Não há nada mais valioso num indivíduo que o seu ego, seu "eu". A integridade humana exige uma mente independente, que utiliza a razão como instrumento epistemológico maior, e considera sua felicidade própria como o mais elevado objetivo a ser atingido. Negar seu ego é negar sua existência. Viver para os outros é ser um escravo. Abdicar da razão é viver como um animal irracional, reagindo por instinto. Enfim, é não ser homem!

Muitos tentam combater isso, seja por desejo de poder sobre os outros, seja por um patológico ódio ao homem, à vida e à liberdade. Existem diversas maneiras de destruir esse ego, esse individualismo que nasce com os homens. Estar ciente desses métodos utilizados por todos os inimigos do ego é crucial para o combate desta praga que é a anulação do indivíduo como um fim em si mesmo.

Uma das formas de destruir o indivíduo é fazê-lo sentir-se pequeno, incutir culpa nele, matar suas aspirações e sua integridade. Fazem isso pregando a abnegação, afirmando que o homem deve viver para o bem dos outros, não o seu próprio. Afirmam que o altruísmo é o ideal, ou seja, o sacrifício de seus próprios interesses em prol do "bem geral". Ninguém consegue chegar lá, viver desta forma. Todos os instintos humanos clamam contra isso. O homem percebe ser incapaz de atender aquilo que aceitou como a mais nobre das virtudes, passando a sentir-se culpado. Ele se vê como um pecador, um inútil. Estando o ideal supremo acima de seu alcance, ele acaba desistindo de seus ideais, de suas aspirações. Seu valor pessoal entra em colapso. Sente-se obrigado a pregar como certo o que não consegue praticar. Sua honestidade, seu senso de integridade, desaparece. Isso faz com que o homem perca a confiança em si, sentindo-se inseguro, sujo. Torna-se assim uma presa fácil, pronto para obedecer aquele que preencher este vácuo.

Outra forma é acabar com a noção de valores do homem, matando sua capacidade de reconhecer a grandeza ou de alcançá-la. A mediocridade é colocada num altar, tudo que é "lugar-comum" passa a ser enaltecido, e desta maneira os templos estarão demolidos. Como no filme Os Incríveis, quando o filho com super poderes protesta que dizer que todos são especiais é o mesmo que dizer que ninguém o é. Acabando com a reverência, matam o heróico no homem.

Um outro mecanismo usado para o assassínio do ego é não deixar o homem ser feliz. Homens felizes não têm tempo nem interesse em servir. São livres. Por isso, os inimigos do ego não permitem a felicidade, não deixam os indivíduos terem o que querem. Fazem com que as pessoas sintam que os desejos pessoais são um mal, um pecado. As vítimas irão em busca de consolo, apoio, fuga. Os sistemas éticos estabelecidos ao longo de séculos pregam que o sacrifício está acima do prazer individual. A renúncia dos interesses particulares é colocada acima da busca individual da felicidade. A felicidade é atrelada à culpa. Jogar o primogênito no fogo é prova de amor a deus, é nobre. Deitar numa cama de pregos é nobre. Ir para um deserto, mortificar a carne, tudo que é sacrifício passa a ser visto como a meta da vida, o leitmotiv da existência humana. Porém, onde há sacrifício, existe sempre alguém recebendo as oferendas. Onde há servidão, existe um mestre. Por trás dessa pregação toda, enaltecendo o sacrifício humano, está um desejo de poder, de controlar os outros. Aceitar tais valores como nobres é o caminho da desgraça individual.

Como a razão é a maior arma contra tudo isso, claro que anular o seu valor passa a ser outro método utilizado pelos que querem destruir o ego. Assim, fazem com que a razão perca força entre os demais instrumentos cognitivos. Afirmam que ela é limitada, que há sempre algo acima dela. Que o importante não é pensar, mas "sentir". Que ninguém é dono da verdade, logo qualquer teoria é igualmente válida. As vítimas disso sequer notam que para concluírem que a razão não importa tanto, faz-se preciso usar dela.

No objetivo pérfido dessa gente, vale tudo. A meta é uma só: matar o indivíduo e chegar ao poder. A defesa é utilizar justamente a capacidade humana que tanto nos distingue dos demais animais: a razão. Somente ela pode salvar o ego, colocar o homem no seu devido lugar. Não como algo sacrificável para outros fins. Não como uma insignificante parte de um coletivismo qualquer. Não como apenas uma casca para uma outra vida imaginária. Mas como uma finalidade em si, com total direito da busca pela sua felicidade.

Quarta, 19 Abril 2006 21:00

Os Parasitas e a Decadência Moral

Quando penso nesse desvirtuamento total, me vem à cabeça a figura de um Lindberg Farias. Não é nada pessoal. Ele apenas representa um símbolo dessa completa decadência moral."Se alguns homens têm por direito os produtos do trabalho de outros, isso significa que esses outros estão desprovidos de direitos e condenados ao trabalho escravo." (Ayn Rand)

Mataram a meritocracia. Assassinaram o individualismo. Vivemos em tempos de grave corrosão moral da sociedade. São anos e anos de pregação coletivista, colocando o vago "bem comum" acima das realizações individuais. A lavagem cerebral faz com que condenem o sucesso alheio, a obra de indivíduos realmente capazes, que possibilitam um mundo melhor para a humanidade. Os empresários, os inventores, os empreendedores - todos esses passam a ser vistos como "egoístas" gananciosos, enquanto políticos e burocratas posam de nobres altruístas. Sempre com o esforço alheio, claro. Vivemos uma completa inversão de valores.

Tamanha poluição moral faz com que os benefícios da trajetória política compensem, enquanto que os riscos da iniciativa privada acabam inibindo o espírito empreendedor. Tantos privilégios, tantas regalias pavimentam uma estrada podre, onde a via política é mais atraente que a via econômica, das trocas voluntárias no livre mercado. Os agentes do setor privado são transformados em escravos, hospedeiros que entregam quase metade do que ganham para o governo e ainda são reféns da poderosa burocracia. Ser parasita rende bons frutos aqui. Muitos passam a desejar o carimbo do poder, o controle sobre os que realmente produzem e criam riquezas.

Quais os exemplos de heróis da juventude? Seria um Michael Dell, sujeito que do nada construiu um império por ter oferecido valor aos seus consumidores? Seria Sam Walton, que veio da miséria para criar a maior varejista do mundo, que emprega mais de um milhão de pessoas? Ou seria Che Guevara, um guerrilheiro assassino que só fez destruir coisas em sua vida?

Quando penso nesse desvirtuamento total, me vem à cabeça a figura de um Lindberg Farias. Não é nada pessoal. Ele apenas representa um símbolo dessa completa decadência moral. A trajetória do atual prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, demonstra bem o que quero dizer. Cursou direito em Brasília e na PUC carioca, faculdade para poucos do ponto de vista financeiro. Não completou nenhum dos dois cursos. Diferente de Dell, entretanto, não saiu para empreender e criar algo de valor para os consumidores, mas sim para incitar greves e pregar bravatas. Foi presidente da UNE, movimento formado basicamente por estudantes baderneiros, muitos admiradores do regime assassino comunista. Virou líder popular ao comandar os 'cara-pintadas' no processo de impeachment de Collor. Depois foi eleito deputado federal, transitando entre partidos como o PCdoB, PSTU e PT. Algo que vai do sonho soviético até o "mensalão". Finalmente, chegou à prefeitura de Nova Iguaçu pelo PT, recebendo um bom salário e desfrutando de todas as vantagens que os políticos costumam se auto-conceder. Vive no conforto, pregando contra o conforto dos outros.

Qual a mensagem que sua história passa para os mais jovens? Defronte a duas opções, entre trabalhar duro, estudar muito, assumir riscos e disputar vagas no mercado competitivo, ou pintar a cara, gritar chavões sensacionalistas, distribuir panfletos comunistas, incitar greves e jogar pedras em engravatados, os jovens acabam tendo como exemplo de sucesso o segundo caminho. A própria sociedade enaltece a figura do jovem político que luta pela "justiça social", enquanto chama o empresário de explorador. Mesmo que no combate contra a "desigualdade" este político aumente ainda mais a desigualdade, com seus elevados salários extraídos na marra dos pagadores de impostos, enquanto que os empresários ganham apenas quando satisfazem seus consumidores. Brasília tem, de longe, a maior renda per capita do país. Graças ao combate dos políticos contra a desigualdade.

Essa depravação de valores se alastra para todos os setores. Em vez de trabalhar duro, tentar aprender novas técnicas e aumentar sua produtividade, o "lavrador" se associa ao criminoso MST, invade algumas terras produtivas, acaba com um laboratório de pesquisas e ainda recebe infindáveis verbas do próprio governo, que deveria prender tais bandidos. O crime compensa. A baderna rende frutos no país sem lei e deturpado moralmente.

As coisas começarão a melhorar quando as pessoas entenderem que o indivíduo é um fim em si, não algo sacrificável pelo "bem coletivo". Quando aceitarem que indivíduos que criam riqueza no livre mercado merecem respeito e admiração, não o seqüestro de seus bens em nome da "igualdade". Quando os heróis da juventude forem pessoas como Dell ou Sam Walton, não Che Guevara ou Lindberg Farias. Somente assim os indivíduos empreendedores estarão livres para criar riquezas, gerar prosperidade, sem o peso excessivo de tantos parasitas, cuja existência é possível pela enorme decadência moral da sociedade.
Quarta, 12 Abril 2006 21:00

Habilidade de Resposta

Um dos grandes divisores entre o grupo de indivíduos que cresce na vida e o grupo que apenas existe, como um animal instintivo, é a coragem de assumir erros."Sempre que pensamos que o problema está lá fora, este pensamento é o problema; nós transferimos o poder para o que está lá fora nos controlar." (Stephen Covey)

Um dos grandes divisores entre o grupo de indivíduos que cresce na vida e o grupo que apenas existe, como um animal instintivo, é a coragem de assumir erros. De um lado, aquelas pessoas virtuosas que admitem seus próprios defeitos, sempre na busca sincera pela excelência, para melhorar. Do outro, aqueles fracos que necessitam de bodes expiatórios o tempo todo, que culpam o mundo ao redor pelos seus males, que se colocam como vítimas. Uns são agentes ativos na vida, os outros são passivos diante de tudo. A distinção entre ambos os grupos é gritante.

As ações humanas, por mais influenciadas que possam ser por fatores exógenos, são sempre individuais. Indivíduos agem. A responsabilidade, portanto, deve ser individual. Lembro que responsabilidade vem de habilidade de resposta, fazendo responsável pelo ato aquele que o praticou. Eximir um indivíduo da responsabilidade de seu ato é o caminho certo da desgraça. Pessoas fracassadas costumam sempre depositar a culpa dos seus erros nos outros, de preferência algo bem vago como sociedade, miséria, deus etc. Essas pessoas seriam apenas marionetes, executando ações sem qualquer livre arbítrio. Autômatos guiados por uma força oculta qualquer. Compram assim a tranqüilidade de espírito, jogando para outros a culpa dos próprios erros. Jamais saem da completa mediocridade, no entanto.

Penso nessas coisas quando vejo que o julgamento da assassina dos próprios pais irá começar. A garota logo transfere para o ex-namorado a culpa do seu ato bárbaro. Usa a maconha como bode expiatório também. Ela não cometeu o frio e violento ato, segundo sua perspectiva. Foi "levada" a isso. E onde fica a responsabilidade individual?

Extrapolando essa característica para nações inteiras, vemos que os países miseráveis costumam sempre culpar bodes expiatórios externos pela sua desgraça. São sempre vítimas, transferindo a responsabilidade para outros agentes. A receita certa para se perpetuar a miséria.

O filósofo Schopenhauer já aconselhava nesse sentido: "Não devemos procurar desculpas, atenuar ou diminuir erros que foram manifestamente cometidos por nós, mas confessá-los e trazê-los, na sua grandeza, nitidamente diante dos olhos, a fim de poder tomar a decisão firme de evitá-los no futuro". Um dos "pais fundadores" dos Estados Unidos, Benjamin Franklin, dizia que "os sábios  aprendem com os erros dos outros e os ignorantes não aprendem nem com os próprios". Esse foi um homem que buscou ser melhor a cada dia, sempre trazendo à tona seus próprios erros do passado, para com eles aprender.

O judeu Viktor Frankl, preso pelos nazistas, concluiu que "entre o estímulo e a resposta, o homem tem a liberdade de escolha". Ele decidiu reagir da melhor forma possível diante daquela terrível situação. Não escolhemos tudo que se passa ao nosso redor, mas escolhemos como reagir a tais estímulos. E o nosso fracasso deve ser sempre uma lição. "Para os vencedores, os fracassos são uma inspiração; para os perdedores, o fracasso é uma derrota", lembra Robert Kiyosaki. Uns ficam paralisados diante dos próprios erros, e logo partem para as tradicionais desculpas, jogando o problema para fora de si. Outros assumem a rédea da própria vida, entendendo que os erros devem ser enfrentados, assimilados e transformados em valiosas lições, para jamais serem repetidos. 

Afinal, as ações são individuais. A habilidade de responder por elas também. Liberdade individual só pode andar junto com responsabilidade individual. Quem foge desta, se afasta daquela. Só é livre quem assume a responsabilidade pelos seus atos, sem a busca constante por culpados exógenos.
Domingo, 09 Abril 2006 21:00

A Perfídia de Veríssimo

Desconfio muito que tanta inversão por parte de Veríssimo não seja apenas ignorância. Trata-se de alguém que escreve bem e leu bastante. Fico com outra opção.O cronista Luís Fernando Veríssimo usa e abusa de seu espaço na mídia para propaganda ideológica, sempre defendendo o fracassado socialismo. Recentemente, chamou de "detalhe" a forma pela qual o governo conseguiu as informações sigilosas da conta do caseiro que denunciou o ex-ministro Palocci. Até à Abin foi pedida uma investigação ilegal do caseiro por Palocci.

Caro Veríssimo, não estamos em Cuba, ilha-presídio que o senhor parece admirar, de longe e do seu conforto. Vivemos num país com democracia e Estado de direito. A forma pela qual as informações foram obtidas não é um simples detalhe, mas algo da maior gravidade. Mostra bem a face autoritária desse governo que o senhor tanto defendeu. Tente evitar o proselitismo que lhe é tão característico.

Agora o colunista ataca novamente, com bastante retórica sensacionalista e zero de conteúdo lógico. Escreve em artigo que tanto a "direita" como a "esquerda" sentem saudades do século XIX. Os motivos da saudade esquerdista seriam os ideais revolucionários que iriam transformar o mundo, a crença da inevitabilidade histórica do socialismo. A nostalgia direitista viria dos tempos em que trabalhadores eram explorados, segundo a estranha ótica do autor. Ou seja, de um lado a saudade pelo sonho lindo, do outro a saudade da exploração. E Veríssimo ainda conclui que foi a pregação socialista que estragou a "perfeição" direitista, calcada nessa suposta exploração. Considero difícil achar algum outro texto com tanta baboseira e inversão em tão poucas palavras!

Veríssimo usa o recente caso francês, país cuja mentalidade elitista ele adora, mostrando a luta de alguns barulhentos jovens pela manutenção das conquistas trabalhistas. Diz que aqueles que propõem a flexibilização trabalhista hoje "babariam" com a realidade do velho século, com crianças e mulheres trabalhando até 15 horas por dia. Alguém precisa avisar ao "ilustre" colunista que antes da revolução industrial estas crianças e mulheres morriam como moscas, de inanição. Será que Veríssimo não sabe que esse trabalho era voluntário, posto que a alternativa era a fome? Será que alguém com a erudição de Veríssimo desconhece que foi o avanço da técnica nesta época que possibilitou que a população inglesa dobrasse de tamanho em menos de um século, enquanto havia permanecido estagnada por vários séculos? Será que o autor ignora que a situação da Polônia, por exemplo, era caótica nesta época, e que tudo que as mulheres e crianças polonesas gostariam naqueles duros anos era das oportunidades criadas na Inglaterra?

Veríssimo tem que saber disso tudo. O que ele faz é manipular as informações, comparando a situação atual com aqueles complicados anos. Assim é fácil. Podemos até mesmo concluir que a situação no Haiti não é tão grave, comparada às condições de vida dos babilônicos sob Hamurabi. Fica faltando apenas honestidade intelectual nesta "análise"...

Fora isso, o que possibilitou uma grande melhora na qualidade de vida e condições de trabalho dos mais pobres não foi a "pregação socialista", nem de perto. Basta ver que onde mais influência teve tal pregação, mais miséria o povo experimentou. Na verdade, o que garantiu um progresso acelerado para essa gente foi justamente a lógica capitalista, com avanços tecnológicos e competição entre empregadores. Os funcionários da Dell vivem melhor que os cubanos por esta razão, diferente do que Veríssimo tenta nos convencer. Onde a produtividade do trabalho é maior, os salários tendem a ser maiores. Onde o progresso capitalista é maior, as condições do trabalho tendem a ser melhores. E onde há maior competição entre empresas, com flexibilidade de contratos, as reais conquistas dos trabalhadores tendem a ser maiores.

Mas o autor finge não ver nada disso, que é bastante óbvio. Ele finge crer que são leis escritas, sem quaisquer ligações com a realidade do mercado, que garantem a vida mansa para os trabalhadores. As tais "conquistas" na marra, "protegendo" os trabalhadores contra o desemprego e tudo mais. Se fosse tão simples, bastaria colocar no papel salários milionários e garantia de emprego eterno. Até mesmo a felicidade plena poderia ser imposta por lei. Mas a realidade é chata para os românticos sonhadores. E a realidade é que quanto maior a flexibilidade das leis trabalhistas, melhor para os trabalhadores, principalmente os mais pobres. Afinal, a proteção na marra do emprego de alguns significa a exclusão de outros, que aceitariam trabalhar por menos. Não é por acaso que a taxa de desemprego francesa já é o dobro da americana, passando de 20% no segmento dos jovens, justamente os "protegidos" pela bela lei.

Desconfio muito que tanta inversão por parte de Veríssimo não seja apenas ignorância. Trata-se de alguém que escreve bem e leu bastante. Fico com outra opção. Afinal, são artigos e mais artigos onde o cronista sempre encontra um jeito de condenar o "neoliberalismo" e enaltecer o socialismo, nunca com sólidos argumentos, sempre apelando para uma retórica vazia. Na minha opinião, é mesmo pura perfídia.
Quinta, 30 Março 2006 21:00

Agora é Alckmin!

Não sou um "alckmista" por convicção. Mas sou um "alckmista" por extrema necessidade. E acredito que Alckmin tem potencial para fazer um governo razoável, o que já é extraordinário perto da gestão sofrível de Lula.A política é a arte do possível. Sei que tal pragmatismo do realpolitik incomoda pessoas mais idealistas, nas quais me incluo. Essas pessoas, cansadas da pouca vergonha desses partidos existentes, enojadas com os políticos de forma geral, inclinam-se ao voto nulo, como única forma de protesto. Não deixo de ser simpático a tal idéia, mas considero um equívoco essa opção nas próximas eleições. Tentarei explicar melhor o porquê disso a seguir.

A premissa por trás da escolha do voto nulo é que todos são farinha do mesmo saco, tendo pouca diferença entre o PT e o PSDB. De fato, alguma ponta de verdade há nisso. Mas toda generalização leva a erros e injustiças. O PSDB é um partido que abriga corruptos, sem dúvida. E a mentalidade é por demais estatizante, longe do ideal liberal. Mas nem por isso devemos crucificar Alckmin de cara, colocando-o no mesmo barco furado que Lula. A diferença entre ambos é gritante.

Alckmin não é o candidato dos sonhos dos liberais. Está mais para uma postura social-democrata, ícone de países como os escandinavos. Mas mostrou-se bem preparado durante seu governo em São Paulo, e vem apresentando um discurso no caminho certo, de redução do Estado. O termo "choque de capitalismo", por ele usado, é justo o que o país necessita. Não será fácil aprovar as reformas no Congresso. Alckmin presidente não é sinônimo de milagre brasileiro, e quem assim sonha irá quebrar a cara. Mas é um homem sério, testado, com idéias infinitamente mais racionais e razoáveis que as de Lula. Alckmin pode não conseguir transformar em realidade aquilo que prega, mas ao menos sabe o que quer, e vai trabalhar para isso. Em sua gestão como governador, de fato reduziu impostos estaduais, com ótimos resultados. Já Lula mostrou-se um péssimo presidente, que deu muita sorte ao pegar um vento super favorável de fora. O que funcionou foi aquilo que ele não ousou mexer, enquanto as novidades foram todas caóticas. Alckmin pode não ser o ideal dos liberais, mas está longe de ser um Lula.

Com isso em mente, creio que todos aqueles que não querem espelhar-se nos fracassos mundiais devem votar no Alckmin. Quem tem asco de um Chávez, amigo de Lula, tem que votar no Alckmin. Quem sente repulsa pela turma do Foro de SP tem que votar no Alckmin. Quem fica revoltado com os abusos do MST tem que votar no Alckmin. Quem defende a social-democracia, no estilo escandinavo, tem que votar no Alckmin. E por fim, os liberais, ainda sem opção enquanto o Partido Federalista não surge, têm que votar no Alckmin também. Devemos jogar com as fichas na mesa, aceitando a realidade. Acho que a luta pelo Liberalismo de fato tem que continuar. Alckmin está longe de representar o ponto de chegada. Mas ele é, sem dúvida, o melhor caminho possível hoje para essa desejada transição. A alternativa, o presidente Lula, representa mais passos para trás, rumo ao caminho da servidão. E isso ninguém agüenta mais!

Não sou um "alckmista" por convicção. Mas sou um "alckmista" por extrema necessidade. E acredito que Alckmin tem potencial para fazer um governo razoável, o que já é extraordinário perto da gestão sofrível de Lula. Não resta dúvida: agora é Alckmin!
Sábado, 25 Março 2006 21:00

O Médico e o Monstro

Tal como na obra de Stevenson, o lado mal sempre vence a disputa com o bem nesses casos de personalidade dupla. O médico não tem forças para dominar o monstro. Este é mais forte, mais determinado, e acaba destruindo ambos no final.O médico era um homem sereno, tranqüilo, que gozava de razoável reputação. Vivia, entretanto, um outro ser dentro dele, dividindo o mesmo corpo. Este era medonho, deixando um rastro de pavor e repulsa por onde passava. O médico descobriu a poção mágica do poder, que poderia separar ambos, dando vida a um novo indivíduo, formado unicamente pelas características ruins da dupla personalidade. A impunidade, já que o monstro poderia virar médico a qualquer momento, era um convite ao crime. Desde então, ficara cada vez mais difícil controlar a fera.

O médico ainda resistia, e tornou-se até mesmo um respeitado ministro. Era uma voz de bom senso no meio de uma verborragia populista dos demais membros do governo. Mas o monstro estava lá, vivo, com seu passado de militante esquerdista, com suas ambições desenfreadas pelo poder. Dr. Jeckyl tentava ocultar, mas o passado de Mr. Hyde, que inclui formação de quadrilha e recebimento de propina mensal, ao que tudo indica, viria lhe assombrar. Até mesmo um simples caseiro iria entregar o lado mentiroso do médico, ainda que tudo tenha sido feito para calá-lo e desqualificá-lo, com métodos que remetem à ditadura.

Tal como na obra de Stevenson, o lado mal sempre vence a disputa com o bem nesses casos de personalidade dupla. O médico não tem forças para dominar o monstro. Este é mais forte, mais determinado, e acaba destruindo ambos no final.
Segunda, 20 Março 2006 21:00

As Reformas da Islândia

Intelectuais de esquerda se mostraram contrários às reformas, acusando os liberais de insensibilidade perante os pobres. Parece que a retórica sensacionalista é mesmo fenômeno mundial."The more the state 'plans' the more difficult planning becomes for the individual." (Hayek)

Em palestra no Instituto Liberal, o professor Hannes Gissurarson detalhou as profundas reformas vividas pela Islândia desde 1991, quando os liberais chegaram ao governo. Gissurarson é membro do Banco Central da Islândia, e foi vice-presidente da Mont Pèlerin, fundada por Hayek e outros notórios liberais. As sábias palavras do professor, assim como as ações práticas do governo que tomou parte, deveriam ser amplamente divulgadas em nosso país, que tanto necessita destas mesmas reformas.

O professor iniciou sua palestra falando sobre as lições de Hayek. Na essência, as lições tratam da ignorância no nível individual e da eficiência do mecanismo de transmissão de informação pelo livre mercado. O conhecimento encontra-se disseminado entre milhões de indivíduos, e as trocas voluntárias representam a melhor forma de maximizá-lo. Hayek, um grande economista com prêmio Nobel, mas que permanece um ilustre desconhecido no Brasil, exerceu forte influência nas idéias que reformaram profundamente a Islândia recentemente, tornando-a um dos países mais ricos da Europa, em termos per capita.

Os cinco pilares atacados pelo governo foram a liberalização dos mercados, a contenção da inflação, as privatizações, o direito de propriedade privada e a redução dos impostos. Os indivíduos passaram a gozar de ampla liberdade na alocação dos recursos, incluindo transferências monetárias em moedas estrangeiras. A idéia é competir inclusive com Luxemburgo pela atração de investimentos estrangeiros. A emissão de moeda cessou, já que a inflação é um fenômeno primordialmente monetário, causado pela irresponsabilidade estatal. As empresas estatais foram privatizadas, tornando-se mais eficientes. Os recursos foram utilizados para o abatimento da dívida pública, praticamente inexistente hoje. Soluções através da definição dos direitos de propriedade privada, como no setor de pesca, o mais relevante do país, mostraram-se bastante eficazes. No caso, o governo distribuiu cotas para as empresas de pesca, que passaram a ter liberdade de negociação destas, incentivando que as mais eficientes ocupassem o lugar das mais ineficientes. O direito de propriedade que garante os incentivos adequados para uma eficiente exploração dos recursos, como lembra o professor ao citar o caso dos elefantes africanos sob risco de extinção, justamente pela ausência da figura de um dono. Os impostos corporativos foram drasticamente reduzidos, de 50% para 18%, sendo que a arrecadação total aumentou, pela maior atividade econômica, efeito já abordado por Laffer. Os impostos sobre propriedade foram simplesmente abolidos. Por fim, o sistema previdenciário foi reformado, acabando-se com o modelo de benefício definido, que deu lugar às contas individuais.

Em resumo, o governo adotou o caminho liberal. O resultado não tardou a aparecer. A renda per capita, desde então, já subiu mais de 30%, chegando hoje aos US$ 35 mil. O professor reconhece que ainda faltam mais reformas liberais, como a venda da estatal de energia e maior redução dos impostos, assim como o fim das barreiras no setor agrícola. No seu entendimento, não era possível fazer tudo de uma só vez, e os liberais tiveram que definir prioridades, dentro do complexo jogo político. Mas a trajetória liberal foi traçada, e as reformas adotadas já surtiram profundo efeito positivo. A população, de cerca de 300 mil habitantes apenas, é pequena, mas vários outros países pequenos não conseguiram os resultados da Islândia. Além disso, Gissurarson lembra que parte do sucesso americano vem justamente da característica de ser formado, na verdade, por mais de 50 "pequenas nações" razoavelmente independentes. O tamanho limitado força uma abertura comercial, que tanto beneficia a economia. Se for o caso então, que transformemos o Brasil em 600 pequenas Islândias! Não dá é para manter a escusa do tamanho para não adotar as comprovadas reformas liberais.

No término da palestra, Gissurarson disse que o caminho seguido pelos liberais na Islândia não foi livre de oposição. Intelectuais de esquerda se mostraram contrários às reformas, acusando os liberais de insensibilidade perante os pobres. Parece que a retórica sensacionalista é mesmo fenômeno mundial. Como resposta, o professor explica apenas que os liberais preferem combater o problema da miséria garantindo as oportunidades para que os pobres saiam da pobreza, em vez de incentivar sua permanência lá, através do assistencialismo. E foi, de fato, o que aconteceu na Islândia. Muitos que antes sequer tinham condições de pagar impostos, hoje pagam, pois aumentaram a renda. Assim que se combate a miséria: acabando com ela, não com os ricos! É o que demonstra o caso da Islândia.

Terça, 14 Março 2006 21:00

Filhos do Brasil

Logo, a solução da miséria nacional parece não ter muita ligação com a taxa de natalidade em si. O problema é que o governo gasta demais com assistencialismo.

"Development itself is a far more powerful contraceptive than cash for condoms." (William Easterly)

Uma proposta apresentada com freqüência para a solução da miséria brasileira é o controle da natalidade. Tal sugestão independe do espectro político, abrangendo desde a esquerda até a direita. O raciocínio parte da observação de que as famílias mais ricas costumam possuir menos filhos, e portanto o excesso de prole seria a causa da miséria dos mais pobres. Temo que possa haver aqui uma confusão entre correlação e causalidade, e que estamos diante de um paralogismo, ou argumento não conclusivo.

A lógica dos defensores das medidas de controle de natalidade assume que basta distribuir preservativos que os pobres terão menos filhos. Mas há um questionamento intrigante sobre esse ponto: camisinhas já são amplamente divulgadas e vendidas a preços baixos. Se o livre mercado faz com que a Coca-Cola ou a cerveja cheguem até as massas, por que não levaria também os preservativos? Não faz sentido, e de fato, o preço dos preservativos é bastante acessível. Será que o alto preço de ter um filho não desejado não justificaria o uso de camisinhas? O problema, então, deve estar em outro lugar.

Os indivíduos reagem a incentivos. Partindo dessa sólida premissa, creio que fica mais fácil navegar pela questão da elevada taxa de natalidade entre os mais pobres. O Nobel de Chicago, Gary Becker, foi um pioneiro em considerar os incentivos individuais na questão familiar. Por mais frio que possa parecer, o ponto é que o custo de oportunidade do tempo para o rico vale mais que para o pobre. Claro, ele recebe um salário maior. Logo, abdicar disso para ter muitos filhos pode ser uma decisão ruim, e ele acaba optando por qualidade, em vez de quantidade. A causalidade parece ser inversa: quanto mais renda, menos filhos. Precisamos aumentar a renda então, não reduzir na marra os nascimentos de bebês. Aumentando o incentivo a se investir em pessoas, os pais irão naturalmente reduzir a quantidade de filhos.

Podemos observar o caso chinês, que faz tempo conta com um autoritário programa de controle de natalidade. Sem sequer entrar no mérito da questão do Estado interferir no foro mais íntimo que existe, que é a decisão sobre quantos filhos os pais querem ter, o fato é que os programas cruéis da China jamais surtiram bons efeitos, e o povo continua miserável. As coisas começam a esboçar uma melhora agora, mas não pelo planejamento familiar, e sim pela maior abertura econômica, que vem gerando emprego e renda. Se o choque de abertura perdurar, naturalmente os chineses terão menos filhos, e investirão mais neles. Mas será algo voluntário, e não como súditos do Estado.

Há algo de malthusiano nas previsões catastróficas de que uma alta taxa de natalidade levará ao aumento da miséria. Isso ignora por completo os ganhos de produtividade, e assume uma riqueza estática, tendo apenas que ser mais e mais dividida. Mas tal crença não encontra respaldo algum na experiência empírica. Os Estados Unidos apresentaram acelerado crescimento na renda per capita mesmo enquanto absorvia milhões de imigrantes pobres do mundo todo, e ainda contava com alta taxa de natalidade. De 1960 até recentemente, a renda per capita dos países desenvolvidos aumentou consideravelmente, enquanto a população praticamente dobrou nesses países. A produção de alimentos triplicou no mesmo período. Se fizermos as contas desde a Revolução Industrial, a conclusão é ainda mais impressionante. A realidade é clara: o aumento populacional não carrega nenhuma necessidade de empobrecimento. Malthus estava errado.

Logo, a solução da miséria nacional parece não ter muita ligação com a taxa de natalidade em si. O problema é que o governo gasta demais com assistencialismo. Isso gera dois graves problemas: o aumento dos impostos ou dívida pública para financiar tais gastos, que pressionam os juros e atravancam a economia; e o efeito de moral hazard, já que tira a responsabilidade dos indivíduos e a passa para o coletivo, a sociedade. Por trás disso, há uma visão coletivista, de que é um dever do Estado cuidar de "suas" crianças. O problema é que Estado é uma abstração, e sociedade não passa do somatório de indivíduos. Logo, para garantir um direito a alguém, temos que estender um dever a outro. E esse dever consome recursos que poderiam ser melhor aplicados, em setores produtivos, fossem os indivíduos mais livres.

Em resumo, a taxa de natalidade em si não é o grande vilão que a maioria costuma crer. Tampouco se combate isso com distribuição de preservativos, já que sem os incentivos não há resultado eficaz. O maior problema, ao meu ver, é a visão coletivista que cria um Estado paternalista. Sociedade é um ente abstrato, que não vai parir ninguém. As coisas podem começar a melhorar quando o fulano for filho do José e da Maria, não um "filho do Brasil". A responsabilidade tem que ser individual. Caso contrário, não há liberdade, e a miséria se alastra. Aí sim, teremos muitos "filhos do Brasil", todos bem miseráveis, sempre dependendo das esmolas do "papai" Estado...

Quarta, 08 Março 2006 21:00

Preservacionistas Culturais

Como Kant já teria dito, ninguém pode me obrigar a ser feliz à sua maneira. Até onde minhas escolhas geram impacto direto somente na minha própria vida, devo ser totalmente livre para escolher.

"Uma cultura só tem importância se for boa para os indivíduos".

(Kwame Anthony Appiah)

Em entrevista às páginas amarelas da Revista Veja, o filósofo Kwame Anthony Appiah explicou de forma bastante objetiva os riscos da visão coletivista da cultura, em detrimento ao direito de livre escolha individual. O autor é Ph.D. pela universidade de Cambridge e lecionou em Harvard, além de ter lançado recentemente o livro Cosmopolitanismo: Ética em um Mundo de Estranhos, onde defende que a globalização fez bem às culturas regionais. A globalização não uniformiza, diversifica. A reclusão é que exaure a inspiração. Culturas fechadas estão fadadas ao insucesso. Basta comparar a diversidade nos Estados Unidos, com inúmeras culturas diferentes convivendo lado a lado, com a maior homogeneização de uma Coréia do Norte, isolada do mundo.

A população deve ter a liberdade de escolha de quais produtos culturais deseja consumir. Appiah dá o exemplo das camisetas que os africanos usam, deixando de lado suas roupas coloridas tradicionais. Se as camisetas cumprem a função de cobrir o corpo e são mais baratas, que mal há em deixar as vestes tradicionais para ocasiões especiais apenas? Tirar o direito de escolha dos indivíduos em nome da preservação cultural beira o desumano, e normalmente quem pensa assim está longe, no conforto justamente de culturas mais liberais. O mesmo vale para o resto dos produtos existentes. Os indivíduos devem ser livres para decidir qual filme desejam assistir, qual música querem escutar ou qual comida pretendem comer. Quanto mais liberdade de mercado, com abertura para diferentes países e culturas, maior o número de opções disponíveis.

Infelizmente, uma sombra de hipocrisia faz com que muitos ignorem isso. Appiah chama de preservacionistas culturais aquelas pessoas com bom padrão de vida em algum país ocidental, normalmente, que olham para as culturas diferentes e exóticas como algo interessante, bonito, que deveriam ser mantidas para sempre da mesma forma. Algo como gente de classe média alta que acha legal a manutenção dos índios como índios, ainda que vários deles estejam inseridos na modernidade quando interessa, voltando a representar o papel de "bom selvagem" quando convém apenas. Essas pessoas querem, na verdade, "zoológicos" naturais. Querem congelar no tempo certas culturas, ainda que nitidamente atrasadas ou bárbaras, para a admiração do "estranho", do diferente, mesmo que isso signifique um custo enorme para os indivíduos membros dessas culturas. Como o próprio autor diz, "se o costume é ruim para o bem-estar de uma grande parcela daquela população, o fato de fazer parte da cultura não é motivo para insistir no erro". O foco deve ser o indivíduo e sua liberdade de escolha, não a tribo, a nação ou a cultura. A cultura não é um fim em si, mas um meio para a felicidade dos indivíduos.

Por isso que Appiah coloca a necessidade de uma definição entre o que vem primeiro, se os direitos humanos ou os costumes estabelecidos, por mais absurdos que estes sejam. Cortar à força o clitóris de uma mulher não é uma "diferença cultural", e sim um ato bárbaro, e ponto. O curioso é que muitos defensores da ONU, do governo mundial e dos "direitos humanos" são também os "multiculturalistas" ferrenhos, quase sempre utilizando o "dois pesos e duas medidas" para condenar um lado da moeda apenas: o ocidental. Fica mais fácil abraçar este discurso quando se está no lado mais avançado, com mais liberdades e direitos. Mas pobres dos indivíduos dessas culturas defasadas, que ficam impedidos de pegar carona na modernização do mundo.

Por fim, o filósofo nos lembra também que a parcela da sociedade que tem alguma forma de poder a preservar é a que mais resiste à influência de culturas externas. As idéias que vêm de fora desafiam as autoridades estabelecidas, e governantes ou religiosos temem a perda de seu poder. Por isso é comum vermos políticos fazendo leis que impedem ou dificultam mudanças culturais. Querem controlar a população, e nada melhor para isso que isolá-la do resto do mundo. Ninguém precisa do Estado para decidir sobre aspectos culturais. O nacionalismo, aliado ao discurso de preservação cultural, é uma poderosa arma nas mãos dos governantes. Os indivíduos, vítimas disso, pagam um elevado preço.

Como Kant já teria dito, ninguém pode me obrigar a ser feliz à sua maneira. Até onde minhas escolhas geram impacto direto somente na minha própria vida, devo ser totalmente livre para escolher. A questão cultural não deve servir como uma escusa para a escravidão de indivíduos. Estes devem ter a liberdade de escolha assegurada, não importa de qual cultura ou país desejam consumir. Os indivíduos devem poder decidir sobre suas próprias preferências culturais, sem a imposição de cima para baixo. Devemos defender a liberdade cultural, e não uma monocultura imposta pelo Estado. O próprio entrevistado termina afirmando: "Nem todo mundo tem a mesma idéia de qual é a melhor maneira de ser feliz". Eu concordo. E por isso repito: a liberdade individual está muito acima de qualquer cultura!

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