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Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

Domingo, 29 Janeiro 2006 21:00

Imposturas Intelectuais

Os leitores precisam entender que a prolixidade não significa bom conteúdo, ou que a complexidade não quer dizer lógica.

“Any intelligent fool can make things bigger, more complex, and more violent. It takes a touch of a genius - and a lot of courage - to move in the opposite direction.” (Albert Einstein)

 

De acordo com os solipsistas, a falsificabilidade de Popper não faria sentido, posto que provas inexistem. Mas a epistemologia randiana, em contrapartida, objetiva aprioristicamente determinados fatos, independentes do princípio da incerteza de Heisenberg. A própria etimologia de “fato” corrobora tal assertiva. Dependendo da esfera cognitiva, entretanto, poderemos cair na famosa incomensurabilidade de paradigma, segundo Kuhn. Restaria uma explicação somente através da topologia psicanalítica de Lacan. E assim a questão poderia se dar por encerrada, com razoável grau de certeza. Ou não.

Caro leitor, muita calma nessa hora! Se você não entendeu nada do que eu quis dizer acima, é bom sinal. Afinal de contas, realmente não quis dizer absolutamente nada. Esse artigo pretende desmascarar determinado tipo de pseudo-intelectual, que apela com assustadora freqüência aos estratagemas conhecidos para impressionar leigos.

Não estou sendo sequer original aqui, pois Alan Sokal adotou exatamente essa estratégia para desmascarar vários intelectuais. Sokal mandou para uma famosa revista um artigo com título complexo, e trechos mais obscuros que os utilizados acima. Seu artigo não só foi aceito, como gerou bastante reação positiva. Qual não foi a surpresa geral quando o autor confessou tratar-se de um emaranhado de frases soltas e sem sentido? A revolta foi grande, e Sokal decidiu transformar seus argumentos em livro, com o mesmo título desse meu artigo, refutando intelectuais do peso de um Lacan, Kuhn ou Feyerabend.

Segundo o próprio autor, “a obra trata da mistificação, da linguagem deliberadamente obscura, dos pensamentos confusos e do emprego incorreto dos conceitos científicos”. São desmontadas táticas, como o uso de terminologia científica ou pseudocientífica sem dar a devida atenção ao seu real significado, ou ostentar uma erudição superficial, usando termos técnicos fora de contexto, para impressionar. Fora isso, frases são manipuladas constantemente. Sokal, com o auxílio de Jean Bricmont, mostra que o “rei está nu”, com casos manifestos de charlatanismo. A reputação que certos textos têm em virtude de suas idéias serem “profundas”, em muitos casos, são apenas reflexo de serem na verdade incompreensíveis, pois não querem dizer absolutamente nada.

Os leitores precisam entender que a prolixidade não significa bom conteúdo, ou que a complexidade não quer dizer lógica. Precisam saber ainda que a erudição e abuso de citações não garantem o embasamento do argumento, e que o apelo à autoridade costuma ser um desvio para quem não sabe refutar concretamente um determinado ponto. Um debate intelectualmente honesto precisa contar com razoável grau de objetividade. Caso contrário, muito provavelmente estaremos diante de um embusteiro.

Deixo a conclusão para Isaiah Berlin, que em seu livro A Força das Idéias, ataca basicamente o mesmo ponto exposto aqui: "Uma retórica pretensiosa, uma obscuridade ou imprecisão deliberada ou compulsiva, uma arenga metafísica recheada de alusões irrelevantes ou desorientadoras a teorias científicas ou filosóficas (na melhor das hipóteses) mal compreendidas ou a nomes famosos, é um expediente antigo, mas no presente particularmente predominante, para ocultar a pobreza de pensamento ou a confusão, e às vezes perigosamente próximo da vigarice."

Quarta, 18 Janeiro 2006 21:00

Operação Tapa-Buracos

Em ano eleitoral, vale tudo! Até mesmo jogar milhões pelo ralo fingindo que está atacando de verdade este grave problema.

O presidente Lulla tem feito certo estardalhaço com a questão das estradas esburacadas, tentando angariar votos com os pífios e tardios investimentos para melhorar a situação delas, que é caótica. Em ano eleitoral, vale tudo! Até mesmo jogar milhões pelo ralo fingindo que está atacando de verdade este grave problema.

A maioria dos trechos rodoviários brasileiros sequer é pavimentada, enquanto o governo arrecada verdadeira fortuna com o IPVA. A CIDE, imposto arrecadado através dos combustíveis, também deveria ter destino certo, para a infra-estrutura de transportes. Mas como o dinheiro não tem carimbo, sabe-se lá onde foi parar tanta grana. Talvez nos programas populistas de esmola, que garantem votos dos desesperados, ou mesmo no "mensalão". Mas voltando à questão das estradas, o ponto é que dinheiro não falta! Entretanto, temos um verdadeiro queijo suíço, tomado por enormes crateras causadoras de acidentes fatais e perda de competitividade das empresas nacionais.

Diante de tal quadro periclitante, até mesmo o governo Lulla, patologicamente avesso à privatizações, irá leiloar concessões de novos trechos rodoviários, para o setor privado. De fato, uma medida necessária e desejável, ainda que muito pouco, muito tarde. Basta observar a qualidade dos trechos já em mãos privadas. Somente a CCR, empresa privada dona de algumas poucas concessões, investiu em 2005 quase o mesmo montante que o governo federal está disponibilizando agora na sua operação "tapa-buracos", claramente de caráter eleitoreiro. O montante liberado pelo governo permite, no máximo, fechar alguns buracos. Algo totalmente paliativo, que apenas posterga a real solução do problema. Esta seria acelerar a privatização de trechos, evidentemente com uma concomitante redução dos pesados impostos via IPVA. Não faz sentido o consumidor pagar dobrado!

Mas para fazer justiça ao nosso presidente, não é apenas ele que se utiliza dos buracos nas estradas para buscar votos. Em 2005, Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia, esteve em San Jose para, pessoalmente, tapar alguns buracos na cidade. Lógico, havia câmeras de televisão espalhadas, e o povo da pequena cidade ficou estupefato com o espetáculo. Afinal, Schwarzenegger, além de governador do mais exótico estado americano, é um famoso ator de Hollywood também. Vejo, portanto, mais similaridades entre ambos, Lulla e Arnold, fora a operação "tapa-buracos e caça-votos". Os dois são atores, sendo que credito melhor qualidade ao nosso presidente, sem dúvida. E tem mais uma ainda: ambos são "exterminadores do futuro", um na ficção e o outro na vida real.

Quarta, 28 Dezembro 2005 21:00

A Praga do Coletivismo

Se me fosse questionado qual a maior praga da Humanidade, não hesitaria muito em responder que é o coletivismo. Entendo o coletivismo aqui como a supressão do indivíduo como um ser e uma finalidade em si mesmo.

"The smallest minority on earth is the individual. Those who deny individual rights, cannot claim to be defenders of minorities." (Ayn Rand)

Se me fosse questionado qual a maior praga da Humanidade, não hesitaria muito em responder que é o coletivismo. Entendo o coletivismo aqui como a supressão do indivíduo como um ser e uma finalidade em si mesmo. Como exemplo de diferentes vertentes do coletivismo, temos várias ideologias que deixaram um rastro enorme de sangue na História. O nazismo partia de uma visão coletivista de raças, enquanto o marxismo aderia ao prisma coletivista das classes. O nacionalismo colocava a nação como um fim em si, transformando seus indivíduos em simples meios para algo maior. Há ainda um coletivismo mais complexo, das culturas, que vê o indivíduo como nada mais que um produto delas. Entre estes tipos de coletivismo, pode haver intercâmbio, evidentemente. Mas o verdadeiro denominador comum deles é o inimigo, que claramente é o indivíduo.

Na ótica coletivista, os indivíduos são apenas representantes de suas classes, raças, credos, nações ou culturas. Não são seres ativos, moldando o próprio destino, ainda que sob influência de todas essas características. São autômatos, como marionetes sem qualquer autonomia, sem responsabilidade, ou seja, habilidade de resposta. Os valores, o futuro, os interesses, tudo foi determinado pelo coletivo. Neste tipo de mentalidade, há um verdadeiro assassinato do individualismo. Cada ideologia coletivista dá prioridade a uma única característica, entre infinitas que formam cada indivíduo. Para o nacionalista, o simples local de nascimento no mapa vale mais que qualquer outro valor. Para o marxista, um burguês sempre terá mais afinidade com outro burguês, partindo de um determinismo de classes. Para o fanático religioso, apenas o credo importa, e um pérfido pode ser mais querido que um sujeito honesto, caso a religião deste seja alguma outra qualquer. Nenhuma dessas ideologias considera de forma mais equilibrada as inúmeras características individuais, assumindo ainda que cada indivíduo é um fim em si mesmo. Assim, nazistas podem exterminar judeus em nome da "raça pura", marxistas podem meter uma bala na cabeça dos burgueses em nome da "ditadura do proletariado", nacionalistas podem sacrificar alguns indivíduos em nome da "prosperidade da nação", religiosos podem lançar bombas em outros em nome da "fé redentora", e por aí vai. É o coletivismo suprimindo o indivíduo.

Essa praga coletivista vem de longa data. Platão, no livro A República, traça o que seria o Estado ideal, ainda que não exeqüível na prática. Há um claro viés coletivista, colocando os indivíduos como nada mais que instrumentos para a felicidade da "república", como se esta não fosse mais que o somatório dos indivíduos que a compõem. Caberia aos sábios, claro, determinar as regras todas, aniquilando as escolhas individuais. Normalmente, o coletivista parte do pressuposto que ele estará sempre do lado legislador, criando as regras e decidindo o rumo da felicidade alheia. O coletivista é prepotente, enquanto os individualistas respeitam as preferências individuais, com maior humildade. Voltando a Platão, temos passagens bastante autoritárias no livro, proferidas supostamente por Sócrates, como: "Deixaremos ao cuidado dos magistrados regular o número dos casamentos, de forma que o número dos cidadãos seja sempre, mais ou menos, o mesmo, suprindo os claros abertos pelas guerras, enfermidades e vários acidentes, a fim de que a república nunca se torne nem demasiado grande nem demasiado pequena". Ou ainda: "Os filhos bem nascidos serão levados ao berço comum e confiados a amas de leite que terão habitações à parte em um bairro da cidade. Quanto às crianças enfermiças e às que sofrerem qualquer deformidade, serão levadas, como convém, a paradeiro desconhecido e secreto". O avanço dos "iluminados" sobre a liberdade individual não acaba por aí: "As mulheres gerarão filhos desde os vinte até os quarenta anos; os homens logo depois de passado o primeiro fogo de juventude, até os cinqüenta e cinco".

Platão foi muito além, defendendo o fim das propriedades dos guerreiros, e deixando todas as decisões importantes para os poucos sábios. Essa outra passagem deixa claro que a república estaria muito acima, em grau de importância, dos indivíduos: "Assim, em nossa república, quando ocorrer algo de bom ou de mau a um cidadão, todos dirão a um tempo meus negócios vão bem ou meus negócios vão mal". Todos participarão das mesmas alegrias e das mesmas dores, segundo suas próprias palavras. Homens, desta forma, não são mais homens, mas cupins! A república platônica conquistou sempre uma legião de seguidores românticos. O fim da propriedade individual, tudo comum a todos. Nada mais coletivista. Nada mais absurdo!

Thomas More iria resgatar esse sonho coletivista com força em seu Utopia, bastante influenciado por Platão. A utopia de More muito se assemelha ao comunismo, tanto que este mereceu uma estátua na União Soviética. Infelizmente, o resultado prático é bem diferente do imaginado, e Utopus acabou em um gulag da Sibéria. Nessa passagem notamos a semelhança: "Esse grande sábio (Platão) já havia percebido que um único caminho conduz à salvação pública, a saber, a igual repartição dos recursos". Para isso, seria suprimida a propriedade privada. Os marxistas foram em linha semelhante, com a máxima "de cada um de acordo com a capacidade, para cada um de acordo com a necessidade". Ora, quem decide quais as necessidades individuais? E quem decide sobre as capacidades individuais? Claro, os "sábios". Os defensores dessas atrocidades sempre se colocam como parte integrante dos "iluminados" que irão moldar a sociedade, controlar os demais indivíduos, meios para o "bem maior". Com o tempo, ninguém mais pode nada, e todos precisam de tudo. Não há como o resultado ser diferente do terror soviético.

Tommaso Campanella surgiu apenas requentando o mesmo prato azedo, em sua Cidade do Sol. A mesma linha coletivista, tratando homens como abelhas, que trabalham para a felicidade da "colméia". Campanella sugere roupas iguais, tudo igual, e os filhos também serão propriedade "comum". Todos iguais, mas sempre uns mais iguais que os outros. Os tais "sábios" sempre entram em cena, para comandar o show. Os indivíduos são apenas ratos de laboratórios, ferramentas "científicas".

Os nacionalistas representam também um enorme câncer coletivista. Friedrich List, no século XIX, já dizia que somente onde o interesse dos indivíduos estivesse subordinado ao da nação, haveria desenvolvimento decente. Como se nação tivesse interesse! List foi totalmente contrário ao individualismo de Adam Smith, e colocava a nação como um ente vivo, com desejos e interesses, que justificavam inclusive o sacrifício de uns "simples" indivíduos. Quem saberia dizer quais os interesses da tal nação? Com certeza, os sábios, List incluído. Assim, a glória futura da nação valeria mais que tudo. Hitler não foi lá muito inovador...

Existem outros infinitos exemplos dos males que a mentalidade coletivista gera, mas creio ter deixado claro o ponto. Somente quando os indivíduos forem tratados como um fim em si, como agentes ativos de suas próprias vidas, ainda que influenciados pelas diversas características mencionadas, mas com responsabilidades individuais, o mundo será mais justo. Cada um deve tentar ser feliz à sua maneira, respeitando a liberdade alheia. Devemos ter cuidado com os "sábios iluminados", que conhecem o caminho "certo". Os valores e as atitudes individuais são o que importam. Onde nasceu, qual religião pratica, a qual classe pertence, tudo isso me parece completamente secundário, ou pelo menos nenhuma dessas características merece o monopólio da relevância. Fora isso, jamais os fins justificam os meios. Eis o que defende o Liberalismo, na contramão das ideologias coletivistas, quase sempre genocidas. A melhor arma contra a praga do coletivismo é, sem dúvida, a defesa da ampla liberdade individual.

Quinta, 22 Dezembro 2005 21:00

América Latrina

As idéias defendidas pelo populista Morales nada têm de novidade, apesar da retórica em nome do "novo socialismo".

O índio cocaleiro Evo Morales venceu as eleições para presidente na Bolívia, levando o Movimento ao Socialismo (MAS) ao poder. As idéias defendidas pelo populista Morales nada têm de novidade, apesar da retórica em nome do "novo socialismo". Morales pretende estatizar empresas e depositar total controle no Estado, que definiria até mesmo o lucro de cada empresa. Sabemos muito bem onde essa rota estapafúrdia leva: miséria total, fome e desemprego, quando não gulags e paredons, para os "egoístas" dissidentes.

O continente deve estar disputando com a África a posição de mais miserável do mundo. Só pode ser isso! Aquilo que destroçou por completo os povos do Leste Europeu veio encontrar guarida nessas terras tupiniquins. Se errar é humano e insistir no erro é burrice, o que ocorre na América Latina é prova inconteste de total acefalia. Temos um time e tanto de governantes, que incluem figuras pitorescas como Hugo Chávez, Fidel Castro, Nestor Kirchner, Tabaré Vasquez, Lulla da Silva e agora Evo Morales. Nessa verdadeira lista de terror, até que o "nosso" Lulla fica mais fácil de engolir.

O nacional-populismo ainda encontra uma legião de fanáticos seguidores por aqui, não obstante as nefastas conseqüências que trouxe para toda a região ao longo de décadas. Curioso são as contradições dessa gente, que prega o nacionalismo xenófobo no seu quintal, mas exige atitude oposta dos vizinhos. O caso da esquerda brasileira com a Petrossauro é sintomático. Afirmam que o petróleo é "nosso", defendendo a manutenção da empresa como uma estatal. Ao mesmo tempo, os bolivianos autômatos, seguidores de Morales, pretendem expropriar as multinacionais e passar o controle do gás boliviano para o "povo", ou seja, o Estado. A Petrobrás é a maior investidora internacional no setor. Logo, a esquerda brasileira, que apoia Morales, defende um governo que quer expropriar a propriedade do povo brasileiro em suas terras. Masoquismo? Não sei. Mas as eternas contradições nunca incomodaram muito a esquerda. Acho que consomem muito óleo de peroba.

Os povos ao sul do Equador estão seguindo nos detalhes o manual do perfeito idiota latino-americano. Culpam os bodes expiatórios pelos males causados pela hipertrofia estatal, e como solução pedem mais Estado. Querem sanguessugas para a cura da leucemia! Não resta muita dúvida de que não temos o menor "risco" de dar certo. Para avacalhar, vamos logo eleger as ilustres representantes da ONG Davida, donas da Daspu, para o Congresso. Assim, ao menos, a prostituição política fica mais transparente. E vamos alterar o nome do continente para América Latrina. Me parece mais adequado e condizente com nossa lamentável realidade.

Sexta, 16 Dezembro 2005 21:00

Quem Foi JK?

Com o conhecimento dos fatos, fica mais difícil idolatrar tanto assim JK, o “mito” da política nacional.

Vem aí a nova minissérie da Rede Globo, sobre o ex-presidente JK. Somente pelas chamadas nos intervalos, fica claro que o viés será bastante pró Juscelino, pintando um quadro lindo sobre seu governo e sua pessoa. Depois do que fizeram com a imagem da comunista Olga, espero qualquer coisa! Melhor então resgatar logo alguns fatos. Quem foi JK?

Juscelino iniciava seu governo numa fase de grande conturbação, com sua posse sendo questionada pela pequena margem de ganho e um sistema de apoio instável. Tinha plena consciência de que a essência da democracia é a administração de conflitos, e revelou-se um exímio equilibrista político. Eis seu grande “mérito”: um político nato!

JK revelava um toque de antiamericanismo, alegando a indiferença com que fora recebido seu plano de desenvolvimento e a falta de sensibilidade de Washington às aspirações latino americanas. Enxergava atitudes conspiratórias nas organizações internacionais, particularmente no FMI, supostamente interessado na "aniquilação do Brasil" e em manter-nos na situação colonial de fornecedores de matérias-primas. Esse discurso culminou no rompimento com o FMI no fim de seu governo, em discurso extremamente nacionalista ao lado de Luís Carlos Prestes. Podia ter ficado sem essa mancha em sua história.

No começo de seu governo, o câmbio era uma variável chave em questão. Roberto Campos e outros economistas mais bem preparados tentaram convencer Juscelino de que uma reforma cambial se fazia necessária, pondo fim no sistema duplo de câmbios, que resultava num rombo da balança de pagamentos. Representava uma taxação indireta para exportadores subsidiando o consumo de produtos importados, como petróleo e papel. Mas JK acreditava no mito que "desvalorização derruba governos", e não levou adiante esta importante reforma, que poderia ter colocado o Brasil em posição similar aos Tigres Asiáticos na década de 80. Logo, JK defendeu um modelo errado de taxas de câmbio artificialmente sobrevalorizadas. O país pagou um elevado preço por tal erro.

Em termos de gastos públicos, JK foi altamente irresponsável. O projeto faraônico de Brasília é o melhor exemplo, tendo custado cerca de 3% do PIB e sem nenhuma grande justificativa racional por trás. Não se tendo tornado nem um pólo industrial, nem um pólo comercial auto-sustentável, Brasília viria a transformar-se ao longo dos anos numa inexorável fonte de déficit, sempre cobertos pelo Tesouro.

A implantação da indústria automobilística era a “menina dos olhos” de JK. Entretanto, tocou este projeto com incrível pressa e irresponsabilidade. O índice de nacionalização chegou a 90%, que num mercado ainda restrito, impediu os benefícios de uma economia de escala. Além disso, partiu com mesma velocidade e intensidade para produção de automóveis de passageiros e caminhões e tratores, que deveriam ter aguardado uma indústria já mais avançada dos primeiros, que acarretaria um barateamento de componentes. Isso tornaria menos dispendiosa a fabricação de tratores e veículos utilitários, fundamentais para o desenvolvimento industrial competitivo do país. Demonstra bem o "desenvolvimento" a qualquer custo de JK.

As conseqüências desse "desenvolvimento às caneladas" de JK começaram a cobrar seu preço, com a inflação saindo de 7% em todo o ano de 1957 para 9% apenas no primeiro semestre de 1958. As perspectivas do balanço de pagamentos eram sombrias, com rombos crescentes. Juscelino se persuadira, então, de que a mobilização nacionalista do país reconquistar-lhe-ia espaço político. Assim, rompeu com o FMI, com intensa mobilização popular, que lhe trouxe a curto prazo grandes dividendos políticos. No seu ver, ele tinha salvo o Plano de Metas. Na realidade, ele tinha apenas decretado a permanência de um modelo errado e insustentável de desenvolvimento, condenando o país à bancarrota cambial. Na prática, portanto, as teses de Juscelino eram uma subvenção ao consumo, que subtraía recursos que poderiam ser destinados ao investimento de fato.

Apesar de tantas evidências históricas desses erros cometidos por JK, nada impediu que ele se transformasse num mito nacional. Isso não é tão difícil de entender. Qualquer governo consegue apresentar números aparentemente interessantes por um curto período de tempo, deixando a conta a pagar para seu sucessor. JK foi um exemplo disso. Claro que tinha várias qualidades, e sua ideologia "futurível" transformou o desenvolvimentismo numa fonte de otimismo psicológico para o país. Mas o fato é que JK colheu os dividendos do que pareceu um tempo áureo para o Brasil, mas deixou um enorme rombo como herança. Como diz Milton Friedman, "não existe almoço grátis". Não se faz, de forma prudente, 50 anos em 5, da mesma forma que não se faz um bebê em um mês engravidando 9 mulheres diferentes: certas coisas simplesmente levam tempo. Infelizmente, a visão dos leigos é míope, e alcança somente o imediato.

Com o conhecimento dos fatos, fica mais difícil idolatrar tanto assim JK, o “mito” da política nacional. Mas com uma dose de manipulação dos autores, e forte pitada de ignorância popular, nada é impossível. Tornam a tarefa do iconoclasta algo um tanto hercúleo!

Domingo, 11 Dezembro 2005 21:00

Ouro Negro

Desde que Edwin Drake fez a primeira perfuração bem sucedida na Pensilvânia em 1859, o petróleo tem sido o recurso mais fundamental do mundo industrializado, deixando o carvão para trás.

"My crispest conclusion is this: it is virtually impossible for Saudi Arabia ever to produce the 20 to 25 million barrels a day envisioned by the forecasters." (Matthew Simmons)

Desde que Edwin Drake fez a primeira perfuração bem sucedida na Pensilvânia em 1859, o petróleo tem sido o recurso mais fundamental do mundo industrializado, deixando o carvão para trás. Seu domínio já dura mais de um século, sem parecer ameaçado no futuro visível. Entretanto, existem riscos do lado da oferta, que pode estar chegando ao seu pico, enquanto a demanda continua crescente, principalmente pelos novos consumidores, como os colossos China e Índia. Essa combinação entre demanda crescente e oferta limitada poderá jogar o preço do petróleo nas alturas. O movimento já pode ter começado, tendo o preço do barril triplicado desde 2002. Talvez o mundo tenha que aprender a conviver com novos patamares de preço do petróleo.

Vale antes um caveat: tentar prever o preço do petróleo ou o declínio da sua produção é uma tarefa quase impossível. No excelente livro The Prize, onde Daniel Yergin faz um relato brilhante da história dessa commodity, vemos que ainda no século XIX alguns "especialistas" alertavam para a queda iminente e vertiginosa da produção de petróleo. Erraram feio! Especialistas com PhD e CEOs de empresas vivem errando em suas previsões. Esse é o ponto que concede algum conforto, pois veremos adiante que os riscos de um declínio na produção mundial de petróleo são concretos.

As informações a seguir vêm principalmente do livro Twilight in the Desert, de Matthew Simmons, um especialista da indústria de energia com MBA em Harvard. É consenso na indústria que a Arábia Saudita possui capacidade ociosa e poderá sempre servir como fiel da balança no setor, suprindo a demanda não atendida. O ponto que Simmons chama a atenção diz respeito justamente a esta crença, baseada mais no desejo que nos fatos. Veremos de forma bastante simplificada suas principais conclusões.

Em primeiro lugar, há muito pouca informação confiável e disponível do setor petrolífero da Arábia Saudita, que responde por cerca de 13% da produção mundial de petróleo. Os relatórios por campo deixaram de ser publicados há mais de duas décadas. A transparência vem desaparecendo, e uma camada de segredo esconde os principais dados da Aramco, estatal responsável pelo petróleo. Os poucos dados disponíveis, entretanto, apontam para inúmeros problemas nos principais campos do país, mas são largamente ignorados pelos analistas. Declarações de funcionários do tempo em que a Aramco pertencia às empresas estrangeiras corroboram com a visão de que podem existir diversos problemas de produção na Arábia Saudita. Entrementes, a Aramco publica ter mais de 250 bilhões de reservas provadas, valor estável por 17 anos, período no qual o país produziu quase 50 bilhões de barris de petróleo. Como pode, sem nenhuma grande descoberta nova? Em 1977, a empresa reportava 100 bilhões de barris de reservas. Em 1979, ela foi totalmente nacionalizada, e deixou de reportar os dados por campo. Entretanto, em 1988 a empresa reportava um aumento de 100 bilhões de barris nas reservas. Como confiar nesses números?

Em segundo lugar, algo como 90% de todo o petróleo produzido na Arábia Saudita veio de apenas 7 campos gigantes, e todos eles estão maduros e velhos, mas ainda são responsáveis pela mesma parcela da produção total. Os dois maiores, Ghawar e Safaniya, produzem cerca de 75% do total. Vários campos menores foram descobertos ao longo dos anos, mas nenhum chegou a produzir enormes quantidades de petróleo. Isso a despeito dos pesados investimentos do reino, sempre utilizando tecnologia do estado da arte. A verdadeira história do petróleo na Arábia Saudita difere bastante da sabedoria popular. Desde a década de 1970, nenhum grande campo promissor foi descoberto, mesmo com muita dedicação e investimento por parte da Aramco.

Outro problema é o uso da injeção de água para manter elevadas pressões nos poços. O país iniciou este experimento em 1956, conseguindo eliminar o problema da capa de gás que se forma no topo do poço e mantendo o fluxo de petróleo elevado. Entretanto, tal esforço não vem sem custos. A super produção pode levar ao declínio da capacidade produtiva mais rapidamente. A corrosão é outro problema. Como os donos estrangeiros da Aramco sabiam das intenções do governo de comprar suas participações, podem ter acelerado o uso dos campos para extrair o máximo de petróleo no menor tempo possível. Em menos de uma década, a produção de petróleo na Arábia Saudita cresceu por um fator de 4! Não há nada similar na história do petróleo mundial. As conseqüências desse abuso ainda são desconhecidas.

Em 2004, a Saudi Aramco revelou seus planos para investimentos em exploração e produção de petróleo, e o orçamento até 2007 projetava US$18 bilhões de gastos, um aumento de um terço frente ao gasto médio dos últimos 10 anos. Tais investimentos, entretanto, não buscam o aumento da produção, mas apenas repor a capacidade perdida. Informações fragmentadas como esta, se compiladas e concatenadas por um cético, podem levar à conclusões alarmantes. No restante da península árabe, incluindo Yemen, Oman e Emirados, a exploração tem sido intensa, sem muito sucesso na descoberta de novos campos. O mesmo ocorre com Jordânia e Irã. O rei dos reis, Ghawar, que já trouxe ao mundo algo como 55 bilhões de barris de petróleo, foi descoberto em 1948, seguido pelo Abquaiq 8 anos depois. Desde 1968, entretanto, nenhum campo de peso foi encontrado na Arábia Saudita. O pico de produção do Ghawar se deu em 1981, quando foram produzidos 5,7 milhões de barris diários.

Um estudo comparativo feito com outros grandes campos de diferentes países mostra um certo padrão na curva de produção. Eventualmente, todos atingem o pico! Na média, a produção cai pela metade, pelo menos, nos 10 anos após o pico. Foi assim na Rússia, no Mar do Norte, no Irã, enfim, na grande maioria dos casos. Quando os soviéticos expandiram a produção de forma agressiva, dobrando o volume entre 1978 e 1988, a queda foi drástica depois. A produção total caiu de 12,2 milhões de barris diários em 1989 para 7,1 milhões 7 anos depois. Até quando o rei Ghawar irá agüentar manter seu ritmo de produção em torno de 5 milhões de barris diários? É uma incógnita...

Sobre os combustíveis alternativos, não cabe um aprofundamento aqui. No livro The Oil Factor, Stephen Leeb dedica um bom espaço para defender sua teoria de que não temos substitutos viáveis no curto prazo. São inúmeros problemas em cada um deles, tanto técnicos como comerciais. Energia solar, nuclear, cada uma encontra infinitas barreiras pela frente, não representando um plano B viável. Simmons concorda que um dos maiores riscos atualmente é a ausência desse plano B, de uma alternativa. Ambos acreditam que o petróleo, no médio prazo, tem uma só direção. Vai subir! Sem falar dos riscos de uma guerra nova, envolvendo o Irã, por exemplo. E destacando que a maior parte dos países produtores de petróleo contém problemas políticos, como Nigéria e Venezuela, sem falar do Oriente Médio. Riscos de rupturas nesses países não devem ser descartados.

Não quero ter a pretensão de acertar o preço futuro do petróleo, que chegou a bater em US$70 por barril recentemente. Mas juntando os dados que li nos diferentes livros, não ficaria nada espantado se visse o petróleo acima de US$100 por barril em breve. Muitos outros fatores podem alterar radicalmente este cenário. Porém, estou bastante convencido de que, ceteris paribus, entramos em uma era de novo patamar de preço para o ouro negro.

Sexta, 09 Dezembro 2005 21:00

O Custo Chávez

Nada mais perigoso do que uma análise totalmente parcial, fruto do uso de lentes míopes que resultam da ideologia dogmática.

Nada mais perigoso do que uma análise totalmente parcial, fruto do uso de lentes míopes que resultam da ideologia dogmática. O velho brocardo já dizia que o pior cego é aquele que se recusa a enxergar. Assim são todos os que comemoram o crescimento espetacular da economia venezuelana em 2004, que chegou a quase 18%. Os hormônios dos populistas logo se exaltam, e uma tentação incontrolável pela heterodoxia demagógica toma conta de seus cérebros atrofiados. Eis o risco de abdicar da razão em nome da fé ideológica.

A Venezuela é altamente dependente do petróleo. Esta commodity responde por cerca de um terço do Produto Interno Bruto do país, assim como 80% do total das exportações. Corresponde ainda a metade da receita do governo. Poderíamos afirmar que a Venezuela é uma grande empresa de petróleo. Infelizmente para os cerca de 25 milhões de venezuelanos, uma empresa estatal. Interesses políticos dominam a pauta da PDVSA, cujo resultado não poderia ser outro que não a ineficiência. Mas o fato é que a natureza fez sua parte, e o resto do mundo, crescendo de forma impressionante, completou o trabalho. A Venezuela tinha tudo para estar vivendo em um céu de brigadeiro. Entretanto, está muito longe disso, mais perto de um céu com pesadas nuvens negras. A culpa toda é do governo e seu protótipo a ditador, Hugo Chávez.

O preço do barril de petróleo, medido pelo WTI, estava perto dos US$20 em meados de 2002. Com a forte demanda, puxada em boa dose pela China, esse preço triplicou, oscilando atualmente próximo dos US$60. A Venezuela exporta mais de 2 milhões de barris diários. Usando matemática elementar, temos que apenas o efeito do aumento do preço por barril geraria algo como US$80 milhões por dia a mais para o país. Isso é equivalente a US$2,4 bilhões por mês, ou aproximadamente US$30 bilhões por ano. O PIB da Venezuela em 2003 estava perto de US$125 bilhões. Ou seja, esse incremento causado apenas pela variação do preço do petróleo significaria um aumento de mais de 20% no valor total.

Não obstante, o PIB venezuelano sofreu abrupta queda em 2002 e 2003, da ordem de 9% por ano. O crescimento de quase 18%, portanto, é calculado em cima de uma base extremamente baixa. Analisando o triênio de 2002 a 2004, vemos que a economia venezuelana ficou praticamente estagnada, enquanto o mundo cresceu bastante, para não falar dos países produtores de petróleo. Em resumo, enquanto o petróleo, de longe o principal produto venezuelano, triplicou de preço, a economia do país ficou atolada no lamaçal criado pelo populismo de Chávez. Isso sem nada falar da inflação, que está em patamares extremamente elevados na Venezuela, ainda acima de 15% ao ano. A miséria na Venezuela aumentou, mesmo com tantos petro-dólares entrando no país. A Venezuela ostenta a triste posição de 146 em liberdade econômica medida pelo Heritage Foundation, em um total de 155 países. E na eterna mania que alguns têm de idolatrar o fracasso, ainda conseguem comemorar tamanha mediocridade. Viva Chávez!

O mercado financeiro acusou o golpe, e como bom reflexo da confiança dos investidores no país, mostra que a Venezuela vai de mal a pior. Neste ano, os países com melhor performance na bolsa de valores são Dubai, com alta de 152% em dólares, Jordânia, com 106%, Arábia Saudita, com 105%, Kwait, com 86%, e Rússia, com alta de 76%. Todos são, não por coincidência, países bastante dependentes do petróleo. E onde está a Venezuela neste ranking? O índice de ações da Venezuela amargou uma queda violenta de 40% em 2005, simplesmente a pior performance do mundo! Eis o custo Chávez.

Reparem que estou focando aqui exclusivamente nas questões econômica e financeira, pois se fosse falar de liberdades, a Venezuela ficaria ainda pior na foto. A imprensa tem perdido enorme grau de liberdade, a intervenção estatal nas empresas beira o fascismo e a democracia anda totalmente capenga. Algo como 75% dos eleitores não compareceram às urnas nas últimas eleições. Chávez é uma espécie de Fidel Castro, só que sem a barba, e com muito petróleo. Pobres venezuelanos, caminhando rumo à desgraça cubana. 

Quinta, 01 Dezembro 2005 21:00

A Transformação da Nova Zelândia

Existe vasta experiência empírica para corroborar com a lógica e eficácia das teorias liberais, e tenho dedicado alguns artigos ao tema. Os casos de sucesso de Hong Kong e Cingapura já refutam de cara vários dogmas esquerdistas.

Existe vasta experiência empírica para corroborar com a lógica e eficácia das teorias liberais, e tenho dedicado alguns artigos ao tema. Os casos de sucesso de Hong Kong e Cingapura já refutam de cara vários dogmas esquerdistas. Mas como ideologias costumam cegar para os fatos, alguns discípulos de Marx ainda conseguem ignorar a estrondosa evidência do sucesso liberal, apelando para escusas como o tamanho desses lugares. Ora, mesmo que outros países pequenos, como Haiti ou Cuba, sejam completamente miseráveis justamente pelo forte afastamento da receita liberal, isso não parece ser suficiente para derrubar esse “argumento” desesperado de quem foge da verdade como o diabo foge da cruz. Portanto, decidi escrever algo sobre o caso da enorme transformação da Nova Zelândia, após uma série de reformas liberais. Tratando-se do mesmo país, outras variáveis ficam isoladas, como o tamanho da nação, sua cultura etc. Podemos, assim, verificar em detalhes as mudanças ocorridas como conseqüência do maior grau de liberdade econômica adotado.

As reformas que alteraram o rumo da Nova Zelândia começaram em 1984, paradoxalmente por um governo tido como de centro-esquerda. Como a cor do gato é menos importante do que o fato dele comer ou não o rato, veremos que as medidas tomadas pelo Partido Trabalhista tiveram forte cunho liberal, e por isso foram eficientes na captura do rato. Ocorreram privatizações, a intervenção estatal na economia foi bem reduzida, o welfare na indústria e agricultura foi cortado e ocorreu uma mudança de foco do imposto de renda para consumo. O governo chegou a propor, sem sucesso, um imposto flat de 21%. A economia experimentou um expressivo crescimento, de cerca de 4% ao ano por um longo período. Foi o maior crescimento de emprego entre todos os países da OECD.

Creio ser relevante voltarmos um pouco no tempo. A Nova Zelândia era um dos países mais ricos em termos per capita no começo do século XX. Foi após o governo populista e corporativista de Robert Muldoon que o país viu abrupto declínio de riqueza relativa. Políticas protecionistas e interventoras fizeram com que a Nova Zelândia fosse perdendo rapidamente posições no ranking para países mais liberais. Medidas claramente socialistas, como controle de preços e salários e elevado gasto público para comprar o apoio dos sindicatos, plantaram as sementes do fracasso. Em apenas 10 anos, a partir de 1974, a dívida externa subiu de 11% do PIB para 95%! A inflação estava em dois dígitos. Foi neste contexto que se deu a mudança de trajetória, rumo ao maior liberalismo econômico, que salvou o país.

Os reformadores foram influenciados por pensadores como Mancur Olson, Ronald Coase e James Buchanan. Os subsídios governamentais para indústria e agricultura caíram de 16% dos gastos públicos para apenas 4%. Desde a drástica redução nos subsídios agrícolas, o setor aumentou sua parcela no PIB, e o ganho de produtividade foi espetacular durante anos, acima de 6% ao ano por quase uma década! A reforma fiscal transformou a Nova Zelândia num dos países com a estrutura mais linear de impostos, e a maior taxa de imposto de renda caiu pela metade, de 66% para 33%. O mercado de trabalho foi liberalizado, e o desemprego caiu bastante. Atualmente, está em torno de 4%. O banco central teve autonomia operacional com mandato explícito para a estabilidade de preços, e a inflação foi controlada. O Ato de Responsabilidade Fiscal passou a exigir que o governo publicasse objetivos de longo prazo para indicadores-chave como gasto público, arrecadação fiscal e endividamento estatal. A Nova Zelândia experimentou oito anos consecutivos de superávit fiscal, uma verdadeira ruptura das décadas de déficit.

Atualmente, a Nova Zelândia ocupa a quinta posição no ranking de liberdade econômica do Heritage Foundation. A participação da agricultura ainda é relevante na produção nacional, e o setor emprega cerca de 10% da mão-de-obra total. Os subsídios agrícolas, entretanto, são os menores entre os países desenvolvidos. A economia é uma das mais desregulamentadas da OECD, e aproximadamente 95% das importações são duty-free. O ambiente econômico é transparente e competitivo, com reduzida burocracia. Como resultado disso tudo, a renda per capita cresceu vários anos seguidos, ultrapassando a marca dos US$20 mil.

A Nova Zelândia está longe de ser um paraíso liberal. O governo ainda gasta muito, e intervém mais que o necessário na economia. Faltam reformas ainda mais liberalizantes para que o país alcance um patamar de liberdade e riqueza como o de Hong Kong e Cingapura. Entretanto, analisar a experiência da Nova Zelândia é um exercício bem interessante, por mostrar os grandes avanços frutos da maior aproximação da receita liberal, curiosamente iniciada por um partido de esquerda. Atualmente, as conquistas econômicas, resultado do bom senso e respeito às leis de mercado, tornaram-se “vacas sagradas”, e o debate político acaba focado em outros temas, como ocorre na Inglaterra desde Thatcher. Melhor para os 4 milhões de habitantes da Nova Zelândia, que agradecem essa boa transformação.

Sábado, 26 Novembro 2005 21:00

O Caso de Cingapura

Com tal postura, partindo de uma forte liberdade econômica, reduzida burocracia e intervenção estatal, Cingapura foi capaz de prosperar, mesmo sem recursos naturais.

Cingapura foi fundada como uma colônia britânica em 1819. Ela juntou-se à Federação da Malásia em 1963 mas se separou dois anos depois, tornando-se independente. Atualmente, é um dos países mais prósperos do mundo, em termos per capita. Boa parte desse sucesso deve-se ao elevado liberalismo econômico. O porto de Cingapura é um dos mais ocupados do mundo, e sua plena abertura comercial possibilita o constante progresso da nação.

Os recursos naturais do país são praticamente nulos, e a pesca é uma das poucas atividades que podem ser obtidas diretamente da natureza por lá. A população é de cerca de 4,4 milhões de habitantes, com expectativa de vida ao nascimento de 81,6 anos. Existem poucos analfabetos, uma boa mistura religiosa convivendo pacificamente, a grande diversidade de línguas faladas. A mortalidade infantil é muito baixa, em 2,29 mortes a cada mil nascimentos.

O país é conhecido pelo rigor de suas leis, que são baseadas no common law inglês. A economia é altamente desenvolvida, e calcada no livre mercado. O país ocupa a segunda posição no índice de liberdade econômica do Heritage Foundation. A economia é fortemente dependente das exportações, particularmente de eletrônicos e manufaturados. Durante a crise asiática, o crescimento sofreu um revés, mas já foi retomado em ritmo acelerado, acima de 8% em 2004. O país não tem agricultura, e cerca de um terço do Produto Interno Bruto vem da indústria, com o restante vindo de serviços. A taxa de desemprego é ínfima, um pouco acima dos 3% apenas. A renda per capita chega a quase US$30 mil, entre as maiores do mundo. Qual o segredo de Cingapura?

O governo de Cingapura é totalmente amigável aos negócios. O país participa de acordos de livre comércio com os Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Japão, fora inúmeros outros em negociação. Segundo o Banco Mundial, a média ponderada das tarifas alfandegárias de Cingapura em 2003 estava em zero. A burocracia é muito reduzida, e há poucos casos de corrupção. A maior taxa de imposto sobre a renda é 22%, o mesmo valor dos impostos corporativos. Em 2003, segundo o Departamento de Estatísticas de Cingapura, os gastos públicos sobre o PIB ficaram em 17,1%. A intervenção estatal na economia é bastante reduzida. A política monetária é eficiente, e a inflação de 1994 a 2003 ficou em apenas 0,36% ao ano.

As leis para investimentos são claras e justas. Tanto investidores domésticos como estrangeiros são tratados da mesma maneira, e não existem requerimentos de parcela local nos produtos. Segundo a Economist Intelligence Unit, os investimentos privados estrangeiros foram a principal força por trás do rápido desenvolvimento econômico dos últimos 30 anos. No setor de manufaturados, por exemplo, os investimentos estrangeiros respondem por quase 80% do total. Não existe controle governamental sobre transferências monetárias ou repatriação de lucros.

Os preços e salários são determinados praticamente na íntegra pelo livre mercado, apesar do Ministério de Comércio e Indústria ter o poder para impor algum controle se necessário. Na prática, isso raramente ocorre, e atualmente, apenas o arroz e o porco estão sob o regime de controle de preços. Cingapura, tal como Hong Kong, não possui um salário mínimo. A propriedade privada é totalmente protegida, sem ameaças de expropriação. Os contratos são seguros, e tanto o profissionalismo como a eficiência das agências são amplamente reconhecidos. As regulações são objetivas e simples, e o processo para a obtenção de licenças é rápido e transparente. Impostos, trabalho, regras de comércio, tudo em Cingapura é formulado levando-se em conta os interesses dos investidores estrangeiros e das empresas locais. A mentalidade marxista não tem vez alguma por lá!

Com tal postura, partindo de uma forte liberdade econômica, reduzida burocracia e intervenção estatal, Cingapura foi capaz de prosperar, mesmo sem recursos naturais. O país é visto como bastante transparente, e a corrupção não é um grave problema. O crescimento econômico tem sido elevado e sustentável, assim como a inflação tem sido mantida em patamares tranqüilos. A renda per capita é uma das maiores do mundo. Alguns tentam diminuir tal sucesso mencionando o tamanho do país, mas ignoram que Cuba e Haiti, para citar apenas dois, são bem pequenos mas ainda assim miseráveis. Não há como negar: Cingapura é um caso de sucesso! Tudo graças à liberdade econômica com império da lei.

Quarta, 23 Novembro 2005 21:00

O Sucesso de Hong Kong

Uma análise sobre a economia de Hong Kong é mais que suficiente para derrubar uma infinidade de mitos divulgados pela esquerda protecionista e estatolatra.

"A autoridade tem que enfrentar a alternativa: ou aceita o mercado e suas leis como são, ou tenta substituir a economia de mercado por um sistema sem mercado, ou seja, pelo socialismo." (Mises)

Uma análise sobre a economia de Hong Kong é mais que suficiente para derrubar uma infinidade de mitos divulgados pela esquerda protecionista e estatolatra. O país é realmente um caso de expressivo sucesso da free market economy, desmentindo uma por uma das falácias tidas como dogmas por certas pessoas. Entender o que permitiu que esse pequeno país se tornasse rico é fundamental para mudarmos a mentalidade do nosso povo.

Em primeiro lugar, Hong Kong é totalmente pobre em termos de recursos naturais. Praticamente inexiste agricultura lá, tendo os alimentos que serem importados. O país não produz sequer um barril de petróleo. De cara, vemos que não há necessidade de recursos naturais para ser rico. O fator genético do povo não poderia explicar o sucesso também, posto que quase todos são chineses, e a China é paupérrima. O homem acaba sendo um produto do meio, e é o modelo de Hong Kong que faz toda a diferença no final.

Esse modelo é baseado em uma forte liberdade econômica, sendo Hong Kong o líder no ranking do Heritage Foundation, que mede justamente o grau de liberdade das economias. O país é praticamente duty free, não existindo cotas ou políticas de anti-dumping. Licenças são requeridas para poucos produtos apenas, e a autorização costuma ser muito rápida. A intervenção estatal na economia é praticamente nula, e os gastos públicos giram em torno de 10% do Produto Interno Bruto. O governo de Hong Kong é um dos mais receptivos do mundo em termos de investimentos externos, sem discriminar entre investidores estrangeiros ou locais. Virtualmente, não existem restrições ao capital estrangeiro e ao controle de propriedades e empresas. Não existem controles para a repatriação de lucros. Os bancos são independentes do governo, e quase não existem restrições para os bancos estrangeiros. Não existe salário mínimo para os trabalhadores locais, e o mercado costuma ser livre para acordos entre patrões e empregados. O governo garante o direito de propriedade privada, e exige o cumprimento dos contratos. As regulações governamentais são poucas, e aplicadas de maneira uniforme. A burocracia é ínfima, e abrir ou fechar uma empresa é tarefa relativamente simples, que leva menos de uma semana. O sistema legal é baseado no common law inglês, bastante objetivo.

A economia de Hong Kong é absurdamente aberta, e as exportações são maiores que o próprio PIB. Mesmo antes do país ser devolvido pela Inglaterra a China, em 1997, o comércio com esta era bastante elevado. A China responde por cerca de 40% tanto das importações como das exportações. O setor de serviços corresponde a mais de 88% do PIB, enquanto a participação da agricultura é praticamente nula. Trata-se de uma nação na terceira onda, pelo conceito de Alvin Toffler.

De forma resumida, foi este modelo, altamente liberal e com intervenção estatal bastante limitada, que garantiu o sucesso desse país com quase 7 milhões de habitantes. A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, é de apenas 2,97 para cada mil nascimentos, uma das menores do mundo. A expectativa de vida está em 81,5 anos. Praticamente não há analfabetos. O PIB cresceu 5% ao ano de 1989 a 1997. Em 2004 cresceu 8%. A inflação oscila abaixo de 3% por anos. O desemprego está abaixo de 6%. Em 2003, cerca da metade da população já tinha acesso à Internet, e existem mais celulares que habitantes. A renda per capita, medida pela paridade de poder de compra, estava em torno de US$34 mil em 2004. Hong Kong é um dos países mais ricos do mundo, por habitante!

Tudo isso sem milagres, sem recursos naturais, sem governo impondo muitas regras ou intervindo na economia. Não há a mentalidade paternalista lá, mas sim um forte individualismo, e enorme respeito pela meritocracia do mercado. Não há políticos tomando quase metade da riqueza produzida pelo setor privado em nome da "justiça social". Não há a crença de que burocratas irão proteger os trabalhadores e os consumidores da "exploração" do capital ou das multinacionais. Não existem "conquistas" trabalhistas empurradas na marra pela caneta estatal, mas sim bons salários pela alta produtividade do capital humano, com ampla liberdade de atuação. Hong Kong possui uma das economias mais livres do mundo, e não por acaso, é um exemplo de sucesso. Exemplo esse que deveria ser seguido, mas que desperta pânico nos burocratas, políticos populistas e pseudos-intelectuais socialistas, que acabam enganando os leigos por interesses pérfidos. A ignorância não é uma bênção! O povo perde, pois teria muito a aprender com o sucesso de Hong Kong.

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