Sex08172018

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Segunda, 24 Novembro 2008 22:00

Oba, Oba, Obama

A eleição de Obama fez desaparecer o feroz e odiento antiamericanismo.

Nesse momento difícil de sua economia, os norte-americanos ouviram de Barack Houssein Obama o discurso que os fez sonhar novamente sonhos de prosperidade, apesar do candidato não apresentar propostas consistentes no sentido de resolver os enormes desafios que o país apresenta. E diante do descontentamento popular com relação ao presidente Bush, a palavra mudança, prometida várias vezes pelo democrata, soou como esperança.

Obama conquistou principalmente os negros, os hispânicos, as mulheres, os jovens, sendo que o crescimento urbano e da imigração foram também fatores que favoreceram sua eleição. O democrata atraiu, inclusive, parcelas de eleitores mais conservadores e, por isso, disse um de seus eleitores ilustres, Colin Powell, ex-secretário de Estado dos EUA: “O que Obama fez foi incluir todos através de linhas raciais, culturais, religiosas e de geração”.

A capacidade de incluir tantos setores da sociedade se deveu em parte ao discurso sem tom racial, em que pese 95% dos negros terem votaram em Obama. Na verdade, o que o presidente eleito fará pelos negros, principalmente os mais pobres, ainda não se sabe. Mas, sem dúvida, o mulato que chegou ao poder mais alto da Nação encarna a revanche de um passado de segregação que no presente se traduz por um racismo às avessas: o ódio dos negros aos brancos.

Barack Obama provocou emoção em todo mundo. A Europa, que achava que o poder dos Estados Unidos definhava diante da ascensão econômica da China, da Rússia e da Índia ficou deslumbrada e tranqüilizada diante da possibilidade de reforço do poder da pátria da democracia.

Na América Latina, inclusive no Brasil, além do teor emocional ligado à cor da pele do candidato, a “obamamania” teve caráter ideológico. Acredita-se que Obama seja comunista. Nesse sentido é emblemático que o historiador Joel Rufino dos Santos relembre Marx e sonhe utopicamente com um comunismo norte-americano: “Acho que o velho (filósofo e teórico do comunismo Karl) Marx de vez em quando deve ser lembrado. Ali (Estados Unidos) é onde pode ter um socialismo realmente democrático. Porque a economia é mais desenvolvida e o povo tem mais tradição de respeito ao outro”. (Folha de S. Paulo. 6/11/2008). Certamente o historiador não se lembra do fato de que as idéias de Marx postas em prática geraram aberrações totalitárias que nivelaram por baixo na opressão e na miséria.

Em todo caso, foi impressionante como a eleição de Obama fez desaparecer como num passe de mágica em todo mundo e, sobretudo, na América Latina, o feroz e odiento antiamericanismo que culpa os Estados Unidos por todas as nossas mazelas e fracassos. Agora se espera uma nova ordem mundial, uma nova era e mesmo antes da posse Obama já é visto como presidente de fato do qual se aguarda mudanças rápidas

Na América do Sul o oba, oba Obama se alastrou por todos os países. Mesmo Hugo Chávez, o criador do nebuloso Socialismo do século XXI, que não consegue discursar sem atacar violentamente os Estados Unidos, e seus companheiros do “Eixinho do Mal”, Evo Morales e Rafael Correa, pareciam deslumbrados com a eleição “de um afro-descendente para a cabeça da nação mais poderosa do Mundo”. Enquanto isso, Lula da Silva, se revestindo de grande líder latino-americano e mundial mandava seus pedidos para Papai Noel Obama: uma política mais ativa em relação à América Latina, o fim do embargo norte-americano a Cuba e a resolução do conflito do Oriente Médio.

Barack Hussein Obama, que terá imensos obstáculos pela frente, é um homem de esquerda, ou seja, um liberal conforme entendem os norte-americanos. Forçosamente, dada a situação em que o país se encontra, terá que ampliar um pouco o poder do Estado, algo que não é da tradição norte-americana. Ele prometeu coisas como apoiar uma lei federal que facilitará a sindicalização dos trabalhadores e quer ampliar também através da legislação, a cobertura de saúde para 50 milhões de americanos que ainda não dispõe disto. Contudo, não se sabe como ele se comportará diante da Rússia, da China, do Irã, da esquerda latino-americana. Mas pelo menos em seu discurso de posse ele mandou recados eloqüentes para o mundo:

Avisou que: “o caminho será longo. Nossa subida íngreme. Nós talvez não cheguemos lá em um ano ou mesmo em um mandato”. Mas reafirmou aquele espírito norte-americano que passa bem longe da mentalidade brasileira:
“Àqueles que querem destruir o nosso mundo: nós os derrotaremos. Áqueles que buscam paz e segurança: nós os apoiaremos. E a todos que vêm se perguntando se o farol da América ainda brilha como antes: nesta noite nós provamos mais uma vez que a verdadeira força da nossa nação não vem da bravura das nossas armas ou do tamanho da nossa riqueza, mas do poder duradouro de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inabalável esperança”. Ao final do discurso, Obama repetiu seu refrão e a multidão bradou com ele: “Sim, nós podemos”.

Os obstáculos do novo presidente são tão grandes quanto as expectativas que se criaram em torno dele e só o tempo dirá o que pode acontecer nos Estados Unidos e no mundo. Afinal, políticos costumam ser metamorfoses ambulantes.
 

Terça, 04 Novembro 2008 22:00

O Triângulo das Bermudas

Além da sordidez habitual da politicagem, não podia deixar de aparecer outra, digamos, arma de campanha.

Nas lutas travadas pelo poder, sejam elas de natureza econômica, política ou individual, ressalta a capacidade de empregar a hipocrisia, a mentira, a traição, a deslealdade, a violência. Mas, é na arena dos embates políticos, que esse agir se torna público.

Nestas eleições municipais chama atenção a exacerbação da torpeza. Destila-se como nunca o veneno da perfídia. Tenta-se de maneira vil enganar os eleitores com intrigas e maledicências sobre adversários. Em manobras asquerosas os algozes se transformam em vítimas. A religião é usada como recurso para obter comiseração social e a santificação dos libertinos.

Sempre foi assim, dirão, aqui e alhures, em todos os tempos e em todas as sociedades. Entretanto, parece que no Brasil chegamos ao ápice da degradação moral, que na política se manifestou através de constantes escândalos e que agora ressurge nas campanhas.

No Executivo, o episódio protagonizado por Waldomiro Diniz foi o início do ininterrupto espetáculo da desfaçatez sempre impune que passou por caixas dois, dólares na cueca, falsos dossiês e tudo mais que num país com outra cultura cívica não seria tolerado.

De modo também indigno se viu, com honrosas exceções, um Congresso subalterno e aviltado por “mensalões” e “mensalinhos”, descaramentos e falcatruas de toda espécie. Entretanto, a sociedade que deveria se enojar reconduziu ao poder “mensaleiros”, “sanguessugas”, trambiqueiros da pior espécie, o que leva a perguntar se vivemos numa canalhocracia onde eleitos e eleitores se merecem na reciprocidade malandra do jogo politiqueiro.

Na esteira desse processo de degradação, onde qualquer resquício de ética desapareceu, as campanhas municipais vão se processando. Entre ataques e baixezas havidos nos quatro cantos do país destacam-se por sua importância, inclusive, como os maiores colégios eleitorais e palcos que prenunciam os embates eleitorais de 2010, o chamado “Triângulo das Bermudas”: São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Em Belo Horizonte, o jovem Leonardo Lemos Barros Quintão (PMDB), “azarão” que passou para o primeiro turno e está à frente do candidato Márcio Lacerda (PSB) fabricado pelo governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito Fernando Pimentel (PT), troca farpas com o adversário. A provável vitória de Quintão enfraquecerá o governador mineiro, cujas pretensões de concorrer à presidência da República em 2010 são notórias. Enfraquecido sairá o PT depois de um domínio de anos em Belo Horizonte, “santuário” mais importante do partido. É ficará provado mais uma vez que o presidente Lula da Silva, que deu seu aval a união PSDB/PT, não elege postes, como se pensava que faria, nem se importa mais com a “herança maldita”.

No Rio, a inesperada ida para o segundo turno do candidato do PV, Fernando Gabeira, que concorre com o ex-tucano e agora peemedebista Eduardo Paes, aquele que chamou Lula da Silva de chefe da quadrilha e suspeitou do enriquecimento rápido do seu filho Lulinha, desencadeou uma guerra suja onde só falta dizer que Gabeira põe maconha na merenda das criancinhas. Detalhe, Paes é apoiado pelo PT.

Mas nada simboliza tão perfeitamente o modo PT de fazer politicagem do que a eleição em São Paulo, na verdade, um interessante estudo de caso que ilustra a transformação da política em politicagem muito suja.

Naquele cenário, a petista Marta Suplicy (ou Favre ou Wermus), que ganhou o apelido de Martaxa por ter se excedido em taxações quando era prefeita, e que foi autora do famoso conselho “relaxa e goza” aos atormentados passageiros que sofriam nos aeroportos com o apagão aéreo, agora bateu seu recorde quando indagou, numa insinuação malévola, se o adversário Gilberto Kassab (DEM) é casado e tem filhos. Imagine-se se este retrucasse perguntando se o exótico Supla continua solteiro e sem filhos. Seria processado e no mínimo taxado estridentemente de preconceituoso.

Naquela costumeira tática de inverter a situação, a petista se colocou como vítima de preconceito e disse que não sabia sobre a venenosa insinuação. Ela mostrou, assim, ser exemplar cópia do presidente da República, que nunca sabe ou vê nada e se coloca como eterna vítima, apesar de ter sido eleito na quarta tentativa de chegar lá e reeleito.

Mas além da sordidez habitual da politicagem, não podia deixar de aparecer outra, digamos, arma de campanha: a violência. Em 2006, quando concorria à presidência Geraldo Alckmin, um inusitado terrorismo do PCC deixou os paulistanos apavorados. Agora, uma estranha manifestação de policiais civis, armados, politizados, incitados pela CUT e pela Força Sindical, que invadiu a área de segurança em frente do Palácio dos Bandeirantes, culminou em embates com a Polícia Militar, que cumpriu com seu dever de proteger o Palácio e o governador. Em que pesem as razões dos policiais civis que reivindicam melhores salários, esse ato violento e insuflado pelos apoiadores de Marta Suplicy não deixa de prenunciar o que virá em 2010. Os futuros adversários do PT que se cuidem.

Terça, 07 Outubro 2008 21:00

Nazismo Tropicalista

Entre os fatores que caracterizaram os inícios do Nacional-socialismo, cumpre ressaltar o papel relevante desempenhado pela ascensão espetacular e pela veneração quase religiosa do Führer.

O PT de Hitler, Nazional Sozialism Deutsch Arbeit Partei – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, surgiu em 1920 e era oriundo do Deutsch Arbeit Partei – Partido dos Trabalhadores da Alemanha, fundado em 1904.

Entre os fatores que caracterizaram os inícios do Nacional-socialismo, cumpre ressaltar o papel relevante desempenhado pela ascensão espetacular e pela veneração quase religiosa do Führer. A estrutura organizacional e as atividades do movimento basearam-se completamente no princípio do líder. Ao centro de tudo encontrava-se a figura de Adolf Hitler e em termos de psicologia social ele representava o homem comum, de origem humilde, em posição de subordinação, ansioso para compensar seus sentimentos de inferioridade através da militância e do radicalismo político.

Na crise de 1929 o partido teve notável crescimento. Além de enorme penetração popular passou a ser encarado pela classe alta como representante de seus interesses econômicos. Na verdade, as mensagens nacionalistas e radicais cativavam pessoas de todas as classes sociais. Não apenas os seis milhões de desempregados alemães, que amargavam a crise mundial se encantaram com a pregação nacional-socialista, mas muitos intelectuais, pessoas do mais alto nível de escolaridade ficaram fascinadas por aquela ideologia. Tanto é que em 1926, na Universidade de Göttingen, que chegou a ser o maior centro de pesquisas matemáticas do mundo, mais da metade dos alunos era nazista.

Nas eleições de 1930, quando os nazistas conquistaram 107 cadeiras no parlamento alemão, a porcentagem de votos obtidos por Hitler na cidade de Göttingen foi o dobro da que ele obteve em média em toda Alemanha. Como a cidade girava em torno de sua universidade famosa onde, inclusive, Einstein se socorreu de um professor de matemática para desenvolver sua Teoria da Relatividade, pode-se dizer que o apoio a Hitler naquele local da Alemanha veio de uma elite intelectual.

O caminho para a ditadura foi conseguido quando o presidente von Hindenburg nomeou Hitler chanceler. Com a morte de Hindenburg, Hitler fundiu a chancelaria com a presidência e a partir daí acumulou poderes cada vez maiores: Extinguiu o Poder Legislativo através do cerceamento de suas prerrogativas; implementou o controle completo da burocracia estatal, ou seja, aparelhou o Estado; eliminou gradativamente os outros partidos fazendo com que qualquer tipo de oposição desaparecesse; assumiu o comando supremo das Forças Armadas e os militares prestaram juramento àquele que se concedera o título de Führer.

Assim, aos poucos, o Estado totalitário substitui o Estado burguês.

Enquanto isso Hitler ia se impondo de maneira incontestável, seduzindo a nação pela força de seu carisma aliada a intensa propaganda produzida pelos meios de comunicação de massa. Em empolgantes discursos o ditador acentuava a esperança, a auto-estima, as boas notícias e prometia ao povo alemão um futuro brilhante numa linguagem que podia ser compreendida até pelas pessoas mais simples. Sua aprovação ultrapassava os 80% e ele seguia levando a risca a idéia do seu grande inspirador, Mussolini, que dizia: “Em política, 97% do apoio popular vem da propaganda governamental e só 3% das realizações efetivas”.

Possíveis insatisfações e ódios eram canalizados para os judeus para desviar a atenção de problemas concretos. Desse modo o monstruoso Holocausto foi aceito com naturalidade, como purificação da raça superior ariana, com a vantagem de que a brutal eliminação dos judeus abria espaços para a classe média alemã nas atividades do comércio e da pequena indústria onde aqueles atuavam.

Muito útil foi também a utilização de símbolos e conceitos marxistas adaptados a ideologia nazista. O proletariado tornou-se “proletariado racial” e a luta de classes deslocou-se para a guerra proletária contra os países capitalistas.

É verdade que durante os seis anos de totalitarismo nazista a Alemanha experimentou grande crescimento, mas tal coisa teve pouco a ver com as políticas econômicas do Führer, mas sim com a recuperação econômica mundial depois da crise de 1929 e com o talento dos empresários alemães que já dispunham de modernas tecnologias.

Hitler dominou a totalidade da vida da sociedade alemã, ampliou os lucros dos grandes trustes econômicos e levou mundo à Segunda Guerra Mundial. O resto todos conhecem.
Seria impossível essa experiência se repetir de forma idêntica. Ela aconteceu a partir de certas circunstâncias de um dado país, numa determinada época e sob o influxo de uma personalidade carismática sui generis. Mas as sementes maléficas do nacional-socialismo, que floresceram no nazismo, não seriam passíveis de novas floradas trágicas, com outros nomes, em outras épocas e em outras sociedades? Será que o nacional-socialismo ressuscitou bem junto a nós através de uma versão tropicalista, adulterada, falsificada, longe anos-luz da envergadura carismática e maligna de Hitler, mas igualmente nociva? É prudente pensar nisso.

Sábado, 06 Setembro 2008 21:00

Yes, Nós Somos de Esquerda

Sem medo de ser felizes fomos à Pequim e reeditamos nos jogos nossos fracassos.

Em poucas palavras Jean-François Revel, no prefácio da magistral obra de Carlos Rangel, Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário, mostrou a trajetória de séculos da América Latina: “A história da América Latina prolonga a contradição que lhe deu origem. Oscila entre as falsas revoluções e as ditaduras anárquicas, a corrupção e a miséria, a ineficácia e o nacionalismo exacerbado”.

Sem dúvida, essa apropriada análise feita por Revel, em 1976, não se alterou em essência. E é uma realidade da qual o Brasil, com algumas nuanças e diferenças, também faz parte.

Essa história de fracassos e frustrações é confrontada com uma humilhação adicional: o êxito quase indecente para os latino-americanos, dos Estados Unidos. Acrescente-se que a incapacidade para construir Estados democráticos modernos e economias prósperas conduziu a América Latina à tendências revolucionárias, muitas de cunho esquerdista e capitaneadas por lideranças populistas, que trouxeram a seus países mais fracasso e miséria.

Para citar alguns exemplos lembremo-nos da revolução mexicana de 1911, do socialismo peruano de 1969-1974, do justicialismo peronista que arruinou a então próspera Argentina e a mais marcante de todas: a revolução cubana que destruiu a economia da Ilha e a manteve sob o totalitarismo implacável de Fidel Castro. Este, porém, se tornou o símbolo da desforra contra os Estados Unidos e, apesar das atrocidades que cometeu contra os que ousaram contestar seus métodos soviéticos, encarnou o mito do “bom revolucionário”, a figura que encanta o imaginário coletivo latino-americano, ou seja, uma espécie de D. Quixote do comunismo de terceiro-mundo, enquanto o sanguinário e psicopata Che Guevara é até hoje louvado um Cristo laico.

Fidel foi e é a desforra contra o sucesso insuportável dos Estados Unidos. Por isso, yes, orgulhosamente somos todos de esquerda, o que inclui o glorioso governo petista. O maldito império norte-americano só serve para fazermos cursos, turismo, tratamento de saúde, compras. Milhões de brasileiros se evadem para lá viver, trabalhar, ganhar em dólar, esse excremento do diabo. Mas não sabemos o porquê disto já que o Brasil de hoje, sob o governo de Lula da Silva, se converteu num paraíso onde o trabalho é abundante, só existem classes alta e média e a Saúde e a Educação são exemplos magníficos para o mundo.

No momento a grande sensação é a Olimpíada de Pequim. Afinal, a China encarna um império de esquerda. Á bem da verdade a China é capitalista na economia e comunista na política, modelo sonhado para nós pelo ex-revolucionário teórico, ex-ministro, ex-deputado e ainda todo-poderoso das sombras, José Dirceu. Quem sabe chegamos lá no terceiro mandado.

Portanto, não importa se a China viola direitos humanos com sua tradicional crueldade. Também não interessa se a China, com milhares de execuções por ano, é responsável por mais da metade das execuções que ocorrem em todo planeta, se deixa bebês do sexo feminino morrendo nas sarjetas, se tortura crianças desde bem pequenas para que se tornem os atletas perfeitos das Olimpíadas com um falso sorriso afivelado no rosto.

O trajeto da tocha olímpica pelo mundo foi marcado por protestos, especialmente com relação ao Tibete, o que para brasileiros deve ter soado como algo desconhecido ou sem interesse. Será que algum compatriota se perguntou diante da repressão chinesa aos protestos em prol do Tibete, pelo menos porque diabos aquilo estava acontecendo?

Poucos no Brasil devem saber que no Tibete o genocídio perpetrado pelos chineses foi marcado por requintes de atrocidade sinistra e as mortes violentas atingiram uma proporção mais numerosa do que em qualquer outro território do conjunto chinês. Segundo o Dalai-Lama, “os tibetanos não foram apenas fuzilados, foram espancados até a morte, crucificados, queimados vivos, afogados, mutilados, mortos por inanição, estrangulados, enforcados, cozidos em água fervente, enterrados vivos, esquartejados ou decapitados” (O Livro Negro do Comunismo). Também, centenas de milhares de tibetanos tornaram-se prisioneiros em campos de concentração e mais de 170.000 morreram no cativeiro. Além disto, houve o genocídio cultural com a destruição de templos e de seus manuscritos seculares, afrescos, estátuas, relíquias, tudo destroçados pela brutalidade chinesa.

Os protestos havidos durante a passagem da tocha, que no Brasil não veio, tentaram relembrar ao mundo esses horrores e os infelizes tibetanos que ainda vivem subjugados no seu país de neve e de deuses. Isto, porém, não nos interessa porque, yes, nós somos de esquerda. Sem medo de ser felizes fomos à Pequim e reeditamos nos jogos nossos fracassos e frustrações históricos expressos nos pífios resultados obtidos.

Terça, 05 Agosto 2008 21:00

A Revolta das Minorias

A amnésia coletiva que inclui letrados e iletrados aprofunda o individualismo, impede a formação de uma consciência cívica.

Nessa época, onde a transitoriedade e a pressa se acentuam, a avalanche dos fatos não finca raízes, não se fixa na memória já curta dos homens. No caso brasileiro, não só o desconhecimento de nossa história, mas a indiferença ao que se passa no turbilhão de acontecimentos recentes faz de nós desmemoriados culturais. Entre uma semana e outra, entre uma Veja e a próxima, tudo é esquecido mesmo por aqueles que cultivam o raro hábito de ler jornais e revistas.

A amnésia coletiva que inclui letrados e iletrados aprofunda o individualismo, impede a formação de uma consciência cívica, favorece o poderio estatal e o surgimento de lideranças populistas, de demagogos que seduzem as massas sequiosas de direção e de esmolas públicas que acalmem suas aspirações.

A sensação que se tem no Brasil de hoje – diante de denúncias gravíssimas que pairam sobre membros do mais alto escalão do governo; da violência urbana, especialmente a relativa ao estado de guerra em que vive a população do Rio de Janeiro, e a do meio rural sob os ataques do MST e suas dissidências; do caos na área da Saúde; do baixo nível da Educação; da ausência de valores que norteiem o curso de cada vida – é que os indivíduos se deixam levar pela correnteza da submissão à manipulação que despersonaliza, massifica, torna todos semelhantes no anonimato, na insignificância, na mediocridade.

Faltam-nos minorias capazes de liderar, de se revoltar com o atual estado de coisas, de transformar a responsabilidade no fermento inovador de um novo patamar de progresso e, porque não, de fazer florescer o belo, o bom e o justo para assim quebrar a vulgaridade da existência atual. E as minorias a que me refiro nada têm a ver com riqueza ou pobreza, mas podem emergir em qualquer classe social, pois suas faculdades superiores de melhores residem no caráter, na essência que os aproxima mais da humanidade que da bestialidade que habita em cada criatura.

A sociedade brasileira fica estarrecida diante dos crimes atrozes devidamente “trabalhados” pela TV. Mas se queda indiferente perante os abusos cometidos pelos governantes. Afinal, os que deviam dar o bom exemplo e não dão são os piores.

Parafraseando Ortega y Gasset: infelizmente, existem algumas cabeças, muito poucas, mas o corpo vulgar do Brasil não quer pô-las sobre os ombros. Pior, o corpo vulgar insiste em manter sobre os ombros cabeças incompetentes, distantes do bem comum, articuladas por vezes com a ilegalidade.

Vários exemplos podem ser citados para confirmarem essa análise, pois se sempre houve escândalos na esfera do Poder Público, nunca se assistiu a tantos de 2003 para cá. Basta lembrar que poucos ministros restam do primeiro mandato do atual presidente da República, sendo que muitos já perderam o cargo nesse segundo mandato por conta da corrupção. Também o Poder Legislativo não se cansa de dar ao povo múltiplos exemplos de como não deve ser um parlamentar. E nem o Judiciário escapou do descumprimento da lei, o que é algo tragicamente irônico.

Entretanto, fiquemos com os fatos mais recentes, que na próxima semana já estarão esquecidos, para confirmar o que está sendo apresentado neste curto artigo:

Em matéria de incompetência governamental tivemos dois episódios marcantes. O primeiro foi relativo à atuação do chanceler Celso Amorim, que mais uma vez trabalhou com denodo para conduzir ao fracasso a Rodada de Doha. Pior, o Brasil saiu como traidor do Encontro, portanto, mal visto na esfera internacional.

O segundo está ligado à audiência pública convocada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro e pelo secretário Especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, com o objetivo de pedir a condenação de militares que, segundo estes senhores, estariam envolvidos em práticas de tortura durante o governo militar e, assim, não poderiam ser beneficiados pela lei da anistia. Com sua atitude estes membros do governo causaram constrangimento até aos companheiros de seu próprio partido, o PT e, segundo consta, ao próprio presidente da República. Mas este não cogitou em dispensar o ministro e o secretário, como não pensou em destituir do cargo o colecionador de perdas, Celso Amorim.

Outro fato bastante grave foi a denúncia feita pela revista colombiana Cambio sobre as ligações de membros importantes do governo brasileiro e muito próximos ao presidente da República, com as Farc, bando composto por bestiais narcotraficantes, criminosos da pior espécie que estão sendo derrotados pelo presidente Álvaro Uribe.

Provavelmente tudo isso estará esquecido na semana que vem, pois com mostrou Ortega y Gasset, “a política se apressa em apagar as luzes para que todos os gatos fiquem pardos”. E isso não diz respeito só aos políticos. Sem a revolta das minorias todos nós ficamos pardos.

Sexta, 18 Julho 2008 21:00

Vocês Estão Livres

O resgate foi descrito pela imprensa mundial como cinematográfico e impecável.

2 de julho de 2008. Data marcante para Ingrid Betancourt, libertada depois de ter estado seis anos e cinco meses como prisioneira dos narcoguerrilheiros das Farc. Ela e mais quatorze pessoas, entre as quais três norte-americanos, Marc Gonsalves, Keith Stansell e Thomas Howes, ouviram no vôo que os conduzia para a liberdade a frase salvadora: “Somos do Exército nacional e vocês estão livres”.

O resgate foi descrito pela imprensa mundial como cinematográfico e impecável, e a própria Ingrid afirmou numa emissora de rádio: “nos resgataram com grandeza”. “A ação mostra que podemos alcançar a paz se confiarmos em nossas Forças Armadas”. Ela desmentirá depois a versão capciosa de uma rádio suíça que, tentando achincalhar o estrondoso êxito do presidente Álvaro Uribe, noticiou que tudo não passara de uma farsa porque os guerrilheiros tinham recebido dinheiro para libertar os reféns.

Esta desinformação e outras mais revelam a inconformidade de alguns diante da vitória do presidente colombiano, que prometera acabar com as Farc e está cumprindo sua promessa. Já deixaram esse mundo os principais líderes do movimento facinoroso, moedas de troca como Ingrid Betancourt e os norte-americanos estão livres, o bando está consideravelmente diminuído. É certo que centenas de reféns ainda padecem nas garras dos terroristas, mas estes estão enfraquecidos.

Os grandes perdedores no episódio do resgate foram o venezuelano Hugo Chávez, o equatoriano Rafael Correa, as esquerdas latino-americanas e, porque não, o Brasil com sua política externa dúbia. Inclusive, Lula da Silva se negou a declarar as Farc como terroristas. Afinal, aos companheiros do Foro de São Paulo tudo é permitido, tudo é perdoado em nome da causa: Assassinatos, torturas, seqüestros.

Espertamente Chávez, que chamara Uribe, entre outras coisas de “assassino” e “narcoparamilitar”, e que ameaçara invadir a Colômbia, agora chama o presidente colombiano de “irmão”. Coisa de metamorfose ambulante. Também o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que felicitou Uribe, parece querer atrair para si os louros do resgate. Ingrid reforçou essa idéia dizendo que sua ida à França foi um gesto de gratidão para quem mais lhe ajudou a deixar o cativeiro. Ela não mencionou Uribe e não lembrou que antes de Sarkozy o ex-presidente, Jacques Chirac, propôs negociação diplomática para sua libertação, assim como o chanceler Dominique Villepin.

Villepin foi o autor da idéia de enviar um avião com soldados, médicos e diplomatas que, sem consultar Brasília e Bogotá, pousaria em Manaus. O plano era retirar Ingrid da selva e levá-la sã e salva para Paris no dito avião. O romântico e mirabolante plano aconteceu, mas, como era de se esperar, fracassou.

Ressalve-se que o Exército Colombiano, que segundo foi noticiado, recebeu treinamento norte-americano e israelense, portanto o melhor do mundo se saiu brilhantemente e sem o lance rocambolesco do francês. Venceu o recurso militar e não o diplomático. Venceu a estratégia competente de Uribe que era malvisto em Paris, segundo Gilles Lapouge (O Estado de S. Paulo, 04/07/2008), como “um político cínico, cruel e indiferente, a soldo dos americanos”. Os franceses se esqueceram de que, se não fossem os norte-americanos teriam sido subjugados por Hitler.

Quanto a Ingrid, que apareceu bem disposta, com aparência saudável, pele impecável, muitos quilos mais gorda do que sua figura na foto que correu mundo e provocou comiseração, se hoje é considerada de forma quase unânime uma heroína, começa a suscitar críticas.

Um dos críticos é o etnólogo André-Marcel d’Ans citado por Lapouge: “Disse d’Ans, que Ingrid é uma mulher bem nascida numa dessas famílias colombianas em que se respira dinheiro e política”. “Seu pai foi diretor adjunto da Unesco em Paris”, ‘o que valeu a Ingrid longos anos de opulência em residências suntuosas e, para os filhos, estudos em francês nos estabelecimentos freqüentados pelo jet set’. ‘Era só a boa vida’. “De repente larga tudo, marido e filhos e parte em socorro de sua Pátria mártir”. ‘Ela mergulha na política na forma de uma esquerdista dândi, disposta a bater no peito, num gesto de mea culpa, desde que o peito não fosse o dela’. Torna-se uma perfeita chata, acabando com as reservas de paciência de alguns e de condescendência de outros’.

Ingrid se declarou inclinada a voltar novamente à política como candidata à presidência da República, apesar de ter dito depois que, se o povo quisesse não veria nada de mal numa candidatura de Uribe a um terceiro mandato. Algo no meu entender que, apesar da importância do admirável presidente colombiano seria lamentável do ponto de vista da democracia. Inclusive, se tal fato vier a ocorrer em muito ajudará a consolidar a mesma idéia desastrosa do PT em relação a Lula da Silva.

Para o escritor colombiano Fernando Vallejo, apesar das idas e vindas da política, nada muda de forma essencial na América Latina. Conforme Vallejo: “Toda classe política na América Latina só pensa em seus próprios interesses, quando não está claramente envolvida com o crime e a corrupção”.

Domingo, 29 Junho 2008 21:00

Uma Primeira-Dama que Valeu a Pena

Dona Ruth Cardoso, à sua maneira fez política como se deve fazer.

Quando personalidades marcantes, daquelas que se distinguem no cenário nacional partem, para quem sabe outra dimensão, fica uma sensação de perda como se fosse a de um parente, de alguém próximo, apesar de não termos tido contato pessoal com essa figura. Assim, com certeza, se sentiram os brasileiros quando tomaram conhecimento da morte da ex-primeira-dama, dona Ruth Cardoso, ocorrido em 24/06/2008.
Essa comoção não é normal com relação às primeiras-damas. Geralmente elas não se destacam ofuscadas por seus maridos, sobretudo, quando estes são presidentes da República.

Algumas esposas de presidentes exercem ou simulam exercer certas funções de assistência social sem muita relevância. Outras se limitam a freqüentar ocasiões sociais ou acompanhar seus maridos em viagens para compor o quadro que os eleitores admiram: o da família bem constituída.

Portanto, primeiras-damas podem ser também peças de marketing, figuras sem vida própria com tendência a resvalar para futilidades que os privilégios do seu status comportam.

Dona Ruth Cardoso fugiu à regra. Extremamente discreta, dotada de elegância sóbria e gestos comedidos, dona de invejável cultura, ela se destacou no cenário nacional pelo trabalho desenvolvido na área social e pela preocupação com os menos favorecidos.

Antes de mais nada ela foi uma mulher como o são as mulheres de fibra, ou seja, foi primeiramente mãe. Assim, enquanto o marido Fernando Henrique Cardoso se dedicava aos estudos e fazia brilhante carreira, inclusive internacional como sociólogo, a antropóloga Ruth cuidou dos filhos do casal, o que fez com que sua trajetória acadêmica ocorresse mais lentamente que a dele.

Mesmo assim conseguiu defender o mestrado em 1970 e o doutorado em 1972. Num país como o nosso, em que se cultiva a mediocridade, a educação caiu ao seu nível mais baixo e não se premia o mérito, infelizmente essa enorme dedicação aos estudos é vista como coisa da elite ou algo desnecessário. Seria, então, preciso mudar nossa mentalidade para se reverenciar os que vencem por mérito.

Dona Ruth foi também professora e pesquisadora e, quando seu marido chegou à presidência da República, assumiu a presidência do Programa Comunidade Solidária. A partir daí foi uma primeira-dama incansável no combate à exclusão social. Menos pelo papel que lhe coube junto a Fernando Henrique e mais por sua consciência cívica, sua visão do país, seu sentimento de brasilidade.

Ruth Cardoso não foi a primeira-dama fútil das festas, o ornamento a desfilar junto ao marido, a deslumbrada exibindo jóias e roupas. Mas exerceu o papel para o qual seu preparo intelectual e seu sentimento de cidadã brasileira se conjugaram para fazer da discreta senhora uma pessoa participante do seu tempo, um ser humano útil a outros seres humanos.

Ainda assim, recentemente foi vítima desse tipo de sordidez que permeia o jogo político. O dossiê urdido nas tramas palacianas para denegrir o ex-presidente FHC através dos gastos pessoais realizados durante seu governo, visaram atingir também dona Ruth. De forma firme, sem se intimidar, ela declarou publicamente que se mostrava indignada com a exploração política que estava sendo feita como os gastos pessoais do seu marido e familiares no período em que ele fora presidente. Realmente, uma abominação visando encobrir abusos de outros, estes sim, absurdos.

Dona Ruth, mãe, professora, primeira-dama atuante se foi para outra dimensão. Fica o Brasil em certo estado de orfandade num momento em que faltam mais mulheres dotadas de espírito público, mulheres solidárias, dignas, capazes de entender que cargo não é privilégio, mas encargo e que o fim último da política, como disse Aristóteles, é o bem comum.

Dona Ruth Cardoso, à sua maneira fez política como se deve fazer. Ela se foi, mas fica seu exemplo. O exemplo raro de como deve ser uma primeira-dama. Dona Ruth valeu a pena.

Domingo, 08 Junho 2008 21:00

A Mão Grande do Poder Executivo

Como se nota nosso Executivo já nasceu forte e assim permaneceu até hoje.

Nosso Executivo sempre prevaleceu sobre o Legislativo e o Judiciário e isso é fácil de demonstrar revendo um pouco da nossa história:

O Estado brasileiro foi organizado através do projeto constitucional elaborado pela Assembléia Constituinte de 1823. Entretanto, os choques de poder entre Dom Pedro I e os parlamentares, notadamente os Andrada, levariam o imperador a dissolver a Assembléia Constituinte em 11 de novembro de 1823. Dom Pedro, então, nomeia um grupo de dez notáveis para redigir um projeto constitucional, em tudo parecido com o anterior, exceto por um detalhe: ao lado dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, surge um quarto, o Poder Moderador, capaz de facultar ao Imperador atribuições, entre as quais, escolha de senadores, livre nomeação de ministros, vetos dos atos do Legislativo. Até 1826 o imperador governará de forma absoluta apoiado pelo partido português.

Diante do que se passava, o povo, em sua quase totalidade, se quedava indiferente, distante anos luz dos bastidores do poder e achando muito natural os cargos públicos preenchidos por apaniguados, enquanto o governo abertamente favorecia os interesses que representava e o partido português manejava o poder a seu gosto.

Como se nota nosso Executivo já nasceu forte e assim permaneceu até hoje, apesar de que a “felicidade geral” e a “justa liberdade dos povos” sempre deixaram a desejar. Tal realidade, contudo, jamais ensejou atitudes revolucionárias contra os poderes constituídos e o povo brasileiro seguiu pelos séculos de sua história demonstrando uma passividade raiando à submissão.

A explicação dessa passividade deve ser buscada em nossas origens, pois como bem enfatizou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil:

Entre nós, o domínio europeu foi, em geral, brando e mole, menos obediente a regras e dispositivos do que à lei da natureza”. “A vida parece ter sido aqui incomparavelmente mais suave, mais acolhedora das dissonâncias sociais, raciais e morais”. “Nossos colonizadores eram, antes de tudo, homens que sabiam repetir o que estava feito ou o que lhes ensinara a rotina”.

No entanto, é importante compreender que, por detrás da aparente brandura brasileira, da amenidade no trato social, esconde-se a violência que pode brotar a qualquer momento. Ressalvando-se, porém, as organizações criminosas que aterrorizam a vida urbana e os ditos movimentos sociais, como o MST que faz o que bem entende sob a complacência e o estímulo governamentais, a violência do brasileiro é geralmente individualizada, desordenada, desorientada, originando-se da frustração, do desespero, do rancor, e não de uma consciência popular que exija seus direitos ou atitudes coerentes por parte do poder.

O fato é que desde os primórdios do Estado brasileiro, até hoje, nossa mentalidade não mudou. No momento o Executivo concentra um enorme poder e a seu reboque seguem, como sempre, o Legislativo e o Judiciário.

Indiferente aos jogos da ambição política, aos escândalos que sucedem com tal velocidade que os mais recentes fazem esquecer rapidamente os anteriores, a malversação dos recursos públicos, ao ônus que representa a pesada máquina burocrática governamental, ao peso da corrupção que impede nosso progresso, o povo se inclina ao paternalismo estatal sempre em busca de um líder magnânimo, de um salvador que lhe provoque reações emocionais.

Não importa se a mão grande do Executivo toma de forma exorbitante as migalhas dadas. Com indiferença a população aceita que tenhamos os impostos mais altos do mundo, que a nefasta CPMF em breve ressuscite, que a arrecadação federal tenha atingido novo recorde em abril, ou seja, R$ 59,7 bilhões, 11,4% a mais do que o mesmo mês de 2007. Nem a inflação que já acelera, especialmente, para os mais pobres, incomoda. E quando a mão grande do Executivo se fecha sobre entidades sociais que funcionam exemplarmente como o Sesc, o Sesi, o Senac e o Senai, entidades mantidas pelo empresariado, para surrupiar seus recursos, ninguém toma conhecimento. Tão pouco não há reação quando a mão grande do Executivo interfere nos planos de saúde para atrapalhá-los. Afinal, toda vez que a enorme mão do Leviatã, através do Executivo, aparece, acaba danificando o que funciona.

Por isso termino esse pequeno artigo fazendo minhas as palavras de H. L. Mencken: “O governo ideal de qualquer pessoa dada à reflexão, de Aristóteles em diante, é aquele que deixe o indivíduo em paz – um governo que praticamente passe despercebido”. “Este ideal, acredito, se concretizará no mundo cerca de vinte ou trinta séculos depois de eu ter partido”.

Sexta, 23 Maio 2008 21:00

Nós e as Farc

As Farc seqüestram, torturam, matam os pobres que não têm dinheiro para pagar resgate.

A patética foto de Ingrid Betancourt, prisioneira das Farc, possivelmente correu o mundo. É o retrato da dor, da profunda solidão, do sofrimento infindo que essa mulher padece há seis anos nas mãos dos impiedosos e sanguinários terroristas e narcotraficantes das Forças Revolucionárias da Colômbia – Farc. E aquela face transfigurada pelo padecimento tornou-se emblemática de tantos que, como ela, foram arrancados do convívio familiar e amargam no cárcere asfixiante e insalubre da selva a desumanidade dos que, a principio se investindo de guardiões do paraíso na terra se tornaram os carrascos do inferno.

Betancourt não sofre sozinha as inenarráveis humilhações que um ser humano é capaz de suportar antes de enlouquecer. Aproximadamente 700 pessoas dormem acorrentadas em árvores, não recebem tratamento médico necessário, são obrigadas a caminhar pela selva mesmo sem condições físicas. No cativeiro das Farc onde a misericórdia não existe prolifera a mesma essência maléfica dos campos de concentração, pois em tal miserável sobrevivência homens e mulheres, além dos agravos físicos, são despidos de sua dignidade.

As Farc seqüestram, torturam, matam os pobres que não têm dinheiro para pagar resgate, mantêm entre centenas de prisioneiros alguns que, tendo relevância política podem funcionar como moeda de barganha para libertar os companheiros capturados pelo Estado Colombiano que tem à frente o presidente Álvaro Uribe, um estadista, algo raro na América Latina.

Há pouco tempo uma missão médica francesa, apoiada pela Espanha é pela Suíça esteve na Colômbia na tentativa de socorrer e resgatar Ingrid Betancourt e outros três reféns cuja saúde precária inspira cuidados. Em vão o presidente Álvaro Uribe anunciou a suspensão das atividades militares no sudeste do país para possibilitar a ação da missão médica. Em vão o presidente francês, Nicolas Sarkozy dirigiu apelo ao chefe das Farc, Manoel Marulanda, para que libertasse a senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, em plena campanha para a presidência de República.

Todavia é necessário, é urgente, é imprescindível que a França retome seu objetivo, insista nele, persista no afã de salvar Ingrid e quantas vítimas puder das garras de seus algozes.

Aliás, não só a França, a Espanha e a Suíça devem se empenhar nessa meta. A questão é humanitária e não pertence a esse ou aquele país. Estranhamente os países sul-americanos permanecem indiferentes diante do horror perpetrado em sua vizinhança. Parece que o entendimento das Farc como sendo de esquerda dá glamour ao terrorismo. Exemplo disso é o presidente Lula da Silva, companheiro das Farc no Foro de São Paulo, que se negou a classificar os bestiais guerrilheiros e narcotraficantes como terroristas, conforme apelo feito pelo presidente Uribe. Talvez Lula prefira para as Farc o falso rótulo de “forças insurgentes”. Assim estaria mais uma vez de acordo com a vontade de outro de seus maiores companheiros, Hugo Chávez.

Silenciaram os “bons revolucionários” latino-americanos enquanto Chávez, o ditador de fato da Venezuela, simulou gestos humanitários ao negociar a soltura de algumas vítimas das Farc, enquanto as financia e lhes dá respaldo político. Aos demais governantes da América Latina, incluindo o brasileiro, é mais cômodo culpar o presidente Uribe pela situação, em que pese ele estar fazendo há tempos todos os esforços para combater aqueles celerados. Condenar Uribe, tática comum dos esquerdistas que são exímios em alterar, distorcer, manipular fatos, na verdade equivale a condenar a vítima e absolver os criminosos. Tudo indica que a esquerda latino-americana aprendeu direitinho a lição com o mestre Stalin.

Em trecho da carta, exigida pelos facínoras para provar que estava viva Ingrid escreveu:

A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre de tempo. Tudo está sempre pronto para partirmos às pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante. A cada dia resta menos um pouco de mim mesma”.

No Brasil, o embrião das Farc, o MST, está exacerbando sua violência. O chamado movimento social agora invade não só terras produtivas, mas propriedades da Vale do Rio Doce (maior mineradora do mundo), hidroelétricas, Assembléias Legislativas, agências de Banco, praças de pedágio, além de bloquear estradas. O flagrante desrespeito ao Estado de Direito, o esbulho da propriedade particular, o prejuízo causado ao País avançam impunemente sob o olhar complacente das autoridades constituídas, que até financiam as ricas e vistosas manifestações do MST.

Como afirmou Edmund Burke: “Tudo que é necessário para que o mal triunfe, é que os homens de bem nada façam”.

Terça, 13 Maio 2008 21:00

Quem Governa?

Vazio de substância e apelando para a emoção, ele agrada.

Quem governa o Brasil? A pergunta pode parecer descabida, sinal de total desconhecimento da atualidade. Feita a um brasileiro dos grotões, analfabeto, agraciado com bolsa esmola seria respondida com facilidade: “quem governa o Brasil é nosso ‘padim’ Lula”.

Intelectuais, empresários, artistas, jornalistas tirariam o “padim”, mas acrescentariam: “o presidente Lula que é um gênio, um líder carismático, um estadista”. Dizer menos é ser preconceituoso.

Ouso contestar a opinião da maioria e afirmar: Lula é como a rainha da Inglaterra, reina, mas não governa. E seu linguajar cuidadosamente errado, suas ensaiadas metáforas futebolísticas, seus gritos, seus esgares nada tem a ver com o cargo presidencial, mas com o inconfundível estilo populista dos demagogos.

Cuidadosamente construiu-se a imagem mais favorável possível do pobre ex-metalúrgico. Mostrou, quando foi preciso, um “Lulinha de paz e amor”, agora apresenta o Lulão bravão tendo ataques furiosos e revivendo os tempos de oposição virulenta. Imagens falsas, postiças, ocas de conteúdo.

O fato é que Lula presidente na verdade não existe, ele é tão somente o melhor produto de marketing já produzido pelo PT através da mágica de Duda Mendonça. Quanto a seu desmoralizado partido é associado às forças externas que estão envolvendo a América Latina. Forças cujo expoente é Hugo Chávez. Entre os seguidores deste destaco o boliviano Evo Morales, que expropriou a Petrobrás com a anuência do governo petista e sem um pio dos nossos nacionalistas que, se antes bradavam, “o petróleo é nosso”, agora dizem com satisfação: “o petróleo é deles”. Lula apenas ressoa as forças nefastas de uma chamada esquerda, que infestam a América Latina e são apoiadas pelo PT.

Esta esquerda que emerge com o nebuloso socialismo do século XXI de Chávez é deslocada no tempo, incapaz de aprender com os erros dos totalitarismos do século passado, perpetuadora da mentalidade do atraso que sempre assolou o continente, sequiosa de poder pelo poder, continuadora das mazelas tão nossas, tão latino-americanas, tais como: incompetência estatal, corrupção, clientelismo, patrimonialismo, populismo, autoritarismo, nacionalismo xenófobo. É muito “ismo” para um só lugar desse mundo do absurdo.

Lula da Silva vai, como se diz, na onda dos companheiros nacionais e internacionais. É um fiel aliado de Chávez, um cultor do moribundo Fidel Castro e apenas funciona como caixa de ressonância destas vozes. Prova disso foi não ter aceitado declarar as sanguinárias e abjetas Farc como terroristas, conforme o pedido que certa vez lhe foi feito pelo presidente Uribe, da Venezuela.

Tão pouco LILIS é carismático ou genial. Se fosse dotado de tanto carisma que, não nego, já usufruiu enquanto líder sindical teria sido vitorioso na primeira eleição. Foram necessárias quatro eleições para chegar lá. Foi preciso mudar de roupa e de discurso e depois de eleito copiar o que chamou de “herança maldita” para não deixar fora dos trilhos o trem da economia. Mas mesmo lá ele continua sindicalista sem nunca ter atingido o nível de estadista, uma estatura cívica que muitos áulicos lhe atribuem burilando uma forçada e falsa imagem.

Sobre a “genialidade”, já afirmei em outro artigo que, se o presidente-sindicalista tem alguma esta pertence à categoria dos repentistas (sem nenhum demérito para a criatividade dos artistas nordestinos). Com a tarimba de palanque adquirida no chamamento para greves, Lula da Silva recebe o mote dos seus assessores e dispara o cordel político onde não faltam certas graçolas inconvenientes e pavoneamentos de idiólatra.

Vazio de substância e apelando para a emoção, ele agrada. Mas seria errôneo dizer que agrada pela linguagem popularesca. Com experiência adquirida por trabalho executado entre paupérrimos e analfabetos favelados pude observar que, se eles comentem erros de português por lhes faltar escolaridade, por outro lado não falam seguidas besteiras (que o politicamente correto alcunhou generosamente de gafes), mas graduados na dura escola da vida possuem o que se convencionou chamar de sabedoria popular.

Enfim, LILS reina, mas não governa. Suas atividades são variadas e prazerosas: viagens, muitas, por todo o Brasil e para o exterior. Palanques onde permanece em eterna campanha. Festanças. Recepções a atletas, algo tão ao gosto nacional. Recepções a autoridades internacionais. Reuniões inúteis com Conselhos igualmente inúteis. Visitas de cortesia a companheiros latino-americanos em seus respectivos países. Que doce vida!

Mas se Lula da Silva não sabe de nada, não vê nada, não ouve nada, não administra nada, quem governa o País? Seria um gabinete das sombras composto por aqueles que, tendo cometido toda a sorte de negociatas e torpezas caíram de podres, mas continuam lá? Nossa política externa é conduzida pelo Itamaraty ou por Marco Aurélio, o obsceno e José Dirceu, o lobista internacional? O marketing tão bem elaborado por acaso prescinde do mago da propaganda, Duda Mendonça?

Resumindo, são os marajás do petismo sindical que dirigem nossos destinos. Muitos pensam que Lula da Silva governa o Brasil. Que estúpido engano, que monumental blefe virou esse País.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.