Ter05262020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Quinta, 23 Fevereiro 2006 21:00

Os "Carismáticos" Latino-Americanos

Na verdade, precisamos urgentemente de um presidente de resultados e não de mais um “carismático” latino-americano, que deles o continente anda cheio.

Começam a aumentar as críticas ao PSDB. Isso porque, no melhor estilo tucano os cardeais do partido têm travado a escolha de seu candidato, criando assim condições propícias para que o presidente da República que usa e abusa da máquina estatal, se escora em intensa propaganda, utiliza de forma intensiva a televisão acelere sua campanha rumo à reeleição. Aliás, segundo o próprio Luiz Inácio, “um homem público faz campanha da hora que acorda à hora em que dorme, 365 dias por ano”. Pelo menos dessa vez Sua Excelência foi sincero e admitiu que nunca governou, mas que apenas faz campanha.

Naturalmente a atitude do PSDB leva a várias especulações. Alguns dizem que os tucanos querem ajudar Luiz Inácio, o que sempre fizeram como “oposição responsável”, e responsável até demais, pois não pediram seu impeachment na hora certa. Outros apelam para o reino do fantástico e calculam que o PSDB lançará outro nome que não os de Serra ou Alckmin. Em todo caso, a grande novidade que ora se apresenta entre os tucanos é Geraldo Alckmin e por um motivo bem simples: ele possui firmeza de propósitos em vez de ficar em cima do muro.

Significativamente o governador paulista vem sofrendo os maiores de ataques entre os possíveis opositores de Luiz Inácio. Isso indica que o PT receia que a partir de agosto, quando começa de fato a campanha se estabeleça o contraste entre aquele (se ele for o escolhido do PSDB) e seu eterno candidato. Alckmin é sóbrio, objetivo, fala bem e em português correto, tem realizações a apresentar que confirmam sua competência e nada o desabona moralmente. É se é impossível prever com certeza o que vai acontecer em outubro (mesmo que com base em recentes pesquisas alguns já dêem Luiz Inácio como reeleito), certamente o povo não será insensível a diferença entre o discurso articulado e inteligente de Geraldo Alckmin e a algaravia populista de Sua Excelência Luiz Inácio.

Dirão, contudo, os defensores do presidente da República, que enquanto o petista esbanja carisma, Alckmin não possui tal dom para vencê-lo. Mas convenhamos que essa argumentação é contraditória, pois se o tucano é tão pouco conhecido no Brasil, como se costuma dizer, como saber se é dotado ou não de alguma dose de carisma?

Quanto ao lendário carisma atribuído a Luiz Inácio, o termo merece algumas considerações. Foi cunhado no sentido sociológico por Max Weber, que se inspirou no significado de “dom da graça”. O líder carismático, na interpretação weberiana, é seguido pelos que estão em desgraça e que acreditam ser ele capaz de feitos extraordinários. Milagres e revelações, feitos heróicos de valor e êxito surpreendentes são características da estatura desses líderes e Weber aponta como tais os fundadores de religiões mundiais, os profetas, os heróis militares e políticos. Enfim, o líder carismático é um gênio, um homem dotado de personalidade extraordinária.

Há, portanto, para o bem ou para o mal, uma grandeza no carisma, que na concepção atual foi apequenada e mal interpretada como o são os termos elite e liberalismo que tomaram acepções negativas e equivocadas. E não se pode dizer que os gracejos popularescos, as metáforas futebolísticas, as gafes monumentais, os auto-elogios do presidente Luiz Inácio façam dele um gênio ou um herói, em que pese tentar convencer “os que estão em desgraça” sobre seus “feitos extraordinários” e, de tal modo, que daqui a pouco vai anunciar que descobriu o Brasil bem antes de Cabral.

 Tivemos poucos líderes realmente carismáticos e muitos sedutores de massas. Além do mais, de acordo com nossa cultura, aceitamos facilmente homens sem qualificação e até corruptos para nos comandar, pois como afirmou Weber, “a corrupção só pode ser tolerada por um país com oportunidades econômicas ainda limitadas”.

 Perguntemos, então, se existem carismáticos em outros partidos. Note-se que imprensa, que se dedica com certo estardalhaço ao caso do PSDB, quase nada diz sobre o PMDB. Não se comenta se Rigotto e Garotinho estão dividindo seu partido ou se está havendo demora para o lançamento de um deles. Enquanto isso, Garotinho trabalha incessantemente e começa a ser visto pelo PMDB como suficientemente “carismático” para enfrentar Luiz Inácio, que por sua vez ainda sonha com um vice do PMDB.

Na verdade, precisamos urgentemente de um presidente de resultados e não de mais um “carismático” latino-americano, que deles o continente anda cheio. Isso fica claro quando se lê algumas matérias como, por exemplo, as da Folha de São Paulo, de 24 de fevereiro, que ilustram notícias nada boas: “Banco Central tem prejuízo de R$ 10,45 bi”. “Desemprego aumenta e renda diminui em janeiro”. “Inadimplência aumenta 13,3% em janeiro”. “Cai a confiança do consumidor na economia”. “TCU cobra da presidência por gasto com bebida no cartão”.

Sábado, 11 Fevereiro 2006 21:00

Big Brother PT

Especialmente o PT e seu eterno candidato Luiz Inácio apostam no esquecimento popular das más notícias. Para eles a corrupção desapareceu nas páginas amarelecidas dos jornais velhos.

Ler jornais velhos é exercício interessante porque se nota que muitas previsões foram apenas palpites que não deram certo. Constata-se que não existem fatos, mas versões. Comprova-se que liberdade de imprensa é algo relativo.

Experimentem, caros leitores, passarem os olhos nas notícias de uma semana, quinze dias, um mês atrás e se surpreenderão com contradições, desencontros, inverdades contidos em matérias e notícias. Fulano vai depor, fulano não apareceu para depor. O deputado x vai ser cassado, não vai ser mais, vai renunciar. A candidatura do presidente afundou na lama e sua reeleição está perdida, seu segundo mandato está garantido. Fulano de tal está à frente nas pesquisas, fulano perdeu a eleição.

Sobretudo, agora, quando além do único candidato-presidente já se delineiam outros postulantes, especialmente os dos principais partidos, e o tempo parece correr mais rápido em direção a outubro, explodem lendas e crendices de campanha enquanto balões de ensaio de candidaturas povoam os céus da política. Nesse cenário de eloqüências acelera-se a guerra de palavras expressa em elogios ou ataques. Multiplicam-se as pesquisas, essas peças preciosas de campanha que muitas vezes tentam arregimentar votos para este ou aquele candidato. No momento recrudesce a propaganda governamental a partir de obras faraônicas inauguradas no papel e algumas bondades não praticadas em três anos.

Especialmente o PT e seu eterno candidato Luiz Inácio apostam no esquecimento popular das más notícias. Para eles a corrupção desapareceu nas páginas amarelecidas dos jornais velhos. E tem mais: eles sabem que brasileiro para valer quase não lê jornal, mas apenas assiste TV, não desiste nunca de ganhar a copa do mundo e é fã do Big Brother Brasil.

Por falar nisso, sem dúvida José Dirceu, Delúbio Soares, Silvinho Land Rover, Waldomiro Trem Pagador, o assessor da cueca cheia de dólares, tantos outros membros do PT mais ou menos importantes e seus auxiliares como Marcos Valério, além da base aliada dos mensalistas, fariam imenso sucesso num Big Brother PT. Imagine-se expostos ao público, sem “imprecisões terminológicas”, (termo usado pelo ministro Palocci para substituir a palavra mentira), seus jogos, tramas, trapaças, acusações, intrigas como fazem os participantes do programa da Globo. E olha que os BBB, assim como tantos petistas, saem do nada de sua insignificância para a fama e a glória, com oportunidades de sucesso que nenhum pós-doutor depois de anos de estudo e esforço pode sequer sonhar.

O Big Brother Brasil faz sucesso porque, convenhamos, é a consagração do mau-caratismo tão caro à cultura nacional dos antivalores. Afinal, estamos longe de ser uma meritocracia na qual vencem os melhores. No Brasil a preferência vai para os coitados ou os que se dizem coitadinhos. E ai está mais um dado que poderá ajudar a manter Lula lá.

Enquanto o clima eleitoral vai dominando o noticiário, o presidente voa sem medo de ser feliz no seu aerolula de US$ 56,7 milhões, que teve o bar reformado ao custo de R$ 300 mil, em que pese o ministro Furlan ter anunciado que o presidente não bebe há quarenta dias. Mas, o que importa é manter no imaginário popular um presidente pobre coitado, o proletário defensor dos oprimidos.

Foi dada a largada rumo ao prêmio máximo da política e o clima mental das ilusões e das persuasões vai se adensando. Enquanto isso, erros são cometidos novamente pelo PSDB, partido tido como mais apto para enfrentar o PT. Aquela idéia de deixar sangrar o presidente da República (que se supunha abatido pelos escândalos de corrupção) em vez de pedir seu impeachment, pode agora se mostrar desastrosa. Serve também para críticos e adversários dos tucanos os acusarem de ter protegido Luiz Inácio e serem coniventes com o PT. E no momento a demora do PSDB em definir seu candidato ajuda o candidato-presidente a subir nas pesquisas, porque, enquanto as intenções de votos se concentram em Luiz Inácio, seguem dividas entre Serra e Alckmin.

O mesmo acontece com o PMDB no caso Rigotto/Garotinho. A diferença entre este partido e o PSDB reside no fato de que o PMDB, que ao mesmo tempo é situação e oposição, poderá ainda optar pela vice-presidência na chapa de Luiz Inácio, apesar das negativas dos peemedebistas de oposição. Em todo caso, seus possíveis candidatos também dividem a opinião pública concentrada num benfazejo Papai Noel que promete bondades sem conta e obras faraônicas que só precisam de mais tempo de governo do PT e da paciência do povo.

De todo modo, se no Big Brother os resultados parecem pré-estabelecidos, a política é por demais mutável e fica difícil saber com antecedência quem ganhará. Muitos prognósticos de hoje ficarão apenas nas páginas amarelecidas dos jornais velhos.

Domingo, 29 Janeiro 2006 21:00

Governo das Trevas

Muitos outros crimes foram cometidos, inclusive, assassinatos de estrangeiros, sem que fossem esclarecidos nos três anos do governo Luiz Inácio. Em compensação, criminosos foram soltos.

Quando pela quarta vez Luiz Inácio, o eterno e único candidato do PT, chegou finalmente lá rompendo a barreira de seus tradicionais 30% de votos, deu para perceber que quem ganha eleição quase sempre não é o candidato, mas sua imagem construída pela propaganda. Afinal, Duda Mendonça (agora suspeito de crimes banais segundo ensina a “moral” brasileira, como evasão de divisas etc. e tal), havia conseguido transformar Lula em Lulinha de paz e amor, algo palatável para a maioria da sociedade. O resultado foi a estrondosa vitória petista consagrada nas urnas por quase 53 milhões de brasileiros cheios de fé no candidato, esperança no futuro e caridade para com o símbolo operário-pobre-coitado. Qualquer crítica a Luiz Inácio era tida como preconceito inadmissível e imperdoável.

Muitos dos que não eram petistas renderam-se à sedução da propaganda.  Outros construíram a seguinte esdrúxula teoria: “é preciso eleger o homem para provar que o PT não tem competência para governar”. Era como dizer: vamos pegar um pouquinho de aids para ver como funciona a doença.

No poder, o PT, dito partido da ética que vinha para acabar com a corrupção na política, infectou o Brasil agravando a doença nacional da corrupção. E em que pese as constantes “boas notícias”, a propaganda intensiva, a campanha de Luiz Inácio jamais descontinuada desde que assumiu a presidência, o crescimento contínuo do espetáculo da corrupção oferecido pelo governo do PT, pelo menos os brasileiros que têm um mínimo de brio estão hoje indignados ou se sentindo traídos. Quanto aos que possuem algum grau de informação e discernimento já sabem que esse governo é um redundante fracasso. Malograram as promessas de campanha para a área social, nossa política externa é uma sucessão de fracassos e, se investidores, especuladores e banqueiros estão felizes com os enormes lucros auferidos, nosso crescimento tem sido pífio mesmo num cenário mundial excepcionalmente favorável. Além do mais, os numerosos ministros não tiveram capacidade de gastar seus orçamentos, não se sabe onde vão parar as arrecadações recordes dos impostos e está havendo queda no emprego industrial e na renda. Indiferente a tudo, o candidato Luiz Inácio vai inaugurando cada buraco tampado nas estradas que seu governo deixou intransitáveis, mesmo que algumas empreiteiras amigas que fazem o serviço tenham sido condenadas pelo TCU. O presidente da República nunca sabe de nada.

Há, porém, outro aspecto desse governo que se pode qualificar de tenebroso, e que demonstra que a transparência do PT era outra farsa para conquistar votos de incautos. Vejamos alguns exemplos que confirmam a opacidade petista:

1 - Os crimes até agora não desvendados de Celso Daniel, barbaramente torturado e assassinado, em 20 de janeiro de 2002, do cortejo de mortos que o seguiram e de Toninho do PT, assassinado em setembro de 2001. 2 - O desaparecimento no Iraque há um ano do engenheiro Rodrigo de Vasconcellos JR., sendo que o governo foi incapaz de deslindar o caso e não teve competência sequer para trazer o corpo e entregá-lo a família. 3 - A recente morte do general Urano Teixeira da Mata Bacellar, que comandava a Força de Paz da ONU, no Haiti. A apressada versão de suicídio cometido pelo general, e as notícias contraditórias sobre o fato fazem lembrar a explicação de suicídio também dada para a morte do legista Carlos Delmonte, encontrado sem vida em seu escritório particular, em São Paulo, em outubro de 2005. Delmonte havia num primeiro laudo apontado marcas de tortura em Celso Daniel e estava preparando um laudo complementar quando apareceu morto. 4 – O empenho do governo de impedir ou abafar as CPIs e o intuito da tropa de choque do PT no Congresso de apresentar relatório paralelo aos dos membros da CPI dos Correios.

Ainda sobre o general Bacellar, tido como pessoa calma e militar altamente preparado, além exímio atirador, pode-se dizer que teve uma morte inglória, pois a tragédia aconteceu por conta do verdadeiro motivo do Brasil ter pleiteado o comando no Haiti: a conquista do assento no Conselho de Segurança da ONU, algo que pelo visto não será dado ao Brasil.

Muitos outros crimes foram cometidos, inclusive, assassinatos de estrangeiros, sem que fossem esclarecidos nos três anos do governo Luiz Inácio. Em compensação, criminosos foram soltos. Se essa é uma constante no Brasil da impunidade, onde a “lei se acata, mas não se cumpre”, o fracasso do PT também no tocante ao controle da violência, sua incapacidade de elucidar mesmo os assassinatos dos companheiros podem, sem duvida, levar a classificar esse governo como das trevas. Mas como não se sabe quem é eleito, se o candidato ou sua imagem esculpida pela propaganda, resta esperar o resultado das urnas em outubro para saber se os eleitores estão informados sobre os detalhes tenebrosos do PT no poder ou não.

Quarta, 18 Janeiro 2006 21:00

Eixo das Bananas

De todo modo, enquanto outubro não chega o Brasil se une cada vez mais ao Eixo das Bananas, cuja característica marcante é a mentalidade do atraso.Janeiro. Começam para valer as férias. O tempo nas praias adquire ritmo mais lento e a vida recebe pinceladas azuis de céu e mar. Período em que a leitura de jornais, que já é pouca, se torna escassa ou nula. Na TV, meio de comunicação de massa por excelência, os noticiários se limitam a temas amenos ou a tragédias internacionais. De janeiro a março o Brasil se espreguiça enquanto fervem os bastidores da política. Principalmente quando o ano é de eleições.

Também o presidente da República resolveu tirar quatro dias de folga (não ficou explicado folga do quê) em uma praia privativa da Marinha próxima a Salvador. Curiosamente, o mesmo local onde por três vezes descansou seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. Deste o governo Luiz Inácio também pirateou a política macroeconômica e tentou, sem êxito, copiar programas sociais. Lembremos que produtos piratas não têm garantia contra defeito.

Sua Excelência viajou com um dos filhos e dona Marisa Letícia, primeira-dama que estabelece notável e sensato contraste com o marido. Nada fala. Pelo menos em público. Certamente uma mudez que pode ser interpretada como medida de precaução semelhante a que impede o presidente de dar entrevistas coletivas. Os marqueteiros lhe permitem apenas entrevistas gravadas, devidamente ensaiadas e cuidadosamente editadas. Mesmo assim há risco de fracasso como aconteceu na recente entrevista concedida pelo presidente ao jornalista Pedro Bial.

 Para quem duvidava ficou claro naquela ocasião que Luiz Inácio está longe de ser um grande comunicador, conforme um dos mitos que foi elaborado para seu culto. Semblante preocupado, por vezes assustado, só sorriu no fim, quem sabe ao comando de algum assessor. Foi repetitivo em demasia. Novamente afirmou que nada sabia a respeito da corrupção do seu governo e do seu partido. Faltou dizer que mensalão é piada de salão, como fez seu companheiro Delúbio Soares, por mais abundantes que sejam as provas acumuladas na CPI dos Correios (para a qual a tropa de choque do PT no Congresso prepara um relatório paralelo). Naturalmente, não faltaram os auto-elogios. Mas já vai saturando até o tom de voz de Sua Excelência.

Em todo caso é tempo de férias e o presidente Luiz Inácio, que muda repentinamente discurso e ação, não vai ficar apenas quatro dias de folga na Bahia. Contrariando afirmação anterior de que nesse ano viajaria apenas pelo Brasil (entenda-se isso à luz da campanha da reeleição) está de viagem marcada para Venezuela e Bolívia. Vai se encontrar de novo com dois de seus diletos companheiros do Eixo das Bananas ou da República das Bananas, Hugo Chávez e Evo Morales. Depois voltará à África.

Pode ser que com esses périplos o presidente esteja tentando reaver o sonho perdido referente ao Assento no Conselho de Segurança da ONU, obsessão do chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia. Pode ser que ele simplesmente esteja querendo resgatar outro de seus mitos perdido: o de líder mundial. De todo modo, essas viagens sempre devem preocupar a nós, contribuintes, que custeamos o turismo político presidencial, assim como as generosas dádivas em dólares ou em obras que Luiz Inácio distribui com desenvoltura aos países subdesenvolvidos. Para nós restam recursos para tampar buracos, sem licitação. Ressalve-se que, segundo o ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, a maquiagem das estradas só vai durar um ano. Tudo vai esburacar de novo e mais gente vai morrer, mas, então, o presidente já estaria em seu segundo mandato. Se o for reeleito, é claro.

De todo modo, enquanto outubro não chega o Brasil se une cada vez mais ao Eixo das Bananas, cuja característica marcante é a mentalidade do atraso que inclui: o ataque sistemático aos Estados Unidos e a um nebuloso neoliberalismo, o vezo estatizante e a postura autoritária.

Com relação ao autoritarismo, exceção feita a Fidel Castro cuja ditadura é escancarada, os neocaudilhos populistas do Eixo das Bananas simulam uma democracia que de fato inexiste. O Brasil que segue sob a inspiração e a liderança de Hugo Chávez não escapa à regra. Observe-se, por exemplo, a estranha demissão de Boris Casoy da Record. Coincidentemente Casoy fazia o único noticiário independente da TV. E ainda que a emissora negue a pressão, curiosamente em agosto do ano passado o Banco do Brasil retirou seu patrocínio ao “Jornal da Record”.

No caso da tentativa de criação da Ancinav ou do Conselho de Jornalismo, houve forte reação. Com relação à demissão de Boris Casoy, nem a mídia nem qualquer grupo de pressão se manifestou. Sinal de que estamos cada vez mais integrados ao Eixo das Bananas?

Sexta, 30 Dezembro 2005 21:00

América Latina: O Continente Perdido

Como os demais populistas latino-americanos, Luiz Inácio elegeu um inimigo, os Estados Unidos; brada contra um liberalismo ou neoliberalismo inexistente; optou claramente em política externa pelo atraso.

O ano de 2005 passará à história como o ano da vergonha nacional, em que pese o tom triunfante do presidente da República. Já vai cansando sua verborragia populista, o recurso de por a culpa de seus próprios erros no governo passado como se governasse pelo retrovisor, a deturpação de dados, a propaganda enganosa que recrudesce na obsessiva campanha da reeleição.

Os sentimentos de vergonha e de frustração são, inclusive, pertinentes aos petistas românticos que acreditavam em uma espécie de ideologia mística; aos simpatizantes do “pobre operário de esquerda” que embarcaram na teoria da vitimização; aos tradicionais grupos de interesse que sempre apoiaram o PT ou mesmo ajudaram a gerá-lo, como parte da Igreja católica; aos movimentos sociais que esperavam as prometidas mudanças radicais e se vêem diante de caridades oficiais, como o Programa Bolsa Família que sucedeu ao fracassado Fome Zero.

Satisfeitos apenas os companheiros beneficiados pelo loteamento estatal, os banqueiros com seus lucros astronômicos, os investidores de curto prazo. E, naturalmente, existem os fanáticos, sempre dispostos a bater bandeira nas ruas e a pagar os dízimos que sustentam a doce e rica vida dos dirigentes. Como beatos cegos pela fé eles repetem em forma de mantra o que lhe foi inculcado: a culpa de tudo vem desde Cabral, provém dos Estados Unidos, origina-se do neoliberalismo, decorre da herança maldita. Nós, os puros, nunca erramos, corrompemos, mentimos. Nossos crimes não passam de faltas leves. Cremos em nosso líder todo-poderoso, criador da igualdade social, na comunhão dos companheiros, na remissão pelo socialismo, na ressurreição do petismo, amém. E essa cantilena irracional é destilada não tanto pelo homem comum, desinformado ou mesmo analfabeto, mas por expoentes de nossa intelectualidade universitária que, não tendo como defender o indefensável se calam de forma vergonhosa, sendo que deveriam ser os primeiros a denunciar os fracassos desse governo, sua corrupção deslavada, suas notórias mentiras.

O senhor presidente afirmou que caixa dois não tem importância porque todo mundo pratica esse crime. Ele nega o “mensalão” mesmo diante da avalanche de pistas, testemunhas e provas acumuladas. Esquiva-se de suas responsabilidades dizendo que nada sabia sobre as maracutaias cometidas por seus companheiros mais antigos e íntimos. Vangloria-se da macroeconomia que de forma ortodoxa foi copiada do governo anterior. A macroeconomia seria o grande trunfo eleitoreiro num período bafejado pela calmaria internacional. Mas que êxito é esse, se em 2005 ficamos em termos de crescimento na rabeira dos países emergentes, incluindo os da América Latina?

 Com todo nosso potencial, nosso tamanho, nossas riquezas naturais, o esforço da iniciativa particular que fez deslanchar as exportações, só conseguimos empatar com o crescimento de 2,5% de El Salvador e ficar acima do miserável Haiti que registrou aumento de 1,5% no seu Produto Interno Bruto (PIB).

O governo do PT, que a todo custo tenta se manter no poder, deixará atrás de si um rastro de destruição econômica, social e moral, que talvez só possa ser resgatada, se o for, por gerações. Note-se, por exemplo, como sobre a égide do lulismo-petismo o Legislativo se corrompeu ainda mais e o Judiciário, através de sua instância mais alta, o Supremo Tribunal Federal (STF), se politizou e se pôs a serviço do Executivo e não da execução da Lei. Em suma, o governo do PT está fazendo do Brasil um país ainda menos civilizado e não passa de conversa mole essa de que nossas instituições estão sólidas, pois não contamos com partidos oposicionistas para valer, com legisladores sérios nem com aplicação justa das leis.

Enquanto navegamos nas águas turvas do atraso e da corrupção vemos a América Latina mergulhar numa onda de governos populistas, ditos de esquerda, que juntamente com o ditador cubano Fidel Castro são exemplos para nosso governo. Este, em vez da propalada liderança, serve apenas para suprir os países vizinhos com recursos e obras por nós custeadas.

O continente retrocede sob a égide de Hugo Chávez, Evo Morales e outros mais, e como tão bem afirmou o escritor argentino, Marcos Aguinis, em entrevista ao Estado de S. Paulo (25/12/2005): “As receitas populistas sempre terminaram mal. Não conseguem evitar a corrupção, o autoritarismo, a cultura da esmola”.

Como os demais populistas latino-americanos, Luiz Inácio elegeu um inimigo, os Estados Unidos; brada contra um liberalismo ou neoliberalismo inexistente; optou claramente em política externa pelo atraso. Caso consiga ser reeleito, utilizando para tanto a propaganda enganosa e a máquina estatal, estaremos condenados a perpetuar o característico fracasso desse continente perdido chamado América Latina. A escolha é nossa.

Sexta, 16 Dezembro 2005 21:00

Sinais Particulares

Por inaptidão, despreparo ou falta de vontade, o presidente Luiz Inácio é a perfeita ilustração da música que ele mesmo disse gostar, e que parece ter adotado como hino particular: “Deixa a vida me levar”.

Por inaptidão, despreparo ou falta de vontade, o presidente Luiz Inácio é a perfeita ilustração da música que ele mesmo disse gostar, e que parece ter adotado como hino particular: “Deixa a vida me levar”.  Mas enquanto Sua Excelência leva a vida, que certamente não quer largar de jeito nenhum (tão-pouco seus companheiros de alto escalão acostumados às doçuras, privilégios e bem-aventuranças comuns aos donos do poder), sinais particulares vão surgindo nitidamente no quadro político do momento. Sem nada a ver com infâmias, como gosta de dizer o presidente que sempre se coloca no papel de vítima, esses sinais agourentos para ele são decorrência de um processo, onde se acumularam de forma desmedida a incompetência e a ganância do modo petista de governar.

Os maus agouros surgiram claramente nas últimas pesquisas, e em que pese essas sondagens de opinião muitas vezes não serem confiáveis, traduzindo modos camuflados de propaganda ou a falsa certeza dos números, não devem ter agradado à atual corte brasiliense.

Conforme pesquisa CNI/Ibope, divulgada em 14/12, adversários do PSDB, partido que Luiz Inácio mais detesta e teme, vão se posicionando favoravelmente. José Serra ganha no segundo turno por folgados 13 pontos porcentuais e Geraldo Alckmin já está empatado tecnicamente com o eterno candidato presidencial que começa a se ver reduzido aos seus tradicionais 30%, porcentagem de votos que lhe ocasionaram três derrotas seguidas.

O grande fenômeno eleitoral da pesquisa é o governador de São Paulo, que saiu de um dígito para ascender rapidamente nas intenções de votos. O argumento de que não é conhecido não é tão importante. Naturalmente Serra é mais conhecido porque chegou ao segundo turno das eleições presidenciais passadas. Mas o palanque eletrônico da TV rapidamente garantirá a visibilidade necessária a Geraldo Alckmin, caso seja ele escolhido como candidato do PSDB. Calmo, articulado, dando demonstrações reais de competência em sua trajetória política, elegante e sóbrio, ele apresenta um contraste estonteante com o candidato à reeleição. E como tudo nessa vida cansa, pode ser que o povo queira agora algo diverso do que elegeu em 2002. Mesmo porque, a pesquisa CNI/Ibope mostra que hoje são apenas 43% os que confiam no presidente, contra os 76% que confiavam em junho de 2003. Os que não confiavam naquela época eram apenas 19% e agora chegam a 53%.

Para piorar, a pesquisa indicou que a reprovação popular incidiu justamente em áreas nas quais Luiz Inácio se gaba de ser um condutor genial. Reprovaram o combate à pobreza 50% dos entrevistados, contra 46% que aprovaram. Programas de educação e saúde: 48% reprovaram e 47% estão satisfeitos. Segurança pública: 65% reprovaram e apenas 29% aprovaram. Combate à inflação: 54% estão insatisfeitos contra 37% de satisfeitos. Taxas de juros: 63% reprovaram e 25% aprovaram. Combate ao desemprego: 62% reprovaram e 34% aprovaram. Impostos: 69% criticaram contra 23% que aprovaram.

É também sinal particular significativo o resultado de uma pesquisa da GlobaScan, divulgada na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Hong Kong. A sondagem que ouviu 20 mil pessoas em 20 países mostra que o Brasil foi o país em que o governo mais perdeu prestígio diante de sua população, na comparação com outros 14, nos últimos 12 meses.

Além das análises quantitativas, há certos sinais particulares importantíssimos que incidem sobre aspectos qualitativos. Por exemplo, O Estado de S. Paulo, de 15/12, trouxe duas notícias que demonstraram a insatisfação de duas instituições que, através de nossa história, quando desfavoráveis ao governo o colocavam em sérias dificuldades: a Igreja Católica e as FFAA. Portanto, mesmo sem o poder de outrora, é significativo o fato dos bispos do Brasil, segundo o jornal citado, terem ido recentemente se queixar ao Papa com relação às políticas sociais do governo Luiz Inácio. Recorde-se que o PT é filho dileto da Ecclesia e sempre contou com seu apoio.

Em outra página, o comandante do Exército, General Francisco Albuquerque, reclamava entre outras coisas de que os militares não estão conseguindo fazer as três refeições por dia.

Analistas e adeptos do governo petista falam que Luiz Inácio pode reverter o quadro. Ele possui a máquina estatal que é pródiga em benefícios e caridades oficiais quando interessa. Talvez isso aconteça, pois em política os cenários mudam rapidamente e o PT no poder acostumou-se a comprar tudo e todos. Mas que os sinais particulares do momento estão adversos, marcantes e pressagiadores de derrota para o PT, isso lá estão.

Domingo, 11 Dezembro 2005 21:00

Sob o Comando de Hugo Chávez

O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco.

No primeiro ano de seu mandado, o presidente Luiz Inácio aparecia como líder triunfal de esquerda não só do Brasil, como da América Latina. Além disso, ele se colocava para o mundo como um fenômeno capaz de impressionar os Estados Unidos e a Europa.

Em parte essa imagem foi ardilosamente construída pela propaganda, em parte pela ambição de poder do PT que se reveste da característica paranóica tão bem analisada por Elias Canetti. O autor mostra, entre outras coisas, em sua obra-prima “Massa e Poder”, que o paranóico trata sempre de defender e assegurar para si uma posição exaltada, importante, e que o poderoso também possui esse sentimento.

Essa análise se encaixa bem nesse governo transparecendo, inclusive, nas constantes viagens internacionais nas quais do presidente da República. Ele partia cercado de grandes comitivas, sendo divulgados para uso interno grandes pompas, honras, elogios e sucessos obtidos por nosso mais alto mandatário. Com tal estratégia se pretendeu também manter a alma nacional otimista e imersa em ufanismo. Isso apesar da péssima política internacional do governo petista, mergulhada em visão ideológica terceiro-mundista e que trouxe conseqüências econômicas duvidosas ou desastradas como, só para citar um exemplo, o grande negócio da China que agora está provocando temores de empresários e demissões de trabalhadores.

Qualquer alusão a esta realidade é tida como preconceito ou conspiração contra o pobre operário, que vive como um emir, simula governar o país e só aceita boas notícias. E aqui também aparece o traço paranóico do poder relativo às conspirações. Como mostrou Canetti na obra citada: “As conspirações ou conjurações estão na ordem do dia para o paranóico. Ele se sente cercado. Seu inimigo principal jamais se contentará com atacá-lo sozinho. Sempre procurará atiçar sobre ele uma malta odiosa, soltando-a no momento exato”. De certo modo isso também explica porque José Dirceu sempre fala em conspirações da oposição – que de fato não existe – e na necessidade de reagir a ela jogando na rua os movimentos sociais para defender o injustiçado presidente da República. Por movimentos sociais referidos por José Dirceu entenda-se o MST, a CUT e a UNE, todos devidamente pagos pelo governo do PT segundo se tem mostrado na imprensa.

Mas se agora as viagens internacionais não podem ser mais tão constantes, pois o presidente, em franca campanha de reeleição precisa viajar pelo Brasil fazendo inaugurações mesmo das obras de seus predecessores, pelo menos sua influência no Mercosul deveria existir visto que somos a maior economia da região. Mas nem isto está ocorrendo. O Brasil vem se curvando às imposições comerciais da Argentina e para agravar a situação, a partir da 29ª Cúpula do Mercosul, em Montevidéu (Uruguai), quando se consuma a entrada da Venezuela como quinto sócio do bloco, o Brasil poderá se ver na situação de apenas assumir os custos de projetos comuns e de se submeter às lideranças reunidas por interesses econômicos, como as de Nestor Kirchner e Hugo Chávez.

Sobre essa hipótese de subalternidade ainda não se levantou no Brasil nenhuma voz nacionalista, seja de direita, seja de esquerda. Aqui se prefere o pseudo-democráta Chávez ou ditador Fidel de Castro, mas não se admite nossa participação na Alca.

Sobre esse aspecto de xenofobia antiamericanista, Chávez é um sucesso e já proclamou: “Nosso destino é o mercado comum do Sul e isso é anti-Alca”. Essa fala demagógica extasia seus deslumbrados seguidores e admiradores como os integrantes das Farc, do MST, notadamente seu líder João Pedro Stédile, e governadores como Roberto Requião, do Paraná, que como homem de esquerda adora também as delícias de Paris. Até entre os norte-americanos menos aquinhoados pela prosperidade Hugo Chávez tem se intrometido para seduzi-los com promessas de benefícios. Enfim, o presidente venezuelano lidera espetacularmente o atraso latino-americano que inclui o isolamento da região e caminha na contra-mão da globalização tida como um dos males mundiais.

Tratando de armar-se até os dentes e com sonhos atômicos povoando sua mente também paranóica no sentido do poder, Chávez, que acaba de ganhar uma eleição na qual mais de 75% dos eleitores não votou, dá sinais de que não deixará o poder tão cedo. 2030 já é seu novo marco temporal de permanência no cargo. Afinal, o caudilho venezuelano já dominou os Poderes Legislativo e Judiciário, portanto, governa impávido o país a partir apenas do Executivo. Diga-se de passagem, que tal modelo também norteia o governo petista de Luiz Inácio, mas ainda não foi alcançado em plenitude apesar da politização do STF e do funcionamento dos mensalões na Câmara de Deputados no primeiro ano de mandato.

O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco. Mas enquanto a economia brasileira dá sinais de retrocesso e o país se encontra mergulhado em corrupção jamais vista, a propaganda tentará fazer crer que Luiz Inácio é o grande líder de esquerda da América Latina, quiçá do mundo. Muita gente ainda acreditará nisso.

Terça, 06 Dezembro 2005 21:00

Bengaladas Cívicas

Implacável com adversários, mão de ferro no governo, arrogante quando detinha poder, defensor no passado de CPIs, Dirceu alega que sua cassação foi fuzilamento político.

A cassação do ex-todo-poderoso José Dirceu, que finalmente aconteceu depois de longos e enjoativos malabarismos jurídicos, representou considerável derrota do presidente da República e maior desmoralização de seu partido, o PT. E ainda que se diga que a Luiz Inácio interessava a queda do companheiro, como meio de livrar a própria pele e atenuar a crise política em que seu governo se encontra imerso desde muitos meses, o fato é que o presidente se desgasta ao perder seus homens fortes, invariavelmente acusados de corrupção. Além do mais, apesar da corrupção ser antiga e endêmica no Brasil, jamais a história havia registrado tal magnitude de amoralismo nos meios governamentais. A sensação é que se perdeu completamente a compostura, a vergonha e um mínimo de senso moral, prevalecendo de modo desmesurado o vale tudo do poder.

Sem ser orador brilhante ou líder carismático, aquele que já foi chamado de primeiro-ministro tentou e continuará tentando passar a impressão de que nada fez de errado. Ao contrário, é um pobre coitado, um humilde, um inocente. Obstinado em se colocar como vítima, Dirceu, de certo modo promovido a herói em biografia levada ao ar pela TV Globo, diz que vai processar o escritor paranaense, Yves Hublet que no Congresso lhe desferiu três bengaladas cívicas. Tal vingança do ex-camarada Daniel (codinome de José Dirceu) parece excessivo e o tornará figura ainda mais execrada pela sociedade. Mesmo porque, as bengaladas de Hublet traduziram simbolicamente o grito de “fora Dirceu”, o que deixou lavada a alma de muitos brasileiros. Desse modo, tal atitude do agora também ex-deputado só faz confirmar sua prepotência, sua alma de ditador, sua intolerância stalinista, sua personalidade rancorosa.

Implacável com adversários, mão de ferro no governo, arrogante quando detinha poder, defensor no passado de CPIs, Dirceu alega  que sua cassação foi fuzilamento político. Contradição de quem chora nas barbas do ditador Fidel Castro e que deve ver no paredão cubano uma forma democrática de se fazer justiça, ou que fuzilou sem piedade companheiros dissidentes agora reagrupados no PSOL.

José Dirceu, que já teve outros nomes e outra cara, apesar de chamar a imprensa de partidarizada, foi brindado com a chance de uma entrevista coletiva devidamente televisionada, proeza que nenhum cassado havia conseguido. Muito à vontade ele usou a velha tática esquerdista de transformar derrota em vitória, de deturpar fatos e abusar de inverdades. Alegou falta de provas no seu julgamento, no que foi posteriormente secundado pelo companheiro presidente da República, que tardiamente veio em sua defesa.

Em todo caso, causa novamente estranheza que Luiz Inácio nada soubesse acerca do comportamento de um de seus auxiliares mais diretos, o conselheiro dileto, o companheiro mais antigo e chegado que lhe poupou a pesada tarefa de governar para qual não está habilitado. Daí a necessidade do presidente dizer: “não há provas contra Dirceu”. Assim, eximem-se todos de todas as culpas.

Mas será que faltam provas contra Dirceu? Segundo o senador Álvaro Dias, “como não existem provas, se José Dirceu está no epicentro da crise? E o esquema de Santo André, em que o dinheiro da propina era transportado para São Paulo e entregue para Dirceu? Com Waldomiro Diniz, a figura emblemática de Dirceu também apareceu, assim como nas negociações com os bancos BMG e Rural, em que se fraudava a contabilidade para registrar empréstimos que não ocorreram”.

Por outro lado, há um fato bastante intrigante que funciona como espécie de auto-atestado de culpa: José Dirceu deixou o importante cargo de ministro da Casa Civil em obediência a ordem de Roberto Jefferson: “sai daí rápido”. Se era tão inocente, por que agiu assim?

Em meio à crise política, que está longe de arrefecer mesmo com a retirada de cenário daquele que foi chamado de chefe do mensalão, esboça-se agora a crise econômica, setor do qual o governo vem se vangloriando. A má notícia surgiu com a inesperada queda de 1,2% do PIB no terceiro semestre. Com isso as projeções para o crescimento em 2005 caíram de 3% para 2,5%, o mais baixo entre os países em desenvolvimento. À luz desse fato recrudescem as discussões entre empresários e governo, e são refeitos cálculos dos economistas que erraram feio em suas projeções. A sensação é de que o governo começa a ficar aturdido em que pesem os discursos que, distantes da realidade, seguem a linha das boas notícias. No ano que vem certamente virão as bondades lulianas de campanha para a conquista da reeleição. Mas qual será de fato o preço pago pela sociedade para manter Lula lá? Esse PT no poder é de dar medo.

Sábado, 26 Novembro 2005 21:00

Mixórdia Brasil

Ao chegar ao topo do poder o PT instalou no Brasil a mais incrível mixórdia já registrada em toda nossa história.

Ao chegar ao topo do poder o PT instalou no Brasil a mais incrível mixórdia já registrada em toda nossa história. Isso porque, acostumados a militarem na oposição, os petistas são governo que não sabe governar.

 Exemplo disso se constata no próprio presidente Luiz Inácio, que parece ser incapaz de dirigir uma repartição pública. Homem de muita sorte, mesmo sem condições para exercer o cargo que ora ocupa obteve sucesso apelando ao símbolo operário, algo de efeito emocional e calcado nos recuados tempos em que seu partido surgiu de forças sindicais.

 Mesmo tendo trabalhado apenas por breve período, Luiz Inácio se apresenta, e é apresentado pela chamada esquerda (essa mixórdia ideológica cujos adeptos agem como direita e vivem como burgueses) como o pobre e injustiçado proletário, o que pretende também significar para efeitos de sedução populista o defensor de seus supostos iguais fracos e oprimidos.

Contradição ambulante que atinge seu paroxismo na farsa, Luiz Inácio, sempre se dizendo o torneiro mecânico que não é mais, encena a pantomima em que surge como paladino de uma hipotética luta de classes. Vestido como patrão, usufruindo as delícias da burguesia, os privilégios da corte, os luxos palacianos, ele simula ser o coitadinho perseguido pelas malvadas elites que, na verdade, ajudaram sua ascensão ao poder e nele o sustentam.

Em que pese a última pesquisa da CNT/Sensus, divulgada em 22/11, que aponta para expressiva queda de popularidade do presidente, uma porcentagem de crédulos – cada vez menor, é verdade – ainda não percebeu que o ídolo de pés de barro atingiu seu nível máximo de incompetência e, o que é pior, sustentou e sustenta junto a si ministros e assessores muito próximos sobre os quais pairam pesadas acusações de corrupção que lhes inviabilizariam a permanência no cargo não fosse o Brasil o país da mixórdia. Sem falar que em sua maioria os ministros são, por sua vez, inoperantes.

Espantosamente, esse presidente da República que em última instância é o responsável pela impressionante corrupção que grassa em seu governo, se apresenta feliz e risonho para a reeleição. A ele a ao seu partido (outra mixórdia onde predominam a falsa ética e a truculência oposicionista) interessa apenas a manutenção do poder custe o que custar e pelo maior tempo possível. Para tanto o PT supõe que basta cultivar o mito do eterno retirante para superar a realidade que afunda na sordidez das falcatruas e dos crimes acobertados pelo Legislativo, pelo Judiciário e por fortes interesses econômicos.

Mas se os atuais governantes não sabem governar, as oposições não sabem se opor. Sem partidos verdadeiramente oposicionistas se acentua a mixórdia. Vê-se, por exemplo, o PSDB proteger o PT do próprio PT sempre autofágico, no que conta com a ajuda do PFL, enquanto o PMDB utiliza sua tradicional estratégia de ser ao mesmo tempo oposição e situação.

No primeiro ano do governo Luiz Inácio, quando o Congresso foi quase dominado pelo Executivo a partir do modelo Hugo Chávez, o PSDB e o PFL, mesmo sem se venderem por mensalões foram os fiéis votantes das vontades governamentais a partir da postura de “oposições responsáveis”. E quem desenvolveu a tese de enfraquecer Luiz Inácio ao invés de pedir seu impeachment?” O cordato PSDB, que sempre demonstrou um amor não correspondido ao PT que, implacável, berrou durante oito anos “fora FHC”, e no poder tem clamado contra a herança maldita que lhe possibilitou o relativo sucesso na macroeconomia.

Somos faltos de oposição, exceção feita a certos parlamentares, e quando esta resolve assumir seu papel é crivada de críticas pela mídia. Na linha do bom-mocismo jornais passaram a acusar a cúpula do PSDB de “políticos de borduna”. E não faltam próceres desse partido que defendem o comportamento punhos de renda, como Aécio Neves que declarou: “não conseguiremos transformar o Lula em ladrão porque ninguém vai acreditar”. Será que não? O governador mineiro passa a impressão de que nada lhe agradaria mais do que ser o vice de Luiz Inácio na chapa da reeleição. E, afinal, no ano que vem a máquina do Estado jorrará de suas engrenagens a felicidade dos pobres com o aumento de esmolas governamentais que os deixarão mais pobres, os lucros dos ricos que ficaram mais ricos, enquanto as classes médias receberão alguns benefícios capazes de lhes despertar a gratidão que se externa em votos.

O PT tudo compra, tudo corrompe e na mixórdia Brasil, sem governo nem oposição, todas as surpresas, todas as malandragens, todas as iniqüidades, todas as hipocrisias são possíveis, pois acreditamos até em juiz de futebol ladrão.

Nada muda na espécie humana e pensando em 2006, meditemos sobre a frase proferida poucos anos antes de Cristo, na Roma Antiga, por Gaio Otávio, chamado de Augusto: “Cidadãos corruptos criam governantes corruptos, e é a turba que finalmente decide quando a virtude morrerá”.

Segunda, 14 Novembro 2005 21:00

A Exarcebação da Mentira

Mas acredito que perdemos a taça do festival de mentiras quando ouvi Fidel Castro dizer a Maradona, num programa de TV, que sofreu 600 atentados cometidos pela CIA.

Ao mentirmos nos isentamos de culpas e responsabilidades, criamos um mundo à nossa imagem e semelhança, pretendemos enganar aos outros e a nós mesmos. Mas para além das mentiras individuais, desde as mais grosseiras até as piedosas, a mentira trespassa todas as nossas instituições políticas e econômicas, e entranha nosso tecido social. E o que é pior, a mentira é bem aceita por nós. Como disse Otávio Paz, “a mentira política se instalou em nossos povos quase constitucionalmente e o dano moral tem sido incalculável, alcançando zonas muito profundas do nosso ser. Movemo-nos na mentira com naturalidade”.

Mas se todos os povos mentem existem países onde os poderes constituídos são mais respeitáveis que os nossos, que as atividades econômicas costumam se processar em níveis mais leais que nossas costumeiras práticas corruptas, que a confiança mútua é bem mais generalizada do que entre nós por força mesmo de outra formação cultural. O resultado disso se verá na estabilidade política, no notável desenvolvimento econômico, e aqui cito como exemplo os Estados Unidos, cuja mentalidade é bem diferente daquela dos latino-americanos o que inclui, é claro, a mentalidade brasileira.

Entretanto, nunca se mentiu tanto quanto agora. Avoluma-se de modo sem precedentes a mentira praticada pelo presidente da República e pelas mais altas autoridades do país. Mentem próceres petistas que se diziam exemplos de políticos éticos. Mentem depoentes nas CPIs e o último  a dar um show enojante de mentiras foi Vladimir Poleto, ex-assessor do ministro Antonio Palocci que por sua vez mente ao se esquivar das acusações de corrupção feitas por seus ex-homens de confiança com relação a sua administração como prefeito de Ribeirão Preto.

Nas CPIs a mentira é permitida legalmente por ministros do STF, que antes de tudo são companheiros do presidente, sendo que alguns devem à Sua Excelência a nomeação. Mente-se à vontade e os mentirosos não podem ser presos. Mas num país em que criminosos confessos são soltos, que a impunidade é a norma, o direito de mentir não parece chocar a sociedade que se move na mentira com naturalidade.

A questão é que estamos diante da exacerbação da mentira praticada pelos poderes mais altos da República que, se sempre mentiram, nunca mentiram tanto quanto agora. Pior, a mentira que contamina toda a estrutura governamental leva à completa imoralidade, à corrupção total da coisa pública, à eliminação de valores. Vale tudo. O PT, enquanto partido e enquanto governo, elevou a imoralidade no Brasil a um nível jamais visto.

Isso já era perceptível através da propaganda enganosa, engenharia da mentira brilhantemente construída por Duda Mendonça, aliás, um dos atuais desaparecidos do palco circense da mentira em que se transformou o País. Dados e estatísticas, que exaltam estrondoso êxito econômico, são mentiras revestidas da falsa verdade dos números. Bravatas lançadas pelo presidente da Republica, que se vangloria de um grandioso e fictício sucesso, compõe a mentira demagógica. E sua última entrevista, gravada, ensaiada, coreografada e exibida no circo eletrônico da TV, não me deixa mentir.

A mentira nesse momento da vida nacional levou ao apogeu o cinismo. Isso é visível quando o ex-ministro, José Dirceu, diz calmamente, e em tom de vítima, “sou Inocêncio”. Quando o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, debocha da sociedade com seu eterno riso de felicidade e mente sob cobertura judicial relativizando o caixa dois, o mensalão e outros crimes classificados por ele como piada de salão que será facilmente esquecida. Quando Marcos Valério, o office-boy de luxo da lavanderia do PT, nega seus crimes com aquele sorrisinho de Mona Lisa. E esses são apenas uns poucos exemplos de mentirosos.

Em meio à mentira exercida sem escrúpulos pelo presidente da República e por eminentes petistas (relembre-se José Genoino) se estabelece a amnésia. Ninguém viu nada. Ninguém sabe de nada. São todos “inocêncios”. E quando o presidente Luiz Inácio admite pela primeira vez que é responsável por seu governo, mas que sua função consiste em mandar apurar as pesadas acusações que denigrem a própria imagem do Brasil, a mentira raia ao absurdo. Quem tem um mínimo de informação sabe que manobras de todos os tipos, originadas no núcleo do governo e exibidas por sua tropa de choque no Congresso, são obstáculos freqüentes à elucidação dos deprimentes fatos.

Quando o mau exemplo vem de cima o que se pode esperar?  Como se educar um filho lhe ensinando a dizer a verdade, a ser honesto, a procurar através do trabalho o mérito que advém da competência?

Mas acredito que perdemos a taça do festival de mentiras quando ouvi Fidel Castro dizer a Maradona, num programa de TV, que sofreu 600 atentados cometidos pela CIA. Esses americanos

Vão ter pontaria ruim assim no inferno.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.