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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Domingo, 30 Julho 2006 21:00

Quadrado Trágico

O quadro é trágico porque conduz aos confins do subdesenvolvimento. É preciso, pois, frear sua escalada. No nosso caso temos uma “arma” ao nosso alcance para fazer isso: o voto.

Conforme analisei em um dos meus livros, “América Latina – em busca do paraíso perdido", entre 1810 e 1824, aconteceu o processo de independência das colônias hispânicas e a situação que daí se originou marcou o destino dos futuros países latino-americanos: findou-se um equilíbrio e outro não surgiu em seu lugar.

Um fato marcante daquela época que se esvaía sob o estilhaçamento do império espanhol foi o nascimento das repúblicas sob a égide dos caudilhos. Eles emergirão das guerras da independência, lutando à frente dos seus bandos armados. Bastante numerosos de início serão reduzidos, submetidos pouco a pouco por supercaudilhos. Surge a era de um Rosas na Argentina, de um Porfírio Díaz no México e de outros mais. Eles foram o protótipo dos futuros ditadores latino-americanos e sua “pedagogia política” foi feita na mesma linha de violência e autoritarismo, de intolerância e brutalidade dos conquistadores espanhóis e das sociedades pré-colombianas mais evoluídas.

Tudo isso significa que as “revoluções” das oligarquias nativas continham muito mais o elemento da tradição que o da mudança. O que se desejava alterar era a composição do poder e não a sua essência. Assim, a partir da “Espanha invertebrada” (expressão de Ortega y Gasset), não houve na América espanhola independente a “comunidade de propósitos” que faz com que grupos integrantes “convivam não por estar juntos, mas sim por fazer algo juntos”, conforme o lapidar pensamento orteguiano. E, nas nascentes sociedades invertebradas, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de “minorias seletas” que comandassem o processo emancipatório, a inexistência de espírito associativo (substituído pela vivência do pequeno mundo familiar ou clânico), gerarão o desequilíbrio estrutural cujas manifestações mais graves são sentidas até hoje: o atraso econômico, o individualismo, a desconfiança generalizada, o populismo, o nacionalismo xenófobo, a tendência autoritária, os Estados leviatânicos incompetentes e corruptos.

Se a Espanha foi um “licor forte” para suas colônias, nós bebemos o “vinho verde e leve” de Portugal. Sem o radicalismo espanhol viemos ao mundo marcados por um certo desleixo, pela plasticidade de costumes e também pela veleidade que nos faz “ser e não ser, ir e não ir, indefinição de formas e vontade criadora”, conforme Raymundo Faoro. Porém, se somos primos e não hermanos dos nossos vizinhos, se nos diferenciamos do restante da América Latina pela nossa dimensão territorial e fatos de nossa história como, por exemplo, a presença da corte Portuguesa em território nacional e a ausência da participação popular em nosso processo de emancipação de Portugal, guardamos certos traços comuns com os citados acima, que por outras vias históricas marcaram a América Espanhola.

Desse modo, a situação que hoje existe na América Latina como um todo reproduz em muitos aspectos a continuidade da mentalidade do atraso que sempre nos caracterizou. Permanece a atração por caudilhos autoritários e líderes populistas; a defesa do pai Estado que nos castiga com seus monopólios, seus impostos exorbitantes, sua burocracia asfixiante; a corrupção endêmica de nossos governos; o ódio aos Estados Unidos como sublimação de nossas mazelas; a incapacidade de romper o atraso político e econômico; as quimeras revolucionárias que sempre prometeram o paraíso e geraram o inferno; a falta de minorias seletas capazes de nos dotar de um projeto comum.

Quanto ao palco político, desenhou-se por essas plagas um quadrado trágico que por sua característica ideológica de fazer a América Latina dissociar-se em termos comerciais e políticos dos países mais desenvolvidos, de cultivar traços populistas e paternalistas que mantém os pobres sempre pobres através das caridades oficiais, de apresentar vezo estatizante e forte tendência autoritária, arrasta os latino-americanos pela contra-mão da historia.

O quadrado trágico é composto pela Venezuela, Bolívia, Cuba e Brasil, respectivamente governados por Hugo Chávez, Evo Morales, Fidel Castro (ressuscitado por Chávez no que foi apoiado pelo presidente brasileiro) e Luiz Inácio Lula da Silva.

Evidentemente esses presidentes possuem pesos políticos diferenciados no cenário latino-americano. Mas, infelizmente, o Brasil, que por tanto tempo e dada sua envergadura econômica salientou-se como líder natural da América Latina, hoje segue a reboque de Hugo Chávez. Este ajudou eleger Evo Morales, amargou derrotas de seus candidatos no Peru e no México e agora apóia Luiz Inácio.

O quadro é trágico porque conduz aos confins do subdesenvolvimento. É preciso, pois, frear sua escalada. No nosso caso temos uma “arma” ao nosso alcance para fazer isso: o voto.

Terça, 25 Julho 2006 21:00

Lula, o Candidato de Hugo Chávez

Portanto, se o presidente Luiz Inácio não teve holofotes entre os primos ricos, também os perdeu entre os primos pobres. Foi ofuscado por Chaves, em que pese ser seu candidato. Ao venezuelano, sem duvida, interessa Lula-lá de novo e tudo fará ao seu alcance para apoiar o companheiro.

A ida de Luiz Inácio a São Petersburgo, na Rússia, neste mês de julho, passou a impressão que o brasileiro falaria de igual para igual no clube do G-8 composto pelos poderosos da Terra. Ledo engano. O presidente foi lá apenas como convidado juntamente com a China, o México, a Índia, a África do Sul e o Congo. E suas eternas cobranças aos países ricos, para que favoreçam os mais pobres, caíram no vazio. Já se foi o tempo em que Sua Excelência causava certa curiosidade, sobretudo, em países europeus. Talvez, por conta da tendência dos antigos colonizadores de valorizarem o folclore. Hoje é Evo Morales, presidente da Bolívia, com suas blusas de lã coloridas e suas jaquetas de couro cuidadosamente escolhidas por estilistas, que obtém maior sucesso.

Sem se impor na questão dos pré-acordos da Rodada de Doha, que em ocasião passada foi obstaculizada pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente dedicou-se ao turismo. Entre outros passeios visitou o museu Hermitage, a catedral de Santo Isaac e fez uma de suas indefectíveis brincadeirinhas diante da estátua de Pedro, o Grande. Disse ao chefe do cerimonial do Planalto, embaixador Paulo César de Oliveira Campos, conhecido como POC, que ele nunca seria imperador porque tinha só um metro e sessenta, enquanto o governante da Rússia era alto. Pelo visto, Sua Excelência também nunca será imperador.

Em que pese a agradável parte turística, Luiz Inácio teve o dissabor de ser repreendido duramente por seu amigo francês, presidente Jacques Chirac. Este criticou a falta de flexibilidade do brasileiro e deixou bem claro que, apesar de sua amizade o comércio é um capítulo à parte, e que não haveria nenhuma confiança entre França e Brasil diante do tema. Chirac disse ainda: “O presidente Lula pensa da seguinte forma: ‘o que é meu é meu; o que é dos demais é negociável” (O Estado de S. Paulo, 18/06/2006).

Depois do fiasco em Petersburgo, pois Luiz Inácio não conseguiu sequer enxertar os combustíveis alternativos no Plano de Ação de Segurança Energética montado pelo G-8, veio o consolo. O presidente Bush disse que ele estava bem, referindo-se ao fato de que Sua Excelência perdera alguns quilos. E assim terminou mais essa viagem, paga por nós, contribuintes. Não é à-toa que nossos impostos são tão pesados.

Mas viajar é bom e Luiz Inácio rumou, dia 20 deste, à Córdoba, Argentina, para o encontro com membros do abalado Mercosul. Presentes estrelas socialistas como Evo Morales, Michelle Bachelet e o aguardado Fidel Castro que representará o museu das revoluções latino-americanas equivocadas, ou seja, o secular atraso do continente e sua tendência autoritária. Mas a maior de todas as estrelas socialistas, Hugo Chávez, o quinto sócio do agonizante Mercosul, com seu fulgor sem concorrência, demonstrará aos presentes quem manda realmente.

Com seus petrodólares Chávez tornou-se o grande pai magnânimo da região e, armado até os dentes, possivelmente já tem o maior Exército da América do Sul, o qual pretende ampliar com os chamados movimentos sociais dos países vizinhos que estarão unificados sob o comando do tenente-coronel venezuelano.

Como um Hitler subdesenvolvido Chávez tem ímpetos conquistadores e sua obsessão, de cunho paranóico, é minar o poderio norte-americano com a ajuda dos vizinhos, o que inclui o Brasil. Desse modo, a reunião de Córdoba é mais um palco iluminado para Chávez pontificar contra os Estados Unidos e arregimentar fervorosos adeptos sul-americanos. E para demonstrar ainda mais seu prestígio o presidente da Venezuela convocou os movimentos sociais que o saudarão num monumental comício de milhares de pessoas.

A reunião de Córdoba, mesmo que não pareça, significa o fim do Mercosul e a ascensão da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) que substitui a Alca, dos Estados Unidos e foi acertada anteriormente entre o venezuelano, Fidel Castro e Evo Morales. O próprio Chávez deixou tudo muito claro ao dizer: “Depois de Córdoba, haverá outro Mercosul”, enquanto “a imprensa cubana assinalava a afinidade de Fidel Castro com a ‘nova cara do Mercosul’ e afirmava que com a Venezuela abria-se ‘um novo horizonte de integração” (Folha de S, Paulo, 21/07/2006). Em outro momento Chávez declarou aos jornalistas, ao chegar em Córdoba: “essa será a Cúpula dos povos latino-americanos”. “Vamos escrever a nova história da América Latina” (O Estado de S, Paulo, 21/07/2006).

Portanto, se o presidente Luiz Inácio não teve holofotes entre os primos ricos, também os perdeu entre os primos pobres. Foi ofuscado por Chaves, em que pese ser seu candidato. Ao venezuelano, sem duvida, interessa Lula-lá de novo e tudo fará ao seu alcance para apoiar o companheiro.

São essas coisas que sempre me trazem à memória as palavras de Simón Bolívar, pronunciadas em 1830: “Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a última metamorfose da América Latina”.

Domingo, 16 Julho 2006 21:00

Bombas Armadas Para 2007

Não estou me referindo aqui às bombas do PCC. Coincidentemente, como já foi percebido por tanta gente, o terrorismo desencadeado pela organização criminosa surge em São Paulo quando o candidato do PSDB sobe nas pesquisas.

Não estou me referindo aqui às bombas do PCC. Coincidentemente, como já foi percebido por tanta gente, o terrorismo desencadeado pela organização criminosa surge em São Paulo quando o candidato do PSDB sobe nas pesquisas. Muito oportuno para seu principal adversário que tem como estratégia transferir culpas negando sempre desconhecer circunstâncias negativas.

Certamente, se não houver estrito cumprimento da lei, medidas prisionais rigorosas, mais presídios de segurança máxima, policiais bem armados e bem pagos, os bandidos vão querer continuar a demonstrar que podem a qualquer momento usar da violência contra policiais, agentes penitenciários e a população indefesa, com escalada que poderá atingir juizes, promotores, advogados e outras autoridades.

Entretanto, existem bombas de outro teor que estão sendo armadas pelo governo petista. Estas explodirão no bolso de cada um no ano que vem, apesar de que no momento a propaganda ensina que vivemos num paraíso onde a miséria foi extinta por um magnânimo pai, que chegamos à era do pleno emprego, que nunca houve tanta qualidade em Educação e Saúde.

Contudo, se na TV predominam boas notícias, entremeadas pelo contraste das catástrofes e desgraças alheias a comprovarem que só no Brasil se é feliz, matérias de jornal mostram vez por outra a realidade que passa desapercebida da grande maioria. Lendo sobre notícias econômicas ficamos sabendo, por exemplo, que o aumento do gasto com o funcionalismo público do Executivo federal, somente nesse ano de eleições foi de 11%, quase o que foi dado entre 1995 e 2005, que alcançou 12%. Além dos aumentos salariais houve a reestruturação de cargos, assim como a criação de novos.

É preciso recordar, que o ex-ministro (que continua como “gerentão” de campanha), José Dirceu, loteou o Estado entre os companheiros e ministérios foram multiplicados para servirem de prêmio de consolação para companheiros derrotados nas eleições. E como o presidente da República negociou os Correios com parte do PMDB para obter apoio da sigla, e prometeu dividir o governo com aquele partido, não é difícil imaginar o inchaço do funcionalismo que acontecerá em 2007, se ele se reeleger e de fato entregar a mercadoria aos peemedebistas. Além disso, outros aumentos em cascatas deverão vir para o Legislativo e para o Judiciário. Diante de tal quadro não é difícil concluir que o gigantesco gasto com a máquina estatal impede que se reduza impostos ou se aumente os investimentos na produção, capazes de gerar emprego e não paternalismo eleitoreiro de bolsas-esmola.

O governo do PT está também longe da sobriedade quando se trata do Palácio do Planalto. O gasto com a chamada “estrutura de apoio do presidente”, de janeiro até o início desse mês foi de R$ 637,3 milhões, mais R$ 69 milhões do que todo o ano passado. Quanto as inúmeras viagens de Luiz Inácio, funcionários e ministros colaboraram para aumentar o esbanjamento às custas do povo. Como se sabe, gastos excessivos da “corte” (e os atuais batem todos os recordes com relação às gestões anteriores) são pagos por nós, contribuintes. Não é à-toa que os impostos pesam tanto sobre a população.

O governo é também pródigo em perdoar dívidas de países estrangeiros e, apesar da expropriação da Petrobrás feita pelo governo boliviano, Luiz Inácio ofereceu mais dinheiro a Evo Morales que vai aumentar o preço do gás e considera o Brasil imperialista. Imagine-se o presidente Bush se comportando assim.

Para a Varig, nada. Nem para os aposentados. O PT, decididamente, não gosta de idosos. Que o diga o atual presidente da sigla, Ricardo Berzoine, que pode ser chamado de carrasco da terceira-idade. E enquanto a maioria dos mais velhos passa necessidade no final de suas existências, o presidente-operário dobrou seu patrimônio em quatro anos de mandato, segundo dados oficiais, e é dos mais ricos candidatos nas eleições desse ano.

Muitas outras bombas vão estourar no ano que vem e como não é possível mencionar todas num pequeno artigo, me reporto apenas a mais duas: A primeira se refere à Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que revisou sua previsão sobre a produção industrial em 2006, baixando-a de 6% para 3,5%. A segunda diz respeito ao agronegócio (o inimigo número um de João Pedro Stédile e de seu MST), cujo saldo da balança comercial que esteve sete anos em alta cairá em 2006. Conforme a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) o superávit neste ano será de US$ 37 bilhões, queda de 3,7% na comparação com os US$ 38,416 bilhões acumulados no ano passado.

Está, pois, previsto, o grande espetáculo do crescimento das explosões na economia. Então, conheceremos de fato o que é a verdadeira herança maldita, aquela que nos será legada pelo presidente LILS.

Sábado, 08 Julho 2006 21:00

Ética da Malandragem

De ultrapassar a ética malandragem, segundo a qual quem não rouba é burro, e bom governante é o que rouba, mas faz? Eis questão.

A Copa do Mundo acabou mais cedo para o Brasil. Perdido o jogo para os franceses parecia que o mundo se findara entre gritos, lamentações e lágrimas. Nem os ataques do PCC e sua matança de agentes penitenciários, nem os mensalões com os quais o governo do PT agraciou parlamentares que venderam seu voto e traíram o povo por trinta moedas ou bem mais, nem o peso dos impostos que levam 40% do que é produzido por todos nós, nem os escândalos que enodoaram a República de forma vexatória, nem a corrupção galopante que faria corar qualquer bandido de outras terras produziram a hecatombe de sentimentos que se viu na derrota futebolística. Patriotismo aqui é só no futebol. Bandeira brasileira tremula apenas na batalha campal travada pelos pés de nossos jogadores. Do verde-amarelo se foi ao luto. Do riso fez-se o pranto. Da esperança, desencanto.

O jeito foi mudar de país. Como o técnico de Portugal era o brasileiro Felipão, nos tornamos todos portugueses desde criancinhas. Sublimamos a própria derrota para poder suportá-la transferindo para outro time nosso orgulho nacional que só se externa em Copas do Mundo. E como se torceu pela antiga metrópole. Ao final da partida outra dolorosa frustração: Portugal também perdeu. Inominável dor. Fomos derrotados pela segunda vez.

Se torcer por nossos jogadores quando defrontados com os de outros países é mais que natural, se o entusiasmo pelo esporte é sadio, temos, porém, um exagero que raia ao fanatismo quando se trata de futebol. Apenas levamos a sério carnaval e futebol enquanto somos extremamente displicentes com assuntos políticos. Nosso voto é fútil. Nosso empenho em ter um projeto comum de país é inexistente, exceto quando se trata de partidas mundiais de nosso adorado esporte nacional. E não basta dizer que fomos intoxicados pelo invasivo martelar da TV a mostrar dia e noite os acontecimentos ligados à Copa. Isso funciona, e muito, mas não funcionaria se não fossemos tão pobres em valores. Tão parcos em heróis de verdade, tendo que nos satisfazer com jogadores de futebol transformados em ídolos. Faltam tradições mais sólidas a esse país grande que ainda não se transformou num grande país porque não soubemos construí-lo grandioso.

Em meu primeiro livro, “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A ética da malandragem”, editado por Jorge Zahar no já longínquo ano de 1988, cheguei a algumas conclusões que, infelizmente, não mudo agora, e que também servem para explicar, entre outras coisas, porque apenas o futebol nos empolga tanto ou porque elegemos um presidente dotado da mais impressionante ética da malandragem. Por que admiramos sua esperteza. Porque rimos quando ele nos passa para trás ou nos manda levantar o traseiro. Porque muitos de nós querem reelegê-lo. Porque adoramos suas mentiras, suas piadas grosseiras, sua incapacidade de falar corretamente. Na ilusão de que ele é um homem comum e pobre, a maioria dos brasileiros põe Lula lá pensando que vai à forra contra os ricos, o capitalismo indecente, os porcos ianques, a nefanda goblalização e um tal de neoliberalimo. E para melhor nos entender conclui naquele meu livro, entre outras coisas, que:

Na verdade todos nós compactuamos com o sistema dentro do qual a massa de miséria sofre as mesmas influências passadas e presentes que nunca fizeram de nós um “povo guerreiro”. Os mais pobres como os mais abastados, geralmente aspiram a partir de suas necessidades peculiares e com a mesma voracidade nunca saciada, facilidades preferivelmente alcançadas por esperteza ou doação de alguma autoridade paternal. É que não temos de modo geral o sentido de conquista no tocante ao esforço pessoal, não nos faltando, porém, a capacidade predatória. Não sabemos na maior parte das vezes exercer o poder, mas tão-somente nos beneficiar do poder. Não temos senso das medidas, sendo capazes de passar de um extremo ao outro sem avaliar as conseqüências de nossos atos. Afetamos cordialidade, mas sabemos ser violentos. Imitamos com facilidade, nos deixando levar por modismos. Simulamos democracia, mas somos autoritários. Preferimos sempre culpar alguém ou algo para nos eximirmos de nossas responsabilidades. Abusamos da liberdade em invés de usufruí-la. Convivemos com um Estado corrupto e inepto por nosso comodismo.

Naturalmente temos exceções. Gente humilde que é trabalhadora e honesta. Lideranças que se agigantam na tentativa de romper com o ranço da mentalidade antiprogressista. Elites intelectuais. Temos nossas “aristocracias” significando arisotoi: os melhores. Mas serão essas minorias excelentes capazes de preencher a lacuna entre a classe dirigente e a massa, no sentido de romper com a mentalidade do atraso? De ultrapassar a ética malandragem, segundo a qual quem não rouba é burro, e bom governante é o que rouba, mas faz? Eis questão.

Domingo, 25 Junho 2006 21:00

Moral em Frangalhos

Estamos, pois, em nossa fase mais decadente. Nos tornamos mais medíocres. Fizemos da amoralidade a regra. Entretanto, somente nós mesmos poderemos romper esse atraso através de esforço próprio e escolhas políticas certas.

Disse o escritor argentino, Jorge Luís Borges: “somos nosso passado”. Nada mais certo. E quando nesse momento alguns poucos se sentem perplexos diante da aprovação da maioria da população com relação ao festival de cinismo, mentiras e falcatruas que emanam das mais altas autoridades, deveria a minoria indignada buscar compreender o que fomos para entender o que somos.

É preciso recordar que nossos colonizadores interpuseram um oceano entre si e os controles sociais de sua pátria e, no ar afrodisíaco dos trópicos, afrouxaram ainda mais uma moral já de si débil. Foi se produzindo na colônia portuguesa, apesar da rigidez aparente das proibições eclesiásticas e inquisitoriais, a plasticidade de costumes, onde o suborno, a ganância, a corrupção e a mentira se converteram em “virtudes” a serem comungadas por toda sociedade. Aprendemos desde cedo a simular e a mentira trespassou todas as nossas instituições. E na sociedade marcada pela gritante desigualdade entre senhores e escravos, não prosperaram valores relativos ao mérito e ao esforço individual que objetivassem o êxito. Nascemos como Terra de Macunaíma. Evoluímos como Reino do Dá-se-um-jeito.

A essas características particulares some-se o processo mundial, que advindo da Revolução Industrial inglesa e passando pela evolução dos meios de transporte e comunicação, foi tornando o mundo uma “aldeia global”. Massificaram-se costumes e usos. Na democracia da calça jeans já não se distingue com clareza classes sociais. Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens nesses avanços, dependendo do uso que se faz deles e no Brasil nos tornamos herdeiros do nosso tempo.

Uma coisa, porém, é certa: se o sistema comunista fracassou em propiciar a igualdade profetizada por Marx, foi paradoxalmente o progresso do capitalismo que trouxe consigo a liberdade, inclusive, de mercado e, com esta, a concorrência que permite a libertação dos monopólios estatais, portanto, a livre escolha pelos indivíduos de bens conforme preços, gostos e necessidades. Isto fez emergir sociedades mais igualitárias e prósperas, mas nelas avançou, paradoxalmente, o individualismo que esvazia os cidadãos de civismo. As pessoas se tornaram mais iguais e, ao mesmo tempo, estranhas umas as outras.

No Brasil nunca atingimos o capitalismo avançado, que nos faria abastados. Por conta de nossa formação histórica temos grande apego ao pai Estado e continuamos dele dependentes como um povo criança. Desse modo, apesar de sermos ricos em natureza e tamanho, somos mal governados e preferimos manter nosso paquidérmico Estado, excessivamente burocratizado, ineficiente e corrupto como um todo. Mas, apesar disso, entramos na corrente mundial e não somos de forma alguma a Ilha de Vera Cruz, seguindo cada vez mais individualizados e esvaziados de todo civismo.

Todavia, não se pode dizer que não tivemos ascensão das classes mais baixas. Isso é claro se observamos que vivemos numa República sindicalista, onde o presidente se gaba constantemente de sua origem pobre, assim como muitos de seus companheiros governantes. Porém, por aquela sempre presente ironia do destino, ao chegar ao poder os outrora defensores dos mais pobres enriqueceram e se esqueceram de suas raízes e promessas. Pior. Com eles veio o que Alex de Tocqueville chamou de males da igualdade, entre os quais se inclui o desejo dos mais fracos atraírem os fortes ao seu nível, mas para torná-los iguais no aviltamento e na servidão. Em outras palavras, a república sindicalista nos nivelou por baixo.

Assim, nessa encruzilhada de nossa história, sem exemplos a seguir, com a educação atingindo seu nível mais baixo, com nossas instituições profundamente deterioradas, atingimos o fundo do poço em termos morais.

Como disse Silvio Abreu, autor da novela Belíssima, nas páginas amarelas da Veja (21/06): “a moral do país está em frangalhos”. Ele constatou através de pesquisa que as pessoas já não valorizam a retidão de caráter, achando enfadonhos os personagens bonzinhos das novelas. Ficou também claro para o novelista, que o nível intelectual do brasileiro baixou e que por isso “não dá para aprofundar nenhum tema, porque o público não consegue acompanhar”. Abreu liga tudo isso à tolerância aos desvios de conduta relativos aos escândalos recentes da política.

Estamos, pois, em nossa fase mais decadente. Nos tornamos mais medíocres. Fizemos da amoralidade a regra. Entretanto, somente nós mesmos poderemos romper esse atraso através de esforço próprio e escolhas políticas certas. Aos futuros governantes compete ter menos projetos de poder pessoal e mais visão de bem comum. Trabalho e não esmolas; saúde e não filas da morte do SUS; educação e não aprendizado de malandragem; leis justas e isonômicas, essas devem ser as aspirações a se fundir num projeto comum para o Brasil. Como falou Euclides da Cunha: “ou progredimos ou desaparecemos”.

Sábado, 17 Junho 2006 21:00

A Pátria de Chuteiras

Petistas devem rir desse cansaço, da sensação de desamparo de tantos brasileiros dignos, da poeira de indivíduos que sem a união de suas forças em partidos de verdade ou em grupos de interesse para valer se sentem isolados e enfraquecidos.

A Internet é por excelência o território da liberdade de expressão. Naturalmente não faltam pessoas politicamente corretas, voltadas para pregações igualitárias, que costumam subestimar essa preciosa e revolucionária ferramenta moderna através da qual mentes interagem libertas de tempo e espaço, porque no Brasil ela não atinge a maior parte da sociedade. Nada mais incorreto. Mesmo porque, a tendência é a inclusão digital dos mais pobres. Assim como a televisão, o cinema, o celular, agora acessíveis para as camadas mais baixas, a Internet veio para ficar e para incluir cada vez mais gente.

Há também forte e incontestável dimensão política nesse fantástico meio de comunicação. Sem possibilidade de publicação em jornais de papel, sites e blogs permitem a divulgação de artigos e comentários. E através de listas de endereços, de grupos de discussão, de e-mails trocados, o mundo restrito das individualidades se expande e o pensamento é reciclado na aprendizagem mútua ou no fragor das discussões. A Internet é tão importante politicamente que é censurada em países como a China comunista, e mesmo entre nós já houve tentativas nesse sentido.

Na esfera virtual, portanto, se pode sentir o pulsar político de parte significativa da sociedade e, curiosamente, percebe-se na intensa troca de opiniões, sentimentos que pesquisas não traduzem. Assim, enquanto o candidato do PT à reeleição, o presidente Luiz Inácio, cresce cada vez mais nas pesquisas de intenção de voto, grande quantidade de internautas expressa revolta, indignação, perplexidade diante do que seria uma aberração política: o governo mais corrupto de nossa história está se dando bem e, aparentemente, com grandes chances de se perpetuar no poder juntamente com sua quadrilha. Triunfam os mensaleiros, os Zé Dirceus, os Delúbios, os Genoinos, os Marco Valérios, etc., todos impunes, muitos deles candidatos a cargos legislativos e sentindo-se com grandes chances de vitória. A boçalidade comanda o espetáculo circense dos discursos estapafúrdios. Vigora a hipocrisia das inaugurações de intenções. Avoluma-se a campanha daquele que não se diz candidato e ônibus lotados com eleitores das bolsas compra-voto vão comer sanduíche e bater palmas para pai Lula, o candidato de Hugo Chávez. Curvam-se o Legislativo e o Judiciário submetidos aos interesses do Executivo. Vigora a lei do cão dos chamados movimentos sociais, entre os quais também se destacam os companheiros do PCC e do Comando Vermelho. Mas nada segura o eterno candidato do PT que segue sem medo de ser feliz, porquanto montado em sua crença de que já faturou o segundo mandato. O primeiro foi só transição. No outro a chavização se completará com êxito total.

Pela Internet perpassa uma espécie de calafrio diante de tais descalabros. Intensifica-se a troca de mensagens. Um perigoso sentimento de desânimo contamina alguns para satisfação de petistas atentos ao que se passa nas emoções dos inconformados. A classe dominante petista percebe que as pessoas mais lúcidas se sentem impotentes diante das distorções que se vive. Elas sabem que não existem instituições que possam proteger a sociedade, pois o PT corrompeu todas. As oposições estão cuidando de seus interesses particulares e ainda não deram apoio mais efetivo a seu candidato. E nesse momento uma pátria de chuteiras parece indiferente ao destino que aguarda o Brasil. Entendemos muito de futebol. Somos xucros em política.

Inconformado com a situação o coordenador do blog Minuto Político, se despede. Não sei seu nome. Não Importa. Repassaram para mim seu desabafo. Ele traduz o pensamento possivelmente de milhões de brasileiros. Este homem se diz cansado diante da página mais negra de nossa história. Cansado de ser “um brasileiro consciente. Participativo. Preocupado com os destinos desse país”. E acrescenta, entre outras coisas: “O povo se reúne aos milhares em praça pública para colocar com alegria frenética a pátria nas chuteiras da seleção, e se omite na hora de colocar o Brasil dentro de seu coração num momento em que a vergonha de ter um presidente bêbado, medíocre e conivente com toda sorte de sandices denigre uma instituição que deveria representar a galhardia do morrer pela pátria”.

O desabafo é forte, como forte é o sentimento que perpassa pela Internet. Petistas devem rir desse cansaço, da sensação de desamparo de tantos brasileiros dignos, da poeira de indivíduos que sem a união de suas forças em partidos de verdade ou em grupos de interesse para valer se sentem isolados e enfraquecidos. Mas se fosse eu o coordenador desse blog não o tirava do ar. Há mais gente atenta nesse admirável mundo novo da Internet do que pode imaginar a vã politicagem da quadrilha que ora nos governa. A pátria sem chuteiras também existe. Ela pode despertar em 3 de outubro.

Sexta, 09 Junho 2006 21:00

Sob o Domínio dos Bárbaros

Parece que chegamos àquele ponto citado por Ortega y Gasset, pois são inúteis os argumentos racionais. A maioria não se deixará influenciar, fechará hermeticamente os ouvidos e pisoteará com mais força aqueles que quiserem contrariá-la.

Depois do ataque do PCC, em São Paulo, liderado por seu chefe Marcola, a sociedade brasileira assistiu estarrecida a outro episódio de violência e acinte ao Estado de Direito: uma horda de bárbaros, que se denomina Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), invadiu e depredou o Congresso Nacional ferindo funcionários, sendo que um deles gravemente. Apesar das prisões, provavelmente nada vai acontecer aos vândalos e a seus líderes porque o MLST, uma dissidência do MST, é cria do PT e, conforme documentos e depoimentos de integrantes do movimento, é sustentado pelo governo petista.

Nada acontece por acaso e o MLST, como o MST, vem há tempos desenvolvendo suas táticas criminosas sob os olhares complacentes de autoridades federais, estaduais e municipais. No campo ambos movimentos desenvolvem ações terroristas: invadem terras (de preferência produtivas), roubam máquinas, matam gado, ateiam fogo às sedes das fazendas, intimidam proprietários rurais e muitas vezes os impedem de ir e vir juntamente com seus funcionários. Mas isso é feito bem longe dos olhos citadinos, sem maiores repercussões na mídia. Agora a baderna aconteceu no poder central e o país viu como funciona um “movimento social” que resolve suas reivindicações com tijoladas democráticas e barras de cimento pacíficas, utilizadas para destruir tudo que a horda vê pela frente.

O chefe do bando, Bruno Maranhão, é compadre do presidente da República, faz parte da Executiva Nacional do PT, é secretário de Movimentos Populares desse partido, integra a coordenação de campanha de reeleição de Luiz Inácio. Supõe-se que ele apresente reivindicações e programas relativos ao seu ideário para serem executados num segundo mandato do PT.

Seria Maranhão um pobre sem-terra, um agricultor sofrido e indefeso penalizado pelas agruras da miséria? Não. O líder do MLST pertence à família de ricos usineiros pernambucanos, o que não impede que tenha aquela personalidade insana que produz os pequenos Mussolinis. Como seu equivalente do MST, o pós-graduado João Pedro Stédile, se pode dizer que Maranhão é um intelectual orgânico no estilo de Gramsci. Ele é engenheiro civil e envia os filhos para estudar nos Estados Unidos, porque para essas coisas de “elite branca” aqueles “porcos ianques” servem. Na sua porção folclórica Bruno Maranhão se apresenta com estilo revolucionário e realiza seu imenso ego como esquerdista radical chique. Em suma, é um típico petista de antes de alcançar a presidência da República. Deve estar orgulhoso de si mesmo, pois não se tem notícia de que os congêneres guerrilheiros e sanguinários de seu MLST, como as Farc da Colômbia e o Sendero Luminoso do Peru, tenham chegado a tanto atacando uma das principais instituições do país em ato de intensa selvageria que deixou deputados e senadores acuados e aterrorizados para alegria da horda ensandecida de ódio.

Será que Stédile não está com inveja do concorrente? Talvez, não. O líder do MST havia prometido por “movimentos sociais” em ação nas cidades, pois no meio rural eles passam desapercebidos da maioria da população. Assim, Bruno Maranhão deu até uma mãozinha e coroou de êxito o objetivo de Stédile. Foi demonstração de violência para esquerda nenhuma por defeito.

Naturalmente não faltou quem justificasse o ataque ao Congresso desgastado pela complacência da maioria dos parlamentares com relação aos seus pares mensaleiros. A tropa de choque do PT e os partidos aliados ao Executivo na parceria da corrupção se encarregaram de desmoralizar a instituição que, enfraquecida juntamente com o Judiciário, agora outorga todo poder ao Executivo. Por isso, em júbilo, a esquerda comemorou a façanha dos companheiros e camaradas e sentiu a proximidade da “outra vida possível” de socialismo requentado prestes a ser alcançada no segundo mandato.

Enquanto isso o povo respira e vive Copa do Mundo sem se importar com o destino que o aguarda. Não percebe que ontem os bárbaros estavam invadindo e depredando fazendas. Hoje atacam o Congresso Nacional, naturalmente preservando o Palácio do Planalto, pois o grande companheiro deve ser sempre protegido. Amanhã poderão entrar nas casas e destruir o que quiserem.

Ressalte-se que os bárbaros sabem que o companheiro Luiz Inácio é apenas transição. Como presidente da República é ficção na medida em que de fato nunca governou. Seria apenas mais um candidato sul-americano apoiado por Hugo Chávez. Mesmo assim, as pesquisas concedem a essa miragem o primeiro lugar nas intenções de voto.

Parece que chegamos àquele ponto citado por Ortega y Gasset, pois são inúteis os argumentos racionais. A maioria não se deixará influenciar, fechará hermeticamente os ouvidos e pisoteará com mais força aqueles que quiserem contrariá-la. Portanto, caminhamos sem instituições que nos amparem para o domínio dos bárbaros, onde sua vontade é lei e a violência seu modo de governar.

Sexta, 02 Junho 2006 21:00

Populismo e Voto

Há, contudo, que se considerar outros fatores além da predileção da classe mais baixa pelo benemérito distribuidor de esmolas institucionais, cuja linguagem tatibitate é facilmente assimilada pela camada mais baixa da população.

Houve um tempo em que se dizia: Lula está reeleito. Entretanto, no auge das CPIs, a popularidade do presidente caiu e acreditava-se que diante de tantos escândalos de corrupção, que atingiram em cheio o PT e importantes autoridades governamentais, seria impossível a repetição do mandato. Agora se eleva novamente o coro do já ganhou e pesquisas apontam Luiz Inácio como vitorioso no primeiro turno. A causa de tal êxito residiria, dizem, no voto da pobreza, na medida em que os pobres são mais vulneráveis aos apelos populistas, sempre presentes nos discursos e nas ações do candidato petista. Há, contudo, que se considerar outros fatores além da predileção da classe mais baixa pelo benemérito distribuidor de esmolas institucionais, cuja linguagem tatibitate é facilmente assimilada pela camada mais baixa da população.

O primeiro fator se refere a ampla proteção dada a Luiz Inácio, a começar pela dispensada pelo PSDB e pelo PFL que zelaram pelo presidente no Congresso Nacional. E se tucanos e pefelistas não foram mensaleiros (deputados mercenários comprados, dizem, por José Dirceu, que enviava seu homem de confiança, o famoso Waldomiro, para negociar a compra de votos), colocaram-se como “oposição responsável” que muito contribuiu para reforçar o poder de Sua Excelência. Já a “herança maldita” de FHC, possibilitou a continuidade do Plano Real garantindo também na esfera econômica a governabilidade do PT.

O poderoso Antonio Palocci, continuador de Pedro Malan, até o último instante foi apoiado por deputados e senadores do PSDB e do PFL. Caiu por conta de acusações de corrupção feitas por seus próprios companheiros, e por abuso de autoridade no caso Francenildo. Palocci agradou sobremaneira o mercado, os banqueiros, os especuladores da Bolsa, enfim, garantiu a sustentação dos ricos ou como diz o governador Lembo num ataque de populismo, da “elite branca” para o governo Lula.

Como os miseráveis que continuam passando fome os ricos não têm nenhuma ideologia, mas, sim, interesses. Desse modo, o voto é moeda que compra grandes privilégios ou prosaicas necessidades. Pode conquistar desde a bolsa-família que, sobretudo entre a população mais pobre do nordeste se assemelha a redenção vinda de um pai celestial, ou o lucro estonteante que faz a alegria dos homens dos grandes negócios. Afinal, ricos e pobres são eleitores de resultados. São estes que suscitam as promessas mais estapafúrdias da parte dos políticos sequiosos de ir ao encontro de aspirações, sonhos e esperanças de seus eleitores para conquistar seus votos. Como os pobres são maioria e fazem uma leitura mais emocional do mundo, para eles se voltam especialmente as pregações demagógicas, messiânicas e populistas como as que são feitas pelo candidato Luiz Inácio, em que pese este não ter propiciado aos mais necessitados o essencial, ou seja, o trabalho.

Até Roberto Jefferson, que tocou sua trombeta de Jericó fazendo desabar as muralhas da corte, defendeu e defende o presidente como homem honesto, aquele que nada sabe, nada vê e não tem nada com as falcatruas nem do seu governo nem do seu partido, o PT.

Outro aspecto que tem ajudado o candidato presidente é o fato dele ser até agora o único em campanha, com acréscimo poder de usar despudoradamente a máquina do Estado. Nesse sentido tratou de garantir o voto chapa branca do funcionalismo federal aprovando aumento para a categoria. Esta, antes frustrada com o governo que elegeu, pode regressar agradecida aos braços de seu líder e ao seio do PT.

Fortalecido pela propaganda e pela abundante distribuição de benesses, Luiz Inácio tenta também incrementar mais ainda sua candidatura atraindo o PMDB. Quércia não é mais ladrão de pipoca, mas um aliado precioso, mas como a “novela” peemedebista ainda não chegou ao fim, não se pode prever seu desfecho. Em todo caso, como o PMDB é essencialmente um partido de resultados, uma “federação de interesses” , conforme disse o senador Pedro Simon, pesará na balança da ambição os prós e os contras dos apoios a serem dados.

Enquanto o tempo passa Luiz Inácio segue em frente com discursos e ações populistas e negando que é candidato. Busca o voto da maioria imersa em pobreza. Afaga os ricos no país de faz-de-conta onde a democracia é tropical e malandra. Mas, talvez, intua que existe um inconformismo latente, mais forte em setores da classe média, que pode contaminar a sociedade quando a campanha começar para valer. A luta será de Davi contra Golias, mas o resultado da contenda só as urnas poderão dizer. Refletirá um eleitor amadurecido ou espelhará uma realidade subdesenvolvida politicamente que reflete, inclusive, o momento pelo qual passa a América Latina onde avultam males antigos como o populismo, o caudilhismo e a mentalidade do atraso que nos mantém na contra-mão da história.

Domingo, 28 Maio 2006 21:00

A Grande Mentira Brasil

Nunca se viveu no país uma situação tão falseada do ponto de vista político. Mentiras são apresentadas como verdades, fracassos como êxitos e a propaganda enganosa se encarrega de persuadir mentes incautas através da TV.Nunca se viveu no país uma situação tão falseada do ponto de vista político. Mentiras são apresentadas como verdades, fracassos como êxitos e a propaganda enganosa se encarrega de persuadir mentes incautas através da TV. Entretanto, nunca houve tantos escândalos de corrupção atingindo em cheio o governo. São semanais, estrondosos, contundentes. Por muito menos caiu Fernando Collor e nenhum presidente da República resistiria a tais acusações que vão se acumulando e se evidenciando através de testemunhas e documentos. Apesar disso, as últimas pesquisas mostram ligeira subida do candidato do PT, o presidente Luiz Inácio, e uma pequena queda de Geraldo Alckmin, do PSDB.

Sem nunca ter assumido responsabilidade pelos atos do seu governo e do seu partido, Luiz Inácio apenas diz que nada sabe, nada vê e fica tudo por isso mesmo. O chamado “núcleo duro” que de fato governava estilhaçou-se a golpes de pesadas acusações de corrupção. Caíram de forma vexatória, entre outros, seus mais importantes auxiliares, aqueles amigos íntimos, confidentes de longa data, responsáveis pela condução da política e da economia. Nada aconteceu.

José Dirceu, o todo-poderoso ministro da Casa Civil que governou como uma espécie de primeiro-ministro, depois de ter resistido ao escândalo que motivou a saída de seu homem de confiança, Waldomiro Diniz, seguiu impávido até que Roberto Jefferson mandasse que saísse rapidinho. Dirceu obedeceu, refugiando-se em seu mandato de deputado. Foi cassado. Foi acusado de ser o chefe do mensalão. Seu pedido de prisão foi feito pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, mas o ministro do STF, Joaquim Barbosa, rejeitou a medida e José Dirceu e seus companheiros quadrilheiros continuam soltos, o que inclui Marcos Valério e outros comparsas. O ex-gerentão anda por aí sem medo de ser feliz, coordena a reeleição do chefe, faz palestras, escreve artigos e aparece em eventos como se fosse uma alta personalidade digna de crédito e admiração.

Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, médico que administrou calmantes ao nervoso mercado com o imprescindível auxílio de homens do governo FHC, caiu de forma também estrondosa e humilhante. A gota d’água foi a acusação de sua participação na quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, do qual, aliás, não se houve mais falar. O rapaz disse que o ministro freqüentava a casa da esbórnia onde, além de farras, se faziam negócios obscuros. Palocci negara tudo, assim com sempre negou seu envolvimento em falcatruas quando era prefeito de Ribeirão Preto, e que foram denunciadas por seus ex-assessores.

A revista Veja publicou denúncias do banqueiro Daniel Dantas, que alegou ter sido achacado pelo PT para fornecer substancial propina ao partido. Dantas falou sobre contas de companheiros em paraísos fiscais, incluindo no bando o companheiro presidente da República. Depois de uma reunião com o ministro da Justiça, Dantas voltou atrás. O ministro nega qualquer acordo entre eles. Com certeza apenas tomaram chá.

O Brasil foi e tem sido humilhado pelo presidente boliviano, Evo Morales, o tutelado de Hugo Chávez. Luiz Inácio defendeu o povo sofrido da Bolívia e nenhuma voz nacionalista se elevou no Brasil, apesar de haver sempre um coro estridente contra os Estados Unidos.

A quase inexistência de reação popular diante do banditismo institucionalizado (que não é apenas uma questão de moralidade da classe média, como alguns gostam de dizer, mas altamente nocivo ao país na medida em que corrupção governamental e desrespeito às leis lesam toda a sociedade) se deve, sobretudo, ao fato da inexistência de uma oposição nos moldes exercidos pelo PT. Estamos sem partidos ou grupos de interesse que aglutinem o difuso descontentamento popular.

No momento o que se vê é o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, sendo “cristianizado”. A cúpula do partido parece querer se livrar dele ou desejar que perca a eleição, na ilusão de que um tucano venceria em 2010. Algo tão pouco inteligente quanto foi a teoria de deixar Luiz Inácio sangrando para enfraquecê-lo. Quanto ao PFL, parece pensar que o adversário é Alckmin e não Luiz Inácio. Já o PMDB governista, certamente impedirá Pedro Simon de disputar a presidência e os partidos menores entram na campanha apenas para projetar alguns nomes na esperança de ter êxito em futuras eleições.

Nesse quadro aparece com evidência a distorção embutida na figura da reeleição, pois com a máquina estatal à disposição não é difícil se vencer um pleito. Reeleição é abuso máximo de poder econômico e político. Especialmente nesse momento em que o Brasil virou uma grande e convincente mentira, a disputa mais parece uma contenda de Davi contra Golias. Em todo caso, uma coisa é certa: não se tem notícia de um segundo mandato melhor do que o primeiro. Portanto, e de acordo com o que se passa no momento, 2007 tem tudo para não ser um feliz ano novo.

Terça, 23 Maio 2006 21:00

Eles Estão Entre Nós

Agora os terroristas estão entre nós. Eles se manifestaram com violência jamais vista na cidade mais importante do Brasil, São Paulo, na significativa data do Dia das Mães.Não falta na atualidade a bestialidade humana evidenciada em atos terroristas. Isto, porém, sempre nos pareceu longínquo. Comodamente, diante da TV, assistimos a explosão das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e nossas gloriosas esquerdas exultaram e deram vivas a Osama nas alturas. Vemos todos os dias os horrores da guerra do Iraque e culpamos Bush que expulsou do poder o genocida coitadinho Saddam, o déspota sanguinário. Olhamos com indiferença a guerra entre palestinos e israelense e, naturalmente, odiamos os judeus por serem amigos dos norte-americanos. Achamos que o companheiro Zapatero fez bem em ceder aos terroristas retirando suas tropas do Iraque. Na TV tudo é como um filme de ficção. Nós somos um povo cordial, alegre, sempre a contar piadas e a discorrer sobre futebol porque disso entendemos.

Agora os terroristas estão entre nós. Eles se manifestaram com violência jamais vista na cidade mais importante do Brasil, São Paulo, na significativa data do Dia das Mães. Nas penitenciárias paulistas as portas do inferno se abriram e eclodiram centenas de rebeliões que se alastraram pela capital, pelo interior e por outros Estados. Nas ruas, doze mil apóstolos de Marcos Willians Herbas Camacho, vulgo Marcola, o chefão do PCC, atacaram delegacias, postos policiais, agências bancárias, incendiaram ônibus, mataram policiais e até bombeiros. A ordem era para assassinar também diretores de penitenciárias e políticos.

Os terroristas do PCC não são bandidos comuns. São guerrilheiros organizados e disciplinados, possuem comando e ideologia. Para a realização de sua causa propõem uma revolução e pode ser que alguém diga que o PCC é um movimento tão sério quanto seu congênere, o MST.

Mas por que esses guerrilheiros e narcoterroristas teriam atacado em São Paulo? Afinal, como escreveu Norman Gall (O Estado de S.Paulo 17/05/2006): “Desde 1999 o número de homicídios e latrocínios nesse Estado caiu quase pela metade, de 13.599 para 7.640 em 2005, seguindo uma curva tão impressionante como a de Nova York na década de 1990”. Entre as causas dessas melhorias estão: “mais investimentos públicos nas periferias, mais e melhor policiamento, apreensão de 184 mil armas ilegais, 467 mil prisões, mais 36 mil vagas prisionais, melhor uso de dados criminais”. Isso quer dizer que São Paulo é Estado onde melhor se zelou pela segurança pública.

Por outro lado, o governo federal falhou redondamente na medida em que, ao invés dos prometidos doze presídios de segurança máxima somente agora, na campanha da reeleição, anuncia a conclusão de um desses presídios no Paraná. E como explicou Gall, “no governo Lula, o déficit de vagas prisionais no País triplicou para 154.843, enquanto o fundo federal para construir penitenciárias acumulou R$ 297 milhões sem serem gastos. Acrescento que o ministro da Justiça, Thomas Bastos, propôs praticamente acabar com a lei de crimes hediondos e há também excesso de defesa de direitos humanos para bandidos, sendo que a polícia, além de mal armada diante dos criminosos, se vê tolhida em inúmeras de suas ações pela Justiça. A polícia prende, a Justiça solta. Agora, enquanto em São Paulo os policiais e seus familiares tornaram-se alvos vivos dos bandidos guerrilheiros, já começam a aparecer as ONGs e os defensores dos direitos humanos, a dizer que os policiais estão matando inocentes. Nenhum representante dessas entidades, porém, ofereceu solidariedade aos parentes dos policiais e dos bombeiros que tombaram pela sanha assassina desses marginais da pior espécie.

O ministro Thomas Bastos pediu que não se fazer uso político dos horrores que vê sendo praticados pelo PCC. Mas não deixa de ser uma grande coincidência o PCC ter usado sua violência máxima justamente nesse momento eleitoral. Por conta da ofensiva terrorista ficaram esquecidas as sérias denúncias publicadas na Veja, e que atingiram pela primeira vez o presidente da República. Os quadrilheiros seguem livres, leves e soltos. Não se fala mais em Evo Morales e as humilhações que este impôs ao Brasil com a condescendência de nosso chefe de Estado, nem sobre o comando de Hugo Chávez na América do Sul. Recorde-se ainda que João Pedro Stédile, alma gêmea de Marcola, havia prometido soltar os “movimentos” sociais” nas cidades só para chamar atenção. E setores importantes do Judiciário estão paralisados por providenciais greves.

No plano político a oposição continua sem ação. A impressão que se tem é que Geraldo Alckmin está sem apoio da cúpula de seu partido. O PFL tem ímpetos de adversário e não de aliado do PSDB. O PMDB já deve ter aderido em peso ao PT. Nos Estados, candidatos que deveriam apoiar Alckmin ainda não estão definidos. E enquanto prossegue a guerrilha do PCC, a pergunta a se fazer é a seguinte: será que em outubro teremos eleições? Não deixa de ser um questionamento inquietante.
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