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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Domingo, 25 Junho 2006 21:00

Moral em Frangalhos

Estamos, pois, em nossa fase mais decadente. Nos tornamos mais medíocres. Fizemos da amoralidade a regra. Entretanto, somente nós mesmos poderemos romper esse atraso através de esforço próprio e escolhas políticas certas.

Disse o escritor argentino, Jorge Luís Borges: “somos nosso passado”. Nada mais certo. E quando nesse momento alguns poucos se sentem perplexos diante da aprovação da maioria da população com relação ao festival de cinismo, mentiras e falcatruas que emanam das mais altas autoridades, deveria a minoria indignada buscar compreender o que fomos para entender o que somos.

É preciso recordar que nossos colonizadores interpuseram um oceano entre si e os controles sociais de sua pátria e, no ar afrodisíaco dos trópicos, afrouxaram ainda mais uma moral já de si débil. Foi se produzindo na colônia portuguesa, apesar da rigidez aparente das proibições eclesiásticas e inquisitoriais, a plasticidade de costumes, onde o suborno, a ganância, a corrupção e a mentira se converteram em “virtudes” a serem comungadas por toda sociedade. Aprendemos desde cedo a simular e a mentira trespassou todas as nossas instituições. E na sociedade marcada pela gritante desigualdade entre senhores e escravos, não prosperaram valores relativos ao mérito e ao esforço individual que objetivassem o êxito. Nascemos como Terra de Macunaíma. Evoluímos como Reino do Dá-se-um-jeito.

A essas características particulares some-se o processo mundial, que advindo da Revolução Industrial inglesa e passando pela evolução dos meios de transporte e comunicação, foi tornando o mundo uma “aldeia global”. Massificaram-se costumes e usos. Na democracia da calça jeans já não se distingue com clareza classes sociais. Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens nesses avanços, dependendo do uso que se faz deles e no Brasil nos tornamos herdeiros do nosso tempo.

Uma coisa, porém, é certa: se o sistema comunista fracassou em propiciar a igualdade profetizada por Marx, foi paradoxalmente o progresso do capitalismo que trouxe consigo a liberdade, inclusive, de mercado e, com esta, a concorrência que permite a libertação dos monopólios estatais, portanto, a livre escolha pelos indivíduos de bens conforme preços, gostos e necessidades. Isto fez emergir sociedades mais igualitárias e prósperas, mas nelas avançou, paradoxalmente, o individualismo que esvazia os cidadãos de civismo. As pessoas se tornaram mais iguais e, ao mesmo tempo, estranhas umas as outras.

No Brasil nunca atingimos o capitalismo avançado, que nos faria abastados. Por conta de nossa formação histórica temos grande apego ao pai Estado e continuamos dele dependentes como um povo criança. Desse modo, apesar de sermos ricos em natureza e tamanho, somos mal governados e preferimos manter nosso paquidérmico Estado, excessivamente burocratizado, ineficiente e corrupto como um todo. Mas, apesar disso, entramos na corrente mundial e não somos de forma alguma a Ilha de Vera Cruz, seguindo cada vez mais individualizados e esvaziados de todo civismo.

Todavia, não se pode dizer que não tivemos ascensão das classes mais baixas. Isso é claro se observamos que vivemos numa República sindicalista, onde o presidente se gaba constantemente de sua origem pobre, assim como muitos de seus companheiros governantes. Porém, por aquela sempre presente ironia do destino, ao chegar ao poder os outrora defensores dos mais pobres enriqueceram e se esqueceram de suas raízes e promessas. Pior. Com eles veio o que Alex de Tocqueville chamou de males da igualdade, entre os quais se inclui o desejo dos mais fracos atraírem os fortes ao seu nível, mas para torná-los iguais no aviltamento e na servidão. Em outras palavras, a república sindicalista nos nivelou por baixo.

Assim, nessa encruzilhada de nossa história, sem exemplos a seguir, com a educação atingindo seu nível mais baixo, com nossas instituições profundamente deterioradas, atingimos o fundo do poço em termos morais.

Como disse Silvio Abreu, autor da novela Belíssima, nas páginas amarelas da Veja (21/06): “a moral do país está em frangalhos”. Ele constatou através de pesquisa que as pessoas já não valorizam a retidão de caráter, achando enfadonhos os personagens bonzinhos das novelas. Ficou também claro para o novelista, que o nível intelectual do brasileiro baixou e que por isso “não dá para aprofundar nenhum tema, porque o público não consegue acompanhar”. Abreu liga tudo isso à tolerância aos desvios de conduta relativos aos escândalos recentes da política.

Estamos, pois, em nossa fase mais decadente. Nos tornamos mais medíocres. Fizemos da amoralidade a regra. Entretanto, somente nós mesmos poderemos romper esse atraso através de esforço próprio e escolhas políticas certas. Aos futuros governantes compete ter menos projetos de poder pessoal e mais visão de bem comum. Trabalho e não esmolas; saúde e não filas da morte do SUS; educação e não aprendizado de malandragem; leis justas e isonômicas, essas devem ser as aspirações a se fundir num projeto comum para o Brasil. Como falou Euclides da Cunha: “ou progredimos ou desaparecemos”.

Sábado, 17 Junho 2006 21:00

A Pátria de Chuteiras

Petistas devem rir desse cansaço, da sensação de desamparo de tantos brasileiros dignos, da poeira de indivíduos que sem a união de suas forças em partidos de verdade ou em grupos de interesse para valer se sentem isolados e enfraquecidos.

A Internet é por excelência o território da liberdade de expressão. Naturalmente não faltam pessoas politicamente corretas, voltadas para pregações igualitárias, que costumam subestimar essa preciosa e revolucionária ferramenta moderna através da qual mentes interagem libertas de tempo e espaço, porque no Brasil ela não atinge a maior parte da sociedade. Nada mais incorreto. Mesmo porque, a tendência é a inclusão digital dos mais pobres. Assim como a televisão, o cinema, o celular, agora acessíveis para as camadas mais baixas, a Internet veio para ficar e para incluir cada vez mais gente.

Há também forte e incontestável dimensão política nesse fantástico meio de comunicação. Sem possibilidade de publicação em jornais de papel, sites e blogs permitem a divulgação de artigos e comentários. E através de listas de endereços, de grupos de discussão, de e-mails trocados, o mundo restrito das individualidades se expande e o pensamento é reciclado na aprendizagem mútua ou no fragor das discussões. A Internet é tão importante politicamente que é censurada em países como a China comunista, e mesmo entre nós já houve tentativas nesse sentido.

Na esfera virtual, portanto, se pode sentir o pulsar político de parte significativa da sociedade e, curiosamente, percebe-se na intensa troca de opiniões, sentimentos que pesquisas não traduzem. Assim, enquanto o candidato do PT à reeleição, o presidente Luiz Inácio, cresce cada vez mais nas pesquisas de intenção de voto, grande quantidade de internautas expressa revolta, indignação, perplexidade diante do que seria uma aberração política: o governo mais corrupto de nossa história está se dando bem e, aparentemente, com grandes chances de se perpetuar no poder juntamente com sua quadrilha. Triunfam os mensaleiros, os Zé Dirceus, os Delúbios, os Genoinos, os Marco Valérios, etc., todos impunes, muitos deles candidatos a cargos legislativos e sentindo-se com grandes chances de vitória. A boçalidade comanda o espetáculo circense dos discursos estapafúrdios. Vigora a hipocrisia das inaugurações de intenções. Avoluma-se a campanha daquele que não se diz candidato e ônibus lotados com eleitores das bolsas compra-voto vão comer sanduíche e bater palmas para pai Lula, o candidato de Hugo Chávez. Curvam-se o Legislativo e o Judiciário submetidos aos interesses do Executivo. Vigora a lei do cão dos chamados movimentos sociais, entre os quais também se destacam os companheiros do PCC e do Comando Vermelho. Mas nada segura o eterno candidato do PT que segue sem medo de ser feliz, porquanto montado em sua crença de que já faturou o segundo mandato. O primeiro foi só transição. No outro a chavização se completará com êxito total.

Pela Internet perpassa uma espécie de calafrio diante de tais descalabros. Intensifica-se a troca de mensagens. Um perigoso sentimento de desânimo contamina alguns para satisfação de petistas atentos ao que se passa nas emoções dos inconformados. A classe dominante petista percebe que as pessoas mais lúcidas se sentem impotentes diante das distorções que se vive. Elas sabem que não existem instituições que possam proteger a sociedade, pois o PT corrompeu todas. As oposições estão cuidando de seus interesses particulares e ainda não deram apoio mais efetivo a seu candidato. E nesse momento uma pátria de chuteiras parece indiferente ao destino que aguarda o Brasil. Entendemos muito de futebol. Somos xucros em política.

Inconformado com a situação o coordenador do blog Minuto Político, se despede. Não sei seu nome. Não Importa. Repassaram para mim seu desabafo. Ele traduz o pensamento possivelmente de milhões de brasileiros. Este homem se diz cansado diante da página mais negra de nossa história. Cansado de ser “um brasileiro consciente. Participativo. Preocupado com os destinos desse país”. E acrescenta, entre outras coisas: “O povo se reúne aos milhares em praça pública para colocar com alegria frenética a pátria nas chuteiras da seleção, e se omite na hora de colocar o Brasil dentro de seu coração num momento em que a vergonha de ter um presidente bêbado, medíocre e conivente com toda sorte de sandices denigre uma instituição que deveria representar a galhardia do morrer pela pátria”.

O desabafo é forte, como forte é o sentimento que perpassa pela Internet. Petistas devem rir desse cansaço, da sensação de desamparo de tantos brasileiros dignos, da poeira de indivíduos que sem a união de suas forças em partidos de verdade ou em grupos de interesse para valer se sentem isolados e enfraquecidos. Mas se fosse eu o coordenador desse blog não o tirava do ar. Há mais gente atenta nesse admirável mundo novo da Internet do que pode imaginar a vã politicagem da quadrilha que ora nos governa. A pátria sem chuteiras também existe. Ela pode despertar em 3 de outubro.

Sexta, 09 Junho 2006 21:00

Sob o Domínio dos Bárbaros

Parece que chegamos àquele ponto citado por Ortega y Gasset, pois são inúteis os argumentos racionais. A maioria não se deixará influenciar, fechará hermeticamente os ouvidos e pisoteará com mais força aqueles que quiserem contrariá-la.

Depois do ataque do PCC, em São Paulo, liderado por seu chefe Marcola, a sociedade brasileira assistiu estarrecida a outro episódio de violência e acinte ao Estado de Direito: uma horda de bárbaros, que se denomina Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), invadiu e depredou o Congresso Nacional ferindo funcionários, sendo que um deles gravemente. Apesar das prisões, provavelmente nada vai acontecer aos vândalos e a seus líderes porque o MLST, uma dissidência do MST, é cria do PT e, conforme documentos e depoimentos de integrantes do movimento, é sustentado pelo governo petista.

Nada acontece por acaso e o MLST, como o MST, vem há tempos desenvolvendo suas táticas criminosas sob os olhares complacentes de autoridades federais, estaduais e municipais. No campo ambos movimentos desenvolvem ações terroristas: invadem terras (de preferência produtivas), roubam máquinas, matam gado, ateiam fogo às sedes das fazendas, intimidam proprietários rurais e muitas vezes os impedem de ir e vir juntamente com seus funcionários. Mas isso é feito bem longe dos olhos citadinos, sem maiores repercussões na mídia. Agora a baderna aconteceu no poder central e o país viu como funciona um “movimento social” que resolve suas reivindicações com tijoladas democráticas e barras de cimento pacíficas, utilizadas para destruir tudo que a horda vê pela frente.

O chefe do bando, Bruno Maranhão, é compadre do presidente da República, faz parte da Executiva Nacional do PT, é secretário de Movimentos Populares desse partido, integra a coordenação de campanha de reeleição de Luiz Inácio. Supõe-se que ele apresente reivindicações e programas relativos ao seu ideário para serem executados num segundo mandato do PT.

Seria Maranhão um pobre sem-terra, um agricultor sofrido e indefeso penalizado pelas agruras da miséria? Não. O líder do MLST pertence à família de ricos usineiros pernambucanos, o que não impede que tenha aquela personalidade insana que produz os pequenos Mussolinis. Como seu equivalente do MST, o pós-graduado João Pedro Stédile, se pode dizer que Maranhão é um intelectual orgânico no estilo de Gramsci. Ele é engenheiro civil e envia os filhos para estudar nos Estados Unidos, porque para essas coisas de “elite branca” aqueles “porcos ianques” servem. Na sua porção folclórica Bruno Maranhão se apresenta com estilo revolucionário e realiza seu imenso ego como esquerdista radical chique. Em suma, é um típico petista de antes de alcançar a presidência da República. Deve estar orgulhoso de si mesmo, pois não se tem notícia de que os congêneres guerrilheiros e sanguinários de seu MLST, como as Farc da Colômbia e o Sendero Luminoso do Peru, tenham chegado a tanto atacando uma das principais instituições do país em ato de intensa selvageria que deixou deputados e senadores acuados e aterrorizados para alegria da horda ensandecida de ódio.

Será que Stédile não está com inveja do concorrente? Talvez, não. O líder do MST havia prometido por “movimentos sociais” em ação nas cidades, pois no meio rural eles passam desapercebidos da maioria da população. Assim, Bruno Maranhão deu até uma mãozinha e coroou de êxito o objetivo de Stédile. Foi demonstração de violência para esquerda nenhuma por defeito.

Naturalmente não faltou quem justificasse o ataque ao Congresso desgastado pela complacência da maioria dos parlamentares com relação aos seus pares mensaleiros. A tropa de choque do PT e os partidos aliados ao Executivo na parceria da corrupção se encarregaram de desmoralizar a instituição que, enfraquecida juntamente com o Judiciário, agora outorga todo poder ao Executivo. Por isso, em júbilo, a esquerda comemorou a façanha dos companheiros e camaradas e sentiu a proximidade da “outra vida possível” de socialismo requentado prestes a ser alcançada no segundo mandato.

Enquanto isso o povo respira e vive Copa do Mundo sem se importar com o destino que o aguarda. Não percebe que ontem os bárbaros estavam invadindo e depredando fazendas. Hoje atacam o Congresso Nacional, naturalmente preservando o Palácio do Planalto, pois o grande companheiro deve ser sempre protegido. Amanhã poderão entrar nas casas e destruir o que quiserem.

Ressalte-se que os bárbaros sabem que o companheiro Luiz Inácio é apenas transição. Como presidente da República é ficção na medida em que de fato nunca governou. Seria apenas mais um candidato sul-americano apoiado por Hugo Chávez. Mesmo assim, as pesquisas concedem a essa miragem o primeiro lugar nas intenções de voto.

Parece que chegamos àquele ponto citado por Ortega y Gasset, pois são inúteis os argumentos racionais. A maioria não se deixará influenciar, fechará hermeticamente os ouvidos e pisoteará com mais força aqueles que quiserem contrariá-la. Portanto, caminhamos sem instituições que nos amparem para o domínio dos bárbaros, onde sua vontade é lei e a violência seu modo de governar.

Sexta, 02 Junho 2006 21:00

Populismo e Voto

Há, contudo, que se considerar outros fatores além da predileção da classe mais baixa pelo benemérito distribuidor de esmolas institucionais, cuja linguagem tatibitate é facilmente assimilada pela camada mais baixa da população.

Houve um tempo em que se dizia: Lula está reeleito. Entretanto, no auge das CPIs, a popularidade do presidente caiu e acreditava-se que diante de tantos escândalos de corrupção, que atingiram em cheio o PT e importantes autoridades governamentais, seria impossível a repetição do mandato. Agora se eleva novamente o coro do já ganhou e pesquisas apontam Luiz Inácio como vitorioso no primeiro turno. A causa de tal êxito residiria, dizem, no voto da pobreza, na medida em que os pobres são mais vulneráveis aos apelos populistas, sempre presentes nos discursos e nas ações do candidato petista. Há, contudo, que se considerar outros fatores além da predileção da classe mais baixa pelo benemérito distribuidor de esmolas institucionais, cuja linguagem tatibitate é facilmente assimilada pela camada mais baixa da população.

O primeiro fator se refere a ampla proteção dada a Luiz Inácio, a começar pela dispensada pelo PSDB e pelo PFL que zelaram pelo presidente no Congresso Nacional. E se tucanos e pefelistas não foram mensaleiros (deputados mercenários comprados, dizem, por José Dirceu, que enviava seu homem de confiança, o famoso Waldomiro, para negociar a compra de votos), colocaram-se como “oposição responsável” que muito contribuiu para reforçar o poder de Sua Excelência. Já a “herança maldita” de FHC, possibilitou a continuidade do Plano Real garantindo também na esfera econômica a governabilidade do PT.

O poderoso Antonio Palocci, continuador de Pedro Malan, até o último instante foi apoiado por deputados e senadores do PSDB e do PFL. Caiu por conta de acusações de corrupção feitas por seus próprios companheiros, e por abuso de autoridade no caso Francenildo. Palocci agradou sobremaneira o mercado, os banqueiros, os especuladores da Bolsa, enfim, garantiu a sustentação dos ricos ou como diz o governador Lembo num ataque de populismo, da “elite branca” para o governo Lula.

Como os miseráveis que continuam passando fome os ricos não têm nenhuma ideologia, mas, sim, interesses. Desse modo, o voto é moeda que compra grandes privilégios ou prosaicas necessidades. Pode conquistar desde a bolsa-família que, sobretudo entre a população mais pobre do nordeste se assemelha a redenção vinda de um pai celestial, ou o lucro estonteante que faz a alegria dos homens dos grandes negócios. Afinal, ricos e pobres são eleitores de resultados. São estes que suscitam as promessas mais estapafúrdias da parte dos políticos sequiosos de ir ao encontro de aspirações, sonhos e esperanças de seus eleitores para conquistar seus votos. Como os pobres são maioria e fazem uma leitura mais emocional do mundo, para eles se voltam especialmente as pregações demagógicas, messiânicas e populistas como as que são feitas pelo candidato Luiz Inácio, em que pese este não ter propiciado aos mais necessitados o essencial, ou seja, o trabalho.

Até Roberto Jefferson, que tocou sua trombeta de Jericó fazendo desabar as muralhas da corte, defendeu e defende o presidente como homem honesto, aquele que nada sabe, nada vê e não tem nada com as falcatruas nem do seu governo nem do seu partido, o PT.

Outro aspecto que tem ajudado o candidato presidente é o fato dele ser até agora o único em campanha, com acréscimo poder de usar despudoradamente a máquina do Estado. Nesse sentido tratou de garantir o voto chapa branca do funcionalismo federal aprovando aumento para a categoria. Esta, antes frustrada com o governo que elegeu, pode regressar agradecida aos braços de seu líder e ao seio do PT.

Fortalecido pela propaganda e pela abundante distribuição de benesses, Luiz Inácio tenta também incrementar mais ainda sua candidatura atraindo o PMDB. Quércia não é mais ladrão de pipoca, mas um aliado precioso, mas como a “novela” peemedebista ainda não chegou ao fim, não se pode prever seu desfecho. Em todo caso, como o PMDB é essencialmente um partido de resultados, uma “federação de interesses” , conforme disse o senador Pedro Simon, pesará na balança da ambição os prós e os contras dos apoios a serem dados.

Enquanto o tempo passa Luiz Inácio segue em frente com discursos e ações populistas e negando que é candidato. Busca o voto da maioria imersa em pobreza. Afaga os ricos no país de faz-de-conta onde a democracia é tropical e malandra. Mas, talvez, intua que existe um inconformismo latente, mais forte em setores da classe média, que pode contaminar a sociedade quando a campanha começar para valer. A luta será de Davi contra Golias, mas o resultado da contenda só as urnas poderão dizer. Refletirá um eleitor amadurecido ou espelhará uma realidade subdesenvolvida politicamente que reflete, inclusive, o momento pelo qual passa a América Latina onde avultam males antigos como o populismo, o caudilhismo e a mentalidade do atraso que nos mantém na contra-mão da história.

Domingo, 28 Maio 2006 21:00

A Grande Mentira Brasil

Nunca se viveu no país uma situação tão falseada do ponto de vista político. Mentiras são apresentadas como verdades, fracassos como êxitos e a propaganda enganosa se encarrega de persuadir mentes incautas através da TV.Nunca se viveu no país uma situação tão falseada do ponto de vista político. Mentiras são apresentadas como verdades, fracassos como êxitos e a propaganda enganosa se encarrega de persuadir mentes incautas através da TV. Entretanto, nunca houve tantos escândalos de corrupção atingindo em cheio o governo. São semanais, estrondosos, contundentes. Por muito menos caiu Fernando Collor e nenhum presidente da República resistiria a tais acusações que vão se acumulando e se evidenciando através de testemunhas e documentos. Apesar disso, as últimas pesquisas mostram ligeira subida do candidato do PT, o presidente Luiz Inácio, e uma pequena queda de Geraldo Alckmin, do PSDB.

Sem nunca ter assumido responsabilidade pelos atos do seu governo e do seu partido, Luiz Inácio apenas diz que nada sabe, nada vê e fica tudo por isso mesmo. O chamado “núcleo duro” que de fato governava estilhaçou-se a golpes de pesadas acusações de corrupção. Caíram de forma vexatória, entre outros, seus mais importantes auxiliares, aqueles amigos íntimos, confidentes de longa data, responsáveis pela condução da política e da economia. Nada aconteceu.

José Dirceu, o todo-poderoso ministro da Casa Civil que governou como uma espécie de primeiro-ministro, depois de ter resistido ao escândalo que motivou a saída de seu homem de confiança, Waldomiro Diniz, seguiu impávido até que Roberto Jefferson mandasse que saísse rapidinho. Dirceu obedeceu, refugiando-se em seu mandato de deputado. Foi cassado. Foi acusado de ser o chefe do mensalão. Seu pedido de prisão foi feito pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, mas o ministro do STF, Joaquim Barbosa, rejeitou a medida e José Dirceu e seus companheiros quadrilheiros continuam soltos, o que inclui Marcos Valério e outros comparsas. O ex-gerentão anda por aí sem medo de ser feliz, coordena a reeleição do chefe, faz palestras, escreve artigos e aparece em eventos como se fosse uma alta personalidade digna de crédito e admiração.

Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, médico que administrou calmantes ao nervoso mercado com o imprescindível auxílio de homens do governo FHC, caiu de forma também estrondosa e humilhante. A gota d’água foi a acusação de sua participação na quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo, do qual, aliás, não se houve mais falar. O rapaz disse que o ministro freqüentava a casa da esbórnia onde, além de farras, se faziam negócios obscuros. Palocci negara tudo, assim com sempre negou seu envolvimento em falcatruas quando era prefeito de Ribeirão Preto, e que foram denunciadas por seus ex-assessores.

A revista Veja publicou denúncias do banqueiro Daniel Dantas, que alegou ter sido achacado pelo PT para fornecer substancial propina ao partido. Dantas falou sobre contas de companheiros em paraísos fiscais, incluindo no bando o companheiro presidente da República. Depois de uma reunião com o ministro da Justiça, Dantas voltou atrás. O ministro nega qualquer acordo entre eles. Com certeza apenas tomaram chá.

O Brasil foi e tem sido humilhado pelo presidente boliviano, Evo Morales, o tutelado de Hugo Chávez. Luiz Inácio defendeu o povo sofrido da Bolívia e nenhuma voz nacionalista se elevou no Brasil, apesar de haver sempre um coro estridente contra os Estados Unidos.

A quase inexistência de reação popular diante do banditismo institucionalizado (que não é apenas uma questão de moralidade da classe média, como alguns gostam de dizer, mas altamente nocivo ao país na medida em que corrupção governamental e desrespeito às leis lesam toda a sociedade) se deve, sobretudo, ao fato da inexistência de uma oposição nos moldes exercidos pelo PT. Estamos sem partidos ou grupos de interesse que aglutinem o difuso descontentamento popular.

No momento o que se vê é o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, sendo “cristianizado”. A cúpula do partido parece querer se livrar dele ou desejar que perca a eleição, na ilusão de que um tucano venceria em 2010. Algo tão pouco inteligente quanto foi a teoria de deixar Luiz Inácio sangrando para enfraquecê-lo. Quanto ao PFL, parece pensar que o adversário é Alckmin e não Luiz Inácio. Já o PMDB governista, certamente impedirá Pedro Simon de disputar a presidência e os partidos menores entram na campanha apenas para projetar alguns nomes na esperança de ter êxito em futuras eleições.

Nesse quadro aparece com evidência a distorção embutida na figura da reeleição, pois com a máquina estatal à disposição não é difícil se vencer um pleito. Reeleição é abuso máximo de poder econômico e político. Especialmente nesse momento em que o Brasil virou uma grande e convincente mentira, a disputa mais parece uma contenda de Davi contra Golias. Em todo caso, uma coisa é certa: não se tem notícia de um segundo mandato melhor do que o primeiro. Portanto, e de acordo com o que se passa no momento, 2007 tem tudo para não ser um feliz ano novo.

Terça, 23 Maio 2006 21:00

Eles Estão Entre Nós

Agora os terroristas estão entre nós. Eles se manifestaram com violência jamais vista na cidade mais importante do Brasil, São Paulo, na significativa data do Dia das Mães.Não falta na atualidade a bestialidade humana evidenciada em atos terroristas. Isto, porém, sempre nos pareceu longínquo. Comodamente, diante da TV, assistimos a explosão das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e nossas gloriosas esquerdas exultaram e deram vivas a Osama nas alturas. Vemos todos os dias os horrores da guerra do Iraque e culpamos Bush que expulsou do poder o genocida coitadinho Saddam, o déspota sanguinário. Olhamos com indiferença a guerra entre palestinos e israelense e, naturalmente, odiamos os judeus por serem amigos dos norte-americanos. Achamos que o companheiro Zapatero fez bem em ceder aos terroristas retirando suas tropas do Iraque. Na TV tudo é como um filme de ficção. Nós somos um povo cordial, alegre, sempre a contar piadas e a discorrer sobre futebol porque disso entendemos.

Agora os terroristas estão entre nós. Eles se manifestaram com violência jamais vista na cidade mais importante do Brasil, São Paulo, na significativa data do Dia das Mães. Nas penitenciárias paulistas as portas do inferno se abriram e eclodiram centenas de rebeliões que se alastraram pela capital, pelo interior e por outros Estados. Nas ruas, doze mil apóstolos de Marcos Willians Herbas Camacho, vulgo Marcola, o chefão do PCC, atacaram delegacias, postos policiais, agências bancárias, incendiaram ônibus, mataram policiais e até bombeiros. A ordem era para assassinar também diretores de penitenciárias e políticos.

Os terroristas do PCC não são bandidos comuns. São guerrilheiros organizados e disciplinados, possuem comando e ideologia. Para a realização de sua causa propõem uma revolução e pode ser que alguém diga que o PCC é um movimento tão sério quanto seu congênere, o MST.

Mas por que esses guerrilheiros e narcoterroristas teriam atacado em São Paulo? Afinal, como escreveu Norman Gall (O Estado de S.Paulo 17/05/2006): “Desde 1999 o número de homicídios e latrocínios nesse Estado caiu quase pela metade, de 13.599 para 7.640 em 2005, seguindo uma curva tão impressionante como a de Nova York na década de 1990”. Entre as causas dessas melhorias estão: “mais investimentos públicos nas periferias, mais e melhor policiamento, apreensão de 184 mil armas ilegais, 467 mil prisões, mais 36 mil vagas prisionais, melhor uso de dados criminais”. Isso quer dizer que São Paulo é Estado onde melhor se zelou pela segurança pública.

Por outro lado, o governo federal falhou redondamente na medida em que, ao invés dos prometidos doze presídios de segurança máxima somente agora, na campanha da reeleição, anuncia a conclusão de um desses presídios no Paraná. E como explicou Gall, “no governo Lula, o déficit de vagas prisionais no País triplicou para 154.843, enquanto o fundo federal para construir penitenciárias acumulou R$ 297 milhões sem serem gastos. Acrescento que o ministro da Justiça, Thomas Bastos, propôs praticamente acabar com a lei de crimes hediondos e há também excesso de defesa de direitos humanos para bandidos, sendo que a polícia, além de mal armada diante dos criminosos, se vê tolhida em inúmeras de suas ações pela Justiça. A polícia prende, a Justiça solta. Agora, enquanto em São Paulo os policiais e seus familiares tornaram-se alvos vivos dos bandidos guerrilheiros, já começam a aparecer as ONGs e os defensores dos direitos humanos, a dizer que os policiais estão matando inocentes. Nenhum representante dessas entidades, porém, ofereceu solidariedade aos parentes dos policiais e dos bombeiros que tombaram pela sanha assassina desses marginais da pior espécie.

O ministro Thomas Bastos pediu que não se fazer uso político dos horrores que vê sendo praticados pelo PCC. Mas não deixa de ser uma grande coincidência o PCC ter usado sua violência máxima justamente nesse momento eleitoral. Por conta da ofensiva terrorista ficaram esquecidas as sérias denúncias publicadas na Veja, e que atingiram pela primeira vez o presidente da República. Os quadrilheiros seguem livres, leves e soltos. Não se fala mais em Evo Morales e as humilhações que este impôs ao Brasil com a condescendência de nosso chefe de Estado, nem sobre o comando de Hugo Chávez na América do Sul. Recorde-se ainda que João Pedro Stédile, alma gêmea de Marcola, havia prometido soltar os “movimentos” sociais” nas cidades só para chamar atenção. E setores importantes do Judiciário estão paralisados por providenciais greves.

No plano político a oposição continua sem ação. A impressão que se tem é que Geraldo Alckmin está sem apoio da cúpula de seu partido. O PFL tem ímpetos de adversário e não de aliado do PSDB. O PMDB já deve ter aderido em peso ao PT. Nos Estados, candidatos que deveriam apoiar Alckmin ainda não estão definidos. E enquanto prossegue a guerrilha do PCC, a pergunta a se fazer é a seguinte: será que em outubro teremos eleições? Não deixa de ser um questionamento inquietante.
Domingo, 14 Maio 2006 21:00

Brasil Invertebrado

O magistral José Ortega y Gasset tem entre suas obras uma de título bastante sugestivo: Espana Invertebrada. E diante dos que nos acontece atualmente, não é difícil concluir que também temos essa característica.

O magistral José Ortega y Gasset tem entre suas obras uma de título bastante sugestivo: Espana Invertebrada. E diante dos que nos acontece atualmente, não é difícil concluir que também temos essa característica. Se ela decorre de todo um processo histórico impossível de ser apresentado num pequeno artigo, nossa atitude diante agir do governo petista é suficiente para atestar que somos invertebrados, inertes, acomodados, alienados.

Em 2002, quase 53 milhões de eleitores depositaram suas melhores esperanças em Luiz Inácio que, finalmente, na quarta tentativa, chegou lá. A oposição implacável do PT contra o governo de Fernando Henrique Cardoso, depois de oito anos fez efeito. O povo quis mudança. E mudança foi o que prometeu o candidato petista. A esperança haveria de vencer o medo e para isso Luiz Inácio se apresentou com discurso bem comportado, sem os furores revolucionários do PT do passado. A retórica sobre luta de classes foi cuidadosamente eliminada e os interesses dos antes odiados capitalistas, preservados. As mudanças incidiriam também sobre uma outra vida possível, justa e próspera para todos. A postura ética do governante e de seu partido haveria de redimir a pátria da doença da corrupção. Diante de tais apelos e da intensa propaganda elaborada por Duda Mendonça, a maior parte do eleitorado se rendeu.

Passado o tempo o que se viu foi o maior espetáculo de corrupção que o Brasil já teve. E olha que a corrupção foi implantada desde nossa origem, faz parte do nosso tecido social e abrange, sem exceção, todas as classes. Mas com os corruptos do PT ninguém pode e seu governo é campeão dos campeões na modalidade maracutaia.

Acrescente-se que, em termos de avanços sócio-econômicos, a incompetência governamental petista é evidente, em que pese os gritos ufanistas de inflação controlada (continuidade do Plano Real) e de êxitos na bolsa de valores (onde os investimentos são de curto prazo e de caráter especulativo). Entretanto, o fracasso desse governo pode ser expresso não só no nosso crescimento pífio de apenas 2,3%, no ano passado, só maior do que o do Haiti, como no estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) em conjunto com a Fundação Centro de Estudos para o Comércio Exterior (Funcex). O estudo mostra que a competitividade dos produtos brasileiros nos mercados norte-americano e europeu acumula queda de 40% entre 2002 e março desse ano.

Outro aspecto desastroso do governo petista é sua política externa, e recentes episódios com nossos vizinhos e diletos companheiros do presidente Luiz Inácio mostram a perda de liderança brasileira, a desintegração do Mercosul, o isolamento do país por conta de sua equivocada política terceiro-mundista que, em vez de nos integrar à economia mundial como, inclusive, fez a China e a Índia, prefere trocar banana, tabaco e rum entre los hermanos sofridos. Optamos ser passados para trás na Alba, do que ingressarmos na imperialista e maldita Alca.

Para culminar, ao ato de força de Evo Morales, que expulsou a EBX, postou o Exército na Petrobrás, rompeu contratos e ameaça expulsar brasileiros, nosso presidente invertebrado apenas disse que tudo era questão de soberania da Bolívia e que os bolivianos sofridos tinham que ser tratados com carinho.

Fora do país, contudo, não funciona o Lulinha de paz e amor, conforme se notou nos insultos com os quais Morales respondeu ao carinho de Luiz Inácio. Segundo o soberano presidente boliviano, a Petrobras é sonegadora e contrabandista. Diante disso, o invertebrado chanceler Celso Amorim cogita retirar o embaixador brasileiro da Bolívia. Pode ser que ele fique só na cogitação, enquanto seguimos sob o comando de Hugo Chávez e de seus amigos.

Nesse cenário nenhuma manifestação popular. Grupos de interesse esboçando poucas e inócuas críticas. Partidos políticos ainda envolvidos com acertos entre siglas, enquanto Luiz Inácio segue como único candidato no palanque eletrônico da TV, a prodigalizar “bondades” eleitorais. E se Silvio Pereira, o Silvinho Land Rover, deu mais um show de cinismo na CPI dos Bingos, mensaleiros e quadrilheiros se preparam para retornar ao Legislativo. Completando o clima de desfaçatez o ex-ministro, deputado cassado e chefe do mensalão, José Dirceu, sai por aí fazendo acordos políticos em prol da reeleição de seu chefe Luiz Inácio e dando palestras em universidades. O que será que ele ministra aos jovens em suas aulas magnas, artes mafiosas?

É verdade que algumas reações surgem no marasmo brasileiro: a bengalada cívica, estudantes vaiando José Dirceu em Belo Horizonte, produtores rurais se unindo e protestando nas estradas, mensagens trocadas na Internet entre gente angustiada e indignada com a mixórdia institucional. São sinais que atestam insatisfação latente, pouco vocalizada, mas persistente. Em todo caso, só em outubro será possível saber se continuamos invertebrados ou se conseguiremos ter a espinha dorsal do civismo que nos permita ficar de pé.

Quarta, 10 Maio 2006 21:00

O Petróleo é Deles

Segundo o decreto 28.701, a Petrobrás e demais empresas estrangeiras se tornaram meras operadoras de produção e receberão da Yacimientos Petrolíferos Federales de Bolívia (YPFB) uma remuneração de apenas 18% pelos serviços prestados.

Há poucos dias assistimos ao anúncio de nossa auto-suficiência (relativa, por sinal) em petróleo. Tudo veio como sempre embalado em propaganda de milhões de reais, pagos pela Petrobrás a Duda Mendonça. Duda caprichou na performance de Luiz Inácio, que vestido como operário mostrou as mãos sujas de petróleo numa imitação de Getúlio Vargas. Só faltou o atual presidente dizer que foi ele quem criou a Petrobrás e que o “petróleo é nosso”. Naturalmente, tudo serve à campanha da reeleição e, nesse sentido, o sentimento de orgulho nacional (que no Brasil só funciona na Copa do Mundo), deveria servir para emocionar corações e obter votos em outubro.

Estávamos ainda sobre o impacto da auto-suficiência quando o presidente Evo Morales anunciou sua intenção de expropriar a siderúrgica brasileira EBX. Em 1 de maio ele foi adiante e editou o Decreto Supremo nacionalizando todas as operações de hidrocarbonetos (gás e petróleo) de seu país, o que atingiu duramente a Petrobrás. Não contente com isso, num ostensivo e desnecessário uso da força, Morales mandou o Exército ocupar as 53 instalações de gás e petróleo que eram controladas por empresas estrangeiras.

Segundo o decreto 28.701, a Petrobrás e demais empresas estrangeiras se tornaram meras operadoras de produção e receberão da Yacimientos Petrolíferos Federales de Bolívia (YPFB) uma remuneração de apenas 18% pelos serviços prestados.

Por sua vez, o ministro de Hidrocarbonetos, Andrés Soliz Rada, já avisou que caso a Petrobrás e demais empresas não aceitem em seis meses as imposições do governo boliviano, serão expropriadas. Ele cogita também aumentar os impostos para mais de 82%, portanto, além do que havia sido determinado pelo Decreto. Rada disse ainda que as atividades das empresas estrangeiras em seu país são com uma “caixa preta”, e que o preço pago pela estatal brasileira pelo gás extraído na Bolívia é miserável. Enfatizou também que seu governo não está só e que técnicos da estatal de petróleo da Venezuela de Chávez já estão em La Paz. Aliás, a Petróleos da Venezuela (PDVSA), já está pronta para substituir a Petrobrás.

Coincidentemente, na véspera de editar o Decreto Supremo, Morales se reuniu em Havana com Fidel Castro, tendo sido acompanhado por seu mentor Hugo Chávez. Os três firmaram o acordo para a criação da Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), em oposição à Área de Livre comércio das Américas (Alca) proposta pelos Estados Unidos e, desse modo, Chávez consolidou ainda mais sua frente antiamericanista.

No dia 4 de maio reuniram-se em Puerto Iguazú, Argentina, Luiz Inácio, Hugo Chávez, Evo Morales e Néstor Kirchner. O presidente brasileiro discursou na linha de paz e amor. Chávez uniu as mãos dos quatro participantes do encontro para a clássica pose para fotos. Louvou-se a soberania boliviana e ficou tudo na mesma. Foi como se o presidente brasileiro dissesse: “o petróleo é deles”.

Do episódio ressalta alguns aspectos bastante evidentes, tais como:

1ª) O crescimento cada vez maior da liderança de Chávez na América do Sul e o decréscimo acentuado da influência do Brasil, que segue ajoelhado diante de Evo Morales e a reboque do presidente venezuelano.

2º) A desastrosa política externa brasileira com seu pendor terceiro-mundista, o que tem levado a erros, fracassos e perdas, em que pese a propaganda dizer o contrário.

3º) Os discursos do presidente Luiz Inácio e das esquerdas brasileiras, nos quais a soberania boliviana foi exaltada, assim como a solidariedade aos bolivianos pobres, demonstram uma evidente confusão entre soberania e quebra de acordos internacionais, os quais desrespeitam a soberania de outros países. Recorde-se que esses rompimentos representam algo bastante sério na medida em que tiram do país que assim procede a confiança internacional. Isso por sua vez, leva à retração de investimentos estrangeiros tão necessários às nações que não dispõem de capitais nem de tecnologia. E na medida em que o Brasil louvou e apoiou o ato de Morales, em tese abriu não só a precedência para que outros países sul-americanos façam a mesma coisa, como a perspectiva de que aqui o mesmo possa ser feito.

4º) Será preciso que aprendamos a lição que nos foi dada por Carlos Rangel em sua obra, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”: “Todo hispano-americano sabe bem que quando encontra um brasileiro está diante dele, não ao lado dele”. “Pode-se dizer que existem pontos comuns, afinidades, um parentesco entre o Brasil e a América Espanhola, mas que suas diferenças levam de vencida suas afinidades”. “Para a América Espanhola o Brasil é um vizinho tão perigoso quanto amigo no futuro ou no imediato, mas em todo caso, diferente, outro”.

Diante dos acontecimentos que vão se sucedendo e que apontam para o retrocesso, nada melhor do que encerrar esse artigo com um pensamento de Simón Bolívar: “Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a ultima metamorfose da América Latina”.

Quarta, 03 Maio 2006 21:00

Caminhando Rumo ao Atraso

Tudo isso significa que Comunidade Sul-americana das Nações, iniciativa do Brasil alardeada com pompas e honras, não passou de um sonho de verão tropical.Hugo Chávez voltou dia 26 deste ao Brasil. Portanto, com pequeno intervalo entre o encontro promovido pelo governador Roberto Requião em Curitiba (PR). Naquela ocasião, no Teatro Guaíra, o presidente da Venezuela foi entusiasticamente aplaudido por uma platéia composta pelo MST, pela Via Campesina e por outros grupos de esquerda. Chávez fez campanha para o companheiro Lula e pregou a unificação do MST a outros movimentos similares existentes em países sul-americanos, num evidente incitamento a desordem e a violência no Brasil. Seu plano deve naturalmente incluir as Farc, (grupo colombiano narcoguerrilheiro) e o equivalente e sanguinário Sendero Luminoso, a ser ressuscitado no Peru se for eleito presidente Ollanta Humala, outro neocaudilho populista dito de esquerda que tem a campanha presidencial financiada pelo coronel Chávez. Tal unificação de grupos armados reforçaria ainda mais o poder do pretenso herdeiro de Simón Bolívar, pois ele estaria à frente de um exército sul-americano de guerrilheiros que, na verdade, já o têm como único e incontestável comandante.

No dia 26 a reunião foi feita apenas entre Chávez, Luiz Inácio e Nestor Kirchner. O tema tratado e acertado anteriormente entre os presidentes venezuelano e Argentino foi a construção de um supergasoduto que saindo da Venezuela atravessaria o Brasil de ponta a ponta, cortando o país desde o Amazonas (rio e florestas) até o sul para chegar à Argentina. O ambicioso projeto pretende incluir a Bolívia (detentora da segunda maior reserva de gás da América do Sul, atrás apenas da Venezuela) cujo presidente, Evo Morales, ainda é contra a idéia. É bom lembrar que Morales está nos dando um prejuízo de U$ 1.500 bi com a nacionalização da Petrobrás e expropriando os investimentos já realizados pela EBX na Bolívia. No caso do Gasoduto Venezuela-Cone Sul caberá ao Brasil bancar a maior parte do financiamento da obra, sem que se tenha dito com clareza em quê os brasileiros serão beneficiados.

Os adeptos do empreendimento faraônico pensam que ele significa a força da liderança de Luiz Inácio na América do Sul, mas, ao contrário, estamos diante do enfraquecimento do presidente brasileiro na medida em que este vai sempre a reboque de Chávez e Kirchner.

Em artigo publicado no O Estado de S. Paulo (27/04/2006), Rolf Kuntz aponta o fracasso da diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio, mostrando que este não tem mais influência sobre o Mercosul (“se é que teve alguma”) onde a figura de Chávez já é a mais poderosa mesmo antes da integração da Venezuela ao bloco.

Além disso, Kirchner tem imposto ao Brasil acordos comerciais aceitos passivamente por nossa diplomacia e prefere Hugo Chávez, que compra os títulos públicos de seu país, a uma bela amizade com o companheiro brasileiro.

Tudo isso significa que Comunidade Sul-americana das Nações, iniciativa do Brasil alardeada com pompas e honras, não passou de um sonho de verão tropical. Para piorar, como nossos aliados neocaudilhos, não aceitaremos acordos globais que nos abram boas perspectivas comerciais com os Estados Unidos e a União Européia. Melhor pertencer ao Estado Bolivariano de Chávez do que aceitar o “excremento do diabo” que vem daqueles “porcos capitalistas”.

Enquanto gritamos em coro antiamericanista junto com Hugo Chávez, Fidel Castro, Evo Morales, Nestor kirchner e Ollanta Humala, nossos sonhados parceiros, China, Rússia e Índia cuidam de seus próprios interesses e negociam com os Estados Unidos sem clamar contra a globalização ou o liberalismo. Estes países não levam em conta a ideologia de um certo marxismo embalsamado e, assim, vão prosperando nos negócios. Enquanto isso, nós nos fechamos num tribalismo esquerdista obtuso. Somos fiéis seguidores do comandante Chávez e rumamos alegremente para o atraso. Tudo indica que fomos contaminados pelos ideais das revoluções megalomaníacas dos caudilhos ambiciosos, que na América Latina sempre condenaram seus povos ao fracasso e a miséria.

Para terminar me valho das palavras do cientista político, Jorge Castañeda, sobre os atuais líderes populistas latino-americanos que tanto amamos.

Nestor Kirchner é “um peronista reacionário, mais interessado em arrancar dinheiro dos credores e do FMI do que promover políticas sociais”. Hugo Chávez “não é Fidel Castro; é Perón com petróleo, está conduzindo a Venezuela ao colapso”. Evo Morales “não é um Ché indígena, mas um populista esperto e irresponsável que promete muito e entrega pouco”.

Quanto a nós, creio que num eventual segundo mandato do populista Luiz Inácio saberemos de vez o que é herança maldita, aquela deixada pelo governo do PT cuja incompetência e corrupção manterá o Brasil como um país grande sem jamais chegar a ser um grande país.
Domingo, 23 Abril 2006 21:00

Cada Vez Mais Perto de Hugo Chávez

Hugo Chávez tem feito adeptos fervorosos em toda América do Sul e Fidel Castro, ainda que mantendo seu poder totalitário sobre Cuba, já parece um déspota aposentado perto do "boina vermelha".

Hugo Chávez tem feito adeptos fervorosos em toda América do Sul e Fidel Castro, ainda que mantendo seu poder totalitário sobre Cuba, já parece um déspota aposentado perto do “boina vermelha”. Este é o neocaudilho da moda, o populista que conquistou seguidores como Evo Morales, da Bolívia, Ollanta Humala, do Peru e, porque não, o brasileiro Luiz Inácio que, de hipotético líder latino-americano passou a liderado do ambicioso ditador disfarçado da Venezuela.

Muitos outros também se renderam ao rei do petróleo, como é o caso de Roberto Requião, governador do Paraná, que como todo bom esquerdista adora as delícias de Paris e não aceita a lei contra o nepotismo já que abriga vários familiares em seu generoso colo governamental.

Requião, que em novembro do ano passado visitou a Venezuela, no dia 21 não homenageou Tiradentes, mas Hugo Chávez, diante de uma platéia de 1.500 militantes da Via Campesina, de integrantes do MST e de outros movimentos ditos sociais que preferem uma outra vida com a Alba e não com a Alca. No Teatro Guairá, sentados ao lado de Requião, o companheiro Chávez, o bispo de Curitiba, d. Ladislau Biernaski, a cantora Beth Carvalho e o mentor do MST, João Pedro Stédile, outro fiel seguidor do “ditador constitucional” venezuelano. Este repetiu o discurso antiamericanista, atacou o que chama de direita, fez campanha para o companheiro Lula e foi aclamado. Requião discursou e foi vaiado quando defendeu o nepotismo e chamou os manifestantes de “representantes de pequenos movimentos de merda”. O governador informou que foram feitos acordos de cerca de US$ 420 milhões entre o Paraná e a Venezuela. Mas quem é de fato o ídolo de nossas esquerdas?

 Hugo Chávez tentou alcançar o poder através de golpe de Estado. Acabou atingindo seu objetivo pela via eleitoral, em 1998, mas depois de empossado plasmou um Legislativo e um Judiciário à sua imagem e semelhança, o que vem lhe permitindo exercer o arbítrio. Ele ampliou seu mandato de cinco para seis anos e introduziu em sua Constituição o casuísmo que permite sucessivas eleições. Já foi reeleito e fala em permanecer no poder até 2030, período que poderá ser sempre estendido.

Mesmo diante disso o presidente Luiz Inácio afirmou que, “em nenhum país do mundo há tanta democracia quanto na Venezuela”. Uma democracia na qual quem falar contra Chávez vai preso. Coincidentemente, nosso presidente disse que gostaria de um mandato de seis anos e no seu governo o Legislativo veio sendo dominado por mensalões, o que tem o efeito desmoralizador cada vez maior sobre esse Poder. Já o Supremo Tribunal Federal tem votado politicamente e não de acordo com a Lei. Além do mais, Luiz Inácio tem incentivado, sobretudo, o MST, o que indica seu pendor para o modelo chavista de democracia de massas. Num segundo mandato, caso chegue lá, certamente se aproximará cada vez mais de Chávez, cujos sonhos atômicos objetivam destruir os Estados Unidos com a ajuda de companheiros que sabem enriquecer urânio.

Mas o que faz o MST como “movimento social?” O MST invade terras produtivas, destrói sedes e maquinários de fazendas, mata o gado, ateia fogo às pastagens, ameaça e aterroriza produtores rurais, bloqueia estradas, saqueia caminhões, invade prédios públicos, destrói centros de excelência em pesquisa como o da Aracruz. Tudo com o aval do governo e as bênçãos de certos bispos. Enfim, o MST é o braço guerrilheiro do PT. 

O Paraná foi chamado de celeiro do Brasil, pois de sua terra fértil, encontrada no norte do Estado em tons de chocolate, nasceu a produção agrícola que se destacou no País e no exterior. Mas não bastava a terra. O “celeiro” se tornou viável através do trabalho sério, árduo e competente desenvolvido através de gerações de agricultores. Mais tarde, agropecuaristas transformaram o Paraná num dos baluartes do agronegócio, setor que não somente fornece alimentos para as populações urbanas, como integra a cadeia produtiva que se estende além da porteira da fazenda e se espraia pela sociedade gerando renda e trabalho, esses reais pilares da prosperidade de um povo. Através do agronegócio, não só o mercado interno é alcançado, mas também o externo, o que significa a possibilidade do Brasil se integrar com força à economia mundial e garantir o saldo de nossa balança comercial.

Recorde-se, porém, que Stédile anunciou que o grande inimigo é o agronegócio. Invés de estar preso por incitar a desordem, a violência e o desrespeito à propriedade, foi um dos homenageados de Requião.

Enquanto isso, por todo Paraná, produtores rurais que Luiz Inácio andou chamando de caloteiros, pedem que sejam reduzidos os custos de produção e os juros, porque já estão sendo obrigados a se desfazer de seus equipamentos agrícolas para poder pagar aos fornecedores de insumos.

 Sem dúvida estamos cada vez mais perto de Hugo Chávez, e é próprio perguntar se nada pode barrar nossa vocação para o atraso. Responderemos a isso em outubro.

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