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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Sábado, 16 Setembro 2006 21:00

A Culpa é do Sistema

Passando os olhos sobre papéis, emitindo surradas respostas, fazendo o costumeiro auto-elogio de seu mandato, Luiz Inácio descartou qualquer responsabilidade na corrupção que infesta seu governo, pois, segundo afirmou, “a culpa é do sistema”.

Ao assistir a entrevista dada pelo presidente Luiz Inácio ao jornal da Band, dia 14 deste, fiquei impressionada com sua capacidade de responder não respondendo. Sem dúvida, paira sobre o presidente da República o treinamento dado por Duda Mendonça e suas esquivas, embora nada convincentes, devem ter tido o poder de engabelar a maioria que o assistiu.

Passando os olhos sobre papéis, emitindo surradas respostas, fazendo o costumeiro auto-elogio de seu mandato, Luiz Inácio descartou qualquer responsabilidade na corrupção que infesta seu governo, pois, segundo afirmou, “a culpa é do sistema”.

Além do mais, o poderoso José Dirceu, que foi tocado do cargo de “gerentão” ou “chefe da quadrilha” por Roberto Jefferson, teria sido pelo presidente exonerado num evidente combate a corrupção da parte deste e de sua implacável intenção de punir culpados.

Também a queda do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, LILS atribuiu ao seu sentido ético. Entretanto, como se sabe, a permanência de Palocci no cargo, que já vinha se mostrando inviável por conta de numerosos escândalos, se tornou insustentável quando da quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo. Palocci não gostou quando o rapaz afirmou que ele freqüentava a casa onde havia farta diversão prodigalizada por uma “empresária do sexo” e negociatas bastante lucrativas, ingredientes que alegravam a vida dos integrantes da chamada República de Ribeirão. Dessas coisas, porém, Luiz Inácio nunca soube.

Ministros vampiros, ministros sanguessugas, ministros que enriqueceram rapidamente à sombra dos muros da corte, irmão lobista, filho privilegiado por milhões da Telemar, nada disso tem a ver com o presidente. Tudo é culpa do sistema. E se algumas pessoas do PT erraram, entre as quais, os inseparáveis companheiros de sua Excelência como o ex-presidente da sigla José Genoino, o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-secretario Silvinho Land Rover, naturalmente, a culpa é do sistema. Eles, coitados, são criaturas angelicais, apesar de traidores do chefe.

Também o fracasso de programas governamentais foi edulcorado e transformado em êxito nas palavras do candidato e presidente, atestado inequívoco de quanto Duda Mendonça, marqueteiro real e homem das rinhas de galo e dos paraísos fiscais, continua influente na moldagem da imagem e da retórica do seu mais importante discípulo político e obra-prima de simulação. Desse modo, se algo não atingiu resultado mais extraordinário, já se sabe, a culpa é do sistema.

Conclusão: são todos inocentes. Pelo menos os companheiros e, sobretudo, seu chefe supremo. Por isso mesmo merecem continuar no comando do País. Note-se que Genoino, o tomador de empréstimos ilícitos intermediados por Marcus Valério, e cujo irmão deputado foi envolvido no escândalo dos dólares na cueca, freqüenta o Palácio do Planalto para visitar o companheiro Lula e, quem sabe, vai ser eleito deputado federal, assim como Palocci.

O PT já discute a absolvição de José Dirceu, essa vítima do sistema juntamente com seu homem de confiança, Waldomiro Diniz. João Paulo Cunha, Luizinho, enfim, todos os mensaleiros inocentados por seus pares no Congresso seguem em frente sem medo da felicidade e prevê-se que o PT manterá grande bancada no Congresso. Imagina-se o quanto os companheiros da base mensalista devem estar felizes aguardando futuros mensalões.

Por outro lado, LILS influencia com seu magnetismo a sociedade brasileira que parece disposta a reconduzi-lo ao cargo para que tenha nova chance de, quem sabe, cumprir o que prometeu e não fez em quatro anos, claro, por culpa do sistema. Também não custa perdoar e reeleger todos que cometeram pecadilhos inofensivos como fraude em licitação, corrupção, formação de quadrilha, evasão de divisas.

Que importância tem se continuamos na rabeira do crescimento mundial, o que inclui o latino americano; se as taxas de juros seguem elevadas; se a carga tributária saltou para 37% do PIB; se a corrupção se alastra livremente, se o desemprego aumenta; se já existem sinais preocupantes na economia como a queda do agronegócio e da produção industrial; se Evo Morales se apropria do que é nosso com apoio do governo brasileiro frouxo e ideológico. Isso faz parte do sistema.

Pensando bem, diante desse sistema que anestesia a conduta ética do povo e do governo, que torna a imoralidade aceita como coisa natural, que mantém a ignorância de uns, o cinismo de outros, a alienação de muitos, não sei se dá mais vergonha do que nojo, ou mais nojo que vergonha da Terra de Macunaíma em que o Brasil vai se transformando, onde heróis sem caráter são exaltados, eleitos e reeleitos.

Sábado, 26 Agosto 2006 21:00

Está Faltando Ziriguidum

Dizem que lhe falta ziriguidum. Ora, o povo quer apenas ziriguidum e futebol. No mais, como justificou o ator e petista Paulo Betti: “não se faz política sem sujar as mãos”. E olha que de mãos sujas esse governo do PT entende.

Muitas pessoas têm comentado que não encontram eleitores de Luiz Inácio, em que pese todas as pesquisas apontarem o candidato e presidente como imbatível já no primeiro turno. Familiares, amigos, vizinhos, conhecidos, desconhecidos, gente humilde, gente endinheirada, ninguém assume o voto no petista. Até seus ex-adeptos se dizem decepcionados. O que transparece são queixas, indignação, temor de um segundo mandato. Entretanto, a cada pesquisa LILS sobe e já apresenta seu plano de governo para 2022, com reiteradas promessa que não cumpriu no atual mandato. Uma delas, o crescimento de 6% do PIB que aconteceria naquela longínqua data.

Se as pesquisas traduzem a realidade, o que muita gente duvida, isso se deve a alguns fatores já exaustivamente apresentados e repetidos, mas que valem à pena ser recordados:

Primeiro, não existe oposição ao PT. Segundo, há quase quatro anos o presidente usa e abusa dos meios de comunicação, notadamente, da TV. Terceiro, a partir do início deste ano o candidato e presidente esbanjou “bondades”. Quarto, Luiz Inácio foi superprotegido por todos os partidos.

Na verdade, pouquíssimos parlamentares do PSDB e do PFL se destacaram nas CPIs como verdadeiros oposicionistas. Entre eles, o senador Álvaro Dias, o deputado Gustavo Fruet e alguns outros parlamentares capazes de demonstrar coragem e ostentar brio e equilíbrio diante da difícil tarefa de enfrentar a tropa de choque do PT no Congresso. Os petistas de tudo fizeram para evitar as CPIs e, depois, quando as Comissões foram instaladas, abateram-se, inclusive, sobre as testemunhas. Eles utilizaram suas habituais táticas, capitaneados pela estridente senadora Ideli Salvati: gritar, desclassificar, afrontar, constranger, distorcer, intimidar.

O governo do PT teve um grande êxito: a compra da base aliada acabou por desmoralizar o Congresso como um todo, e esse pilar da democracia emergiu como uma aberração imoral. Vieram à tona falcatruas e negociatas feitas por homens e mulheres que foram eleitos para fiscalizar o Executivo e fazer as leis. Condenados no Conselho de Ética, os mensaleiros, com exceção de três, foram perdoados no plenário e saudados com grandes palmas. Um espetáculo nauseante, onde trapaceiros vencem. Alguns espertos renunciaram para não perder os preciosos mandatos, trampolins para as maracutaias de toda espécie. Ao final, salvaram-se praticamente todos. Eles voltarão, quem sabe, junto com os sanguessugas, perdoados pela sociedade e ungidos pelo grande companheiro presidente. Não é difícil que um João Paulo, um Luizinho e outros amigos de Marcos Valério consigam novo mandato.

A mixórdia de imoralidades, porém, proveio do Executivo. Afluiu com o caso Waldomiro Diniz, homem forte de José Dirceu, por sua vez homem forte do presidente da República. Como ficou por isso mesmo, a quadrilha (termo usado pelo procurador-geral da República) foi adiante. Nem os dólares na cueca, nem os pedidos de justiça feitos pelos irmãos de Celso Daniel, abalaram a República dos companheiros. Impunes, Delúbios e Silvinhos, Genoinos e Paloccis, continuam ser medo de serem felizes.

Enquanto isso, incólume, o presidente Luiz Inácio pairou sobre seu partido e seu governo como se não tivesse nada a ver com eles. Nem os crimes de seus auxiliares mais íntimos abalaram sua reputação. Bastou alegar que nada sabia, nada via e, por um decreto invisível, foi instaurado no país o cinismo institucionalizado, a mentira como norma, o desregramento como regra.

Sua Excelência contou especialmente com o apoio do PSDB e do PFL, que lhe foram de uma dedicação extrema. Enquanto isso, José Dirceu punha a culpa nas elites (leia-se, PSDB e PFL), e tratava de expulsar de suas hostes os companheiros mais ensandecidos pela fúria sagrada da causa.

A queda do agronegócio, o aumento da inadimplência, o declínio da produtividade industrial, os pesados impostos (sendo que a arrecadação bateu novo recorde), a corrupção estarrecedora, nada é capaz de abalar o prestígio de Sua Excelência, conforme as pesquisas. E Geraldo Alckmin, que poderia enfrentá-lo, está sendo cristianizado pelo PSDB, não conta com apoio efetivo do PFL, foi enjeitado pela cúpula tucana e está pessimamente assessorado. Educado, inteligente, técnico, falando bem, expressando-se com objetividade, mostrando experiência política e administrativa através de sua carreira, o ex-governador de São Paulo parece bom demais para o Brasil. Dizem que lhe falta ziriguidum. Ora, o povo quer apenas ziriguidum e futebol. No mais, como justificou o ator e petista Paulo Betti: “não se faz política sem sujar as mãos”. E olha que de mãos sujas esse governo do PT entende.

Quinta, 17 Agosto 2006 21:00

Estado Larápio

A sensação é a de que banditismo foi institucionalizado alcançando os Poderes constituídos em suas instâncias mais altas.

Será inútil dizer que sempre houve corrupção. Será cínico declarar que se sempre foi assim todos devem continuar a ter caixa dois, roubar, delinqüir, corromper, aumentar riquezas através da corrupção como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Ocorre, que neste governo do partido que havia prometido durante anos que viria para mudar, chegamos ao auge do amoralismo. A sensação é a de que banditismo foi institucionalizado alcançando os Poderes constituídos em suas instâncias mais altas.

Em recente entrevista à TV Globo, o presidente da República, num daqueles atos falhos que traem o subconsciente afirmou: “em meu governo combati a ética”. De fato Sua Excelência pode se gabar, começando com o indefectível “nunca em nenhum governo”, e acrescentar: roubou-se tanto, mentiu-se tanto, enganou-se tanto.

O impressionante desses quase quatro anos de nossa história é que a corrupção abrigada no próprio Estado nunca foi tão deslavada. Sem o mínimo pudor a roubalheira é escancarada nos Três Poderes, mina instituições antes consideradas impolutas, coopta entidades que não só se calam como participam do desregramento generalizado.

Não há mais uma clara distinção entre bandidos e autoridades e isso foi esfregado na cara dos deputados que argüiam o mega facínora Marcola. Ele debochou de mensaleiros e sanguessugas com o escárnio de chefão poderoso que instituiu um Estado dentro do Estado frouxo, corrupto, incompetente, quando não conivente com os companheiros do crime que agora apelam para jargões de esquerda para justificar seus atos. Afinal, nessas plagas latino-americanas quem é de esquerda é do bem. Isto foi inculcado durante anos nas mentes dos estudantes universitários, nos meios eclesiásticos, artísticos, intelectuais, entre profissionais liberais. Assim, se o PCC é de esquerda, logo é do bem.

Entretanto, depois de fazer curvar a mais poderosa rede de televisão do país que exibiu um vídeo com indivíduos encapuzados se queixando das prisões, exigência para que o jornalista da Globo seqüestrado fosse solto, não é de se duvidar que em breve o PCC consiga nosso Aldo Moro, seqüestrado em 1978 pelas Brigadas Vermelhas e executado quando o governo italiano se recusou a soltar brigadistas.

Em Terra de Macunaíma, porém, o provável é que evolua a obediência aos bandidos da parte das autoridades. Num cenário possível presídios de segurança máxima serão abolidos. Uma lei, quem sabe, decretará o fim dos crimes hediondos. Conceder-se-á hábeas corpus aos criminosos de alta periculosidade. A eles, e apenas a eles serão oferecidos direitos humanos, pois, coitados, são pessoas sofridas. E se o governo de Luiz Inácio se recusou a declarar as Farc como terroristas, conforme pedido do presidente colombiano, por que nosso PCC seria considerado como tal? Enfim, se confirmará em grande estilo que no Brasil o crime compensa.

De outro lado continuarão a dançar a dança da impunidade mensaleiros, sanguessugas, larápios de recursos públicos, golpistas escolados nas manhas do suborno, especialistas na arte de fraudar licitações, malandros adestrados em superfaturamento, sonegadores e formadores de quadrilhas, corruptos e corruptores a dobrar fortunas resguardadas em paraísos fiscais. Reeleitos muitos deles continuarão na doce vida que o poder concede a quem o alcança e nele se mantém. Leis e impostos apenas para eleitores, muitos dos quais dizem nas pesquisas: “eu faria a mesma coisa se chegasse lá”.

Diante desse estado de deterioração moral a que se chegou vale perguntar: que povo é esse que aceita docilmente sustentar com pesados impostos os luxos da corte? Que encara como natural a corrupção das mais altas autoridades? Que é presa fácil da propaganda enganosa?

Entendemos tudo sobre futebol. Temos na ponta da língua as escalações de todas as Copas do Mundo. Sabemos de cor e salteado os gols que nelas foram feitos pelo Brasil. Mas não nos lembramos em qual vereador ou deputado votamos. Elegemos qualquer candidato que sabe contar piadas. Achamos chatos os candidatos sérios, inteligentes preparados, experientes, dignos porque estes não têm a nossa cara. O reino Brasil apodreceu e nem nos damos conta ou isso não nos importa. Afinal, como diz o presidente da República, todo mundo tem caixa dois e se todo mundo tem podemos ter também, Depois é só dizer: não sei, não vi, não estou nem aí.

Quando o mau exemplo vem de cima, quando não há mais Poderes, instituições e entidades de classe com os quais se contar instala-se a anomia, intensifica-se o individualismo, aumenta a impunidade e com ela a violência. Contente o povo samba e canta: “me engana que eu gosto”.

Cada vez mais me convenço de que Nelson Rodrigues tinha razão quando afirmou: “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos”.

Segunda, 14 Agosto 2006 21:00

Pobre Classe Média

Perplexos, os indivíduos da classe média percebem que enquanto gastaram anos em estudos, amargam o desemprego, as demissões, os baixos salários, os pesados impostos por eles pagos só servem para sustentar o luxo da "corte".

Já se disse que a leitura de jornal devia ser a oração da manhã do homem moderno. Nesse sentido nos falta modernidade, pois jornais não são muito lidos no País. Somos o povo da televisão. E se a TV nos proporciona entretenimento, a informação transmitida por esse veículo é superficial apesar de ser em grande volume e, em muitos casos, simultânea aos acontecimentos.

Quem "ora" pela manhã sabe que aquilo que a TV não conta, o jornal diz. Sobretudo os maiores e melhores são informativos em profundidade. Isto se confirma se observarmos que jornais televisivos têm, de modo geral, mostrado apenas um Brasil paradisíaco.

Entre os vários indicadores de nossa prosperidade por TV estão, por exemplo, o aumento de investimentos estrangeiros e do emprego formal. Entretanto, não é mencionado que "os investimentos diretos estrangeiros, que em 2000 foram de US$ 32,8 bilhões, caíram em 2005 para US$ 15,1 bilhões", ou que deixamos a desejar na "proporção de estudantes universitários na taxa de crescimento e na participação das exportações no PIB". (Folha de S. Paulo, 31/07/2006).

Outro dado preocupante que a TV não mostra se refere ao ritmo das demissões maior que o das contratações entre os mais escolarizados. Desse modo, se o atual governo se ufana da criação de 4,3 milhões de empregos formais (havia prometido 10 milhões), muitos dos quais ideológicos e estatais, a qualidade da mão-de-obra vem piorando.

Conforme Sergio Vale, "certamente não se pode reclamar da contratação de pessoas com baixo nível escolar" (o economista se referiu a criação de empregos para analfabetos e para os que têm até a 4ª série do ensino fundamental completo), mas em vez de aumentar a média do emprego e da renda para todos, estamos nivelando por baixo. Todos os países do mundo cresceram com trabalho qualificado e uma classe média relevante. Estamos no caminho oposto" (Folha de S. Paulo 30/07/2006).

Na verdade, a classe média vem sendo tremendamente penalizada e empobrecida. Estamos numa conjuntura em que o esforço e o sacrifício de pais para que os filhos concluam o curso superior freqüentemente se frustra depois da festa de formatura. Ao mesmo tempo, se exige cada vez mais qualificações para a obtenção de uma vaga, enquanto se remunera menos. As exigências vão do título de mestrado ou doutorado ao domínio de línguas e de informática, de especialidades e tecnicalidades a um longo tempo de experiência. Em contrapartida são oferecidos salários que, na maior parte, variam de quatrocentos a mil reais.

Infelizmente, muitos empresários não acham necessário treinar mão-de-obra. Além do mais, certos conhecimentos exigidos são completamente desnecessários a determinadas funções. Por conta disso muitas vezes o profissional liberal ou parte para a informalidade, ou se submete a trabalhar em algo aquém de sua formação, pelo mesmo salário de um analfabeto. Isto desestimula a busca por educação que, por sinal, chegou a um nível assustadoramente baixo. Na prática se sabe que valem mais os relacionamentos do que o diploma. Daí a pergunta: se no Brasil passamos longe do mérito, da excelência em educação que habilita realmente a mão-de-obra altamente qualificada, como poderemos competir no mundo globalizado?


Perplexos, os indivíduos da classe média percebem que enquanto gastaram anos em estudos, amargam o desemprego, as demissões, os baixos salários, os pesados impostos por eles pagos só servem para sustentar o luxo da "corte". E na degradação moral em que se vive são mensaleiros e sanguessugas que se dão bem, enquanto facções criminosas enriquecem cada vez mais e Waldomiros, Marcos Valérios e companhia seguem sem medo de serem felizes.

Por conta de tudo isso e muito mais o voto da pobre classe média, ainda que bastante desinformada, deverá se refletir nas urnas em outubro. Imagine-se, então, se jornais fossem mais lidos.

Sexta, 04 Agosto 2006 21:00

Golpe em Marcha

Agora os petistas querem o poder absoluto calcado na idéia da convocação uma Assembléia Constituinte “apenas para fazer uma reforma política” porque o Congresso, segundo o presidente da República, é incapaz de realizar tal coisa.

Fernando Rodrigues, em seu editorial “O desejo lulista”, expressou algo que passou desapercebido da maioria, mas que soou como alarme: “o comando da campanha petista acredita na ocorrência de um fenômeno irreversível que dará a Lula a vitória no primeiro turno” (Folha de S. Paulo, 02/08/2006).

Que fenômeno irreversível é esse não foi explicado, mas é obvio que o PT não pretende deixar o poder com suas maravilhas e privilégios. Isto é importante, mas o motivo principal é mais complexo: existe um projeto da esquerda latino-americana onde o Brasil se encaixa sob o comando de Hugo Chávez. Este, inclusive, já declarou que Lula é seu candidato e entre os dois existe uma ligação que se expressa por palavras e atos. Mesmo porque, a sua maneira o governo petista tentou seguir no rastro do falso democrata venezuelano.

Conforme já observei em outros artigos, Hugo Chávez tentou alcançar o poder através de golpe e malogrou. Atingiu seu objetivo pela via eleitoral, em 1998. Uma vez empossado plasmou um Legislativo, um Judiciário e um Exército à sua imagem e semelhança, o que vem lhe permitindo exercer seu arbítrio. Em 1999 fez sua Constituição e, através dela, ampliou seu mandato de cinco para seis anos, introduziu o casuísmo que lhe permite sucessivas eleições, enfim, assumiu plenos poderes que lhe permitem intervir de forma ditatorial na política e na economia da Venezuela. Reeleito, fala em permanecer no poder até 2030 ou, quem sabe, por mais tempo. Seu modelo é o da democracia direta, ou seja, nenhum poder entre ele e a massa de pobreza que continua pobre, mas agradece suas esmolas oficiais. Domina cada vez mais através da censura os meios de comunicação e quem falar mal do grande líder vai preso. Com seus petrodólares compra desde armas até escola de samba brasileira, e João Pedro Stédile o segue com suas hostes dos chamados sem-terra com mais fervor, parece, do que ao próprio LILS. MST, Farcs e associados deverão compor o exército latino-americano sob o comando de um Chávez expansionista obsessivo. Armado até os dentes, em seus delírios o venezuelano sonha destruir os Estados Unidos, que vive provocando com sua retórica de caudilho populista e falastrão.

Luiz Inácio só chegou lá na quarta tentativa. Golpe não houve, mas uma oposição estridente da parte dos petistas que, principalmente durante os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, foi implacável. Era constante o grito de “Fora FHC”. Avolumavam-se os pedidos de CPIs. Explodiam as acusações levianas e stalinistas feitas não a adversários, mas a inimigos políticos.

Em seu primeiro ano de mandato o desenvolto salvador da pátria governou através de Medidas Provisórias. Dóceis, PSDB e PFL se intitularam “oposições responsáveis”. A “base aliada” foi comprada pelo Executivo e originou os mensaleiros denunciados por Roberto Jefferson. O PT chegou a perder as rédeas do Legislativo com Severino, depois cooptado. Lutou como um leão, mas não conseguiu impedir as CPIs que escancararam a podridão do partido e do governo “ético”, que passará a história como o mais corrupto entre os corruptos. E se PT não alcançou o pleno controle que Chávez tem sobre os parlamentares venezuelanos, obteve um êxito não desprezível: desmoralizou completamente o Congresso Nacional dos mensaleiros, Agora emergem os sanguessugas, que no palanque do presidente em campanha parecem não afetar seu prestígio. Afinal, Luiz Inácio nada sabe, nada vê.

Quanto ao judiciário, através de sua instância mais alta, o Supremo Tribunal Federal, deixou de lado a Lei e politizou-se. A quem, então, a sociedade poderá recorrer? A Deus, quem for religioso. Ao mesmo tempo, Luiz Inácio protege e financia ditos “movimentos sociais” como o MST e o MLST do baderneiro sem-terra, o latifundiário Bruno Maranhão. É a democracia direta calcada no exemplo dos ditadores. Também não têm faltado esforços da parte do Executivo para cercear a liberdade de imprensa através de projetos onde viceja a censura. E é notável a atual onda antiamericanista gerada pelo PT.

Agora os petistas querem o poder absoluto calcado na idéia da convocação uma Assembléia Constituinte “apenas para fazer uma reforma política” porque o Congresso, segundo o presidente da República, é incapaz de realizar tal coisa. Assim, Luiz Inácio, que conta ser reeleito por conta de um “fenômeno irreversível”, governaria como gosta através de Medidas Provisórias e teria uma Constituição à sua imagem e semelhança. Como treinamento de sua ditadura disfarçada o governo já está censurando a “Voz do Brasil” e quer acabar com as CPIs. Quem quiser que duvide, mas há um golpe em marcha.

Na vizinhança, Kirchner consegue aprovar lei que lhe dá superpoderes e Evo Morales está prestes a obter sua Constituição. Tudo se encaixa no destino autoritário da América Latina. Fidel Castro, que deverá resistir a autópsia, deve estar em paz.

Domingo, 30 Julho 2006 21:00

Quadrado Trágico

O quadro é trágico porque conduz aos confins do subdesenvolvimento. É preciso, pois, frear sua escalada. No nosso caso temos uma “arma” ao nosso alcance para fazer isso: o voto.

Conforme analisei em um dos meus livros, “América Latina – em busca do paraíso perdido", entre 1810 e 1824, aconteceu o processo de independência das colônias hispânicas e a situação que daí se originou marcou o destino dos futuros países latino-americanos: findou-se um equilíbrio e outro não surgiu em seu lugar.

Um fato marcante daquela época que se esvaía sob o estilhaçamento do império espanhol foi o nascimento das repúblicas sob a égide dos caudilhos. Eles emergirão das guerras da independência, lutando à frente dos seus bandos armados. Bastante numerosos de início serão reduzidos, submetidos pouco a pouco por supercaudilhos. Surge a era de um Rosas na Argentina, de um Porfírio Díaz no México e de outros mais. Eles foram o protótipo dos futuros ditadores latino-americanos e sua “pedagogia política” foi feita na mesma linha de violência e autoritarismo, de intolerância e brutalidade dos conquistadores espanhóis e das sociedades pré-colombianas mais evoluídas.

Tudo isso significa que as “revoluções” das oligarquias nativas continham muito mais o elemento da tradição que o da mudança. O que se desejava alterar era a composição do poder e não a sua essência. Assim, a partir da “Espanha invertebrada” (expressão de Ortega y Gasset), não houve na América espanhola independente a “comunidade de propósitos” que faz com que grupos integrantes “convivam não por estar juntos, mas sim por fazer algo juntos”, conforme o lapidar pensamento orteguiano. E, nas nascentes sociedades invertebradas, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de “minorias seletas” que comandassem o processo emancipatório, a inexistência de espírito associativo (substituído pela vivência do pequeno mundo familiar ou clânico), gerarão o desequilíbrio estrutural cujas manifestações mais graves são sentidas até hoje: o atraso econômico, o individualismo, a desconfiança generalizada, o populismo, o nacionalismo xenófobo, a tendência autoritária, os Estados leviatânicos incompetentes e corruptos.

Se a Espanha foi um “licor forte” para suas colônias, nós bebemos o “vinho verde e leve” de Portugal. Sem o radicalismo espanhol viemos ao mundo marcados por um certo desleixo, pela plasticidade de costumes e também pela veleidade que nos faz “ser e não ser, ir e não ir, indefinição de formas e vontade criadora”, conforme Raymundo Faoro. Porém, se somos primos e não hermanos dos nossos vizinhos, se nos diferenciamos do restante da América Latina pela nossa dimensão territorial e fatos de nossa história como, por exemplo, a presença da corte Portuguesa em território nacional e a ausência da participação popular em nosso processo de emancipação de Portugal, guardamos certos traços comuns com os citados acima, que por outras vias históricas marcaram a América Espanhola.

Desse modo, a situação que hoje existe na América Latina como um todo reproduz em muitos aspectos a continuidade da mentalidade do atraso que sempre nos caracterizou. Permanece a atração por caudilhos autoritários e líderes populistas; a defesa do pai Estado que nos castiga com seus monopólios, seus impostos exorbitantes, sua burocracia asfixiante; a corrupção endêmica de nossos governos; o ódio aos Estados Unidos como sublimação de nossas mazelas; a incapacidade de romper o atraso político e econômico; as quimeras revolucionárias que sempre prometeram o paraíso e geraram o inferno; a falta de minorias seletas capazes de nos dotar de um projeto comum.

Quanto ao palco político, desenhou-se por essas plagas um quadrado trágico que por sua característica ideológica de fazer a América Latina dissociar-se em termos comerciais e políticos dos países mais desenvolvidos, de cultivar traços populistas e paternalistas que mantém os pobres sempre pobres através das caridades oficiais, de apresentar vezo estatizante e forte tendência autoritária, arrasta os latino-americanos pela contra-mão da historia.

O quadrado trágico é composto pela Venezuela, Bolívia, Cuba e Brasil, respectivamente governados por Hugo Chávez, Evo Morales, Fidel Castro (ressuscitado por Chávez no que foi apoiado pelo presidente brasileiro) e Luiz Inácio Lula da Silva.

Evidentemente esses presidentes possuem pesos políticos diferenciados no cenário latino-americano. Mas, infelizmente, o Brasil, que por tanto tempo e dada sua envergadura econômica salientou-se como líder natural da América Latina, hoje segue a reboque de Hugo Chávez. Este ajudou eleger Evo Morales, amargou derrotas de seus candidatos no Peru e no México e agora apóia Luiz Inácio.

O quadro é trágico porque conduz aos confins do subdesenvolvimento. É preciso, pois, frear sua escalada. No nosso caso temos uma “arma” ao nosso alcance para fazer isso: o voto.

Terça, 25 Julho 2006 21:00

Lula, o Candidato de Hugo Chávez

Portanto, se o presidente Luiz Inácio não teve holofotes entre os primos ricos, também os perdeu entre os primos pobres. Foi ofuscado por Chaves, em que pese ser seu candidato. Ao venezuelano, sem duvida, interessa Lula-lá de novo e tudo fará ao seu alcance para apoiar o companheiro.

A ida de Luiz Inácio a São Petersburgo, na Rússia, neste mês de julho, passou a impressão que o brasileiro falaria de igual para igual no clube do G-8 composto pelos poderosos da Terra. Ledo engano. O presidente foi lá apenas como convidado juntamente com a China, o México, a Índia, a África do Sul e o Congo. E suas eternas cobranças aos países ricos, para que favoreçam os mais pobres, caíram no vazio. Já se foi o tempo em que Sua Excelência causava certa curiosidade, sobretudo, em países europeus. Talvez, por conta da tendência dos antigos colonizadores de valorizarem o folclore. Hoje é Evo Morales, presidente da Bolívia, com suas blusas de lã coloridas e suas jaquetas de couro cuidadosamente escolhidas por estilistas, que obtém maior sucesso.

Sem se impor na questão dos pré-acordos da Rodada de Doha, que em ocasião passada foi obstaculizada pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o presidente dedicou-se ao turismo. Entre outros passeios visitou o museu Hermitage, a catedral de Santo Isaac e fez uma de suas indefectíveis brincadeirinhas diante da estátua de Pedro, o Grande. Disse ao chefe do cerimonial do Planalto, embaixador Paulo César de Oliveira Campos, conhecido como POC, que ele nunca seria imperador porque tinha só um metro e sessenta, enquanto o governante da Rússia era alto. Pelo visto, Sua Excelência também nunca será imperador.

Em que pese a agradável parte turística, Luiz Inácio teve o dissabor de ser repreendido duramente por seu amigo francês, presidente Jacques Chirac. Este criticou a falta de flexibilidade do brasileiro e deixou bem claro que, apesar de sua amizade o comércio é um capítulo à parte, e que não haveria nenhuma confiança entre França e Brasil diante do tema. Chirac disse ainda: “O presidente Lula pensa da seguinte forma: ‘o que é meu é meu; o que é dos demais é negociável” (O Estado de S. Paulo, 18/06/2006).

Depois do fiasco em Petersburgo, pois Luiz Inácio não conseguiu sequer enxertar os combustíveis alternativos no Plano de Ação de Segurança Energética montado pelo G-8, veio o consolo. O presidente Bush disse que ele estava bem, referindo-se ao fato de que Sua Excelência perdera alguns quilos. E assim terminou mais essa viagem, paga por nós, contribuintes. Não é à-toa que nossos impostos são tão pesados.

Mas viajar é bom e Luiz Inácio rumou, dia 20 deste, à Córdoba, Argentina, para o encontro com membros do abalado Mercosul. Presentes estrelas socialistas como Evo Morales, Michelle Bachelet e o aguardado Fidel Castro que representará o museu das revoluções latino-americanas equivocadas, ou seja, o secular atraso do continente e sua tendência autoritária. Mas a maior de todas as estrelas socialistas, Hugo Chávez, o quinto sócio do agonizante Mercosul, com seu fulgor sem concorrência, demonstrará aos presentes quem manda realmente.

Com seus petrodólares Chávez tornou-se o grande pai magnânimo da região e, armado até os dentes, possivelmente já tem o maior Exército da América do Sul, o qual pretende ampliar com os chamados movimentos sociais dos países vizinhos que estarão unificados sob o comando do tenente-coronel venezuelano.

Como um Hitler subdesenvolvido Chávez tem ímpetos conquistadores e sua obsessão, de cunho paranóico, é minar o poderio norte-americano com a ajuda dos vizinhos, o que inclui o Brasil. Desse modo, a reunião de Córdoba é mais um palco iluminado para Chávez pontificar contra os Estados Unidos e arregimentar fervorosos adeptos sul-americanos. E para demonstrar ainda mais seu prestígio o presidente da Venezuela convocou os movimentos sociais que o saudarão num monumental comício de milhares de pessoas.

A reunião de Córdoba, mesmo que não pareça, significa o fim do Mercosul e a ascensão da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) que substitui a Alca, dos Estados Unidos e foi acertada anteriormente entre o venezuelano, Fidel Castro e Evo Morales. O próprio Chávez deixou tudo muito claro ao dizer: “Depois de Córdoba, haverá outro Mercosul”, enquanto “a imprensa cubana assinalava a afinidade de Fidel Castro com a ‘nova cara do Mercosul’ e afirmava que com a Venezuela abria-se ‘um novo horizonte de integração” (Folha de S, Paulo, 21/07/2006). Em outro momento Chávez declarou aos jornalistas, ao chegar em Córdoba: “essa será a Cúpula dos povos latino-americanos”. “Vamos escrever a nova história da América Latina” (O Estado de S, Paulo, 21/07/2006).

Portanto, se o presidente Luiz Inácio não teve holofotes entre os primos ricos, também os perdeu entre os primos pobres. Foi ofuscado por Chaves, em que pese ser seu candidato. Ao venezuelano, sem duvida, interessa Lula-lá de novo e tudo fará ao seu alcance para apoiar o companheiro.

São essas coisas que sempre me trazem à memória as palavras de Simón Bolívar, pronunciadas em 1830: “Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, isso seria a última metamorfose da América Latina”.

Domingo, 16 Julho 2006 21:00

Bombas Armadas Para 2007

Não estou me referindo aqui às bombas do PCC. Coincidentemente, como já foi percebido por tanta gente, o terrorismo desencadeado pela organização criminosa surge em São Paulo quando o candidato do PSDB sobe nas pesquisas.

Não estou me referindo aqui às bombas do PCC. Coincidentemente, como já foi percebido por tanta gente, o terrorismo desencadeado pela organização criminosa surge em São Paulo quando o candidato do PSDB sobe nas pesquisas. Muito oportuno para seu principal adversário que tem como estratégia transferir culpas negando sempre desconhecer circunstâncias negativas.

Certamente, se não houver estrito cumprimento da lei, medidas prisionais rigorosas, mais presídios de segurança máxima, policiais bem armados e bem pagos, os bandidos vão querer continuar a demonstrar que podem a qualquer momento usar da violência contra policiais, agentes penitenciários e a população indefesa, com escalada que poderá atingir juizes, promotores, advogados e outras autoridades.

Entretanto, existem bombas de outro teor que estão sendo armadas pelo governo petista. Estas explodirão no bolso de cada um no ano que vem, apesar de que no momento a propaganda ensina que vivemos num paraíso onde a miséria foi extinta por um magnânimo pai, que chegamos à era do pleno emprego, que nunca houve tanta qualidade em Educação e Saúde.

Contudo, se na TV predominam boas notícias, entremeadas pelo contraste das catástrofes e desgraças alheias a comprovarem que só no Brasil se é feliz, matérias de jornal mostram vez por outra a realidade que passa desapercebida da grande maioria. Lendo sobre notícias econômicas ficamos sabendo, por exemplo, que o aumento do gasto com o funcionalismo público do Executivo federal, somente nesse ano de eleições foi de 11%, quase o que foi dado entre 1995 e 2005, que alcançou 12%. Além dos aumentos salariais houve a reestruturação de cargos, assim como a criação de novos.

É preciso recordar, que o ex-ministro (que continua como “gerentão” de campanha), José Dirceu, loteou o Estado entre os companheiros e ministérios foram multiplicados para servirem de prêmio de consolação para companheiros derrotados nas eleições. E como o presidente da República negociou os Correios com parte do PMDB para obter apoio da sigla, e prometeu dividir o governo com aquele partido, não é difícil imaginar o inchaço do funcionalismo que acontecerá em 2007, se ele se reeleger e de fato entregar a mercadoria aos peemedebistas. Além disso, outros aumentos em cascatas deverão vir para o Legislativo e para o Judiciário. Diante de tal quadro não é difícil concluir que o gigantesco gasto com a máquina estatal impede que se reduza impostos ou se aumente os investimentos na produção, capazes de gerar emprego e não paternalismo eleitoreiro de bolsas-esmola.

O governo do PT está também longe da sobriedade quando se trata do Palácio do Planalto. O gasto com a chamada “estrutura de apoio do presidente”, de janeiro até o início desse mês foi de R$ 637,3 milhões, mais R$ 69 milhões do que todo o ano passado. Quanto as inúmeras viagens de Luiz Inácio, funcionários e ministros colaboraram para aumentar o esbanjamento às custas do povo. Como se sabe, gastos excessivos da “corte” (e os atuais batem todos os recordes com relação às gestões anteriores) são pagos por nós, contribuintes. Não é à-toa que os impostos pesam tanto sobre a população.

O governo é também pródigo em perdoar dívidas de países estrangeiros e, apesar da expropriação da Petrobrás feita pelo governo boliviano, Luiz Inácio ofereceu mais dinheiro a Evo Morales que vai aumentar o preço do gás e considera o Brasil imperialista. Imagine-se o presidente Bush se comportando assim.

Para a Varig, nada. Nem para os aposentados. O PT, decididamente, não gosta de idosos. Que o diga o atual presidente da sigla, Ricardo Berzoine, que pode ser chamado de carrasco da terceira-idade. E enquanto a maioria dos mais velhos passa necessidade no final de suas existências, o presidente-operário dobrou seu patrimônio em quatro anos de mandato, segundo dados oficiais, e é dos mais ricos candidatos nas eleições desse ano.

Muitas outras bombas vão estourar no ano que vem e como não é possível mencionar todas num pequeno artigo, me reporto apenas a mais duas: A primeira se refere à Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), que revisou sua previsão sobre a produção industrial em 2006, baixando-a de 6% para 3,5%. A segunda diz respeito ao agronegócio (o inimigo número um de João Pedro Stédile e de seu MST), cujo saldo da balança comercial que esteve sete anos em alta cairá em 2006. Conforme a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) o superávit neste ano será de US$ 37 bilhões, queda de 3,7% na comparação com os US$ 38,416 bilhões acumulados no ano passado.

Está, pois, previsto, o grande espetáculo do crescimento das explosões na economia. Então, conheceremos de fato o que é a verdadeira herança maldita, aquela que nos será legada pelo presidente LILS.

Sábado, 08 Julho 2006 21:00

Ética da Malandragem

De ultrapassar a ética malandragem, segundo a qual quem não rouba é burro, e bom governante é o que rouba, mas faz? Eis questão.

A Copa do Mundo acabou mais cedo para o Brasil. Perdido o jogo para os franceses parecia que o mundo se findara entre gritos, lamentações e lágrimas. Nem os ataques do PCC e sua matança de agentes penitenciários, nem os mensalões com os quais o governo do PT agraciou parlamentares que venderam seu voto e traíram o povo por trinta moedas ou bem mais, nem o peso dos impostos que levam 40% do que é produzido por todos nós, nem os escândalos que enodoaram a República de forma vexatória, nem a corrupção galopante que faria corar qualquer bandido de outras terras produziram a hecatombe de sentimentos que se viu na derrota futebolística. Patriotismo aqui é só no futebol. Bandeira brasileira tremula apenas na batalha campal travada pelos pés de nossos jogadores. Do verde-amarelo se foi ao luto. Do riso fez-se o pranto. Da esperança, desencanto.

O jeito foi mudar de país. Como o técnico de Portugal era o brasileiro Felipão, nos tornamos todos portugueses desde criancinhas. Sublimamos a própria derrota para poder suportá-la transferindo para outro time nosso orgulho nacional que só se externa em Copas do Mundo. E como se torceu pela antiga metrópole. Ao final da partida outra dolorosa frustração: Portugal também perdeu. Inominável dor. Fomos derrotados pela segunda vez.

Se torcer por nossos jogadores quando defrontados com os de outros países é mais que natural, se o entusiasmo pelo esporte é sadio, temos, porém, um exagero que raia ao fanatismo quando se trata de futebol. Apenas levamos a sério carnaval e futebol enquanto somos extremamente displicentes com assuntos políticos. Nosso voto é fútil. Nosso empenho em ter um projeto comum de país é inexistente, exceto quando se trata de partidas mundiais de nosso adorado esporte nacional. E não basta dizer que fomos intoxicados pelo invasivo martelar da TV a mostrar dia e noite os acontecimentos ligados à Copa. Isso funciona, e muito, mas não funcionaria se não fossemos tão pobres em valores. Tão parcos em heróis de verdade, tendo que nos satisfazer com jogadores de futebol transformados em ídolos. Faltam tradições mais sólidas a esse país grande que ainda não se transformou num grande país porque não soubemos construí-lo grandioso.

Em meu primeiro livro, “O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto – A ética da malandragem”, editado por Jorge Zahar no já longínquo ano de 1988, cheguei a algumas conclusões que, infelizmente, não mudo agora, e que também servem para explicar, entre outras coisas, porque apenas o futebol nos empolga tanto ou porque elegemos um presidente dotado da mais impressionante ética da malandragem. Por que admiramos sua esperteza. Porque rimos quando ele nos passa para trás ou nos manda levantar o traseiro. Porque muitos de nós querem reelegê-lo. Porque adoramos suas mentiras, suas piadas grosseiras, sua incapacidade de falar corretamente. Na ilusão de que ele é um homem comum e pobre, a maioria dos brasileiros põe Lula lá pensando que vai à forra contra os ricos, o capitalismo indecente, os porcos ianques, a nefanda goblalização e um tal de neoliberalimo. E para melhor nos entender conclui naquele meu livro, entre outras coisas, que:

Na verdade todos nós compactuamos com o sistema dentro do qual a massa de miséria sofre as mesmas influências passadas e presentes que nunca fizeram de nós um “povo guerreiro”. Os mais pobres como os mais abastados, geralmente aspiram a partir de suas necessidades peculiares e com a mesma voracidade nunca saciada, facilidades preferivelmente alcançadas por esperteza ou doação de alguma autoridade paternal. É que não temos de modo geral o sentido de conquista no tocante ao esforço pessoal, não nos faltando, porém, a capacidade predatória. Não sabemos na maior parte das vezes exercer o poder, mas tão-somente nos beneficiar do poder. Não temos senso das medidas, sendo capazes de passar de um extremo ao outro sem avaliar as conseqüências de nossos atos. Afetamos cordialidade, mas sabemos ser violentos. Imitamos com facilidade, nos deixando levar por modismos. Simulamos democracia, mas somos autoritários. Preferimos sempre culpar alguém ou algo para nos eximirmos de nossas responsabilidades. Abusamos da liberdade em invés de usufruí-la. Convivemos com um Estado corrupto e inepto por nosso comodismo.

Naturalmente temos exceções. Gente humilde que é trabalhadora e honesta. Lideranças que se agigantam na tentativa de romper com o ranço da mentalidade antiprogressista. Elites intelectuais. Temos nossas “aristocracias” significando arisotoi: os melhores. Mas serão essas minorias excelentes capazes de preencher a lacuna entre a classe dirigente e a massa, no sentido de romper com a mentalidade do atraso? De ultrapassar a ética malandragem, segundo a qual quem não rouba é burro, e bom governante é o que rouba, mas faz? Eis questão.

Domingo, 25 Junho 2006 21:00

Moral em Frangalhos

Estamos, pois, em nossa fase mais decadente. Nos tornamos mais medíocres. Fizemos da amoralidade a regra. Entretanto, somente nós mesmos poderemos romper esse atraso através de esforço próprio e escolhas políticas certas.

Disse o escritor argentino, Jorge Luís Borges: “somos nosso passado”. Nada mais certo. E quando nesse momento alguns poucos se sentem perplexos diante da aprovação da maioria da população com relação ao festival de cinismo, mentiras e falcatruas que emanam das mais altas autoridades, deveria a minoria indignada buscar compreender o que fomos para entender o que somos.

É preciso recordar que nossos colonizadores interpuseram um oceano entre si e os controles sociais de sua pátria e, no ar afrodisíaco dos trópicos, afrouxaram ainda mais uma moral já de si débil. Foi se produzindo na colônia portuguesa, apesar da rigidez aparente das proibições eclesiásticas e inquisitoriais, a plasticidade de costumes, onde o suborno, a ganância, a corrupção e a mentira se converteram em “virtudes” a serem comungadas por toda sociedade. Aprendemos desde cedo a simular e a mentira trespassou todas as nossas instituições. E na sociedade marcada pela gritante desigualdade entre senhores e escravos, não prosperaram valores relativos ao mérito e ao esforço individual que objetivassem o êxito. Nascemos como Terra de Macunaíma. Evoluímos como Reino do Dá-se-um-jeito.

A essas características particulares some-se o processo mundial, que advindo da Revolução Industrial inglesa e passando pela evolução dos meios de transporte e comunicação, foi tornando o mundo uma “aldeia global”. Massificaram-se costumes e usos. Na democracia da calça jeans já não se distingue com clareza classes sociais. Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens nesses avanços, dependendo do uso que se faz deles e no Brasil nos tornamos herdeiros do nosso tempo.

Uma coisa, porém, é certa: se o sistema comunista fracassou em propiciar a igualdade profetizada por Marx, foi paradoxalmente o progresso do capitalismo que trouxe consigo a liberdade, inclusive, de mercado e, com esta, a concorrência que permite a libertação dos monopólios estatais, portanto, a livre escolha pelos indivíduos de bens conforme preços, gostos e necessidades. Isto fez emergir sociedades mais igualitárias e prósperas, mas nelas avançou, paradoxalmente, o individualismo que esvazia os cidadãos de civismo. As pessoas se tornaram mais iguais e, ao mesmo tempo, estranhas umas as outras.

No Brasil nunca atingimos o capitalismo avançado, que nos faria abastados. Por conta de nossa formação histórica temos grande apego ao pai Estado e continuamos dele dependentes como um povo criança. Desse modo, apesar de sermos ricos em natureza e tamanho, somos mal governados e preferimos manter nosso paquidérmico Estado, excessivamente burocratizado, ineficiente e corrupto como um todo. Mas, apesar disso, entramos na corrente mundial e não somos de forma alguma a Ilha de Vera Cruz, seguindo cada vez mais individualizados e esvaziados de todo civismo.

Todavia, não se pode dizer que não tivemos ascensão das classes mais baixas. Isso é claro se observamos que vivemos numa República sindicalista, onde o presidente se gaba constantemente de sua origem pobre, assim como muitos de seus companheiros governantes. Porém, por aquela sempre presente ironia do destino, ao chegar ao poder os outrora defensores dos mais pobres enriqueceram e se esqueceram de suas raízes e promessas. Pior. Com eles veio o que Alex de Tocqueville chamou de males da igualdade, entre os quais se inclui o desejo dos mais fracos atraírem os fortes ao seu nível, mas para torná-los iguais no aviltamento e na servidão. Em outras palavras, a república sindicalista nos nivelou por baixo.

Assim, nessa encruzilhada de nossa história, sem exemplos a seguir, com a educação atingindo seu nível mais baixo, com nossas instituições profundamente deterioradas, atingimos o fundo do poço em termos morais.

Como disse Silvio Abreu, autor da novela Belíssima, nas páginas amarelas da Veja (21/06): “a moral do país está em frangalhos”. Ele constatou através de pesquisa que as pessoas já não valorizam a retidão de caráter, achando enfadonhos os personagens bonzinhos das novelas. Ficou também claro para o novelista, que o nível intelectual do brasileiro baixou e que por isso “não dá para aprofundar nenhum tema, porque o público não consegue acompanhar”. Abreu liga tudo isso à tolerância aos desvios de conduta relativos aos escândalos recentes da política.

Estamos, pois, em nossa fase mais decadente. Nos tornamos mais medíocres. Fizemos da amoralidade a regra. Entretanto, somente nós mesmos poderemos romper esse atraso através de esforço próprio e escolhas políticas certas. Aos futuros governantes compete ter menos projetos de poder pessoal e mais visão de bem comum. Trabalho e não esmolas; saúde e não filas da morte do SUS; educação e não aprendizado de malandragem; leis justas e isonômicas, essas devem ser as aspirações a se fundir num projeto comum para o Brasil. Como falou Euclides da Cunha: “ou progredimos ou desaparecemos”.

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