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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Segunda, 18 Junho 2007 21:00

Barões e Ladrões

É verdade que a corrupção é nossa antiga companheira. Faz parte de nosso tecido social desde os primórdios coloniais.

O presidente da República, sua cúpula governamental, os integrantes da mais alta hierarquia de seu partido, o PT, têm sempre um álibi quando a corrupção vem à tona envolvendo compadres e companheiros mais chegados: “Isto sempre existiu no Brasil”. E, esquecidos da promessa de que viriam para acabar com a devassidão pública por serem o único partido ético, justificam seus delitos invocando os do governo anterior, sejam eles falcatruas inventadas ou reais. No poder, finalmente, o PT conclui que, se todo mundo faz não tem importância fazer também, e que a hora é de aproveitar e ir à forra. Assim, a classe dominante foi ao paraíso, inclusive, aos paraísos fiscais, como ilustrou Duda Mendonça em pleno Congresso Nacional ao depor numa daquelas CPIs, as famosas Comissões que fazem muito barulho por nada.

É verdade que a corrupção é nossa antiga companheira. Faz parte de nosso tecido social desde os primórdios coloniais. E, conforme escrevi em um dos meus livros, América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido, referindo-me à vinda da corte para cá, “em 1808, instalaram-se de uma vez por todas nestas plagas as características do Estado português, que em terra nova não perderia sua tradicional essência patrimonialista. Segundo Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder: ‘Os reis portugueses governavam o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público’. Era também um Estado corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica da burocracia, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Em toda parte das entranhas do desajeitado e ineficiente Leviatã conduzido por D. João VI, traficava-se influência, negociava-se a coisa pública em proveito próprio”.

Em artigo no Caderno Mais, da Folha de São Paulo, de 03/06/2007, a historiadora Isabel Lustosa mostra exemplo de grande corrupto na pessoa de Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço, Tesoureiro-mor de D.João VI. A Targini foi dedicada a significativa quadrinha: “Quem furta pouco é ladrão/quem furta muito é barão/quem mais furta e mais esconde/passa de barão a visconde”. Isabel se refere também aos “pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido”.

Do Império até os dias de hoje, “barões” e ladrões continuam a praticar a corrupção favorecidos pela impunidade, pelo Estado patrimonialista e excessivamente burocratizado, pela ausência de cultura cívica, pela plasticidade moral do brasileiro.

Entretanto, como gosta de dizer o presidente da República, “nunca, antes, nesse país”, se viu uma profusão tal de Targinis, de “barões”, de ladrões que se espalham por todos os Poderes Constituídos, que se esparramam pelas instituições, que usufruem da intimidade do “rei”. Quando se pensa que chegamos ao fundo, que neste governo começou a ser cavado por Waldomiro Diniz, os escândalos se multiplicam, assim como as inúteis CPIs e as espetaculares operações da Polícia Federal que expõem a podridão moral da coisa pública. Os casos escabrosos são tantos e tantos os personagens neles envolvidos, que a opinião pública vai sendo anestesiada e, numa inversão de valores, passa a conceber o que era errado como certo. Na esteira dos acontecimentos sobrepõe-se de tal modo os Targini, que vai se apagando da memória coletiva até as mais recentes personagens envolvidas na rapinagem. Diante da operação Xeque Mate, que comprometeu irmãos do presidente da República, vão caindo no esquecimento as “façanhas” de companheiros e compadres presidenciais como José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken, Delúbio Soares, José Genoino, Paulo Okamoto, Osvaldo Bargas. Jorge Lorenzetti, Freud Godoy e tantos outros. Até Zuleido e Renan Calheiros vão escapando pela fresta da amnésia popular. Aos brasileiros mais conscientes e atilados fica a impressão de que o governo ora em curso é uma mistura de máfia, circo e bordel.

É verdade que desde que o ex-deputado Roberto Jefferson tocou sua “trombeta de Jericó”, derrubando até o todo-poderoso José Dirceu, nunca, antes, nesse país tinham vindo à tona tantos “barões”. Mas, proporcionalmente, nunca houve tanta impunidade, pois os Targini continuam livres, leves e soltos. São muitas ações e poucas condenações. Muitas CPIs e raríssimas cassações de mandatos.

Em meio à sordidez reinante, sobrepõe-se emblematicamente, como o barbeiro redivivo do Império, o irmão dileto do presidente da República, Genival Inácio da Silva, vulgo Vavá, a quem Roberto Jefferson certamente chamaria de “petequeiro”, pois o bondoso mano oferece malandramente por pequenas quantias, até aos compadres do submundo do crime, seus serviços que não são entregues. Seria ele também ‘a cara do povo”? Pode ser. Afinal, não é o próprio povo que escolhe malandros, trambiqueiros e mafiosos para representá-lo? Portanto, não há do que se queixar. Nem mesmo do prejuízo anual de R$ 40 bi que a corrupção causa ao país.

Sexta, 01 Junho 2007 21:00

Geração Perdida

Se a corrupção impede o progresso do país e lesa o povo, outro grande malefício desse governo é ser responsável pela perda de pelo menos uma geração em termos de valores.

Fala-se muito no Brasil em educação como salvação nacional. É certo que o conhecimento, adquirido através da educação, compõe um dos pilares do desenvolvimento juntamente com os poderes econômico, político e bélico de cada país. Entretanto, não basta um diploma, pois é necessário que esse instrumento habilite para vida. Não são suficientes testes, onde um x colocado aleatoriamente é muitas vezes simulacro de aprendizado. É danoso para o próprio aluno passar para série mais adiantada sem estar preparado. É totalmente errado não se incentivar a leitura. É certo transmitir conhecimento através da repetição do que já foi adquirido intelectualmente pelo homem, mas se não houver criação e recriação do saber, continuaremos atrasados em relação aos países do Primeiro Mundo. Não basta copiar, é necessário raciocinar.

Educação é também algo mais complexo do que aquilo que se adquire na escola. Começa na família. Significa o aprendizado de valores. No grupo familiar o indivíduo inicia sua distinção entre certo e errado, e a escola deve dar seguimento à “socialização” que os pais transmitiram ou devem transmitir.

Mais tarde o jovem interagirá de forma mais expandida com a sociedade. Freqüentará amigos, encontrará novos grupos no trabalho, na igreja, no seu entorno de modo geral. A influência social será constante sobre sua mente ávida de exemplos a seguir, sua necessidade de caminhos a descortinar. Presa fácil das influências, ele não será imune ao que seus sentidos e percepções alcançarem. A TV, a propaganda, os modismos, as drogas, a violência, a falta de oportunidade de trabalho, o desrespeito à vida, a ausência de valores que o guiem, a desagregação familiar, a impunidade, serão fenômenos mais ou menos maléficos conforme for sólida ou não a educação recebida no lar e depois na escola.

A criança e o jovem se miram no espelho de sua realidade e o refletem. E aqui aparece a dificuldade de se educar, pois como é difícil aos pais dizerem aos filhos no Brasil de hoje: “Sejam honestos”. Não mintam”. Busquem o seu bem e o dos outros através de condutas éticas”. “Esforcem-se”. “Estudem”. Conquistem uma profissão, pois através dela terão a gratificação social em forma de empregos e remunerações”. “Façam-se respeitar através de sua conduta irrepreensível”. Não transijam nunca com as pequenas trapaças, pois elas os farão sucumbir às grandes. Prezem sua pátria e os símbolos nacionais, pois a pátria é nosso lar ampliado. Respeitem as autoridades constituídas, pois delas vêm os exemplos de honradez, desprendimento e busca de bem comum.

Imagine-se tentar transmitir esses valores aos jovens do Brasil de agora. Eles haveriam de considerar tudo hilário, se não achassem que seus pais ou professores tinham enlouquecido. Afinal, o que assiste a geração atual?

Dirão alguns que o mesmo que sempre se assistiu, especialmente na esfera política. Que corrupção por corrupção, sempre fomos corruptos. Que as leis nunca funcionaram no país do dá-se-um-jeito. Violência sempre houve, assim como a “arte” de passar os outros para trás. Nunca nos faltou malandragem nem comportamentos desonestos tanto na esfera privada quanto pública.

Tudo isso é verdade e todos estão cansados de saber. Contudo, o que causa profundo mal-estar aos verdadeiros educadores é a podridão moral, que vinda dos Poderes constituídos se exacerbou de forma nunca vista nesse país, contaminando toda sociedade. Se o péssimo exemplo vem de cima, o que esperar dos debaixo? Para que esforço e honestidade se estão se dando bem mensaleiros, sanguessugas, golpistas, malandros que se safam facilmente de CPIs, de operações policiais, como esta última e estarrecedora Operação Navalha? Pior. Os transgressores não estão nas favelas ou bairros pobres, mas nos palácios. Nivelam-se na bandalheira, partidos políticos, deputados, senadores, ministros, juizes, pessoas em cargos importantes. E a tendência é o agravamento de tal situação por três motivos principais: falta de oposições; aumento da impunidade; a crença de que o presidente da República não é o responsável em última instância pelo que acontece em seu governo, o que levará a ele e aos seus companheiros se perpetuarem no poder incidindo nas mesmas práticas.

Se a corrupção impede o progresso do país e lesa o povo, outro grande malefício desse governo é ser responsável pela perda de pelo menos uma geração em termos de valores. Num país onde as mais altas autoridades se nivelam por baixo e se igualam a trambiqueiros, sem que nenhuma punição lhe seja aplicada, cada um faz o que quer: da interdição de estradas à quebradeira do Congresso, da destruição de terras produtivas à invasão de hidrelétricas. E o dinheiro público que poderia estar sendo aplicado, inclusive, para a melhoria da Educação, se perde nas badernas e nos fabulosos lucros dos “donos do poder”.

Por isso mesmo, e apesar de todas as dificuldades, mais do que nunca é preciso educar as novas gerações. Está na hora de começarmos a discutir como fazê-lo. E, sobretudo, é preciso saber como fazê-lo.

Segunda, 21 Maio 2007 21:00

Sinais Inquietantes

Nem sempre o governante totalitário ou o ditador é figura carismática que necessite agradar ao povo ou provocar empatia. Déspotas mandam e quem tem juízo obedece.

Quais os limites da liberdade de cada pessoa diante do poder do Estado? Essa é uma pergunta que demanda resposta complexa, mas pode ser respondida de forma simplificada dizendo-se que a liberdade de cada indivíduo depende do contexto cultural de sua sociedade e do sistema político em que ele vive.

Nos sistemas totalitários do século passado, o nazismo e o comunismo ou socialismo real, a liberdade era nula. Não se era livre em nenhuma esfera da vida fosse ela política, econômica, religiosa, familiar, cultural, intelectual. O controle do Estado era total e no cimo da hierarquia da casta dominante um déspota regia com mão de ferro os destinos de seu povo. Esse "grande líder", por sua vontade suprema decidia como um deus sobre a vida ou a morte, o prêmio ou o castigo de cada um.

Um esquema parecido funciona na ditadura ou regime autoritário. Porém, nesse caso, existe certa margem de liberdade no que tange, por exemplo, a organização familiar, a religião ou a alguma produção cultural “inofensiva”. As ditaduras, contudo, não toleram opositores, não permitem a liberdade política configurada em partidos ou entidades de oposição. Não é permitida a liberdade de pensamento, notadamente, a liberdade de imprensa. Nas ditaduras os Poderes Legislativo e Judiciário funcionam como apêndice do Executivo e a ele obedecem. Naturalmente, as ditaduras, ainda que tenham essência comum, possuem nuances diferenciadas conforme a sociedade em que vigoram.

Nem sempre o governante totalitário ou o ditador é figura carismática que necessite agradar ao povo ou provocar empatia. Déspotas mandam e quem tem juízo obedece. Mas, não falta entre os grandes ou pequenos tiranos os que se julgam uma espécie de deus ou de super-homem. Seriam eles os salvadores da pátria, os grandes heróis que prometem redimir os oprimidos. Para alimentar tais crendices usa-se largamente a propaganda. Todavia, como disse Haro Tecglen ao analisar o super-homem nietzschiano, “Hitler acreditou que fosse ele; centenas ou talvez milhares de pessoas acreditam serem elas: algumas foram parar em asilos, outras foram mais ou menos toleradas pelas famílias, algumas alcançaram o poder e fantásticos níveis de catástrofe”.

Quanto ao liberalismo expresso na democracia, pressupõe o exercício das liberdades civis: liberdade de mercado, pluripartidarismo, eleições livres, liberdade de pensamento, religiosa, cultural, de reunião, etc., o que não significa liberalidade na medida em que a Lei, configurada constitucionalmente, deve impedir abusos e impor limites à ação dos cidadãos. O arcabouço legal das democracias é também antídoto eficaz contra a tentação totalitária ou autoritária que dá asas aos super-homens.

Regimes democráticos também se adaptam aos contextos sociais em que se inserem e isso explica a fragilidade de nossa dúbia democracia.

Nossos vizinhos de origem espanhola são radicais em suas paixões políticas, em suas atitudes e comportamentos, o que acaba fomentando o aparecimento de oposições tão necessárias às ditaduras. Mesmo nos sistemas democráticos deve haver oposição, pois sem esta não há democracia. Exceção observa-se em Cuba, cujo sistema totalitário impede qualquer demonstração livre por parte do povo.

No momento se nota sinais inquietantes em nossa frágil democracia sem que haja percepção ou reação de parte da maioria da população. Vejamos os mais graves:

1º) O Legislativo e o Judiciário comportam-se como figurantes do Executivo, sendo que o Legislativo exibe sem pudor seu objetivo voltado para privilégios, cargos e outros “benefícios” oferecidos pelo Executivo como moeda de troca em votações. Nossos parlamentares, com honrosas exceções, parecem empenhados em demonstrar que todos têm seu preço.

2º) Aumenta a impunidade da classe dirigente que se locupleta de forma jamais vista nesse país. Para distrair a opinião pública e ocultar crimes mais graves aparecem alguns bodes expiatórios que também ficarão impunes, e tudo bem.

3º) Não existem oposições e mesmo certas figuras públicas, antes vigorosas em suas críticas e denúncias, renderam-se ao Poder Executivo.

4º) Na mídia, de modo geral, ressoa a “voz do dono”. Poucos e corajosos jornalistas foram ou estão ameaçados de serem calados sem que haja nenhuma manifestação de apoio da imprensa. Cito aqui o caso do defenestrado Boris Casoy, do Arnaldo Jabor que levou um cala-boca governamental e do Diego Mainardi ameaçado de morte no pasquim do MR-8. E vem aí Franklin Martins e a TV estatal.

5º) O presidente da República, que se diz modestamente próximo da perfeição, parece supor que encarna o super-homem. Ele sabe que o povo gosta e precisa de super-heróis e anda caprichando em shows de triunfalismo e egolatria. Pode-se dizer que é um homem de sorte monumental e, respaldado por sua impressionante propaganda, faz a maioria crer que é um democrata.

Mas qual é o limite da liberdade diante desse poder incomensurável? O tempo responderá, como já respondeu em outros países.

Terça, 15 Maio 2007 21:00

Vera Cruz, Santa Cruz, Brasil

Como os demais países latino-americanos, o Brasil receberá a influência da Igreja junto às famílias, na educação, nas Constituições e mesmo em campanhas políticas.

A visita do Papa Bento XVI ao Brasil reveste-se de caráter pastoral e, sem dúvida, Sua Santidade teve como objetivo mais importante atenuar a evasão de católicos para as Igrejas protestantes ou históricas, ou reformadoras (batista, anglicana, presbiteriana, luterana, metodista) e, sobretudo, para as evangélicas (pentecostais e neopetencostais). Mencione-se ainda as seitas, que na visão das igrejas tradicionais são aquelas entidades que, além da Bíblia, têm outro livro.

Os pentecostais se multiplicaram no decorrer dos anos e seus templos se ergueram em todo país, sendo que a Assembléia de Deus, criada em 1911, expoente do pentecostalismo, se tornará a maior das Igrejas evangélicas brasileiras. Em 1980, começaram a aparecer as Igrejas denominadas neopetencostais. A mais expressiva em termos numéricos e força econômica e política é a Universal do Reino de Deus.

Quanto a influência da Igreja católica sobre a América Latina, desde o início da colonização foi tão grande, que teve toda razão Carlos Rangel ao afirmar em sua obra, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, que nos países latino-americanos “o catolicismo soberano determinava praticamente todos os aspectos da vida dos indivíduos e da sociedade”. Sem sombra de dúvida, a cruz da Igreja e a espada do Estado se entrelaçaram para fazer de nós o que somos.

Recorde-se que tanto a Espanha quanto Portugal tinham, além de objetivos econômicos e políticos sempre presentes em empreendimentos coloniais, a finalidade de propagar a religião católica. Esta meta conferiu ao Estado daqueles países caráter confessional, cristalizado no régio patronato. Através desta instituição os papas outorgavam aos reis: jurisdição disciplinar em matérias mistas, provisões de bispados, faculdade de reter e examinar bulas e breves pontifícios, direitos sobre rendas, cobranças de dízimos e missões como a obrigação de cristianizar os índios.

Através do régio patronato, Estado e Igreja entrosaram poderes e influenciaram-se mutuamente. O rei tornou-se uma espécie de suplente do Papa para assuntos, inclusive, litúrgicos e teológicos. E o Estado se viu obrigado a submeter suas atuações políticas aos princípios da moral cristã sob pena de pecar gravemente, o que possibilitava à Igreja influir sobre a política real.

Como os demais países latino-americanos, o Brasil receberá a influência da Igreja junto às famílias, na educação, nas Constituições e mesmo em campanhas políticas. Desse modo, além de deter a hegemonia espiritual por longo tempo não admitindo outra crença ou lealdade, a Igreja católica constituiu-se em um de nossos principais mecanismos de socialização, portanto, propiciador de cultura.

Diante de tanta força, quais seriam as causas da evasão de católicos para as Igrejas protestantes, evangélicas, e em menor proporção para outras religiões? Pode-se dizer que entre estas causas estão, principalmente:

1º) A aceleração da urbanização a partir de 1940.

O meio urbano possibilita ao indivíduo maior liberdade e opções variadas, entre as quais se incluem as religiosas. No contexto rural onde a vida se passava de forma restrita, o domínio da Igreja católica era total.

2º) A Teologia da Libertação, cujos métodos diferem da Teologia tradicional católica.

A Teologia da Libertação, incorporando a teoria marxista à religião, dispensa o sagrado em nome da utopia final do Reino de Deus aqui mesmo na Terra. Este reino deve ser alcançado não exclusivamente pela via sacramental ou espiritual, mas, se for preciso, e sempre o é, pela violência, pois se fundamenta na luta de classes. Os teólogos da libertação, autodenominados de “progressistas”, se sentem imbuídos de nova missão evangelizadora da Igreja na qual a hierarquia se torna dispensável. No seu bizarro esforço para unir Jesus e Marx, eles proclamam sua opção preferencial pelos pobres. Entretanto, ao trocarem as pregações religiosas pelo discurso político, os “progressistas” afugentaram muitos fiéis que foram buscar em outras Igrejas ou religiões o elemento espiritual e mesmo emocional que lhes faltava nas pregações de esquerda dos clérigos da Teologia da Libertação.

Observe-se ainda, que diminuiu o número de sacerdotes enquanto aumentou a população, e nem a Renovação Carismática, que adota aspectos semelhantes aos dos petencostais, tentativa da Igreja para reverter a evasão de seus fiéis, tem impedido a diminuição de seu número enquanto aumenta o dos evangélicos.

Num Brasil onde campeiam de forma avassaladora o amoralismo político e social, a corrupção e a impunidade, e o “rei” pensa que o Papa é apenas um garoto propaganda mundial de seus “grandes feitos”, dificilmente seremos a Terra de Vera Cruz ou de Santa Cruz como inicialmente fomos denominados. Considerando-se o livre arbítrio nem milagre de frei Galvão dá jeito no país, em que pese os esforços de Sua Santidade.

Terça, 01 Maio 2007 21:00

"O Brasil Não Tem Povo"

A péssima escolha de nossos representantes pode ainda refletir uma profunda identificação popular com seus eleitos no que eles têm de pior, o que indicaria que não temos povo, mas plebe.

Em 1881, em sua obra, L’esclavage au Brésil, Louis Couty afirmou:

O Brasil não tem povo”, pois, “em nenhuma parte se acharão massas de eleitores sabendo pensar e votar, capazes de impor ao governo uma direção definida”.

Cento e vinte e seis anos se passaram desde que Couty apontou o triste fato: “O Brasil não tem povo”. Mas, será que já tem, apesar das mudanças ocorridas?

Como é impossível analisar num pequeno artigo mais de um século de história, tomo como marco importante o processo de industrialização, iniciado nos governos de Getúlio Vargas e JK, que desembocou no atual perfil do Brasil urbano e em parte modernizado. Persistem, é verdade, os contrastes sociais. Predominam na pirâmide social os mais pobres. Mas, bem diferente do século em que Couty nos visitou agora temos classes médias e uma elite econômica. Mesmo assim, perdura nosso subdesenvolvimento político que, associado ao vácuo de valores que hoje se observa, leva a indagar se Couty continua ou não tendo razão. Afinal, são eleitos e reeleitos notórios bandidos, trambiqueiros, mentirosos, tanto para o Poder Legislativo quanto para o Executivo e, em muitos casos, não se distingue entre desembargadores, juízes, advogados, políticos, bicheiros e qualquer tipo de marginal. Isto pode significar que são poucos os eleitores que sabem pensar e votar, sendo ao mesmo tempo incapazes de impor ao governo uma direção definida.

A péssima escolha de nossos representantes pode ainda refletir uma profunda identificação popular com seus eleitos no que eles têm de pior, o que indicaria que não temos povo, mas plebe. Ao mesmo tempo, há muita ignorância relativa aos candidatos no que concerne às suas trajetórias políticas, demonstração de que conhecimento e informação não são coisas idênticas, pois não faltam, ainda que filtradas, informações sobre o festival de falcatruas prodigalizado por quem deveria dar o bom exemplo.

Paradoxalmente isso acontece apesar da profusão de ONGs, centrais sindicais, associações de artistas e de intelectuais, dos chamados movimentos sociais, enfim, de tantas entidades que vão das associações de moradores à OAB, à ABI, à UNE, à CNBB e muitas outras, agora denominadas de redes sociais que alguns imaginam ser fontes de conscientização, civismo e solidariedade.

Portanto, as redes sociais que sempre existiram, mas que com a complexidade urbana aliada à velocidade dos meios de transporte e comunicação (Internet e telefonia celular entre as mais recentes e notáveis revoluções da comunicação) se multiplicaram, não produzem necessariamente o cidadão cônscio, o indivíduo capaz de otimizar seu livre arbítrio, o ator que interfere em seu tempo. Novas “comunidades” nem sempre são atestados de “novo cidadão” solidário.

Na diversidade do mundo atual onde os grupos “primários” como a família são trocados por grupos “secundários”, estes podem também abrigar redes, por exemplo, de criminosos, de terroristas, de narcotraficantes que possuem um tipo de solidariedade, de aprendizado e de projetos comuns, mas que estão bem longe do homem naturalmente bom de Rousseau ou do revolucionário “para si” de Karl Marx, que o conteúdo do termo rede social quer ressuscitar.

Conferir à humanidade de hoje virtudes excelsas que ela jamais possuiu, é tão falso quanto o dilema indivíduo x sociedade, pois o que existe é uma interação entre o ser humano e seu ambiente sócio-cultural.

Finalmente, se mudanças sempre estão ocorrendo, pois a vida é dinâmica, por trás das transformações materiais, valorativas e comportamentais certas essências humanas nunca mudam e a humanidade como um todo permanece ignorante, crédula e facilmente manipulável.

No nosso caso, apesar das redes sociais prevalece o “mesmismo” de que falou Roberto Campos e uma acachapante e piorada passividade que tudo aceita como natural e politicamente correto. E continuamos, como, aliás, acontece com todos os povos, tangidos por poderes mais altos e ocultos em bastidores inacessíveis ao vulgo.

Concluindo, apesar das redes sociais o homem continua, como disse Henry Louis Mencken, “o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro”. No nosso caso, isso muito se acentua e de certo modo explica, entre outras causas históricas e culturais aqui não abordadas, porque o Brasil não tem povo.

Sexta, 20 Abril 2007 21:00

Tempo de Decadência

Portanto, o século XX, malgrado os sistemas totalitários, comunismo e nazismo, que infelicitaram aqueles que os experimentaram, trouxe em seu bojo grande progresso, sendo que o mundo de modo geral se tornou mais democrático e próspero.

Em termos históricos mais recentes, podemos dizer que o século XIX foi o do pensamento. Nada, é claro, que se compare à Grécia Antiga ou ao Renascimento, mas é inegável que na centúria dos mil e oitocentos surgiram pensadores magistrais nas várias áreas do conhecimento. Floresceram também grandes escritores e pintores e, inclusive a moda revelava requintes em bordados, brocados, rendas, luvas, plumas, chapéus.

O século XX foi o da matéria. Continuou a produção intelectual de excelência, mas em menor quantidade. E o Brasil, como não podia deixar de ser, copiou ou adaptou fatos externos. Naturalmente, de acordo com nosso peculiar contexto que refletia a evolução histórica do país.

Até aproximadamente a primeira metade do século passado, a educação brasileira, com forte influência de religiosos católicos, apresentava boa qualidade. E tanto nas famílias quanto nas escolas, crianças e jovens aprendiam valores que os norteariam pela vida afora. Falar a verdade, ser honesto, cultivar o amor à pátria eram noções que se assimilava através da disciplina, da convivência com os colegas, do respeito para com os professores. A bandeira nacional era hasteada no pátio do colégio, todos os hinos pátrios decorados com gosto e alegria, havia orgulho em desfilar nas comemorações das datas cívicas.

Não faltará quem diga que naquele tempo havia repressão exagerada dos costumes, falsidade, hipocrisia. Entretanto, não se pode negar que as relações eram mais estáveis, que o romantismo enfeitava a vida com nuances de emoção e beleza e que havia mais respeito e compostura entre as pessoas.

Seria essa uma visão elitista? De forma alguma, pois mesmo os humildes se revestiam de dignidade e o tratamento entre classes era cordial, sobretudo nos lares onde os empregados pareciam membros da família. Até os políticos, que sempre fizeram de seu mister mercancia de grosso trato, tinham certo comedimento e não abusavam dos crimes hoje tidos como naturais pela sociedade. Os valores da época inibiam aqueles que necessitavam de votos e a liturgia do cargo era praticada com a devida elegância. Seria inadmissível a alguns anos atrás, que um presidente da República fizesse diante do mandatário de outro país comentários chulos com referência, por exemplo, ao Ponto G, ou que usasse continuamente conversa de botequim ao discursar.

Tudo é processo e o fenômeno da urbanização trouxe, no nosso caso a partir da década de quarenta, a diversificação dos comportamentos, o aumento de grupos sociais, a diminuição da força monopolista da Igreja católica. Houve também o avanço dos meios de transporte e comunicação, o que uniu imensas distâncias e rompeu isolamentos. A mulher se tornou mais livre, passou a estudar, saiu de casa para trabalhar e assumiu, inclusive, profissões antes reservadas aos homens. Progressos sem conta na medicina, na ciência, na tecnologia aconteceram em escala mundial e alcançaram o Brasil. Melhorou o nível de vida mesmo das populações mais pobres e a massa teve acesso a bens de consumo antes restritos às classes altas.

Portanto, o século XX, malgrado os sistemas totalitários, comunismo e nazismo, que infelicitaram aqueles que os experimentaram, trouxe em seu bojo grande progresso, sendo que o mundo de modo geral se tornou mais democrático e próspero.

Entretanto, como tudo que deriva do ser humano contém o bem e o mal, nenhuma civilização que chegou ao apogeu nele se manteve. A decadência sempre foi inevitável devida à ganância, ao uso indevido do progresso, ao abuso da liberdade convertida em liberalidade. E, assim, se repetiram ao longo do tempo ciclos de evolução e involução.

Agora, em meio ao progresso, se atravessa uma época de decadência moral. No Brasil acentua-se o individualismo. Perdeu-se o sentido de pátria, com exceção do ufanismo ridículo relativo ao futebol. Valores antes existentes estão em extinção e anti-heróis são exaltados. Os piores exemplos vêm das autoridades constituídas e as instituições se desagregam. A vida se torna cada vez mais frágil diante da violência e da acentuação da impunidade, enquanto a morte se banaliza. Acabou a liturgia do cargo e impera a vulgaridade. A pressa torna as relações superficiais e insatisfatórias. A TV tomou o lugar da família e da escola, dita comportamentos e estimula anti-valores. A educação atingiu o nível mais baixo e professores apanham de alunos. A mentira e a corrupção dos governantes, largamente praticadas, são aceitas com naturalidade pela sociedade e alguns indivíduos dizem: “se eu estivesse lá faria a mesma coisa. É o que se pode chamar de exaltação ao cinismo.

Mas como tudo está em perpétuo devir, no bojo das transformações outro ciclo está em andamento. No nosso caso, quem sabe que ao cabo de muitas gerações alguma coisa muda. Lembremos, então, do que disse Euclides da Cunha: “estamos fadados à civilização, ou progredimos ou desaparecemos”.

Segunda, 02 Abril 2007 21:00

Avacalhar Para Dominar

Quebrados o comando, a hierarquia, a disciplina, o que terá sobrado do Exército Brasileiro? A sensação é de que também essa instituição foi completamente desmoralizada e venceu a estratégia do PT: avacalhar para dominar.

Certos conceitos devem ser revistos, pois não se adaptam mais aos fatos hodiernos. Por exemplo, a guerra era feita corpo a corpo desde as lutas tribais, passando pela Antigüidade, alcançando a Idade Média e chegando ao início da época moderna, sendo que o conflito costumava a se dar em campos de batalha. Agora a guerra é normalmente levada a cabo em meio às populações civis. Da catapulta chegou-se ao manejo de botões que acionam bombas capazes de devastar grandes áreas e matar numerosas pessoas. E o que dizer dos armamentos atômicos, suficientes para conduzir o mundo ao Armagedon? Devem, pois, ser buscados novos conceitos de guerra e de geopolítica. De todo modo, nenhum exército, desde tempos imemoriais, pode sobreviver sem disciplina e hierarquia, sendo que na hierarquia está implícito o comando e na disciplina a obediência.

Outro aspecto é o que se refere aos paradoxos da democracia. Recorde-se que esse sistema de governo implica na ascensão ao poder através da via eleitoral, porém, por uma dessas perversões tão comuns às invenções humanas, vemos que a própria democracia permite, sem que seja dado um só tiro, que governos autoritários se instalem no poder através do voto popular. Uma vez lá, governam de forma ditatorial simulando agir democraticamente. As armas desses governantes não são canhões nem metralhadoras, mas o populismo, a propaganda, a desmoralização das instituições e dos partidos políticos, a compra fácil de tudo e de todos, o que quer dizer, das consciências. Portanto, as ditaduras modernas se tornam mais persuasivas porque funcionam como simulacros canhestros da democracia.

Na América Latina, de histórico autoritário, vicejam falsas democracias. O desusado modelo cubano de revolução castrista foi substituído pelo esdrúxulo socialismo do século 21 do venezuelano Hugo Chávez. Depois de tentar chegar ao poder através de golpes de Estado, o coronel pára-quedista se elegeu investindo no paternalismo para os pobres, na ambição dos políticos, na ganância de parte da elite econômica. Ele degradou o Legislativo e fez uma Constituição à sua imagem e semelhança. Dominou o Judiciário e fabricou sua própria justiça. Logrou colocar o Exército à sua disposição. Censurou os meios de comunicação e inventou sua mídia particular. Chávez fez seguidores, especialmente na Bolívia e no Peru. Está armado até os dentes e dispõe de grupos paramilitares na América Latina, como as Farc colombianas e o MST brasileiro. Provavelmente quer governar enquanto viver como um Fidel Castro montado no petróleo. Encantado com tal exemplo, o presidente Luiz Inácio disse que “Chávez esbanja democracia”.

No Brasil o PT, partido que durante muitos anos se dizia revolucionário e de esquerda, na quarta eleição alcançou o poder máximo da República através de seu eterno candidato, Luiz Inácio, sem dar um só tiro. E ainda bisou. Luiz Inácio e seu governo compraram grande parte dos congressistas e agora quase completaram o serviço, achincalhando desse modo um dos pilares da democracia. Dominaram o Judiciário através de sua instância mais alta, o STF. Vêm usando e abusando da propaganda e das paternais esmolas oficiais para os mais pobres. Aos ricos deram mais lucros. A nascente TV estatal dirigida pelo ex-guerrilheiro e agora ministro, Franklin Martins, objetiva o amordaçamento e a submissão da mídia, projeto já tentado e fracassado. Quanto as FFAA, o recente motim dos sargentos controladores de vôo mostrou que também estão cooptadas. O sinal mais claro apareceu quando o Comandante da FAB, Juniti Saito, não pediu demissão ao ser humilhado pelo comandante-em-chefe Lula, quando este mandou suspender a ordem de prisão de 18 insurgentes. Note-se que a negociação com os sargentos controladores foi feita pelo ex-sindicalista e atual ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. A FAB abaixou a cabeça e não reclamou.

Quebrados o comando, a hierarquia, a disciplina, o que terá sobrado do Exército Brasileiro? A sensação é de que também essa instituição foi completamente desmoralizada e venceu a estratégia do PT: avacalhar para dominar. O senhor Luiz Inácio pode ficar lá o tempo que quiser. Nada nem ninguém vão impedi-lo. Sua incompetência será sempre louvada. Sua negligência aplaudida. E mesmo que morram mais pessoas em acidentes aéreos ou de infarto nos aeroportos, passageiros em trânsito agredirão as companhias aéreas, porão a culpa dos atrasos dos vôos no cachorro que passeia na pista, mas poucos compreenderão que a responsabilidade última pelas tragédias e transtornos relativos ao espaço aéreo é do presidente da República. E pouquíssimos cobrarão dele essa responsabilidade. Com já disse alguém: “esse país não é sério”.

Sábado, 17 Março 2007 21:00

Collor e o Mito de Fênix

De todo modo, na tarde de 15 de março, quando todos seu algozes reconheceram que foram excessivos em seus julgamentos, Collor pareceu personificar o mito de Fênix ao renascer das cinzas. O PT que se cuide ou volte a abatê-lo em pleno vôo.

Dizem que somos um povo desmemoriado. Pode ser. De minha parte, para que o esquecimento não me faça injusta ou tola, escrevo, porque “a palavra voa, mas a escrita permanece”. E vendo e ouvindo na tarde de 15 de março, o ex-presidente e atual senador Fernando Collor de Mello a discursar em plenário, voltei atrás algumas páginas da história que tive o cuidado de registrar em um dos meus livros, já esgotado: “América Latina – em busca do Paraíso Perdido” (São Paulo, Editora Saraiva, 1995). Creio que vale a pena tentar sintetizar nesse pequeno artigo o que no livro foi bem mais aprofundado.

Em 1989 assistia-se ao final do governo Sarney, onde, conforme expressão do sociólogo Hélio Jaguaribe, era evidente a “canibalização do Estado brasileiro”. Essa situação vinha à tona através da imprensa, que, destacando as performances dos poderes Executivo e Legislativo, colaborava para a formação de uma opinião pública capaz de vincular à classe política, de modo geral, antivalores como desonestidade, irresponsabilidade, corrupção, parasitismo e incompetência. E foi nesse quadro, depois de quase trinta anos sem eleições diretas para presidente, que se processou a campanha para a escolha do mais alto mandatário da Nação.

Entre os excessivos candidatos – excesso permitido por uma legislação pródiga em liberalidades para a formação de partidos – estavam Fernando Collor de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Collor obteve mais votos no primeiro turno. No segundo turno, em dia 17 de dezembro, Lula beijou a cédula na hora de votar, fez declarações de vitória e partiu num helicóptero para longe do nervosismo das apurações. Nas ruas, seus eleitores e adeptos festejaram prematuramente, sacudindo as bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”.

Em breve, porém, se faria o luto petista. Collor obteve 35.089.998 votos (42,75%) e Lula , 31.076.364 (37,86). A vitória ficou com o “caçador de marajás”, aquele que prometera derrubar a inflação com um só tiro. O moço das Alagoas havia encarnado o sonho e a esperança, e a sorte estava lançada na democracia de massas em que se convertera o país.

Ao tomar posse Collor encontrou pela frente um pesadelo chamado Brasil. A inflação, herdada do catastrófico governo Sarney atingira uma taxa anual de 12.874%, com previsões de ascender para 56.000% ao ano. A desmoralizante dívida externa era de US$ 27 bilhões. O serviço público ineficiente deveria consumir entre 60% a 80% da receita disponível. A educação precária apontava para trinta milhões de analfabetos e de cada duas crianças que entravam na escola, uma era reprovada no primeiro ano. A saúde mostrava um Brasil doente, pois de cada mil crianças que nasciam, sessenta e cinco morriam antes de completar um ano de vida. O déficit habitacional já atingia dez milhões de moradias.

Para enfrentar problemas dessa magnitude Collor tomou medidas impopulares. Com isso bateu de frente com a CUT que passou a organizar seguidas greves. Chamou a elite de empresários de arcaica e angariou sua animosidade. Não fez conchavos no Congresso nem comprou seus membros. Enfrentou inúmeros escândalos que atingiram o Executivo e o Legislativo.

O presidente, então, renovou seu ministério, que poderia ter sido o melhor havido no país. Anunciou novas medidas econômicas, precursoras do Plano Real, mas um fato aleatório o fez sucumbir antes de tentar mudar o rumo de sua gestão: a entrevista à Veja, dada por seu irmão Pedro, em maio de 1992. Pedro acusou Paulo César Cavalcanti Farias – tesoureiro da campanha presidencial de Collor – de exercer atividades ilícitas no governo.

Isso interessava a muitos políticos e Luiz Inácio, que desde a derrota tinha acessos de revanchismo, levantou a idéia do impeachment. O julgamento pelo Congresso pela primeira vez foi rápido. Multidões tomadas por delírio cívico e lideradas pelas forças contrárias ao presidente foram às ruas gritar “fora Collor”. Mesmo com a renúncia deste o julgamento prosseguiu no Senado, e o senador Pedro Simon gritou para seus pares: vamos adiante, senão, o que vão pensar de nós”.

Mais tarde o STF inocentou Collor, o que não impediu que ele ficasse fora da vida política como cassado. Muito tempo se passou e hoje a complacência popular com a corrupção, com os mega escândalos políticos, com a incompetência do governo e suas mentiras e falcatruas é total.

De todo modo, na tarde de 15 de março, quando todos seu algozes reconheceram que foram excessivos em seus julgamentos, Collor pareceu personificar o mito de Fênix ao renascer das cinzas. O PT que se cuide ou volte a abatê-lo em pleno vôo.

Sábado, 10 Março 2007 21:00

O Insuportável Brilho dos Estados Unidos

É brilho demais a ofuscar de modo insuportável os latino-americanos que, no fundo, sonham ser os Estados Unidos e não conseguem.

A vinda do presidente Bush ao Brasil, que muitos dizem com razão ser tardia para barrar a influência exercida por Hugo Chávez, suscita algumas reflexões sobre o agudo sentimento antiamericano existente na América Latina que, se sempre existiu, agora está exacerbado. O que motiva isso?

Por volta de 1700, as colônias que compunham os impérios espanhol e português pareciam sinalizar para um futuro rico e pleno de êxito se comparadas com as da América do Norte. Entretanto, fatores culturais ligados ao tipo de colonização e gerados ao longo do processo histórico conferiram destinos diferentes às Américas do Norte e do Sul.

Os Estados Unidos, de país agrícola produtor de matérias-primas trocadas por produtos industrializados, se converteram em potência industrial e na nação mais poderosa do mundo. Ao poderio industrial, financeiro e bélico os norte-americanos adicionaram o primado científico e, a partir de 1923, começaram a conquistar prêmios Nobel de medicina, de física, de química. Os norte-americanos foram os primeiros a fazer a bomba atômica, o reator nuclear, a mandar o homem à lua. Práticos, objetivos, criativos, determinados, eles construíram uma novus ordo seculorum” a partir do espírito liberal que privilegia a democracia e o respeito às leis.

Em sua obra, “A Democracia na América” (1835-1840), observou Aléxis de Tocqueville sobre os Estados Unidos: “Os homens ali se mostram mais iguais pela riqueza e pela inteligência ou, por outras palavras, mais igualmente fortes do que em qualquer outro país do mundo e do que em qualquer outro século relembrado pela história”.

É brilho demais a ofuscar de modo insuportável os latino-americanos que, no fundo, sonham ser os Estados Unidos e não conseguem.

Não precisaríamos ter tido uma história de fracassos, mas a questão foi que tivemos uma “embriogenia defeituosa” e tanto nas colônias espanholas quanto na brasileira surgiram “sociedades invertebradas” sem, como diria Ortega y Gasset, “a potência verdadeiramente substancial que impulsiona e nutre um processo nacional: um projeto sugestivo de vida em comum”. Não tivemos a “comunidade de propósitos” das colônias inglesas, aquele elo que faz com que grupos integrantes “convivam não por estar juntos, mas sim por fazer algo juntos”.

O que prevaleceu na América Latina foram as sociedades desiguais, o isolamento entre as camadas sociais, a falta de “minorias seletas” que comandassem o processo emancipatório, a inexistência do espírito associativo substituído pela vivência no pequeno mundo familiar ou clânico, os governos perdulários, os caudilhos incompetentes. A soma de tais fatores gerou o atraso econômico e, sobretudo, a mentalidade do atraso.

No nosso subdesenvolvimento político e econômico, onde a corrupção é endêmica, padecemos como se vivêssemos exilados em terra própria. Sentimentos contraditórios de altivez e inferioridade nos acometem e na ânsia de nos libertarmos da síndrome do fracasso, cujas raízes se prendem ao passado, preferimos descarregar nossa frustração em possíveis culpados, aqueles que seriam responsáveis pelos problemas que nós próprios criamos. Culpamos de Colombo a Bush por nossas fraquezas e mazelas. Só nos esquecemos de perguntar o que fizemos a nós mesmos.

Jean-François Revel, na introdução à obra de Carlos Rangel, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, afirma que “a história da América Latina prolonga a contradição que lhe deu origem. Oscila entre as falsas revoluções e as ditaduras anárquicas, a corrupção e a miséria, a ineficácia e o nacionalismo exacerbado”. Conclui dizendo que “o êxito insolente dos Estados Unidos” tornou-se um fator adicional de amargura para nós.

Para nos contrapormos aos nossos males devemos nos tornar socialistas. Seríamos revolucionários de esquerda. Mas como disse Roberto Campos, “como pessoa física, somos comunistas, como pessoa jurídica, somos capitalistas”. Não suportamos o liberalismo que nunca tivemos. Não importa se o socialismo em toda parte em que foi implantado acabou com a liberdade, anulou o indivíduo, subjugou através do Estado tirânico. Se antigamente se gritava fora ianque, hoje é a mesma coisa. Ficamos paralisados no tempo como aquelas músicas mexicanas tipo “Cucurucucu Paloooooomaaaaaaaaaaaaa”. Somos incapazes de “virar o disco”.

Na visita de Bush vejo manifestações de nossas garbosas esquerdas agitando bandeiras vermelhas pelo Brasil afora. Não aparecem passeatas ou manifestações contra a corrupção, a violência, os impostos escorchantes, a má qualidade da saúde e da educação, o pífio crescimento econômico.

A realidade, porém, é que não podemos viver sem capitalismo e até a China restituiu ao povo a propriedade privada. Nós, filhos dependentes do pai-Estado, estamos felizes transferindo nosso capital para os políticos profissionais ou para países amigos como, por exemplo, a Bolívia. Yes, nós amamos Chávez e odiamos Bush.

Quarta, 07 Março 2007 21:00

Totalitarismo Tupiniquim

Neste segundo mandato o Congresso sucumbiu de vez. Uns poucos parlamentares de brio não conseguem fazer frente à ofensiva do Executivo desmesuradamente fortalecido.

A ideologia que respaldou o totalitarismo nazista ou nacional-socialismo floresceu nas condições político-econômicas da Alemanha, na década de 20.

Na revolução de 1918, o Partido Social-Democrata foi o grande responsável pela implantação da República na Alemanha e seus primeiros governos representaram um compromisso com partidos de centro, pois havia se afastado das idéias marxistas de ruptura com o sistema político existente, passando a defender ações reformistas de cunho social.

Na crise de 1929 foi a vez do Partido Nazista ter notável crescimento. Além de enorme penetração popular foi encarado pela classe alta como representante de seus interesses econômicos. Aos poucos todos os partidos foram se submetendo à liderança de Hitler.

Em 1933, o Partido Nazista chegou ao poder e se transformou em partido único com a eliminação paulatina, através de leis, dos outros partidos. Ao mesmo tempo, militantes mais à esquerda foram afastados ou mortos. Enquanto isso, Hitler ia se impondo de maneira incontestável, seduzindo a nação pela força de seu carisma aliado à intensa propaganda produzida pelos meios de comunicação de massas e dominando através de eficiente aparelho repressivo. Ele já não era mais o primeiro-ministro, mas o ditador que, em empolgantes discursos acentuava a esperança e prometia ao povo alemão um futuro brilhante numa linguagem que podia ser compreendida até pelas pessoas mais simples.

Possíveis insatisfações e ódios eram canalizados para os judeus, o que desviava a atenção de problemas concretos. Desse modo o Holocausto foi aceito como natural, como purificação da raça superior ariana, com a vantagem de que a eliminação dos judeus abria espaços para a classe média alemã nas atividades do comércio e da indústria.

Muito útil também a utilização de símbolos e conceitos marxistas, devidamente adaptados à ideologia nazista. Assim, o proletariado tornou-se proletariado racial e a luta de classes deslocou-se para a guerra proletária contra os Estados capitalistas. Não se falava mais na utopia da sociedade sem classes, mas numa futura comunidade do povo alemão que dominaria o mundo. Todas essas idéias permeavam a totalidade da vida dos alemães e norteavam seu comportamento.

Aos poucos o Estado totalitário foi substituindo o “Estado burguês”. O processo incluiu certas providências como a extinção do Poder Legislativo através do cerceamento de suas prerrogativas. No Poder Judiciário julgava-se de acordo não com a lei, mas com a vontade de Hitler. Conseqüentemente se deu o desmesurado fortalecimento do Executivo que assumiu o poder de legislar através do ditador e dos seus auxiliares diretos. Simultaneamente foi implementado o controle completo da burocracia estatal ou aparelhamento do Estado.

Claro que isso não se repetirá jamais de forma idêntica. Foi tudo levado a cabo em certas circunstâncias de um dado país, numa determinada época e sob o influxo de uma sui-generi personalidade carismática. Mas as sementes que floresceram no nacional-socialismo não seriam passíveis de novas floradas trágicas com outros nomes, em outras épocas, em outras sociedades? Será que o nacional-socialismo (nazismo) morreu ou está de volta na América Latina através de uma versão adaptada, adulterada, inferiorizada, longe anos-luz da envergadura carismática e maligna de um Hitler, mas igualmente nociva?

No Brasil o PSDB se rotula de social-democráta e, enquanto FHC governou aproximando-se dos partidos do centro o PT se fortaleceu, obteve penetração popular e chegou à presidência da República. Note-se que o PT sempre se apresentou como partido superior, o único ético, e seus membros até hoje parecem se sentir acima dos mortais e das leis, e fadados a conduzir o povo para um nebuloso "outro mundo possível".

No poder, finalmente, depois de quatro campanhas presidenciais, Luiz Inácio utilizou fartíssima propaganda respaldada pelos meios de comunicação de massas. Sua linguagem atinge o homem comum e as metáforas futebolísticas não são mera coincidência. Ele contempla tanto os pobres com as bolsa esmola quanto os ricos com lucros fabulosos. Promete ao povo um futuro brilhante, um espetáculo do crescimento. Já os ódios e ressentimentos são canalizados para os norte-americanos. Eles são culpados pelos nossos erros, mazelas, fracassos. No primeiro mandato, Luiz Inácio, através de seu auxiliar direto, José Dirceu, dominou o Congresso e o STF que passaram a fazer sua vontade, pelo menos através da conveniência e da obediência de muitos de seus membros. Quanto a burocracia estatal foi aparelhada.

Neste segundo mandato o Congresso sucumbiu de vez. Uns poucos parlamentares de brio não conseguem fazer frente à ofensiva do Executivo desmesuradamente fortalecido. Foi dito que o presidente da República se reunirá uma vez por semana com os presidentes da Câmara e do Senado, certamente para passar suas ordens. Se já não se podia falar em partidos políticos, esses amontoados de ambições que mais se parecem com clubes de interesses, agora se pode dizer que tais agremiações esvanesceram. Não existem oposições. As instituições navegam nas águas do poder que emana da corte centrada no Palácio do Planalto. Especula-se despudoradamente sobre um terceiro mandato para Luiz Inácio e a mudança do sistema presidencialista para o parlamentarista poderia servir a esse propósito, se não se usar a democracia de massas dos plebiscitos manipulados. Enquanto isso, sob as bençãos dos Poderes constituídos e demais instituições, o MST e a CUT se unem em selvagem violência no meio rural, não apresentada pelos meios de comunicação. A violência urbana é defendida nas hierarquias governamentais mais altas. Todo poder aos bandidos, parecem dizer as autoridades. Onde será que elas querem chegar? Promete-se mais crescimento econômico e o IBGE muda a metodologia de aferição de dados para que possamos ser bem mais do que o Haiti.

É claro que a figura de Hugo Chávez com seus ímpetos expansionistas, se presta muito mais à lembrança de um Hitler tupiniquim. Mas no Brasil não estamos muito longe de certas essências do poder que, em alguns aspectos, relembram pelo menos certos traços de uma das mais abonináveis formas de domínio que já existiu: o totalitarismo nazista. Devidamente afrouxado e ao nosso estilo dúbio, é claro, mas totalitarismo.

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