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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Segunda, 30 Julho 2007 21:00

Lula, Quem Diria, Ficou Com Medo

Entretanto, Lula da Silva, que já bateu recordes em viagens nacionais e internacionais, pode dizer sem susto que avião é o meio de transporte mais seguro que existe.

O presidente da República disse na posse do novo ministro da Defesa, Nelson Jobim, que tem medo de viajar de avião. Algo muito humano, cuidadosamente escolhido para provocar empatia com os milhões de brasileiros que mais uma vez o assistiram pela TV. Afinal, quem não tem seus receios em alçar-se aos céus? Entretanto, Lula da Silva, que já bateu recordes em viagens nacionais e internacionais, pode dizer sem susto que avião é o meio de transporte mais seguro que existe. Não só pelo luxo do aparelho apelidado de Aerolula, que vive a transportá-lo e as suas comitivas, mas pelos cuidados especiais que, naturalmente, são dispensados às viagens de um presidente da República.

Contudo, Lula está com medo de muito mais. Pela primeira vez percebeu que o altar do culto da personalidade, que para ele foi construído, pode estar desmoronando. Acostumado aos auditórios compostos por convidados especiais que sempre o aplaudem ou riem do seu besteirol, aos comícios encomendados onde exercita sua ferve, mistura de repentista com animador de auditório, o presidente ficou extremamente chocado com as vaias recebidas no Maracanã. O horror foi tamanho que preferiu se esconder. Afinal, a festa de abertura do Pan deveria ser o palco iluminado a lhe conferir intenso brilho pontuado por aplausos estrondosos. No entanto, ficou ele pateticamente, ridiculamente, de microfone na mão. Foi calado pela sexta repetição das vaias de 90 mil gargantas.

Como a memória do povo é curta, certamente os propagandistas do presidente entenderam que bastaria armar alguns palcos artificiais para que o constrangimento fosse esquecido. A mídia se calara sobre o colapso aéreo, enfatizando apenas boas notícias. Mas eis que acontece outro acidente, pior do que o de setembro do ano passado do ponto de vista do número de mortos.

Com relação a primeira tragédia, muitos petistas chegaram a atribuir as manifestações que se avolumavam nos aeroportos por passageiros desesperados diante de vôos cancelados ou atrasados, aos chiliques da “elite branca”. Um evidente atestado de que os adeptos e defensores de Lula da Silva não sabem que o significado de elite é produto de qualidade. Em todo caso, os marqueteiros reais estavam tranqüilos por considerar que a maioria que viaja de avião pertence à classe média. Como os pobres estão felizes com as bolsas-esmola e os ricos com os grandes lucros auferidos sob o governo de LILS, deduziu-se que as aflições dos “pequenos burgueses” não contavam. Estes servem para sustentar o luxo da “corte” com seus impostos e continuar a votar em Lula da Silva.

Entretanto, o segundo acidente impressionou os brasileiros de todos os recantos desse imenso país. Mostrado amplamente na televisão abalou não só as famílias das vítimas, mas até os que não são usuários do transporte aéreo. Surgiu também, pela primeira vez, a percepção de que o governo e sua figura maior, o presidente da República, tinham algo a ver com aquilo.

Então, mais Lula temeu e se escondeu. Somente três dias após a tragédia o presidente surgiu em cadeia de rádio e televisão para representar um ato em que tentou passar emoção, mas que falhou na conquista do público.

Antes o desgaste governamental ficara por conta da ministra do Turismo e ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que como uma Maria Antonieta dos trópicos que mandasse dar brioche ao povo, aconselhou aos sofridos passageiros que se acumulavam nos aeroportos que relaxassem o gozassem. Após o acinte e em pleno clima de luto brasileiro assistiu-se aos gestos obscenos de Marco Aurélio Garcia, o chanceler de fato e vice-presidente o PT, e de seu assessor, a provar que o senhor Garcia está interessado apenas na continuidade do poder. Ele sabe que para isso deve preservar a imagem do chefe, garantia de privilégios e imunidades para todos os companheiros. Em que pese o apoio do seu partido, a demonstrar o modo de ser petista, o escárnio e a estupidez do assessor do presidente soou como mais uma bofetada no rosto dos brasileiros.

Como se não bastassem todas essas ofensas e condutas impróprias a detentores de cargos importantes, o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, condecorou alguns companheiros da Anac, cujo descaso, despreparo e irresponsabilidade relativos ao colapso aéreo são visíveis.

Diante de todas as afrontas de seus auxiliares diretos o presidente, em vez de demiti-los, se escondeu. Ficou com medo de ir ao Sul e ao Sudeste e como um neo-coronel preferiu montar seu auditórios de ficção no nordeste. Não escapou, porém de vaias em Aracaju.

Lula trocou finalmente o ministro da Defesa. Pretende se escorar em Nelson Jobim, o ex-presidente do STF que julgava politicamente e não de acordo com a lei. Na posse do ministro Lula riu, fez os costumeiros gracejos à moda do Faustão, mas, quem diria, está com medo. Nem Regina Duarte poderia imaginar isso.

Sexta, 20 Julho 2007 21:00

Irresponsabilidade Assassina

Curva-se de dor o Brasil nesse momento. Até quando se curvará a pátria diante dos desmandos que ora presenciamos? Até quando os brasileiros serão enganados, intoxicados com a propaganda petista?

Mais uma vez o luto e a dor se abatem sobre o País. Em setembro do ano passado foram 154 mortos no que se chamou de pior desastre da aviação brasileira. Nenhuma providência foi tomada pelas autoridades para resolver o caos aéreo. Apenas promessas vagas. Simulações de ordens partindo do presidente da República. Eleição de culpados como pilotos norte-americanos ou cachorro na pista. Bilhões gastos no PAN. Nenhum recurso para renovação dos aparelhos de controle aéreo. Nenhum treinamento para novos controladores de vôo. Obras suspeitas de superfaturamento em Congonhas.

Agora o pior acidente foi superado. Já se fala em quase 200 mortos, incluindo as pessoas que estavam no prédio da TAM. Mais uma vez emerge claramente a incompetência assassina, a indiferença brutal, a covardia das esquivas, o cinismo das explicações que não explicam. Tudo isso não vem do botequim da esquina, mas das autoridades constituídas que incluem, naturalmente, o presidente da República.

Onde está o sempre confuso e inoperante ministro da Defesa? Onde está o comandante da Aeronáutica para dar explicações adequadas à Nação? Onde estão os responsáveis pela Infraero e pela Anac? Onde está o presidente da República, que tão afeito a luzes e câmaras, a constantes aparições televisivas desta vez não entrou em cadeia de rádio e televisão para consolar as famílias enlutadas? Ou avião é coisa de rico e ele só se dirige aos pobres, aos grotões que digerem facilmente seu gesticular furioso e alucinado, que se empolgam com seus esgares e com seu palavreado chulo próprio dos demagogos que, sedutores de massas entusiasmam os mais carentes? As autoridades (in)competentes estão mergulhados em silêncio ensurdecedor.

Será que o presidente Lula da Silva não aparece por estar de ressaca cívica depois das vaias recebidas no Maracanã de 90 mil gargantas? Pode ser, pois, em que pesem as teorias delirantes e sem nexo dos seus áulicos, dos ptbulls hidrófobos que tentam explicar o monumental apupo, LILS sabe que por uns momentos, os mais constrangedores pelos quais já passou, ficou nu como o rei da história. O gigantesco palanque constituído para sua apoteose triunfal no PAN falhou miseravelmente. Simplesmente porque não houve controle oficial. Aquilo foi diferente dos auditórios fechados, das platéias selecionadas, das claques que o aplaudem em comícios encomendados e em inaugurações planejadas. E ele deve saber que a perniciosa e venenosa tese da “elite branca” especialmente postada no Maracanã para vaiá-lo, não passa de um blefe ideologicamente imbecil dos companheiros.

Por tudo isso, quem sabe, Sua Excelência está sem ânimo para se dirigir aos brasileiros nesse momento de tanta dor. Prefere convocar uma reunião no Palácio e chamar alguns de seus auxiliares. Eles discutem como poderão tirar partido da desgraça para exaltar ainda mais a figura luminosa do salvador da pátria. Decreta-se luto oficial. Aposta-se no esquecimento rápido de mais essa tragédia. Pede-se tempo para averiguar os fatos. Elabora-se algumas teorias idiotas para justificar o acidente, e pronto. E só aguardar a próxima queda de avião, porque a continuar a incompetência assassina governamental o horror irá fatalmente se repetir.

Pena que agora não tem pilotos americanos para levarem a culpa. Mas não é difícil incriminar o piloto que não conseguiu frear o avião. Alguém tem que ser culpado. Menos a Aeronáutica, a Infraero, a Anac, o tartamudeante ministro da Defesa e, principalmente, o presidente da República. Este, além de ser infalível como o Papa, de nada sabe, nada vê, por nada é responsável. Se fosse outro o presidente o que fariam os petistas? No mínimo pediriam o impeachment. Lula, porém, é intocável.

Mas quantos ainda morrerão assassinados oficialmente pela incompetência das autoridades? Não se sabe. Melhor recorrer às estradas. Mas com muito cuidado porque estão em péssimo estado. Como tudo nesse governo, a operação tapa-buraco na última campanha presidencial foi uma farsa. Mais uma como o fracassado Programa Fome Zero ou seu substituto Bolsa Família que tem problemas de fraudes em 90% das cidades recentemente auditadas. Sem falar nas inexistentes PPPs e outras propagandas enganosas.

Nas estradas ainda há chance de sobreviver. Nos aviões é quase impossível. Ainda que os pilotos sejam de uma habilidade e de uma competência incríveis para poder contornar todos os perigos oriundos do controle aéreo, das pistas molhadas, etc. Eis a condição dos meios de transporte num país com as dimensões do Brasil. E o presidente da República ainda tem o desplante de dizer que nunca estivemos tão bem desde a Proclamação da República.

Curva-se de dor o Brasil nesse momento. Até quando se curvará a pátria diante dos desmandos que ora presenciamos? Até quando os brasileiros serão enganados, intoxicados com a propaganda petista? O que somos, um rebanho imbecilizado ou um povo capaz de cobrar de seus governantes o cumprimento dos deveres para os quais os elegemos? Quantos ainda morrerão em desastres aéreos para que o Brasil possa acordar dessa letargia idiotizante?

Quinta, 19 Julho 2007 21:00

A Exaltação da Vulgaridade

No Brasil do PT os pobres estão felizes com as bolsas-esmola. Os ricos estão eufóricos com os lucros nunca antes auferidos nesse país.

Estamos perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a consciência moral... A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida... A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia”.

Estas afirmações pertencem a Eça de Queiroz (1845-1900), mas podem se aplicar perfeitamente ao Brasil de hoje. Nunca antes na história desse país fomos tão vulgares. Enraizou-se entre nós a prática do “politicamente correto”, algo que objetivou combater certos preconceitos, mas nos faz aceitar passivamente a mediocridade, acirra ódios raciais, exalta a ignorância.

Vamos além: vivemos a cultura do cinismo e da farsa governamentais. Somos capazes de nos comprazer com o engodo que criamos através do voto. Aceitamos tudo que nos enfiam consciência abaixo com a crença ingênua das crianças em Papai Noel, substituído por Papai Lula.

Sobre o atual presidente da República, ardilosamente teceu-se a proteção que o torna um cidadão acima de qualquer suspeita. Ele de nada sabe, nada vê, de nada se responsabiliza como se a corrupção que grassa de forma avassaladora entre seus compadres, companheiros, aliados antes execrados e agora fiéis escudeiros, lhe fosse desconhecida. Explora-se sua origem humilde e é crime de lesa majestade taxá-lo de despreparado para o cargo. Na verdade, origem humilde, pobreza, agruras vividas nada têm a ver com o caráter de uma pessoa. Alguém que não nasceu em berço de ouro pode se tornar um safado ou um homem de caráter. Pode se manter ignorante ou se transformar numa pessoa culta. No caso do ex-retirante e ex-operário é impressionante como suas piadas grosseiras, seus constantes atropelamentos do idioma, seus rompantes de porta de fábrica, sua costumeira e delirante autolouvação são interpretados como rasgos geniais de comunicador de massas, como selo de autenticidade popular. O que jamais seria perdoado em outros presidentes da República nele provoca risos satisfeitos, aplausos entusiásticos porque um dia ele foi pobre.

Assim como se costuma estigmatizar a pobreza como a única classe que comete crimes, o que está longe da verdade, no caso de Lula da Silva inverte-se os sinais e sua ignorância é tomada como sabedoria da pobreza.

Vai-se mais longe: aprendeu-se com o PT a dividir o mundo político de forma maniqueísta: Fernando Henrique é o mal. Lula da Silva é o bem. FHC é sociólogo, homem culto, poliglota, logo não presta. Lula da Silva é o redentor das massas desvalidas, o puro, o semi-analfabeto que ilustra um ideal de vida bem brasileiro: progredir na vida sem fazer força.

A propaganda massacrante não deixa perceber que, curiosamente, um é extensão do outro na medida em que Lula copia, através de sua equipe de governo, não só a política econômica quanto a social do ex-presidente. No mais, não se pode negar que FHC fez de Lula seu sucessor, impediu seu impeachment e o tucanato de alta plumagem vive imbricado com o PT das mais altas rodas.

Nas atuais cenas de desmoralização do Congresso, onde o cinismo se mistura com a ganância desmedida pelo poder, para não dizer pura canalhice, o presidente da República, através de sua tropa de choque petista congressual capitaneada pela estridente Ideli Salvati, se coloca como defensor do indefensável Renan Calheiros. E este, atracado à cadeira da presidência do Congresso, dá um show de mau-caratismo. A impressão que se tem é a de que se quer desmoralizar de vez a instituição. O naufrágio do Congresso é a consagração do Executivo que, tendo dominado em grande parte o Judiciário prossegue nos caminhos da ditadura petista disfarçada a ser coroada com a TV estatal dirigida por Franklin Martins.

Tem-se visto muitas prisões, mas quem ficou preso? Onde estão Waldomiro Diniz, Marcos Valério, José Dirceu, Silvinho Land Rover e tantos outros? Pelo que consta de notícias estes vão muito bem obrigada. Companheiro que é companheiro não cai, se cai desafia a lei da gravidade e cai para cima. Que o digam Palocci, João Paulo Cunha, José Genoino, eleitos deputados federais. Rejubilem-se com o Brasil da impunidade todos os mensaleiros da “base aliada”, todos os companheiros empreiteiros (Zuleido, onde está?). Pipocam os escândalos, as evidências, as gravações, os documentos, as operações policiais e todos se salvam, mesmos sendo lambaris. Manda no Brasil a Venezuela, manda seu preposto Evo Morales e vêm mais hermanos em nosso encalço. Afinal, somos imperialistas e o petróleo agora e deles, coitados.

No Brasil do PT os pobres estão felizes com as bolsas-esmola. Os ricos estão eufóricos com os lucros nunca antes auferidos nesse país. “A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia”. Se “estamos perdidos há muito tempo”, agora ingressamos na era da exaltação da vulgaridade. “O país perdeu a inteligência e a consciência moral”.

Segunda, 02 Julho 2007 21:00

Brasil Falseado

Foi persuadindo que a propaganda fez o brasileiro acreditar na excelência do “Fome Zero”, programa para o qual foram carreadas vultosas doações, apesar do mesmo não ter funcionado.

Em todos os tempos e em todas as sociedades existiram e existem controles utilizados pelo poder político, através dos quais os governantes se legitimam e obtêm a obediência de sua sociedade. Basicamente são eles: a violência, a coerção, a indução, a persuasão e a manipulação.

Em um curto artigo não dá para detalhar cada um desses controles e deixando por enquanto de lado a violência e a coerção, prefiro sintetizar conceitualmente a indução, a persuasão e a manipulação que em nosso país reforçam na atualidade o Poder Executivo de forma considerável. Afinal, foi induzindo, persuadindo e manipulando que o PT, na quarta tentativa, chegou à presidência da República através do seu candidato símbolo, Lula da Silva, e ainda conseguiu reelegê-lo. Também são esses controles que ajudam ao presidente manter-se num patamar elevado de aceitação popular, malgrado os escândalos que explodiram entre seus companheiros e compadres mais chegados, além de familiares. Tão-pouco importa se ele tenha deixado de cumprir promessas e virado pelo avesso seus discursos ideológicos, porque importante é o mito, e não a verdade. E o mito é mantido pela indução, pela persuasão e, sobretudo, pela manipulação.

Naturalmente outros fatores ajudam Lula-lá: o apoio não só dos pobres agraciados com as bolsas-família, mas da elite econômica; o enfraquecimento dos Poderes Legislativo e Judiciário cooptados pelo Executivo; a adesão de instituições e grupos de interesse (Exército, centrais sindicais, UNE, etc.,); o cenário econômico internacional favorável; o bom funcionamento até agora do Plano Real que mantém a estabilidade econômica; a falta de oposições, especialmente, a partidária; a desinformação do brasileiro com relação à política. Mas mesmo esses fatores são reforçados pelos controles que fazem submergir realidades pouco agradáveis para fazer vir á tona apenas o Brasil falseado.

A bem da clareza pode-se dizer de forma resumida que a indução, no sentido político que desejo dar, é o controle que se faz através de promessas ou a efetivação de promessas, premiações ou recompensas. Isto pode ser observado nos palanques eleitorais quando candidatos procedem como prestidigitadores de ilusões. Prometem tanto, que se postas em prática tais promessas teríamos o paraíso à nossa disposição. Por isso costumam ganhar os mais cativantes e não os mais competentes ou éticos.

Através da persuasão o governante faz com que se acredite ou aceite alguma coisa. Para tanto usa argumentação e explicação. Foi persuadindo que a propaganda fez o brasileiro acreditar na excelência do “Fome Zero”, programa para o qual foram carreadas vultosas doações, apesar do mesmo não ter funcionado.

Quanto à manipulação é o mais insidioso e sutil dos controles, capaz de conferir imensa força aos governantes. Isso porquê, se obtém prestígio ou anuência sem que o indivíduo, grupos sociais ou quase toda sociedade percebam o engodo ou possam distinguir entre o falso e o verdadeiro.

A manipulação é feita através da propaganda oficial que utiliza largamente a mídia, notadamente a televisão na medida em que vivemos numa sociedade de massas. Note-se que nesse tipo de sociedade o número de pessoas que emitem opinião é muito menor do que o número das que recebem opiniões prontas.

A propaganda petista usando a indução a persuasão e a manipulação foi extremamente vitoriosa na elaboração de alguns mitos relativos ao personagem do presidente da República, construindo assim uma imagem ideal: Lula é apenas um pobre operário, sem nenhuma responsabilidade do que ocorre em seu governo e falar contra ele é preconceito imperdoável. Esse pobre operário igual ao seu povo é o salvador dos pobres e oprimidos. O presidente é um cidadão acima de qualquer suspeita.

Nenhuma palavra sobre lucros astronômicos de banqueiros, impostos escorchantes, corrupção em níveis jamais vistos nos Poderes Constituídos, escândalos que atingem muito de perto o personagem que de nada sabe, nada vê. Ele é a vítima que se imola no altar da pátria pelo seu povo humilde.

No centro do poder e dos meios de comunicação Lula não cansa de discursar. Tudo está perfeito. Ninguém morre em hospitais por falta de atendimento ou estrutura na área da Saúde. O Brasil ingressou na era do pleno emprego. Nunca tantos foram à escola e à Universidade, o que mostra ao mundo a excelência da educação brasileira, apesar dos alunos, em sua esmagadora maioria, não saberem interpretar ou redigir um texto. A violência foi contida e o Rio de Janeiro vive em paz. O MST é apenas um movimento social e Stédile não espera que a economia desande para seguir rumo ao nosso socialismo do século 21. O apagão aéreo está superado e todos podem viajar sem medo.

Desse modo, um Brasil falseado legitima o governante, enquanto é ocultada uma realidade nada bonita de se ver. Mas quem acredita nessas nossas inconvenientes e desagradáveis profundezas?

Quinta, 28 Junho 2007 21:00

A Quem Interessa

Com relação a mais esse escândalo, entre os muitos que vêm sacudindo o Congresso, também não pode faltar a pergunta sempre associada aos jogos do poder: a quem interessa o fato?

Uma sociedade de ovelhas costuma dar lugar a um Estado de lobos”.  (José Manuel Moreira)



Há algo de pífio, de circense e ao mesmo tempo de trágico no Brasil contemporâneo, sendo exemplo mais recente de degradação moral o escândalo que envolve o presidente do Senado, Renan Calheiros.

As deslavadas desculpas, as acintosas mentiras do senador alagoano que transparecem sob o fogo acirrado de provas, fotos, reportagens, gravações fazem lembrar que, de fato, “esse país não é sério”. Por muito menos autoridades de outras nações já teriam se matado ou sido presas ou, pelo menos, renunciado. Afinal, emitir notas falsas, burlar o fisco, usar empresas de fachada para justificar o injustificável, é caso de polícia. Pouco interessa a vida privada do senador, mas dizer que precisou, em nome da discrição, do lobista de uma grande empreiteira para entregar dinheiro à jornalista com quem tem uma filha, é tratar o povo como retardado mental.

Para piorar a imagem do Congresso os pares de Calheiros o tratam como vítima e tentam mantê-lo num dos cargos mais altos da República. Por causa do “mensalinho”, Severino Cavalcanti, o folclórico ex-presidente do Senado, renunciou para não ser cassado, e se Renan Calheiros não pode mais renunciar porque seu caso já está no Conselho de Ética (ou de falta de ética), compete aos membros de tal órgão vergarem-se às provas e evidências e fazerem o que devem: pedir sua cassação utilizando-se do eufemismo semântico falta de decoro parlamentar. Preferem, porém, através de manobras, protelar qualquer decisão na esperança de que um novo escândalo faça esquecer o “homem de honra” que ora preside o Congresso Nacional. Tal atitude dos senadores, entre os quais não existe oposição, leva o homem comum a questionar: para que serve o Senado? A resposta deve ser dada pelos senadores, que no momento parecem estar paralisados por medo solidário.

Com relação a mais esse escândalo, entre os muitos que vêm sacudindo o Congresso, também não pode faltar a pergunta sempre associada aos jogos do poder: a quem interessa o fato? Destaca-se aqui o Poder Executivo que tem tudo a ganhar e nada a perder com a desmoralização das instituições, na medida que assim se fortalece de modo autoritário.

Note-se que de quase cinco anos para cá, mensaleiros e sanguessugas reduziram “pianistas” e “anões” à dimensão de trombadinhas. Sempre presente a interferência do Executivo, desde o primeiro escândalo onde se notabilizou o já esquecido Waldomiro Diniz, companheiro de muitos anos e homem de confiança do “primeiro-ministro” José Dirceu. Desse modo, daqui a pouco o povo pode indagar: para que serve o Congresso?

Mas se no Legislativo se desenrola novela mexicana feita de capítulos sórdidos, na vida real o caos prossegue nos aeroportos onde o povo não consegue nem relaxar e muito menos gozar, como recomendou a ministra Marta, do turismo, em turismo no momento pelas festas juninas do nordeste.

Em performance anterior o presidente da República, sempre olimpicamente inatingível, ordenou aos passageiros que se queixassem às companhias aéreas. Quando novamente a crise se acentuou, mandou seu ministro do Planejamento negociar com os controladores e prometer-lhes mundos e fundos. Os controladores acreditaram. Quem não acredita em Lula da Silva? Nesse ato, o comandante-em-chefe quebrou a hierarquia militar, sem a qual as FFAA não funcionam. Depois voltou atrás e nada foi feito para readequar salários nem melhorar equipamentos. Mas o presidente do governo petista teve verba para criar mais de seiscentos cargos de confiança para felizes companheiros, que por sua vez darão seus generosos dízimos ao partido, que se tornará cada vez mais rico. Eis aí o que se chama círculo virtuoso da prosperidade com dinheiro público.

No momento um novo apagão aéreo se aproxima do caos completo. Quem vai se lembrar de Vavá, irmão-lambarí que já se safou, ou dos senadores e seus folhetins de quinta categoria? Quanto ao generoso presidente Lula da Silva, entregou de vez os controladores aos seus superiores hierárquicos que já prenderam o líder do movimento. Em quase cinco anos ninguém do governo, num gritante atestado de incompetência, se preocupou em preparar novos controladores. Será que prisões resolvem a grave questão? Se houver um novo acidente aéreo o povo vai se queixar às companhias aéreas ou relaxar e gozar? Talvez, num relance de clarividência, culpe a Infraero, a Aeronáutica, mas jamais o presidente que de nada sabe, nada vê porque ele viaja de Aerolula.

Assim se fortalece mais uma vez o Executivo e seu chefe supremo, que, alías, confirmou que o Exército não passa de um bando de sem-pólvora quando Lamarca foi promovido, post mortem, a general.

Segue o Executivo cada vez mais forte e triunfante, simbolizado na figura presidencial, e daqui a pouco o povo pode perguntar: para que serve o Exercito? E o Judiciário? E os partidos políticos? Restará apenas Lula. Como o Papa ele não erra. Isto é dogma de fé.

Segunda, 18 Junho 2007 21:00

Barões e Ladrões

É verdade que a corrupção é nossa antiga companheira. Faz parte de nosso tecido social desde os primórdios coloniais.

O presidente da República, sua cúpula governamental, os integrantes da mais alta hierarquia de seu partido, o PT, têm sempre um álibi quando a corrupção vem à tona envolvendo compadres e companheiros mais chegados: “Isto sempre existiu no Brasil”. E, esquecidos da promessa de que viriam para acabar com a devassidão pública por serem o único partido ético, justificam seus delitos invocando os do governo anterior, sejam eles falcatruas inventadas ou reais. No poder, finalmente, o PT conclui que, se todo mundo faz não tem importância fazer também, e que a hora é de aproveitar e ir à forra. Assim, a classe dominante foi ao paraíso, inclusive, aos paraísos fiscais, como ilustrou Duda Mendonça em pleno Congresso Nacional ao depor numa daquelas CPIs, as famosas Comissões que fazem muito barulho por nada.

É verdade que a corrupção é nossa antiga companheira. Faz parte de nosso tecido social desde os primórdios coloniais. E, conforme escrevi em um dos meus livros, América Latina – Em Busca do Paraíso Perdido, referindo-me à vinda da corte para cá, “em 1808, instalaram-se de uma vez por todas nestas plagas as características do Estado português, que em terra nova não perderia sua tradicional essência patrimonialista. Segundo Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder: ‘Os reis portugueses governavam o reino como a própria casa, não distinguindo o tesouro pessoal do patrimônio público’. Era também um Estado corrupto na medida em que para tudo se dependia dele, do seu excessivo quadro de funcionários, da morosidade típica da burocracia, correndo soltas as propinas para aligeirar licenças, fornecimentos, processos, despachos, etc. Em toda parte das entranhas do desajeitado e ineficiente Leviatã conduzido por D. João VI, traficava-se influência, negociava-se a coisa pública em proveito próprio”.

Em artigo no Caderno Mais, da Folha de São Paulo, de 03/06/2007, a historiadora Isabel Lustosa mostra exemplo de grande corrupto na pessoa de Francisco Bento Maria Targini, visconde de São Lourenço, Tesoureiro-mor de D.João VI. A Targini foi dedicada a significativa quadrinha: “Quem furta pouco é ladrão/quem furta muito é barão/quem mais furta e mais esconde/passa de barão a visconde”. Isabel se refere também aos “pequenos corruptos, incultos e quase analfabetos, como o barbeiro Plácido”.

Do Império até os dias de hoje, “barões” e ladrões continuam a praticar a corrupção favorecidos pela impunidade, pelo Estado patrimonialista e excessivamente burocratizado, pela ausência de cultura cívica, pela plasticidade moral do brasileiro.

Entretanto, como gosta de dizer o presidente da República, “nunca, antes, nesse país”, se viu uma profusão tal de Targinis, de “barões”, de ladrões que se espalham por todos os Poderes Constituídos, que se esparramam pelas instituições, que usufruem da intimidade do “rei”. Quando se pensa que chegamos ao fundo, que neste governo começou a ser cavado por Waldomiro Diniz, os escândalos se multiplicam, assim como as inúteis CPIs e as espetaculares operações da Polícia Federal que expõem a podridão moral da coisa pública. Os casos escabrosos são tantos e tantos os personagens neles envolvidos, que a opinião pública vai sendo anestesiada e, numa inversão de valores, passa a conceber o que era errado como certo. Na esteira dos acontecimentos sobrepõe-se de tal modo os Targini, que vai se apagando da memória coletiva até as mais recentes personagens envolvidas na rapinagem. Diante da operação Xeque Mate, que comprometeu irmãos do presidente da República, vão caindo no esquecimento as “façanhas” de companheiros e compadres presidenciais como José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken, Delúbio Soares, José Genoino, Paulo Okamoto, Osvaldo Bargas. Jorge Lorenzetti, Freud Godoy e tantos outros. Até Zuleido e Renan Calheiros vão escapando pela fresta da amnésia popular. Aos brasileiros mais conscientes e atilados fica a impressão de que o governo ora em curso é uma mistura de máfia, circo e bordel.

É verdade que desde que o ex-deputado Roberto Jefferson tocou sua “trombeta de Jericó”, derrubando até o todo-poderoso José Dirceu, nunca, antes, nesse país tinham vindo à tona tantos “barões”. Mas, proporcionalmente, nunca houve tanta impunidade, pois os Targini continuam livres, leves e soltos. São muitas ações e poucas condenações. Muitas CPIs e raríssimas cassações de mandatos.

Em meio à sordidez reinante, sobrepõe-se emblematicamente, como o barbeiro redivivo do Império, o irmão dileto do presidente da República, Genival Inácio da Silva, vulgo Vavá, a quem Roberto Jefferson certamente chamaria de “petequeiro”, pois o bondoso mano oferece malandramente por pequenas quantias, até aos compadres do submundo do crime, seus serviços que não são entregues. Seria ele também ‘a cara do povo”? Pode ser. Afinal, não é o próprio povo que escolhe malandros, trambiqueiros e mafiosos para representá-lo? Portanto, não há do que se queixar. Nem mesmo do prejuízo anual de R$ 40 bi que a corrupção causa ao país.

Sexta, 01 Junho 2007 21:00

Geração Perdida

Se a corrupção impede o progresso do país e lesa o povo, outro grande malefício desse governo é ser responsável pela perda de pelo menos uma geração em termos de valores.

Fala-se muito no Brasil em educação como salvação nacional. É certo que o conhecimento, adquirido através da educação, compõe um dos pilares do desenvolvimento juntamente com os poderes econômico, político e bélico de cada país. Entretanto, não basta um diploma, pois é necessário que esse instrumento habilite para vida. Não são suficientes testes, onde um x colocado aleatoriamente é muitas vezes simulacro de aprendizado. É danoso para o próprio aluno passar para série mais adiantada sem estar preparado. É totalmente errado não se incentivar a leitura. É certo transmitir conhecimento através da repetição do que já foi adquirido intelectualmente pelo homem, mas se não houver criação e recriação do saber, continuaremos atrasados em relação aos países do Primeiro Mundo. Não basta copiar, é necessário raciocinar.

Educação é também algo mais complexo do que aquilo que se adquire na escola. Começa na família. Significa o aprendizado de valores. No grupo familiar o indivíduo inicia sua distinção entre certo e errado, e a escola deve dar seguimento à “socialização” que os pais transmitiram ou devem transmitir.

Mais tarde o jovem interagirá de forma mais expandida com a sociedade. Freqüentará amigos, encontrará novos grupos no trabalho, na igreja, no seu entorno de modo geral. A influência social será constante sobre sua mente ávida de exemplos a seguir, sua necessidade de caminhos a descortinar. Presa fácil das influências, ele não será imune ao que seus sentidos e percepções alcançarem. A TV, a propaganda, os modismos, as drogas, a violência, a falta de oportunidade de trabalho, o desrespeito à vida, a ausência de valores que o guiem, a desagregação familiar, a impunidade, serão fenômenos mais ou menos maléficos conforme for sólida ou não a educação recebida no lar e depois na escola.

A criança e o jovem se miram no espelho de sua realidade e o refletem. E aqui aparece a dificuldade de se educar, pois como é difícil aos pais dizerem aos filhos no Brasil de hoje: “Sejam honestos”. Não mintam”. Busquem o seu bem e o dos outros através de condutas éticas”. “Esforcem-se”. “Estudem”. Conquistem uma profissão, pois através dela terão a gratificação social em forma de empregos e remunerações”. “Façam-se respeitar através de sua conduta irrepreensível”. Não transijam nunca com as pequenas trapaças, pois elas os farão sucumbir às grandes. Prezem sua pátria e os símbolos nacionais, pois a pátria é nosso lar ampliado. Respeitem as autoridades constituídas, pois delas vêm os exemplos de honradez, desprendimento e busca de bem comum.

Imagine-se tentar transmitir esses valores aos jovens do Brasil de agora. Eles haveriam de considerar tudo hilário, se não achassem que seus pais ou professores tinham enlouquecido. Afinal, o que assiste a geração atual?

Dirão alguns que o mesmo que sempre se assistiu, especialmente na esfera política. Que corrupção por corrupção, sempre fomos corruptos. Que as leis nunca funcionaram no país do dá-se-um-jeito. Violência sempre houve, assim como a “arte” de passar os outros para trás. Nunca nos faltou malandragem nem comportamentos desonestos tanto na esfera privada quanto pública.

Tudo isso é verdade e todos estão cansados de saber. Contudo, o que causa profundo mal-estar aos verdadeiros educadores é a podridão moral, que vinda dos Poderes constituídos se exacerbou de forma nunca vista nesse país, contaminando toda sociedade. Se o péssimo exemplo vem de cima, o que esperar dos debaixo? Para que esforço e honestidade se estão se dando bem mensaleiros, sanguessugas, golpistas, malandros que se safam facilmente de CPIs, de operações policiais, como esta última e estarrecedora Operação Navalha? Pior. Os transgressores não estão nas favelas ou bairros pobres, mas nos palácios. Nivelam-se na bandalheira, partidos políticos, deputados, senadores, ministros, juizes, pessoas em cargos importantes. E a tendência é o agravamento de tal situação por três motivos principais: falta de oposições; aumento da impunidade; a crença de que o presidente da República não é o responsável em última instância pelo que acontece em seu governo, o que levará a ele e aos seus companheiros se perpetuarem no poder incidindo nas mesmas práticas.

Se a corrupção impede o progresso do país e lesa o povo, outro grande malefício desse governo é ser responsável pela perda de pelo menos uma geração em termos de valores. Num país onde as mais altas autoridades se nivelam por baixo e se igualam a trambiqueiros, sem que nenhuma punição lhe seja aplicada, cada um faz o que quer: da interdição de estradas à quebradeira do Congresso, da destruição de terras produtivas à invasão de hidrelétricas. E o dinheiro público que poderia estar sendo aplicado, inclusive, para a melhoria da Educação, se perde nas badernas e nos fabulosos lucros dos “donos do poder”.

Por isso mesmo, e apesar de todas as dificuldades, mais do que nunca é preciso educar as novas gerações. Está na hora de começarmos a discutir como fazê-lo. E, sobretudo, é preciso saber como fazê-lo.

Segunda, 21 Maio 2007 21:00

Sinais Inquietantes

Nem sempre o governante totalitário ou o ditador é figura carismática que necessite agradar ao povo ou provocar empatia. Déspotas mandam e quem tem juízo obedece.

Quais os limites da liberdade de cada pessoa diante do poder do Estado? Essa é uma pergunta que demanda resposta complexa, mas pode ser respondida de forma simplificada dizendo-se que a liberdade de cada indivíduo depende do contexto cultural de sua sociedade e do sistema político em que ele vive.

Nos sistemas totalitários do século passado, o nazismo e o comunismo ou socialismo real, a liberdade era nula. Não se era livre em nenhuma esfera da vida fosse ela política, econômica, religiosa, familiar, cultural, intelectual. O controle do Estado era total e no cimo da hierarquia da casta dominante um déspota regia com mão de ferro os destinos de seu povo. Esse "grande líder", por sua vontade suprema decidia como um deus sobre a vida ou a morte, o prêmio ou o castigo de cada um.

Um esquema parecido funciona na ditadura ou regime autoritário. Porém, nesse caso, existe certa margem de liberdade no que tange, por exemplo, a organização familiar, a religião ou a alguma produção cultural “inofensiva”. As ditaduras, contudo, não toleram opositores, não permitem a liberdade política configurada em partidos ou entidades de oposição. Não é permitida a liberdade de pensamento, notadamente, a liberdade de imprensa. Nas ditaduras os Poderes Legislativo e Judiciário funcionam como apêndice do Executivo e a ele obedecem. Naturalmente, as ditaduras, ainda que tenham essência comum, possuem nuances diferenciadas conforme a sociedade em que vigoram.

Nem sempre o governante totalitário ou o ditador é figura carismática que necessite agradar ao povo ou provocar empatia. Déspotas mandam e quem tem juízo obedece. Mas, não falta entre os grandes ou pequenos tiranos os que se julgam uma espécie de deus ou de super-homem. Seriam eles os salvadores da pátria, os grandes heróis que prometem redimir os oprimidos. Para alimentar tais crendices usa-se largamente a propaganda. Todavia, como disse Haro Tecglen ao analisar o super-homem nietzschiano, “Hitler acreditou que fosse ele; centenas ou talvez milhares de pessoas acreditam serem elas: algumas foram parar em asilos, outras foram mais ou menos toleradas pelas famílias, algumas alcançaram o poder e fantásticos níveis de catástrofe”.

Quanto ao liberalismo expresso na democracia, pressupõe o exercício das liberdades civis: liberdade de mercado, pluripartidarismo, eleições livres, liberdade de pensamento, religiosa, cultural, de reunião, etc., o que não significa liberalidade na medida em que a Lei, configurada constitucionalmente, deve impedir abusos e impor limites à ação dos cidadãos. O arcabouço legal das democracias é também antídoto eficaz contra a tentação totalitária ou autoritária que dá asas aos super-homens.

Regimes democráticos também se adaptam aos contextos sociais em que se inserem e isso explica a fragilidade de nossa dúbia democracia.

Nossos vizinhos de origem espanhola são radicais em suas paixões políticas, em suas atitudes e comportamentos, o que acaba fomentando o aparecimento de oposições tão necessárias às ditaduras. Mesmo nos sistemas democráticos deve haver oposição, pois sem esta não há democracia. Exceção observa-se em Cuba, cujo sistema totalitário impede qualquer demonstração livre por parte do povo.

No momento se nota sinais inquietantes em nossa frágil democracia sem que haja percepção ou reação de parte da maioria da população. Vejamos os mais graves:

1º) O Legislativo e o Judiciário comportam-se como figurantes do Executivo, sendo que o Legislativo exibe sem pudor seu objetivo voltado para privilégios, cargos e outros “benefícios” oferecidos pelo Executivo como moeda de troca em votações. Nossos parlamentares, com honrosas exceções, parecem empenhados em demonstrar que todos têm seu preço.

2º) Aumenta a impunidade da classe dirigente que se locupleta de forma jamais vista nesse país. Para distrair a opinião pública e ocultar crimes mais graves aparecem alguns bodes expiatórios que também ficarão impunes, e tudo bem.

3º) Não existem oposições e mesmo certas figuras públicas, antes vigorosas em suas críticas e denúncias, renderam-se ao Poder Executivo.

4º) Na mídia, de modo geral, ressoa a “voz do dono”. Poucos e corajosos jornalistas foram ou estão ameaçados de serem calados sem que haja nenhuma manifestação de apoio da imprensa. Cito aqui o caso do defenestrado Boris Casoy, do Arnaldo Jabor que levou um cala-boca governamental e do Diego Mainardi ameaçado de morte no pasquim do MR-8. E vem aí Franklin Martins e a TV estatal.

5º) O presidente da República, que se diz modestamente próximo da perfeição, parece supor que encarna o super-homem. Ele sabe que o povo gosta e precisa de super-heróis e anda caprichando em shows de triunfalismo e egolatria. Pode-se dizer que é um homem de sorte monumental e, respaldado por sua impressionante propaganda, faz a maioria crer que é um democrata.

Mas qual é o limite da liberdade diante desse poder incomensurável? O tempo responderá, como já respondeu em outros países.

Terça, 15 Maio 2007 21:00

Vera Cruz, Santa Cruz, Brasil

Como os demais países latino-americanos, o Brasil receberá a influência da Igreja junto às famílias, na educação, nas Constituições e mesmo em campanhas políticas.

A visita do Papa Bento XVI ao Brasil reveste-se de caráter pastoral e, sem dúvida, Sua Santidade teve como objetivo mais importante atenuar a evasão de católicos para as Igrejas protestantes ou históricas, ou reformadoras (batista, anglicana, presbiteriana, luterana, metodista) e, sobretudo, para as evangélicas (pentecostais e neopetencostais). Mencione-se ainda as seitas, que na visão das igrejas tradicionais são aquelas entidades que, além da Bíblia, têm outro livro.

Os pentecostais se multiplicaram no decorrer dos anos e seus templos se ergueram em todo país, sendo que a Assembléia de Deus, criada em 1911, expoente do pentecostalismo, se tornará a maior das Igrejas evangélicas brasileiras. Em 1980, começaram a aparecer as Igrejas denominadas neopetencostais. A mais expressiva em termos numéricos e força econômica e política é a Universal do Reino de Deus.

Quanto a influência da Igreja católica sobre a América Latina, desde o início da colonização foi tão grande, que teve toda razão Carlos Rangel ao afirmar em sua obra, “Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário”, que nos países latino-americanos “o catolicismo soberano determinava praticamente todos os aspectos da vida dos indivíduos e da sociedade”. Sem sombra de dúvida, a cruz da Igreja e a espada do Estado se entrelaçaram para fazer de nós o que somos.

Recorde-se que tanto a Espanha quanto Portugal tinham, além de objetivos econômicos e políticos sempre presentes em empreendimentos coloniais, a finalidade de propagar a religião católica. Esta meta conferiu ao Estado daqueles países caráter confessional, cristalizado no régio patronato. Através desta instituição os papas outorgavam aos reis: jurisdição disciplinar em matérias mistas, provisões de bispados, faculdade de reter e examinar bulas e breves pontifícios, direitos sobre rendas, cobranças de dízimos e missões como a obrigação de cristianizar os índios.

Através do régio patronato, Estado e Igreja entrosaram poderes e influenciaram-se mutuamente. O rei tornou-se uma espécie de suplente do Papa para assuntos, inclusive, litúrgicos e teológicos. E o Estado se viu obrigado a submeter suas atuações políticas aos princípios da moral cristã sob pena de pecar gravemente, o que possibilitava à Igreja influir sobre a política real.

Como os demais países latino-americanos, o Brasil receberá a influência da Igreja junto às famílias, na educação, nas Constituições e mesmo em campanhas políticas. Desse modo, além de deter a hegemonia espiritual por longo tempo não admitindo outra crença ou lealdade, a Igreja católica constituiu-se em um de nossos principais mecanismos de socialização, portanto, propiciador de cultura.

Diante de tanta força, quais seriam as causas da evasão de católicos para as Igrejas protestantes, evangélicas, e em menor proporção para outras religiões? Pode-se dizer que entre estas causas estão, principalmente:

1º) A aceleração da urbanização a partir de 1940.

O meio urbano possibilita ao indivíduo maior liberdade e opções variadas, entre as quais se incluem as religiosas. No contexto rural onde a vida se passava de forma restrita, o domínio da Igreja católica era total.

2º) A Teologia da Libertação, cujos métodos diferem da Teologia tradicional católica.

A Teologia da Libertação, incorporando a teoria marxista à religião, dispensa o sagrado em nome da utopia final do Reino de Deus aqui mesmo na Terra. Este reino deve ser alcançado não exclusivamente pela via sacramental ou espiritual, mas, se for preciso, e sempre o é, pela violência, pois se fundamenta na luta de classes. Os teólogos da libertação, autodenominados de “progressistas”, se sentem imbuídos de nova missão evangelizadora da Igreja na qual a hierarquia se torna dispensável. No seu bizarro esforço para unir Jesus e Marx, eles proclamam sua opção preferencial pelos pobres. Entretanto, ao trocarem as pregações religiosas pelo discurso político, os “progressistas” afugentaram muitos fiéis que foram buscar em outras Igrejas ou religiões o elemento espiritual e mesmo emocional que lhes faltava nas pregações de esquerda dos clérigos da Teologia da Libertação.

Observe-se ainda, que diminuiu o número de sacerdotes enquanto aumentou a população, e nem a Renovação Carismática, que adota aspectos semelhantes aos dos petencostais, tentativa da Igreja para reverter a evasão de seus fiéis, tem impedido a diminuição de seu número enquanto aumenta o dos evangélicos.

Num Brasil onde campeiam de forma avassaladora o amoralismo político e social, a corrupção e a impunidade, e o “rei” pensa que o Papa é apenas um garoto propaganda mundial de seus “grandes feitos”, dificilmente seremos a Terra de Vera Cruz ou de Santa Cruz como inicialmente fomos denominados. Considerando-se o livre arbítrio nem milagre de frei Galvão dá jeito no país, em que pese os esforços de Sua Santidade.

Terça, 01 Maio 2007 21:00

"O Brasil Não Tem Povo"

A péssima escolha de nossos representantes pode ainda refletir uma profunda identificação popular com seus eleitos no que eles têm de pior, o que indicaria que não temos povo, mas plebe.

Em 1881, em sua obra, L’esclavage au Brésil, Louis Couty afirmou:

O Brasil não tem povo”, pois, “em nenhuma parte se acharão massas de eleitores sabendo pensar e votar, capazes de impor ao governo uma direção definida”.

Cento e vinte e seis anos se passaram desde que Couty apontou o triste fato: “O Brasil não tem povo”. Mas, será que já tem, apesar das mudanças ocorridas?

Como é impossível analisar num pequeno artigo mais de um século de história, tomo como marco importante o processo de industrialização, iniciado nos governos de Getúlio Vargas e JK, que desembocou no atual perfil do Brasil urbano e em parte modernizado. Persistem, é verdade, os contrastes sociais. Predominam na pirâmide social os mais pobres. Mas, bem diferente do século em que Couty nos visitou agora temos classes médias e uma elite econômica. Mesmo assim, perdura nosso subdesenvolvimento político que, associado ao vácuo de valores que hoje se observa, leva a indagar se Couty continua ou não tendo razão. Afinal, são eleitos e reeleitos notórios bandidos, trambiqueiros, mentirosos, tanto para o Poder Legislativo quanto para o Executivo e, em muitos casos, não se distingue entre desembargadores, juízes, advogados, políticos, bicheiros e qualquer tipo de marginal. Isto pode significar que são poucos os eleitores que sabem pensar e votar, sendo ao mesmo tempo incapazes de impor ao governo uma direção definida.

A péssima escolha de nossos representantes pode ainda refletir uma profunda identificação popular com seus eleitos no que eles têm de pior, o que indicaria que não temos povo, mas plebe. Ao mesmo tempo, há muita ignorância relativa aos candidatos no que concerne às suas trajetórias políticas, demonstração de que conhecimento e informação não são coisas idênticas, pois não faltam, ainda que filtradas, informações sobre o festival de falcatruas prodigalizado por quem deveria dar o bom exemplo.

Paradoxalmente isso acontece apesar da profusão de ONGs, centrais sindicais, associações de artistas e de intelectuais, dos chamados movimentos sociais, enfim, de tantas entidades que vão das associações de moradores à OAB, à ABI, à UNE, à CNBB e muitas outras, agora denominadas de redes sociais que alguns imaginam ser fontes de conscientização, civismo e solidariedade.

Portanto, as redes sociais que sempre existiram, mas que com a complexidade urbana aliada à velocidade dos meios de transporte e comunicação (Internet e telefonia celular entre as mais recentes e notáveis revoluções da comunicação) se multiplicaram, não produzem necessariamente o cidadão cônscio, o indivíduo capaz de otimizar seu livre arbítrio, o ator que interfere em seu tempo. Novas “comunidades” nem sempre são atestados de “novo cidadão” solidário.

Na diversidade do mundo atual onde os grupos “primários” como a família são trocados por grupos “secundários”, estes podem também abrigar redes, por exemplo, de criminosos, de terroristas, de narcotraficantes que possuem um tipo de solidariedade, de aprendizado e de projetos comuns, mas que estão bem longe do homem naturalmente bom de Rousseau ou do revolucionário “para si” de Karl Marx, que o conteúdo do termo rede social quer ressuscitar.

Conferir à humanidade de hoje virtudes excelsas que ela jamais possuiu, é tão falso quanto o dilema indivíduo x sociedade, pois o que existe é uma interação entre o ser humano e seu ambiente sócio-cultural.

Finalmente, se mudanças sempre estão ocorrendo, pois a vida é dinâmica, por trás das transformações materiais, valorativas e comportamentais certas essências humanas nunca mudam e a humanidade como um todo permanece ignorante, crédula e facilmente manipulável.

No nosso caso, apesar das redes sociais prevalece o “mesmismo” de que falou Roberto Campos e uma acachapante e piorada passividade que tudo aceita como natural e politicamente correto. E continuamos, como, aliás, acontece com todos os povos, tangidos por poderes mais altos e ocultos em bastidores inacessíveis ao vulgo.

Concluindo, apesar das redes sociais o homem continua, como disse Henry Louis Mencken, “o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo – por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro”. No nosso caso, isso muito se acentua e de certo modo explica, entre outras causas históricas e culturais aqui não abordadas, porque o Brasil não tem povo.

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