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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Quinta, 03 Janeiro 2008 22:00

O Poder Desdenhado

Apenas digo que da mesma forma que os milagres, a educação, para transformar o indivíduo, deve ser acreditada pelo mesmo.

Muito se fala no meio educacional das inúmeras variáveis que determinam o comportamento humano, sejam elas de ordem social, econômica, política, psicológica, etc. E, de tanto falar destes traços, meus encarecidos colegas de ofício esquecem do poder de transcender a todas essas variáveis que é inerente a todo ser humano.

É de entristecer a alma quando ouvimos educadores e especialista em educação (que nunca educaram ninguém) afirmarem que seria basilar que nós transformássemos toda a realidade social e bem como todo o sistema educacional para podermos desenvolver um fazer pedagógico em um nível satisfatório. Eu, de minha parte, afirmo que basta, em princípio, que haja boa vontade e possibilidade de se poder estimular a responsabilidade em nossos educandos. E, justamente esses dois pontos, são os que mais carecem no cenário hodierno que se vivencia nesta seara.

Meus caros, a educação, como todo ato humano, não tem unicamente uma dimensão externa. Alias, a sua dimensão mais rica e necessária é justamente a dimensão interior que apenas pode ser testemunhada pelo agente primeiro do ato que é o próprio indivíduo.

Quando nos referimos à dimensão interior, estamos apontando para o fato de que a educação deve estimular no indivíduo à vontade de sentido, fazendo uso da terminologia de Victor Frankl, para que, desta forma, ela possa encontrar um propósito para a sua vida, mesmo nos momentos em que tudo parece não mais ter nenhum, pois, como Friedrich Nietzsche afirmou, “quem tem porque viver suporta qualquer como”.

Todavia, hoje em dia o que os educadores menos ensinam é isto, não mesmo? O que os pais, e a sociedade de um modo geral, menos ensinam é justamente isso: a dignidade de viver a vida da forma mais humana possível.

Pode parecer tolice, caro leitor, o que estou escrevendo, mas sem esse elemento simples que é o cerne mágico do educar, do ato de guiar o indivíduo a encontrar-se consigo mesmo. Talvez, um bom exemplo seja a de uma senhora que, já passado dos sessenta anos de idade, passou a freqüentar uma turma de MOBRAL na qual minha mãe lecionava no fim da década de oitenta. Tive a oportunidade de conhecê-la, pois, quando pequeno, minha mãe me levava junto com ela em seu sacerdócio educacional.

O que é interessante na história desta senhora, hoje já falecida, é que antes de ela freqüentar a sala de aula, vivia doente, desanimada, sem vontade de viver. Após iniciar os seus estudos, ela não mais ficou doente e freqüentava assiduamente todas as aulas noturnas, fizesse chuva ou um belo luar.

A escola que minha mãe lecionava não tinha muitos recursos. Era apenas uma modesta escola municipal da cidade de Dois Vizinhos. Porém, o que ocorreu com esta senhora foi o milagre transformador que a educação é capaz de propiciar a qualquer indivíduo que é o de preencher a vida de sentido e, deste modo, preencher a existência humana com uma dignidade singular.

Como isso ocorre, especificamente, eu não sei. Apenas digo que da mesma forma que os milagres, a educação, para transformar o indivíduo, deve ser acreditada pelo mesmo. O seu conteúdo intrínseco e misterioso deve ser desejado e amado para que, deste modo, o prodígio ocorra, tal qual ocorreu com esta senhora.

O ser humano não é apenas movido por desejo de poder como afirmava Adler e não é tão só movido por necessidades econômicas como queria Marx, ou por seus desejos rasteiros como supunha Freud. O ser humano anseia profundamente viver de uma forma que tenha sentido. Essa é a grande força que nos move como sabiamente aponta-nos Frankl em sua obra EM BUSCA DE SENTIDO.

Para tanto, devemos apenas estimular a responsabilidade e, acima de tudo, ter boa-vontade.

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Obs.: já está disponível em nosso website duas obras do filósofo Sto. Afonso de Ligório.

Quarta, 26 Dezembro 2007 22:00

Douta Cretinice

Para qualquer pessoa que conheça mediamente a Sagrada Escritura, a referida declaração lembra perfeitamente a passagem em que Cristo, estando no calvário, volve suas vistas para os céus e diz: “Senhor, Senhor, por que me abandonas-te?”.

Deus, porque permitiste isto?” Este é um trecho do discurso proferido por sua Santidade, o Papa Bento XVI, em Auschwitz no ano de 2006. Discurso este que ecoou pela mídia chique e pelos corredores do meio letrado como sendo uma afirmação herética proferida pelo próprio Vigário de Cristo.

Tal impostura de nossa classe letrada tagarelante já é típica. Por deterem um título que apenas atesta a sua superficialidade, estes senhores acreditam que podem opinar sobre tudo e, principalmente, sobre searas que eles desprezam totalmente.

Ora, o caso da repercussão ad infinitum desta passagem é um bom exemplo. Todos os “entendidos” sobre assuntos religiosos mais que rapidamente afirmavam que a fé de Bento XVI seria duvidosa. Eu, de minha parte, afirmo literalmente o inverso do dito. Afirmo que a referida declaração é prova cabal da profunda vida espiritual deste.

Para qualquer pessoa que conheça mediamente a Sagrada Escritura, a referida declaração lembra perfeitamente a passagem em que Cristo, estando no calvário, volve suas vistas para os céus e diz: “Senhor, Senhor, por que me abandonas-te?”. Quem sabe os ditos “entendidos” em todos os assuntos sem ter estudado nenhum passem a afirmar que o próprio Verbo encarnado também duvidasse de sua própria existência, não é mesmo?

De mais a mais, essa exclamação do Sumo Pontífice retrata um olhar de perplexidade diante do mal gerado por nós, seres humanos, no correr da centúria passada.

Outro bom exemplo desta douta cretinice que habita as redações e cátedras de nosso país são as tolas afirmações de que o Sucessor dos Príncipes dos Apóstolos estaria modificando a Igreja, que ele estaria dando uma guinada reacionária na mesma. Bem, pra começo de prosa, o problema desta turma ainda é o mesmo: falam do que desconhecem e desprezam.

Por exemplo, vejamos o tom da primeira Encíclica de seu Pontificado, a DEUS CARITAS EST. Nesta, Bento XVI, reafirma o princípio da subsidiariedade que é parte integrante da Doutrina Social da Igreja, defendida pelos seus antecessores Leão XIII, através da RERUM NOVARUM, por Pio XI, através da CENTESIMUS ANNUS, por Pio XII em sua mensagem de Natal de 1941 e, também, na MATER ET MAGISTRA de João XXIII. Aí, vem um Zé mané que, por não conhecer nada sobre o assunto, presume que ninguém mais conhece e, deste modo, aufere a si o direito de poder dizer qualquer sandice como esta.

Bento XVI está apenas fazendo o que todos os Papas que o antecederam procuram fazer dentro das limitações humanas: preservar a tradição Cristã. Essa é a função do Primaz da Itália. Não é inventar a cada geração um novo cristianismo, mas, fundamentalmente, procurar preservar e espalhar a mensagem que o Verbo encarnado nos legou.

Por fim, o que é mais interessante neste enrosco todo é a diferença da mentalidade que há entre Bento XVI e os seus algozes. Estes últimos acreditam que tudo o que a Cristandade fez, até o momento, foi um amontoado de equívocos e que eles seriam pessoas melhores que todos os mártires e santos juntos. Já Bento XVI, humildemente, procura desempenhar o seu papel, crendo que todos aqueles que o antecederam eram e são imensamente maiores do que ele, pois, como afirmava Bernardo de Chartres, todos nós, reles mortais viventes, não passamos de anões nos ombros de gigantes.

Excetuando, obviamente, aqueles que tudo sabem sem nada ter aprendido, vendo-se perdidos no cipoal de mentiras que contam para si na vã tentativa de construírem uma imagem de suposta dignidade sem ter cimentado nada de significativo no âmago de sua alma.

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Obs.: Recomendamos a leitura do última Encíclica do Papa Bento XVI – SPE SALVI – que está disponível na Internet no site do Vaticano e no nosso site pessoal. Dito isso, desejamos a todos um Feliz Natal, um Próspero 2008 e que Aquele que É ilumine nossa consciência e aqueça o nosso coração.

Segunda, 03 Dezembro 2007 22:00

Meninos Eu Vi

A sociedade contemporânea não passa de um cipoal de hipocrisias em um misto com um emaranhado nojento de covardia e arrogância e este que vos escreve não fica fora deste baralho pérfido de modo algum.

A humanidade é decepcionante. A sociedade contemporânea não passa de um cipoal de hipocrisias em um misto com um emaranhado nojento de covardia e arrogância e este que vos escreve não fica fora deste baralho pérfido de modo algum. Todavia, os pequenos incautos, ainda não infectados com nossa desídia intelectual e com nossa decrepitude moral, nos surpreendem de tal maneira que nos levam a renovar a nossa esperança na vida e em nós mesmos.

Na semana que findou nasceu meu sobrinho Pedro Henrique. Um belo garotinho. Mas o causo que eu tenho para contar não do Pedrinho. É do Johann, meu dileto filho que tanta alegria traz para minh´alma iníqua.

No correr da gestação, o meu pequeno João de Deus, sempre conversa com seu primo na barriga de minha cunhada e sempre dizia: “Pedro! Eu vou puxar você daí e vou colocar uma roupa de batman pra gente poder brincar”. E, dito isso, acariciava a barriga com um suave afago e dava um tchau.

Logo, quando este chegou da maternidade, fomos vê-lo e, não preciso nem dizer quem estava mais ansioso. Chegando no quarto reparei que o meu filho estava quieto e, com os olhos a marejar em lágrimas com as mãozinhas perdidas, sem saber o que fazer. E, em meio a este não saber o que fazer eis que minava de âmago de seu ser um suspirar entremeado por um constante palpitar de alegria.

Estava ele com um presentinho que minha esposa entregou para a mãe do pequeno e, mais que depressa, o nosso herói pega de volta o dito presente e coloca-o calmamente o dentro do berço, junto aos pés de Pedro.

De repente minha esposa resolveu pegar o bebê no colo e sentou-se na cama. Aí, eu lhes pergunto: o que o Johann fez? Estendeu lentamente os braços na direção do Pedro para pegá-lo no colo. Estendeu os braços bem certinho. Detalhe: Johann tem apenas três anos de idade.

Colocamos ele sentado ao pé da cama e colocamos um pequenino no colo do outro. E os olhos dele brilharam. E um sorriso singelo e primaveril iluminou o roso do meu indiosinho. Pedi que ele desse um beijo na testa do nenê e disse: “Que Deus lhe abençoe”. E ele o fez. E meninos, confesso: eu vi. Vi meu pequeno Johann descobrir o sentido e a beleza da vida.

Creio que meu filho, com o passar dos anos, não mais se lembrará desta cena. Todavia, eu nunca esquecerei desta imagem. Tenho pela convicção de que nunca esquecerei da lição que meu pequeno batman (que também é, de vez enquanto homem-aranha) me ensinou.

Quanto a lição, esta (e todas as outras que ele me ensina) só a mim e a meu filho interessa e a ninguém mais. Agora pergunto a você meu amigo, quantas lições você deixou de aprender com o seu filho por não dar a devida atenção ao seu jeito inocente de ser o que é?

Não estou falando da correria do trabalho não. Alias, usar a correria do trabalho para justificar o mau desempenho do papel de pai é uma baita de uma canalhice. É justificar a sua insatisfação com a vida e mesmo com as suas escolhas equivocadas na pessoa de uma criança. Dizer que não tem tempo por causa de seu filho é culpá-lo pelo que você é e faz.

Estou me referindo aos dias de folga que você troca a sua família pelos seus amigos, pela cervejinha, pela conversa fiada e vulgar do happy hour. Me refiro aos momentos que há sim possibilidade de se estar com o moleque e de aprender com ele aquilo que torna a vida digna de ser vivida e que você deixou de estar com ele porque a sua satisfação era mais importante que o sorriso contagiante do pequeno.

E o tempo passa meu amigo. Passa que a gente nem vê e por não ver, deixamos de aprender lições que nossos filhos nunca mais poderão nos ensinar porque o tempo da lição já terá findado. Pior que isso, é ficarmos feito abobalhados sem saber a razão do porque nossos filhos e alunos dão tão pouca atenção para os nossos rompantes e disparates moralistas. Nos esquecemos que eles aprendem muito bem a lição que lhes é ensinada quando trocados por qualquer futilidade do mundo adulto, não é mesmo?

Domingo, 25 Novembro 2007 22:00

No Zóio do Furacão

O grande problema de nossa incultura não está junto aos populares com suas práticas e crenças. O grande problema está justamente em nossa dissimulada classe letrada que muito mais se preocupa com o status de sua titulação do que com a efetiva superioridade de sua formação que, nestas terras de Pindorama, não passa de uma vulgar ficção.

Não é de estranhar que a capacidade de compreensão do brasileiro médio, de um modo geral, é limitada. Não estou aqui fazendo alusão as pesquisas que demonstram que, boa parte das pessoas, não compreendem nem mesmo uma simples frase que acabaram de ler. Estou sim me referindo a algo que qualquer pessoa pode e deve constatar em seu cotidiano, pois, de pouca valia é toda crítica que antes não seja duramente feita a nós mesmos.

A experiência é bastante simples. Liste as palavras que você usa freqüentemente para se comunicar com os seus pares. Feito isso, você poderá perceber a quantidade minguada de palavras que utilizamos em nosso repertório o que, por sua deixa, comprovará a pesquisa que aponta para o fato de nossos jovens e adolescentes usarem, em média, apenas quarenta palavras para se comunicarem.

Se formos ousados e não temermos ser desnudos no tribunal de nossa consciência, podemos ir mais adiante em nosso experimento. Feito a listagem das palavras de uso ordinário, procure definir de modo preciso e claro o significado de cada uma delas.

Feito isso, vamos um pouco mais adiante se o pânico não tomar conta de nossa alma, é claro. Apontados os significados, procure reconstruir o caminho que você fez para aprender estes significados. Ou, trocando por dorso (miúdos e cia.), procure lembrar quais foram as fontes que você usou para construí-los. Se você leu algum livro, artigo, ensaio ou se simplesmente ouviu na rua, no rádio, na televisão e simplesmente foi repetindo como um bom papagaio cívico brasilienses.

Como a covardia é o vício (disfarçado de virtude) número um em nosso país, com toda certeza a maioria das pessoas não sobreviveria aos primeiros cinco minutos deste experimento e, logo de cara, acusariam o proponente do mesmo dos mais indecorosos adjetivos.

De minha parte, tudo bem, pouco me importa a ufanada opinião de gente que nem ao menos conhece as palavras que usa em seu dia a dia e, de mais a mais, xingar-me pode aliviar a sua sensação de culpa, porém, em nada contribui para que este saia de sua patética condição.

E pior! São estas pessoas que arrotam suas opiniões aos quatro ventos e possam com ares de superioridade olímpica frente aos demais. São estes que propõem as mais estapafúrdias reformas para a sociedade. São estes que dizem estar analisando criticamente (melhor seria dizer cretinamente) os problemas da sociedade.

Lembramos aqui, neste ínterim, que não estamos a nos referir as pessoas incultas e que não tiveram acesso à devida escolarização. Não mesmo. Estamos sim a nos referir a todos aqueles que concluíram os seus estudos formais até o ensino médio e, também, àqueles que concluíram um curso superior. Estamos nos referindo a todos aqueles que possuem um relativo monopólio da fala e que se gabam de serem detentores de uma pseudo-cultura de medalhão machadiana.

O grande problema de nossa incultura não está junto aos populares com suas práticas e crenças. O grande problema está justamente em nossa dissimulada classe letrada que muito mais se preocupa com o status de sua titulação do que com a efetiva superioridade de sua formação que, nestas terras de Pindorama, não passa de uma vulgar ficção.

Mas é claro que esses pusilâmines irão jogar sobre minha pessoa o jargão de “elitista” para assim melhor camuflar a sua nesciedade e covardia fazendo um mesquinho jogo de relativização dos valores. Alias, o que esperar de pessoas que relativizam o conhecimento em nome da ufanação da própria incapacidade e arrogância? Apenas isso e, obviamente, um diploma para cobrir as suas vergonhas.

Domingo, 11 Novembro 2007 22:00

Por Uma Nova Aurora

Ora, o que significa afirmar que uma obra é atual? Simplesmente que ela seja capaz de responder de modo consistente aos anseios e indagações do homem de uma época.

O culto a novidade, advinda do imediatismo que amordaça a alma do homem contemporâneo é algo que literalmente inviabiliza qualquer intento de uma discussão séria sobre qualquer assunto, visto que, todo e qualquer dialogo quando colocado dentro do seu devido lugar, nos apresenta uma contenda de idéias e mesmo a resolução de problemas já apresentada através dos séculos e que, devido a essa crença nos pseudo-poderes do “que há de novo”, acabamos por deixar tais pontos escaparem por entre nossos dedos como se o legado da civilização fosse apenas uma fina areia.

Isso mesmo. Quando, por exemplo, nos dispomos a discutir sobre o tema educação temos, pelo menos, seis mil anos de produção bibliográfica e de experiências realizadas em torno. Todavia, o que fazemos? Limitamos nosso horizonte unicamente na chula perspectiva das últimas publicações que se fundamentam nas mais recentes publicações sobre o tema.

Tal postura intelectual poderia ser comparada tranqüilamente a imagem de um cão pitoco correndo atrás de seu próprio rabo. Correndo atrás de algo que ele apenas tem uma vaga impressão. Isso sem falar que tudo isso é uma demonstração de profunda arrogância. Crer que apenas por ter decorado algumas expressões chaves repetidas a exaustão nas publicações hodiernas o indivíduo está habilitado a poder julgar e condenar todo o restante das obras produzidas pela humanidade classificando-as como retrógradas, reacionárias ou, simplesmente, como desatualizadas.

Ora, o que significa afirmar que uma obra é atual? Simplesmente que ela seja capaz de responder de modo consistente aos anseios e indagações do homem de uma época e, neste sentido, as obras esquecidas no fundo das bibliotecas tidas como ultrapassadas tem muito mais a contribuir na compreensão dos problemas da educação do que os disparates atualizadissimos.

Há algumas ocasiões em que os clássicos até são lembrados (em sala), todavia, apenas como uma curiosidade ilustrativa e nada mais. Como algo acessório na formação do indivíduo e não como uma obra a ser lida e meditada em seus conceitos de modo atento e tendo a sua atualidade devidamente refletida.

No lugar disso, o que se faz com grande freqüência com relação a estas obras? Aponta-se reles comentários baseados em outros comentários ou em artigos sobre a mesma que, na maioria das vezes, abarca apenas uma pequena dimensão da grandiosidade da obra ou mesmo reduz a grandiosidade desta a pequenez da alma de seu comentador e a mediocridade daquele que se recusou a ler os originais, contentando-se em apenas fingir ser senhor do conhecimento da mesma. De um modo geral, é assim que se desenrolam as discussões em torno do ex ducere nesta pátria de despatriados.

O filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos nos ensina através de suas obras (mais de 100 publicadas e 30 manuscritos. Praticamente todas desdenhadas pela Academia) que um dos maiores erros que se faz presente nas discussões contemporâneas se deve ao fato do desdém que se tecem em relação as obras clássicas, pois, se essas estivessem sendo estudadas os erros estupidamente repetidos não ocorreriam, visto que, estes erros já haviam sido refutados pelos filósofos da Gregos, da patrística e pelos da escolástica.

É claro que a não realização de uma discussão nestas bases não significa que estamos diante do fim do mundo, mas também não significa, de modo algum, que se esteja fazendo algo dignificante e que venha a elevar a alma humana. Estamos apenas demonstrando de modo cabal a perversidade de nosso ridículo original, da literal concretização da teoria do medalhão de Machado de Assis.

Se realmente queremos edificar uma nova aurora na seara da educação, comecemos então, com humildade, a ler as obras daqueles que estão condenados ao ostracismo para assim, quem sabe, podermos perceber a fragilidade de nossas concepções e a enormidade de nossa insignificância.

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Obs.: Nosso programa de rádio na Internet agora está em site próprio com inserções constantes e com o arquivamento dos áudios. O endereço é: http://eagorajose.k6.com.br  ou através de nosso site http://dartagnanzanela.k6.com.br

Segunda, 05 Novembro 2007 22:00

O Calcanhar de Aquiles

Porém, se você é daqueles que construiu toda a sua vida sobre enganos maquiados com um pálido verniz de pseudo-erudição para enganar aos outros e, acima de tudo, a si mesmo, sugiro que continue agrilhoado em seu simulacro e continue aninhado em seus devaneios e em sua fingida sapiência.

Infelizmente, não é raro os momentos em que ouvimos pessoas expressarem suas opiniões com grande gosto e satisfação. Alias, na maioria das vezes essas mesmas pessoas nutrem um sentimento de forte afeto por uma opinião (de)formada que ela julga sua. Pior. Para cada assunto que lhe é apresentado a mesma apresenta uma nova.

Caramba, mas quem disse que ter opinião sobre um e outro assunto é motivo de ufanismo? Ora, opinião, como muitas vezes frisamos, seria apenas uma mera impressão subjetiva da realidade onde o sujeito se apropria de alguns recortes sobre o assunto em pauta e fala simplesmente o que sente em relação ao mesmo e não sobre o que este algo realmente é.

Ora, em termo cognitivos, isso e nada é a mesma coisa.

Para apreender a realidade dos fatos pouco importa se eu concordo ou não com o que está diante de minhas vistas e menos ainda se eu gosto ou não da resposta obtida. O que interessa é justamente que, de modo sincero, procuremos compreender o que está diante de nós e não simplesmente afirmar o que nós desejamos que esse algo seja.

Por essa mesma razão que o filósofo Mário Ferreira dos Santos em sua obra ORIGEM DOS GRANDES ERROS FILOSÓFICOS (pág. 90) afirmava que, “só pode haver opinião onde não se alcança a estrutura eidética do ser, ou quando pairam ainda probabilidades outras de alguma coisa ser outra que o que julgamos ser”. Ou seja, deveríamos apenas alimentar opiniões em assuntos que nosso aparato cognitivo não esteja armado para poder construir uma clara compreensão do assunto. Todavia, dia após dia, estamos vendo cada vez mais a redução da reflexão sobre todo e qualquer assunto a um mero jogo de trocas e emissões fortuitas de opiniões, uma tão rasa quanto a outra.

Lemos uma manchete de jornal ou ouvimos falar sobre um determinado assunto e já nos julgamos habilitados a apontar juízos de valor. Se isso não fosse o suficiente, nos sentimos imbuídos e até mesmo autorizados a tomarmos uma posição prol ou contra, mas sempre de acordo com a voz tosca da maioria bestializada. Todavia, com base em que meu Deus do Céu?

Mais adiante, na mesma obra, o filósofo acima citado nos lembra ainda que: “O que tem impedido o espírito humano de alcançar situações superiores é a influência que exerceu a confusão entre verdade material e verdade formal, e, também, de certos esquemas históricos, que atuam preconceituosamente, viciando de antemão o próprio processo filosófico” (pág. 92). Viciando todo processo de compreensão.

Para averiguar tais pontos basta que você se pergunte sobre os pré-supostos que sustentam os seus pontos de vista e com base em que eles se sustentam para verificar esse dado aterrador. Reflita sobre as suas concepções históricas, sobre as bases de seus entendimentos sobre o devir humano através do tempo. Quer dizer, faça isso se você não tem medo de abandonar as suas parvas opiniões.

Porém, se você é daqueles que construiu toda a sua vida sobre enganos maquiados com um pálido verniz de pseudo-erudição para enganar aos outros e, acima de tudo, a si mesmo, sugiro que continue agrilhoado em seu simulacro e continue aninhado em seus devaneios e em sua fingida sapiência.

Mas, pense nas opiniões que você for emitir, para assim, ao menos, não mais fingir que está pensando.

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Obs.: É com grande alegria que comunicamos a todos que estamos com um talk show, um modesto programa de rádio, na internet que vai ao ar todos os sábados a partir das 21:00 horas. Para ouvir o mesmo (inclusive os programas anteriores) basta acessar o nosso site.

http://dartagnanzanela.k6.com.br – ou diretamente em nosso blog – http://zanela.blogspot.com

Domingo, 28 Outubro 2007 22:00

Falando Sério

De mais a mais, como bem nos lembra o grande professor chinês Confúcio: “as palavras sinceras não são elegantes; as palavras elegantes nunca são sinceras”.

Já faz algum tempo que estamos dedicando o espaço desta coluna que nos é disponibilizado para discutir alguns pontos sobre este tema encantador e enfadonho que é a educação.

Fazemos isso por ser um ponto nevrálgico da sociedade hodierna e, por essa mesma razão, faz-se centro de inúmeras discussões. Muitas delas profícuas, outras não tanto e, a maioria, totalmente imersa na superficialidade do vulgo.

Poderia estar aqui a deitar minha pena informatizada para entoar bravatas e tecer análises sobre o quadro político da decrepita sociedade brasileira. Poderia, porém, faço minhas as palavras do escritor Humberto de Campos que, quando vivo, afirmava que os nossos políticos são como nossa fauna. Não há gigantes. E, para piorar, o maior animal de nossa fauna é a anta, como muito bem me lembrou um amigo meu em determinada ocasião. Então, para que discutir algo que não nutrimos esperança? Para que escrever sobre algo que desdenhará por completo suas considerações? Para que jogar pérolas (baratas, mas pérolas) no tártaro?

É por essas e outras que escrevo sobre o ato de educar e sobre outros temas que podem levar a elevação da dignidade humana, pois, a indignidade, em si, não tem cura e em nada eleva a alma.

Entretanto, esse lamaçal, superficialmente político e, em suas entranhas, moral, perpassa obviamente pelo educar que é um dos principais responsáveis por esse clima de hipocrisia e decrepitude geral. Alias, responsável direto, não secundário, desta perversão que hoje vivemos. Para tanto, basta ver quais são os valores que reproduzimos nas práticas educativas formais e informais.

Por esta razão trago a baila nesta linhas turvas as palavras do filósofo alemão Athur Schopenhauer que, nos idos do século XIX, já vislumbrava essa decadência do humano na sociedade de seu tempo e afirma que se fossemos observar a grande quantidade de instituições de ensino e bem como a grande quantidade de educadores e educandos seria possível acreditarmos que a humanidade atribui grande importância a instrução e ao conhecimento da verdade. Hahaha! Como as aparências neste caso nos engana, não é mesmo? Pior! Como nos auto-enganamos.

E o filósofo citado é pontual e ácido em suas colocações, pois, segundo o mesmo, o professor ensina para: “[...] ganhar dinheiro e não se esforça pela sabedoria, mas pelo crédito que ganha dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre os mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos”.

Terão aqueles que poderão afirmar que tais palavras são duras por demais. Entretanto, como podemos afirmar que somos pessoas críticas, que somos educadores críticos, se nos esquivamos da mesma? Como podemos ensinar a refletir se somos incapazes de refletirmos sobre nossa condição enquanto professor e aluno? Ora, como podemos afirmar que vivemos na época mais elevada de todos os tempos se somos incapazes de refletir sobre nossa condição com vistas a nos tornarmos pessoas melhores do que somos? Que elevação há do peido que fala do arroto? Qual?

De mais a mais, como bem nos lembra o grande professor chinês Confúcio: “as palavras sinceras não são elegantes; as palavras elegantes nunca são sinceras”. E, falando sério, neste ponto, Schopenhauer foi profundamente sincero com a sociedade moderna, muito mais do nós somos conosco mesmo.

Sexta, 26 Outubro 2007 22:00

Elegia ao Educar

Tornou-se lugar comum apontar a falência do sistema educacional, em especial, devido a ênfase que muitas das vezes se dá a forma desdenhosa que o professor é tratado pela sociedade e bem como e principalmente pelo Estado.

Tornou-se lugar comum apontar a falência do sistema educacional, em especial, devido a ênfase que muitas das vezes se dá a forma desdenhosa que o professor é tratado pela sociedade e bem como e principalmente pelo Estado. Desdém este sempre seguido do devido tapinha nas costas em volto da afirmação de que o mesmo, o professor, é a pedra angular da sociedade e blá blá blá.

Muito bem, penso eu que tal tratamento em uma sociedade massificada e dominada pela idiotia já é mais do que esperado. Essa postura hipócrita (a do tapinha nas costas) em uma sociedade medíocre desde os seus fundamentos também corresponde tranqüilamente as devidas expectativas. O que assusta e mesmo aponta para a falência do sistema educacional é a forma como o professor, que está no centro deste colóquio flácido pra boi dormir, assimila o mesmo discurso e faz-se de vítima, de coitadinho ou personagem deste gênero que abunda em nossa sociedade.

Por isso, lembramos que o professor só é um derrotado, um fracassado e desdenhado frente aos torpores desta sociedade se quiser e se ele desejar. Afirmamos isso, pois, o seu fazer existencial não deve ser de modo algum pautado em uma mera perspectiva imediatista, mas sim, guiado por um viés que ilumine sua visão de si e do mundo, visto que, ser professor, antes de qualquer coisa, é um sacerdócio e, como tal, exige muitas das vezes, uma certa dose de sacrifício.

Essa é a beleza de nosso ofício. Esta é a grande magia do magistério.

Como nos lembra Eça de Queiroz: “Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava”. E, desta maneira, todo aquele que apenas firmou a sua visão sobre o sentido do ser professor unicamente pelo viés da realização profissional, obviamente que está fadado ao fracasso enquanto tal, enquanto pessoa e, conseqüentemente, este acaba irradiando o seu sentimento de frustração para todos aqueles que estão direta e indiretamente ligados a sua pessoa.

Com toda certeza muitos irão logo nas primeiras linhas desta modesta missiva rechaçar o meu ponto de vista por não terem diante de seus horizontes uma visão de longo prazo de seus atos e por se importarem pouco com as conseqüências do que está sendo gestado hoje.

Por essa razão que partilho das palavras de Miguel de Unamuno que, em seu ensaio MI RELIGIÓN, dizia esperar pouco para o enriquecimento do tesouro espiritual do gênero humano daqueles homens e daqueles povos que por sua superficialidade, por seu cientificismo, ou seja lá por que vileza, se apartam das grandes e eternas inquietações do coração.

Ora, e o que fazemos hoje em torno do educar? Qual é a postura adotada por nós educadores dentro e fora de sala de aula? Nos esquecemos, ou pelo menos fingimos não saber, que nosso papel vai além da sala de aula. Não nos damos conta que mesmo sendo relativamente desdenhados pelas potestades estatais nós somos, de um jeito ou de outro, um dos pontos centrais da sociedade e, por isso mesmo, um dos responsáveis por muitos dos males que assolam a educação e, conseqüentemente, a sociedade.

Não? Então meu caro, gentilmente lhe peço que compare o seu fazer e o seu viver com o fazer e o viver dos grandes mestres da sociedade ocidental. Compare a sua vida e sua prática pedagógica com a dos padres jesuítas ou com a dos frades dominicanos. Alias, compare a sua vida e sua obra enquanto professor com a vida e a obra de Sto. Agostinho, São Tomás de Aquino, Pedro Abelardo e, especialmente, com a vida e a obra educacional de Sócrates.

Sei que a nossa sociedade está corrompida até a medula, que todo o nosso tecido social é turvo, mas é nisso que pautaremos a nossa vida ou no que de melhor a humanidade nos legou? Que tipo de educação desejamos edificar com base em um derrotismo covarde como este?

Ah! Quanto aos confetes pelo dia do professor, esse eu deixo para os Estatólatras e parasitas do Estadossauro que adoram bajular todo mundo para assim melhor corromper todos. De minha parte, prefiro ficar com os estratos da realidade mesmo que estes façam aflorar as minhas faltas.

Domingo, 14 Outubro 2007 22:00

Ex Ducere Caritas Est (II)

Jiddu Krishnamurti, em muitas suas obras e preleções apresentou os seus pareceres sobre o papel da educação para a formação do indivíduo.

Existem coisas que, para as saber, não basta tê-las aprendido”. (Sêneca)

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Jiddu Krishnamurti, em muitas suas obras e preleções apresentou os seus pareceres sobre o papel da educação para a formação do indivíduo e, de todas as suas consideração tecidas, julgamos que uma delas é fundamental e que, infelizmente, na sociedade hodierna, com sua crendice racionalista, desdenha cada vez mais.

Segundo Krishnamurti, a educação é fundamentalmente um ato religioso que deve guiar o indivíduo iniciado para o exercício da liberdade. É difícil falar disso numa época em que o laicismo passou a ser o credo vigente e, por essa mesma razão, relembrar esse ponto simples é necessário. Mesmo retirado todo o conteúdo de formação religiosa das instituições de ensino estas continuaram a exercer uma função sacerdotal de instruir as tenras gerações na arte de viver. De um novo modo, mas, estruturalmente, com intento similar.

Obviamente que as escolas estão apenas refletindo um fenômeno que se apresenta junto a sociedade. O mundo e a vida foram sendo dessacralizados de modo acelerado desde o século das Luzes (o século XVIII, que na verdade é o século das trevas). E, no lugar do fundamento que nos era apresentado pela milenar tradição judaico-cristã foi sendo criado novos valores que literalmente foram inventados por um grupelho de auto-proclamados iluminados.

Quanto ao que tange a essa característica da educação tomemos um pequeno exemplo para ilustrar o que desejamos chamar a atenção. Na educação contemporânea um comportamento exaltado como sendo digno de um bom cidadão é o de reivindicar, de protestar, etc. Alias, há escolas em que isso é ensinado literalmente, com técnicas de todos os gêneros, desde as mais simples até as mais grotescas.

Mas aí, esse que voz escreve pergunta: foi ensinado a esse bom aluno como que se deve estudar? Esse bom cidadão foi instruído quanto ao modo que ele deve agir para pensar os temas que lhe são sugeridos para só depois tomar uma posição sobre? Não. Foi apenas lhe doutrinado que ele deve tomar uma posição, de preferência a do professor, é claro. Alias, tomar uma posição sem ao menos saber claramente o que essa posição implica.

Ora, para se poder realmente desenvolver determinadas qualidades cognitivas é fundamental o exercício da meditação e para tanto é fundamental ensinar o indivíduo a condicionar a sua mente para que ela possa manter-se serena e silenciosa. Trocando por dorso: desenvolver a capacidade de concentração profunda e continuada é pré-requisito basilar para o desenvolvimento integral do indivíduo.

Os antigos monges de todas as grandes tradições religiosas haviam desenvolvido inúmeras técnicas de meditação que lhes permitiam desenvolver um poder de concentração fenomenal. Alguns ascetas hindus e muitos místicos cristãos e muçulmanos eram e são capazes de se concentrar por horas em uma única palavra s em turvar a sua mente para nenhum outro ponto. Já nós, por nossa deixa, somos incapazes de nos concentrar por cinco minutos.

Estas práticas eram realizadas não apenas por homens e mulheres que se enclausuravam. Todas as pessoas nas sociedades tradicionais nos mais variados ofícios praticavam uma gama significativa de exercícios deste gênero o que lhes permitia ter uma mente reta e sã devido ao seu poder de auto-controle.

Hoje em dia, tais práticas são consideradas como um conjunto de superstições, como saberes indignos de se fazerem presentes em uma sala de aula. Todavia, confesso: não sei o que é mais patético, se é uma profunda tradição que nos legou um amplo manancial de experiências exitosas ou um sistema educacional que forma pessoas que são incapazes de, após ter lido um texto, lembrar do parágrafo anterior ao último, mas que, estão muito bem instruídas na arte de reclamar sem saber ao certo o que realmente desejam como se fossem um bebê recém chegado neste mundo.

Por fim, em nossa arrogância racionalista estamos dia após dia terminando de matar as últimas centelhas do logos que habita a alma humana. A isso chamamos orgulhosamente de progressismo.

Quinta, 04 Outubro 2007 21:00

Ex Ducere Caritas Est

Justificamos o fracasso pessoal, no êxito de outrem. Justificamos o fracasso de nosso sociedade na bem-aventurança de outras que passam a ser objeto de nossa fúria expiatório.

"Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores;

quão gloriosa é a diferença dos santos!" (C. S. Lewis)

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Como muito bem nos lembra C. S. Lewis, vivemos em um mundo de perdeu a sanidade. Um mundo que tem como única perspectiva possível de ser pensada a transformação do mundo sem a transformação de si como se nós não fizéssemos parte deste mundo, como se todos os cenários existentes não tivessem nenhuma relação com o que nós sentimos, com o que nós somos.

Exigimos do mundo, das instituições, da sociedade uma perfeição quimérica, perfeição esta que se faz inatingível por nós mesmos. Nas sociedades tradicionais que celebravam os exemplos de santidade, havia um nome muito claro para isso: hipocrisia. Exigir de outrem o que nós somos incapazes de cumprir. Na sociedade hodierna o mesmo fenômeno tem outros nomes. Não mais hipocrisia, mas sim, criticidade ou cidadania. Tal a degradação da modernidade.

O aluno que questiona o sistema cola para poder passar de ano. O professor que entoa bravatas contra o fato de os alunos lerem pouco ou não saberem escrever não lêem e muito menos conseguem escrever com desenvoltura um simplório artigo. Os pais que condenam as escolas nunca se dispuseram a, voluntariamente, colaborar com a mesma. Somos hipócritas e ensinamos a sê-lo no mesmo ritmo desta opereta vagabunda que dia a dia compomos com nossos gestos mesquinhos.

Justificamos o fracasso pessoal, no êxito de outrem. Justificamos o fracasso de nosso sociedade na bem-aventurança de outras que passam a ser objeto de nossa fúria expiatório. Em fim, não somos mais responsáveis por nada e, como bem nos aponta Kathleen Norris: “O fato de termos declarado obsoleta a noção de pecado não diminuiu o sofrimento humano. E as respostas fáceis - colocar a culpa na tecnologia ou, por que não, nas religiões do mundo - não resolveram o problema”. O problema somos nós, por mais que neguemos esse fato.

Alias, o ato de não resolvermos os problemas que a vida nos apresenta e simplesmente projetá-los em um bode expiatório tornou-se uma pedra angular na sociedade contemporânea. Aquilo que durante muito tempo era sinônimo de infantilidade, passou a ser um comportamento tranqüilamente aceito como normal.

O brutal descaso para com o aprimoramento do intelecto em um misto com o desdém para com a retidão dos atos fazem-se cada vez mais uma regra societal, tornando a possibilidade de uma vida virtuosa uma grande chacota pelo fato de os olhares sorumbáticos dos biltres serem os pontos de referência para ditar o que seria reto e turvo.

E nesta inversão de valores, a última a ter direito a palavra e a primeira a levar pau é justamente a verdade em sua majestade para que, deste modo, possa a sociedade, seguir em seu desterro societário sem ser incomodada.

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