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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Terça, 19 Setembro 2006 21:00

Assembléia dos Inconscientes

Por isso, sinceramente, acreditamos que uma boa dose de valores aristocráticos poderia revitalizar a nossa democracia. Chega de analfabeto funcional como legislador e como chefe do executivo.

A democracia é tida como sendo o melhor regime político possível para as sociedades modernas. Eis aí uma fala repetida a exaustão por inúmeras pessoas, para não dizer uma que é uma fala da maioria absoluta. Todavia, como muito bem nos lembrava o finado Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é..., por isso, como já é da natureza dessa coluna ser politicamente incorreta, aqui seremos mais uma vez obrigados, volvendo nossa pena para a direção desta que é tida como sendo redentora e salutar para o progresso da liberdade e da prosperidade da humanidade, que é a dita democracia.

Primeiramente apenas reflitamos sobre a forma como este regime político se adapta a cultura política de uma nação. Isso mesmo. Muitas das vezes ficamos a bradar bravatas contra tudo o que julgamos não ser uma democracia por efetuarmos a nossa “análise” dos fatos a partir de um conceito idealizado de democracia que não existe em lugar algum a não ser em nossa imaginação delirante e que, por sua vez, tornar-se-ia inaplicável mesmo em relação as posturas tomadas por nós mesmos em relação as pessoas que são próximas de nós.

Olha, esse trololó de que um “verdadeiro” regime democrático seria tão só aquele em que todos seriam plenamente iguais não passa de uma quimera. Nem mesmo no berço da democracia, a cidade grega de Atenas, não se estendia o título de cidadãos a todos as pessoas, restringindo a participação na vida pública a apenas uma parcela da sociedade. Devemos lembrar também que nos regimes políticos que se auto-intitulam como sendo uma “democracia-popular”, foram e são justamente os regimes que mais tiranicamente governaram e governam o tal do povo e que mais cinicamente legitimam a desigualdade em nome do mesmo tal.

Ora, em todas as sociedades sempre temos, via de regra, a construção de um conceito de membro honrado da comunidade, conceito este que em nossa sociedade corresponde a alcunha de cidadão. Entretanto, o “ser cidadão” não é, do mesmo modo que a democracia, um conceito que pode ser compreendido de modo abstrato. Sua clara compreensão apenas se dá de modo satisfatório quando somos capazes de contextualizá-lo em sua realidade vivida, pois, este sempre será um conceito normativo que implicará em uma classificação dos atos dos indivíduos enquanto aceitáveis ou não pela comunidade. Ou seja, sempre o “ser cidadão” nada mais seria que um conjunto de atitudes que a comunidade espera que sejam realizadas na seara pública e bem como no universo cotidiano.

É sabido e clarividente que muitas vezes tais valores não se encontram redigidos em um documento oficial que normatize tais práticas, mas, encontram-se descritos de modo deveras evidente em nossa forma de nos relacionarmos com o nosso voto, com os poderes instituídos, com os nossos pares e com nossa consciência. Por isso que acho curioso que em nossa mídia muito se fala dos corruptos, mas pouco ou nada dos corruptores e suas ligações com os corruptos. Nós, meu caro, fazemos parte deste segundo grupo. Ou seja, compreende-se claramente o caráter de um regime democrático a partir do momento que paramos para refletir sobre os valores que norteiam a vida cotidiana das pessoas, ditas cidadãs, de uma dada sociedade, correto?

Por exemplo, o cidadão ateniense, segundo as palavras de Eduardo Mansano Bauman, “optando pela democracia, a exercia, também, de forma bastante diferente da encontrada atualmente. O ato da consciência política do cidadão ateniense não se restringia à legitimação de representantes que fariam, em outras instâncias, as opções que realmente importavam. O ateniense, em seu ato, deliberava diretamente acerca dos assuntos relevantes à vida da POLIS, significando que sua participação era direta e efetiva, e não apenas representativa, o que molda de forma absolutamente diversa a estrutura política daquela sociedade”.

Outro ponto relevante para darmos continuidade as nossas considerações é o fato de que na democracia ateniense havia um conjunto de valores claros para que um indivíduo pudesse integrar a vida política. Ora, vivia-se na polis de Atenas uma democracia fortemente acentuada por valores aristocráticos o que, ao nosso ver, tornava esse modelo originário bastante interessante quando pensamos em nossa “democracia patrimonialista”.

Falta-nos, de modo urgente, um conjunto de valores políticos, éticos e mesmo intelectuais para qualificar o que seria um cidadão em nossa pátria que, a cada dia, mais se assemelha a uma mediocracia. Falta-nos uma boa dose de valores aristocráticos para combater a organização oligárquica de nossa democracia (ou nossa democrática organização de nossas oligarquias).

Isso mesmo meu caro, vamos parar de nhenhenhé e trololó. Nossa patética democracia é apenas isso: um belíssimo arranjo para legitimar a distribuição do poder entre grupelhos que se assenhoram do poder em nossas comunidades locais, nos Estados e em nossa governança Federal e nada mais.

E o pior! Somos nós que tolamente legitimamos isso tudo com nossa participação sonsa na vida política de nossa sociedade. Olha, chega até ser engraçado muitos carros arretamados com adesivos de fulano ou cicrano. Fico a me indagar sobre as razões que levam um mané “enfeitar” o seu carro com a face caricato de outro mané. Passada essa euforia qual atitude que fica de nossa parte além de nosso olhar de moscas tontas frente a melequinha que ficou dos adesivos em nossos veículos e frente a imundice espalhada pelas ruas na forma de santinhos, qual? Alias, nominho mais infeliz para estes pedacinhos de papel, impossível, não é mesmo?

Por isso, sinceramente, acreditamos que uma boa dose de valores aristocráticos poderia revitalizar a nossa democracia. Chega de analfabeto funcional como legislador e como chefe do executivo. Chega de vermos pessoas fazerem da vida pública profissão encastelando-se no poder de modo perene. Chega desta circularidade de oligarquias no poder. Sejamos mais aristocráticos em nossas ponderações como os helenos de Atenas para, pelo menos, elevarmos a nossa via democrática e, gradativamente, abolirmos o mandonismo dos tiranetes populistas de nossa nação se assim desejarmos.

Obviamente que tal ação não se realiza em um ou dois pleitos e muito menos se resolve com a criação de uma nova LEI. Ela ocorrerá apenas a partir do momento em que nós mudarmos a nossa atitude frente o que somos e frente a conseqüência de nosso ser. Sem isso, continuaremos a zanzar nesta assembléia de inconscientes, marionetes do oportunismo alheio por sermos escravos de nossa fome irascível por vantagens pessoais.

Terça, 06 Junho 2006 21:00

Contra-Ponto Sem Ponto

Estava recentemente a reler a obra “O Crepúsculo dos Ídolos” do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e, como sempre, este poeta filosofante conseguiu o que praticamente sempre consegue com esse seu leitor teimoso: suscitar algumas reflexões sobre a desventura humana abaixo da linha do equador.

Estava recentemente a reler a obra “O Crepúsculo dos Ídolos” do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e, como sempre, este poeta filosofante conseguiu o que praticamente sempre consegue com esse seu leitor teimoso: suscitar algumas reflexões sobre a desventura humana abaixo da linha do equador.

O ser humano moderno, o brazuca em especial, é cotidianamente atingido por mordazes golpes de martelo que, em cheio, vão gradativamente moldando a sua capacidade cognitiva, tolhendo o seu olhar frente a realidade vivida, frente a vida dissimulada em um simulacro apelidado de realidade. Tais golpes nos são dirigidos através de nosso sistema educacional ideologicamente constituído, de nossas mídias desinformantes e sorumbáticas e, acima de tudo, de nossa congênita predileção pelo que é-nos fácil e que, no caso, é a acomodação frente ao que aparentemente é incompreensível por temermos ser chamados de burros e, por isso, em muitos casos, preferimos dissimular um pseudo-entendimento para assim acobertar de maneira canhestra a nossa criancice existencial.

Machado de Assis realizou um diagnóstico sobre a nossa maneira brasileira de representar o humano com seus personagens cafajestes e canalhas, principalmente quando esse em seus contos, através da boca de seus personagens afirma que no Brasil fingir é fundamental e que, a verdade (pobre indigente), seria apenas conveniente. E não nos portamos mediocremente assim? Quando nada sabemos fingimos magistralmente tudo entender para melhor iludir os que nada sabem e que, também, fingem que é uma maravilha.

Trocando por dorso, podemos afirmar, mesmo que de modo inconveniente, que o princípio de equilibração apontado por Jean Piaget (perdoe-me mestre pela tosca síntese) seria magicamente desdenhado, pelo menos no caso de nós, brasileiros. Segundo Piaget, todo ser humano seria dotado deste princípio que moveria sempre o indivíduo a procurar um equilíbrio entre o que fora apreendido e processado pela sua capacidade cognitiva e o mundo perceptível a sua volta. Toda vez que um dado novo fosse captado, o indivíduo entraria em uma espécie de “desequilíbrio intelectivo” o que forçaria o elemento a novamente encontrar o seu ponto de equilibração através da compreensão do que lhe foi informado e o tirou de seu estado de “harmonia”. Tal processo iniciaria, a grosso modo, com a singela pergunta: o que é isso? E seguido de uma devida investigação.

E nós, o que fazemos quando estamos diante de informações que nos parecem aparentemente incompreensíveis? Não sei como, mas muitas vezes conseguimos dissimular um “claro” entendimento da situação sem compreender absolutamente nada do que se trata. E pior! Não sei como conseguimos argumentar e dialogar com os sujeitos supostamente informados sobre o dito assunto e fingir uma medonha seriedade no diálogo travado. Pode uma coisa desta? É de morrer!

Exemplo deste tipo de comportamento do homo brasilienses, que pode ser mencionado, foi a forma como nós processamos os atentados perpetrados pelo PCC em conexão com outros movimentos sociais. Inúmeros policiais foram assassinados através de uma ação sincronizada com altíssimo grau de organização e nós, enquanto sociedade, demonstramos um pacato sentimento de normalidade.

Dio Santo! Como continuarmos a tratar uma situação destas como sendo “normal” sabendo que, meses atrás um dos líderes do PCC, em gravação transcrita na revista Veja, confessou que o ministro da Justiça, o senhor Márcio Thomaz Bastos, havia ajudado a organização a obter o apoio do MST e este, até hoje, continua a ocupar o referido cargo com direito a todos os louros que cabem a seu ocupante. Minha burrice congênita não se cala e com um bagual em um baita um coice me pergunta: será que não há nada de errado nesta história toda? Um néscio normal (pelo menos penso que sou um ignaro deste tipo) faria essa pergunta para ter uma visão mais clara sobre o que está ocorrendo, mesmo que a resposta não lhe traga a paz desejada.

Outra informação que seria interessante articular com o atual cenário para podermos, pelo menos, levantarmos algumas questões que poderiam nos tirar dessa torpeza voluntária é a declaração dada pelo senhor Olivério Medina, de que havia ele trazido 5 milhões de dólares doados pelas FARC para a campanha eleitoreira do PT que, ao que parece, de modo algum suscitou alguma indagação que fosse na cívica e inerme massa ignara.

Não podemos também nos esquecer da resistência da governança petista em reconhecer que este grupo, as FARC, pelo que são: um grupo terrorista. Tal postura se explica pelo fato de que ambos integram a mesma organização continental de caráter revolucionário que é o Foro de São Paulo. Bingo! Essa seria uma outra perguntinha interessante para indagarmos e nos incomodarmos: o que é essa dita organização e qual o reflexo de suas ações na América Latina e, em especial, em nosso país? Alias, será que o fato de o partido governista hodierno ser um dos fundadores desta organização não implica em nada nas atuais atitudes de nosso Presidente em relação as “irmãs” Argentina e Bolívia que atualmente são governadas por outros dois membros do referido Foro?

É, bem que Nietzsche, com suas causticas palavras tinha razão na obra citada no início deste libelo quando afirmava que: “Aquele que não sabe dispor sua vontade nas coisas quer ao menos atribuir-lhes um sentido: o que faz acreditar que já existe uma vontade nelas”. Se os atuais fatos nos fogem a compreensão e nossa vontade para refletir sobre eles é nula, então continuemos a desdenhá-los atribuindo-lhes um tosco significado como se tal atitude denotasse uma resolução do caso e, quando algo de maior envergadura vier à tona possamos nos confortar com a crença de que esse seria um golpe do destino e que nós não tínhamos como evitar nada disso. Tudo isso por termos fingido pensar através de um contra-ponto existente apenas em nossa imaginária compreensão da realidade que, sem ponto de referencia tudo pontua para assim nada de concreto apontar.

Sexta, 19 Maio 2006 21:00

Quem é esse tal de neoliberalismo?

Os indivíduos mais odiados por serem apontados como os grandes responsáveis pelas desventuras de nosso país são os ditos liberais e, atualmente, os malditos neoliberais.
Os indivíduos mais odiados por serem apontados como os grandes responsáveis pelas desventuras de nosso país são os ditos liberais e, atualmente, os malditos neoliberais. Perfeito! Entretanto, o grande problema que encontro nesta percepção é que justamente não consigo encontrar os ditos liberais e neoliberais para trocar umas figurinhas. Inclusive entre meus amigos que são economistas por ofício. Os poucos que conheço são via web e, diga-se de passagem, bem poucos.
 
         Por isso me indago diuturnamente: se esses são os grandes responsáveis pela desgraça brasileira das duas uma: ou eles são poderosos demais que, mesmo estando distante das Potestades Estatais e Acadêmicas conseguem desgraçar o país todo ou então, a sociedade brasileira que é muito estúpida e consegue ser persuadida por uma minoria tão ínfima que nem tem o privilégio de ter disponibilizado nas estantes das universidades as suas principais obras em quantia similar às obras marxistas.
 
         Não, meus amigos. Não é nem a primeira e muito menos a segunda opção que responderia a nossa indagação. O problema é que temos aí o uso de um forte estratagema erístico para desviar o foco central da discussão. Estratagema este deveras eficiente que seria empregado do seguinte modo: cria-se um inimigo hipotético e projeta-se sobre ele as mais pesadas injúrias deste e de qualquer outro mundo “possível”. Criado o monstrengo hipotético, basta usar o termo que passou a significar toda a pecha de maldade sobre qualquer adversário real e teremos a transformação do indivíduo no referido monstrengo hipotético.
 
         Esse modo de atuação é claramente perceptível entre os grupelhos que estão a disputar o poder atualmente. Vejam só: o PSDB, partido com estreitas ligações com o Partido Socialista Francês e com o Partido Trabalhista Inglês é nominado como Neoliberal. Atualmente, o PT, partido ligado (e co-fundador) ao Foro de São Paulo, é rotulado pelos malucos do PSTU, PSOL, PCO, PDT e et caterva como sendo também neoliberal. Raios só porque um governo procura adotar uma política monetária austera não significa, necessariamente, que ele seja neoliberal. Se assim o fosse, até a China Comunista seria “neoquarquecoisa”, não é mesmo?
 
         Por isso, coloquemos nossos pés no chão e volvamos nossos olhos para o horizonte e não para as nuvens dos devaneios utópicos. Isso mesmo, vamos procurar refletir um pouco sobre a forma como esse estratagema malicioso é edificado. Alias, diga-se de passagem, a sacanagem epistemológica é tão grande que neste libelo procuraremos apenas apontar um dos muitos casos e que se instrui destruindo qualquer possibilidade de clara compreensão.
 
         Por isso, fiquemos apenas com uma das leituras, das muitas leituras, falaciosas da obra O CAMINHO DA SERVIDÃO de Friedrich A. Von Hayek. Tal leitura sacana se encontra no quarto volume do livro História Crítica de Mário Schmidt, destinado a crianças que estão a freqüentar o 8o. ano do Ensino Fundamental.
 
         Neste livro nós temos o excerto da obra “Pós-liberalismo. As políticas sociais e o Estado Democrático” organizada por Pablo Gentili e Emir Sader. O excerto em questão seria do capítulo “Balanço do Neoliberalismo” escrito por Perry Anderson que diz: “A chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo mundo capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação, mudou todo. A partir daí as idéias liberais passaram a ganhar terreno. [...] As raízes da crise, alegava Hayek e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos, [...] que haviam corroído as bases da acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais”.
 
         Pois bem, mas em nenhum momento é esclarecido por Perry Anderson ou por Mário Schmidt que os sindicados aos quais Hayek se referia eram os sindicatos Corporativistas e, mais especificamente, os sindicatos que serviam de base para partidos políticos como o Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores da Alemanha (Nazista), o Partido Fascista e os Partidos Comunistas e não todo e qualquer sindicato.
 
Cabe também lembrarmos aqui que os sindicatos corporativistas não defendiam os interesses dos trabalhadores de um modo geral, mas sim, de determinados grupos de modo especial que acabava levando a uma supervalorização salarial de um determinado grupo em detrimento dos demais sem uma devida razão plausível que, acima de tudo, feria o princípio liberal de que todos devem ser tratados de modo igual perante a lei.
 
         Outro ponto que acreditamos ser salutar lembrar é o fato de que Hayek combatia gastos com programas assistenciais, ditos sociais, porque, em primeiro lugar, são um ótimo caminho para desviar recursos (corrupção em português bem claro). Em segundo lugar, são sempre recursos oriundos da tributação do setor produtivo (nós, trabalhadores, no caso) que perde forças para alavancar novos investimentos. Nos piores casos, gera-se expansão monetária que leva a nação a mergulhar em um funil inflacionário. A curto prazo, tais práticas são aparentemente ótimas. Uma maravilha! Todavia, em longo prazo, geram recessão, visto que, o bem-estar gerado fora propiciado sem haver o devido contra-ponto do crescimento econômico. Em terceiro lugar: os efeitos nefastos não seriam fruto dos sindicatos em si, mas sim, dos políticos populistas que estariam por traz deles.
 
E mais! Hayek escreveu todo isso na década de 40, mais especificamente em 1946 e tudo o que ele havia previsto em sua obra “O Caminho da Servidão” ocorreu, do mesmo modo que a sua teoria monetária exposta através do que ficou conhecido como os “Triângulos de Hayek”, demonstrada nos idos da década de 20 da centúria passada contra as teorias de Keynes, também. E isso sem falar da teoria das escolhas racionais. Aí também é pedir demais. Mas tudo isso meus caros, é omitido no texto de Anderson (seja no excerto ou no original). E pior! Coloca a sua teoria com sendo a responsável pela crise que se seguiu na década de 80 (a década perdida para nós brasileiros).
 
         Mas, as medidas “neoliberais” não ampliaram a recessão? Sim, pois para que se corrigisse a crise, para que a economia voltasse a patamares reais e, pensadores como ele não procuravam ser populista, mas sim, realistas, como todos nós, reris cidadãos, somos como as nossas finanças, coisa que nenhum populista é com a governança de uma nação.
 
         Dito isso, nos indagamos: se os referidos autores omitem tudo isso de sua obra que visão os seus leitores terão sobre o tal neoliberalismo? Uma visão excessivamente maniqueísta e doutrinária que, por essa mesma razão, o levará a cada vez menos conhecer o que seria a doutrina liberal. Mas, com toda certeza, irá vociferar contra a imagem distorcida que lhe foi inculcada desde tenra idade sem saber do que definitivamente se trata o objeto de sua injúria.
 
 
Terça, 25 Abril 2006 21:00

Educar Para...

Alias, se esse seria o intento de nosso sistema educacional não é estranho que a educação básica seja compulsória mesmo que o seu real acesso não seja universal?

As instituições de ensino atualmente estão sendo incumbidas de tarefas literalmente hercúleas. Tarefas essas que, via de regra, não são só impossíveis de serem cumpridas por elas, mas que, em momento algum, deveriam ter sido atribuídas a elas.

Uma dessas tantas tarefas atribuídas às instituições de ensino é a de “libertar as mentes” dos indivíduos para que eles venham a se tornar “livres pensadores”, pessoas com um “senso-crítico” aguçado e provocador. A intenção, aparentemente é deveras benevolente, mas apenas em aparência e não mais que isso e lhes apontamos o porquê desta nossa afirmação. Libertar o indivíduo de que e para que?

A pergunta é simples e talvez por isso incomode tanto e por esse mesmo motivo seja tão desdenhada. Incomoda pelo fato de termos em nossa nação a troca de uma doutrinação ideológica por outra que, na maioria dos casos, é mais perversa que a primeira. Mas, essa segunda forma de doutrinação se apresenta de forma mais elegante por ter maior número de porta vozes junto ao corpo docente e, por isso, passa a ser tratada como “teoria de ensino-aprendizagem” e não “teoria de manipulação de massas”. Essa segunda agrada o educador-doutrinador e por isso o mesmo entende essa nova escravidão por libertação ou, se preferirmos, pelo fato do doutrinador ver nessa nova alienação da realidade vivida uma expressão mais decantada da dita e escarrada “consciência crítica”. Que nojo!

Ideologia, meus caros, não se combate com contra-ideologia, mas sim, com ilustração, muito estudo e reflexão. Não se acaba com manipulação de massa com outra forma de manipulação, visto que, a única coisa que se troca é a coleira de cão servil e nada mais que isso. Para uma legítima e sincera libertação do intelecto ser ensejada, as instituições de ensino, de um modo geral, não mais devem se ver como entidades libertadoras. Chega das falácias, pois, em muitos casos, nós sabemos que elas são literalmente o inverso.

Por exemplo: o que se entende pela dita consciência crítica nos dias atuais? Nada mais que um decorar mal “frojado” de alguns slogans politicamente corretos ou a assimilação de alguns trejeitos da mesma ordem como se a repetição destes fosse sinalizar que esses indivíduos seriam superiores aos demais. Como se um elemento só pelo fato de proclamar-se a favor da “paz”, ou defensor do “desarmamento” da sociedade civil, ou dizer que em algum momento da vida leu “O manifesto do Partido comunista de 1848”, ou que é contra a dita ALCA, etc., em si, denotasse alguma inteligência superior. Se assim o fosse todo papagaio poderia ser muito bem candidato a mente bem pensante.

O caminho para a liberdade intelectual pode até ser apontado por uma instituição de ensino e até mesmo por uma entidade doutrinadora, porém, nunca estas lhes poderão ofertar a liberdade de pensamento enquanto um de seus regalos. A liberdade é antes de tudo uma ânsia, um clamar individual e não uma promoção de bazar de roupas usadas ou novas. Se este, o clamor pela liberdade, não é cultivado pelo indivíduo, tudo o mais, de antemão, se encontrará fadado ao servilismo como são os casos apontados nas linhas acima e claramente visíveis em nossa sociedade para aqueles que realmente usarem os olhos para observar e analisar a realidade.

Como podemos afirmar que uma pessoa realmente está sendo iniciada no labor do livre pensar, sendo que, boa parte de nós segue sempre o caminho mais cômodo para podermos desenvolver um parecer sobre algum assunto? Nem falemos dos adultos porque esses são muito chatos e cheios de si. Iniciemos pelas pesquisas escolares: o que são a maioria delas senão uma cópia literal de um e outro verbete da Enciclopédia Britânica ou do Almanaque Abril? Raios! Que fome é essa por saber sendo que os mancebos simplesmente realizam cópias chulas e nada meditadas de textos pouco compreendidos?

Provavelmente similar a fome por saber de muitos “educadores” que partiram para realização de uma especialização e lá chegando são incapazes de fazer um trabalho e muito menos mostram-se aptos a fazer uma monografia recorrendo, muitas vezes, de maneira mais que indigna, para o mercado negro dos trabalhos acadêmicos. E, serão esses mesmos elementos que irão falar da dita necessidade de (de)formarmos livres pensadores e que os nossos egressos são indivíduos tomados até os gorgomilos pela desídia.

De um modo geral e muito claro para todo aquele que procura alimentar a suas almas com uma visão sincera da realidade, o que temos hoje em termos de educação, em um nível muito mais elevado do que em outros tempos e de maneira gritante frente a tolerância do bom senso é uma grande encenação, cínica e medíocre, onde todos nós, enquanto sociedade, fingimos estar preocupados com a educação fingindo que sabemos algo e nos indignando com os que, sinceramente, não querem aprender nada e, por isso, fingem, mal, aprender, para assim nos agradar e fazer-nos sentir aliviados diante do fracasso da nossa experiência societal.

Diante disso, julgamos ser basilar a indagação que fizemos linhas atrás: se hoje tanto se fala em educar para libertar seria mais do que plausível indagar-se de quais grilhões temos o intento de livrar as gerações de idade mais tenra. De que e pra que? Alias, se esse seria o intento de nosso sistema educacional não é estranho que a educação básica seja compulsória mesmo que o seu real acesso não seja universarl.

Tais indagações, para realmente terem o devido aprofundamento, devem ser ensaiadas, meditadas e refletidas não só por agentes que atuam diretamente em instituições de ensino, mas sim, por todas as pessoas, principalmente pelos pais e alunos que estão no meio deste angu de caroços burocráticos em uma miscelânea com o fingimento e desdém crônico que nos domina e assombra. Se não for assim, continuaremos a relegar essa responsabilidade para as pessoas que são incumbidas pelos nossos governantes e, creio eu, responsabilidade deste tamanho não deveria ser jamais relegada a um pequeno grupo de pessoas. Alias, a nosso ver, quando lavamos nossas mãos diante das grandes questões que afetam a nossa sociedade, acabamos sempre relegando a resolução das mesmas questões para as pessoas menos preparadas e menos dignas para tratarem de tal questão, tamanha nossa indignidade frente a nossa desqualificada condição de dito cidadão que, tão só nos comprometemos com nossos colossais umbigos.

Domingo, 16 Abril 2006 21:00

O Pecar

É curioso como no correr da modernidade a consciência humana foi gradativamente sendo “libertada” da idéia do pecar colocando-se essa categoria como se fosse uma construção moral danosa para a constituição do livre pensar humano.É curioso como no correr da modernidade a consciência humana foi gradativamente sendo “libertada” da idéia do pecar colocando-se essa categoria como se fosse uma construção moral danosa para a constituição do livre pensar humano. Deste modo, o sentimento de culpa que tal concepção traria à consciência individual seria algo inadmissível para os mais variados projetos de modernidade que foram gestados a partir do século XVIII, visto que, o sentimento de culpa, segundo os pensadores modernos, seria apenas uma concepção usual e preconceituosa que a sociedade nos investiria para assim poder nos dominar com maior facilidade.
 
         Entretanto, o que torna tudo isso algo mais interessante, é o fato de, ao mesmo tempo, que se atira pela janela da alma a concepção do pecado, joga-se junto a própria consciência humana. Isso mesmo. Desde o materialismo histórico, passando pela psicanálise e caindo no buraco doloso do existencialismo sartreano passando pelo pós-estruturalismo foucoultiano o que nós temos sistematicamente é a negação da individualidade humana, onde a visão do humano se restringiria a apenas uma massa orgânica determinada por um amontoado de “múltiplas determinantes” que acabam dando forma ao que somos e nada mais.
 
E quanto ao livre-arbítrio? Bem, seria, segundo eles, outra invenção usada para nos dominar, como a idéia de pecar, pois, a partir dessas concepções, a responsabilidade pelos nossos atos deveriam ser assumidas por nós e não depositada nas costas da sociedade, do sistema ou do raio que nos parta, como querem tanto os pensadores modernos.
 
Todavia, cabe aqui lembrarmos que tal posição de negação do pecar e do livre-arbítrio trouxe para a nossa sociedade algumas características que acabaram por tornar a vida em sociedade cada vez mais em um universo instável. Afirmamos isso devido ao seguinte fato: sociedade, sistema, Estado, em si, são meras abstrações e nada mais. O que lhes dá sentido e existência são apenas as relações de interdependência que são edificadas entre os indivíduos e não uma determinação externa e etérea as relações humanas.
 
E, quando acabamos por depositar a responsabilidade pela sorte humana a categorias abstratas em si, acabamos por libertar toda e qualquer responsabilidade pelos nossos atos, e aí, todos os delitos passam a ter uma “boa” justificativa em um suposto “trauma” sofrido na infância ou na “adolescência”, ou na “exclusão” da sociedade ou na pouca atenção que a sociedade nos oferta pela nossa carência de grandes dotes.
 
Bem, mas é justamente aí que a porca torce o rabo. Se todo o pensar humano é condicionado e controlado, os intelectuais que afirmam poder se libertar de todas essas lorotas socialmente estabelecidas podem apenas ser “seres iluminados”, não é mesmo? Pois, segundo suas “idéias”, todo ser humano é apenas um condicionamento, não mesmo? Ou não seriam eles pessoas extremamente confusas com sua própria existência que, não estando satisfeitos em estar perdidos e desesperados, procuram arrastar uma multidão junto de suas idéias para assim, não se sentirem tão só? Francamente, isso não passa de colóquio flácido para boi dormir.
 
E mais! Segundo o filósofo Olavo de Carvalho: “Na Bíblia, esses dois erros fatais da inteligência humana já estavam anunciados com muita precisão. A ilusão de julgar o mundo enquanto se está dentro dele é o “conhecimento do bem e do mal” que a serpente promete a Eva. O muro que veda o acesso à transcendência é a “insensatez” que limita a visão da existência à esfera do imediatamente acessível.[...] O primeiro promete a posse de um conhecimento impossível; o segundo inibe e frustra a aquisição de um conhecimento possível. Correspondem a dois nomes do demônio: Lúcifer e Satã. O demônio da falsa luz e o demônio das trevas falsamente triunfantes. O demônio do conhecimento errado e o demônio da ignorância soberba”. O demônio da negação do erro e o que nega a própria consciência individual.
 
Mas Carvalho é um filho de nossa época, brazuca, contemporâneo nosso. Aí não vale, que pena!
 
Então, recorramos ao Doutor Angélico, Sto. Tomás de Aquino. Segundo o Aquinate, os vícios capitais seriam a vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia (preguiça). Todos eles se fundamentariam em algum desejo natural e o homem, ao seguir qualquer desejo natural, tende à semelhança divina, pois todo bem naturalmente desejado é uma certa semelhança com a bondade divina. Deste modo, o pecado seria o desvio da reta apropriação de um bem, como muito bem nos explica o filósofo Jean Lauand. E, continua Lauand, se a busca da própria excelência é um bem, a desordem, é o desvio dessa busca, é a soberba que, assim, se encontra em qualquer pecado: seja por recusar a superioridade de Deus que dá uma norma, norma esta recusada pelo pecado.
 
Deste modo, poderíamos com grande franqueza afirmar que a humanidade na modernidade carece por demais cultivar o que poderíamos denominar por consciência do pecar (dos erros) para assim curar a ressaca de tanta “consciência [supostamente] crítica” que tanto nega a responsabilidade do indivíduo que, essa mesma consciência afirma não existir.
 
Provavelmente se estivéssemos munidos de uma visão clara de nossos pecados, com toda certeza os pesares que recaíram sob a humanidade na centúria que findou, pesares estes, que continuam a nos acompanhar neste milênio, não seriam da magnitude que são, visto o fato de que, cada um de nós, ao invés de estarmos a procura de um bode expiatório para as nossas faltas estaríamos cada qual abraçando o nosso fardo e seguindo o nosso caminho, construindo o nosso destino.
 
Mas, como todos nós temos um certo pavor de sentirmo-nos culpados de algo, seguimos muitas vezes a via espúria da hipotética libertação em nosso esforço de negação da responsabilidade individual em detrimento da culpa coletiva simbolizada em alguma entidade abstrata que todos passamos a vitimar para assim nos sentirmos mais aliviados, sem, todavia, deixarmos de sermos culpados e responsáveis pela nossa tragédia existencial.
 
De mais a mais, quem a de nos julgar não é um mane como o que vos escreve, mas apenas Aquele que É, que tanto tentamos imitar pelos nossos desvios travestidos de suposta decência moderninha.
Domingo, 09 Abril 2006 21:00

Da Dignidade Humana

"Que cada um respeite o próximo, sem exceção, como "outro eu", levando em consideração antes de tudo a sua vida e os meios necessários para mantê-la dignamente".Nossa sociedade, nestes dias hodiernos, vive dificuldades econômicas, políticas e sociais gritantes beirando muitas vezes as raias do desespero. Isso, não é segredo para ninguém. E, diante dessa realidade, mais do que nunca vemos a dignidade humana sendo colocada em cheque, sendo vilipendiada, usurpada, negada a inúmeros de nossos semelhantes e, muitas vezes, nós mesmo acabamos por fazer isso, das formas mais estúpidas possíveis, não é mesmo? Por isso, tendo a frente de nós a Doutrina Sagrada Judaico-Cristã, cremos ser fundamental que reflitamos sobre a dignidade que é inerente a toda e qualquer criatura humana e que, por miopia existencial, acaba sendo negada por nós a muitos seres humanos tão humanos quanto nós.

Poderíamos iniciar através das veredas apontadas pelas seguintes questões: O que seria a dignidade e como ela se manifesta na criatura que foi criada a imagem e semelhança de Deus? Como a Sagrada Escritura tratam esse assunto? O que Cristo Jesus diria e como ele agiria diante das inúmeras violações realizadas contra a dignidade de pessoas inocentes?

Alias, o que seria a dignidade? Em si, seria um imperativo categórico que em hipótese alguma pode ser relativizado, por que tal valor seria intrínseco ao indivíduo. Ou, segundo a formula kantiana, todos nós deveríamos agir de tal forma que tratássemos a humanidade, tanto na nossa pessoa como na pessoa de qualquer pessoa humana, sempre como um fim em si mesmo e não como um meio para se chegar até algo.

Pois bem, mas qual seria o imperativo categórico do Cristianismo? Qual seria o valor que estaria inerente à pessoa humana segundo ao Doutrina Sagrada revelada nas Sagradas Escrituras?

Podemos ler no Livro do Gênese (I: 26-27) as seguintes palavras: Deus disse: “Façamos o homem a nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou”. Deste modo, toda vida humana seria, em si, Sagrada, justamente pelo fato de ser a própria imagem e semelhança Daquele que É. E não apenas isso. Quando abrimos a Bíblia, mais especificamente no Evangelho de São Mateus (XXV, 45), lemos que: “Todas as vezes que o deixastes de fazer a um desses pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer”.

Muito bem, e se estamos bem lembrados de nossas lições dominicais, sabemos claramente que não apenas é um imperativo categórico o fato de sermos a imagem e semelhança de Deus, pois, além disso, Aquele que É, fez-se carne e sangue para viver junto de nós e como nós para assim redimir as nossas faltas e, deste modo, reforçar o valor, a importância de nossa existência. E, para tal imperativo, o Rei dos reis solicita apenas que procuremos tratar o nosso semelhante como tratamos a nós mesmos e, nada mais. Não foi essa a mensagem deixada? Todavia, tal pedido não é algo compulsório, mas sim, como afirmamos, é apenas um pedido, um convite para uma longa e dura jornada que é a batalha contra as nossas mais adjetas paixões. Paixões essas que nos apegamos a ponto de macularmos o reflexo Divino que envolve a criatura humana tornando-nos cegos para a Sacra dignidade que se faz luzir nos olhos de qualquer pessoa.

Sobre esse aspecto, o da liberdade, o Concílio Vaticano II, nos trás mais alguns esclarecimentos. Segundo esse texto: “O homem não pode voltar-se para bem a não ser livremente. Os nossos contemporâneos exaltam e defendem com ardor a liberdade. E de fato com razão. Contudo eles a fomentam, muitas vezes de maneira viciada, como uma licença de fazer tudo o que agrada, mesmo o mal. A verdadeira liberdade, porém é sinal eminente da imagem de Deus no homem. Pois Deus quis ‘deixar o homem o poder de decidir’, para que assim procure espontaneamente o seu Criador”.

Tal prerrogativa se faz presente e inerente a Doutrina Sagrada, pelo simples fato de que a Salvação e preservação da Divina dignidade humana não ocorrerão exteriormente, mas sim, quanto tal pulsão para o Bem eclodir do âmago de nossa alma. E, de mais a mais, o “bem” feito de maneira compulsória apenas gera novos males, piores do que os existentes. Para averiguar isso, basta que reflitamos sobre a boa intenção dos comunistas e seus nefastos frutos de suas trágicas obras.

E, por essa razão, o texto do Concílio Vaticano II é claro quanto afirma que: “A dignidade do homem exige que se possa agir de acordo com uma opção consciente e livre, isto é, movido e levado por convicção pessoal e não por força de um impulso cego ou debaixo de uma mera coação. O homem consegue a sua dignidade quando, liberado de todo o cativeiro das paixões, caminha para o seu fim pela livre escolha do bem e procura eficazmente os meios aptos com diligente aplicação”.

Sem mais delongas, nos perguntamos sobre o exposto: se é apenas através das veredas da liberdade que podemos nos encontrar com o Sapientíssimo, por que insistimos tanto em uma postura coativa para podermos supostamente propagar a Verdade revelada que afirmamos viver e seguir? Se, é apenas através da liberdade que podemos ter o respeito e a preservação da dignidade humana, por que vemos muitas vezes, como sendo algo de bom grato, uma atitude autoritária para se impor uma determinada ordem? Alias, se somos tão bons e pios, por que fazemos na maioria das vezes o uso de subterfúgios despóticos para podermos fazer valerem os nossos interesses e supostas opiniões?

Ora, meu caro, “O respeito pela pessoa humana passa pelo respeito deste princípio: ‘Que cada um respeite o próximo, sem exceção, como ‘outro eu’, levando em consideração antes de tudo a sua vida e os meios necessários para mantê-la dignamente’. Nenhuma lei seria capaz, só por si, de fazer desaparecer os temores, os preconceitos, as atitudes de orgulho e o egoísmo que constituem obstáculo para o estabelecimento de sociedades verdadeiramente fraternais”. Pelo menos é o que está escrito no Catecismo da Igreja Católica Apostólica Romana (p. 446). Agora, se essas palavras estão escritas em nossos corações marcando profundamente nossas atitudes com seus ensinamentos como se fosse uma chama viva e salutar, isso é uma outra história, uma prosa profundamente sincera que cabe a cada um de nós ter consigo mesmo. Não com esse hipócrita que vos escreve.
Quinta, 23 Fevereiro 2006 21:00

Da Hipocrisia da Santidade

Em meio a colossal degenerescência moral que vem assolando a cena pública de nosso país, ainda há aqueles que se dão ao trabalho de atirar mais algumas pedras no infeliz transeunte que mal e mal sabe o seu nome.

Coitado do “Zé povinho”. Em meio a colossal degenerescência moral que vem assolando a cena pública de nosso país, ainda há aqueles que se dão ao trabalho de atirar mais algumas pedras no infeliz transeunte que mal e mal sabe o seu nome como, se este fosse, o único comerciante de votos em atividade em nossa nação.

Já é conhecido de todos nós as inúmeras histórias absurdas, algumas que chegam a beirar o universo surreal da demência demasiadamente humana, que preenchiam e, de certo modo, ainda preenche o cenário político nacional como: a troca de um voto por uma dentadura, por um par de sapatos, por uma cesta básica, por um cobertor, por um casaco, por alguns trocados, etc. São indivíduos que pelo fato de estarem vivendo a margem das condições básicas para o exercício da cidadania que, por esse mesmo motivo, apresentam-se incapacitados de reconhecer na sua participação em um pleito eleitoral a devida importância, imperial, diga-se de passagem, que seu voto tem para uma positiva transmutação da ordem social e política. Não encontram nele, no voto, o significado áureo deste gesto, por isso, trocam-no por qualquer bem que esses estejam necessitando, de modo similar aos silvícolas ameríndios do início da dominação lusitana que, por não valorarem a madeira do pau-brasil, a trocavam por qualquer bugiganga que os portugueses lhes ofertassem acreditando que, estariam ainda a fazer um bom negócio. Essas pessoas que realizam esse tipo de ato, não o fazem por pura maldade e muito menos por estupidez congênita ou simplesmente por serem alienadas, como muitos preferem chamar. O fazem porque a sociedade lhes arrombou a dignidade desde o berço. O fazem porque eles mesmos se vêem excluídos do processo político e, quando lhes chega um senhor ou senhora de boa lábia (mas péssima índole) lhes falar e lhes ofertar benesses materiais, esses, acabam aceitando de bom grado, visto o fato de praticamente nunca serem agraciados pela vida na selva de pedra.

De mais a mais, mesmo compactuando com esse tipo de prática, os desvalidos da sociedade não participam deste troca-troca eleitoreiro de maneira passiva e apática. Jogam o jogo de acordo com as regras dadas e, deste modo, procuram tirar alguma vantagem da pérfida situação, devido o fato de não haver nota fiscal e muito menos recibo desta prática comercial escusa além da coação moral dos meliantes candidatos a augustos representantes do “povo”. Apenas a título de ilustração, fazemos saber que, em certa vez, em uma entrevista que estávamos desenvolvendo com alguns trabalhadores rurais, acabamos por tropicar no assunto política e eleições. Um deles de maneira espontânea e bem humorada disse-nos: “Olha moço, eu vou te dizer uma coisa. Eu não só vendi o meu voto pra toda essa corja, como “trabalhei” pra quase todos eles. Pelo menos foi o que eu disse pra eles.

Olha, naqueles dias de campanha eu ia direto pro alagado e sempre estava com o tanque do meu carro vomitando de tanta gasolina que eles me davam. Só que eu não votei pra nenhum destes caiporas e nem devia, não é mesmo”? Podemos dizer que neste caso como em muitos outros similares que se encenam em todo o território nacional, o adágio popular cabe como uma luva quando afirma que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Como também, cai como uma luva as lições do sociólogo Michel de Certeau, quando esse afirma que todo ato de consumo, como todo ato humano, não é um ato passivo, mas sim, criativo. Por mais que a sociedade acabe criando mecanismos de controle, padrões estéticos e de comportamento, as pessoas não os assimilam de maneira passiva, dizendo amém ao que lhes é imposto e deixando-se sujeitar por inteiro as inúmeras formas de dominação. As pessoas as assimilam, porém à sua maneira e, de certo modo, dão o seu pitáco nas regras. Elas se apropriam ou se reapropriam dos bens, regras, produtos e de tudo o mais que lhes é imposto e as utilizam ao seu modo e mesmo que de modo microscópico, procurando sempre obter uma posição vantajosa em relação ao seu opressor, fazendo o jogo do dominador para assim diminuir a sua dominação. Trocando em moela: sociologicamente essa postura adotada pelos populares é explicável e moralmente compreensível, o que não significa que seja aceitável.

Por isso mesmo, o que nos impressiona não é a atitude destes desvalidados pela nossa realidade soturna. O que desgasta minhas entranhas com uma cólera abissal é vermos pessoas de classe média, pessoas que tem acesso a condições básicas para o exercício da cidadania, que dispõem de um grau de instrução relativamente bom e que, mesmo assim, trocam os seus votos por vantagens que eles, por serem caras de pau ou por sem-vergonhice pura afirmam de pés juntinhos que não é venda de voto não!

Alias, são eles os primeiros a encherem a boca para afirmar que a culpa de termos políticos corruptos é do tal do “povo” que vende os seu voto por ninharias. Talvez estejam afirmando que o “povo” deveria fazer como eles: vender os seus votos por algo mais aquilatado como um bom emprego ou cargo para si ou para algum familiar seu, ou uma facilidade no ganho de uma licitação, etc. Mas nunca miudeza. Isso é coisa de pobre. Por fim, senhores bem instruídos que vivem jogando a sua dignidade e de seus descendentes na lata de lixo populista, não estou aqui para dizer-lhes que vocês estão errados, que vocês devem parar com a prática do tráfico de influência mesquinho que dá sustentação a seu parasitismo passivo. Não mesmo. Mas lhes digo, com direito a dedada na cara: parem, pelo amor de Deus, de simularem santidade perante os outros para acobertar a sua hipocrisia covarde que acoberta a sua cumplicidade passiva com os criminosos que de tempos em tempos se entrincheiram nas entras da maquinaria Estatal com esse falso moralismo ridículo que vocês adoram encenar.

Se quiser continuar a comercializar sua dignidade, o problema maior será daqueles que ainda não nasceram, não é mesmo? Mas, pelo menos, tenha a mesma vergonha na cara que o dito “Zé povinho” que vocês dizem ser o grande mal deste país e que, por incrível que possa lhes parecer, tem muito mais sangue nas veias do que baratas tontas como eu e você poderão, um dia, ser capazes de imaginar.

Segunda, 28 Novembro 2005 21:00

E Agora José?

O que faz algo ou alguém ser realmente transparente? As palavras de ocasião, ou a postura constante de retidão?Depois de algum tempo fora de circulação, o zine E agora José? volta a estampar pelas ruas de Reserva do Iguaçu um olhar crítico sobre a realidade e, principalmente, sobre a condição humana.

E aqui, continuamos a nossa luta soturna contra as “almas sebosas” que tornam a nossa sociedade uma grande maré de lama moral e lodo espiritual. A luta não é fácil, mas apenas assim podemos afirmar que estamos a travar a Boa Luta.

Reflexões nada oportunas...para alguns...

Segundo o artigo 5º da Constituição Brasileira, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...”. E como todos nós sabemos que a Carta Constitucional de 1988 é válida em todo o território nacional, menos no Estado do Paraná.
 
Exemplo do que afirmamos são as eleições para diretores que ocorreram em todo o Estado onde todos os membros das comunidades inúmeras escolares (pais e alunos) são iguais, porém, os professores e funcionários são, no Paraná, mais iguais que os outros.
 
Isso mesmo. Parece brincadeira, mas a voz da comunidade praticamente fica invalidada pela voz de meia dúzia de professores e funcionários pelo simples fato do voto destes ter um peso superior em relação ao dos demais cidadãos dentro do processo eletivo para diretores.
 
Tentou-se calar a voz de Cidadãos insatisfeitos com o estado que se encontra a educação. Vozes caladas pelo despotismo de algumas regras ditas democráticas que regem a nossa sociedade o que, de modo algum, fere a nossa altivez ou invalida a boa luta travada por todos nós em nosso dia a dia em nome da melhoria da educação.
Mas não fiquemos macambúzios nem aborrecidos com este fato, pois nós com nossa união conseguimos demonstrar a nossa insatisfação e, acima de tudo, nossa força e dignidade.

Assim ou assado?
 
O que é ser uma pessoa crítica? Primeiramente, é ser uma pessoa com um ponto de vista que causa incomodo na vida dos acomodados. Se você é daqueles que demonstram através de seus gestos e palavras a hipocrisia dos conformados, parabéns! Você é uma pessoa crítica, por isso, incômoda.
 
Muitos se dizem pessoas críticas, apesar de viverem conforme a música dos marajás de insistem em controlar a vida das pessoas. De mais a mais, da boca pra fora, muitas pessoas se dizem muitas coisas, mas por dentro tem suas almas dilaceradas pela sua delirante iniqüidade, não sabendo mais qual de suas duas caras é a sua verdadeira face.
Entretanto, os críticos de alma e palavra não são difíceis de serem reconhecidos, pois estes, são pessoas por inteiro, sem meias palavras, que olham a vida a partir da realidade dos fatos, não a partir do medo insuflado pelos covardes que nos juram generosa amizade e pelas costas nos apunhalam dia à dia.
Assim é o cidadão crítico. O resto é apenas isso: resto de si mesmo.
 
O que é o E AGORA JOSÉ?

O E agora José? é um fanzine independente onde um reris cidadão ousa falar o que pensa sobre o mundo que vê. A sua distribuição é gratuita. As idéias não. O preço é a sua reflexão. Mas, se isso não for possível, o seu incomodo diante dos injustos fatos, para nós, já está de bom tamanho.

A pergunta que não quer calar mesmo calada...

O que faz algo ou alguém ser realmente transparente? As palavras de ocasião, ou a postura constante de retidão?
Segunda, 14 Novembro 2005 21:00

Acredite Se Quiser

É compreensível que muitas vezes desconheçamos o significado de uma e outra palavra do vernáculo de nossa língua materna, todavia, essa que está em questão, é uma palavra extremamente cotidiana e, o seu significado lhe era desconhecido.
Há certos momentos em que um educador pira na batatinha, bate com a caixa craniana na parede pra ver se os neurônios realmente estão processando de maneira clara as informações que são captadas pelos nossos sentidos e assim ter certeza de que o que ele está constatando não é um mero devaneio e sim um dado concreto da realidade sensível captada.

Recentemente vivi um desses momentos que, diga-se de passagem, foi deveras desesperador. Estou até agora com a sua imagem em minha mente e não consegui ainda processar o que eu presenciei. Ou melhor, não estou querendo acreditar no que eu vi e ouvi, tamanho foi meu estado de perplexidade, o qual compartilho aqui com vocês através destas linhas mal fadadas.

Estava eu em uma biblioteca a ler pacientemente um livro quanto, de repente, uma moça interpela-me para perguntar-me o que significava a palavra “unificação”. Isso mesmo amigo leitor, a moça, que cursa um curso superior qualquer, em uma Faculdade como tantas outras, não sabia o que significava a palavra “unificação”.

É compreensível que muitas vezes desconheçamos o significado de uma e outra palavra do vernáculo de nossa língua materna, todavia, essa que está em questão, é uma palavra extremamente cotidiana e, o seu significado lhe era desconhecido.

Se a moça fosse uma aluna do Ensino Fundamental, o caso era aceitável. Se estivesse a cursar o Ensino Médio, tornar-se-ía preocupante. Entretanto, em um Curso Superior, o caso chega a se tornar digno daquele programa que era exibido na antiga Rede Manchete de Televisão: “Acredite, se quiser”!

Mas, em fim, o que nos preocupa é que provavelmente este não é um caso isolado e que, em um futuro próximo, teremos pessoas deste quilate diplomadas pelas Faculdades brasileiras e que, arrogarão para si, a imagem de doutos por serem possuidores de um canudo de papel que lhes valida a sua uma douta nesciedade.

Alias, este fenômeno já está dando os seus primeiros frutos podres na quitanda do saber. O primeiro nos vem da "Disneylândia sem graça", Brasília, que nos oferta mais de uma palhaçada por dia, onde um bando de patetas, ditos intelectuais renomados, que entregaram na Câmara dos Deputados um manifesto em favor de José Dirceu, alegando que o processo é "uma afronta às regras democráticas cuja conquista custou tanta luta e sacrifício". O que nós podemos pensar a respeito de uma cena como esta? Como respeitar intelectuais que, até pouco tempo posavam de baluartes da éti[ti]ca e agora, passam a mão na cabeça do senhor José Dirceu só porque ele é petista e pupilo de Fidel Castro e, por isso, pode cometer qualquer leviandade e sair ileso?

Todavia, a loucura não apenas está endereçada em terras distantes de nossas paragens no terceiro planalto paranaense. Ela mora bem em nosso âmago. Nesta semana, foi realizado pela UNICENTRO o segundo Psiu Training, onde convidaram nada mais, nada menos que INRI Cristo, o lunático que diz ser o próprio Cristo Jesus que teria retornado para a redenção de nossas faltas.

Aí, fico aqui a me indagar com minha ignorância abotoada e de pijamas: será que o universo intelectual paranaense não dispunha de nenhuma estrela mais interessante para integrar um debate em uma Instituição de Ensino Superior mantida com verbas públicas? Será que as Universidades Paranaenses estão tão folgadas em seus orçamentos a ponto de se darem ao luxo de "investir" em um espetáculo grotesco como este? Será que não ocorreu a ninguém nesta egrégia casa do saber que isso seria, no mínimo, uma falta de respeito para com os cidadãos desta nação que, através de seus tributos, ajudam a manter Instituições como ela?

Houve um tempo, nos primórdios da criação das primeiras Universidades, as UNIVERSITAS MAGISTRORUM EST SCHOLIARUM, inspiradas nas Escolas Neoplatônicas, em que os seus membros procuravam congregar as mais elevadas mentes pensantes de seu tempo, pois, a função prima que lhes fora atribuída era a preservação do patrimônio cultural da humanidade e sua ampliação através de zelosos e cautelosos estudos. E, o que vemos nos dias hodiernos e "odientos"? Minha Santa Tereza de Ávila, o que podemos dizer deste cenário que está se armando em nossa sociedade?

Tenho receio até mesmo de pensar sobre o assunto. Por isso, fico com as palavras de Sto. Tomás de Aquino que em sua Suma Teológica nos dizia que, "Há de se notar que um indivíduo, vivendo em sociedade, constitui de certo modo uma parte ou um membro desta sociedade. Por isso, aquele que faz algo para o bem ou para o mal de um de seus membros atinge, com isso, a toda a sociedade".

E, sendo assim, creio que todos aqueles que integram uma Instituição de Ensino Superior, incluso eu, seja na posição de docente ou discente, devem passar a refletir sobre a forma que estamos a influir a sociedade. Devemos meditar sobre os reflexos dolosos de nossa ação no corpo societal que, a olhos vistos, já se fazem bem presentes e nós, cinicamente, agimos como se isso não tivesse nada haver com o nosso modo de ser. Por isso, reflitamos!

Ah! Mas é Claro! Isso se não nos acharmos imaculados seres que supostamente estejam acima do bem e do mal, não é mesmo?
Segunda, 17 Outubro 2005 21:00

Os Calos do Caráter

Pelo simples fato que não é a miséria a causa da violência, mas sim, uma das inúmeras circunstâncias em que ela pode vir a si manifestar.Em um depoimento dado por Victor Frank, grande psiquiatra e pai do que ele denominava psiquiatria das alturas, em oposição à psiquiatria profunda freudiana, disse-nos que em uma visita a um presídio, onde proferiu uma palestra e ele, ao invés de bajular os detentos dizendo-lhes que eles cometeram tais e quais crimes porque tiveram um trauma na infância, ou porque o sistema os excluiu, ou devido as suas circunstâncias sócio-econômicas, disse-lhes unicamente que eles eram plenamente culpados por tudo que eles fizeram, que como ele, todos que ali estavam tiveram a oportunidade de escolher, de optar pelo caminho que desejassem trilhar e eles, escolheram a senda da criminalidade e por isso deveriam pagar pelos seus atos frente a sociedade.

Tal assertiva, nos dias de hoje, soa nos ouvidos de muitos com se fosse uma violação aos direitos humanos. Como se pode afirmar isso?, diriam alguns. Que um indivíduo, vítima da sociedade, do sistema, pode ser responsabilizado um crime, sendo que quem primeiro fora agredido foi ele, por ter sido excluído? Ora, pode se afirmar isso sim, bastando que acabemos com a confusão que há entre o que seja a causa e o que seja a circunstância em que um ato doloso é cometido.

Afirmamos isso, pois, é lugar comum também entre nós, ouvir-se a afirmativa de que a causa prima da violência é a miséria. Aí eu pergunto: se esta é a causa prima desta chaga, por que então há cada vez mais um número crescente de delinqüentes em meio a famílias abastadas? Ou então, por que em meio a tanta pobreza que impera em uma favela, podemos encontrar tanta dignidade nas faces da maioria de seus habitantes, ao invés de um olhar criminoso em potencial? Se a violência nasce deste fato, como pode, existir na história da humanidade tantos casos de Santidade entre pessoas que optaram viver como mendigos e fundando Ordens Sacras?

Pelo simples fato que não é a miséria a causa da violência, mas sim, uma das inúmeras circunstâncias em que ela pode vir a si manifestar. E nesta tentativa populista das classes falantes de “agradar” os mais humildes em suas falas proferidas quase que sempre, a pessoas de classe mediana, acabam sim, por insulta-los de maneira injusta e imperdoável.

Como assim? Ora, se a carência material é a causa da violência, a pessoa humilde, poderá ser apenas duas coisas em sua vida: ou um bandido por predestinação, ou um otário por optar em ser digno e preferir ganhar a sua vida com o suor que escorre de seu rosto. Mas, como eu não engrosso esta fileira que vive a repedir esta verborréia, afirmo que, não é a pobreza material a causa da violência, mas sim, a pobreza espiritual. É violenta a pessoa que não tem uma constituição sólida de valores, é violenta a pessoa que pensa que o mundo foi feito para ela e para satisfazer todas as suas sandices.

Com toda certeza, não sofriam da primeira os assassinos do índio Galdino, mas e quanto a segunda? E um Fernadinho Beira-mar, até que ponto a circunstância em que ele nasceu justifica a sua brutalidade, visto que, já há muito ele não mais sofre de carências materiais? Até quanto criminosos serão tratados como adolescentes?

Provavelmente até, a sociedade brasileira chegar a Idade da Razão. E que ela chegue, mesmo que tardiamente.
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