Sáb01182020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Segunda, 20 Agosto 2007 21:00

Em Busca de Um Sentido

É curioso, para não dizer patético, como muitas pessoas em sua crença de poder transformar em algo melhor, em “um mundo melhor possível”, acabam revelando, através de sua face benevolente, toda a sua truculência. Toda a sua crueldade.

“[...]ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz.

Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo te condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles”.
(Rm 2, I: 01)

 

É curioso, para não dizer patético, como muitas pessoas em sua crença de poder transformar em algo melhor, em “um mundo melhor possível”, acabam revelando, através de sua face benevolente, toda a sua truculência. Toda a sua crueldade.

Para começo de prosa, os indivíduos que condenam moralmente toda a humanidade por seus passos turvos e pelos seus tropeções aqui e acolá, apresentam, logo de cara, uma reforma total do ser humano e da sociedade só podem ser compreendidos como seres demoníacos. Nada mais e nada menos que isso.

Um indivíduo que afirma que tudo no mundo está carcomido pela corrupção e que ele, com sua cabecinha de toucinho, iluminada, tem uma proposta salvífica para todos nós está simplesmente se proclamando Deus. Isso mesmo! Um indivíduo que, muitas das vezes, decora algumas frases e outro tanto de jargões e acredita que as “suas convicções” são um bálsamo para toda humanidade é um demente perigoso.

No fundo, o que essa gente cheia de boa vontade quer é simplesmente tornar o mundo a sua imagem e semelhança (que medo) devido a seu pavor nascido de seu sentimento de impotência advindo de sua ignorância congênita. Ou seja: tenta purificar o mundo com o excremento de suas almas putrefazes.

Nenhuma das grandes tragédias que assombraram a humanidade foi desencadeada por pura crueldade. Todas elas foram movidas pelo desejo de fazer justiça, de libertar os oprimidos de construir um mundo melhor. Tudo isso feito pelas mãos de pessoas embebidas em sua vaidade tornando-se incapazes de perceber e compreender os males que estavam por desencadear, pois estas, viam-se e vêem-se, como seres acima do bem e do mal.

Desde a Revolução Francesa até as Ditaduras Comunistas (que eles denominam como “populares” ou “Democracias populares”) o cenário desenhado é este: tragédias e mais tragédias tangidas em um só couro em nome da humanidade, mesmo que isso custe a vida, a liberdade, a dignidade de milhões de seres humanos.

Ou seja: por não compreenderem de modo claro o sentido da vida, por não entenderem de modo lúcido o que é o ser humano, estas pessoas, perturbadas espiritualmente, acabam inventando toda uma nova antropovisão que só existe em suas mentes e, conseqüentemente, acabam atribuindo um novo propósito para o existir.

Deste modo, seguindo esse tipo de raciocínio, muitos pensadores acabaram elaborando sistemas filosóficos que procuravam criar uma nova fundamentação para o ser humano em total contradição com o que o ser humano é de fato.

Exemplo interessante deste problema é o marxismo que hoje se faz presente (de modo sutil ou cavalar) em todas as searas do conhecimento inerentes as ciências humanas.

Quando lemos o Manifesto do Partido Comunista de 1848, temos diante de nós o manifesto da Liga dos 12 Justos, uma sociedade secreta que Karl Marx e Friedrich Engels haviam se tornado membros em 1847. O documento que declara os intentos de um “socialismo (dito) científico” não passaria de um texto com um vocabulário modernizado dos fundamentos dos Illuminatis da Baviera que bradavam aos quatro ventos: "FIAT JUSTITIA, RUAT COELUM". (Faça-se a justiça, mesmo que desabem os céus)

Enfim, Marx foi um homem que proclamou a necessidade de transformar o mundo, não de pensá-lo. Conseguiu. Creio que ele não desejava tudo o que foi edificado a partir de sua obra, mas não havia como não o ser. Como esperar bons frutos das longas laudas de “O Capital”, obra que redigida com base em dados manipulados dos Blue books do Parlamento Britânico? Ou seja: negando extratos da realidade para melhor transforma-la de acordo com os seus propósitos.

Um homem cheio de boas intenções, mas de pouquíssimas ações sinceras. Similar aos seus seguidores que inundam o mundo hodierno com sua indignação de iluminados.

Sábado, 04 Agosto 2007 21:00

O Descontínuo em Formação

Não é à toa que este país está no estado em que se encotra. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é. Todos querem transformar o sistema, sem reconhecer nas falhas deste a sua própria contribuição.

Houve um tempo em que todos afirmavam que quando concluíam um curso superior eles estavam libertos, que não mais necessitaríam estar sentados nos bancos escolares. Houve um tempo em que um título representava a consumação de um processo de aprendizado, conferindo a este indivíduo um status de suposta superioridade.

Este tempo, obviamente, ainda não findou totalmente na mente de muitos educadores e das pessoas de um modo geral. Não por sua responsabilidade em si, mas sim, pelo fato de vivermos em uma sociedade como a brasileira onde os títulos, por mais parvos que sejam, são apresentados como sendo um símbolo de “superioridade”. Quantos já não viram um ambiente decorado com um diploma de datilógrafo ou diploma similar? O que dizer então do poder simbólico de um diploma Universitário?

Mas, em fim, o que nos interessa aqui nestas linhas é a abertura para uma reflexão sincera sobre a necessidade do estudo constante temperado por uma reflexão perene sobre o nosso ofício e, principalmente, sobre nossas pessoas, pois, triste é a vida humana que não se permite um momento de reflexão sobre a imagem construída de si. Infeliz é a pessoa que se fecha em copas para qualquer possibilidade de reflexão individual e grupal sobre suas práticas e saberes, pois, pessoas de alma obtusa como estas, são muitíssimo semelhante as rochas que, com o devir do tempo apenas se decompõem e nada mais.

Ao nosso ver, todo e qualquer momento em que mais de uma pessoa se reúnem em uma confraria ou em uma reunião formal para discutir, para aprender, temos presente um sinal de maturidade intelectual. Não há nada de errado em estar errado sobre nossa atuação docente. O que é um erro capital é temer a auto-correção deste e esquivar-se dela como o diabo se esquiva da cruz.

Diante disso, temos que ter em vista, sempre, que o nosso maior adversário está em nós mesmo. Está em nosso medo de que reconheçam a nossa humanidade, que identifiquem a nossa falibilidade. Temos a publicidade de nosso íntimo.

Ora, errar é humano. Corrigir o seu próprio erro é divino. Mas, esquivar-se de nossa humanidade e negarmos a possibilidade divinal nada mais é que estupidez e da brava. E o que é mais interessante nisso tudo: estes mesmos indivíduos que afirmam constantemente a necessidade da transformação da sociedade se negam a possibilidade de transformarem-se a si mesmos.

Não é à toa que este país está no estado em que se encotra. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é. Todos querem transformar o sistema, sem reconhecer nas falhas deste a sua própria contribuição.

Quinta, 26 Julho 2007 21:00

O Que Significa Ser Um Povo?

Eis aí uma pergunta interessante. O que nos faz ser o que somos? Fundamentalmente, de que modo poderíamos apresentar o homo brasilienses?

Eis aí uma pergunta interessante. O que nos faz ser o que somos? Fundamentalmente, de que modo poderíamos apresentar o homo brasilienses? Definir o ethos de uma sociedade não é uma tarefa fácil, de modo algum, mas, por essa mesma razão faz-se instigante.

São muitas as nuanças que acabam determinando a maneira de ser de um povo. O que é importante sempre lembrarmos é que em um exercício de reflexão deste gênero devemos atinar nossa atenção para a maneira como nos identificamos e como somos identificados para assim, neste interstício, possamos nos reconhecer enquanto membros de uma grande comunidade imaginária nominada Brasil. Ou seja: responder a indagação que se encontra enunciada no título deste libelo é justamente um exercício de reflexão sobre a nossa identidade, sobre nossa alma.

E é aí que muitas vezes nos esquivamos e preferimos o viés de respostas mais adocicadas sobre nossa imagem, preferindo respostas eivadas de bajulações do que muitas vezes a verdade nua e crua.

Por isso, neste momento, levantamos apenas alguns pontos periclitantes sobre a nossa identidade, sobre o nós, brasileiros. É comum afirmarmos que o Brasil é um país constituído por um povo alegre. Somos o país do futebol, do samba, da cachaça, da bunda. Ótimo! Mas, somos apenas isso? Será que essa é a melhor imagem que temos para externar sobre nós? Como você qualificaria uma pessoa que apresenta como sendo as suas melhores qualidades o gosto pelo futebol, samba, pinga e bunda? Porém, é isso o que demonstramos ser o que há de melhor em nós, como se os outros povos não tivessem os seus folguedos, desportos, bebidas etílicas e belos corpos.

Bem, mas esta é a imagem que é produzida sobre nós e, acima de tudo, ufanada pela maioria. Mas, somos essencialmente isso? Creio que não.

Alias, esta nossa declaração não é proferida no sentido de negar que afirmar o que é o Brasil seja algo unívoco, pois, somos cientes de que no fundo seríamos um grande emaranhado de Brasis. Entretanto, via de regra, somos sempre apresentados como um povo essencialmente lúdico e, acima de tudo e ordeiro nos mais variados Brasis, não é mesmo?

Porém, mais uma vez perguntamos: isso é o que temos de melhor para apresentar a humanidade? Esse é o ponto nosso ponto fundante? Essa é a pergunta capital sobre a identidade de um grupo humano a qual, nos esquivamos constantemente.

Terão aqueles que dirão que essa característica é nosso diferencial frente ao mundo. Maravilha! Mas em que isso nos torna melhor que outras sociedades? Em que esse diferencial poderá contribuir para a melhoria dos outros povos? Em que esse “ser brasileiro” contribuirá para o avanço da humanidade?

Ah! As pessoas se tornarão tão felizes como nós. Opa! Acabamos por cair em uma indagação de caráter filosófico. Alias, começamos mesmo a trilhar uma vereda de feitura metafísica. Isso mesmo: o que seria em si a felicidade? O que é ser feliz, em si?

Sem responder diretamente a esta pergunta, podemos iniciar fazendo uso de uma técnica filosófica bastante simples: antes de procurarmos definir o que algo é, devemos apontar o que este algo não é de modo algum. E, procedendo assim, creio que o amigo poderá chegar a uma conclusão contundente: o que nós brasileiros costumamos chamar de felicidade não passa de maya (termo hindu para ilusão). Ou não?

Estas questões aqui expressas parecem ser um tanto tolas, mas eu, em minha tolice existencial, fico muitas vezes indagando cá com meus botões como que as sociedade vindouras irão se referir a nós, brasileiros, em especial os homo brasilienses que viveram entre o fim da vigésima centúria e início da vigésima primeira? Exemplo de que seremos? Qual será a identidade que teremos frente ao tribunal da História? De que modo estamos contribuindo para a feitura desta identidade? Com essa imagem caricato de “felicidade brasileira” com bunda de fora, nada na cabeça e chuteira nos pés?

Quinta, 19 Julho 2007 21:00

Vaia Pan-Americana

Muitos ficaram impressionados com a vaia olímpica que o senhor Luiz Inácio Molusco da Silva recebeu na abertura dos jogos Pan-Americanos. Aliás, sete vaias.

Muitos ficaram impressionados com a vaia olímpica que o senhor Luiz Inácio Molusco da Silva recebeu na abertura dos jogos Pan-Americanos. Aliás, sete vaias.

Lula foi vaiado logo em sua majestosa chegada. Em seguida nas três saudações em que teve o seu nome lembrado em português, espanhol e inglês. Mais uma vez quando foi citado pelo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e depois ao ser chamado pelo presidente da Organização Desportiva Pan-Americana. Seis vezes. A sétima ocorreu no ensaio geral. Teríamos uma oitava, mas seus assessores o aconselharam a abrir mão de declarar abertos os jogos.

Mas, para ser sincero, isso não me impressiona muito. Coisas superficiais não costumam chamar a minha atenção. Me diverte, porém não me impressiona. O que me deixa um tanto perplexo são outras coisas que, via de regra, a impressa brasileira não dá muita importância como, por exemplo, os gastos astronômicos para a realização do Pan.

Segundo o jornal britânico The Times, a organização Jogos Pan-Americanos do Rio revelou ao mundo a face torpe de nosso Estado, principalmente a burocracia corrupta e ineficiente.

De acordo com o Jornal Britânico, a grana investida nos jogos teve como o objetivo mostrar ao mundo que o Brasil não tem condições de organizar eventos maiores (Ah! Que dó!), como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.

Ora, o orçamento previsto para o Pan-Americano saiu de controle devido (adivinhem) a má administração dos recursos e da corrupção endêmica, tornando o preço final para o contribuinte (os tongos de plantão) cerca de oito vezes mais caro que as estimativas iniciais.

E qual é a única atitude que a sociedade brasileira é capaz de fazer diante deste desfrute orçamentário? Vaiar o senhor Presidente e aplaudir os atletas. Nada mais, nada menos que isso.

Realmente, como sociedade, somos um grande fiasco Pan-Americano.

Quinta, 12 Julho 2007 21:00

Salvem a Professorinha!

A vida não é perfeita, mas nós, através da educação estamos dia após dia ensinando que ela pode ser pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens

é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum”. (Olavo de Carvalho)

* * *

Certa feita, uma jovem havia me dito que ela não admitia que uma autoridade afirmasse que um pai deveria ser mais enérgico com uma criança (dar-lhe umas boas palmadas) quando fosse necessário. De minha parte, confesso que não me sinto de modo algum autorizado a dizer o que um pai e uma mãe podem ou não fazer com os seus filhos em termos educacionais, visto que, muitas das vezes, a ULTIMA RATIO educacional em um lar, em muitas ocasiões, inevitavelmente são umas boas palmadas.

Todavia, para aqueles que tem o seu pensamento engessado com os ditames politicamente corretos que infectam a nossa sociedade, cabe aqui lembrarmos alguns pontos que julgo serem relevantes para serem trazidos a baila.

Um destes pontos, que julgo ser deveras simples e talvez, por isso, tão desdenhado, é o papel da educação na apresentação das possibilidades da ação humana.

Desde que o mundo é mundo a função primeira da educação é preparar o indivíduo para a vida, para seus regalos e para seus ônus. Entretanto, o que temos hoje em nossa sociedade atual é justamente o inverso. Prepara-se o indivíduo para viver em um possível mundo futuro, fomentando nestes um forte sentimento de desprezo e de insatisfação infundada pela sociedade presente. Não? Basta então ler com a devida atenção os materiais didáticos e para-didáticos que circulam pelas instituições de ensino e compreenderá o que estamos apontando.

Muitos destes materiais são repletos de indagações retóricas onde a resposta se encontra maliciosamente embutida na pergunta, todas, obviamente, com pretensão de serem materiais com alto grau criticidade. Alias, tudo que venha seguido deste jargão, criticidade, me dá arrepios, pois, na maioria das vezes não passa de doutrinação marxista descarada.

Junte à isso, um sistema educacional em que procura-se unicamente contabilizar resultados através de uma média aritmética forçada onde a porcentagem de aprovações é super-valorizada em detrimento ao mérito individual dos alunos que se esforçam. Isso mesmo, o populismo pedagógico implantado em nosso país que em nome da bonança da mediocridade geral, penaliza com o descaso os que se sobressaem pelos seus esforços e pela sua dedicação.

Haverão aqueles que afirmarão que o aprendizado deve ser algo prazeroso, lúdico e blablablá. Concordo que o aprendizado é muito mais fértil quando parte tão só do interesse o aluno, porém, isso só é possível quando os indivíduos estão em um ambiente de ensino por livre e espontânea vontade e não por uma imposição legal. Uma sala de aula, do ensino fundamental ou médio, não é um campo de futebol. Logo, essa conversa mole não funciona. Basta verificar a quantas anda a educação em nosso país. Não na mesa dos burocratas ou nos palanques de nossos demagogos. Estou falando das salas de aula. Estou falando da forma como os alunos saem das instituições de ensino e como eles se encontram nelas.

Sobre isso tudo, com muito mais propriedade que este mísero missivista, fala-nos o filósofo Olavo de Carvalho em seu artigo “O imbecil juvenil” publicado em 03 de abril de 1998 que: “Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior”.

Aí eu lhes pergunto: não estamos diante de um cenário semelhante a este? Nosso sistema educacional não está a alentar esse sentimento? Ora, se não mais é apresentado aos nossos jovens os limites necessários para que se realizem enquanto indivíduos, o que estamos fazendo? Literalmente ensinando eles a atearem fogo nas madeixas de professoras, atropelar serventes com mais de 60 anos no corredor da escola e a colocar bombas para estourar a mão de educadores em escolas técnicas.

A vida não é perfeita, mas nós, através da educação estamos dia após dia ensinando que ela pode ser pior.

E estamos conseguindo.

Quinta, 28 Junho 2007 21:00

Refletindo Sobre o Irrefletido

Estou a cada dia que passa mais convencido de que o foco de nossa educação não está simplesmente um tanto torto, fora de seu rumo, mas sim, totalmente fora de prumo.

Estou a cada dia que passa mais convencido de que o foco de nossa educação não está simplesmente um tanto torto, fora de seu rumo, mas sim, totalmente fora de prumo. Afirmamos isso não com vistas ao conteúdo presente nas mais variadas disciplinas, pois me sinto apenas autorizado a ponderar apenas sobre as disciplinas da seara das Humanidades (e olhe lá).

O que realmente, dia após dia, nos chama a atenção é a forma como se pensa o ensino e como se pensa o aprendizado e isso, meu amigo, é que desperta muitas vezes em minh'alma sentimentos de pânico.

Todavia, não é nosso intento neste breve libelo dissertar sobre todas as teorias da aprendizagem e sobre todas as práticas versadas por boa parte do professorado. Queremos apenas chamar a atenção para um singelo mal que constatamos com uma grande constância que é, por sua deixa, a forma como se usam os conceitos. Ou melhor: o que se imagina ser um conceito.

Um conceito, não é uma simples palavra. É, acima disso, uma ferramenta epistemológica que nos serve para captar a realidade tal qual ela é. A sua validade não está vinculada em seu grau de inter-subjetividade, não mesmo. Sua validade epistemológica está associada diretamente a sua capacidade de traduzir a realidade.

Porém, para se chegar a isso, não basta um breve bate-boca em um colóquio mais breve ainda em uma sala de aula e muito menos em uma efusiva e etílica troca de “idéias” em um boteco. Para realmente se chegar a uma compreensão no mínimo clara sobre os assuntos que se pretende versar é necessário, primeiro, estar aberto a aprendizagem e, em segundo, ter paciência frente as dificuldades que os temas nos apresentam. E, obviamente, não ver a si mesmo como sendo a suma autoridade frente ao mundo só pelo simples fato de você não concordar com a forma em que ele se encontra.

Alias, prendamos nossa atenção um pouco neste ponto, visto que, para boa parte das pessoas, ser uma pessoa crítica se resume na simplória postura de sentir-se autorizado a tudo questionar, mesmo que pouco, ou nada, se conheça dos assuntos questionados. Bem, o interessante que estes elementos, que não são poucos, infelizmente, permitem-se questionar a tudo, a toda inteligência da humanidade, mas, nunca se dão ao “luxo” de questionar a sua própria inteligência.

Esta postura turva é tão só uma auto-proclamação de onisciência cínica e nada mais. E pior. É o padrão médio do que se entende por educação “crítica” que, em resumidas palavras, seria uma supra valoração da subjetividade do indivíduo em detrimento da compreensão objetiva da realidade. Na verdade, a educação deveria começar pelo caminho inverso, ou seja: ensinando a duvidar de suas próprias elucubrações e não apenas (e primeiramente) das de outrem.

Sempre ouvimos aquele trololó de que devemos valorar a opinião de outrem, em relação aos assuntos que são abordados. Mas, e quando o infeliz desconhece o assunto em pauta? E quando quem está coordenando a discussão também desconhece? Que lição está sendo ensinada meu Deus do Céu? Que tudo o que você supostamente pensa deve ser valorado só porque você disse isso, pouco importando se tudo o que você disse não passa de um mero trocadilho decorado para agradar ou impressionar as pessoas e, principalmente, para iludir a si mesmo.

Segundo Olavo de Carvalho em sua obra Edmund Husserl contra o psicologismo, “é uma tendência que existe nas crianças, e que sobrevive na idade adulta, na esfera da imaginação. Para o bem da humanidade deveria ser progressivamente extirpada a medida que você evoluísse. Um exemplo disso é o fato de que as pessoas, mesmo conhecendo a distinção do verdadeiro e do falso, mesmo tendo estudado Filosofia, conhecido a Ciência, etc., continuam tendo a reação de se sentir mal quando imaginam imagens nocivas. Quando você imagina uma cena desagradável você se sente mal, como se ela estivesse acontecendo mesmo. Dificilmente você tem esse distanciamento”. (pág. 80)

Olha, para ilustrar, vamos dar um exemplo, do que estamos tratando. Olha, o dia que vocês lerem algo desse pacóvio escrivinhador sobre mudanças climáticas, aquecimento global, ou coisa do gênero, por favor, me mandem calar a boca e consumir com minha pena e tinteiro, pois, sinceramente, não me sinto autorizado a opinar sobre estes assuntos, pois, julgo que eles são por demais complexos para mim e ainda não tenho uma visão clara sobre a complexidade do mesmo visto as inúmeras divergências que existem sobre o tema.

Todavia, muitas pessoas, sem ter conhecimento destas divergências e confiando cegamente na mídia chique, no documentário premiado de Al Gore e na Xuxa estão aí a bradar aos quatro cantos as “Verdades Inconvenientes”.

Ora, se essas pessoas tivessem aprendido a analisar os fatos a partir de conceitos e não a partir de expressões não significativas, pensariam três vezes antes defender bandeiras e idéias de ocasião. Coisa que, a muito, foi deixado de lado neste país.

Quinta, 14 Junho 2007 21:00

Me Recuso

O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

Todavia, não faço uso destas linhas para ficar a tecer queixumes. Pelo contrário, venho aqui através destas (até parece ofício) para partilhar de duas experiências pedagógicas singulares que, realmente, me impressionaram muito.

Faço isso não no intuito de bajular fulano ou para vangloriar-me. Faço isso no afã de apresentar dois casos que julgo serem exemplares, de modelos de conduta a serem analisados e refletidos enquanto formas possíveis de atitudes de uma vida sabiamente vivida.

Dois alunos de turmas diferentes e que, em situações e em momentos diferentes, demonstraram a mesma grandeza de espírito que muitas das vezes carecemos.

O primeiro caso foi de um aluno que havia se equivocado em uma de suas resposta em uma de minhas avaliações e, por essa razão, veio até mim para apresentar os seus argumentos de maneira clara e educada. Um verdadeiro lord. Porém, para a infelicidade dele, a sua resposta estava equivocada e não minha correção.

Até aí, tudo bem. Mais uma cena qualquer em uma instituição de ensino. Todavia, o que recebo de suas mãos na segunda-feira? Um trabalho sobre o assunto que a questão abordava como se este fosse uma espécie de retratação frente a seu erro. Alias, este me entregou o trabalho com a simples e bem humorada justificativa: “professor, da mesma forma que fui homem para reclamar, sou homem para reconhecer o meu erro”. Já pensou se todos nós fizéssemos isso quando nos sentíssemos injustiçados?

Mas o causo não para por aqui. Vejamos um outro caso que, também, tocou meu coração. Estavam os alunos a apresentar os seus trabalhos de término de uma de minhas disciplinas. Cada grupo tinha um limite de tempo para realizar a sua apresentação e eis que chega a vez do referido grupo que, por sua deixa, extrapolou o seu tempo tendo que encerrar sua preleção de modo abrupto.

Porém, antes que os membros da equipe se deslocassem para os seus lugares, um deles, bruscamente, interpelou-me dizendo: “espere aí professor! O senhor me desculpe, mas nós vamos terminar a apresentação do trabalho. O senhor pode até descontar nota, porque pelo menos eu não fiz este trabalho pela nota, mas sim pela experiência de vida que eu adquiri”.

Olhem só, que coisa! Quantas vezes em nossas vidas nós fizemos algo sem pedir um outro algo em troca? Quantas? Quantas vezes nós estudamos algo sem uma outra recompensa senão o saber aprendido? No fundo, na maioria das vezes agimos apenas como cães adestrados que fazem truques idiotas para poder receber um pequeno biscoito. Somos, no fundo, seres esvaziados de sentimentos de grandeza, nos recusamos a ser prestativos e fingimos ser bom.

Para infelicidade geral da nação, as cenas vividas descritas acima, são exceções. Raras vezes nestes nove anos de magistério tive a grata felicidade de ver grandes atitudes como estas e, por essa razão, trago aqui esses grandes exemplos na esperança de que outras pessoas, sejam elas alunos, pais, professores, cidadãos preocupados com a educação, vejam com clareza o que é realmente ser uma pessoa com uma postura crítica.
Confesso que os dois casos me emocionaram. Não por eles em si, mas pela imensa quantidade de posturas antípodas a estas existente em nosso país.

Na verdade, temos muito mais pessoas cricas e cretinas do que críticas. Temos muito mais pessoas insatisfeitas que não compreendem a si mesmas e muito menos a sua circunstância existencial do que indivíduos cientes de suas potencialidades e da necessidade fundamental de reconhecer suas falhas, corrigi-las e, acima de tudo, serem capazes de aprender com elas para se tornarem indivíduos melhores. Tão só esta atitude, pequena e simples, seria a maturidade, como a milênios nos ensina o Estagirita e tão só isso, demonstra o quão imatura é nossa sociedade.

Quarta, 06 Junho 2007 21:00

As Múltiplas Faces do Mal

Hoje, o totalitarismo vem começando de novo,no campus das universidades, nos Estados Unidos, sob o disfarce politicamente correto.

Em sua obra, O MITO DE SÍSIFO, Albert Camus nos lembra que os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplêndido ou miserável e, via de regra, a vigésima centúria da Era de Nosso Senhor foi fortemente marcada por esse universo, mais miserável que esplêndido, das grandes ideologias, todas nascidas de grandes sentimentos de amor pela humanidade ciosos de ver a mesma em melhores lençóis do os que ela se encontrava.

Mas, o interessante destas ideologias utópicas é que todos os seus devotos mundanos eram sempre movidos por superficiais sentimentos de suposta nobreza que o levavam a desejar transformar o mundo em algo melhor. Porém, estes mesmos indivíduos, eram incapazes de demonstrar nobreza de sentimentos com relação àqueles que lhe eram próximos. Declaravam-se profundos amantes de toda humanidade, mas eram incapazes de amar verdadeiramente qualquer pessoa que estivesse dentro de seu círculo de relações.

E, tal impostura, nós podemos perceber não apenas nos fiéis destas seitas profanas, que são as utopias, como também e fundamentalmente na pessoa de seus fundadores. Tomemos como exemplo a figura do celebrado Jean-Jacques Rousseau, festejado por boa parcela da Academia até os dias hodiernos, como sendo uma grande alma devotada a construção de um mundo melhor.

Ora, então vejamos este simpático cidadão genebrino de perto. Este homem é conhecido no mundo Ocidental todo pelas suas obras, mas aqui, destacarei apenas uma, que é muito citada e pouquíssimo lida (e deveria ser lida, garanto), que é DO EMÍLIO, OU DA EDUCAÇÃO. Uma singela obra divida em cinco volumes onde o autor apresenta o seu modelo de educação. Em suas laudas o referido filósofo apresenta um garotinho idealizado onde procura demonstrar como deveria ser a formação de um indivíduo para que este se torna-se um ser humano melhor, como ele imaginava que deveria ser.

Todavia, se você trabalha com educação e já teve a oportunidade de ler referido livro, percebeu que garotos como Emílio só existem na cabeça de pessoas como Rousseau. E, de mais a mais, o homem que procurava demonstrar nestas laudas uma profunda preocupação pela educação de todas as crianças fora incapaz de aplicar o seu método com seus próprios filhos que, por sua deixa, foram todos abandonados gentil por ele em um orfanato. É esse tipo de gente que deseja educar a humanidade, é esse tipo de pessoa que idealiza utopias para tornar o mundo melhor.

Ainda sobre este senhor, é de grande relevância a leitura da obra OS INTELECTUAIS do historiador inglês Paul Johnson onde o mesmo nos apresenta um ótimo laudo da alma doentia de pensadores festejados como o Jean-Jacques que apresentam idéias tão brilhantes que não são capazes de refletir a sua própria existência.

Obviamente que muitos dos devotos deste santo do pau oco estão a praguejar contra minhas palavras e minhas idéias (ou mesmo contra minha pessoa). Não há problema, visto que, este gesto, apenas reflete o que fora descrito até aqui. E o mais interessante é que estas pessoas que adorariam calar a boca de indivíduos como eu se declaram movidas por profundos ideais democráticos. Ideias estes, muito bem cimentados na concepção viciada de “vontade geral” de Rousseau.

Por isso, mais do que nunca, lembro a todos nestes dias em que jornais, estações de rádio e mesmo canais de televisão são fechados em países que, segundo o Presidente de nossa Nação, tem um “excesso de DEMOCRACIA”, as sábias palavras do historiador Paul Johnson que diz: “Não gosto que venham me dizer como pensar, que palavras e expressões devo ou não usar. Para mim, esta é a origem do totalitarismo. Hoje, o totalitarismo vem começando de novo,no campus das universidades, nos Estados Unidos, sob o disfarce politicamente correto. Temos de lutar – muito ! - contra este fenômeno, antes que o totalitarismo disfarçado de posições politicamente corretas se estabeleça de verdade”.

Quem viver verá e lamentará a sua apatia diante das doentias manifestações cínicas de bom-mocismo.

Quinta, 24 Maio 2007 21:00

O Grande Ardil

Entretanto, todo mundo acreditará que estará agindo de acordo com a sua própria consciência sem perceber que todas as escolhas foram anuladas como sendo inválidas com a profícua colaboração do relativismo.

O caminho que o homem recebe para preocupar-se com a verdade do ser não é o conhecimento, mas a compreensão: compreensão do sentido ao qual aderiu”.(Joseph Ratzinger)

Nos dias de hoje Pior que o mal em si é a crença disseminada em sua não existência. Este é o grande ardil das forças das sombras e, um dos principais instrumentos (não o único) para a edificação deste imbuste é o relativismo absoluto que dia após dia vem sendo elevado a categoria de único critério válido para avaliação dos fatos o que, por sua deixa, acaba transformando a farsa e o engodo em uma prática cotidiana.

Para começo de prosa, o relativismo absoluto nega a si mesmo enquanto procedimento para interpretação, pois, se tudo pode e deve ser apreciado a partir de um viés relativista, valorizando as especificidades de cada complexo cultural, todas as culturas, em suas super-valorações estarão a se anular mutuamente. Se tudo tem igual valor, logo, nada vale. E, sendo assim, tudo seria relativo, menos a visão absolutamente relativa de tudo.

Esta arapuca é um dos principais instrumentos dos tiranetes de plantão, por uma questão bastante obvia: se tudo passa a estar invalidado por tudo validar algo, aquele que melhor articular o seu discurso em meio a este engodo epistêmico será capaz de sobrepujar a vontade das massas por levar o sistema de valores morais da sociedade a perder a sua solidez.

Exemplo interessante e recente deste problema característico das sociedades modernas foi a declaração proferida pelo Presidente da Venezuela, o senhor Hugo Chávez com relação a advertência feita pelo Papa Bento XVI aos fiés Católicos em sua estadia nas Terras Cabralinas no tocante ao retomada de determinadas práticas animistas na América Latina que, no entendimento do Sumo Pontífice, seria um grande retrocesso em termo de Evangelização.

Entretanto, para Chávez, o Papa Bento XVI deveria pedir desculpas a todos as povos pré-Colombianos, pois, suas palavras, seriam um grande insulto. E mais! Disse que a Evangelização na América Latina fora feita apenas com o uso da força. Que esta teria sido quase que uma negação do que ele, Hugo Chávez, entende por Cristianismo. Ou, segundo as suas próprias palavras: "Aqui aconteceu algo muito mais grave que o Holocausto na Segunda Guerra Mundial e ninguém pode negar essa verdade. Sua Santidade não pode vir aqui, na nossa própria terra, e negar o Holocausto indígena".

Ora, ao invés de partirmos de uma perspectiva relativista, vamos colocar os pingos nos “is”. Quando ele fala em culturas pré-Colombianas vamos lembrar que os ritos Sagros de muitos destes povos eram organizados em torno de sacrifícios humanos e, em muitos destes ritos, não era realizado um, mas imolada várias pessoas em uma única cerimônia. Tais ritos tinham um significado específico em seu sistema cultural, mas, colocar este sistema no mesmo grau de importância que o Cristianismo é deveras complicado.

De mais a mais, pergunto a todos aqueles que defendem tanto a equivalência destes sistemas culturais: se eles são tão bons quanto o que fundamenta a cultura da sociedade Ocidental e vocês tivessem a possibilidade de viver em uma sociedade com estes valores, vocês se entregariam de boa vontade para serem sacrificados aos seus “novos Deuses”? Observação capciosa: o mais interessante é que, em muitas destas culturas as vítimas sacrificiais eram pessoas capturadas em outras tribos (no caso dos Astecas, em especial).

E se pudéssemos nos alongar neste nosso colóquio poderíamos averiguar outras tantas peculiaridades existentes nessas culturas que de modo algum invalidariam a preocupação da Sua Santidade. É claro que muitos irão ler essas linhas e mais do que de pressa irão tachar o autor desta missiva de “preconceituoso” e outros adjetivos do gênero. Tudo bem, se você é uma destas pessoas, sinta-se a vontade. Porém, por gentileza, reflita sobre isso com as devidas proporções.

Para tanto, cabe aqui que apontemos nestas linhas a forma peculiar que tiranetes como Chávez usam as palavras em seus discursos. Estas normalmente são palavras de pouco significado, mas com grande capacidade de mobilizar as massas para os fins mais variados imagináveis pela mente humana devido ao seu intenso apelo emotivo de seus ditos sempre recheado de significados vagos o que permite que cada um dos ouvintes de suas locuções entenda o que desejar realizando assim, o que ele, o porta voz das massas, quer que façam.

Entretanto, todo mundo acreditará que estará agindo de acordo com a sua própria consciência sem perceber que todas as escolhas foram anuladas como sendo inválidas com a profícua colaboração do relativismo.

Sendo assim, não temos como não lembrarmos aqui nestas linhas os ensinamentos de G. K. Chesterton. Parafraseando com ele lembramos que o problema do homem que tudo relativiza não é que ele não acredita em nada, mas sim, que ele acaba acreditando em qualquer coisa. Ou, em qualquer demagogo histriônico que nos agrade e nos traga uma certa sensação de segurança, de confiança em meio a tormenta niilista criada por nós mesmos. Tormenta esta que nós não compreendemos e nos recusamos compreender.

Sexta, 18 Maio 2007 21:00

Um Homem Incomum

Meira Penna era um homem comum que se fez incomum. Esse é o segredo da genialidade. Esse é o toque de garbo e elegância das alma aquilatadas.

ECCE HOMO! Esse é homem que testemunhou as grandes venturas e desventuras do século vinte e, através das janelas de sua alma foi capaz de nos descrever de maneira singular um verdadeiro laudo sobre as chagas que impregnam a existência da brasilidade.

Meira Penna era um homem comum que se fez incomum. Esse é o segredo da genialidade. Esse é o toque de garbo e elegância das alma aquilatadas. Sempre sarcástico em suas obras, abordando as questões sisudas, pois, sempre partilhou da idéia de que quem gosta de tristeza é o diabo. Por isso, com um senso de humor incomum ele nos faz ver através das palavras desenhadas com a pena firmada em seu sereno punho o nosso ridículo original embebido em nossa idiotia existencial.

Bacharel em Direito pela Universidade do Brasil/Rio de Janeiro – RJ. Estudou História na Universidade de Columbia em Nova Yorque e Psicologia Analítica no Jung Institut de Zurique. Suas obras são legítimos monumentos, espelhos que refletem o íntimo de nossa sociedade através de suas análises primorosas advindas de uma pujança intelectual sem igual. Sua lucidez e sua erudição chegam a ser assombrosos.

No fatídico ano de 1917 da Era de Nosso Senhor, na cidade do Rio de Janeiro, nascia José Osvaldo de Meira Penna, filho de José Flávio de Meira Penna e Maria do Nascimento Penna. Em 1938 ingressou na carreira de diplomata através de concurso, não por meio de carteiraço.

Este homem franzino construiu uma carreira brilhante. Representou nosso país nas embaixadas das cidades de Calcutá, Xangai, Âncara, Nanquim, São José, Ottawa, em Nova Yorque (junto a ONU), Zurich, Tel-Aviv, Chipre, Quito, Oslo, Varsóvia, vindo a se aposentar em 1981, de suas funções diplomáticas, não se afastando de modo algum de suas prerrogativas intelectuais, visto que, no ano passado, o mesmo nos brindou com o lançamento de mais uma obra: POLEMOS – uma análise crítica do darwinismo. (aos 89 anos de idade)

Também, não podemos nos esquecer que desde fins da década de sessenta este homem desenvolve ampla e combativa atividade jornalística, sendo colaborador de importantes diários brasileiros como O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde (São Paulo), Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), Mídia Sem Máscara e Parlata.

Em 1986 criou, junto com alguns intelectuais de inspiração liberal, a Sociedade Tocqueville, entidade da qual até então era o Presidente. Presidiu, também, o Instituto Liberal de Brasília e é membro ativo da Sociedade Mont Pélérin.

Lembro aqui, neste interim, as palavras do saudoso Roberto de Oliveira Campos que afirmava que: “Meira Penna faz uma crítica impiedosa mas salutar dos nossos vícios do familismo paternalista, da dependência do Estado como se fossemos infantes perpétuos”. Esta Lúcida alma sempre defendeu que a responsabilidade do cidadão, facilitaria tanto a implantação da democracia como o desenvolvimento de nossa economia. Porém, a lucidez é sempre desdenhada pelos incautos, para infelicidade geral da nação.

No afã de exemplificar arquétipos junguianos, fala-nos mais uma vez Roberto Campos que, Meira Penna produziu belas passagens literárias sobre a introversão quase desumana dos personagens de Machado de Assis, capazes de paixões pessoais porém insensíveis a pessoas abstratas, assim como também dissertou eruditas laudas sobre a simbologia do segundo Fausto de Goethe e do drama shakespereano de Otelo, que simboliza a construção racional por sua sombra Iago, de um ciúme irracional e autodestrutivo.

Por fim, como havia dito no início desta preleção, este é o homem, que deveria ter as suas obras atenciosamente lidas, refletidas, discutidas, com a mesma seriedade e sinceridade com que elas foram escritas, similar a forma como ele viveu cada uma daquelas linhas. Ora, se é correto o dito de que a obra de um escritor deve ser o reflexo de sua alma, posso lhes afirmar categoricamente que cada letra impressa é a marca de uma vida herculeamente vivida.

Se um dia, por ventura, em um futuro distante, a nossa nau de verde-amarela vier a afundar e passarmos a ser apenas mais uma das muitas sociedades que vieram a findar, com certeza José Osvaldo de Meira Penna será lembrado como uma alma socrática que singrou por estas terras cabralinas, que preferiu beber da cicuta do anonimato em fidelidade a Verdade a ter de viver uma vida de vã glória.

Este é o homem e esta é a sua obra!

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.