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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Segunda, 05 Novembro 2007 21:00

O Calcanhar de Aquiles

Porém, se você é daqueles que construiu toda a sua vida sobre enganos maquiados com um pálido verniz de pseudo-erudição para enganar aos outros e, acima de tudo, a si mesmo, sugiro que continue agrilhoado em seu simulacro e continue aninhado em seus devaneios e em sua fingida sapiência.

Infelizmente, não é raro os momentos em que ouvimos pessoas expressarem suas opiniões com grande gosto e satisfação. Alias, na maioria das vezes essas mesmas pessoas nutrem um sentimento de forte afeto por uma opinião (de)formada que ela julga sua. Pior. Para cada assunto que lhe é apresentado a mesma apresenta uma nova.

Caramba, mas quem disse que ter opinião sobre um e outro assunto é motivo de ufanismo? Ora, opinião, como muitas vezes frisamos, seria apenas uma mera impressão subjetiva da realidade onde o sujeito se apropria de alguns recortes sobre o assunto em pauta e fala simplesmente o que sente em relação ao mesmo e não sobre o que este algo realmente é.

Ora, em termo cognitivos, isso e nada é a mesma coisa.

Para apreender a realidade dos fatos pouco importa se eu concordo ou não com o que está diante de minhas vistas e menos ainda se eu gosto ou não da resposta obtida. O que interessa é justamente que, de modo sincero, procuremos compreender o que está diante de nós e não simplesmente afirmar o que nós desejamos que esse algo seja.

Por essa mesma razão que o filósofo Mário Ferreira dos Santos em sua obra ORIGEM DOS GRANDES ERROS FILOSÓFICOS (pág. 90) afirmava que, “só pode haver opinião onde não se alcança a estrutura eidética do ser, ou quando pairam ainda probabilidades outras de alguma coisa ser outra que o que julgamos ser”. Ou seja, deveríamos apenas alimentar opiniões em assuntos que nosso aparato cognitivo não esteja armado para poder construir uma clara compreensão do assunto. Todavia, dia após dia, estamos vendo cada vez mais a redução da reflexão sobre todo e qualquer assunto a um mero jogo de trocas e emissões fortuitas de opiniões, uma tão rasa quanto a outra.

Lemos uma manchete de jornal ou ouvimos falar sobre um determinado assunto e já nos julgamos habilitados a apontar juízos de valor. Se isso não fosse o suficiente, nos sentimos imbuídos e até mesmo autorizados a tomarmos uma posição prol ou contra, mas sempre de acordo com a voz tosca da maioria bestializada. Todavia, com base em que meu Deus do Céu?

Mais adiante, na mesma obra, o filósofo acima citado nos lembra ainda que: “O que tem impedido o espírito humano de alcançar situações superiores é a influência que exerceu a confusão entre verdade material e verdade formal, e, também, de certos esquemas históricos, que atuam preconceituosamente, viciando de antemão o próprio processo filosófico” (pág. 92). Viciando todo processo de compreensão.

Para averiguar tais pontos basta que você se pergunte sobre os pré-supostos que sustentam os seus pontos de vista e com base em que eles se sustentam para verificar esse dado aterrador. Reflita sobre as suas concepções históricas, sobre as bases de seus entendimentos sobre o devir humano através do tempo. Quer dizer, faça isso se você não tem medo de abandonar as suas parvas opiniões.

Porém, se você é daqueles que construiu toda a sua vida sobre enganos maquiados com um pálido verniz de pseudo-erudição para enganar aos outros e, acima de tudo, a si mesmo, sugiro que continue agrilhoado em seu simulacro e continue aninhado em seus devaneios e em sua fingida sapiência.

Mas, pense nas opiniões que você for emitir, para assim, ao menos, não mais fingir que está pensando.

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Obs.: É com grande alegria que comunicamos a todos que estamos com um talk show, um modesto programa de rádio, na internet que vai ao ar todos os sábados a partir das 21:00 horas. Para ouvir o mesmo (inclusive os programas anteriores) basta acessar o nosso site.

http://dartagnanzanela.k6.com.br – ou diretamente em nosso blog – http://zanela.blogspot.com

Domingo, 28 Outubro 2007 21:00

Falando Sério

De mais a mais, como bem nos lembra o grande professor chinês Confúcio: “as palavras sinceras não são elegantes; as palavras elegantes nunca são sinceras”.

Já faz algum tempo que estamos dedicando o espaço desta coluna que nos é disponibilizado para discutir alguns pontos sobre este tema encantador e enfadonho que é a educação.

Fazemos isso por ser um ponto nevrálgico da sociedade hodierna e, por essa mesma razão, faz-se centro de inúmeras discussões. Muitas delas profícuas, outras não tanto e, a maioria, totalmente imersa na superficialidade do vulgo.

Poderia estar aqui a deitar minha pena informatizada para entoar bravatas e tecer análises sobre o quadro político da decrepita sociedade brasileira. Poderia, porém, faço minhas as palavras do escritor Humberto de Campos que, quando vivo, afirmava que os nossos políticos são como nossa fauna. Não há gigantes. E, para piorar, o maior animal de nossa fauna é a anta, como muito bem me lembrou um amigo meu em determinada ocasião. Então, para que discutir algo que não nutrimos esperança? Para que escrever sobre algo que desdenhará por completo suas considerações? Para que jogar pérolas (baratas, mas pérolas) no tártaro?

É por essas e outras que escrevo sobre o ato de educar e sobre outros temas que podem levar a elevação da dignidade humana, pois, a indignidade, em si, não tem cura e em nada eleva a alma.

Entretanto, esse lamaçal, superficialmente político e, em suas entranhas, moral, perpassa obviamente pelo educar que é um dos principais responsáveis por esse clima de hipocrisia e decrepitude geral. Alias, responsável direto, não secundário, desta perversão que hoje vivemos. Para tanto, basta ver quais são os valores que reproduzimos nas práticas educativas formais e informais.

Por esta razão trago a baila nesta linhas turvas as palavras do filósofo alemão Athur Schopenhauer que, nos idos do século XIX, já vislumbrava essa decadência do humano na sociedade de seu tempo e afirma que se fossemos observar a grande quantidade de instituições de ensino e bem como a grande quantidade de educadores e educandos seria possível acreditarmos que a humanidade atribui grande importância a instrução e ao conhecimento da verdade. Hahaha! Como as aparências neste caso nos engana, não é mesmo? Pior! Como nos auto-enganamos.

E o filósofo citado é pontual e ácido em suas colocações, pois, segundo o mesmo, o professor ensina para: “[...] ganhar dinheiro e não se esforça pela sabedoria, mas pelo crédito que ganha dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre os mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos”.

Terão aqueles que poderão afirmar que tais palavras são duras por demais. Entretanto, como podemos afirmar que somos pessoas críticas, que somos educadores críticos, se nos esquivamos da mesma? Como podemos ensinar a refletir se somos incapazes de refletirmos sobre nossa condição enquanto professor e aluno? Ora, como podemos afirmar que vivemos na época mais elevada de todos os tempos se somos incapazes de refletir sobre nossa condição com vistas a nos tornarmos pessoas melhores do que somos? Que elevação há do peido que fala do arroto? Qual?

De mais a mais, como bem nos lembra o grande professor chinês Confúcio: “as palavras sinceras não são elegantes; as palavras elegantes nunca são sinceras”. E, falando sério, neste ponto, Schopenhauer foi profundamente sincero com a sociedade moderna, muito mais do nós somos conosco mesmo.

Sexta, 26 Outubro 2007 21:00

Elegia ao Educar

Tornou-se lugar comum apontar a falência do sistema educacional, em especial, devido a ênfase que muitas das vezes se dá a forma desdenhosa que o professor é tratado pela sociedade e bem como e principalmente pelo Estado.

Tornou-se lugar comum apontar a falência do sistema educacional, em especial, devido a ênfase que muitas das vezes se dá a forma desdenhosa que o professor é tratado pela sociedade e bem como e principalmente pelo Estado. Desdém este sempre seguido do devido tapinha nas costas em volto da afirmação de que o mesmo, o professor, é a pedra angular da sociedade e blá blá blá.

Muito bem, penso eu que tal tratamento em uma sociedade massificada e dominada pela idiotia já é mais do que esperado. Essa postura hipócrita (a do tapinha nas costas) em uma sociedade medíocre desde os seus fundamentos também corresponde tranqüilamente as devidas expectativas. O que assusta e mesmo aponta para a falência do sistema educacional é a forma como o professor, que está no centro deste colóquio flácido pra boi dormir, assimila o mesmo discurso e faz-se de vítima, de coitadinho ou personagem deste gênero que abunda em nossa sociedade.

Por isso, lembramos que o professor só é um derrotado, um fracassado e desdenhado frente aos torpores desta sociedade se quiser e se ele desejar. Afirmamos isso, pois, o seu fazer existencial não deve ser de modo algum pautado em uma mera perspectiva imediatista, mas sim, guiado por um viés que ilumine sua visão de si e do mundo, visto que, ser professor, antes de qualquer coisa, é um sacerdócio e, como tal, exige muitas das vezes, uma certa dose de sacrifício.

Essa é a beleza de nosso ofício. Esta é a grande magia do magistério.

Como nos lembra Eça de Queiroz: “Para um homem, o ser vencido ou derrotado na vida depende não da realidade aparente a que chegou, mas do ideal íntimo a que aspirava”. E, desta maneira, todo aquele que apenas firmou a sua visão sobre o sentido do ser professor unicamente pelo viés da realização profissional, obviamente que está fadado ao fracasso enquanto tal, enquanto pessoa e, conseqüentemente, este acaba irradiando o seu sentimento de frustração para todos aqueles que estão direta e indiretamente ligados a sua pessoa.

Com toda certeza muitos irão logo nas primeiras linhas desta modesta missiva rechaçar o meu ponto de vista por não terem diante de seus horizontes uma visão de longo prazo de seus atos e por se importarem pouco com as conseqüências do que está sendo gestado hoje.

Por essa razão que partilho das palavras de Miguel de Unamuno que, em seu ensaio MI RELIGIÓN, dizia esperar pouco para o enriquecimento do tesouro espiritual do gênero humano daqueles homens e daqueles povos que por sua superficialidade, por seu cientificismo, ou seja lá por que vileza, se apartam das grandes e eternas inquietações do coração.

Ora, e o que fazemos hoje em torno do educar? Qual é a postura adotada por nós educadores dentro e fora de sala de aula? Nos esquecemos, ou pelo menos fingimos não saber, que nosso papel vai além da sala de aula. Não nos damos conta que mesmo sendo relativamente desdenhados pelas potestades estatais nós somos, de um jeito ou de outro, um dos pontos centrais da sociedade e, por isso mesmo, um dos responsáveis por muitos dos males que assolam a educação e, conseqüentemente, a sociedade.

Não? Então meu caro, gentilmente lhe peço que compare o seu fazer e o seu viver com o fazer e o viver dos grandes mestres da sociedade ocidental. Compare a sua vida e sua prática pedagógica com a dos padres jesuítas ou com a dos frades dominicanos. Alias, compare a sua vida e sua obra enquanto professor com a vida e a obra de Sto. Agostinho, São Tomás de Aquino, Pedro Abelardo e, especialmente, com a vida e a obra educacional de Sócrates.

Sei que a nossa sociedade está corrompida até a medula, que todo o nosso tecido social é turvo, mas é nisso que pautaremos a nossa vida ou no que de melhor a humanidade nos legou? Que tipo de educação desejamos edificar com base em um derrotismo covarde como este?

Ah! Quanto aos confetes pelo dia do professor, esse eu deixo para os Estatólatras e parasitas do Estadossauro que adoram bajular todo mundo para assim melhor corromper todos. De minha parte, prefiro ficar com os estratos da realidade mesmo que estes façam aflorar as minhas faltas.

Domingo, 14 Outubro 2007 21:00

Ex Ducere Caritas Est (II)

Jiddu Krishnamurti, em muitas suas obras e preleções apresentou os seus pareceres sobre o papel da educação para a formação do indivíduo.

Existem coisas que, para as saber, não basta tê-las aprendido”. (Sêneca)

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Jiddu Krishnamurti, em muitas suas obras e preleções apresentou os seus pareceres sobre o papel da educação para a formação do indivíduo e, de todas as suas consideração tecidas, julgamos que uma delas é fundamental e que, infelizmente, na sociedade hodierna, com sua crendice racionalista, desdenha cada vez mais.

Segundo Krishnamurti, a educação é fundamentalmente um ato religioso que deve guiar o indivíduo iniciado para o exercício da liberdade. É difícil falar disso numa época em que o laicismo passou a ser o credo vigente e, por essa mesma razão, relembrar esse ponto simples é necessário. Mesmo retirado todo o conteúdo de formação religiosa das instituições de ensino estas continuaram a exercer uma função sacerdotal de instruir as tenras gerações na arte de viver. De um novo modo, mas, estruturalmente, com intento similar.

Obviamente que as escolas estão apenas refletindo um fenômeno que se apresenta junto a sociedade. O mundo e a vida foram sendo dessacralizados de modo acelerado desde o século das Luzes (o século XVIII, que na verdade é o século das trevas). E, no lugar do fundamento que nos era apresentado pela milenar tradição judaico-cristã foi sendo criado novos valores que literalmente foram inventados por um grupelho de auto-proclamados iluminados.

Quanto ao que tange a essa característica da educação tomemos um pequeno exemplo para ilustrar o que desejamos chamar a atenção. Na educação contemporânea um comportamento exaltado como sendo digno de um bom cidadão é o de reivindicar, de protestar, etc. Alias, há escolas em que isso é ensinado literalmente, com técnicas de todos os gêneros, desde as mais simples até as mais grotescas.

Mas aí, esse que voz escreve pergunta: foi ensinado a esse bom aluno como que se deve estudar? Esse bom cidadão foi instruído quanto ao modo que ele deve agir para pensar os temas que lhe são sugeridos para só depois tomar uma posição sobre? Não. Foi apenas lhe doutrinado que ele deve tomar uma posição, de preferência a do professor, é claro. Alias, tomar uma posição sem ao menos saber claramente o que essa posição implica.

Ora, para se poder realmente desenvolver determinadas qualidades cognitivas é fundamental o exercício da meditação e para tanto é fundamental ensinar o indivíduo a condicionar a sua mente para que ela possa manter-se serena e silenciosa. Trocando por dorso: desenvolver a capacidade de concentração profunda e continuada é pré-requisito basilar para o desenvolvimento integral do indivíduo.

Os antigos monges de todas as grandes tradições religiosas haviam desenvolvido inúmeras técnicas de meditação que lhes permitiam desenvolver um poder de concentração fenomenal. Alguns ascetas hindus e muitos místicos cristãos e muçulmanos eram e são capazes de se concentrar por horas em uma única palavra s em turvar a sua mente para nenhum outro ponto. Já nós, por nossa deixa, somos incapazes de nos concentrar por cinco minutos.

Estas práticas eram realizadas não apenas por homens e mulheres que se enclausuravam. Todas as pessoas nas sociedades tradicionais nos mais variados ofícios praticavam uma gama significativa de exercícios deste gênero o que lhes permitia ter uma mente reta e sã devido ao seu poder de auto-controle.

Hoje em dia, tais práticas são consideradas como um conjunto de superstições, como saberes indignos de se fazerem presentes em uma sala de aula. Todavia, confesso: não sei o que é mais patético, se é uma profunda tradição que nos legou um amplo manancial de experiências exitosas ou um sistema educacional que forma pessoas que são incapazes de, após ter lido um texto, lembrar do parágrafo anterior ao último, mas que, estão muito bem instruídas na arte de reclamar sem saber ao certo o que realmente desejam como se fossem um bebê recém chegado neste mundo.

Por fim, em nossa arrogância racionalista estamos dia após dia terminando de matar as últimas centelhas do logos que habita a alma humana. A isso chamamos orgulhosamente de progressismo.

Quinta, 04 Outubro 2007 21:00

Ex Ducere Caritas Est

Justificamos o fracasso pessoal, no êxito de outrem. Justificamos o fracasso de nosso sociedade na bem-aventurança de outras que passam a ser objeto de nossa fúria expiatório.

"Quão monótona é a semelhança que une todos os grandes tiranos e conquistadores;

quão gloriosa é a diferença dos santos!" (C. S. Lewis)

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Como muito bem nos lembra C. S. Lewis, vivemos em um mundo de perdeu a sanidade. Um mundo que tem como única perspectiva possível de ser pensada a transformação do mundo sem a transformação de si como se nós não fizéssemos parte deste mundo, como se todos os cenários existentes não tivessem nenhuma relação com o que nós sentimos, com o que nós somos.

Exigimos do mundo, das instituições, da sociedade uma perfeição quimérica, perfeição esta que se faz inatingível por nós mesmos. Nas sociedades tradicionais que celebravam os exemplos de santidade, havia um nome muito claro para isso: hipocrisia. Exigir de outrem o que nós somos incapazes de cumprir. Na sociedade hodierna o mesmo fenômeno tem outros nomes. Não mais hipocrisia, mas sim, criticidade ou cidadania. Tal a degradação da modernidade.

O aluno que questiona o sistema cola para poder passar de ano. O professor que entoa bravatas contra o fato de os alunos lerem pouco ou não saberem escrever não lêem e muito menos conseguem escrever com desenvoltura um simplório artigo. Os pais que condenam as escolas nunca se dispuseram a, voluntariamente, colaborar com a mesma. Somos hipócritas e ensinamos a sê-lo no mesmo ritmo desta opereta vagabunda que dia a dia compomos com nossos gestos mesquinhos.

Justificamos o fracasso pessoal, no êxito de outrem. Justificamos o fracasso de nosso sociedade na bem-aventurança de outras que passam a ser objeto de nossa fúria expiatório. Em fim, não somos mais responsáveis por nada e, como bem nos aponta Kathleen Norris: “O fato de termos declarado obsoleta a noção de pecado não diminuiu o sofrimento humano. E as respostas fáceis - colocar a culpa na tecnologia ou, por que não, nas religiões do mundo - não resolveram o problema”. O problema somos nós, por mais que neguemos esse fato.

Alias, o ato de não resolvermos os problemas que a vida nos apresenta e simplesmente projetá-los em um bode expiatório tornou-se uma pedra angular na sociedade contemporânea. Aquilo que durante muito tempo era sinônimo de infantilidade, passou a ser um comportamento tranqüilamente aceito como normal.

O brutal descaso para com o aprimoramento do intelecto em um misto com o desdém para com a retidão dos atos fazem-se cada vez mais uma regra societal, tornando a possibilidade de uma vida virtuosa uma grande chacota pelo fato de os olhares sorumbáticos dos biltres serem os pontos de referência para ditar o que seria reto e turvo.

E nesta inversão de valores, a última a ter direito a palavra e a primeira a levar pau é justamente a verdade em sua majestade para que, deste modo, possa a sociedade, seguir em seu desterro societário sem ser incomodada.

Terça, 25 Setembro 2007 21:00

Uma Busca Sem Fim

Ora, se vivemos única e exclusivamente a procura de nossa sobrevivência, nós e um cão não teríamos muita diferença.

 

O pensamento e a vida estão ligados à linguagem de maneira tal que, muitas vezes este dado escapa Sa nossa compreensão. A força viva da palavra transmite, gera e preserva de modo dinâmico o que pensamos e sentimos. Sem a palavra, nossa percepção da realidade seria confusa ou nem sequer chegaria a ocorrer, como muito bem nos lembra o professor Luiz Jean Lauand.

Seguindo por essa vereda, apontamos para o seguinte fato: toda vez que vislumbramos um teórico da educação que apresenta a sua compreensão sobre o ato de educar, temos diante de nossas vistas não apenas a apresentação de uma técnica de ensino. Através desta temos a apresentação de toda uma visão do que se entende por ser humano e, devido a isso, acabamos construindo toda uma expectativa em relação ao infante que se apresenta diante de nossas vistas através do olhar deste ou daquele teórico.

Todas as nossas práticas, todos os nossos gestos acabam denotando um determinado juízo frente a vida. Todas as nossas ações acabam narrando algo sobre nós que, muitas das vezes, nem nós mesmos temos uma clara compreensão expressando algo sobre nosso ser e sobre a vida que nem mesmo nós tínhamos consciência.

Na verdade, não paramos para refletir sobre esta descontinuidade de nosso ser em com relação aos nossos discursos, aos nossos ensinamentos. Neste descompasso freqüente, acabamos por edificar uma imagem disforme do que vem a ser o ser humano a tal ponto que, em muitos casos, nem mesmo nós mesmos somos passíveis de sermos compreendidos dentro desta imagem.

Exacerbamos de modo impróprio determinada dimensão da experiência humana em detrimento das demais, reduzindo a pessoa humana e, deste modo, inevitavelmente, desumanizando-a. Por exemplo: se nós reduzimos tudo o que o ser humano é a um mero jogo de relações econômicas (leia-se, luta de classes ou coisa do gênero), estamos reduzindo o entendimento do que é o ser humano ao ser de um animal qualquer.

Ora, se vivemos única e exclusivamente a procura de nossa sobrevivência, nós e um cão não teríamos muita diferença.

Mas, como muito bem nos aponta uma de minhas alunas, a vida humana é muito mais do que a mera sobrevivência. Alias, o que nos torna singulares no cenário da criação (tanto para o Bem como para o mal) são traços que pouco ou nada tem haver com a questões de ordem material.

E, sobre este ponto, o finado Pontífice João Paulo II, em sua Constituição Apostólica SAPIENTIA CHRISTIANA, afirma que a sabedoria cristã “[...] incita continuamente os fiéis a que se esforcem por concatenar numa única síntese vital as vicissitudes e as atividades humanas justamente com os valores religiosos, sob cuja elevada ordenação todas as coisas se hão de coordenar para a maior gloria de Deus e para o aperfeiçoamento integral do homem, o qual compreende os bens do corpo e bens do espírito”.

Todavia, infelizmente, nos indagamos: qual é o cabedal de palavras que utilizamos para nos religar com essa realidade? Qual é a linguagem básica utilizada em nosso sistema educacional? Qual é a linguagem básica utilizada pela maioria dos teóricos da educação?

Bem, é justamente neste ponto que encontramos o grande problema da educação moderna. No que tange a compreensão dos bens do corpo e do espírito e na carência de uma linguagem apropriada para se refletir sobre estes temas.

Alias, no que concerne a diferenciação da natureza desses bens, temos a edificação de um imenso cipoal de confusões e desencontros. Para tanto basta indagarmos sobre o que vem a ser um bem de ordem espiritual que o trem já desanda praticamente por completo. E, deste modo, acabamos por compreender porquê muitos invertem com tamanha facilidade a ordem destes bens, invertendo totalmente o sentido das coisas e elevando praticamente tudo aquilo que simplesmente desejamos por uma pulsão qualquer em um patamar que seja por si justo, como se esta pulsão fosse naturalmente um direito divinal.

Neste cenário, qualquer desejo é válido, desde que não procure elevar o indivíduo a algo melhor do que um mero conjunto de insatisfações. Eis o cidadão moderno. Eis o indivíduo liberto dos laços da tradição.

Quarta, 12 Setembro 2007 21:00

Pensando a Educação do Modo Cristão

Talvez, um bom começo para a resolução desta confusa situação seja nos perguntar sobre o que é um “fim último” e refletirmos sobre o que foi eleito para educação na sociedade brasileira atual.

"Estranho que o homem, em quase todas as coisas,

deva parecer melhor ou pior do que já é". (Niccolo Tommaseo)

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Praticamente, todo debate hodierno no Brasil sobre educação gira em torno de autores de orientação materialista marxista. Em certa feita, lembro-me de uma professora que havia me dito que muitas colegas suas afirmavam enfaticamente que se o teórico da educação não fosse marxista ela não o lia. Pior que isso é termos de ouvir Párocos fundamentarem suas preleções em Paulo Freire como meus ouvidos já testemunharam.

A forma como se desenha o cenário do debate sobre a educação em nosso país dá a impressão de que apenas a partir do século XVIII é que se passou a pensar com seriedade este assunto e que apenas autores seculares trataram do tema de modo coerente.

Bem, embuste maior não há. Alias, a discussão anterior ao “século das Luzes” é infinitamente mais profícua do que todo o trololó que vem sendo dito desde a décima oitava centúria até os dias de hoje sobre o tema. E, confesso, os autores cristãos tem uma contribuição colossal que é pouco explorada, para não dizer que é desdenhada em sua inteiresa.

Alias, se formos comparar a biografia dos autores com suas obras para averiguar se há coerência entre elas, perceberemos o imenso abismo que existe entre o que se entende por educação hoje e o que as sociedades tradicionais concebiam como tal e de que modo isso era perceptível na maneira como esses pensadores viviam as suas idéias.

Por isso, temos por intento através destas minguadas linhas trazer para a arena pública as considerações feitas pelo Papa São Pio XI em sua Encíclica DIVINI ILLIUS MAGISTRI – acerca da educação Cristã dos jovens, publicada em 31 de dezembro de 1929, no oitavo ano de seu Pontificado.

São Pio XI, lembra-nos que a educação consiste essencialmente “[...] na formação do homem como ele deve ser e portar-se, nesta vida terrena, em ordem a alcançar o fim sublime para que foi criado, é claro que, assim como não se pode dar verdadeira educação sem que esta seja ordenada para o fim ultimo...”.

Este ponto, o fim último da educação (que é o fim último da vida humana), é o ponto basilar para a construção de um projeto educacional coerente, pois, quando estamos falando em educação, estamos, inevitavelmente, falando de um conceito de pessoa humana e, fundamentalmente de um sentido para a existência humana. Por isso, todo educador deveria indagar-se sobre o que é um fim último e o qual fim eleger para ocupar esse pedestal teleológico.

Infelizmente tal indagação não é levantada. Basta perguntarmos: qual o fim último da educação? Qual o propósito do ato de educar? O máximo que se chegará no cenário atual é ao apontamento de fins segundos como se estes fossem uma pedra angular da vida humana.

Mais adiante o Santo Padre nos lembra que a educação moderna em seu intento de libertar as pessoas estava por embrutece-las e a escravizá-las. Afirma ele que os educadores modernos: “[...]iludem-se miseravelmente com a pretensão de libertar, como dizem, a criança, enquanto que antes a tornam escrava do seu orgulho cego e das suas paixões desordenadas, visto que estas, por uma conseqüência lógica daqueles falsos sistemas, vêm a ser justificadas como legítimas exigências da natureza pseudo-autônoma”.

E hoje, quando vemos professores e pais a se queixar da falta de respeito de muitos jovens, fica mais do que visível os problemas gerados pelas pedagogias ditas libertadoras que direta e indiretamente fomentam nos estudantes a insatisfação, o desejo por “justiça” (sem saber exatamente o que é isso) e, principalmente, o impulso a desprezar todo o senso de hierarquia de valores por ter aprendido que a medida de seus atos é o seu orgulho e vaidade.

Pio XI advertia que isso viria a ocorrer já no início do século XX e nós, até os dias atuais, continuamos a tatear em meio ao caos gerado pelos nossos atos (des)educativos.

Talvez, um bom começo para a resolução desta confusa situação seja nos perguntar sobre o que é um “fim último” e refletirmos sobre o que foi eleito para educação na sociedade brasileira atual. Isso se não nos encontrarmos enredados em demasia em nossos enganosos atos confundindo nossa existência com essa confusa trama.

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Nota caustica: palavras do senhor Presidente da República no 3º. Congresso do PT: “Ninguém neste país tem mais autoridade moral, ética e política do que o nosso partido. Admitimos que tem gente igual a nós, mas não admitimos que tenha melhor”.

Obs.: A quem interessar possa: Encíclica DIVINI ILLIUS MAGISTRI encontra-se disponível na biblioteca de nosso web site.

Terça, 28 Agosto 2007 21:00

Crítica da Razão Turva

Ora, se você é daqueles que deseja realmente entender o abismo em que nosso país se encontra, pouca serventia lhe terá a leitura solitária de uma revista Veja, Isto É, ou Época.

Um [de]formador de opiniões é bem quisto pela sociedade brasileira hodierna não pela sua capacidade de desvelar a realidade da vida humana, mas sim, pelo grau em que este fustiga suas “críticas” a tradição judaico-cristã e bem como a toda cultura clássica.

Se o figurão senta a pua na Igreja Católica e nas demais religiões tradicionais, ele é tido como “bom”, como uma pessoa lúcida e crítica. Se ele senta o sarrafo na economia de mercado, na livre iniciativa, ele também é tido em alta conta. Porém, frisamos mais uma vez, que assim o é, não pela capacidade que desta pessoa traduzir a realidade tal qual ela É, mas sim, pelo simples fato de este elemento comunicar uma mensagem, um colóquio que corresponde diretamente ao que nós, subjetivamente, estamos sentindo em relação a vida.

Trocando por dorso, em nome da “realidade da vida” negamos a realidade dos fatos para que possamos nos sentir melhor conosco mesmo e, neste exercício de negação do real, abdicamos voluntariamente de uma possível ação humana eficaz na resolução dos problemas que lá estão, no mundo da vida, mesmo que tenhamos conseguido cognitivamente negar a sua existência. Ou seja: negamos os problemas de uma maneira pacóvia e ingênua (muitas vezes maliciosa mesmo) para assim podermos fingir que estamos resolvendo eles. E se nada disso der certo, basta que, mais uma vez, atribuamos a causa destes males a algum bode-expiatório apontado por um destes [de]formadores de opinião que nós, mais uma vez, voltamos a nos sentir bem, sem nos responsabilizar pelo mal gerado pelas nossas ações turvas.

Agimos de modo superficial e apresada em nossos juízos axiológicos. Alias, somos tão volúveis em relação a eles que os trocamos levianamente como se estes fossem roupas que devem ser trocadas de acordo com a ocasião.

Agimos assim, não por uma característica pervertida inerente a nossa pessoa. Assim nos portamos por termos um gigantesco abismo em nossa formação. Em nossa sociedade, o que temos por valores elevados é nada mais que um conjunto superficial de condutas que ostenta com orgulho macunaímico frente ao desprezo pelos estudos, pela dedicação e, principalmente, uma impaciência maldita frente as questões que se apresentam. Concordo plenamente com um amigo meu que, em certa feita, afirmou que “a pressa pela resposta é a mãe da ignorância”.

No caso da sociedade brasileira, a constatação de meu amigo, faz-se regra primordial frente a maneira como agimos, como estudamos, como escolhemos nossos representantes, como confessamos nossa religião.

Reinventamos tudo a fim de podermos nos afirmar sob nossa nesciedade, para legitimarmos nosso puro “achismo”. Desejamos reinventar tudo na base do complexo de Chicó (não sei! Só sei que é assim). Deste modo matamos com grande orgulho a a filosofia (amor a sabedoria) em nome da filodoxia (amor as opiniões) e elevamos esta segunda no lugar da primeira.

Eric Voegelin, em sua obra EVANGELHO E CULTURA, nos aponta que: “Apenas a vida milenar da razão pode dissolver a sua deformação secular. Não temos de permanecer no gueto dos problemas contemporâneos ou modernos, prescritos pelos deformadores. Se a destruição remonta a séculos, nós podemos recuar milênios para restaurar a questão tão vastamente danificado no nosso tempo”.

Ora, se você é daqueles que deseja realmente entender o abismo em que nosso país se encontra, pouca serventia lhe terá a leitura solitária de uma revista Veja, Isto É, ou Época. Pouca serventia terá qualquer telejornal, pois, nestes casos, a referência civilizacional que lhe dará o suporte epistemológico será extremamente superficial, pois, de pouco adianta ter nas mãos uma e outra peça de um quebra-cabeças sem ter a menor idéia da imagem primordial do jogo.

Agindo assim, sem esta visão, a única coisa que pode sair é a confusão elevada a categoria de fundamento. Ou seja: qualquer bobagem facilmente é aceita como verdade provisória até que uma bobagem maior supra a nossa necessidade de besteirol maquiado de criticidade.

E neste embalo, segue a brasilidade.

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Obs.: Temos disponível na biblioteca de nosso web site algumas obras do filósofo Mário Ferreira dos Santos. Quem desejar conhecer o filósofo da história que, segundo as palavras de Olavo de Carvalho, teria alguma coisa de interessante a dizer a Platão e Aristóteles acesse http://dartagnanzanela.k6.com.br

Segunda, 20 Agosto 2007 21:00

Em Busca de Um Sentido

É curioso, para não dizer patético, como muitas pessoas em sua crença de poder transformar em algo melhor, em “um mundo melhor possível”, acabam revelando, através de sua face benevolente, toda a sua truculência. Toda a sua crueldade.

“[...]ó homem, quem quer que sejas, que te arvoras em juiz.

Naquilo que julgas a outrem, a ti mesmo te condenas; pois tu, que julgas, fazes as mesmas coisas que eles”.
(Rm 2, I: 01)

 

É curioso, para não dizer patético, como muitas pessoas em sua crença de poder transformar em algo melhor, em “um mundo melhor possível”, acabam revelando, através de sua face benevolente, toda a sua truculência. Toda a sua crueldade.

Para começo de prosa, os indivíduos que condenam moralmente toda a humanidade por seus passos turvos e pelos seus tropeções aqui e acolá, apresentam, logo de cara, uma reforma total do ser humano e da sociedade só podem ser compreendidos como seres demoníacos. Nada mais e nada menos que isso.

Um indivíduo que afirma que tudo no mundo está carcomido pela corrupção e que ele, com sua cabecinha de toucinho, iluminada, tem uma proposta salvífica para todos nós está simplesmente se proclamando Deus. Isso mesmo! Um indivíduo que, muitas das vezes, decora algumas frases e outro tanto de jargões e acredita que as “suas convicções” são um bálsamo para toda humanidade é um demente perigoso.

No fundo, o que essa gente cheia de boa vontade quer é simplesmente tornar o mundo a sua imagem e semelhança (que medo) devido a seu pavor nascido de seu sentimento de impotência advindo de sua ignorância congênita. Ou seja: tenta purificar o mundo com o excremento de suas almas putrefazes.

Nenhuma das grandes tragédias que assombraram a humanidade foi desencadeada por pura crueldade. Todas elas foram movidas pelo desejo de fazer justiça, de libertar os oprimidos de construir um mundo melhor. Tudo isso feito pelas mãos de pessoas embebidas em sua vaidade tornando-se incapazes de perceber e compreender os males que estavam por desencadear, pois estas, viam-se e vêem-se, como seres acima do bem e do mal.

Desde a Revolução Francesa até as Ditaduras Comunistas (que eles denominam como “populares” ou “Democracias populares”) o cenário desenhado é este: tragédias e mais tragédias tangidas em um só couro em nome da humanidade, mesmo que isso custe a vida, a liberdade, a dignidade de milhões de seres humanos.

Ou seja: por não compreenderem de modo claro o sentido da vida, por não entenderem de modo lúcido o que é o ser humano, estas pessoas, perturbadas espiritualmente, acabam inventando toda uma nova antropovisão que só existe em suas mentes e, conseqüentemente, acabam atribuindo um novo propósito para o existir.

Deste modo, seguindo esse tipo de raciocínio, muitos pensadores acabaram elaborando sistemas filosóficos que procuravam criar uma nova fundamentação para o ser humano em total contradição com o que o ser humano é de fato.

Exemplo interessante deste problema é o marxismo que hoje se faz presente (de modo sutil ou cavalar) em todas as searas do conhecimento inerentes as ciências humanas.

Quando lemos o Manifesto do Partido Comunista de 1848, temos diante de nós o manifesto da Liga dos 12 Justos, uma sociedade secreta que Karl Marx e Friedrich Engels haviam se tornado membros em 1847. O documento que declara os intentos de um “socialismo (dito) científico” não passaria de um texto com um vocabulário modernizado dos fundamentos dos Illuminatis da Baviera que bradavam aos quatro ventos: "FIAT JUSTITIA, RUAT COELUM". (Faça-se a justiça, mesmo que desabem os céus)

Enfim, Marx foi um homem que proclamou a necessidade de transformar o mundo, não de pensá-lo. Conseguiu. Creio que ele não desejava tudo o que foi edificado a partir de sua obra, mas não havia como não o ser. Como esperar bons frutos das longas laudas de “O Capital”, obra que redigida com base em dados manipulados dos Blue books do Parlamento Britânico? Ou seja: negando extratos da realidade para melhor transforma-la de acordo com os seus propósitos.

Um homem cheio de boas intenções, mas de pouquíssimas ações sinceras. Similar aos seus seguidores que inundam o mundo hodierno com sua indignação de iluminados.

Sábado, 04 Agosto 2007 21:00

O Descontínuo em Formação

Não é à toa que este país está no estado em que se encotra. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é. Todos querem transformar o sistema, sem reconhecer nas falhas deste a sua própria contribuição.

Houve um tempo em que todos afirmavam que quando concluíam um curso superior eles estavam libertos, que não mais necessitaríam estar sentados nos bancos escolares. Houve um tempo em que um título representava a consumação de um processo de aprendizado, conferindo a este indivíduo um status de suposta superioridade.

Este tempo, obviamente, ainda não findou totalmente na mente de muitos educadores e das pessoas de um modo geral. Não por sua responsabilidade em si, mas sim, pelo fato de vivermos em uma sociedade como a brasileira onde os títulos, por mais parvos que sejam, são apresentados como sendo um símbolo de “superioridade”. Quantos já não viram um ambiente decorado com um diploma de datilógrafo ou diploma similar? O que dizer então do poder simbólico de um diploma Universitário?

Mas, em fim, o que nos interessa aqui nestas linhas é a abertura para uma reflexão sincera sobre a necessidade do estudo constante temperado por uma reflexão perene sobre o nosso ofício e, principalmente, sobre nossas pessoas, pois, triste é a vida humana que não se permite um momento de reflexão sobre a imagem construída de si. Infeliz é a pessoa que se fecha em copas para qualquer possibilidade de reflexão individual e grupal sobre suas práticas e saberes, pois, pessoas de alma obtusa como estas, são muitíssimo semelhante as rochas que, com o devir do tempo apenas se decompõem e nada mais.

Ao nosso ver, todo e qualquer momento em que mais de uma pessoa se reúnem em uma confraria ou em uma reunião formal para discutir, para aprender, temos presente um sinal de maturidade intelectual. Não há nada de errado em estar errado sobre nossa atuação docente. O que é um erro capital é temer a auto-correção deste e esquivar-se dela como o diabo se esquiva da cruz.

Diante disso, temos que ter em vista, sempre, que o nosso maior adversário está em nós mesmo. Está em nosso medo de que reconheçam a nossa humanidade, que identifiquem a nossa falibilidade. Temos a publicidade de nosso íntimo.

Ora, errar é humano. Corrigir o seu próprio erro é divino. Mas, esquivar-se de nossa humanidade e negarmos a possibilidade divinal nada mais é que estupidez e da brava. E o que é mais interessante nisso tudo: estes mesmos indivíduos que afirmam constantemente a necessidade da transformação da sociedade se negam a possibilidade de transformarem-se a si mesmos.

Não é à toa que este país está no estado em que se encotra. Não é à toa que nosso sistema educacional é o que é. Todos querem transformar o sistema, sem reconhecer nas falhas deste a sua própria contribuição.

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