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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Sábado, 05 Abril 2008 21:00

O Médico e o Monstro

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto.

“A única boa educação é esta: estar o pai bastante seguro de uma verdade antes de transmiti-la ao seu filho”.
(G. K. Chesterton)

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Não. Este libelo não é sobre o clássico de Robert Louis Stevenson. Mas versaremos sobre o trato desproporcional que é dado ao trabalho de um educador nas analogias que são feitas entre o ofício do médico com o do professor.

Toda analogia pode ser proveitosa e nos auxiliar na reflexão sobre infindáveis temas desde que esta seja feita de maneira adequada e dentro das devidas medidas o que, por sua deixa, não ocorre com as comparações que são feitas entre as duas profissões.

É mais do que corriqueiro ouvirmos falar que o maior responsável pela reprovação do aluno são os benditos (talvez, não tanto) professores. Obviamente que nós temos a nossa medida de responsabilidade neste processo, porém, vamos nos permitir uma pequena comparação entre a educação e a medicina para compreendermos o quanto observações deste gênero são impróprias na maioria das vezes.

Quando um médico está tratando um paciente que esteja sofrendo de uma enfermidade qualquer, seja ela uma gastrite ou uma hemorróida, este lhe prescreve alguns medicamentos a serem tomados regularmente e uma disciplina que deverá, se possível, ser seguida a risca para que o elemento possa obter a cura.

Ou seja, se o indivíduo não seguir as recomendações feitas pelo seu médico dificilmente ele poderá alcançar a plenitude de sua saúde e, tal situação, de modo algum é responsabilidade do médico, mas sim, do próprio enfermo que não lhe deu ouvidos, correto?

Na educação não é muito diferente não, como muito bem nos lembra o finado educador estadunidense Mortimer J. Adler em seu ensaio “Doutor e Disciplina: A responsabilidade social do professor”, publicado em abril de 1952, no journal Higher Education.

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto. Se as suas orientações forem ouvidas e suas lições feitas com o devido zelo a probabilidade do aluno obter êxito será significativa. Todavia, se este não der ouvidos ou seu preceptor o resultado será um só: a danação serial, vulgo reprovação.

Mesmo assim, muitos teóricos da educação, burocratas e paupiteiros de plantão, similar a este que vos escreve, insistem que a responsabilidade pelo fracasso escolar seria fundamentalmente e unicamente do professor.

Sim, mas e quanto ao elemento vontade, onde fica? Sei que é praticamente um sacrilégio falarmos neste quesito, mas ela, a vontade e a sua antípoda, a má-vontade, existem. Se um paciente desiste de lutar contra a sua doença dificilmente o profissional da saúde poderá curá-lo, não é mesmo? Ele pode até tentar, mas a probabilidade do enfermo perecer continuará sendo elevadíssima.

E quando o “X” da questão é fracasso escolar nós também temos o elemento vontade (ou má-vontade) da parte do estudante que, muitas das vezes, é tão parca que chega a dar dó. Entretanto, o ânimo não é cultivável com um passar de mãos na cabeça e muito menos com um lavar de mãos cínico.

O ensinamento é um ungüento para o espírito e o aluno deve ter claro em seu horizonte que se este remédio não for assimilado dentro das normas apropriadas irá levá-lo a ter que arcar com determinadas conseqüências inerentes a apreensão ou não do conhecimento.

Por fim, não podemos nos esquecer de modo algum que mesmo considerações esparsas como esta não isentam o educador de sua responsabilidade frente ao fracasso da educação hodierna, pois este é um dos agentes do referido processo, mas não o único possível para ministrar este ungüento que é o saber. Ou vocês vão me dizer que a escola é o único espaço para isso?

Domingo, 16 Março 2008 21:00

Queimando Livros

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história.

"Para o triunfo do mal basta que os bons fiquem de braços cruzados". (Edmund Burke)

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Tive a grata felicidade de, neste sábado, participar de uma profícua discussão após a exibição do filme Fahrenheit 451 de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury. A discussão fora tão fértil, e o tempo tão escasso, que senti-me obrigado a ter de tecer alguns outros comentários através destas linhas. Porém, não sobre o filme, mas sim, a partir dele e das advertências que este nos faz através de seu enredo.

A sociedade futura imaginária descrita na película é um lugar onde os livros são proibidos por serem considerados uma forma de “propaganda da infelicidade”, visto que, “não se deveria prevalecer nenhuma diferença entre as pessoas” neste estado totalitário hipotético. Para combater este mal é criada uma corporação de bombeiros que tem por missão encontrar, apreender e queimar todos os livros a uma temperatuda 451º fahrenheit.

Nesta sociedade, o diálogo entre as pessoas membros de uma família era praticamente inexistente. Estas, dialogavam basicamente com uma “família” que se fazia presente nos lares através de uma grande televisão afixada na parede da sala.

Ora, de modo similar a conclusão apresentada por Aldous Huxley em sua obra “O Regresso ao Admirável Mundo Novo”, creio que a sociedade hipotética de Ray Bradbury levada as telas por François Truffaut não é assim tão distante de nossa realidade presente.

Poxa vida, obviamente que as pessoas não apenas dialogam com ou através de uma televisão, mas suas vidas e a pauta de suas conversas praticamente é ditada pelas falas “familiares” da televisão, não é mesmo? Conversa vai, conversa vem, e o assunto na roda é aquilo que passou em tal canal, ou o programa do fulano de tal que entrevistou o sicrano, ou simplesmente a trama de uma novela ou de um reality show qualquer.

É incrível como as pessoas dão tamanha importância a assuntos tão banais. É assustador como nós transformamos a vida em sociedade em um simulacro patético e ululante, onde vagamos de nossas casas para os nossos locais de ocupação utilitária, com nossas almas preenchidas unicamente com o banal que invade as suas vistas nos coisificando.

Mas, e quanto a queima dos livros? O amigo pode até concluir neste primeiro momento que tal prática não existe em nossa sociedade. Que nós somos um aglomerado societal de desvairados, porém, não a este ponto. Ledo engano. Afirmamos isso porque há mais de uma maneira de você poder queimar livros.

Não estamos a nos referir uma queima ipsis literis. Estamos nos referindo as inumeráveis maneiras simbólicas de se praticar esse crime contra a Civilização que, por sua deixa, é tão letal para a alma humana quando o incinerar literal de uma biblioteca.

Uma forma muito simples é o gradativo desdém que vem se construindo em torno dos “grandes livros” em favor das obras comerciais que são escritas unicamente para atender os clamores volúveis de um público de leitores rasos por uma palavra de consolo. Não é à toa que livros de literatura simplória e manuais de auto-ajuda tomam conta das livrarias ocupando, inclusive, o lugar de Machado de Assis, Lima Barreto, Camilo Castelo Brando, cujas obras deveriam ser lidas e estudas em todas as Instituição de Ensino.

Tamanha é a aberração que toma conta de nossa sociedade que Universidades comercializam resumos das obras que irão ser cobradas em determinados vestibulares. Este ato bárbaro não é uma forma simbólica de se queimar um livro?

Doravante, lembro aqui o relato de uma mãe que havia inscrito a sua filha em um módulo de “educação liberal” com o filósofo Olavo de Carvalho. Após algum tempo, sua filha disse a professora do Colégio, onde ela estudava regularmente, que ela não iria ler o livro solicitado por ela, livro o qual, chamava-se “Memórias de um cabo de Vassoura”. E a professora perguntou a ela o que ela estava lendo e esta, respondeu: “O Vermelho e o Negro” de Stendhal.

A garotinha reencontrou o significado de uma “grande obra” e passou a se deleitar em suas laudas. Reencontro o qual o nosso sistema educacional não está muito interessando em realizar, aparentemente. Idem a sociedade como um todo.

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história e, agindo desta forma, impossibilitamos que nossas almas possam se aproximar destes exemplos de grandeza em nome da preservação da pequenez de nossa existência.

Sexta, 07 Março 2008 21:00

O Legado De Uma Causa

Devemos também marcar em nossa memória um dos maiores legados das FARC e, deste modo, também uma das grandes obras do senhor Raúl Reyes que são as inúmeras toneladas de cocaína que adentram as fronteiras de nosso País.

Dizia Millôr Fernandes que, as vezes, é bom dar uma olhadela na página de óbitos dos jornais, pois, ao fazer isso, podemos ter uma boa notícia, tal qual essa, da morte do senhor Raúl Reyes, segundo no comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Morto em uma operação orquestrada pelo Exército Colombiano.

Após o anúncio da morte de Luis Édgar Devia, verdadeiro nome do líder narco-guerrilheiro morto em ação, as FARC afirmaram que o sangue derramado, o legado e a memória do líder rebelde engrandecem a causa da organização. Ora, mas qual é o legado das FARC? Qual é o legado desta organização terrorista-marxista? Qual dos atos desta organização que nós deveremos guardar em nossa memória? E agora José?

Eu elencaria, primeiramente as milhares de vidas de civis inocentes que foram ceifadas nas incursos e atentados promovidos por estes “humanistas”, segundo as palavras de Hugo Rafael Chávez Frías, no correr dos 44 anos de sua existência.

Lembraria também dos inúmeros sequestros orquestrados por estes distintos senhores que, apenas realizaram esse ato hediondo, porque era e é feio em nome de uma boa causa que é a Revolução Socialista e, por isso mesmo, aceitável. Alias, na cabeça desta gente, tudo é válido e aceito em nome da Revolução redentora.

Devemos também marcar em nossa memória um dos maiores legados das FARC e, deste modo, também uma das grandes obras do senhor Raúl Reyes que são as inúmeras toneladas de cocaína que adentram as fronteiras de nosso País para assim, gradativamente, matar muitos de nossos irmãos brasileiros como também, não podemos deixar cair no esquecimento, o grande feito de ter fornecido treinamento para as organizações criminosas que atuam como suas sócias no comércio de coca que não é cola e nem é engarrafada.

Isso mesmo minha gente. Não sejamos ingratos com o senhor Reyes e com sua memória heróica. Sejamos justos e lhe ofertemos a devida medida que lhe é merecida.

Mas também, sejamos justos com os seus amigos aqui no Brasil que sempre lhe deram todo o apoio em seus projetos e em todas as ações humanitárias das FARC. Isso mesmo. Não esqueçamos que esta organização tinha e tem inúmeros agentes de influência que lhe dava e dá apoio junto a opinião pública e, por isso mesmo, não nos esqueçamos de sempre lembrar que boa parte dos (de)formadores de opinião deste país sempre trataram com respeito estes narco-terroristas.

É isso mesmo meu caro. Lembremos que em 2003 Reyes deu uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo e nesta ele dizia que o seus principais contatos em nosso país no meio intelectual eram o senhor Frei Betto e Emir Sader. E tem mais. Na época foi perguntado ao mesmo quais eram as principais organizações que as FARC mantinham contato e este respondeu que seria: “[...] o PT, e, claro, dentro do PT há uma quantidade de forças; os sem-terra, os sem-teto, os estudantes, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, historiadores, jornalistas”.

E não adianta brigar comigo. Não sou eu que disse isso. Apenas transcrevi as declarações do falecido. E mais! O mesmo disse que conhecia o senhor Luiz Inácio Lula da Silva desde 1996, quando em San Salvador se realizou o quarto encontro do Foro de São Paulo onde ambos ficaram encarregados de presidir o encontro. Desde então os dois, Lula e Reyes, se encontraram em diferentes locais e mantiveram contato. Quando Lula se tornou presidente, estes não mais se realizaram.

Também não podemos deixar de lado e enterrar nas valas do esquecimento as declarações feitas pelo Presidente da República no Ato Político de celabração dos 15 anos do Foro de São Paulo quando este diz: “[...] eu queria começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que, junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta instância de participação democrática da esquerda da América Latina, precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto foi importante termos criado o Foro de São Paulo. E digo isso porque, nesses 30 meses de governo, em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990”.

Lembramos aqui que o Foro é uma organização que realiza encontros bienais entre partidos políticos e organizações sociais de esquerda e nacionalista da América Latina e do Caribe. Dentre essas organizações que se confraternizam com o Partido dos Trabalhadores estão o Exército de Libertação Nacional e as Forças Armadas Revolucionarias de Colômbia.

Este meus caros, é apenas parte do legado do senhor Reyes. Legado este que continuará a nos assombrar por muito tempo se depender da criticidade do cidadão brasileiro e do olhar atento de nossa classe falante.

Quarta, 20 Fevereiro 2008 21:00

Uma Dica Chinfrim

Se você conseguir fazer esse exercício de abstração, já estará dando o primeiro passo para a libertação de uma prisão cognitiva construída por você mesmo.

"O conselho é muito mal recebido pelos que dele mais necessitam, os ignorantes". (Leonardo da Vinci)

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Já a muito que o adágio popular nos ensina que a pressa nos leva ou a comer cru ou a queimar os beiços, não é mesmo? Esta é uma lição singela e, como toda lição deste gênero, nós a desdenhamos como todo aquele ar de arrogância e pseudo-superioridade. Porém, em meio a toda esta afobação acabamos por negligenciar as coisas mais importantes de nossas vidas em nome de um tempinho pífio a mais.

Corremos com nosso automóvel de modo irresponsável em nome de alguns minutinhos a mais, deixamos de ficar com nossa família em nome de algumas horas a mais sabe lá com quem e, de modo impróprio, tiramos sempre conclusões impensadas sobre assuntos que, de modo algum exigem esse afã de nosso ser.

A muito, já dizia um grande amigo meu, que a pressa da conclusão é amiga da ignorância. Obviamente que há inúmeras situações em que temos de tomar uma e outra decisão de supetão, todavia, quando o assunto é simplesmente emitir um parecer sobre uma notícia, um evento, uma obra, um autor, de modo algum somos obrigados a ter na ponta da língua uma resposta pífia e dissimulada com todo aquele ar pedante de suposta erudição. Alias, das manifestações da mediocridade humana, a que melhor retrata o ridículo existencial de um indivíduo é a dissimulação de sapiência que, por sua deixa, inexiste totalmente em sua alma, como muito bem nos lembra François La Rochefoucauld.

Todavia, como na maior parte das situações ridículas, a pessoa, necessariamente, não é obrigada a se colocar no referido estado. Posa nestas vestes de tolo, por desejar de maneira parva chegar a um ponto sem percorrer o caminho devido, similar a um lunático que, se joga para chegar ao pé da montanha mais cedo de os outros.

Então, se você não deseja de modo algum cair mais nesta situação ultrajante que, literalmente, toma conta de nossa sociedade, a solução é mais simples do que você possa imaginar. Basta dedicar um pouco de sua atenção aos ensinamentos do professor Mortimer J. Adler, um dos maiores educadores de todos os tempos e, talvez, por essa mesma razão, um ilustre desconhecido nestas paragens tupiniquins.

De suas obras, recomendaria a leitura do livro A ARTE DE LER, onde o mesmo apresenta, em ordem decrescente, um método simples e fantástico, para se ler um livro, uma serena problematização do sistema educacional de sua época (a obra fora publicada primeiramente na década de 40 da centúria passada) e uma sincera e cativante confissão de sua experiência pessoal com a leitura.

Este, com a humildade que é característica de todo grande mestre, e totalmente ausente nas massas bestializadas pela pretensão miúda, confessa que após concluir o seu curso superior, descobriu que não sabia ler. Não que ele não houvesse lido tudo o que ele deveria ter lido durante o seu tempo de estudante. Ele realmente era um estudante. Mas sim, que havia lido muito e aprendido muito pouco com o muito que leu.

O mesmo também nos confidencia que, para piorar a sua situação, ele tinha que dar aulas sobre aqueles livros que ele havia lido e estudado, mas que, por incrível que venha a parecer, seus conteúdos eram ilustres desconhecidos. Diante de tal confissão, cabe a pergunta que, pelo seguir destas linhas, se faz mais do que obvia: você, quando se formou (no ensino superior ou médio), não teve a mesmíssima impressão?

Pois bem, a denuncia de si feita por Adler não pára neste quesito. Como ele tinha que dar aulas sobre aquelas obras todas e tinha que encontrar uma solução para o problema que, em um primeiro momento foi a de tomar em mãos resumos, resenhas e comentários sobre as obras, ao invés de retomar as obras para lê-las novamente. E, deste modo, dissimulou para os seus alunos uma pseudo-erudição temperada com um pedantismo atroz. E, mais uma vez, não temos como não levantar a lebre: quem nunca fez isso? Quem nunca fez isso que atire o seu diploma.

Tomando consciência deste seu ridículo fundamental o professor Mortimer, depois de ter entrado em contato com o professor Charles van Doren, passou a repensar a forma como ele desenvolvia as suas leituras e a refletir sobre a forma como ele deveria proceder com as seus futuros estudos, pois, ler um texto é algo que demanda uma atenção especial. Atenção esta que, na maioria das vezes, não se encontra presente em nosso semblante.

E mais! Ler é uma arte e, como toda arte, a leitura deve ser composta de por um conjunto de técnicas que permita ao indivíduo fazer isso com a maior maestria possível, visto que, toda arte, tem por meta a perfeição e não simplesmente a feitura de algo de qualquer modo. No popular, isso seria um reles “chachixo” e, se uma gambiarra prejudica o bom andamento de qualquer coisa em nosso cotidiano, imagine o quanto uma leitura chichelenta pode ser prejudicial para o intelecto de um sujeito.

Se você conseguir fazer esse exercício de abstração, já estará dando o primeiro passo para a libertação de uma prisão cognitiva construída por você mesmo. Se não, pergunte-se: Qual foi o último livro que você leu? De que área especificamente era a obra? Qual era o tema central da mesma? Como era a estrutura da mesma? Quais eram os conceitos trabalhados pelo autor e de que modo ele os conceitua? Qual é a idéia central defendida pelo autor? Qual a relevância desta obra dentro do debate intelectual sobre o assunto tratado pelas suas laudas? Quem é o autor, qual é a sua história?

Se você não respondeu a essas perguntas temos aí um grave problema, pois, se não somos capazes de responde-las, significa simplesmente que nós lemos muito mal. Tomar consciência desse problema é o prelúdio de uma possível solução. Conhecer a obra do senhor Mortimer Adler, uma ótima opção. Porém, fingir que cada uma destas palavras escritas neste libelo não dizem nada, que não passam de um colóquio flácido é sinal de demência incurável.

Ora, e seria possível encontrar uma palavra mais apropriada para o panorama educacional em nosso país do que essa? Uma pessoa que lê uma obra e entende lhufas dela e, por não ter entendido nada, acha o autor o máximo, deve ser chamada de que?

Você pode dar o nome que quiser a realidade, mas ela continuará a ser o que é, goste você ou não dela. E, por fim, como nos lembra o historiador Issac Assimov, "Se conhecimento pode trazer problemas, não é sendo ignorante que poderemos solucioná-los". Infelizmente, não é esta compreensão que se faz reinante em nossa sociedade.

Sexta, 08 Fevereiro 2008 21:00

Tapando o Sol Com a Educação

Quando o assunto é educação e a prenhe necessidade que este país tem dela, de pronto aparecem os Sumo Sacerdotes do Fracasso, proclamando a necessidade de uma Educação Pública de qualidade.

"Quem perde os seus bens, perde muito; quem perde um amigo, perde mais;

mas quem perde a coragem, perde tudo". (Miguel de Cervantes)

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Quando o assunto é educação e a prenhe necessidade que este país tem dela, de pronto aparecem os Sumo Sacerdotes do Fracasso, proclamando a necessidade de uma Educação Pública de qualidade.

E o mais legal disso tudo é que eles sempre falam em nome de uma determinada “coletividade”, do “bem comum”. Nunca tem coragem o suficiente para falar por si mesmos, para falar a verdade, para proclamar aquilo que realmente motiva as suas intenções.

São covardes dissimulados e, assim o são, porque sempre estão falando em nome de seus interesses mesquinhos, evocando palavras miúdas oriundas de suas almas tacanhas, por terem perdido o fio de Ariadne de sua consciência individual (vide: CARVALHO; 1987).

Ora, meus caros amigos, “[...]o indivíduo que se preza só deve satisfação à sua própria consciência; não se junta em milícias para tentar esmagar a diferenças ou anulá-las em nome de valores tornados sagrados porque coletivos ou partilhados por uma maioria. Isso é coisa de corja, de súcia, de delinqüentes morais, de mascates do ressentimento, da vulgaridade e da ignorância”, como muito bem nos lembra o jornalista Reinaldo Azevedo (2008).

Percebe-se com clareza que o que menos há nesta seara é coragem moral, visto que o que mais carece é a existência da dita, esquecida e totalmente desdenhada consciência moral.

São raras as pessoas no magistério que tem a coragem de dizer aquilo que deve ser dito como também são raras as almas que estejam, de fato, compromissadas com a verdade sobre si mesmas que, por sua deixa, é o ponto chave na formação do caráter humano e, por isso mesmo, ponto basilar do ato de educar, seja o agente educador um professor ou um pai.

Visto minha discordância frente à concordância geral da maioria dos pareceres de meus colegas de ofício e de meus concidadãos, lembro aqui que sigo o conselho de Machado de Assis, que nos diz que: “[...]as idéias, são como as nozes, e até hoje não descobri melhor processo para saber o que está dentro de umas e de outras, - senão quebrá-las”.

Quebrar nossas ilusões que tão afetuosamente chamamos de idéias sobre a educação é, em sim, educar. De fato, para repensar o estado que se encontra a educação, devemos nos abrir a possibilidade de quebrar com a falsa imagem que temos do professorado, dos pais, do papel da sociedade, do Estadossauro e, fundamentalmente, de nós mesmos enquanto educadores, enquanto indivíduos civicamente (des)comprometidos (vide: PACHECO; 1998).

Para tanto, há-se a necessidade de se ter coragem intelectual para assim não mais continuarmos a tapar o sol da verdade com uma imagem de educação que nem mesmo nós vivenciamos intimamente. Ora, se apenas se compreende a realidade de algo almejando a apreensão sobre a sua verdade, por que então não somos verdadeiros conosco mesmo?

Por isso a necessidade da coragem moral e intelectual.

Não podemos, de modo algum, temer a destruição de nossas falsas convicções. Alias, devemos desejar que a correção de nossas falhas, de nossas vacilações, pois, infeliz é o indivíduo que atrela a sua vida em um cíclico viciado pelo gesto de encobrir os seus rastros torvos. Rastros estes extremamente presentes em nossa sociedade, em nossas vidas e que, se nós, educadores e cidadãos, não começarmos a nos dedicar à reflexão sobre o real estado desta e sobre nossas atitudes cotidianas, continuaremos a andar em círculos, perdidos como cachorros de caíram de uma mudança, em meio ao deserto edificado pela omissão para com a verdade (vide: VARGAS; 2006).

Verdade que poderia nos desnudar e assim, nos libertar de nós mesmos.

Enquanto não tivermos coragem de sermos impopulares conosco mesmo, continuaremos a ser os mesmos bajuladores de nossos erros e, obviamente, continuaremos a nos sentir como sendo as grandes vítimas de uma situação que nós mesmos nos recusamos a enfrentar. Situação que nós mesmos construímos com nossos medos, fantasmas e ilusões

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Referências:

AZEVEDO, Reinaldo. Por que eles nos odeiam tanto? Blog Reinaldo Azevedo: Publicado em 28/01/2008. Disponível na Internet: http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

CARVALHO, Olavo de. O abando dos ideais. Aula do curso Introdução à Vida Intelectual: setembro de 1987. Disponível na Internet: http://olavodecarvalho.org.

PACHECO, José. Avaliação de quê? In: Jornal A PÁGINA: ano VII, nº 65, Fevereiro de 1998, p. 20. Disponível na Internet: http://apagina.pt.

VARGAS, Carlos Eduardo. Filosofia da Pessoa. [s/ed.]. Arquivo em formato Word, 2006.

Quinta, 24 Janeiro 2008 21:00

Breves Notas Sobre o Renascimento

Muito se fala da dita obscuridade da Idade Média. Esta praticamente é colocada como uma espécie de modelo de tudo que há de retrógrado na história da civilização Ocidental.

"O mais importante da vida não é saberes onde estás, mas sim para onde vais". (Johann Goethe)

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Muito se fala da dita obscuridade da Idade Média. Esta praticamente é colocada como uma espécie de modelo de tudo que há de retrógrado na história da civilização Ocidental. Tal imagem tem tamanha amplitude que qualquer Zé Mané tagarelante fica a recitar loas sobre o quanto esta época era sombria e o quanto o Renascimento trouxe de melhoras para todos. Todavia, em que medida afirmar tal dito seria correto?

Na medida turva, sim. Na reta, nem tanto. Vamos por partes. Primeiramente, quando as pessoas se referem os indivíduos que viviam no medievo o fazem como se estes fossem um aglomerado de elementos supersticiosos. Por sua deixa, o historiador medievalista Jacques Le Goff, descorda e, inclusive aponta-nos que os homens e mulheres deste período eram muito mais racionais e sinceros em suas crenças e práticas do que nós, homens modernos (LE GOFF; [s/d]).

Se um homem medieval testemunha-se a forma como as pessoas dos dias hodiernos procuram qualquer cartomante, numerólogos, livros de auto-ajuda chinfrins e toda parafernália de má fé e picaretagem frente a qualquer dúvida existencial.

Os homens do medievo ficariam simplesmente abismados. Alias, ficariam catatônicas vendo como nós damos ouvido as nossas celebridades de cabeça oca, encasteladas em suas torres de vaidade, opinando sobre temas basilares que elas não compreendem nadica de nada. Mas, por terem um pernão, umas trocentas plásticas, ou terem um monte de estúpidos que gritam os seus nomes em shows, imaginam ter uma espécie de autoridade moral supra-temporal.

Quanto ao Renascimento Cultural. Todos lembram do que aprenderam nos manuais de história quanto a apresentação deste movimento que tinha o intento de fazer renascer a arte greco-latina e blablabla. Entretanto, vocês já pararam e refletiram sobre “o que” da antiguidade clássica estes artistas fizeram renascer? E mais! Vocês já pensaram, por um minutinho que fosse, o que os Renascentistas, com a sua “nova arte”, deixaram morrer?

Ora, o que se tentou fazer renascer no século XVI da arte grego-latina não foi o que havia de mais profundo na antiguidade clássica européia, mas sim e apenas, o que havia de superficial e rezo nestas culturas. O que era apenas voltado para o ser exterior e, por essa razão, acabou se tornando uma expressão artificiosa, pois as formas renascidas já a muito séculos havia perdido a sua verdadeira vida (GUÉNON; 2000).

Doravante, a vida intelectual que se formou na baixa Idade Média foi sendo substituída por uma limitação do conhecimento de ordem inferior, onde estudos meramente empíricos sem a mínima consistência em um conjunto de princípios foram se assenhoreando do universo intelectual. A ciência foi, gradativamente, se tornando uma coleção colossal de detalhes insignificantes e de hipóteses estapafúrdias que são solapadas a todo o tempo por novas hipóteses do mesmo gênero (GUÉNON; 2000).

Os acadêmicos escolásticos, com a sua dedicação exclusiva para os estudos, com sua vida voltada toda para a investigação e reflexão acabaram sendo substituídos por uma nossa casta de intelectuais que, em sua maioria absoluta, não passava de intelectuais que viviam as margens ou dentro das cortes européias e a serviço delas.

A imagem do acadêmico independente que havia nascido com a UNIVERSITAS MAGISTRORUM ET SCHOLIARUM, a corporação de estudantes e professores ávidos por aprender foi perdendo o seu espaço para essa nova turba. Foi justamente por volta dos séculos XVI e XVII que forças externas às Universidades acabaram por solapar as mesmas e o núcleo de sua vida intelectual (CARVALHO; 1998) o que, por sua deixa, permitiu a ascensão deste novo modelo de intelectual cortesão do poder que veio substituir o fiel peregrino da verdade.

Quanto ao humanismo, este restringiu toda atividade intelectual ao que fosse apenas humano ou inferior ao humano, não mais aceitando a existência de uma ordem superior, como se estivem a apartar-se dos céus para que assim o homem pudesse de um modo melhor brincar de Deus e dominar a terra. Isso sem falar que muitos destes humanistas trocavam o culto cristão por antigos cultos solares pagãos (SANTOS; 1997). Sinceramente: não consigo ver nenhuma melhora nisso.

Outro ponto importante, meus caros, a ser destacado. Onde vocês acham que os artistas renascentistas e escritores humanistas encontraram as obras do período clássico? Estavam bem protegidas, conservadas e muitíssimas delas traduzidas para o latim nos monastérios. Estas não estavam escondidas como faz-se parecer em filmes como “O nome da Rosa”, mas sim, protegidas. Meus caros, se os monges não tivessem tomado a bendita atitude de proteger estas obras, provavelmente elas teriam sido todas destruídas e queimadas no correr da Alta Idade Média (séc. V – IX).

Este período, a Alta Idade Média, tinha sido uma época de grande instabilidade política devido à queda do Império Romano do Ocidente. Por essa razão, novos reinos se formavam a todo o momento criando uma forte instabilidade da imagem e das funções do poder temporal.

A única instituição que se apresentava perene era a Santa Madre Igreja que chamou para si inúmeras responsabilidades que antes eram do Estado Romano. Se ela não tivesse assumido esta função e preservado o que sobrou dos idos clássicos, nada teria sobrado para se fazer “renascer”.

E o que é mais interessante nisso tudo é que são os próprios Renascentistas que cunharam a expressão “Idade das Trevas” a este período da história do Ocidente. Alias, também são eles que cunharam o termo Idade Média como sendo um tempo médio entre duas grandes épocas: a Antiguidade Clássica e a Modernidade Nascente.

Por fim, se fôssemos nos referir a uma época como idade das trevas, teria que ser com relação aos dias atuais. Ora, como podemos chamar uma época que possui todos os meios técnicos que permitem o fácil acesso a bens culturais e, mesmo assim, apenas se apetece do que é vulgo e raso? Que nome melhor para estes dias em que as pessoas, por não terem mais nenhuma referência civilizacional, se deixam guiar por qualquer pachorra midiática ou meramente imediatista e materialista?

Então, viva a modernidade e sua ignóbil vitória de Pírrica. Viva ao homem moderno que em meio a sua confusão existencial e cognitiva, por medida de segurança, prefere se apegar a velhos clichês para assim poder melhor se esquivar da dura verdade sobre nós.

 

Referências

CARVALHO, Olavo de. Crise da universidade ou eclipse da consciência? [27/07/1998]. Disponível na Internet: http://olavodecarvalho.org.

GUÉNON, René. La crisis del mundo moderno (1927). Textos Tradicionales: E-book em formato Word, [2000]. Disponível na Internet: http://www.euskalnet.net/graal/

Jacques Lê Goff diz ter confiança no século XXI. Entrevista a Laurent Theis: Le Point, [s/d]. Disponível na Internet: http://dartagnanzanela.k6.com.br.

SANTOS, Patrícia Lessa dos. No caldeirão dos bruxos: a filosofia herética de Giordano Bruno. Campinas: 1997. Dissertação (Mestrado em Educação na Área de Filosofia e História da Educação) - Faculdade de Educação, UNICAMP.

Segunda, 14 Janeiro 2008 21:00

Confusão Geral

“O orgulho é a fonte de todas as fraquezas, por que é a fonte de todos os vícios”. (Sto. Agostinho, Bispo de Hipona)

Ernesto Sabato adverte-nos sobre aqueles sujeitos que adoram falar de boca cheia que odeiam ou, no mínimo, desdenham a filosofia. Lembra-nos que estes que tanto se gabam desta chula posição, sem o saber, estão a fazer filosofia, porém, do pior qualidade possível (vide: HETERODOXIA).

Estes indivíduos assim procedem por alimentarem em suas almas a impressão de que somos seres humanos melhores que as inúmeras gerações que nos antecederam simplesmente pelo fato de termos em nossas mãos inúmeros brinquedinhos tecnológicos e uma enorme quantidade de informação acumulada em arquivos. E, por essa razão, um adolescente, e mesmo um adulto, pensa que sabe mais e até mesmo que compreende melhor o mundo e a si mesmo do que um Aristóteles, um Santo Agostinho ou do que um São Tomás de Aquino.

Sobre isso, um dado que julgamos ser relevante e que com o passar dos anos mais e mais se torna evidente em nossas observações é o de que quanto mais estúpidas são as pessoas, mais pretensiosas elas se tornam, na mesma proporção em que se convertem em uma caricatura ridícula do que é o ser humano nos idos hodiernos.

Não? Então vejamos: se hoje fôssemos indicar uma obra como a Suma Teológica de São Tomás de Aquino para um estudante ler ou mesmo para um adulto bem [de]formado, com diploma e tudo, seu cérebro iria apanhar feito cachorro sarnento logo nas primeiras páginas. Por isso mesmo nos lembra René Guénon que obras desta envergadura não eram escritas para eruditos, mas sim, para estudantes (vide: SÍMBOLOS FUNDAMENTALES DE LA CIENCIA SAGRADA).

Vejam só o tamanho da degradação que o intelecto humano atingiu e o quanto esse tipo descrito no primeiro parágrafo desta tosca e cáustica missiva abunda em nossa sociedade e o quanto se faz caricato. Os mesmo indivíduos que desdenham toda a tradição filosófica, toda a perenidade dos ensinamentos da scientia veritatis, gabam-se de ter lido livros como The Secret ou similar e presumem que estão aptos a “analisar” qualquer coisa.

Tudo bem se o indivíduo gosta deste tipo de leitura, entretanto, o que não dá para agüentar e ter que ouvir destes indivíduos os seus pareceres sobre os mais variados temas como se a sua impressão subjetiva da realidade objetiva tivesse alguma relevância. Alias, falam grosso para defender o seu sacrossanto direito de obrigar os outros a terem que “aceitar” os seus “eu acho” sobre tudo.

O homo sapiens brasiliensis, de um modo geral, tem uma aversão à profundidade, excetuado a do copo de cerveja, é claro. Mas, ao mesmo tempo, ama ouvir, mais do que ler, toda e qualquer revelação pseudo-esotérica sobre qualquer futilidade. Adora propagar nas rodas de conversa que ele sabe sobre a existência deste ou daquele plano de conspiração secreto. Tão secreto que até ele sabe. Adora falar do poder da mídia em manipular a sociedade e repete os mesmos cacoetes “críticos” (ou similares) que leu ali ou ouviu acolá.

De modo acertado o finado Pontífice João Paulo II nos ensina que uma sociedade vive das obras de sua própria cultura (vide: MEMÓRIA E IDENTIDADE). E, assim sendo, compreendemos perfeitamente porque a sociedade moderna, e a brasileira de modo especial, vêem-se a perambular pelos dias como se fosse um zumbi societal vagando sem ter um porto seguro e muito menos um destino desejável, ficando a vagar pelo ermo movido pelo desejo de destruir tudo que aparente ser melhor que seus mórbidos olhares.

Panacéia para isso, não há. Não mesmo. Porém, como nos lembra Efrén M. Ortiz (vide: LA EDUCACION DESDE LA LOGOTERAPIA), se passarmos a encarar a vida como uma pergunta a ser respondida, se passarmos a crer que a vida é inundada de possibilidades que podem ser levadas a cabo em qualquer situação, poderemos, quem sabe, nos tornar pessoas melhores do que somos.

Mas, se continuarmos a fiar nossas vidas na idéia pacóvia de que a melhor maneira de compreendê-la é a nossa incompreensão total, não conseguiremos ser melhor do que somos. E quem disse que é necessário isso, não é mesmo? Para nos sentirmos um ser humano melhor basta que achemos que todo o restante seja pior, que o mundo não é perfeito só porque ele não é do jeito que a gente queria que fosse. Ora, não é assim, em níveis variados, que a maioria das pessoas pensa?

Eis aí a confusa régua de valores do homem moderno.

Quinta, 03 Janeiro 2008 21:00

O Poder Desdenhado

Apenas digo que da mesma forma que os milagres, a educação, para transformar o indivíduo, deve ser acreditada pelo mesmo.

Muito se fala no meio educacional das inúmeras variáveis que determinam o comportamento humano, sejam elas de ordem social, econômica, política, psicológica, etc. E, de tanto falar destes traços, meus encarecidos colegas de ofício esquecem do poder de transcender a todas essas variáveis que é inerente a todo ser humano.

É de entristecer a alma quando ouvimos educadores e especialista em educação (que nunca educaram ninguém) afirmarem que seria basilar que nós transformássemos toda a realidade social e bem como todo o sistema educacional para podermos desenvolver um fazer pedagógico em um nível satisfatório. Eu, de minha parte, afirmo que basta, em princípio, que haja boa vontade e possibilidade de se poder estimular a responsabilidade em nossos educandos. E, justamente esses dois pontos, são os que mais carecem no cenário hodierno que se vivencia nesta seara.

Meus caros, a educação, como todo ato humano, não tem unicamente uma dimensão externa. Alias, a sua dimensão mais rica e necessária é justamente a dimensão interior que apenas pode ser testemunhada pelo agente primeiro do ato que é o próprio indivíduo.

Quando nos referimos à dimensão interior, estamos apontando para o fato de que a educação deve estimular no indivíduo à vontade de sentido, fazendo uso da terminologia de Victor Frankl, para que, desta forma, ela possa encontrar um propósito para a sua vida, mesmo nos momentos em que tudo parece não mais ter nenhum, pois, como Friedrich Nietzsche afirmou, “quem tem porque viver suporta qualquer como”.

Todavia, hoje em dia o que os educadores menos ensinam é isto, não mesmo? O que os pais, e a sociedade de um modo geral, menos ensinam é justamente isso: a dignidade de viver a vida da forma mais humana possível.

Pode parecer tolice, caro leitor, o que estou escrevendo, mas sem esse elemento simples que é o cerne mágico do educar, do ato de guiar o indivíduo a encontrar-se consigo mesmo. Talvez, um bom exemplo seja a de uma senhora que, já passado dos sessenta anos de idade, passou a freqüentar uma turma de MOBRAL na qual minha mãe lecionava no fim da década de oitenta. Tive a oportunidade de conhecê-la, pois, quando pequeno, minha mãe me levava junto com ela em seu sacerdócio educacional.

O que é interessante na história desta senhora, hoje já falecida, é que antes de ela freqüentar a sala de aula, vivia doente, desanimada, sem vontade de viver. Após iniciar os seus estudos, ela não mais ficou doente e freqüentava assiduamente todas as aulas noturnas, fizesse chuva ou um belo luar.

A escola que minha mãe lecionava não tinha muitos recursos. Era apenas uma modesta escola municipal da cidade de Dois Vizinhos. Porém, o que ocorreu com esta senhora foi o milagre transformador que a educação é capaz de propiciar a qualquer indivíduo que é o de preencher a vida de sentido e, deste modo, preencher a existência humana com uma dignidade singular.

Como isso ocorre, especificamente, eu não sei. Apenas digo que da mesma forma que os milagres, a educação, para transformar o indivíduo, deve ser acreditada pelo mesmo. O seu conteúdo intrínseco e misterioso deve ser desejado e amado para que, deste modo, o prodígio ocorra, tal qual ocorreu com esta senhora.

O ser humano não é apenas movido por desejo de poder como afirmava Adler e não é tão só movido por necessidades econômicas como queria Marx, ou por seus desejos rasteiros como supunha Freud. O ser humano anseia profundamente viver de uma forma que tenha sentido. Essa é a grande força que nos move como sabiamente aponta-nos Frankl em sua obra EM BUSCA DE SENTIDO.

Para tanto, devemos apenas estimular a responsabilidade e, acima de tudo, ter boa-vontade.

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Obs.: já está disponível em nosso website duas obras do filósofo Sto. Afonso de Ligório.

Quarta, 26 Dezembro 2007 21:00

Douta Cretinice

Para qualquer pessoa que conheça mediamente a Sagrada Escritura, a referida declaração lembra perfeitamente a passagem em que Cristo, estando no calvário, volve suas vistas para os céus e diz: “Senhor, Senhor, por que me abandonas-te?”.

Deus, porque permitiste isto?” Este é um trecho do discurso proferido por sua Santidade, o Papa Bento XVI, em Auschwitz no ano de 2006. Discurso este que ecoou pela mídia chique e pelos corredores do meio letrado como sendo uma afirmação herética proferida pelo próprio Vigário de Cristo.

Tal impostura de nossa classe letrada tagarelante já é típica. Por deterem um título que apenas atesta a sua superficialidade, estes senhores acreditam que podem opinar sobre tudo e, principalmente, sobre searas que eles desprezam totalmente.

Ora, o caso da repercussão ad infinitum desta passagem é um bom exemplo. Todos os “entendidos” sobre assuntos religiosos mais que rapidamente afirmavam que a fé de Bento XVI seria duvidosa. Eu, de minha parte, afirmo literalmente o inverso do dito. Afirmo que a referida declaração é prova cabal da profunda vida espiritual deste.

Para qualquer pessoa que conheça mediamente a Sagrada Escritura, a referida declaração lembra perfeitamente a passagem em que Cristo, estando no calvário, volve suas vistas para os céus e diz: “Senhor, Senhor, por que me abandonas-te?”. Quem sabe os ditos “entendidos” em todos os assuntos sem ter estudado nenhum passem a afirmar que o próprio Verbo encarnado também duvidasse de sua própria existência, não é mesmo?

De mais a mais, essa exclamação do Sumo Pontífice retrata um olhar de perplexidade diante do mal gerado por nós, seres humanos, no correr da centúria passada.

Outro bom exemplo desta douta cretinice que habita as redações e cátedras de nosso país são as tolas afirmações de que o Sucessor dos Príncipes dos Apóstolos estaria modificando a Igreja, que ele estaria dando uma guinada reacionária na mesma. Bem, pra começo de prosa, o problema desta turma ainda é o mesmo: falam do que desconhecem e desprezam.

Por exemplo, vejamos o tom da primeira Encíclica de seu Pontificado, a DEUS CARITAS EST. Nesta, Bento XVI, reafirma o princípio da subsidiariedade que é parte integrante da Doutrina Social da Igreja, defendida pelos seus antecessores Leão XIII, através da RERUM NOVARUM, por Pio XI, através da CENTESIMUS ANNUS, por Pio XII em sua mensagem de Natal de 1941 e, também, na MATER ET MAGISTRA de João XXIII. Aí, vem um Zé mané que, por não conhecer nada sobre o assunto, presume que ninguém mais conhece e, deste modo, aufere a si o direito de poder dizer qualquer sandice como esta.

Bento XVI está apenas fazendo o que todos os Papas que o antecederam procuram fazer dentro das limitações humanas: preservar a tradição Cristã. Essa é a função do Primaz da Itália. Não é inventar a cada geração um novo cristianismo, mas, fundamentalmente, procurar preservar e espalhar a mensagem que o Verbo encarnado nos legou.

Por fim, o que é mais interessante neste enrosco todo é a diferença da mentalidade que há entre Bento XVI e os seus algozes. Estes últimos acreditam que tudo o que a Cristandade fez, até o momento, foi um amontoado de equívocos e que eles seriam pessoas melhores que todos os mártires e santos juntos. Já Bento XVI, humildemente, procura desempenhar o seu papel, crendo que todos aqueles que o antecederam eram e são imensamente maiores do que ele, pois, como afirmava Bernardo de Chartres, todos nós, reles mortais viventes, não passamos de anões nos ombros de gigantes.

Excetuando, obviamente, aqueles que tudo sabem sem nada ter aprendido, vendo-se perdidos no cipoal de mentiras que contam para si na vã tentativa de construírem uma imagem de suposta dignidade sem ter cimentado nada de significativo no âmago de sua alma.

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Obs.: Recomendamos a leitura do última Encíclica do Papa Bento XVI – SPE SALVI – que está disponível na Internet no site do Vaticano e no nosso site pessoal. Dito isso, desejamos a todos um Feliz Natal, um Próspero 2008 e que Aquele que É ilumine nossa consciência e aqueça o nosso coração.

Segunda, 03 Dezembro 2007 21:00

Meninos Eu Vi

A sociedade contemporânea não passa de um cipoal de hipocrisias em um misto com um emaranhado nojento de covardia e arrogância e este que vos escreve não fica fora deste baralho pérfido de modo algum.

A humanidade é decepcionante. A sociedade contemporânea não passa de um cipoal de hipocrisias em um misto com um emaranhado nojento de covardia e arrogância e este que vos escreve não fica fora deste baralho pérfido de modo algum. Todavia, os pequenos incautos, ainda não infectados com nossa desídia intelectual e com nossa decrepitude moral, nos surpreendem de tal maneira que nos levam a renovar a nossa esperança na vida e em nós mesmos.

Na semana que findou nasceu meu sobrinho Pedro Henrique. Um belo garotinho. Mas o causo que eu tenho para contar não do Pedrinho. É do Johann, meu dileto filho que tanta alegria traz para minh´alma iníqua.

No correr da gestação, o meu pequeno João de Deus, sempre conversa com seu primo na barriga de minha cunhada e sempre dizia: “Pedro! Eu vou puxar você daí e vou colocar uma roupa de batman pra gente poder brincar”. E, dito isso, acariciava a barriga com um suave afago e dava um tchau.

Logo, quando este chegou da maternidade, fomos vê-lo e, não preciso nem dizer quem estava mais ansioso. Chegando no quarto reparei que o meu filho estava quieto e, com os olhos a marejar em lágrimas com as mãozinhas perdidas, sem saber o que fazer. E, em meio a este não saber o que fazer eis que minava de âmago de seu ser um suspirar entremeado por um constante palpitar de alegria.

Estava ele com um presentinho que minha esposa entregou para a mãe do pequeno e, mais que depressa, o nosso herói pega de volta o dito presente e coloca-o calmamente o dentro do berço, junto aos pés de Pedro.

De repente minha esposa resolveu pegar o bebê no colo e sentou-se na cama. Aí, eu lhes pergunto: o que o Johann fez? Estendeu lentamente os braços na direção do Pedro para pegá-lo no colo. Estendeu os braços bem certinho. Detalhe: Johann tem apenas três anos de idade.

Colocamos ele sentado ao pé da cama e colocamos um pequenino no colo do outro. E os olhos dele brilharam. E um sorriso singelo e primaveril iluminou o roso do meu indiosinho. Pedi que ele desse um beijo na testa do nenê e disse: “Que Deus lhe abençoe”. E ele o fez. E meninos, confesso: eu vi. Vi meu pequeno Johann descobrir o sentido e a beleza da vida.

Creio que meu filho, com o passar dos anos, não mais se lembrará desta cena. Todavia, eu nunca esquecerei desta imagem. Tenho pela convicção de que nunca esquecerei da lição que meu pequeno batman (que também é, de vez enquanto homem-aranha) me ensinou.

Quanto a lição, esta (e todas as outras que ele me ensina) só a mim e a meu filho interessa e a ninguém mais. Agora pergunto a você meu amigo, quantas lições você deixou de aprender com o seu filho por não dar a devida atenção ao seu jeito inocente de ser o que é?

Não estou falando da correria do trabalho não. Alias, usar a correria do trabalho para justificar o mau desempenho do papel de pai é uma baita de uma canalhice. É justificar a sua insatisfação com a vida e mesmo com as suas escolhas equivocadas na pessoa de uma criança. Dizer que não tem tempo por causa de seu filho é culpá-lo pelo que você é e faz.

Estou me referindo aos dias de folga que você troca a sua família pelos seus amigos, pela cervejinha, pela conversa fiada e vulgar do happy hour. Me refiro aos momentos que há sim possibilidade de se estar com o moleque e de aprender com ele aquilo que torna a vida digna de ser vivida e que você deixou de estar com ele porque a sua satisfação era mais importante que o sorriso contagiante do pequeno.

E o tempo passa meu amigo. Passa que a gente nem vê e por não ver, deixamos de aprender lições que nossos filhos nunca mais poderão nos ensinar porque o tempo da lição já terá findado. Pior que isso, é ficarmos feito abobalhados sem saber a razão do porque nossos filhos e alunos dão tão pouca atenção para os nossos rompantes e disparates moralistas. Nos esquecemos que eles aprendem muito bem a lição que lhes é ensinada quando trocados por qualquer futilidade do mundo adulto, não é mesmo?

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