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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Domingo, 29 Junho 2008 21:00

Democracia Americana

Por fim, se Thomas Jefferson tinha razão quando afirmava que um dos pontos fundamentais para se consolidar uma república é o livre acesso ao conhecimento.

"Quando alguém assume um cargo público deve considerar a si mesmo como propriedade pública." (Thomas Jefferson)


 


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Toda vez em que a mídia chique brasileira faz a “cobertura” de uma eleição presidencial nos Estados Unidos, imediatamente, somos obrigados a ter que ouvir os grunhidos daqueles (de)formadores de opinião que passam a falar sobre o sistema eleitoral estadunidense, sobre os USA e o quanto eles são pseudo-democráticos, visto que, as eleições presidenciais lá não são diretas, mas sim indiretas, através de seus “colégios eleitorais” só porque em três momentos de sua história, a decisão do Colégio Eleitoral foi diferente do visto nas urnas. No caso, foi nas eleições de 1876, 1888 e, mais recentemente, no ano de 2000.

Mas o que há de errado nisso? Pra começo de prosa, quem escolhe os delegados, não é o povo estadunidense? Segundo, o número de delegados para integrar o “colégio eleitoral” é proporcional ao número de eleitores do Estado e por essa razão simples nas duas ocasiões apontadas acima que o resultado das urnas foi diferente do “colégio”. De mais a mais, cada Estado da Federação tem liberdade para legislar sobre os procedimentos das eleições. Isso meus caros concidadãos brasileiros, não é pseudo-democracia, mas sim, plena autonomia. Coisa que nós, em nosso país de longa “tradição democrática”, (des)conhecemos na íntegra, não é mesmo?

Doravante, justo deve ser mesmo o nosso sistema eleitoral onde Estados com uma população ínfima em comparação com a de outros Estados da Federação tem, (des)proporcionalmente, uma quantidade maior de deputados e senadores. É, você já parou pra calcular o quanto um voto Acreano, por exemplo, vale mais que um voto paranaense? É só ver com quantos votos um acreano elege um Senador ou um deputado e comparar com a quantidade de votos que são necessários em nosso Estado para eleger uma pessoa para os mesmos cargos. Isso sim que é um calculo justo e proporcional, não é mesmo?

E tem mais! Desde que os Estados Unidos tornou-se uma nação independente nunca tiveram um golpe de Estado, nenhuma tentativa de violação do Estado Democrático de Direito. Já aqui nestas terras de Pindorama, faltam dedos para contar as tentativas de golpe e os golpes que foram bem sucedidos no seu intento de usurpar o poder. Isso sim, meus caros, que é uma bela demonstração de “civilidade democrática”.

É claro que mais uma vez nossos meios de (des)informação irão apresentar os seus cáusticos comentários sobre a “ineficiência” do sistema eleitoral deste país e ufanarão as nossas maravilhosas urnas eletrônicas e blá blá blá. Bem, mas e quem disse que a validade de um regime democrático se mede pela velocidade da apuração dos votos?

De mais a mais, nós em nossa vaidosa brasilidade, carente de força e de uma substância, poderíamos nestas eleições presidenciais dos USA prestar um pouco de atenção em um detalhe que, muitas das vezes, nossas vistas desdenham. Prestemos atenção nas escolas estadunidenses onde estarão instaladas as urnas para votação e compare a estrutura das escolas da América com as instituições de ensino de nossa Pátria.

Por fim, se Thomas Jefferson tinha razão quando afirmava que um dos pontos fundamentais para se consolidar uma república é o livre acesso ao conhecimento, podemos então, com certa intranqüilidade, pararmos com essa histeria patrioteira de ficar ufanando virtudes que inexistem em nosso ethos e passarmos a nos espelhar nas virtudes cívicas que realmente existem, mesmo que sejam virtudes que são vividas por um outro povo, em uma outra nação, pois, não há dignidade alguma em ufanar a própria vileza.

Para nos convencermos disso, você não tem que dar ouvidos a esse indigno escrivinhador. Basta apenas que volte as suas vistas para a sua volta e estude um pouco da formação histórica dos Estados Unidos. Alias, quantos livros você já leu sobre a história dos USA? Nenhum? E é com base nesse tipo de fundamentação que você constrói a “criticidade” brazuca, “criticidade” edificada no vácuo de sua ignorância congênita.

Sexta, 20 Junho 2008 21:00

O Caminho Turvo Possível

Alias, uma sociedade que não quer enfrentar a realidade dos fatos, está simplesmente apresentando sinais desta doença descrita sucintamente nestas mal fadas, mas sinceras, linhas.

"A política baseia-se na indiferença da maioria dos interessados,

sem a qual não há política possível". (Paul Valéry)

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O fenômeno totalitário, ao contrário do que muitos pensam, não é algo distante de nossa realidade vivida de maneira ordinária. O totalitarismo, nos seus mais variados tons ideológicos, tem as suas raízes muito bem calcadas justamente neste âmbito e, por essa mesma razão, a sua implantação acaba passando desapercebida aos nossos olhos. Quando nos damos conta, já nos encontramos imersos em meio a este cipoal infernal.

Por isso mesmo, a pergunta que, pelo menos em meu íntimo, não quer calar de modo algum é justamente aquela que clama por uma resposta sobre esse terrível destino que assolou a humanidade pelo correr da centúria passada e que continua a assombrar-nos no início do terceiro milênio. Ora, como é possível que as pessoas de uma determinada sociedade se entreguem “docilmente” ao domínio dos tentáculos leviatânicos de um Estado Totalitário?

A resposta para tal inquietação não é de modo algum simples, visto a complexidade do fenômeno. Todavia, podemos, modestamente, traçar algumas linhas sobre os fatores que levam uma sociedade democrática a permitir que um Estado Democrático de Direito se transmute em Estado Totalitário.

O ponto basilar para que tal situação se desenhe seria a geração de um grande clima de insegurança, onde o indivíduo se sinta literalmente desemparado, desprotegido e fragilizado. Obviamente, meu caro Watson, que tal clima de insegurança não se constrói da noite para o dia, mas sim, gradativamente, sem que percebamos o começo da cena que vai-se armando e muito menos o fim dramático que nos aguarda, pois, se assim o fosse, ao menos teríamos uma visão parcial do problema gerado e, com relativa tranqüilidade, poderíamos evitar o pior.

Este estar “perto do coração selvagem” é uma condição sine qua non para que se possa implantar este Estado demoníaco, visto que, os indivíduos sentindo-se desprotegidos e fragilizados irão procurar a salva-guarda de um “bem-feitor” para protegê-los do clima de anomia que se faz reinante na sociedade.

Mais uma vez, lembramos o óbvio ululante de que tal processo não ocorre de maneira brusca, mas sim, gradual. E mais! O agente que se apresenta como o “bem-feitor dos bem-feitores” é justamente aquele que pacientemente estimulou e fomentou toda a esbórnia que ameça a tranqüilidade dos pacatos cidadãos.

Com conhecimento de causa, Andrei Pleshu, Ministro das Relações Exteriores da Romênia (Diretor do New Europe College de Bucareste), lembra-nos também que: “Durante anos, a retórica do estado totalitário tentou compensar a ausência de soluções imediatas com sua superabundância de um futuro 'dourado', garantido ideologicamente mas, de fato, indefinido. Diziam-nos que o hoje era difícil, mas que o amanhã seria maravilhoso, que a glória da atual geração consistia em seu desejo de sacrificar-se pelas gerações futuras”.

De mais a mais, se você estudar, pacientemente, todos os regimes totalitários que aterrorizaram boa parte da humanidade no correr do século XX, perceberá que todos eles procederam desta fora. Apenas a título de ilustração, sugerimos que o leitor deite as suas vistas na história da ascensão de Adolf Hitler ao poder e perceberá que este se assenhorou do poder na Alemanha de maneira gradativa e não de modo repentino e que, todo o clima de insegurança fora gerado por ele e seus partidários. Outro exemplo que julgamos ser de grande relevância é o da nossa vizinha Venezuela.

Alias, para que recorrermos a exemplos que habitam o tubo de ensaio da história universal se nós podemos perfeitamente visualizar isso em nosso país, não é mesmo? É claro que não perceberemos nada disso se apenas olharmos para as manchetes imediatas, entretanto, se fizermos um estudo paciente sobre a história recente de nosso país perceberemos que esse processo mesmo sendo, por sua natureza, gradual, está caminhando a passos acelerados nestas terras cabralinas.

Não estamos aqui criando nenhum clima de terror. Não mesmo. O que estamos fazendo, de maneira pacóvia, é chamar a atenção para as inúmeras invasões, para a criminalidade organizada, para a bandalheira que infesta o Estadossauro que se agiganta dia após dia, enfim, para a semelhança assustadora destes fatos para com o caminho percorrido em outras paragens, guiados por políticos que tinham e tem gurus intelectuais e ideológicos similares (para não dizer que são os mesmos). Caminhos esses que terminaram e possivelmente terminarão naquilo que o tribunal da história ensina para quem desejar realmente aprender esta lição escrita com lágrimas e sangue.

Alias, uma sociedade que não quer enfrentar a realidade dos fatos, está simplesmente apresentando sinais desta doença descrita sucintamente nestas mal fadas, mas sinceras, linhas.

Sexta, 23 Maio 2008 21:00

Noções Elementares Sobre

"A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais nem grandeza. Aqueles que têm grandeza interior não se encaminham para a política".

"A política é uma delicada teia de aranha em que lutam inúmeras moscas mutiladas". (Alfred de Musset)

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O filósofo francês Albert Camus nos lembra que: "A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais nem grandeza. Aqueles que têm grandeza interior não se encaminham para a política". Talvez essa seja a primeira lição que nós devemos aprender quando nos dispomos a estudar e refletir sobre o fenômeno político, principalmente, quando nos decidimos a estudar a sua manifestação na sociedade hodierna.

Isso não significa de modo algum que os espaços de poder sejam sempre ocupados por pessoas que sejam simplesmente criaturas degradas e ignóbeis. Apenas significa que dificilmente veremos uma pessoa de alma aquilatada ocupar esses cargos, especialmente na sociedade em que vivemos hoje.

A razão para tal fato é muito simples. Um representante público, que ocupe um cargo, seja no executivo ou no legislativo, simplesmente é um espelho das tensões e valores que estão presentes no tecido social. Isso mesmo, todo governante simplesmente é o fruto dos valores que as pessoas de um modo geral pactuam e das tensões que estão ao redor destes ou geradas a partir dos objetos valorados que são cultivados pela maioria.

Até mesmo uma ditadura autoritária, ou mesmo totalitária é, nada mais, nada menos, que uma resposta para as manifestações destes valores que norteiam as relações sociais. Talvez, um exemplo bastante claro sobre o que estamos apontando seria o anti-semitismo que estava presente no discurso Nacional-Socialista Alemão nas décadas de 30 e 40. Tal elemento não era uma criação dos correligionários deste partido político, mas sim, um reflexo de um sentimento que se fazia presente em toda Alemanha e bem como em toda Europa, como nos lembra o sociólogo polonês Zygmunt Bauman em sua obra MODERNIDADE E HOLOCAUSTO.

Alias, anti-semitismo que se faz presente no mundo até hoje.

Doravante, quando pensamos as relações de poder de nossa localidade, sempre temos um olhar bastante atento para os mandos e desmandos dos nossos mandatários locais, entretanto, fazemos vista grossa para os nossos atos que, em si, são de modo similar, forjados pelos mesmos valores que dão forma aos atos das “otoridades” públicas.

Não é à toa que as pessoas mais aquilatadas se afasta da vida pública e de seus torpores e, quando se fazem próximas, acabam sendo condenadas ao ostracismo ou mesmo à morte por simplesmente anunciar algumas verdades que as pessoas, de um modo geral, não gostam de ouvir.

E eis aí a grande diferença entre as pessoas do primeiro e do segundo grupo apresentadas por Camus. As primeiras, as pessoas públicas, dizem simplesmente o que as multidões desejam ouvir ou, em casos mais degradados, sugerem a elas o que devem desejar ouvir. No segundo caso, que seria representado por pessoas santas e filósofos, simplesmente diriam as pessoas o que elas precisam ouvir, mesmo que não gostem do que está sendo dito.

Uma sociedade saudável, digamos assim, tem os dois grupos de pessoas (políticos e santos) muito bem distribuídos para que as multidões ouçam o que desejam, mas também curvem as suas cabeças uma vez ou outra diante da Verdade (mesmo que seja a contra gosto). Uma sociedade em que há apenas o segundo tipo seria apena uma quimera. Todavia, uma sociedade onde há unicamente os do primeiro gênero, inevitavelmente acaba se degenerando da maneira mais vil imaginável, pois, se o que determina o discurso dos mandatários em uma sociedade moderna é a superficialidade das massas e estas, neste caso, não encontram mais o equilíbrio através do anúncio regular da Verdade, o único cenário possível é a degeneração total de tudo e de todos, tal qual nos vemos ocorrer na sociedade brasileira onde a única coisa que faz sentido é a procura da satisfação de suas ambições pessoais ou grupais. Da satisfação dos instintos mais primários, mesmo que isso tenha um elevado custo.

O que virá depois disso, só Deus sabe.

Quinta, 08 Maio 2008 21:00

Cinismo Pouco é Bobagem

É curioso vermos como os militantes, simpatizantes e a intelectuaria esquerdopata de um modo geral, fazem questão de minimizar o mal advindo de seus ideais benevolentes.

 "Os dois monstros gêmeos, o comunismo e o nazismo, têm vocação genocida. Naquele, o genocídio de classe; neste, o genocídio de raça". (Roberto Campos)

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É curioso vermos como os militantes, simpatizantes e a intelectuaria esquerdopata de um modo geral, fazem questão de minimizar o mal advindo de seus ideais benevolentes. Sempre quando um elemento pacóvio, como este que vos escreve, apresenta alguns dados de matemática macabra eles mais que depressa se alvoroçam em defesa de seus lindos sonhos de um “mundo melhor possível”.

Por essa mesma razão e motivado pelo artigo “Lembrando o Holodomor”, da autoria de Viktor Yushchenko e publicado no site Mídia Sem Máscara que venho a público com essas mal fadadas linhas. Holodomor é uma das muitas atrocidades cometidas pelos humanistas socialistas que eles tanto fazem questão de ocultar e mesmo de negar.

Esta estranha palavra de origem ucraniana é atribuída à fome de caráter genocida que devastou o território da República Socialista Soviética da Ucrânia - Estado satélite da URSS - entre os anos de 1932 - 1933.

A Grande Fome da Ucrânia, como também é conhecido essa fatalidade da história da humanidade, ceifou aproximadamente, de 5 a 6 milhões de vidas humanas, entre os anos de 1931 e 1933. A arma utilizada para esse genocídio foi simplesmente a fome. Mas, como isso se deu? Eis a pergunta que muitos gostariam que fosse calada.

Joseph Stalin, nesta época, estava orquestrando em toda União Soviética o processo de coletivização das terras, “desapropriando” as propriedades rurais dos camponeses, forçando-os a aderir às propriedades colectivas ou estatais, os assim chamados kolkhozes e sovkhozes, respectivamente.

Na seqüência, o governo Soviético passou a realizar a coleta da produção dos agricultores, centralizando assim a distribuição “justa” da produção. Fazendo isso, meus caros, Stalin, literalmente, repetiu um morticídio deliberado similar ao do “Comunismo de Guerra” dos idos de Vladimir Ulianov Lênin.

Sei que não seria necessário lembrar a lógica desta trama, todavia, se a história deve sempre nos lembrar acontecimentos que não devem ser esquecidos, lembremos então que, quando um Estado Totalitário ou Autoritário, centraliza a coleta (não compra), o armazenamento e a distribuição dos alimentos, este passa a deter em suas mãos o destino de todas as pessoas de uma nação. Ou seja: a determinação de quem poderá comer e quem não terá direito a comida será dada por um burocrata do partido.

Este era o caso dos camponeses ucranianos que além de não poderem ter acesso a sua própria produção agrícola, muitos acabaram sendo deportados para outras regiões da URSS para serem utilizados como mão-de-obra escrava (algo que é muito comum em países socialistas até hoje, diga-se de passagem). No total foram deportadas 2.800.000 de ucranianos apenas entre 1930 e 1932.

O “guia genial dos povos” (como alguns chamam Stalin) assim procedeu, pois havia uma grande resistência por parte do campesinato às políticas soviéticas e, como em toda “democracia popular socialista”, aqueles que são contrários aos ditames do partido são simplesmente arquivados em uma vala comum com suas carcaça e idéias.

Para o governo de Moscou, o Governo comunista ucraniano estava infiltrado por agentes nacionalistas e espiões polacos. Para o Partido Comunista Russo, as aldeias que resistiam à coletivização eram focos de influência contra-revolucionária e, por essa razão, deveriam ser expurgados. Em português bem claro: eliminados.

Por essa razão, Stalin ordena a substituição de inúmeros agentes do Partido Comunista que estavam na Ucrânia, devido as suspeitas apontadas e, obviamente, que os novos agentes passaram a desempenhar o seu “trabalho” de coleta, prisão, deportação e extermínio, sob um grande pressão, visto que, se os números das coletas, deportações, prisões e óbitos não fossem significativos, eles também poderiam ser acusados de ser “contra-revolucionários” e se tornarem as próximas vítimas da máquina genocida Soviética.

O que é mais lamentável nesta história infeliz é que apenas em 16 de dezembro de 2003, Koichiro Matsuura, Diretor-Geral da UNESCO, condenou o regime soviético pela sua responsabilidade no holocausto de Holodomor. É triste, pois apenas em 1991 a Ucrânia consegue libertar-se dos tentáculos da URSS e até hoje os responsáveis por esse e muitos outros crimes não foram condenados no Tribunal Internacional.

Mas, o que realmente é lamentável, é nós termos fatos como este omitidos dos livros didáticos de história e mais lamentável ainda termos de ouvir pessoas (muitas delas, professores) afirmarem que crimes como este nunca existiram. No caso destes sujeitos, cinismo pouco é bobagem.

Quinta, 01 Maio 2008 21:00

Carpideiras de Fidel

Um dos aspectos mais característicos da mentalidade dos defensores de “um mundo melhor possível”, de um mundo regido e ordenado pelo demente projeto marxista é a incapacidade de reconhecer a conseqüência inevitável de seu sonho infernal de transformar o mundo em sua imagem e semelhança.

Um dos aspectos mais característicos da mentalidade dos defensores de “um mundo melhor possível”, de um mundo regido e ordenado pelo demente projeto marxista (ou similares e genéricos da mesma estirpe) é a incapacidade de reconhecer a conseqüência inevitável de seu sonho infernal de transformar o mundo em sua imagem e semelhança.

Não estou me referindo simplesmente aos militantes e simpatizantes de um modo geral. Refiro-me em especial àqueles que se apresentam como sendo os entendidos no assunto, me refiro aos ditos intelectuais (professores, jornalistas, formadores de opinião, políticos e sacerdotes) que fomentam essas idéias e as disseminam na sociedade como se fosse a quinta essência.

Este mísero escriba já escreveu, de maneira simplória, sobre isso. Todavia, mais do que nunca, creio ser basilar que esse assunto seja retomado, pois, é mais do que corriqueiro ouvirmos muitas pessoas que ocupam as funções apontadas linhas acima afirmarem que todas as ditaduras totalitárias e todo o democídio que assombrou o século XX não foi obra de regimes socialistas de “verdade”, mas sim de Estados dirigistas, ou Capitalismo de Estado, ou regimes burocráticos, mas que aquilo tudo, de modo algum, era socialismo.

Ora, vejam que o cômico nesta história toda é que à frente de todas as revoluções e regimes socialistas, digo, que não foram socialistas, haviam intelectuais socialistas, líderes socialistas, partidos socialistas e, se bobear, até supositórios socialistas. Porém, não se enganem. A obra trágica não era socialista.

Alias, não era o finado Jorge Amado que saldava Stalin como “guia genial dos povos”? Não era o famigerado Sartre que afirmava que na época de Stalin a liberdade na URSS era total? Não era toda a intelectuária empedernida que, na época defendia aquele genocídio dirigido como sendo a edificação de um mundo melhor? E, mesmo assim, muitos ainda hoje tem a cara de pau de dizer que aquilo tudo não era o dito socialismo só porque não era o que ele queria que fosse.

O problema é que muitos desses indivíduos não tem caráter e dignidade o suficiente para se render a verdade revelada pelas suas turvas intenções. Isso mesmo. Os militantes marxistas de hoje não estavam junto no assassinato das mais de 100.000.000 de vidas de civis inocentes mortos pelo governo (em tempo de paz) de seu próprio país que dizia estar construindo o “homem superior”, mas ainda hoje defendem essas mesmas idéias e dizem que todas essas vidas ceifadas não passam de propaganda enganosa.

Para eles, que rezam essa cartilha maldita, as pontuações feitas certa vez por Paul Singer caem como um balsamo em sua alma putrefaz quando esse dizia em seu livreto “O socialismo hoje” que somente poderia ser chamada de socialista uma sociedade que fosse superior a sociedade capitalista. Que lindinho, não? Quer dizer que por maior que seja a tragédia desencadeada pelos marxista, no fim da contas, isso não poderá ser chamado de socialismo, por isso, não os culpe pela realidade que eles construíram porque não era com isso que eles sonhavam.

Quarta, 23 Abril 2008 21:00

Dos Malefícios da Confusão

É de enojar ouvirmos pessoas dando seus pareceres sobre Doutrina Católica e Filosofia Grega sem ao menos ter lido um livro que verse sobre esses assuntos.

"Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão." (Friedrich Schiller)

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Tinha o intento de deitar minha pena sobre outro tema que inquieta minha mente, porém, a teimosia atroz obriga este insignificante escriba a colocar seu tinteiro digital a borrar algumas palavras que nos levarão por veredas que, confesso, não eram as que eu tinha em mente, mas que julgo ser necessária à retomada de questiúnculas aparentemente imersas na obviedade do cotidiano.

Simplesmente sou tirado do sério quando um destes tipinhos, que pelas circunstâncias de Cronos, sou obrigado a chamar de concidadão e por força de minhas convicções, devo chamar de irmão, me vêem com aquelas considerações tacanhas sobre uma pessoa e outra fundamentando simplesmente os seus juízos (ou total falta deles) na aparência externa da pessoa.

Fico enfurecido, confesso. Porém, não é tanto com o gesto de biltres descarados desta vulgar estirpe, mas sim porque sua feição caricata e parva aviva minha memória fazendo-a gritar sobre o que é ser brasileiro.

Julgar pela aparência a capacidade intelectiva de um indivíduo é algo corriqueiro em nossa civitas putrefaz. Não nos esqueçamos que nosso país é uma pátria de pseudo-doutos, que ostenta com gosto, e sem a menor vergonha, títulos para poder melhor afirmar a sua insignificância. Vivemos em uma sociedade onde abundam os indivíduos detentores de um canudo que certifica que eles passaram por dentro de uma Instituição de Ensino Superior sem nunca ter lido uma obra inteira.

Vivemos em uma sociedade de palpiteiros medíocres, de pessoas que preenchem suas horas vagas emitindo palpites sobre todos os assuntos que [depre]civicamente desdenham, sem nunca ter lido algo de substancial sobre o tema. É de enojar ouvirmos pessoas dando seus pareceres sobre Doutrina Católica e Filosofia Grega sem ao menos ter lido um livro que verse sobre esses assuntos.

Alias, é de deixar qualquer pessoa sensata com os culhões cheios, ter que ouvir alguém chamar o Sumo Pontífice de Nacional-Socialista (Nazista), e coisas do gênero, sem ao menos conhecer uma única de suas obras e, ao mesmo tempo, ser capaz de ver naquele facínora do Che Guevara uma figura “Santa”, similar a São Francisco de Assis, como consta em determinados materiais ditos didáticos recomendados pelo MEC.

Deveria nos causar escândalo termos que ver a presença da fala de uma ONG abortista em um DVD que pretende ser feito “Em defesa da Vida”. Deveria, se nossa sociedade não fosse covarde, se nós não fôssemos tão pusilânimes, se não fôssemos tão superficiais e vulgares, pois é isso que somos enquanto sociedade e, principalmente, enquanto pessoas.

Amamos a baixeza, visto que, ocupamos boa parte de nosso tempo livre para a nossa diminuição pessoal e assim, desde modo, colaborando sorrateiramente para o engrandecimento de nossa esbórnia civilizacional.

O que, alias, é mais do que previsível. Como esperar algo melhor de uma sociedade em que as pessoas adotam como esporte oficial o tricotar sobre peculiaridades da vida alheia? De mais a mais, como exigir que esses corvos da intimidade miúda façam outra coisa se elas apenas lêem o resumo das novelas e os parvos comentários futebolísticos ou uma e outra fofoca dos bastidores do Planalto Central que foram publicados em um tablóide qualquer?

É chato ter que ficar escrevendo sobre obviedades, mas as vezes temos que fazê-lo justamente para que elas tomem o lugar que lhes é merecido, ainda mais quando essa está sendo escondida debaixo do tapete o tempo todo. A nossa superficialidade, enquanto quase-pessoa, não aceita aviltamento de nenhuma monta, não é mesmo?

Por essas e outras que Santa Tereza de Ávila nos ensina vivamente que o pior ladrão dos méritos humanos que existe é a acomodação. Não é à toa que vivemos uma existência confusa e nos julgamos estar acima de todos como se nosso intelecto estivesse abrigado junto ao Monte Olimpo.

Ainda sobre esse turvo tema, Santa Tereza nos lembra outra grande obviedade que tanto desdenhamos: não podemos oferecer a ninguém o que não possuímos e que, diga-se de passagem, não nos esforçamos em adquirir.

Sim, tal lição é obvia, mas com o mesmíssimo tom de obviedade continuamos a imaginar cinicamente que poderemos melhorar a sociedade sem cultivarmos algo de melhor em nós mesmos. E como são raríssimas as pessoas que desejam com sinceridade se tornarem simplesmente melhores do que são, continuaremos por muitas e muitas gerações a fingirmos ser o que nunca seremos: seres humanos realizados em sua plenitude por tanto amarmos, estupidamente, as nossas falas vazias e nossas vidas destituídas de sentido.

E tenho dito.

Sábado, 12 Abril 2008 21:00

Ostracismo do Silêncio

Tamanha a desumanização impingida que somos reduzidos a uma mera fração, a um número.

A necessidade cada vez mais aguda de ruído só se explica pela necessidade de sufocar alguma coisa”.

(Konrad Lorenz)

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Nos dias hodiernos, as pessoas manifestam determinadas aversões que são bem características desta época parida pela Idade dita “das Luzes” e, uma das mais peculiares, seria justamente o grande desdém que é atribuído pelas pessoas ao silêncio em suas vidas.

Não suportamos a suavidade do silêncio. Temos sempre que ter a nossa alma vibrando com algum tipo de som ou ruído para que possamos estar em um estado de “tranqüilidade” em um sonambular existencial. Se estamos em uma lanchonete, no ônibus, no carro, na rua, em um restaurante, pouco importa. O que realmente interessa é que não estejamos SENDO perturbados pelo silêncio.

E mesmo que estejamos chegando no aconchego de nosso lar, seja este humilde ou não, seja tarde da noite ou ainda com o brilhar do Astro Rei, lá estamos nós ligando o aparelho de televisão, ou o aparelho de som ou o computador, pois não suportamos ficar com o silêncio como companhia, não aguentamos ter que ficar imersos em nós mesmos e termos que ouvir a voz de nossa própria consciência.

E, se o sono não vem, nada melhor que um medicamento para nos libertar dos tormentos de uma possível conversa com a nossa turva intimidade.

O homem moderno teme um possível confronto com a inteireza de sua realidade. Tanto teme que prefere estar a maior parte do tempo possível focando a sua atenção em algo pouco significativo (ou mesmo sem significado algum) para poder, deste modo, melhor esquecer do que ele realmente é. E, deste modo, não ter que enfrentar a verdade.

Parece ser um ponto banal este levantado por nossa insignificante pena, porém, este parvo escrivinhador pensa que não, principalmente quando comparamos a nossa capacidade de suportar o silêncio com a capacidade que um homem de uma sociedade tradicional tinha. Se compararmos o equilíbrio de um monge com o de um homem dito ponderado.

Esta capacidade de poder conhecer sua humanidade em sua máxima integridade deveria ser a base de nossa formação, de nossa educação a nível institucional e pessoal. Todavia, nos esquivamos dessa perspectiva similar ao medonho ao fugir da Cruz.

A modernidade, enquanto projeto civilizacional, vem dia após dia a brutalizar a pessoa humana em um processo contínuo de fragmentação de si, transformando-nos em um amontoado de coisas que tem como única meta apetecer a sua própria volúpia, desviando a atenção frente a realidade da existência humana neste vale de lágrimas que é a vida fora da CIVITA DEI.

Tamanha a desumanização impingida que somos reduzidos a uma mera fração, a um número. E pior que nos orgulhamos que sabermos decor essa imagem distorcida de nós mesmos, seja ao informarmos o número de nosso CPF ou quando criança respondemos orgulhosos a chamada feita apenas com o nosso número que consta na lista.

Nos permitimos ser reduzidos. Alias, pedimos isso com todo a pequenez de nossa alma para assim podermos continuar nossa jornada sem eira ou beira em meio a turbulência da vida exterior, em meio a vácuo edificado em nosso interior em nome da tranqüilidade de espírito fingida, macaqueada ao som e no ritmo de uma sociedade que celebra a futilidade e a dissimulação como meta digna de ser almejada em uma vida.

Acertadamente, o filósofo Blaise Pascal, em sua obra PENSAMENTOS, nos lembra que nós reconheceríamos a infelicidade de um homem em sua incapacidade de suportar o silêncio. Lembrava-nos também que: “Não nos contentamos com a vida que temos em nós e em nosso ser: queremos viver na idéia dos outros uma vida imaginária e, para isso, esforçamo-nos por fingir. Trabalhamos incessantemente para embelezar e conservar nosso ser imaginário e negligenciamos o verdadeiro”.

Por fim, essa é a grande marca de nossa Civilização esvaziada de ser. Civilização essa, deformada por pessoas que não suportam sua realidade interior e, por isso, desviam o tempo todo os olhos de sua alma para todo e qualquer simulacro para assim poder melhor fingir contentamento, quando, no fundo, a única coisa que há realmente é um mórbido grito de desespero.

Sábado, 05 Abril 2008 21:00

O Médico e o Monstro

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto.

“A única boa educação é esta: estar o pai bastante seguro de uma verdade antes de transmiti-la ao seu filho”.
(G. K. Chesterton)

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Não. Este libelo não é sobre o clássico de Robert Louis Stevenson. Mas versaremos sobre o trato desproporcional que é dado ao trabalho de um educador nas analogias que são feitas entre o ofício do médico com o do professor.

Toda analogia pode ser proveitosa e nos auxiliar na reflexão sobre infindáveis temas desde que esta seja feita de maneira adequada e dentro das devidas medidas o que, por sua deixa, não ocorre com as comparações que são feitas entre as duas profissões.

É mais do que corriqueiro ouvirmos falar que o maior responsável pela reprovação do aluno são os benditos (talvez, não tanto) professores. Obviamente que nós temos a nossa medida de responsabilidade neste processo, porém, vamos nos permitir uma pequena comparação entre a educação e a medicina para compreendermos o quanto observações deste gênero são impróprias na maioria das vezes.

Quando um médico está tratando um paciente que esteja sofrendo de uma enfermidade qualquer, seja ela uma gastrite ou uma hemorróida, este lhe prescreve alguns medicamentos a serem tomados regularmente e uma disciplina que deverá, se possível, ser seguida a risca para que o elemento possa obter a cura.

Ou seja, se o indivíduo não seguir as recomendações feitas pelo seu médico dificilmente ele poderá alcançar a plenitude de sua saúde e, tal situação, de modo algum é responsabilidade do médico, mas sim, do próprio enfermo que não lhe deu ouvidos, correto?

Na educação não é muito diferente não, como muito bem nos lembra o finado educador estadunidense Mortimer J. Adler em seu ensaio “Doutor e Disciplina: A responsabilidade social do professor”, publicado em abril de 1952, no journal Higher Education.

Quando um professor ministra uma lição ele está ministrando um receituário, uma disciplina para a cura de uma enfermidade que é o desconhecimento sobre aquele determinado assunto. Se as suas orientações forem ouvidas e suas lições feitas com o devido zelo a probabilidade do aluno obter êxito será significativa. Todavia, se este não der ouvidos ou seu preceptor o resultado será um só: a danação serial, vulgo reprovação.

Mesmo assim, muitos teóricos da educação, burocratas e paupiteiros de plantão, similar a este que vos escreve, insistem que a responsabilidade pelo fracasso escolar seria fundamentalmente e unicamente do professor.

Sim, mas e quanto ao elemento vontade, onde fica? Sei que é praticamente um sacrilégio falarmos neste quesito, mas ela, a vontade e a sua antípoda, a má-vontade, existem. Se um paciente desiste de lutar contra a sua doença dificilmente o profissional da saúde poderá curá-lo, não é mesmo? Ele pode até tentar, mas a probabilidade do enfermo perecer continuará sendo elevadíssima.

E quando o “X” da questão é fracasso escolar nós também temos o elemento vontade (ou má-vontade) da parte do estudante que, muitas das vezes, é tão parca que chega a dar dó. Entretanto, o ânimo não é cultivável com um passar de mãos na cabeça e muito menos com um lavar de mãos cínico.

O ensinamento é um ungüento para o espírito e o aluno deve ter claro em seu horizonte que se este remédio não for assimilado dentro das normas apropriadas irá levá-lo a ter que arcar com determinadas conseqüências inerentes a apreensão ou não do conhecimento.

Por fim, não podemos nos esquecer de modo algum que mesmo considerações esparsas como esta não isentam o educador de sua responsabilidade frente ao fracasso da educação hodierna, pois este é um dos agentes do referido processo, mas não o único possível para ministrar este ungüento que é o saber. Ou vocês vão me dizer que a escola é o único espaço para isso?

Domingo, 16 Março 2008 21:00

Queimando Livros

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história.

"Para o triunfo do mal basta que os bons fiquem de braços cruzados". (Edmund Burke)

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Tive a grata felicidade de, neste sábado, participar de uma profícua discussão após a exibição do filme Fahrenheit 451 de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury. A discussão fora tão fértil, e o tempo tão escasso, que senti-me obrigado a ter de tecer alguns outros comentários através destas linhas. Porém, não sobre o filme, mas sim, a partir dele e das advertências que este nos faz através de seu enredo.

A sociedade futura imaginária descrita na película é um lugar onde os livros são proibidos por serem considerados uma forma de “propaganda da infelicidade”, visto que, “não se deveria prevalecer nenhuma diferença entre as pessoas” neste estado totalitário hipotético. Para combater este mal é criada uma corporação de bombeiros que tem por missão encontrar, apreender e queimar todos os livros a uma temperatuda 451º fahrenheit.

Nesta sociedade, o diálogo entre as pessoas membros de uma família era praticamente inexistente. Estas, dialogavam basicamente com uma “família” que se fazia presente nos lares através de uma grande televisão afixada na parede da sala.

Ora, de modo similar a conclusão apresentada por Aldous Huxley em sua obra “O Regresso ao Admirável Mundo Novo”, creio que a sociedade hipotética de Ray Bradbury levada as telas por François Truffaut não é assim tão distante de nossa realidade presente.

Poxa vida, obviamente que as pessoas não apenas dialogam com ou através de uma televisão, mas suas vidas e a pauta de suas conversas praticamente é ditada pelas falas “familiares” da televisão, não é mesmo? Conversa vai, conversa vem, e o assunto na roda é aquilo que passou em tal canal, ou o programa do fulano de tal que entrevistou o sicrano, ou simplesmente a trama de uma novela ou de um reality show qualquer.

É incrível como as pessoas dão tamanha importância a assuntos tão banais. É assustador como nós transformamos a vida em sociedade em um simulacro patético e ululante, onde vagamos de nossas casas para os nossos locais de ocupação utilitária, com nossas almas preenchidas unicamente com o banal que invade as suas vistas nos coisificando.

Mas, e quanto a queima dos livros? O amigo pode até concluir neste primeiro momento que tal prática não existe em nossa sociedade. Que nós somos um aglomerado societal de desvairados, porém, não a este ponto. Ledo engano. Afirmamos isso porque há mais de uma maneira de você poder queimar livros.

Não estamos a nos referir uma queima ipsis literis. Estamos nos referindo as inumeráveis maneiras simbólicas de se praticar esse crime contra a Civilização que, por sua deixa, é tão letal para a alma humana quando o incinerar literal de uma biblioteca.

Uma forma muito simples é o gradativo desdém que vem se construindo em torno dos “grandes livros” em favor das obras comerciais que são escritas unicamente para atender os clamores volúveis de um público de leitores rasos por uma palavra de consolo. Não é à toa que livros de literatura simplória e manuais de auto-ajuda tomam conta das livrarias ocupando, inclusive, o lugar de Machado de Assis, Lima Barreto, Camilo Castelo Brando, cujas obras deveriam ser lidas e estudas em todas as Instituição de Ensino.

Tamanha é a aberração que toma conta de nossa sociedade que Universidades comercializam resumos das obras que irão ser cobradas em determinados vestibulares. Este ato bárbaro não é uma forma simbólica de se queimar um livro?

Doravante, lembro aqui o relato de uma mãe que havia inscrito a sua filha em um módulo de “educação liberal” com o filósofo Olavo de Carvalho. Após algum tempo, sua filha disse a professora do Colégio, onde ela estudava regularmente, que ela não iria ler o livro solicitado por ela, livro o qual, chamava-se “Memórias de um cabo de Vassoura”. E a professora perguntou a ela o que ela estava lendo e esta, respondeu: “O Vermelho e o Negro” de Stendhal.

A garotinha reencontrou o significado de uma “grande obra” e passou a se deleitar em suas laudas. Reencontro o qual o nosso sistema educacional não está muito interessando em realizar, aparentemente. Idem a sociedade como um todo.

Por fim, lembremo-nos sempre que os livros são literalmente como pessoas. São professores mortos, como nos ensina Mortimer Adler e, por isso mesmo, eternos. Destruí-los com o nosso desprezo é destruir o que há demais significativo em nossa história e, agindo desta forma, impossibilitamos que nossas almas possam se aproximar destes exemplos de grandeza em nome da preservação da pequenez de nossa existência.

Sexta, 07 Março 2008 21:00

O Legado De Uma Causa

Devemos também marcar em nossa memória um dos maiores legados das FARC e, deste modo, também uma das grandes obras do senhor Raúl Reyes que são as inúmeras toneladas de cocaína que adentram as fronteiras de nosso País.

Dizia Millôr Fernandes que, as vezes, é bom dar uma olhadela na página de óbitos dos jornais, pois, ao fazer isso, podemos ter uma boa notícia, tal qual essa, da morte do senhor Raúl Reyes, segundo no comando das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Morto em uma operação orquestrada pelo Exército Colombiano.

Após o anúncio da morte de Luis Édgar Devia, verdadeiro nome do líder narco-guerrilheiro morto em ação, as FARC afirmaram que o sangue derramado, o legado e a memória do líder rebelde engrandecem a causa da organização. Ora, mas qual é o legado das FARC? Qual é o legado desta organização terrorista-marxista? Qual dos atos desta organização que nós deveremos guardar em nossa memória? E agora José?

Eu elencaria, primeiramente as milhares de vidas de civis inocentes que foram ceifadas nas incursos e atentados promovidos por estes “humanistas”, segundo as palavras de Hugo Rafael Chávez Frías, no correr dos 44 anos de sua existência.

Lembraria também dos inúmeros sequestros orquestrados por estes distintos senhores que, apenas realizaram esse ato hediondo, porque era e é feio em nome de uma boa causa que é a Revolução Socialista e, por isso mesmo, aceitável. Alias, na cabeça desta gente, tudo é válido e aceito em nome da Revolução redentora.

Devemos também marcar em nossa memória um dos maiores legados das FARC e, deste modo, também uma das grandes obras do senhor Raúl Reyes que são as inúmeras toneladas de cocaína que adentram as fronteiras de nosso País para assim, gradativamente, matar muitos de nossos irmãos brasileiros como também, não podemos deixar cair no esquecimento, o grande feito de ter fornecido treinamento para as organizações criminosas que atuam como suas sócias no comércio de coca que não é cola e nem é engarrafada.

Isso mesmo minha gente. Não sejamos ingratos com o senhor Reyes e com sua memória heróica. Sejamos justos e lhe ofertemos a devida medida que lhe é merecida.

Mas também, sejamos justos com os seus amigos aqui no Brasil que sempre lhe deram todo o apoio em seus projetos e em todas as ações humanitárias das FARC. Isso mesmo. Não esqueçamos que esta organização tinha e tem inúmeros agentes de influência que lhe dava e dá apoio junto a opinião pública e, por isso mesmo, não nos esqueçamos de sempre lembrar que boa parte dos (de)formadores de opinião deste país sempre trataram com respeito estes narco-terroristas.

É isso mesmo meu caro. Lembremos que em 2003 Reyes deu uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo e nesta ele dizia que o seus principais contatos em nosso país no meio intelectual eram o senhor Frei Betto e Emir Sader. E tem mais. Na época foi perguntado ao mesmo quais eram as principais organizações que as FARC mantinham contato e este respondeu que seria: “[...] o PT, e, claro, dentro do PT há uma quantidade de forças; os sem-terra, os sem-teto, os estudantes, sindicalistas, intelectuais, sacerdotes, historiadores, jornalistas”.

E não adianta brigar comigo. Não sou eu que disse isso. Apenas transcrevi as declarações do falecido. E mais! O mesmo disse que conhecia o senhor Luiz Inácio Lula da Silva desde 1996, quando em San Salvador se realizou o quarto encontro do Foro de São Paulo onde ambos ficaram encarregados de presidir o encontro. Desde então os dois, Lula e Reyes, se encontraram em diferentes locais e mantiveram contato. Quando Lula se tornou presidente, estes não mais se realizaram.

Também não podemos deixar de lado e enterrar nas valas do esquecimento as declarações feitas pelo Presidente da República no Ato Político de celabração dos 15 anos do Foro de São Paulo quando este diz: “[...] eu queria começar com uma visão que eu tenho do Foro de São Paulo. Eu que, junto com alguns companheiros e companheiras aqui, fundei esta instância de participação democrática da esquerda da América Latina, precisei chegar à Presidência da República para descobrir o quanto foi importante termos criado o Foro de São Paulo. E digo isso porque, nesses 30 meses de governo, em função da existência do Foro de São Paulo, o companheiro Marco Aurélio tem exercido uma função extraordinária nesse trabalho de consolidação daquilo que começamos em 1990”.

Lembramos aqui que o Foro é uma organização que realiza encontros bienais entre partidos políticos e organizações sociais de esquerda e nacionalista da América Latina e do Caribe. Dentre essas organizações que se confraternizam com o Partido dos Trabalhadores estão o Exército de Libertação Nacional e as Forças Armadas Revolucionarias de Colômbia.

Este meus caros, é apenas parte do legado do senhor Reyes. Legado este que continuará a nos assombrar por muito tempo se depender da criticidade do cidadão brasileiro e do olhar atento de nossa classe falante.

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