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Dartagnan Zanela

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

Segunda, 09 Setembro 2013 14:35

VERDE, AMARELO E ALGO MAIS

Em uma de suas Farpas Eça de Queiroz (com Ortigão Ramalho) declara do auto dos umbrais do século XIX, que a soma de milhões de egoísmos não faz uma nação, nem mesmo uma comunidade e muito menos uma família.

Terça, 19 Outubro 2010 08:30

Somente Palavras e Nada Mais

Muitos educadores, cansados ou não, tem apenas em seu horizonte de inquietações o seu ordenado mensal. Muitíssimos alunos vislumbram unicamente a possibilidade de dar um migué em todas as matérias e obter uma aprovação, com ou sem a outorga do conselho de classe.

Segunda, 11 Outubro 2010 10:50

Outra Alocução Inaudita

Certa feita, em uma agradável conversa que mantive com um grande amigo, este falou-me que o papel fundamental daqueles que estão investidos da função de instruir não seria ensinar algo novo e singular, mas sim e tão só lembrá-los o óbvio.

Terça, 05 Outubro 2010 09:46

Uma Alocução Inaudita

No correr dos séculos algo que se faz patente na história da humanidade é a presença do mal e a luta do ser humano contra as suas sombras.

Terça, 28 Setembro 2010 09:21

Entre Renúncias e Disposições

“Todos os dias devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas”.
(Johann Goethe)

Quarta, 20 Maio 2009 21:00

Masturbação Intelectual

Aliás, o Brasil e o mundo estão do jeito que estão não porque somos seres imperfeitos e dados a nos acomodar em nossa imperfeição, mas sim, porque os líderes mundiais e as pessoas de um modo geral não ouviram e muito menos acataram as nossas sapienciais considerações sobre tudo e todos.

Em sua obra Em berço esplêndido o embaixador José Osvaldo de Meira Penna nos aponta uma marca indefectível de nossa sociedade que é pouca inclinação para o silêncio meditativo e bem como para os longos e árduos estudos. Todavia, na mesma proporção de repudiamos a dedicação ao soturno exercício do estudo silencioso e abnegado, nutrimos uma forte inclinação ao falar, falar, falar, sem necessariamente nada dizer de substantivo.

Tal prática não se vê presente de maneira marcante entre as pessoas pouco letradas, não mesmo. Na verdade, se formos meditar com a merecida sinceridade perceberemos que são justamente as pessoas travestidas de “doutas”, ou de “entendidas”, ou simplesmente de “cidadãos”, que mais facilmente se entregam aos deleites das conversas vazias elegantemente preocupadas com os problemas do Brasil e do mundo sem colocar-se, obviamente, como parte integrante do problema, porque eles são a grande solução, é claro.

Aliás, o Brasil e o mundo estão do jeito que estão não porque somos seres imperfeitos e dados a nos acomodar em nossa imperfeição, mas sim, porque os líderes mundiais e as pessoas de um modo geral não ouviram e muito menos acataram as nossas sapienciais considerações sobre tudo e todos. Trocando em miúdos, o mundo atual, mais do que nunca, está cheio de pessoas iluminadas com boas intenções e idéias colossais para melhorar o mundo sem melhorar as pessoas que, como eles, crêem que não precisam melhorar para se realizar como pessoa humana.

Quantas e quantas vezes dedicamos uma quantidade considerável de nossa energia e tempo em um trololó enfadonho e cansativo que se, devidamente ponderado, não nos auxilia em nosso crescimento, mas sim, e muito, na reafirmação das convicções coletivas que sorrateiramente gritam em nossa alma para que continuemos a seguir os mesmos passos turvos, continuando a apontar para os males do mundo e desdenhando as máculas putrefazes que infectam a nossa alma.

Se estivermos equivocados em nossas considerações, então nos indaguemos, com sinceridade, sobre as seguintes questões: quantas e quantas vezes nós afirmamos determinadas crenças (opiniões) não por estarmos cônscios delas, mas sim, para parecermos pessoas boas e assim, agradarmos a maioria que comunga delas? Quantas e quantas vezes preferimos mudar drasticamente nossa maneira de agir e pensar simplesmente para podermos nos enquadrar adequadamente dentro dos valores que são ditos como uma espécie de símbolo de “pessoa culta e esclarecida”? Quantas?

Com toda certeza foram muitas. Mas, em quantas ocasiões nós afirmamos algo verdadeiro, algo que arrebata as nossas convicções mais íntimas frente a uma multidão bestializada pelo coletivismo padronizado pela imbecilização coletiva correndo o risco de, no mínimo, ser enxovalhado? Provavelmente, muito poucas, não é mesmo?

Tal tramóia habita o íntimo de nossa alma justamente devido ao nosso desfibramento intelectual e moral, advindo de a nossa covardia de procurar a Verdade e de dizê-la, preferindo tapar a majestade do Sol com a peneira da dissimulação e do fingimento congênito. E não há nada mais prejudicial à alma humana do que isso. Inexiste algo que desgrace mais a nossa inteligência do que viver assim, visto que, se nos habituamos a nos esquivar da Verdade, gradativamente, nos tornamos incapazes de reconhecê-la. De tanto fingir sobre o que somos e sobre o que realmente estamos vendo, que acabamos acreditando na “realidade” de toda essa nossa macaqueação intelectual.

Indo direto ao ponto do conto, é impossível que nos tornemos pessoas mais dignas, prestativas e boas fundamentando a nossa existência em uma cadeia sem fim de dissimulações de pessoas que não somos, onde afirmamos coisas que desconhecemos parcial ou mesmo totalmente. É impossível uma sociedade que tenha como marca emblemática a lei de Gerson imaginar que, movendo-se com base nesse obtuso dilema ela, a sociedade como um todo, vai elevar-se enquanto coletividade, digna de respeito e admiração, sem que os indivíduos desejem primeiramente mudar as suas vidas para algo que realmente seja digno.

Olha, quer saber. Nem dê pelotas para o que acabamos de dizer. Quem vai dizer que essa sua imagem íntima de preocupação não é mais um fingimento existencialmente assimilado? Quem vai dizer que essa tua indignação para com esse mísero missivista também não o é? Quem? Apenas você e ninguém mais, goste ou não disso. Por isso, continuemos na velha masturbação intelectual e moral que aprendemos em nossas rodas de convívio anti-social e continuemos a negar em nosso íntimo tudo que realmente poderia nos dignificar.

Terça, 18 Novembro 2008 21:00

Educar no Silêncio

No silenciar de nosso corpo e de nossa alma, poderemos, com muito esforço, ouvir o conselho divinal, que nos moverá a agir com nobreza, a fundar nossa vida no ágape para que possamos ter clareza e serenidade em nosso pensar.

“A verdade não é minha nem tua, para que possa ser tua e minha”. (Santo Agostinho)

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Certa feita, a escritora estadunidense Helen Keller, cega e surda de nascença (desde os 18 meses de vida), havia dito que ela desejava ardentemente apenas quatro coisas. Estas, por sua deixam seriam: “pensar com clareza e serenidade, amar a todos com sinceridade, proceder sempre com nobreza, pôr toda sua confiança em Deus”.

 

Estes alicerces fundamentalmente são as bases para uma educação edificante, para um educar realmente emancipador do ser humano, capaz de aprimorá-lo. Aprimorá-lo não pelas mãos manipuladoras de outrem, mas sim, munindo o educando com as ferramentas elementares para que ele mesmo possa lapidar sua alma e aparar as arestas e agruras que deformam o seu ser.

 

Terão aqueles que, provavelmente, dirão que este breve dito desta escritora luminosa e imersa na escuridão e no silêncio, é deveras simplista, não é mesmo? Bem, eu, pelo contrário, vejo nestas simples palavras a complexidade da aventura humana. Através destas simples palavras vemos o que significa elevar o ser humano na plenitude de sua dignidade. E é no exemplo da autora que vemos a realização destes quatro pilares. Aliás, um exemplo vivo e radiante de que o ser humano é capaz de ser mais do que o mundo e seus ditos deterministas são capazes de explicar em suas incansáveis tentativas de nos impor suas meias-verdades.

 

Mas, o que significa pensar com clareza e serenidade? É algo que o educar na sociedade hodierna literalmente relegou ao ostracismo, visto que, o objeto de culto em todo colóquio sobre educação é justamente o surrado cacoete mental do tal do “pensamento crica”, digo, “crítico”. Um pensamento claro e sereno consistiria simplesmente, como nos ensina São Boaventura, em seu ITINERARIUM MENTIS IN DEUM, na capacidade de evitar e de nos esvaziar do excesso de opiniões, de idéias vazias.

 

Exercitando este esvaziamento mental, nos tornamos aptos a caminhar na senda da procura pela bem aventurança da pobreza de espírito que nos ensina Nosso Senhor Jesus Cristo e assim, nos tornando capazes (a duras penas, obviamente) de atingirmos a serenidade, pois obter clareza e serenidade no pensar não é, de modo algum, a mesma coisa que a tagarelice da criticidade chula e palpiteira.

 

Amar a todos com sinceridade, isso deveria ser cultivando através do educar e não por meio do cobiçar o que o outro tem ou invejar o que o outro é através de um sentimento de remorso recalcado, tal qual os passos da vida da criticidade cinge nos passos de seus iniciados.

 

Lembramos também que este amar não é o eros carnal que é cultuado em nossa sociedade, mas sim, o ágape, o sentimento caritativo para com o próximo e, principalmente para como desconhecido, pois, como nos ensina o Papa Bento XVI em sua Encíclica DEUS CARITAS EST, o amor, este amor, transforma a nossa impaciência e inquietude da alma em paciência e esta se transfigura em esperança que, por sua deixa, nos dá firmeza de caráter. Algo que, realmente, carece por demais nos dias atuais.

 

Proceder sempre com nobreza. Putz! Tal palavra literalmente foi abolida de nosso vocabulário ordinário, não é mesmo? Obviamente que tal mutilação nada mais é que o reflexo da monstruosa incursão do politicamente-correto em nossa sociedade, mas, o que necessariamente significa agir com nobreza? Simplesmente e tão só agir com retidão para com a Lei Universal, nas Leis não-escritas, significa transfigurar-se em um reflexo de algo que é maior que a nossa mísera existência.

 

Agir nobremente significa submeter todos os nossos gestos a retidão que, na maioria das vezes, o mundo nega, que, via de regra, a baixeza secular tanto se esforça em destruir. Um bom exemplo que bem ilustra do que estamos apontando é o filme DEPOIS DA CHUVA do diretor Takashi Koizume (roteiro de Akira Kurosawa). No filme, o personagem principal, o Samurai Misawa, que está “desempregado” e tem de enfrentar inúmeras dificuldades e, mesmo assim, ele mantinha-se sempre sereno, colocando-se acima dos problemas da maneira mais nobre possível.

 

Ah! Mas é claro! Como eu posso ser tão tolo. Falar em retidão na sociedade hodierna parece um tanto patético, não é mesmo? Todavia, o apatetamento não é inerente ao agir com nobreza, mas sim, o reflexo do estado espiritual atual do homem moderno diante de toda e qualquer demonstração desta monta.

 

Por fim, confiar Naquele que É. E, vejam só: ao invés de se ensinar que se deve confiar no Criador, prefere-se ministrar lições que motivem o indivíduo a confiar em si mesmo, ou em algum guru, ou em uma ideologia política ou em uma vanguarda de líderes políticos iluminados que vão fazer a revolução, que vão fazer pelo mundo tudo o que Deus não fez.

 

Ora, os três primeiros pilares somente tem sentido se estiverem firmados no quarto, pois a confiança Naquele que É levará o indivíduo a procurar conselho não na voz dos homens, mas sim, no silêncio de seu íntimo, junto a centelha divinal que habita o âmago de nosso ser como, mais uma vez, nos ensina São Boaventura.

 

No silenciar de nosso corpo e de nossa alma, poderemos, com muito esforço, ouvir o conselho divinal, que nos moverá a agir com nobreza, a fundar nossa vida no ágape para que possamos ter clareza e serenidade em nosso pensar.

 

Todo indivíduo que experimenta esta via, que se permite caminhar por esta vereda, percebe lucidamente que tudo aquilo que, popular ou eruditamente, é nominado por criticidade, não passa de um reles colóquio flácido nascido de uma tola revolta ululante parida na incompreensão de si e do mundo.

Sábado, 01 Novembro 2008 21:00

Uma Morada Edificada Sobre a Rocha

“Uma civilização só é destruída quando seus deuses o são”. (Emil Cioran)

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É de conhecimento do público em geral a visita feita pelo Papa Bento XVI ao Collège des Bernardins, no dia 12 de setembro da Era do Nosso Senhor, onde o mesmo pronunciou-se para um público composto basicamente por intelectuais e pessoas ligadas ao mundo da cultura. Mas sobre o que versa, especificamente, a referida preleção? Todos sabemos que o Sumo Pontífice norteou sua fala sobre a relação umbilical que há entre toda construção cultural com a procura humana por Deus, mas, o que isso significa? Ora, simplesmente uma verdade que deveria ser auto-evidente aos olhos de todos os seres humanos, mas que, na sociedade moderna é algo praticamente incompreensível.

A procura por Deus é uma das marcas essencialmente humanas, uma das notas que nos diferem fundamentalmente de todas as outras criaturas. Quando volvemos nossas vistas para todas as civilizações que se formaram no globo terrestre e dedicamos um mínimo de atenção para estudar a formação histórica de cada uma delas, percebemos com clareza que todas elas têm a sua fundação e organização a partir de fundamentos religiosos e, por essa razão, todas tendem para uma procura de um reencontro com o Absoluto.

Seja no extremo Oriente ou no Ocidente, toda sociedade para poder resistir ao tempo e ao espaço tem que, necessariamente, fundar-se em uma tradição que oriente os indivíduos a voltarem suas vidas para a procura do Eterno e do Infinito no Infinito e no Eterno.

Não é por menos que toda época história que é marcada pelo niilismo, pelo desespero, pela falta de sentido é, via de regra, uma época em que os valores religiosos são solapados e corroídos por toda ordem de relativismos, ceticismos e materialismos deificando assim qualquer instância contingente da sociedade como o Estado, uma Liderança Política, uma instituição social ou qualquer outra coisa vulgar para que venha a substituir Aquele que É. Por não mais se saber claramente o que seja realmente o Infinito e o Eterno os indivíduos tentam tapar o Sol da Verdade com uma peneira ideológica qualquer.

Por favor, não confundam a idéia de Estado Laico com sociedade laica. É possível e mesmo desejável a existência de um Estado laico, porém, uma sociedade que não tenha as suas instituições constituídas como o reflexo de uma ordem Sacra é algo literalmente insustentável, visto que, a vida dos indivíduos, apesar de ser experimentada em uma dimensão espacial e temporal, naturalmente tende para as outras duas dimensões citadas (para o infinito e para o eterno).

E, uma sociedade supostamente laica ou maliciosamente multicultural, não fornece ao indivíduo os cabedais simbólicos e tradicionais necessários para que uma pessoa possa encontrar o seu centro, que é O Caminho para reencontrar-se com Aquele que É.

Refletindo por esta via, podemos com certa apreensão, compreender porque no mundo contemporâneo as pessoas se encontram um tanto desnorteadas, vazias e outras tantas desesperadas a procura de um sentido para as suas vidas nulas e, outras mais, simplesmente entregues ao troca-troca pseudo-religioso, por não encontrarem a Verdade que responda aos clamores de seu ser no intento de se reencontrar com o Ser.

Ora, por essa razão que o filósofo francês Louis Lavelle nos ensina que o maior bem que podemos fazer aos outros não é oferecer-lhes nossa riqueza, mas levá-los a descobrir a deles. Nesta procura, a produção cultural sempre acabava respondendo as perguntas fundamentais da alma humana. Algo que seja chamado de Cultura e não cumpra esse papel basilar não deveria de modo algum receber essa alcunha, pois seria um total desvirtuamento do sentido da palavra.

Aliás, de todos os bens culturais que são produzidos nos dias hodiernos, quais deles realmente procuram levar o indivíduo a procurar o seu reencontro com o Eterno e com o Infinito? Quais bens culturais procuram realmente retratar o ser humano como ele realmente É, enquanto um ser imperfeito que tende a procurar Aquele que É Perfeito? Qual dos produtos culturais leva o indivíduo a encontrar o seu centro?

E mais! Você não acha estranha uma época com tanta produção livreira, com tamanha disseminação de informação e que facilita significativamente o acesso a esses bens ser justamente uma sociedade onde os indivíduos têm suas almas monstruosamente fragilizadas a tal ponto que qualquer probleminha medíocre os abale ao ponto de se deprimirem profundamente (ou fingidamente)?

Estamos a viver em um deserto Espiritual devido ao vazio religioso tradicional que se edificou, pois, apesar de boa parte das pessoas se declararem religiosas, poucas ordenam o seu centro existencial na perspectiva do RE LIGARE.

De mais a mais, o ser religioso em nossa sociedade é literalmente relegado a uma categoria secundária, reduzido a uma mera questão de gosto pessoal, subjetivo e não como sendo uma via que se fundamenta na estrutura do real para que o indivíduo assim possa compreender-se enquanto pessoa e enquanto parte integrante do real.

Para ilustrar esse ponto, permitam-me apresentar um pequeno exemplo: certa feita, um pequeno grupo de alunos me perguntou se eu não teria algumas dicas para eles poderem melhorar o seu aprendizado. De maneira lacônica disse-lhes: Rezem antes de estudar. Os jovens, mais do que depressa, me responderam: “não professor, nós estamos falando sério”. Mas eu estava e estou falando sério e expliquei para eles a seriedade do meu conselho.

Há vários dias estou a meditar sobre esta indagação feita pelos garotos e a me indagar sobre o estado em que se encontra a nossa sociedade e, principalmente, sobre a preleção feita pelo Primas de Roma, o Papa Bento XVI, feita ao mundo da cultura e confesso que realmente, conforme as palavras do Sumo Pontífice, estamos hoje vivendo em um grande deserto espiritual com dunas pseudo-culturais, multiculturais e materialistas, cientificistas e imediatistas que torturam e atormentam a alma humana.

Ora, foi no meio de um deserto espiritual similar que nasceram as grandes Tradições religiosas e, se hoje vivemos esse tormento, não reinventemos a roda. Apenas nos reencontremos com um dos caminhos já existentes. Qual deles? Sinceramente, não sei, pois a procura é sua e apenas sua. Porém, com certeza que a resposta não será encontrada em um livro de ciência, natural ou social, moderno e muito menos em um livro de auto-ajuda ou em uma seita, pois, segura não é segura a morada que é edificada sobre o lodo da soberba da auto-afirmação moderna. Não mesmo.

Procure a rocha da transcendência para firmar a mansão de seu ser na cultura que procure levá-lo ao Ser.

Ah! Já estava me esquecendo. Não é por menos que praticamente toda mídia chique e o stablishiment Universitário odeiem tanto o Sumo Pontífice Bento XVI, mesmo que nunca tenham lido uma frase escrita pelo mesmo.

Quinta, 09 Outubro 2008 21:00

Fanático é o Cientificismo Que Te Pariu

Por fim, frente ao que fora exposto nestas linhas, eu perguntaria aos “homens de razão”, o que seria especificamente esta centelha divina chamada razão?

A inconsciência é uma pátria; a consciência, um exílio. (Emil Cioran)

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É curioso como muitas pessoas adoram dar pitacos sobre assuntos concernentes a vida religiosa, em especial sobre o Catolicismo, sem conhecer patavina sobre o que é uma Religião, sobre Filosofia Perene e muito menos sobre a história das religiões.

O primeiro sinal que essas pessoas levianas manifestam, pessoas estas travestidas na forma de um simulacro de racionalidade superior e decantada, é a afirmação vomitada em nossos ouvidos onde reza-se que a fé seria apenas o ato de crer sem ver e que as religiões, principalmente o Catolicismo, não teriam como argumentar logicamente sobre a sua própria estruturação doutrinal. Quando alguém afirma isso, de cara, tenho plena convicção de que estou diante de uma besta ao cubo. Aliás, estes tipos, nos dias hodiernos, são bastante populares em nossa tagarelante sociedade.

Mas, dito isso, vamos por partes. Primeiramente, fé, não é o ato de crer sem ver, pois, se assim o fosse, seria algo muito estranho mesmo. Fé, em princípio é um gesto de confiança que, na maioria das vezes, se fundamenta na percepção de algumas evidências que permitem ao indivíduo confiar na veracidade ou na eficácia de algo.

Um bom exemplo do que estamos afirmando encontra-se na narrativa Bíblica quando São João Batista, preso, manda perguntar para seu Primo se o Messias veio e este ordena para que digam a ele que os cegos estão vendo e que os aleijados estão andando (Matheus, XI; 2-6). Ou seja, lhe apresentou sinais, evidências da presença Dele no mundo para que o Batista tivesse confiança.

Outro exemplo que julgamos ser muito relevante é a presença dos inumeráveis milagres que são nada mais, nada menos, do que evidências da Onipresença de Deus. Isso mesmo senhores 100% racionalistas, me expliquem em bases meramente racionalistas e materialistas, ou em demonstrações laboratoriais o “funcionamento” de um milagre e assim, desbanquem milhares de anos de evidencias acumuladas que dão sustentação para a fé de inúmeros fiéis humildes e outros tantos indignos como este que aqui escreve.

De mais a mais, é fundamental que seja destacado o fato de que a ciência moderna com toda a sua aura de superioridade epistêmica é tão repleta de fé (mundana neste caso) quanto todas as Tradições Religiosas reunidas. Um bom exemplo disso é a própria teoria do Big Bang de Friedmann-Robertson-Walker.

Com base em que a casta dos cientistas (e principalmente os leigos metidos a racionalistas e céticos) fundamentam a explicação aceita de que o Universo começou através de uma grande explosão de um ponto, do tamanho da cabeça de um alfinete, onde estava condensada toda a matéria e energia existentes? Ora com base em algumas evidências e outras tantas conjecturas que sustentam a crença de que o Universo surgiu assim a 13,7 bilhões de anos (nossa! Que precisão), permitindo que muitas pessoas confiem nesta explicação como válida.

Não? Então me digam uma coisa: quem aqui testemunhou, in loco, o gênese do Universo e da vida? Ninguém. Logo, todos crêem em algo que lhes dê confiança em relação ao surgimento de tudo. Uns em milhares de anos de testemunhos e evidências. Outros na observação e experimentação de um pequeno grupo de pessoas que crêem poder explicar tudo, mesmo que isso signifique a destruição de muitos.

Bem, dito isso, vejamos um outro exemplo das crenças cientificistas. Pegue um livro de biologia, ou de física, ou mesmo de química. Liste todas as teorias e as respectivas experiências que demonstram o que está sendo explicado sobre cada uma das disciplinas apontadas. Feito isso, aponte quais delas você poderá reproduzir para comprovar que aquilo que está sendo apresentado para você é digno de uma certeza razoável e quais das experiências que você não terá como realizar.

As que se enquadrarem no primeiro grupo serão conhecimentos apreendidos através de uma demonstração, os segundos, por sua deixa, serão apenas conhecimentos apreendidos através da confiança de você nutrirá de que realmente o livro é verossímil e que o resultado das experiências descritas são aquilo mesmo. Ou seja: saber apreendido mediante a fé que o indivíduo tem na casta dos homens de ciência, e nada mais.

Sobre este assunto, uma obra que eu recomendaria para o fomento de uma profícua reflexão sobre essa “onisciência” cientificista que há em nossa sociedade é o livro CONTRA O MÉTODO de Paul Feyerabend. Se você não confia no que estou escrevendo, leia Feyerabend ou mesmo Thomas Kuhn.

Por fim, frente ao que fora exposto nestas linhas, eu perguntaria aos “homens de razão”, o que seria especificamente esta centelha divina chamada razão? Não estamos indagando sobre o que é uma demonstração racional ou um argumento racional, pois tanto uma quanto o outro, são posteriores a própria razão e se, estes senhores (não os grandes cientistas, pois, estes, em sua maioria, sempre foram homens de fé) entendem por razão? QUID EST RATIO? Aliás, qual a diferença que há entre racionalismo, materialismo e RATIO? Ou é tudo a mesma coisa?

Olha, se o indivíduo “100% razão” não tiver com sua alma tomada pela vaidade, um bom começo seria a leitura da obra INTELIGÊNCIA E VERDADE de São Tomás de Aquino. Também recomendaria, do mesmo autor, a leitura da Suma Teológica – em especial as questões LXXXIV, LXXXV, LXXXVI, LXXXVII e LXXXIII.

Porém, não se esqueça que a indicação destas obras é apenas uma reles e pacóvia sugestão de um escrevinhador caipira. Todavia, se você não as conhece e nem pretende conhecê-las, pense pelos menos duas vezes antes macaquear algum cacoete mental decorado para dar a impressão de superioridade moral e intelectual.

Para finalizar, só por obséquio, não se esqueça nunca que fanático é o cientificismo parvo que te pariu.

E tenho dito. 

Terça, 23 Setembro 2008 21:00

Outra Resposta Necessária

Como é que pode apenas a menção feita, por uma indigna pessoa como eu, sobre a validade do voto nulo deixou tantas pessoas ouriçadas.

"Nada é tão admirável em política quanto uma memória curta." (John K. Galbraith)

"É necessário que os princípios de uma política sejam justos e verdadeiros." (Demóstenes)

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Como é que pode apenas a menção feita, por uma indigna pessoa como eu, sobre a validade do voto nulo deixou tantas pessoas ouriçadas. Bem, isso faz parte da ambiente democrático e são justamente essas divergências que dão o tom desta criação grega.

Mais uma vez, lá estava o meu perfil no Orkut recebendo comentários sobre o meu artigo PENSO, LOGO ANULO. Todavia, desta vez não era uma pessoa magoada e manhosa que estava tecendo os seus queixumes quanto as minhas convicções políticas, não mesmo. A pessoa levantou um questionamento bastante interessante, o que literalmente demonstra que a pessoa que escreveu o comentário meditou e refletiu sobre minhas parvas palavras e isso, meus caros, muito me alegra, pois, neste caso, sinto que atingi o meu magno intento, que é o de convidar as pessoas a pensarem com a devida seriedade e serenidade sobre um momento como este e não apenas se empastelar em panelinhas de petralhas que torcem por “A”, “B”, “C” ou por nenhum deles.

Este novo comentador questionava-me sobre o fato que nós deveríamos dar um voto de confiança, sim, para os políticos, pois, via de regra, os pais dão um voto de confiança para nós, professores, no momento que eles matriculam seus mancebos em uma Instituição de Ensino.

Muito bem, ótima colocação. Mas, vamos analisar um pouco esta observação. Se os pais dos jovens e crianças confiam em nós, professor, da mesma forma que eles confiam nos representantes públicos, muito se explica porque o sistema educacional brasileiro está do jeito que está, não é mesmo? Aliás, o maior fruto de nosso sistema educacional que muitos pais confiam cegamente são alunos que, nos testes internacionais, sempre ficam nos últimos lugares (WEBER; 2007).

De mais a mais, se os pais colocam os seus filhos nas escolas da mesma forma que eles elegem um candidato, não teremos como discordar do filósofo Olavo de Carvalho quando ele afirma que a diferença do sistema educacional brasileiro e do crime organizado seria que o crime é organizado (CARVALHO; 2007).

Ainda sobre este ponto, o economista Claudio de Moura Castro (2001), fala-nos que “O programa mostra que a escola brasileira não está ensinando seus alunos a ler um texto escrito e a retirar dele as conclusões e reflexões logicamente permitidas. ‘Das mil coisas e conteúdos que a escola faz ou tenta fazer, o Pisa está nos mostrando que ela se esquece da mais essencial: dar ao aluno o domínio da linguagem’."

Bem, um pai que confia, cegamente, a formação de seus filhos para um sistema educacional como o brasileiro, deve se questionar o mais rápido possível sobre a confiança que ele deposita nesta instituição decrépita que é o ensino obrigatório em Instituições de Ensino (ILLICH; 1977). Aliás, nós, professores, se realmente amamos nosso ofício, devemos, urgentemente, também refletir sobre este ponto e, fundamentalmente, agir para modificar este cenário.

Doravante, se fôssemos calcular a porcentagem de pais que acompanham a vida escolar de seus filhos o número seria assustador, visto que, estes, ao “confiarem” a educação de seus filhos para uma Escola, não o fazem como faria um bom cidadão, fiscalizando tanto o andamento do seu filho como o funcionamento da Escola onde o pequeno fora matriculado, mas sim, age como a maioria dos cidadãos brasileiros de meia-pataca: largando (não confiando) seus filhos nas mãos dos educadores e apenas vão se preocupar como eles se, porventura, ele vier a reprovar de ano ou não. Ora, não é assim que acontece?

E mais! As Instituições de Ensino não são entidades etéreas que existem acima da sociedade. Estas, via de regra, refletem e reproduzem os valores da própria sociedade (BOURDIEU; 1998) e, para piorar o angu, servem muitas vezes (no Brasil, constantemente) como um mecanismo de controle do Estado e não como um ambiente para fomentar o crescimento individual do aluno (ALTHUSSER; 1974).

No caso de nosso país, também não podemos esquecer que as escolas, tal qual a sociedade em que ela está inserida, impera a troca de favores, o apatrinhamento (velado ou não), os redutos eleitorais (ou currais eleitoreiros, se preferirem), o mandonismo e tutti quanti. Estes, que se fazem presentes e muitíssimo vivos na cultura política de nosso país também estão dentro da maioria avassaladora das Instituições de Ensino brasileiras (ALMEIDA; 1996). Infelizmente, não temos como negar este fato (bem que eu gostaria de ser desmentido).

Por essas e outras que reiteramos o que já havíamos dito no artigo citado no início desta missiva (2008a) e no artigo UMA RESPOSTA NECESSÁRIA (2008b). A parte de menor relevância na vida política de uma cidade é o ato de votar. O que é mais importante na vida cívica é o que você faz no dia a dia em sua CIVITAS.

Claro que não se deve dar tanta importância para as palavras escritas por um professor caipira como eu. Por isso, vejamos como os gregos, nos áureos tempos de Péricles (pai da democracia), faziam. Nestes idos, em muitas ocasiões não havia votação para ocuparem-se determinados cargos públicos. Fazia-se apenas um sorteio entre os cidadãos, pois, para serem cidadãos, os indivíduos deveriam ser pessoas dignas e que tivessem servido ao bem da POLIS (WELLS, 1970). Ou seja, no nascedouro da democracia, o votar não era o centro da vida cívica. O ponto central era a sua dedicação na preservação dos valores da comunidade (HELD; 2001). Cada cidadão não via o governo como algo externo e distante, mas sim, se consideravam como parte integrante e atuante da máquina governamental (ROSTOVTZEFF; 1977).

Ora, se formos tecer uma análise, por mais breve que seja, a respeito de nossa sociedade e de sua cultura política, tomando como modelo comparativo a cultura política da Grécia Clássica, inevitavelmente chegaremos a conclusão que nos é apresentada pelo Estagirita (ARISTÓTELES; [s/d]). Este nos diz que quanto um governante (Rei, Aristocratas ou Povo) governam para o bem, nós temos um governo virtuoso (Monarquia, Aristocracia e Democracia, respectivamente). Todavia, quando os governantes governam para o seu próprio bem, nós temos o governo dos medíocres tomados e cegos pelos vícios. Ou seja: uma Tirania, uma Oligarquia ou uma Oclocracia.
Nossa cultura política, como ela é vivida em nosso dia a dia e que é reproduzida em nossas Instituições de Ensino se enquadraria em qual dos “tipos” apresentados pelo filósofo grego Aristóteles? Seja sensato.

Muito bem. No que tange o sistema educacional, as considerações tecidas no parágrafo acima também são necessariamente cabíveis, principalmente em uma sociedade como a nossa onde as Potestades Estatais controlam direta e indiretamente todo o sistema educacional e ameaçam prender todo pai e toda mãe que ouse educar os seus filhos em casa contrariam os ditames dos iluminados do MEC (HOFFMAN; 2008).

E mais! Junte a isso uma sociedade tomada pelo parasitismo clientelista e pelo descaso em relação a vida cívica e você terá uma clara visão deste acampamento de refugiados chamado Brasil. Se você quer se entregar a esse angu (depre)cívico, tudo bem, eu respeito. Mas, não me peça para participar disso como se fosse algo digno, elevado e bom, pois, a duras penas, venho me esforçando para deixar de ser tal qual a sociedade brasileira descrita por Machado de Assis: uma sociedade cínica e dissimulada.

E confesso: nadar contra toda esta maré, não é fácil. Mas creio, piamente, que vale a pena, pois a reforma do sistema educacional não começa pelas instituições ou pela troca de governantes, mas sim, pela reforma de nossas atitudes e, conseqüentemente, de nós mesmos. Eis aí, o grande desafio político e educacional de nossa nação que nós preferimos nos esquivar através do fascínio ululante que um ano eleitoral causa em nossas almas.

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