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Luiz Leitão

Luiz Leitão

Luiz Leitão da Cunha é administrador e consultor de investimentos, sendo articulista e colunista internacional, especialmente para países lusófonos. É colaborador do Jornal de Brasília, Folha do Tocantisn, Jornal da Amazônia, Diário de Cuiabá, Publico (Portugal), entre outros.

Sexta, 17 Fevereiro 2006 21:00

Será Mesmo o Fim do Nepotismo?

E empregar amigos, acaso não é também um favorecimento? Não é emprego de parente, mas equivale à prática do nepotismo, sim.

A sociedade em geral ficou satisfeita com a decisão do Supremo Tribunal Federal, quase unânime, que acaba com o nepotismo – emprego de parentes até terceiro grau – no judiciário, derrubando as incontáveis liminares concedidas pelos Tribunais de Justiça dos Estados.

Já se cogita extinguir esta prática na Câmara também, segundo seu presidente, deputado Aldo Rebello, que pretende estender a proibição ao Executivo, e deve-se entender Executivo como os três níveis de governo, municipal, estadual e federal. Aldo prometeu pôr  em votação em março uma emenda constitucional acabando com a prática ; vamos cobrar.

Mas se levarmos em conta a quantidade de municípios, exatos 5.560, com suas respectivas câmaras de vereadores, prefeituras, as assembléias legislativas dos 26 Estados da Federação mais a Câmara Distrital de Brasília, veremos que talvez isto seja uma utopia danada, afinal, como controlar tanta gente? Só no governo federal são quase 20 mil “cargos em confiança”, ou de livre provimento, ou ainda comissionados, e haja fé para se confiar em tal número de pessoas. Acaso se justifica o emprego do ex-motorista do ministro Antonio Palocci em cargo de confiança no Ministério da Fazenda no Rio de Janeiro?

Todos sabem que existem meios de burlar a proibição com a prática do nepotismo cruzado, onde um emprega em seu gabinete ou seja lá onde for, o parente de um colega, e vice-versa.

Além do nepotismo cruzado, existe o que podemos talvez apelidar de nepotismo fantasma, como os favorecimentos de empresas estatais ou não a parentes de figuras do governo, como parece ser o caso da Telemar e a firma do filho do presidente Lula da Silva.

E empregar amigos, acaso não é também um favorecimento? Não é emprego de parente, mas equivale à prática do nepotismo, sim. O governante ou parlamentar alegar que precisa se cercar de pessoas de confiança é uma falácia, haja vista as tantas pessoas de confiança que pintaram o sete neste governo e acabaram tendo que ser postas para fora, certamente a contragosto dos atuais mandatários.

Há ainda os casos de empresas que prestam serviços ou vendem para os governos e empregam um parente de algum poderoso, outra forma de nepotismo disfarçada.

Não sejamos ingênuos, acabar com o favorecimento a parentes e amigos é como querer zerar a corrupção, tarefa inglória, impossível. O que se pode fazer é tentar minimizar o problema exigindo de nossos parlamentares uma lei que acabe com os cargos em confiança, à exceção de ministro e secretário de Estado. Que só seja permitido ingressar no serviço público por concurso; inclusive e principalmente nas cortes do Judiciário, acabar com as nomeações.

E nas empresas estatais, as diretorias e presidências devem ser obrigatoriamente ocupadas por funcionários de carreira, que conhecem as companhias, nada de um estranho aterrisar de pára-quedas para dirigir uma instituição que não conhece. O mais salutar efeito desta medida seria o fim da barganha política de cargos, à exceção talvez dos ministérios, realmente não se pode submeter um ministro a concurso público. Idem para as secretarias de Estado.

Afinal, se policiais, promotores, juízes e tantos outros integrantes de várias categorias do serviço público só entram por concurso, por que haveriam de receber tratamento diverso amigos e parentes?

Um brinde à decisão do Supremo, mas é preciso exigir muito mais, que a medida seja estendida aos três poderes, nos três níveis: federal, estadual e municipal, com concurso público para todos, com provas difíceis, de altíssimo nível, especialmente no tocante ao manejo da língua portuguesa.

O nome disto é igualdade. Igualdade de direitos para todos os cidadãos que desejem trabalhar para a nação, com aposentadorias exatamente iguais às dos trabalhadores da iniciativa privada.

Sábado, 11 Fevereiro 2006 21:00

Quem de Nós Dois?

Os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin nem deveriam estar cogitando a questão “quem de nós dois?”; e sim o primeiro apoiando o segundo desde já.

Os  tucanos José Serra e Geraldo Alckmin, respectivamente prefeito e governador de São Paulo, travam um batalha aguerrida e silenciosa pela candidatura à presidência da República pelo PSDB. Serra conta com a vantagem de estar praticamente empatado com Lula da Silva nas pesquisas de opinião, ao passo que Alckmin tem uma colocação bem mais abaixo numa eventual disputa com o atual inquilino do Planalto.

Alguém diria que é cedo para acreditar em pesquisas, o que é verdade e mais um motivo para uma boa dose de prudência.

É gigantesca a cobiça pelo cargo, mas José Serra já é prefeito da maior cidade do Brasil e tem mais três anos de mandato pela frente; não é pouca coisa. Geraldo Alckmin tem um passado limpo e a historia de um governo senão bom, razoável, com algumas falhas aqui e ali, mas nada que seja imperdoável para o eleitor.

Já Serra corre um risco danado se sair vencedor na disputa, uma porque fez promessa em cartório dizendo que, se eleito prefeito, cumpriria seu mandato até o final; outra que se abrir mão do cargo, entregando-o ao desconhecido vice do PLF, Gilberto Kassab, e este fizer um mau governo, a ira dos eleitores se voltará contra ele, Serra, mesmo que se eleja presidente. Além do mais,  se disputar a presidência com Luiz Inácio e perder a parada, ficará  a  ver navios, sem cargo, e ganhando a fama de  mau pagador (de promessas).

Não se deve deixar iludir pelas circunstâncias, Lula tem muita possibilidade de se reeleger, ainda mais com os pífios resultados das CPIs e CPMI, com os “acordinhos” e acordões e uma eventual renovação da aliança com o PMDB, sempre às ordens. Para um uma continuidade na parelha PMDB/PT, basta o encerramento da CPMI dos Correios com um provavelmente pífio ou mediano relatório do deputado Osmar Serraglio e nenhuma outra surpresa no governo – e eventualmente como um empurrão a mais a eventual constatação da legitimidade da lista de “Furnas”.

José Serra deve pesar muito bem as conseqüências para seu futuro político no caso de uma  derrota para Lula.

Já Geraldo Alckmin tem condições de crescer em âmbito nacional, já contando o pesado fato de ser conhecido na maior colégio eleitoral do país. Se perder, paciência, tenta a prefeitura em 2008, o que não há de ser nenhum desdouro.

Os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin nem deveriam estar cogitando a questão “quem de nós dois?”; e sim o primeiro apoiando o segundo desde já.

Exemplifica-se a questão, um tanto simploriamente  como algum que vende a casa para jogar na loteria e outro que aposta apenas um cartão. O primeiro, se perder, quebra, o segundo praticamente não tem prejuízo. E como prejuízo rima com juízo, seria bom o tucanato examinar esta questão com muito carinho e rapidez.

Sábado, 04 Fevereiro 2006 21:00

Saiu o Acordão

O acordão iria sair de qualquer forma, pois nesta história, um lado é refém do outro, mas o que precipitou as coisas foi a tal “lista de Furnas”, uma papelada que está nas mãos da Polícia Federal mas cuja autenticidade não está provada.

Finalmente, aconteceu o esperado – porém indesejável pelos eleitores – acordão através do qual, entre mortos e feridos, salvam-se todos exceto, é claro, a turma do andar de baixo, os que podem menos;  estes ficam como exemplo do duro e bravo combate ao qual  governo e oposições se lançaram sem tréguas e com destemor.

Justamente no momento em que Duda Mendonça ameaça contar tudo (e este tudo deve ser muita, muita coisa), exatamente quando é oportuno aumentar a pressão, dar mais uma volta no parafuso, os protagonistas desta palhaçada congressual chamada CPI dos Bingos e de outra denominada CPMI dos Correios, certamente atemorizados ou cooptados por quem não tem o menor interesse em que se saiba toda a verdade, suspende-se o novo depoimento do publicitário baiano.

Logo agora que o senador Delcídio Amaral e o deputado Osmar Serraglio parecem que vão conseguir lá em Nova Iorque alguma coisa a respeito das contas que se diz que Duda possui – e ele nega – no exterior. Pois é, chegou-se aonde a prudência dos que temem recomenda que se recue; não “interessa” ao PT nem à oposição uma nova oitiva de Duda Mendonça, o homem que fez as campanhas políticas não só dos presentes detentores do poder, mas de muita gente da oposição.

Sequer o banqueiro Edemar Cid Ferreira, dono do falido Banco Santos e amicíssimo do senador José Sarney, o qual, por coincidência, de lá retirou todo o seu dinheiro, que não deveria ser pouco, dias antes de sua quebra, será convocado à CPI - oportunamente, desistiram suas excelências de o convocar. Como uma mão lava outra, devolve-se agora o favor do alerta que possivelmente foi dado a Sarney para salvar seus cifrões.

Sibá Machado,  senador petista acreano também é da “opinião” de que Duda não deve vir, a menos que sujam fatos novos – e o ameaçar contar tudo acaso não é um fato inédito (e perigoso?). Da mesma forma pensa a senadora petista do Santa Catarina, Ideli Salvatti. Não se impressione o leitor, no fundo estão todos, como se diz, ajustados e contratados, combinadíssimos.

O acordão iria sair de qualquer forma, pois nesta história, um lado é refém do outro, mas o que precipitou as coisas foi a tal “lista de Furnas”, uma papelada que está nas mãos da Polícia Federal mas cuja autenticidade não está provada. Nela constam os nomes de 156 integrantes dos partidos PSDB, PFL, PTB, PL e PP, ou seja, praticamente toda a oposição, como tendo recebido dinheiro de caixa dois proveniente da empresa estatal Furnas Centrais Elétricas.

O engraçado que neste jogo de empurra, ou de salve-se quem puder,é que os petistas querem muito ouvir na CPMI dos Correios um certo lobista chamado Nilton Monteiro, de quem se diz que partiu a “lista de Furnas” e foi o denunciante do caixa dois da campanha do íntegro senador tucano mineiro Eduardo Azeredo. Merece, pois, alguma credibilidade este lobista.

Se a lista é verdadeira ou falsa, há como apurar, e o deputado cassado Roberto Jefferson admitiu ter recebido 75 mil da empresa estatal de energia. Pode ser mentira, mas talvez Jefferson tenha meios de provar o que diz.

Então é isto, caro leitor e eleitor: trocam-se favores, deixa-se de ouvir Duda – que não custa repetir, ameaça contar tudo o que sabe, bem como o outro publicitário, Marcos Valério -em troca da desistência da convocação do lobista  Monteiro.

Assim se apura a verdade no Brasil, com testemunhas desobrigadas de dizer a verdade, protegidas por mandados de segurança; com acordões como este, e depois suas excelências tentam limpar um pouco a imagem da Casa diminuindo suas escandalosas férias de 90 dias para “meros” 55 – quando os demais mortais têm 30, isto quando não as vendem ao patrão para reforçar o parco orçamento.

Também tiveram a generosidade de, doravante, não mais receberem pelas convocações  extras, e hoje o Brasil pode ser orgulhar de ser o país cujos parlamentares têm o menor período de férias; a seguir vêm os ingleses, com 60 dias – mas é de crer que lá os Comuns e os Lordes trabalhem de segunda a quinta.

Assim, nossos políticos provam aos mais incautos, por A “menos” B, que são a quintessência da probidade.

Terça, 24 Janeiro 2006 21:00

Memória Boas e Ruins

Talvez as memórias sejam tudo o que levamos -se é que o fazemos-, desta vida. Uma fração de segundo e o que é deixa de ser; uma vida se esvai, uma esperança morre.

Talvez as memórias sejam tudo o que levamos -se é que o fazemos-, desta vida. Uma fração de segundo e o que é deixa de ser; uma vida se esvai, uma esperança morre.

Da mesma forma, uma esperança nasce de repente, do nada. E fica tudo arquivado na nossa consciência, coisas boas, vicissitudes, alegrias, choros.

Porque a vida e tudo o mais no universo é regido pelo tempo, mas talvez, apenas talvez, existam duas coisas difíceis de entender, aceitar, explicar e até admitir sua existência: o infinito e a eternidade, que, em última análise são a mesmíssima coisa.

Pode-se imaginar um fim para o universo? O que haveria além? Um muro? E a eternidade, não tem começo, meio nem fim? Talvez ela seja nada mais, nada menos que o sempre, talvez já vivamos a eternidade.

Tudo isto visto da na nossa talvez pobre perspectiva humana, obnubilada, que desconhece as outras onze dimensões que os físicos cogitam existir.

Mas se a flecha do tempo retrocedesse, consertaríamos nossos erros? O “paradoxo dos gêmeos” diz que isto é impossível, tomaríamos as mesmíssimas decisões e cometeríamos os  mesmos erros.

O castigo do tempo, uma expressão imprópria, nos faz sentir o aprendizado com dor, e com amor, também. Não é um castigo porque as experiências e as demais coisas acontecem para que possamos aprender com elas.

Cronos, que significa tempo em grego era um deus do Olimpo, e ele é tão misterioso quanto invencível. Por curiosidade e para causar mais perplexidade, o quantum, o menor pacote de energia que existe, viaja à velocidade da luz, insuperável, e sabe-se que para um quantum, o tempo pára. E mais intrigante ainda, tudo é energia, a do elétron é negativa, o próton, do núcleo do átomo é positivo e o nêutron é neutro, tem carga zero.

A história retrata o tempo passado, mas não fielmente, não registra cada sentimento, alegria, sofrimento. A história é genérica, é como uma fotografia, talvez. Um foto nos mostra um momento, mas não o aroma que permeava o ambiente, o que as pessoas sentiam.

Fala-se muito em vida eterna, mas deve ser um aborrecimento total, porque se a consciência não morre, uma hora vai aparecer algum tédio, o que é uma regressão à condição humana.

Voltando às memórias, podemos dar “prioridade”, a guardar as boas e, não exatamente jogar fora as más, porém mantê-las no “arquivo morto”, aquele que ninguém consulta.

Lembrar de coisas tão frugais e tão boas, saborosas, como um beijo, como o primeiro toque no filho recém-nascido; o pegar naquela mãozinha e  se assombrar com a sua fragilidade.

O mal, relembrado, nos faz mais mal ainda, traz a raiva, o inconformismo, sentimentos que prejudicam. Acaso vale a pena ficar relembrando um assalto? Claro que não, é o preço por se viver numa grande cidade, e ademais, ninguém morre de véspera.

Recordar os erros de pronúncia dos filhos pequenos não tem preço, a primeira queda da bicicleta, o primeiro dia de colégio, com choro, justo espernear por uma inédita separação.

Num filme cujo nome foge à memória, o protagonista está condenado a viver todos os dias exatamente iguais, por séculos a fio. E numa conversa com uma moça, ela pergunta sua idade – que ele não aparenta – e ele responde: “tantos séculos”, o que naturalmente causa espanto a ela que ri, ao que ele retruca: sessenta anos ou sessenta segundos; que diferença faz?

Como disse o economista Lorde Keynes, no século passado, lá pelos anos 30: “a longo prazo, estaremos todo mortos”. Então, vem a pergunta: se tudo é assim tão fugaz, de que vale gastar tempo trazendo à memória más recordações?

É claro que certas memórias se prestam ao aprendizado, ou seja, “gato escaldado tem medo de água fria”.Mas é preciso se livrar da recordação do sofrimento evitável, e o que é isto?

É exatamente evitar reviver constantemente os ressentimentos.

Quando nos formos, levemos conosco as coisas boas, o perfume da flor, o sorriso da amada, e não as brigas; o abraço e não o tapa, o grito.

E mais: muita coisa que as pessoas encaram como ruins, são boas: uma crítica, uma correção são ensinamentos, e por eles se deve agradecer, jamais demonstrar raiva.

Vários sábios da antiguidade já disseram isto: “toda questão tem dois lados, tudo tem um lado bom; por exemplo, uma doença pode mudar o modo de a pessoa ver a vida, e rever seus valores, tornando-se melhor”.

É muito para a nossa limitada compreensão, certamente há algo mais.

Quarta, 18 Janeiro 2006 21:00

Um Por Todos, Todos Por Um

Que Parlamento, Judiciário e Executivo (governo federal) têm vivido na maior (e convenientíssima) promiscuidade não é novidade para ninguém.

Que  Parlamento, Judiciário e Executivo (governo federal) têm vivido na maior (e convenientíssima) promiscuidade não é novidade para ninguém; que abusem da desfaçatez e desprezem nosso poder de discernimento, idem. Agem á moda,  mas sem a nobreza dos três mosqueteiros (que eram quatro), “na base do um por todos, todos por um”.

E o leitor sabe por quê? Bem, se eu estiver errado, por gentileza me corrija, o email publicado ao fim do artigo é para isto mesmo. Porque eles sabem muito bem sabido que o eleitor pobre e desinformado reelegerá um Romeu Queiroz porque ele foi ‘absolvido’. Coitado, não? Os deputados Ricardo Izar (que é presidente do conselho de ética da CPMI e votou contra a sua prorrogação) e Osmar Serraglio dizem nos jornais que ainda temem um ‘acordão’ para salvar mandatos. Temem? Como assim?Perdão, excelências, mas nossa limitada inteligência não está sendo suficiente para entender o que querem dizer por ‘ temem’. Afinal, temer o que já está ocorrendo escancaradamente?

Alguém duvida que esse deputado Luiz Carlos Silva, vulgo ‘professor Luizinho’ vai se safar, com base no princípio jurídico da insignificância? Foram só vinte mil reais, e Romeu Queiroz levou muito mais. Mas vá lá que nos tomem por tolos; não votei em Lula, mas hipoteco minha solidariedade àqueles que acreditaram numa mentira vestida de ternos Armani, produzida por um publicitário baiano.

Agora suas excelências culpam a imprensa pela má fama que adquiriram; melhor dizendo, que tornaram maior. A imprensa? Ora, ora, isto é a mesmíssima coisa que chamar o leitor e eleitor de burros. Não, senhores, eles não navegam nas mesmas águas barrentas que suas excelências, eles, os mais informados, enxergam o fundo do rio onde repousa a verdade, à espera de quem a quiser ver.

Um por todos, todos por um; o Judiciário julgando politicamente, com um presidente que tem a pretensão de chegar á presidência da República; ora, sr. Jobim (não vai querer que o chame de doutor, vai?), onde anda o seu senso de realidade? Será que os anos de vivência no Olimpo do Supremo Tribunal Federal o obnubilaram? O sr.não tem projeção nacional e está , para se usar um termo da moda, ‘detonado’ perante a classe média.

Por fim, aqui nesta talvez maluca comparação com os três mosqueteiros, o supra-sumo do desprezo pelo eleitorado, pela cidadania: reportam os jornais que esta estúpida iniciativa governamental de ‘recuperar’ as estradas numa operação ‘tapa buraco’ já vem eivada de impropriedades, nas manchetes que relatam que a operação “tapa-buraco’ usa empreiteiras que o TCU-Tribunal de Contas da União Condenou”.

Primeiramente, foram todas contratadas sem licitação; segundo,  das irregularidades constatadas pelo TCU nas tais empresas, consta um superfaturamento de inacreditáveis 117%. Em Goiás, o sobrepreço médio é da ordem de 33%.

Vox populi, vox Dei: bem disse um leitor do jornal O Estado de São Paulo, na seção de cartas: As eleições vêm aí; o Valerioduto está manjadíssimo, logo, foi necessário substituí-lo pelo ‘Buracoduto”, um acinte A todos quantos ficaram sabendo que tais ‘consertos’ durarão somente um ano, se tanto.

O Estadão revela que há [só] 11 processos tramitando contra parlamentares ‘suspeitos’ de envolvimento no Mensalão; cinco do PT, quatro do PP, um do PFL e um do PL. Nenhuma palavra sobre o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG).Dessa loucura toda de 2,6 bilhões de reais só sobraram onze gatos pingados, dos quais a maioria, senão todos, serão absolvidos?Donde fica a dúvida: qual será a do deputado Osmar Serraglio, ao dizer que os que escaparem serão julgados nas urnas? Mero teatro é o que aparenta ser.

Porque indago ao leitor: você duvida que um Sarney, um ACM, um Luizinho e outras tantas figuras representantes do que há de mais vil na nossa política conseguirão um novo mandato em 2006?

Se ao menos nós, a sociedade, os excluídos – exceto na sacrossanta hora de votar – pudéssemos nos guiar pela filosofia de Dartagnan e seus companheiros, a mesmíssima dos expoentes máximos e mínimos dos três Poderes, poderíamos enfrentá-los, eis que somos maioria; eles lá são uma minoria representando a si mesmos e apaniguados.

O que falta para podermos bradar o lema dos três mosqueteiros?

Terça, 03 Janeiro 2006 21:00

Selvageria, Indiferença e Altruísmo

Ninguém encontrou uma fórmula melhor que o capitalismo, com todos os seus defeitos, que nada é perfeito, mas será que não há lugar para a solidariedade no mundo das finanças, que, ao que parece, é tudo o que importa?

O filme Hotel Ruanda, que me impressionou bastante. Não que ignorasse as barbáries cometidas todos os dias – apesar dos votos de ‘feliz ano novo’, a humanidade não muda, é tudo apenas mero simbolismo, necessidade psicológica de se imaginar que as coisas serão diferentes (e  elas podem e devem sê-lo); mas como é difícil mudar! Ou talvez não seja, nós é que somos resistentes às mudanças, negando-as, como se não fossem parte da vida, do processo evolutivo, talvez por medo do desconhecido.

Em 1994 um conflito político em Ruanda levou à morte de quase um milhão de pessoas em apenas cem dias. Sem apoio dos demais países, os ruandeses tiveram que buscar saídas em seu próprio cotidiano para sobreviver. Uma delas foi oferecida pelo gerente de um hotel, que aparece no filme- que narra um conflito étnico entre tutsis e hutus -  dando dinheiro a um oficial Tutsi, em troca da vida de reféns.

Diz a história que os belgas  - um povo civilizado, certo?- foram muito mais cruéis com o povo ruandês que os alemães. Mas por Deus, se aquelas pessoas pobres e ditas ignorantes daquele país africano são ‘primitivos’ mas não fazem mal aos outros – embora haja as guerras tribais, mas isto é um outro capítulo -, o que foram os belgas da colonização africana?

Ainda agora vem uma péssima notícia de fim de ano, vista como corriqueira pela sociedade só porque não é um Tsunami, uma novidade; apenas porque ocorre com o povo sudanês: vinte pessoas mortas porque tinham medo de voltar ao Sudão – desejavam ser exiladas nos EUA, ou Inglaterra, doce ilusão, sem ironia – uma tropa de choque evacuou com extrema violência um campo de sudaneses no Cairo, Egito.

É tão difícil assim compreender que têm medo? Muito medo? Quem viveu o massacre do Sudão, perpetrado pelas milícias Árabes Janjaweed sabe muito bem o que teme, e quem teve o “privilégio” de ser apenas espectador destas cenas através das páginas dos jornais, também sabe. Em menor grau, mas sabe muito bem, e deveria se indignar. Escrever, reclamar, recriminar; sim, recriminar com veemência a infeliz atitude da polícia egípcia.

Há cerca de três meses, o povo sudanês acampou naquele local, protestando contra a recusa da ONU- Organização das Nações Unidas em considerá-los refugiados, tão-somente porque houve um ‘acordo’ de paz que ‘terminou’ a guerra civil no Sudão. E alguém que foi perseguido e teve parentes assassinados palas milícias acredita em acordo de paz? Se não são refugiados, são o quê, exatamente? Cidadãos sudaneses com plenos direitos e alvo de respeito? A covardia foi perpetrada por dois mil policiais!

Essa gente ficou acampada no deserto; nada menos que dois milhões de pessoas na última refrega, no último massacre ocorrido em Darfur, naquele país. Ora, os seres humanos que têm cidadania sudanesa carregam na memória as cenas de uma guerra civil de longos 21 anos, mais ou menos um padrão nos países africanos.

As duas guerras  mundiais foram duras, mas relativamente breves – se breve pode ser considerado qualquer sofrimento – mas uma média de vinte e tantos anos na África é demais. Até aonde vai a minha longa ignorância, só a Colômbia supera em tempo de guerra civil os demais países:40 anos. E na relatividade do tempo, anos ou  dias são quase a mesma coisa, mas faz muita diferença para quem sofre.

Alguém ou alguma instituição tem de começar algum movimento pela redenção do sofrimento africano, haitiano,e de outros povos. Faz algum sentido, do ponto de vista humanitário, alguém concentrar bilhões de dólares enquanto outras pessoas passam as mais básicas necessidades?

Ninguém encontrou uma fórmula melhor que o capitalismo, com todos os seus defeitos, que nada é perfeito, mas será que não há lugar para a solidariedade no mundo das finanças, que, ao que parece, é tudo o que importa? Aonde chegaremos sem a ajuda ao próximo, o altruísmo? A uma sociedade, que, se sobreviver, será composta de uns tantos favorecidos, um círculo de pessoas, higienizado, longínquo, cujos lucros e produção serão realizados e sustentados por um bando de excluídos?

De onde virão os maravilhosos bônus anuais dos  executivos das companhias, que, rindo, comprarão mundos e fundos? E quem materialmente  proporcionou esta realidade, fica totalmente de fora?

É preciso pensar nos outros, como o fez Paul Rusesabagina (Don Cheadle), que foi gerente do hotel Milles Collines, localizado na capital de Ruanda. Contando apenas com sua coragem, Paul abrigou no hotel mais de 1200 pessoas durante o conflito, administrando uma situação literalmente caótica, com ônibus da Cruz vermelha chegando com  dezenas de crianças.

Só isso. Ou tudo isso. O que é um protesto junto à ONU, perto do que fez Paul Rusesabagina, lutando verbalmente contra um general ruandês corrupto, com inédita bravura? Conseguiremos um dia escapar de nosso egoísmo? Lograremos alcançar a nobreza de espírito de estender a mão não a mil, mas ao próximo? Já disse e repito: não há um caminho que salve a humanidade que não passe pelo altruísmo, pelo amor ao próximo.

Paul Rusesabagina, uma alma singular, vive hoje na Bélgica. Os rebeldes Tutsis deixaram para trás um milhão de mortos.

Quinta, 22 Dezembro 2005 21:00

Desencanto

Eu cansei, vou anular meus votos? Ao menos nos deputados, estaduais e federais, nos vereadores, e, dependendo dos candidatos, nos governadores e no presidente.

Passei uma semana sem escrever nenhum artigo; um tanto desiludido com tudo o que tem acontecido, como a absolvição do deputado Romeu Queiroz,  que abre um precedente para outros ‘perdões’; afinal, convencionou-se que caixa dois não é crime, desde que não praticado por nenhum de nós aqui da platéia.

Orestes Quércia, ex -governador de  São Paulo,a quem se atribui a frase: “quebrei o banco (Banespa) mas elegi o meu sucessor”, o hoje deputado federal Luiz Antônio Fleury Filho - é líder nas pesquisas para presidente”. É de estarrecer que este senhor seja o portador do ‘voto útil’, uma tremenda burrice.

Você elegeria um picareta qualquer para deputado federal? Pois os que absolveram Romeu Queiroz foram esmagadora absoluta: 250 colegas, enquanto 162 parlamentares votaram pela sua cassação; houve ainda oito votos em branco, um nulo e 22 abstenções.

É pouco para indigná-lo, leitor? Pois o Banco do Brasil recebe depósitos judiciais, em troca de uma  ridícula remuneração do capital – e quem perde é o usuário da Justiça – bancando,  em contrapartida, várias benesses a suas excelências – não generalizar. Já se noticia que o BB e o TJ -Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro  renovou o proveitoso ‘acordo’ até 2010!

Ora, que raio de país é este; melhor dizendo, que diabos de instituições temos, já que o Brasil é um país lindo,abençoado?

Um Executivo( governo federal, e muitos estaduais e municipais) que nada faz, mas que apregoa que nunca, desde Cabral, ninguém jamais fez tanto, nem foi mais honesto? Uma Justiça para a qual os séculos representam minutos, feita  para ricos, um Judiciário para apaniguados, ou pra quem ‘der mais’, no sentido de leilão(Caso BB)?

E no quesito eufemismos, então? O voto é um ‘direito’, mas é obrigatório. Alguém já viu  um direito de exercício compulsório? Em vários países europeus, o voto é facultativo; isto sim é um direito

Que legado deixaremos a nossos filhos e netos? Uma carrada de homens podres de caráter? Uma nação que só valoriza o poder e o dinheiro – sinônimos, por sinal- Erasmo de Rotterdam, em “de Pueris”, já enfatizava que muitas famílias cuidavam de deixar um bom legado material aos filhos, mas relaxavam na educação. E o que é uma sociedade sem educação?

Talvez façamos por merecer toda esta indignidade secular, somos acomodados, pagamos enquanto podemos, aceitamos que outros tenham aposentadorias milionárias enquanto recebemos uma miséria do INSS; pagamos, quietinhos, o colégio particular dos filhos, o convênio saúde, e quem pode, a segurança particular.

Ou nos acovardamos, nos acomodando e deixando a coisa ‘rolar’, ou nos erguemos e lutamos, sem armas, com o voto, nulo, de preferência, se não aparecer um candidato ‘decente’, que não prometa, mas  diga: “farei o possível e conto com vocês, eleitores”.

O brasileiro pobre não pode esperar mais uma eternidade para ter acesso decente à saúde, para ter dentes na boca; e uma dentição comprometida é potencial foco de infecção, a Endocardite e outras, enquanto se rouba às escâncaras.

Eu cansei, vou anular meus votos? Ao menos nos deputados, estaduais e federais, nos vereadores, e, dependendo dos candidatos, nos governadores e no presidente.

Poderíamos assim, quem sabe, exigir uma reforma política do jeito que desejamos, e não por honra da firma, para eliminar uma ou outra sinecura e manter muitas outras. Acabar com a imunidade parlamentar para crimes comuns, com o foro privilegiado para deputados?Com a prisão especial para quem tem curso superior e tem, de certa forma, mais condições de discernir entre certo e errado? Afinal, se todos são iguais perante a Lei, o que justifica, parafraseando George Orwell, que alguns sejam mais iguais que os outros?

Terça, 06 Dezembro 2005 21:00

Jornalismo Interativo

Jornalismo é comunicação e entendo este conceito como sendo uma via de mão dupla.

O jornalismo torna-se cada vez mais interativo, ou seja, os leitores participam da produção do jornal, seja sugerindo pautas, fazendo comentários em blogs ou escrevendo para as seções de cartas e reclamações – esta a forma mais antiga de participação.

No entanto, como articulista, poucos comentários recebo dos leitores, muitos dos quais, presumo, não se dão conta da importância de sua opinião e de uma eventual correção a um erro do artigo. Alguns colunistas e até mesmo o presidente do Supremo, Nelson Jobim, que está fazendo a maior antipropaganda eleitoral contra si, dizem- ou demonstram-, que não estão nem aí para o que a opinião alheia, e um colunista de revista disse que não se importa com o que pensam seus leitores, uma atitude que me parece pouco sábia, desrespeitosa com seu leitorado.

Todos têm como contribuir e nenhum colunista ou articulista é deus para se atribuir o monopólio da verdade.

Penso que todos os que permitem ou pedem que os veículos de comunicação publiquem seus endereços eletrônicos deveriam fazê-lo não com o intuito de aferir a repercussão de seus artigos, mas sim para manter um canal de comunicação com seus leitores.

Responder  uma mensagem é obrigação, um ato de consideração para com aquele que se deu ao trabalho de escrever ao colunista, criticando ou elogiando, e já senti na pele o desprezo de muitos jornalistas aos quais me dirigi, que sequer se deram ao trabalho de confirmar o recebimento.

Nesta semana de 4 de dezembro, um colunista desceu o pau em vários colegas e sequer poupou de críticas alguns jornais de grande confiabilidade. De nada serve este tipo de comentário e outras grosserias, como ofender o povo cuiabano, ao afirmar "Eu não dou palestras. Não se trata de um problema moral. É uma questão puramente financeira. Pelas minhas contas, não vale a pena. O dinheiro não compensa. Se alguém me oferece 10.000 reais para dar uma palestra em Cuiabá, penso imediatamente que eu aceitaria pagar 15. 000 reais para não ter de ir a Cuiabá. Fui um jovem muito ambicioso, sobretudo no campo literário. Minha maior ambição, hoje em dia, é jamais, em hipótese alguma, colocar os pés em Cuiabá."Veja nº 1.905 (de 18/5/05).

É preciso respeitar aqueles que defendem opiniões contrárias, e os que propagam mentiras podem ser criticados em público, sim, desde que com observações bem fundamentadas.

Como articulista, peço sempre que o editor publique meu endereço eletrônico (atualmente dois, por garantia) e asseguro aos leitores que desejarem me escrever que ninguém ficará sem resposta, a menos que o e-mail não chegue ao destino, o que não é incomum. Se não obtiverem resposta, por favor insistam, pois certamente será problema da Internet ou do provedor. Pode acontecer também de este que vos escreve estar adoentado, mas se o e-mail chegar a resposta será enviada.

Dos poucos e-mails que recebo, leio introduções como ‘ desculpe-me tomar seu precioso tempo, mas...’. Ora, o tempo do leitor também é precioso e não há nada que me deixe mais feliz do que receber uma mensagem, seja de crítica, seja uma correção, uma dúvida, etc.

Jornalismo é comunicação e entendo este conceito como sendo uma via de mão dupla. Ninguém é tão ocupado que não possa responder a um leitor. Faço apenas um reparo: o endereço eletrônico publicado é exclusivamente dedicado aos leitores e utilizá-lo para mandar mensagens de propaganda é um ato deplorável; há meios menos cômodos e mais eficazes de se trabalhar com vendas. Todo e-mail de propaganda que recebo vai direto para o lixo, e tenho recebido ofertas de ‘cirurgia plástica’ disfarçadas de email pessoal, e até de garotas de programa. Os de plástica, encaminho diretamente para o Conselho Federal de Medicina.

Quinta, 01 Dezembro 2005 21:00

Até 2015

José Dirceu deveria estar grato; fosse Cuba o palco de sua cassação ou do julgamento das acusações que sobre si pesam, estaria correndo o seríissimo risco de ir parar numa daquelas masmorras em que Fidel abriga seus presos políticos.

Os deputados compareceram em peso à votação da cassação do deputado José Dirceu, o que confere legitimidade à votação, levada a cabo por 495 parlamentares numa sessão concorridíssima, líder de audiência. Dirceu disse não temer o julgamento por seus pares, então não haverá de se fazer de vítima- se optar pela coerência-; nada poderá alegar após ter recorrido inúmeras vezes ao Supremo Tribunal Federal, de cujos membros pode-se dizer que alguns o defenderam com unhas e dentes.

Não seria de se esperar menos daquele que se lambuzou no poder, chegando a dizer que só dividiria o poder entre o 'José' e o 'Dirceu'. Transformou seu processo de cassação num acontecimento nacional, seja pelas sucessivas apelações ao Supremo, seja pelo seu périplo em busca de apoios entre seus pares. Teve o apoio de artistas, e até um apaixonado artigo em sua defesa, de autoria do escritor Fernado de Morais, publicado na Folha de S. Paulo em 30/11/05. Além dele, outros 'notáveis' subscreveram uma lista em seu apoio.

Opiniões à parte, o que conta é o processo democrático que resultou na cassação do mandato daquele que, exageradamente, disse ter contribuído para o processo de redemocratização brasileiro, quando todos sabem que o ex-guerrilheiro defendeu a luta armada contra o regime militar, sem apoio da sociedade.

Podemos dizer, de certa forma aliviados: até 2015, José Dirceu, queira Deus que os oito anos de cassação de seus direitos políticos lhes sejam proveitosos, para que aprenda com a adversidade o exercício da humildade, sem o qual nenhum ator da cena política conseguirá conquistar apoio legítimo da população. Sempre é possível mudar, e pessoas sensatas estarão dispostas a perdoar, desde que o arrependimento seja sincero.

José Dirceu deveria estar grato; fosse Cuba o palco de sua cassação ou do julgamento das acusações que sobre si pesam, estaria correndo o seríissimo risco de ir parar numa daquelas masmorras em que Fidel abriga seus presos políticos.

Dirceu consegiu fazer de seu processo de cassação um acontecimento, fez muito, muito barulho, como é de seu estilo, deixou a nação em suspense mas se esqueceu de um detalhe fundamental: sendo sua cassação mais do que esperada e tendo tido como poucos o direto de amplíssima defesa assegurado, o Congresso, seus pares, cuja reputação geral já não é das melhores, não poderia ir conta os anseio da sociedade, que muito bem sabe de seus feitos.

Aqui, terá direto, além deste julgamento político(claro) que resultou em sua cassação, a um processo judicial onde eventualmente será julgado por ilícitos variados cometidos, segundo o relatório do deputado Júlio Delgado, no exercício de seu mandato, que não ficou suspenso durante sua atuação na chefia da Casa Civil. Reduzido à condição de 'cidadão comum', como nós todos,

não poderá mais contar com a parcialidade e solicitude do Supremo Tribunal Federal.

Dirceu disse que 'não vou assumir o que não fiz'. A maioria dos acusados também não o faz, e isto não é o que importa, e sim o julgamento de seus pares, que reiterou não temer. Quem vai indicar e decidir o que fez ou deixou de fazer serão o Ministério Público, as investigações policiais, e, finalmente, a Justiça.

Reiterando, dê o finalmente ex-deputado graças aos céus pelo fato de não ter cometido seus desmandos lá onde deixou seu coração, sua segunda pátria, a Cuba de Fidel.

Despido da condição de mito, de semideus expulso do Olimpo, cabe dizer-lhe: bem-vindo ao mundo dos comuns.

Ate 2015, José Dirceu de Oliveira e Silva; infelizmente para você, não foi possível implantar nesta terra de liberdade o seu projeto de poder, que fatalmente desembocaria numa ditadura; a salvação de seu mandato teria sido uma afronta a tantos quantos fizeram deste país uma nação livre, embora ainda tenhamos um longo caminho pela frente na luta contra os abusos, tão desavergonhadamente perpetrados quase diariamente pelos três Poderes, que merecem uma profunda reestruturação, para que seus integrantes aprendam, ou se lembrem, de que são servidores públicos, devendo agir sempre como advogados da causa pública, da coisa pública, a República, a res publica.

Por 293 contra 192, e apenas oito abstenções e um voto branco, José Dirceu de Oliveira e Silva encerra sua carreira política, à 1h23minutos de 1 de dezembro de 2005. Até 2015.

Sábado, 19 Novembro 2005 21:00

Oposição Sistemática, Quando Convém

Criticar por criticar, se opor por mero diletantismo são atitudes egoístas. É preciso reconhecer quando o governo faz algo de bom, ou tenta fazer.

As oposições ao governo no parlamento vinham sendo reconhecidas como responsáveis ou mais bem-comportadas que a o oposição sistemática que fazia o PT quando o partido ainda não estava no poder, especialmente em relação ao governo FHC, um comportamento pelo qual já se penitenciaram José Dirceu e, mais recentemente, o ministro Antonio Palocci.

Na verdade, os políticos que fazem contraponto ao Executivo agem ao sabor de suas conveniências, sendo passivos ou mesmo coniventes quando se trata de tentar encurtar a duração da CPI dos Correios, que, após uma luta ou uma encenação, foi prorrogada para abril de 2006, mas já sofre ameaças de terminar antes, em fevereiro.

Isto porque a muitíssimos não interessa o aprofundamento das investigações em certas direções; vale dizer, a verdade é que as três CPIs sempre foram um incômodo para todos os partidos, aliás, um inconveniente suprapartidário, que se estende para além dos limites do planalto e da planície.

No caso da falta de quórum no Senado para a votação da Medida Provisória 285, que criaria formamente a Receita Federal do Brasil, uma fusão da Secretaria da Receita Federal com a Secretaria da Receita Previdenciária (INSS), cujo resultado seria um enorme ganho de eficácia na fiscalização e combate à sonegação, com o conseqüente ganho de arrecadação, as oposições, sob a batuta do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), o ACM, jogaram contra a nação, exatamente como de maneira irresponsável fazia o PT.

Criticar por criticar, se opor por mero diletantismo são atitudes egoístas. É preciso reconhecer quando o governo faz algo de bom, ou tenta fazer. Tem razão o senador Aloízio Mercadante ao afirmar que '[a não-votação da MP] foi uma derrota do país'. Mas ACM não a teria imposto sozinho,

se tivéssemos uma maioria de parlamentares escorreitos, dignos, que pensassem no Brasil e não fizessem esse jogo mesquinho, política de quinta categoria, patrocinada também pelo presidente do senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), desta vez com a sempre altissonante voz do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) a lhe fazer coro.

O ministro da previdência, Nélson Machado, afirmou que a derrota – nossa derrota, caro leitor – foi por falta de 'vontade política'. Não foi não. Em bom português, foi pura sacanagem mesmo.'Vontade política' é uma expressão vazia, não significa coisa alguma.Suas excelências tiveram 120 dias, quatro meses inteiros para votar a MP, e à undécima hora, nada fizeram, mediante o tacanho artifício da falta de quórum.

Toda a estrutura da Super Receita terá de ser desfeita, a menos que se consiga votar o agora projeto de lei em caráter de urgência.O treinamento de mil novos auditores fiscais que consumiu R$3 milhões virou (mais) um desperdício por culpa do Senado. Mas não só dele: os auditores e técnicos da Receita Federal estão em greve contra a criação do novo órgão desde julho, e até uma Federação das Indústrias se opõe, além, é claro, daquela parte do empresariado que não se compraz em honrar suas obrigações com o fisco.

Como é difícil lutar contra a força dos velhos políticos como ACM, Sarney, ou de outros não tão velhos, como Renan Calheiros, aliados aos interesses de gente que, como eles, só pensam em si!

Todos pagamos a conta, é verdade, mas ela sai mais cara para as parcelas mais carentes da população, que dependem tanto dos serviços públicos mais básicos, que podem melhorar, entre outras medidas, com o aumento de receita através do combate à sonegação.Por ironia, são justamente os estratos mais desassistidos da sociedade que elegem estes políticos. Trocando em miúdos, os mais pobres tornam-se, pelo(mau) voto, seus próprios algozes.

Enquanto pessoas assim continuarem sendo eleitas e reeleitas, a nação permanecerá refém da mediocridade, com todos aceitando como algo natural, meio que conformados, o fato de terem de pagar escola e saúde particulares quando trabalham mais de quatro meses por ano para pagar impostos que chegam ao absurdo de quase 38% do PIB (tudo aquilo que é produzido) do país.

Desta vez o governo não comprou os votos do Parlamento e perdeu, e nós fomos prejudicados. As oposições, quando não se vendem, no mais das vezes, votam não só contra o governo, mas neste caso da MP, contra toda a sociedade.E se não representam quem os elegeu, perdem a legitimidade, mas não se importam com isso, pois sabem que embora estejam despidos perante uma parte do eleitorado, têm consciência de que esta é ínfima diante daquela outra que não tem instrução para se informar adequadamente.

Arquivemos quaisquer ilusões a respeito de mudanças a curto prazo. Na opinião do renomado jurista Miguel Reale, 'o processo passa pela educação, pelo incutir o conceito de cidadania e a importância da política nas cabeças dos estudantes a partir do ensino médio; e por que não, pelo uso da televisão, que é concessão do Estado, para politizar e ensinar noções básicas sobre o tema à população em geral'.

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