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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Segunda, 02 Outubro 2006 21:00

Garrinhas de Fora

Para os fundamentalistas, a separação entre igreja e estado atenta contra os princípios da própria liberdade dos povos em manter sua fé e cultura.
Em The Common What?, Paul Hein critica a noção de bem comum. Afinal, o que é um “bem comum”, o que é um “bem” e o que é “comum”? Por outro lado, o que não é incomum é vermos religiosos proferindo suas visões mal acabadas sobre economia, definitivamente se metendo em seara que não são lá muito afeitos. Podem começar a falar da Natureza (“que Deus nos deu...”) para, tranquilamente, sem remorso ou preocupação conceitual alguma, se iniciarem a comentar sobre o emprego, a segurança, a Globalização etc. Mas, para consumidores de automóveis japoneses ou alemães, o “bem comum” pode ser, contrariamente ao que pensam pastores, baixos tributos, redução de tarifas alfandegárias por exemplo. Para o dono de um boteco, consumo livre de fumo e bebida. O maior bem comum não é o que pensam os burocratas no comércio externo, assistentes sociais ou funcionários do serviço de saúde, mas o livre-arbítrio.
 
Analogamente, no Brasil a Teologia da Libertação se espalhou como praga na lavoura. Um exemplo de que é, hoje no Brasil, a influência religiosa na política e sua aproximação ao estado, conceitos como “luta de classes”, introduzidos em sua leitura do evangelho não são mera “manipulação externa”, são manifestações de um tipo de religioso semeado nos próprios solos latino-americanos, tão férteis na produção de caudilhos que também os complementam com vozes messiânicas. A crença de que o pobre é pobre por que há riqueza, que a propriedade privada e a livre iniciativa são coisas do demônio etc. É uma adaptação do jogo de soma zero às escrituras.
 
Isto não veio do nada, não veio recentemente através de um partido, do Foro de São Paulo etc. Como o pontua Augusto Zimmermann, em 1950 a Ação Católica Brasileira (ACB) já abraçava o marxismo com a intenção de abolir a Constituição de 1946, cujo líder, um franciscano chamado Thomas Cardonnel advogava o conceito de “desordem estabelecida” que denunciava a falsidade de uma paz social baseada em uma “injustiça natural”.
 
A similaridade entre a retórica light de bens comuns e o espírito revolucionário que atenta contra o mercado é uma diferença de grau, não de princípio. E muito embora esta percepção possa partir igualmente de ateus que endossem valores similares a determinadas crenças religiosas (naturalismo, pacifismo, igualitarismo) é notório que as militâncias religiosas ligadas à Teologia da Libertação sejam as principais multiplicadoras do anti-capitalismo latino-americano.
 
A religião neste caso é mais funcional que uma ideologia atéia. Ela serve como expressão de identidade cultural, tal como se vê no Islã. E, apesar de toda defesa que antropólogos possam fazer de outras culturas, ao admitirmos o respeito às outras culturas de modo irrestrito, significa fecharmos os olhos para atrocidades como a que muitas mulheres muçulmanas são acometidas. Em alguns casos, o “meio termo” simplesmente não é possível.[1] Uma coisa é usar o véu de livre e espontânea vontade que, sabemos, não é o que ocorre. Outra, que é o que ocorre, é levar uma chuva de pedradas de alguma “polícia moral”, caso seu tornozelo fique exposto.
 
Mesmo em sociedades ocidentais, o perigo emerge, especialmente após episódios como o 11/09 nos EUA, quando fundamentalistas cristãos aproveitam o expediente para “equilibrar suas forças” com o fundamentalismo muçulmano. Assim, estamos assistindo ao recrudescimento de teocracias (ou mesmo, regimes constitucionais com maior peso de igrejas) no seio do mundo civilizado, em nossas sociedades abertas.
 
Para os fundamentalistas, a separação entre igreja e estado atenta contra os princípios da própria liberdade dos povos em manter sua fé e cultura. O fato de que os religiosos americanos justifiquem sua posição, devido aos governos americanos apoiarem os Dez Mandamentos não pode justificar, por exemplo, a discriminação contra outras religiões. A tão propalada cultura ocidental, ao defender a liberdade de culto não é, eminentemente, cristã. É muito mais do que isto, é uma democracia liberal.
 
Qual é o temor? Ele reside em uma visão de dês-cristianização do Ocidente. Qualquer imoralidade política é vista como perda das “bases cristãs da sociedade”. Como se não houvesse corrupção de religiosos... Se a corrupção não é maior entre eles, isto só ocorre por que sua ordem religiosa não é (ainda) um sistema de poder hegemônico. Mas, qualquer sistema que não esteja sujeito às mudanças através do sufrágio universal institucionaliza o roubo em um sistema mais ou menos autoritário. Ou alguém crê que uma teocracia é “mais santa” que uma democracia?
 
A secularização da sociedade não é, exclusivamente, uma dês-cristianização mas, mais do que isto, uma dês-religiosização da mesma em sua processualidade política. Ao mesmo tempo em que ocorre a secularização, novas fés e dogmas são assegurados aos crentes, sejam eles budistas, muçulmanos e também, por que não?, cristãos. O que é eliminado não é a religião do cenário cultural, mas sim o favoritismo de uma única religião. E este não beneficia a própria liberdade de culto. Ou admitimos isto ou ao falarmos que a “cultura ocidental” é, essencialmente, cristã endossaremos o fato de que cristãos devem ser, em nossas sociedades, “cidadãos de primeira classe”.
 
Acho maravilhoso sim, que nosso modelo social comporte o maior número possível de religiões. Só assim teremos uma espécie de “competição pela fé”. Analisemos o caso judaico que, devido justamente ao primor que esta cultura tem pela educação, em que pese o fato dos judeus serem historicamente desfavorecidos, em que pese toda a adversidade que enfrentaram e enfrentam alhures, têm se notabilizado por sua grande contribuição à humanidade através da produção científica, do conhecimento. Isto não foi dado por nenhum estado. Pelo contrário, os estados é que se beneficiaram deles e se há algum mérito destes, foi permitir o desenvolvimento de uma cultura particular sem intrometer-se em seus negócios. E vice-versa.
 


[1] Creio que há uma confusão sobre o direito à expressão cultural e preservação da própria identidade com a adoção de um modelo ocidental, liberal e democrático. A questão não exposta é quem escolhe, quem decide adotar este ou aquele modelo cultural? Uma corrente afirmativa da antropologia conhecida como “antropólogos da ação” endossam que os “direitos culturais”, “direitos étnicos” etc. têm que ser preservados da ameaça da globalização, ocidental, massificante. Mas, quem decide isto? Intelectuais sediados em metrópoles de I Mundo? Cidadãos “politicamente corretos” que, efusivamente, rejeitam qualquer interferência nos outros países, mas que não vêem como a dita “preservação cultural” significa, na prática, a tortura e repressão sistemática a um sexo, como no caso islâmico. Se realmente defendem o isolacionismo cultural, é um direito seu, mas que não venham falar que advogam “direitos humanos”. Se o fizerem, não passam de hipócritas. Tais antropólogos defendem sim, no caso do Islã, única e exclusivamente o direito masculino.
Domingo, 10 Setembro 2006 21:00

Enem "Tô Aí!"

Quando vi que acusaram a última prova do Enem, em que participaram 3,7 milhões de inscritos, de exagerar na geografia, pensei que algo bom tinha acontecido. Não pela valorização da disciplina que ensino, pois não suporto o corporativismo acadêmico, mas sim pela possibilidade de serem feitas diversas relações entre outras matérias que aquele campo de conhecimento enseja.
Quando vi que acusaram a última prova do Enem, em que participaram 3,7 milhões de inscritos, de exagerar na geografia, pensei que algo bom tinha acontecido. Não pela valorização da disciplina que ensino, pois não suporto o corporativismo acadêmico, mas sim pela possibilidade de serem feitas diversas relações entre outras matérias que aquele campo de conhecimento enseja. Em suma, por uma prova, ao menos, potencialmente inteligente.
 Se utilizarmos como critério o grau de dificuldade na resolução das questões, a prova em questão pode ser considerada boa. Mas, se avaliarmos seu teor, ela não passou de uma droga de doutrinação ideológica. E eu estaria mentindo se dissesse que não esperava por isto... Enfim, mais uma prova e mais um caso de sofisma sistemático tentando se passar por “ciência” aplicada à educação. Apesar disto me fornecer “pano para manga”, sou obrigado a pagar um preço pelo tom repetitivo de minhas freqüentes críticas ao conteúdo de geografia nos vestibulares. Ossos do ofício... 
O caso do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) me parece ainda pior do que os vestibulares tradicionais, pois visa a definição de “competências” em que o candidato a uma vaga na universidade tem por avaliação:
 ENEM – COMPETÊNCIAS 
I.          Dominar a norma culta da Língua Portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e científica. 
II.       Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.  
III.     Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema.  

IV.    
Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente.

.       Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Documento Básico em http://www.inep.gov.br/basica/enem/publicacoes/ 

Com exceção da primeira, que me parece de necessidade óbvia (para vestibulandos, não para presidentes), as outras subentendem exatamente o quê? O que é um “processo histórico-geográfico” na cabeça de um marxista? O que é uma “situação problema” na cabeça de um militante anti-Davos ou anti-Globalização? Definamos uma “situação concreta” frequentemente lembrada em provas deste tipo, a desigualdade social, para a partir de então “relacionar informações”. Leia-se associar a desigualdade ao capitalismo, não importando quantos tipos de capitalismo existam ou o peso do estado em cada sociedade específica. Já, associar a desigualdade extrema encontrada nos casos africanos poderia implicar em acusações de preconceito, nesses tempos em que citar África só se for para louvar nossas “raízes”. Desigualdade na África? Para nossos professores universitários, tudo foi culpa do colonialismo europeu. Nada que se possa relacionar ao quadro cultural endógeno, onde mesmo hoje em dia, um governo como a da Mauritânia é acusado de fazer vistas grossas a escravidão. A análise da cultura, mais do que a economia, ou dos “modos de produção”, já seria Weber e a maioria dos “geógrafos” apenas leu as orelhas de alguma edição d’O Capital. Ou se limitou aos artigos de Emir Sader...
 
O que significa, precisamente, “elaborar propostas de intervenção solidária”? Solidária com quem, cara-pálida? Com o cidadão, genericamente, falando, o que eu aprovo. Ou solidária com o operariado, ensejando que venha a ser uma “classe para si”, na terminologia marxiana? Ou com os povos “oprimidos” por um injusto sistema de trocas internacionais, mesmo que às expensas de uma congênita corrupção e paquidérmica carga tributária? O que significa “considerar a diversidade sociocultural”? Defender minorias culturais advogando um “direito alternativo” no qual o Direito individual, o próprio Direito Civil seja relativizado?
 
Tudo isto passa, subrepticiamente, sem consideração e explicitação.
 
Deixando de lado a total vaguidade que estes itens subscrevem, a “habilidade” número 8 subseqüente dá o tom necessário ao aluno:

Analisar criticamente, de forma qualitativa ou quantitativa, as implicações ambientais, sociais e econômicas dos processos de utilização dos recursos naturais, materiais ou energéticos.

Documento Básico (idem) 

A inter-relação entre vários fenômenos tem que ser feita “criticamente”, leia-se criticando a ordem sócio-econômica vigente. Nada além de clichês marxistas temperados por terceiro-mundismo, como de praxe. Nesta inter-relação, os “estudos” das chamadas “humanidades”, tradicionais antros da militância que tem Cuba como parâmetro de sistema a ser seguido pelos “povos oprimidos”, são “legitimados” por questões de parceria com matemática, física, química, biologia... Assim, posso tranquilamente “empurrar” para um aluno que o aquecimento global é inexorável devido a uma correlação de variáveis que, interessadamente, eu selecionei. E, de bônus, ainda coloco alguma notícia ou artigo de imprensa extraído de uma Caros Amigos ou Carta Capital “provando” que os EUA são os grandes culpados pelo caos ambiental. Ainda, por mera inferência tendenciosa, posso “provar” por A + B que o furacão Katrina foi conseqüência lógica do atual governo Bush. Simples assim é que se faz uma prova do Enem.
 
Questões sobre aquecimento global e suas “inevitáveis” conseqüências eram, inevitáveis sim, de acordo com a ideologia incutida sistematicamente por nosso professorado. Mesmo que o Painel Inter-Governamental para Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU, feito a cada sete anos, aponte vários cenários futuros possíveis, somente os ruins a péssimos são utilizados como recursos para análise na prova. Vivemos tempos de verdadeira “pornografia climática”, em que órgãos governamentais e mídia só falam em meio ambiente com matizes catastrofistas. Não se dão ênfase às propostas práticas que levem a gestão racional dos recursos, mas tão somente ao mais tosco alarmismo, contraditório, caótico e confuso. Claro está que uma miríade de ONGs ambientalistas vêem nisto um campo fértil para disseminar o medo em parceria com governos nacionais, tanto do chamado primeiro mundo quanto nos países em desenvolvimento.[1]
 
E se em torno de assuntos ambientais e realidade física, natural já é possível deturpar conteúdos que deveriam ser eticamente ministrados, quanto mais nas chamadas “ciências sociais”. Foi isto que se viu na questão sobre as transformações políticas da Europa Oriental:
 

 
Pois bem, qualquer pessoa relativamente informada, assinalaria o item “C”. A única ressalva que se pode fazer é que o primeiro mapa não é pré-Segunda Guerra e, uma vez que a escolha depende deles, aí estaria uma condição para a resposta. No entanto, mesmo com tal “pegadinha”, a morte do general Tito e a mão de ferro com que dirigia o partido comunista, as antigas dissensões entre os diversos grupos étnicos e nacionalidades, reprimidas durante as décadas de socialismo puderam aflorar novamente, resultando no mapa fragmentado que temos hoje. Seja de forma violenta como na antiga Iugoslávia, seja pacífica, como se viu na então Tchecoslováquia que resolveu suas diferenças através de um plebiscito nacional. Mas não, o gabarito oficial é “D”... Sim, invertendo totalmente causa e efeito, foi o capitalismo e seu espectro ideológico neoliberal que causaram a onda de secessão, embora tais inexistissem há décadas nos Bálcãs. Não importa que as populações locais nem soubessem do que se trata o capitalismo, quanto mais sua versão liberalizante, ele estava presente em espírito. Assim vaticinam nossos “criativos” professores universitários que, “cientificamente” conseguiram inverter a cronologia da História. Das duas uma: ou o marxismo é uma droga alucinógena ou nossos professores exageram na cachaça.
 
Note-se ainda a péssima cartografia apresentada, particularmente Hungria e Romênia. Mas, o que é uma linha de fronteira para quem deturpa toda a História?
 
Outra coisa que não entendo é a contraditoriedade dos que elaboram tais questões. Sempre dizem que natureza e sociedade não devem ser analisados separadamente, que há inter-relações constantes, que a humanidade afeta cada vez mais o meio ambiente gerando uma crise sem precedentes, que é necessário entendermos o mundo de forma holística e blá-blá-blá. Mas, quando não interessa, quando não é conveniente faz-se uma análise tópica e parcial dessa mesma realidade. Foi isto que se viu na questão sobre o cacau no sul da Bahia:
 

 
Mesmo que o plantio pudesse, naturalmente, levar a disseminação da praga vassoura-de-bruxa entre o cacau, nada, nenhuma palavra sobre a ação criminosa, intencional feita por petistas, como é de conhecimento público. É como se, fosse algo resultante da agricultura intensiva. Culpa, lógico, do capitalismo na agricultura. É esta, em suma, a tônica da resposta “B”. Ora, qualquer cultura convencional em que procura se maximizar a produtividade do plantio deveria, portanto, levar a disseminação de pragas, pois até onde sei, o cultivo em série é padrão. Imagine a seguinte alternativa para a questão acima:
 
"Que a única forma de tomar o poder na região cacaueira era enfraquecer economicamente os produtores de cacau".
 
Ou...
 
"Que a melhor forma de enfraquecer e quebrar o poder econômico dos produtores de cacau era a introdução e disseminação da vassoura-de-bruxa na região para o PT tomar conta".

http://www2.uol.com.br/aregiao/serv/denuncia-timoteo.html

Como tal resposta poderia não agradar ao professor militante, aceite a mistificação. Se quiser conquistar uma vaga na universidade pública e “gratuita”, acate a doutrinação ideológica de experts goebbelianos que já a exigem como pré-requisito há um bom tempo.

A satanização do capital é condição necessária para a ideologização marxista do ensino (não somente público, mas também privado). Em tudo deve haver “explorados” e “exploradores”, “oprimidos” e “opressores”. O que grassa no conteúdo é trazido para as relações entre professores e alunos, para a própria sala de aula. Trata-se de uma ética anti-Capital, anti-Civilização que já se tornou norma não apenas no conteúdo e programa curriculares, mas da própria interação entre profissionais de ensino com seu público. Perto disto tudo, uma pedrada no rosto de uma professora é um sintoma de todo um sistema que já deixou não só o compromisso profissional, mas o próprio código de convivência civil na lata do lixo da História. Graças ao Estatuto da Criança e do Adolescente estamos formando marginais com o aval da mais moderna e comprometida pedagogia.
 
Aliás, a “pedagogia do oprimido” serve, explicitamente, para oprimir a moral, tida como opressora pelos revolucionários. Para imorais, que não estão nem aí, longa vida ao Enem!

[1] Prepare-se leitor para começar a “se coçar” e financiar, sem nenhuma chance de apelo, uma miríade de ONGs que serão isentas de prestar contas à sociedade civil através do “imposto de renda ecológico”. Cf.

http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=26529  

Pelo visto, esteimposto “ecológico” peca em não considerar a extinção da “espécie contribuinte” em seu ecossistema de hipocrisia.  

Portanto, nem tudo que é natural é necessariamente melhor. Mesmo por que o que é chamado de “natural” faz parte de uma evolução induzida na maioria dos casos e, muitas vezes, superada tecnologicamente.
Um conceito bastante vago, adotado pelos ambientalistas, é o de “superpopulação”. Vago por que o que é super? Algo demais? O Japão tem uma população próxima a de Bangladesh e não apresenta problemas como este país. Pelo contrário, os japoneses são muito bem providos em suas necessidades e a tecnologia nipônica, igualmente bem adaptada ao seu meio.[1]
 
Isto confunde muito os leitores, mesmo os com critérios liberais-econômicos, pois quando a população é tratada como mero recurso se esquece que é formada por gente, de pessoas. Esta visão torpe os aproxima dos próprios opositores desenvolvimentistas que costumam louvar as benesses do controle de natalidade como se fosse uma panacéia, o que é na verdade uma Caixa de Pandora. Separar o joio do trigo faz bem. O que ocorreu na China é um bom exemplo disto. O controle (coerção) estatal em que cada casal possa ter apenas um filho levou à preferência por homens, sobretudo na zona rural (melhores como “burros de carga”). Como conseqüência, nos anos 80 para cada 100 mulheres havia 118 homens. Sombrio... Hoje em dia, o estado chinês tenta driblar esta tendência, inclusive coibir o infanticídio feminino, não revelando o sexo em exames pré-natais.
 
Uma proposta liberal, por seu turno, permite o consciente planejamento familiar que só pode merecer desaprovação mediante algum dogma religioso. Enquanto que o controle de natalidade parte de premissas socialistas e totalitárias, o planejamento familiar parte do liberalismo, decidido e escolhido pelos próprios progenitores e que tem como subproduto desejável, não ter que recorrer ao aborto. Digo isto, pois o argumento liberal-econômico não pode prescindir de outro, liberal-moral em que o próprio agente de interesse, o ser humano, não seja um mero recurso, mas fim em si mesmo, i.e., dotado de meios necessários para atingir seu próprio bem-estar. E qual é o maior bem-estar se não aquele condizente ao princípio de liberdade?
 
Um modo mais inteligente de se conceituar “superpopulação” não é por seus números absolutos, mas por sua distribuição. Uma das maneiras consiste em distinguir o que é zona urbana de rural. Mas, cuidado! Mesmo aí tem maracutaia! Ocorre que muitas vezes se chama algo de “urbano” pela simples conveniência de criar mais municípios e com isto, ampliar a rede de dependência dos governos estaduais na geração de empregos públicos e seus subprodutos indesejáveis como clientelismo, fisiologismo, nepotismo etc. Esta “mania” não é exclusividade nossa, mas também de outros países latino-americanos que definem “cidade” como um amontoado de favelas e submoradias semi-rurais sem infra-estrutura básica.[2] No Brasil do IBGE somos 80% urbanos, mais que nos EUA! Com este recurso quantitativista, professores ensinam aos alunos que já temos nossas “cidades globais”, simplesmente por que estão conectadas ao mercado mundial e têm filiais de multinacionais. É compadre... Analise o que seu filho anda estudando por aí. No Brasil do IBGE somos 80% urbanos, mais que nos EUA! Com este recurso quantitativista, professores ensinam aos alunos que já temos nossas “cidades globais”, simplesmente por que estão conectadas ao mercado mundial e têm filiais de multinacionais. É compadre... Analise o que seu filho anda estudando por aí.
 
O vício de citar números sem a menor consideração sobre as premissas de seus levantamentos tem respaldo entre ambientalistas e nacionalistas-estatistas. Refiro-me aqui aos “nacionalistas” que louvam o subsolo e deploram os “macacos pelados” que o pisam. A matriz teórica de ambos é a mesma, não passa de um desprezo e ignorância sobre o capital cultural e uma apologia à “mãe natureza” tão somente.
 
Um exemplo caro aos dois consiste no senso comum sobre a economia restrita a extração de matérias-primas, a mera retirada de recursos do subsolo. Em um passe de mágica, de verdadeiro fetichismo econômico, tomamos o extrativismo como cabeça de ponte da geração de riqueza. O que é problema vira “solução econômica” já que tudo não passa de uma questão de “conservação de recursos”. Esta chaga, a de não beneficiar nossos produtos, enviando-os em estado bruto decorre de outra: quanto mais beneficiado o produto, mais imposto se paga.
 
O que pode haver de “sustentável” no simples extrativismo? Nada. Portanto, nada mais conveniente a ambientalistas tomarem extrativismo como sinônimo de economia capitalista aplicada à natureza. Sua visão de “sustentabilidade”, econômica e ambiental, a primeira de ciclo curto e a segunda de uma utopia de produtores de subsistência não passam de uma distorção.
 
Exemplos desta tática deturpadora como a tradicional poluição de mercúrio nos rios, embora já exista métodos de evitá-la, são recorrentes. Assim, explorar pedras preciosas e semi-preciosas na Amazônia não deveria ser um problema enquanto tal. Tais mistificadores criam um “problema”, enquanto se trata de uma situação que já tem soluções.
 
A ignorância é mimetizadora. Vocês já devem ter ouvido ambientalistas e “nacionalistas” defenderem, paranoicamente, nossas riquezas naturais, especialmente as amazônicas. E ainda com a seqüência de que nossa dívida externa não passa de um expediente para tomá-la de nós, sendo este o objetivo último de los gringos! Quanto às riquezas inexploradas na Amazônia brasileira, bem sei eu que são  potencialmente enormes, mas dentro do que se conhece, é exagero supor que dêem para pagar a dívida externa. Mesmo por que, quanto mais se explora, mais cai o valor da matéria-prima, ao passo que os juros da dívida têm efeito inverso. Se o fossem, seria estúpida uma proposta de penhora da Amazônia, uma vez que as possibilidades de ganhos futuras com a sintetização de seus produtos seriam ainda maiores. Pior vai ser quando propuserem o mesmo para pagamento da dívida pública gerada pela gastança estatal, cujo financiamento é mais caro que o da dívida externa.
 
Mas, diriam nossos “defensores geológicos”, “o país perde com o contrabando, com a biopirataria, com as privatizações”... E continuaremos assim, enquanto existir a atual obstrução burocrática e carga tributária que incidem sobre os empreendimentos, sem contar que privatização não tem nada a ver com contrabando. Isto é sofisma de nacional-desenvolvimentista de outrora reciclado pelo ambientalista de hoje. É a atual legislação que atrapalha. Ao invés da sede por “mais legislação”, temos que desenvolver facilidades na legislação. Seria mais conveniente se perguntar por que as reservas indígenas de muitas regiões já exploram seus recursos e de forma altamente predatória, senão pelo fato de que com um estado hipertrofiado e inepto como o nosso, a própria sociedade cria suas regras e métodos. Contrabando e ilegalidade não são causa, mas conseqüência em um sistema político e econômico, este sim, insustentável. senão pelo fato de que com um estado hipertrofiado e inepto como o nosso, a própria sociedade cria suas regras e métodos. .
 
Sustentabilidade deveria ser encarada como viabilidade de longo prazo, coincidindo necessidades de mercado com reprodução ambiental. Uma prova disto pode ser encontrada na atividade madeireira legalizada. Justamente, a idéia de se aproveitar o reflorestamento ou mesmo o simples florestamento (introdução de florestas onde não havia vegetação superior) para evitar o desmatamento irracional de uma biodiversidade amazônica, potencialmente mais lucrativa com fármacos entre outros. Creio na sensatez de equilibrar a idéia de economia de mercado com o ambientalismo cético e de resultados. Neste sentido, sou realmente fã do eucalipto, esta “planta high tech” que se adapta a ambientes áridos. Ele possui alelopatia, i.e., ele puxa água quando não tem, quando não há, ele sobrevive com pouca.
 
Portanto, nem tudo que é natural é necessariamente melhor. Mesmo por que o que é chamado de “natural” faz parte de uma evolução induzida na maioria dos casos e, muitas vezes, superada tecnologicamente. O mesmo princípio que norteou avanços de outrora que, hoje é defendido pelos ambientalistas é o que move as inovações hoje contestadas e rejeitadas in limine. Um exemplo que nossos ambientalistas ludditas desconhecem é que os produtos orgânicos têm alto risco. Vocês já imaginaram qual o grau de contaminação ao consumir um produto que utilize como insumo, bosta de cavalo? Que tal uma invasão de bactérias como tempero?
 
Que fique bem entendido, não sou contra a comercialização dos orgânicos, desde que estes atendam normas de segurança alimentar. Não sou contra a priori por que acho que é um mercado interessante, mais uma alternativa de consumo. Vê-los, por outro lado, como uma “redenção alimentar” é ingenuidade.[3]
 
Em um tempo em que o produtor não era penalizado por melhorar sua produção, as técnicas de aprimoramento produtivo já eram testadas e introduzidas. Na Inglaterra, as cercas vivas constituem tradição para os entre propriedades agrícolas e, muitas vezes, entre cultivos dentro de cada uma. Além da beleza cênica proporcionada, o que é um fator a mais para incremento do turismo rural, elas mantêm uma pequena fauna local que ataca insetos que poderiam se tornar pragas, contém deslizamentos de terra e minimizam a erosão. Se deixassem tudo “ao natural” a própria eficiência agrícola e preservação ambiental seriam menores, bem como, daí sim, a destruição se alastraria.[4]
 
Não há contradição intrínseca entre produção e conservação. É uma simples verdade e o resto que se diz por aí é pura mistificação. Para produzir no longo prazo é necessário conservar, com vistas ao mercado. Mas, ambientalistas são personagens sui generis que condenam o aquecimento global, cada vez mais contestado teoricamente, o buraco na camada de ozônio, que em alguns anos tem diminuído ou, simplesmente, sumido sem refletir minimamente quando compram mochilas e óculos de plástico com detalhes emborrachados para suas trilhas, nem quando sonham com um Land Rover no merchandising de uma revista Terra. Para muitos desses seres urbanos por excelência, não há nenhuma aparente contradição nisto tudo. Usar botinas e comer pão integral é legal, mas ter que trabalhar em banco, usar terno, não. Tudo se resume a uma questão de estilo. Para eles, “ser ambientalmente correto” se resume a ignorar os avanços tecnológicos, desdenhar a compreensão da economia e filosofia clássicas, enquanto que usar trancinhas rastafari parece adequado e suficiente.
 


[1] Se pudermos objetar a caça à baleia, isto não significa o mesmo para seu excelente programa de reciclagem de resíduos domésticos, por exemplo. Cabe diferenciar um caso de outro...
 
[2]Quem dá a dica sobre o que seria a real urbanização brasileira segundo critérios aceitos comumente no mundo é José Eli da Veiga em seu Cidades Imaginárias.
 
[3]Para compreender melhor a situação vale acessar este link da agência nacional de biossegurança: www.anbio.org.br/mentiras_verdades.pdf
 
[4] Exemplos de falta completa de planejamento (por parte do produtor) e inadaptação ambiental existem “às toneladas”. Um caso que me ocorre agora é o do café no Vale do Paraíba, entre Rio de Janeiro e São Paulo, introduzido em vertentes íngremes que poderia ser evitado com a simples técnica de plantio em curvas de nível ou terraceamento.
 
Terça, 25 Julho 2006 21:00

Neodogma Ambiental e Controle Social

“Destruir a natureza” não é pecado, para quem não leva questões teológicas como norteadoras da vida social. Elas simplesmente não importam. Mas, destruir a natureza é, antes de mais nada, irracional.

A natureza, concordava um observador na década de 1820, era “notavelmente simples em todas suas ações, econômica em seus procedimentos e frugal em seus meios”. Poucos decênios depois, Karl Marx criticaria Charles Darwin por representar o estado selvagem do mundo animal como de livre-competição e por enxergar no mundo das plantas e dos bichos a própria sociedade inglesa, “com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, ‘invenções’, e a malthusiana ‘luta pela existência’”. Ao retratar as formas mais ferozes de competição como parte da ordem natural das coisas, Darwin se inseria na tradição daqueles numerosos autores precedentes para os quais as classes inferiores deveriam aceitar suas agruras de bom grado, pois a natureza asseguraria que tudo ocorria para o melhor. A fome e as mortes, pensava ele, eram os meios pelos quais a contínua produção de animais mais avançados era assegurada; “não se sente medo [...] a morte é em geral imediata [...] e os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobrevivem e se multiplicam”.

Keith Thomas, O Homem e o Mundo Natural


“Destruir a natureza” não é pecado, para quem não leva questões teológicas como norteadoras da vida social. Elas simplesmente não importam. Mas, destruir a natureza é, antes de mais nada, irracional. Trata-se de analisar a relação custo-benefício de uma ação sobre o meio ambiente. Custos e benefícios para a sociedade e a própria natureza, bem entendido. Já, o ambientalismo de massa é uma moda pseudo-intelectual sem reflexão sobre suas premissas, uma vez que sua crítica se direciona para uma suposta “essência da natureza” ou “o caráter intrinsecamente mau de nossa sociedade moderna”. Sua crítica deveria ser outra, a de que algo melhor poderia ser feito efetivamente para aproveitar nossos recursos de modo sustentável. E embora, os ambientalistas falem muito em sustentabilidade, sua particular concepção sobre a mesma, baseia-se na anulação da ação humana sobre os ecossistemas. O ser humano simplesmente é visto como um hóspede indesejável neste planeta. Por outro lado, tal proposição é sempre bem vinda para quem lucra com mensagens apocalípticas.

Uma palavrinha sobre a expressão “sustentável”: não me refiro aqui ao mantra ambientalista de que ela, a natureza, deve ser preservada de humanos, mas sim aproveitada de modo racional permitindo sua exploração sem extinção dos próprios recursos. E, por racional também divirjo do dogma de que só é alcançado via planificação estatal. A falta de racionalidade econômica leva, no limite, por definhar não só as espécies, mas o próprio meio abiótico que é base para a indústria extrativista. E isto deveria ser observado pelos liberais que se mantêm reticentes quanto à ecologia que, diferencio do ambientalismo de matizes socialistas.

O que lamento nisto tudo é que no afã de nos posicionarmos contra um modismo de “Nova Era”, a qual se associa o ambientalismo, ainda mais mesclado com uma retórica socialista, estejamos jogando o bebê fora com a água suja do banho. Explorar não é um problema em si, pois temos como subproduto a construção de novos ambientes reinventando a natureza, com vistas à perenidade da própria economia.  O prefixo eco desta palavra não é gratuito.

Ainda pode se objetar que a “realidade” não aponta para isto... Mas, como dizia o bom e saudoso Roberto Campos “estatística é como calcinha: mostra muito, mas esconde o essencial”. Alarmes sugestivos existem aos borbotões:

• Dois milhões de anos atrás, quando teria surgido a espécie humana, os impactos causados ao meio seriam muito menores do que hoje, com 6,2 milhões de seres humanos. Só esqueceram de comentar que, atualmente as técnicas de reciclagem e substituição de materiais também evoluíram, proporcionalmente;

• Outro dado sem muita análise diz que 40% da superfície terrestre foi alterado devido ao desmatamento, pastagens e pavimentação. Só não comentam também que o período maior de desmatamento correspondeu ao final da Idade Média e início do Renascimento, época em que se exigia maior aporte de recursos naturais e as inovações técnicas engatinhavam.

E, mesmo revistas de divulgação científica como a National Geographic (2002) comparam a ação humana a das placas tectônicas ou a New Scientist (2001) a um meteoro que, supostamente, teria extinguido os dinossauros. Bem entendido que são revistas de “divulgação científica” e não revistas acadêmicas que trabalham com menos certezas e mais probabilidades. Mas, há dois “detalhes” curiosos que atestam a falta de compreensão da natureza pelos próprios ambientalistas:

• Se não fosse pelas próprias placas tectônicas a se mover na crosta terrestre não teríamos a elevação de terrenos por orogênese (formação de montanhas) e epirogênese (soerguimento de superfície) e, sendo assim, não teríamos rios, nem vida no interior continental. Por acaso, os ambientalistas das revistas advogam um mundo plano como uma bola de bilhar?

• Se os ambientalistas realmente endossam os avanços científicos de uma teoria da evolução, a extinção dos dinossauros, seja qual for o motivo, não é um mal em si, mas prova evolutiva, de melhoria e adaptação das espécies. O exemplo foi péssimo, pois se quantitativamente tem algum sentido, qualitativamente é o contrário do que querem dizer.

O que mais temos são meras suposições e, a partir delas, o mainstream catastrofista vende imagens apocalípticas, bem ao gosto de fiéis em busca de novos dogmas. Além disto, ser radical é in, é chique, é bacana, o que é reflexo de um comportamento de grupo a que o jovem sem leitura e com péssimos professores é facilmente sugestionado.

Vejamos este claro exemplo de desinformação citado por Lomborg no já clássico O Ambientalista Cético: segundo Pimentel , a estimativa de erosão do solo, posteriormente generalizada para o mundo inteiro (!) por diversos outros “cientistas” e divulgadores, é de 17ton/hectare ao ano. Não é aterrador? Do jeito que vai, ficaremos “sem chão”... O “detalhe” é que este famoso estudo se baseou em uma única pesquisa de um lote de 0,11 hac na Bélgica. Apesar de o autor advertir contra generalizações, tais ocorreram abundantemente. Sem contar a internet, que favoreceu as comunicações mundiais, sem dúvida, mas também em medida maior, os famosos hoax ou pulhas virtuais que disseminam desinformações e exageros convenientes às agendas sectárias de nossos “verdes” e “vermelhos”.

Daí para ouvirmos com insistência que a população mundial não para de crescer; que a questão ambiental só pode ser resolvida pela redução da desigualdade social, i.e., por políticas de redistribuição de renda; que nós desapareceremos junto com toda a vida na Terra (para breve!) é um passo, preconceituosamente, lógico.

Não é isto que ocorre. Os problemas mundiais não estão aumentando, mas diminuindo. Segundo o mesmo Lomborg, em 1915, 75% dos jovens em países pobres era de analfabetos, hoje (1997-2001) são 16%; em 1970, apenas 30% da população do mundo subdesenvolvido tinha acesso à água potável, hoje são 80%.

É claro que apesar desta melhora, isto não significa que tenhamos atingido um estágio suficientemente bom. O ótimo é inimigo do bom... Mas, se não atentarmos para esta evolução positiva e, acreditarmos em visões dogmaticamente catastróficas, seremos úteis para o jogo dos que propõem maior controle estatal sobre os recursos e, sobre todo o mercado.

Controlando o meio abiótico, a livre-iniciativa, por que também não iriam almejar o controle da imprensa, dos meios de comunicação, da formulação de políticas e supressão do livre-arbítrio?

[1] Em Teoria da crise e a verdadeira escassez, apresento uma digressão à respeito.

[2] Pimentel et al. “Environmental and economic costs of soil erosion and conservation benefits.” Science 267:1, 117-23.

 

 

Quinta, 20 Julho 2006 21:00

Alienação Não Tem Cor

A luta de classes utilizada como subterfúgio para racismo pouco dissimulado tem sua aplicação hodierna no Brasil e alguns negros, tão cegos por seu ódio histórico aos brancos serão, provavelmente, mais uma vez, úteis.
Números racistas
 
Existe um discurso da militância do movimento negro que acusa a sociedade brasileira de discriminá-los. Especialmente, as “elites” que seriam “brancas“ por definição. Ele se baseia em dados objetivos, como a renda média do branco pobre no Brasil estipulada em 400,00 reais mensais ao passo que a do negro pobre rondaria os meros 170,00. A causa de tamanha desigualdade seria simples: trata-se da mais pura e ostensiva discriminação contra a categoria, ou “raça” se preferirem.
 
Se for verdade que o Brasil é um país racista, nosso empresariado é míope e, sinceramente, não creio que este seja o caso. Se eu fosse um destes empresários, com certeza empregaria mais trabalhadores negros, pois ganham menos! No entanto, não é o que acontece. Segundo pesquisa do IBGE em 2001, Salvador, 45% dos negros estão desempregados, em São Paulo são 41% e, em Porto Alegre, 35%. Lembremos que a pesquisa não averiguou o trabalho, mas o emprego formal, aquele com carteira assinada.[1]
 
Tanto quanto dizer que todo trabalhador fora da situação de trabalho regulamentar é um desocupado, o que não faz sentido algum é dizer que não há mais indivíduos negros empregados por que por pura discriminação. A tese (óbvia) que endosso é que o maior de desemprego se dá por que o nível de educação dos mesmos é inferior ao dos brancos em 2 anos e 3 meses na média. Apesar de pouco em termos absolutos é muito em termos relativos, especialmente para um país cuja escolaridade média é de 6 anos.

Em alguns aspectos, o “negro estatístico”, aquele que nós podemos avaliar através dos censos está bastante distante do “negro virtual” imaginado pelos críticos da democracia racial brasileira e, não muito distante do branco avaliado pelo censo.
 
O que verificamos é que além de uma “questão de raça” o que pesa mais, senão por inteiro, é o nível educacional e a condição feminina relacionada ao grupo. Mais do que negros, são as negras que sofrem com falta de oportunidades.

Segundo os mesmos dados do IBGE/Pnad, a média de anos de estudo de instrução formal por cor ou raça segundo a faixa etária no Brasil e Grandes Regiões em 2001[2], a população branca tem 8,3 e 8,1 anos de escolaridade formal entre 15 a 24 anos e 25 a 44 anos, respectivamente. A população negra, por sua vez, apresenta 6,4 e 5,8 anos de escolaridade formal para os mesmos intervalos.
 
Da mesma fonte, a taxa de analfabetismo em pessoas de 15 anos ou mais é de 12,4% em 2001; apenas 7,7% para brancos, mas 18,2% para negros. Existe aí uma maior taxa de evasão escolar da população negra: enquanto que 97,5% de jovens brancos entre 7 e 14 freqüentam a escola, a taxa entre negros não é tão diferente: 95,4%. Mas o gap aumenta significativamente quando analisamos a população de 15 a 17 anos: 84,1% de brancos contra 78,1% de negros. Ao longo do processo é que as diferenças se acumulam.
 
Tais taxas não confirmam “racismo”, pois a diferença volta a diminuir na faixa de 18 a 24 anos, 35,9% entre brancos contra 31,7% de negros nas escolas, quando a maioria já está procurando emprego. A diferença maior é prévia e está ligada ao período da adolescência. Uma queda brutal de alunos matriculados se verifica do ensino fundamental para o ensino médio no país: cai de 93,3% para 37,8% (!). Mas ela é muito mais pronunciada entre a população negra, 22,5% maior[3]. No cômputo final os brancos têm certa vantagem, com quase 1/3 a mais de anos de estudo. Em um país cuja média é de apenas seis anos isto é irrisório, se considerarmos as atuais necessidades do mercado de trabalho.
 
O que os militantes do movimento negro e críticos da situação social negra deveriam realmente se perguntar é:
 
Por que nossa “raça” evade mais da escola?
 
Como a resposta é complexa, envolvendo vários fatores melhor explicados por estudos de antropologia urbana, fica muitíssimo mais fácil e de forte apelo emocional aludir a discriminação em grau inexistente.
 
Alguns desses fatores envolvem a localização dos “discriminados” em bairros pobres, mais sujeitos ao tráfico como opção, às gravidezes de jovens negras que estimulam a sair da escola, casamentos precoces etc. Todos eles teriam que ser meticulosamente avaliados, para evitar que especulações se tornem conclusões.
 
Ideologias conflitantes
 
Para o articulista Hamilton Cardoso[4], não houve reconhecimento da raça negra como fato político, ou seja, não houve qualquer consideração à respeito. Ao que o autor chama de “alienação branca”, podemos chamar esta de “alienação negra”? Alienação tem cor?

Para este tipo de intelectual negro, os grandes líderes inspiradores da causa abolicionista só tomaram alguma importância quando estes se “racializaram”. Nesta “conexão metafísica com a senzala”, o perigo é que este processo se perdesse no “branqueamento da sociedade brasileira”. Para ele, candomblés baianos, escolas de samba cariocas e paulistas, congadas, moçambiques e outras agremiações negras como pagodes, blocos de carnaval, “verbalizam críticas à situação social brasileira”. Ao passo que a maioria de nossos antropólogos assinalarem o sincretismo cultural como uma marca característica de nossa sociedade, Hamilton vê em tais manifestações um tipo de ruptura com a sociedade branca, onde fica bem expresso que:
 
(...) o movimento dos trabalhadores negros (...) jamais [viverá] a contradição teórica raça e classe porque são o que são: a alma, o espírito e a matéria-prima do proletariado.
 
Lembrou de algo?
 
Sim, sim, eles rodam, rodam e rodam, mas sempre caem no mesmo ponto: sua luta racial é, na verdade, uma oposição de classes sociais:
 
(...) não têm vergonha de trabalhar na Casa Grande, onde, ao limpar banheiros ou aparar jardins, conspiram contra as culturas das elites. Nas madrugadas. Este movimento definiu o perfil cultural do país do futebol, do samba e da cachaça: um país negro, chamado Brasil.
 
Se esta não é uma proposta de luta racista, me digam o que é.
 
Outro ponto muito interessante, abordado pelo militante, é a duplicidade deste tipo de política e movimentação social.
 
(...) há petistas hoje capazes de verbalizar noções de política para a Casa Grande e outros que as verbalizam para as senzalas. Tudo é uma questão de opção. Mesmo porque há uma nova conspiração em movimento. Axé. (Grifos meus.)
 
Denis Lerrer Rosenfield já tinha chamado a atenção para este “conflito”, em que se namora o autoritarismo de esquerda, mas em outros momentos se “aceita” a democracia. A duplicidade não é funcional por muito tempo. Ou ela é engendrada para confundir mesmo, ou este drama tende a se dissolver de modo a atrelar o estado à posições ideológicas conflitantes. Como eu não acredito em dialética marxiana, apenas uma das posições irá predominar.
 
Conspirando contra negros e brancos
 
 
Segundo Hamilton se trata de uma conspiração. E, embora eu nunca tenha visto uma conspiração anunciada pelo conspirador, vamos admitir sua possibilidade segundo uma lógica marxiana.
 
Para o próprio Marx, seria uma heresia buscar equivalência entre raça e classe social. Mesmo por que, para estes militantes são duas classes em conflito e para o filósofo existiam mais de duas em disputa, mas duas em oposição estrutural. As classes médias eram vistas como oscilantes, não predestinadas, mas que dependendo da conjuntura poderiam ser úteis.
 
Outro ponto óbvio que entra em contradição com as especulações místicas, é que na fonte marxiana da qual pensa se basear com coerência, é que as diferenças entre classes não se dão pela renda, mas por sua posição em relação aos meios de produção (se detentora ou não destes).
 
O principal “divisor de águas” entre as raças, de acordo com os dados mais acima, se refere especificamente à renda. Tanto é assim que uma das principais alegações de que existe racismo pelos militantes do movimento negro é que, desempenhando as mesmas funções, negros e brancos teriam rendimentos diferentes. Ora! Então não há a aludida divisão racial-classista sugerida por esta militância.
 
Se a sociedade brasileira fosse constituída de duas classes fundamentais: os exploradores (brancos) e os explorados (negros), não seria possível qualquer sutileza do modelo capitalista em sua sanha de extrair a chamada mais-valia. E a própria “necessidade” do capitalismo ocultar ideologicamente as relações de classe seria desmascarada.
 
Nem o mais vulgar dos marxistas imaginou tamanha simplificação. Se eu fosse maldoso, diria que isto se dá devido à supracitada taxa de evasão...
 
Para um marxista heterodoxo, este raciocínio se torna mais inviável ainda quando pensamos no conflito social moderno que seria “triangular”: interesses entre acionistas, gerentes e trabalhadores que é muito diferente do modelo dicotômico e “biologicista” que propunha Karl Marx no século XIX.
 
Talvez a análise devesse levar em conta o critério comportamental, ausente em seu racismo. Em qualquer grande corporação, temos altos executivos, técnicos e outros subordinados devido ao critério da competência, ou em grande medida a uma boa dose de “capital cultural” herdada da família, o que também foge ao alcance de qualquer teoria marxiana mais ou menos ortodoxa.
 
Mesmo que para militância racista isto fosse, na melhor das hipóteses, um eufemismo para a discriminação pura e simples, sua cegueira ideológica não consegue abarcar sutilezas entre classes presentes na ordem capitalista. Como enfiar goela abaixo da sociedade o critério de cotas raciais para ingresso em universidades e serviço público se se admitir a meritocracia na moderna estrutura capitalista? Fica mais fácil pressupor que nada mudou ou pouco mudou desde os tempos da Casa Grande e da Senzala.
 
A mistificação racista tem, no entanto, um componente estratégico que sempre se deu nas estratégias dos jogos de poder, na qual a aliança contra um inimigo remoto tem serventia contra um inimigo imediato. Isto fica claro na seguinte passagem:
 
Este mesmo movimento, afinal, com seus operários e operárias deu à luz ao movimento negro pós 1978, que, de certa forma, começou a combinar o vigor da luta cultural e impor novas noções de política à sociedade. Ele, neste momento, se encontra e procura criar uma nova síntese ao lado de milhares de lideranças brancas com noções mais universalizadas do país e que se defrontam com a mesma indagação dos movimentos negros de 78: o que fazer no dia 13 de Maio, quando se comemora a abolição da escravatura no Brasil? Agora, o centenário da abolição. (Grifos meus.)

No excerto acima, não fica claro o que se entende por “noções mais universalizadas”. O que haveria depois da sociedade ser dominada pela ideologia racista? Um alento para o “bom branco”, aliado que foi por sua serventia à causa? Ou mais tarde afloraria a máxima de “branco bom é branco morto”? Falta muito?
 
Assim como Marx dizia que a causa da fraqueza do campesinato francês se dava ao seu isolamento geográfico e baixa capacidade de se comunicar, esta visão racista se empenha em ultrapassar uma barreira similar ao propor uma aproximação entre seus membros da “classe-raça” através de um núcleo ideológico. E, assim como um dogma religioso, nada mais conveniente para esta agregação quando se encontra um inimigo comum.
 
No entanto, há obstáculos bem vindos à formação da “consciência negra”, como o papel dos sindicatos, que no Brasil são inter-raciais por excelência. Aí poderíamos assinalar um limite plausível a disseminação dessa “panacéia ideológica racial”.
 
Mas, seja dentro de uma social-democracia capitalista ou um ridículo sistema socialista, as clivagens étnicas, culturais ou religiosas sempre representaram um enfraquecimento do movimento trabalhista. Se o movimento negro pretende suplantá-lo, teremos algo pior que um estado socialista, talvez um apartheid às avessas, tão hediondo quanto seu antigo exemplo sul-africano no tempo da dominação böer.
 
Esse imbróglio pode ter conseqüências não explícitas, como aquele onde um terceiro elemento se beneficia de um conflito que não ajudou a criar. Sua sanha sectária pode aproveitar a situação para estender seu poder e amarras políticas pré-totalitárias ao traçar linhas de ocupação e direção da classe trabalhadora entre brancos e negros. No fundo, quem passa a comandar será nossa “nomenklatura pós-moderna”. Se para um marxista, uma luta entre facções capitalistas poderia beneficiar o operariado, nesse caso uma estúpida luta inter-racial beneficiaria a emanação dos tentáculos estatais e diminuição do prestígio da sociedade baseada no valor individual. Um movimento que beneficia o totalitarismo, do qual os socialistas bebem na fonte.
 
A luta de classes utilizada como subterfúgio para racismo pouco dissimulado tem sua aplicação hodierna no Brasil e alguns negros e brancos – alguns por que a imensa e absoluta maioria é formada por trabalhadores que age individualmente em busca de seu mérito -, tão cegos por seu ódio histórico serão, provavelmente, mais uma vez, úteis.
 
A quem esta alienação interessa, é uma questão de tempo para que os fatos falem por si.
 




 
 


[1] Sobre deturpação similar, confira Números não mentem. O Dieese sim!..
 
[2] Exclusive a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá.
 
 
[3] A queda entre os brancos é de 94,9% para 50,7% e 91,8% para 25,1% entre os negros.
 
Quinta, 13 Julho 2006 21:00

Criacionismo de Caso

Outro argumento criacionista consiste em dizer que o ensino de religião nas escolas leva a restauração da “fibra moral” da nação. Isto não deixa de ser verdade, mas tal afirmação exclui o questionamento de que tipo de moral.

Mostre-me um relativista cultural a trinta mil pés de altura e eu te mostrarei um hipócrita. Aviões são construídos de acordo com princípios científicos e funcionam. Eles se mantêm no ar e te levam a um destino escolhido. Aviões construídos por especificações tribais ou mitológicas como as imagens de aviões dos cultos de Cargo em clareiras na selva ou asas de cera de Ícaro não.

Richard Dawkins

Se a ciência como sugerem alguns críticos criacionistas, não passa de uma outra religião, decorre que a religião pode ser vista como uma outra ciência. Se isto for reconhecido publicamente por alguma autoridade, o próximo passo é obrigar o ensino público de religião, tal como se faz com a biologia e outras disciplinas.
O Instituto da Ciência Criacionista, através de Phillip Johnson, mantém a posição de que a ciência é próxima da religião. Sendo assim, as escolas públicas deveriam ensinar religião. Isto não passa de um sofisma, pois se formos admitir todos os preceitos de outras épocas como sendo eminentemente atuais, então a afirmação de Locke, no século XVII, de que os ateus deveriam ser mortos também poderia ser considerada como válida para nós. Claro que qualquer liberal caricato que se esquece que o próprio Locke afinava com Hobbes antes de se voltar contra este, também não gostará de admitir que a religião se fundamenta em dogmas passíveis de relativização histórica conforme sua compreensão atual. Casos de anacronismo intelectual como estes não compreendem o conceito de evolução na natureza, tampouco compreendem a própria evolução do conhecimento. Se fossemos adotar uma premissa destas, estaríamos justificando outra posição análoga: a de que teístas e religiosos deveriam ser mortos, caso alguma “constelação de forças” assim o permitisse. Nem hoje, nem nunca e o mesmo vale para aqueles que mantêm qualquer fé. E, por mais irracional que uma determinada fé possa parecer aos dias de hoje, ela tem seu direito à existência. O que deve ser condenado, obviamente, são práticas, científicas e religiosas tanto faz, que atentem contra o direito individual. Sejam estas em nome de deus, da raça, de um “bem maior” qualquer.
Pior do que esta confusão, uma vez que ciência se faz com evidências, comprovações e, sobretudo, refutações e religião com fé é que, o espírito do que se convencionou chamar ciência não admite imposições desta natureza e é hilário que um instituto que traz “ciência” no nome faça este tipo de apologia.
Outro argumento criacionista consiste em dizer que o ensino (obrigatório, sempre é bom lembrar) de religião nas escolas leva a restauração da “fibra moral” da nação. Isto não deixa de ser verdade, mas tal afirmação exclui o questionamento de que tipo de moral. Parte-se da premissa de que a única moral viável seja a religiosa, de que não haja moral ou conduta baseada em direitos e deveres a partir do indivíduo em relação à sociedade ou comunidade. Não é estranho que alguns criacionistas sejam os próprios críticos conservadores que tanto bradam contra as ideologias coletivistas, justamente os que se utilizam de premissas morais anti-individualistas, logo coletivistas?
Argumentar que o criacionismo é tão “científico” quanto a teoria da evolução, por exemplo, de modo meramente tautológico, consiste em uma estratégia para minar a percepção social da ciência. Malgrado, os EUA de hoje parecem um campo propício para tal tipo de experimento que conduz, por lógica, à aproximação entre religião e estado, cujas conseqüências nefastas conhecemos em países muçulmanos governados por teocracias. Reiterando o que disse, a religião não trabalha com questionamentos, confrontações, conjecturas, refutações, testes, comprovações, previsões baseadas em possibilidades e/ou probabilidades, pesquisas que coloquem premissas em cheques, tampouco se preocupa com novas descobertas. Isto pode até ocorrer no debate do campo teológico, mas o ensino de religião, por seu turno, busca asseverar seus dogmas que devem ser respeitados dentro do próprio âmbito religioso. No entanto, estes não devem se estender, compulsoriamente, a uma sociedade laica.
Um exemplo disto é a simples menção de que, em tempos bíblicos, seria possível andar sobre o gelo com uma fina camada de água sobreposta no chamado “Mar da Galiléia”, atual Lago Kinneret. Tal exemplo é suficiente para que religiosos achem que se trata de um ataque frontal a sua fé, especificamente um dos milagres de Cristo. Qualquer estudo que verse sobre dados bíblicos pode ser tomado como afronta à ortodoxia cristã, mesmo que não seja esta a intenção, pelo simples fato de que relativiza informações obtidas e repassadas há milhares de anos. Se for, é por que sua fé é fraca e só adquire força sem divergências e controvérsias.
Uma crítica comum dos criacionistas para advogarem o ensino religioso é que a civilização cristã mundial está decaindo devido ao “materialismo crescente” de nossas sociedades. Dois pontos a objetar: em primeiro lugar, nossa civilização não é essencialmente cristã, é baseada nos moldes de uma sociedade aberta, isto é, aceita e acata diferentes perspectivas cosmológicas e éticas desde que se adaptem aos seus princípios gerais prescritos nas várias constituições nacionais.
 
Em segundo, a idéia de materialismo e idealismo como um par dicotomizado paga um tributo à influência marxiana do século XIX, embora muitos de seus apologistas se digam críticos de Marx. Sei que tal separação entre “matéria” e “idéia” é bem anterior ao próprio Marx, mas disseminou-se amplamente após ele. Autores marxistas, na sua maioria, admitem que o “campo das idéias” é um mero reflexo da base, ou seja, a relação estrutural entre relações de produção e forças produtivas chamando toda cultura, ideologia e política de superestrutura. Ou seja, um mero reflexo.
 
Sei também que o “materialismo crescente” que acusam os religiosos é o ético, enquanto que o materialismo de Marx é o “histórico e dialético”. Enquanto que o primeiro caso seria uma tendência nefasta, o segundo é uma metodologia de análise social. Mas, para além destas distinções há um ponto comum: ambos, conservadores religiosos e revolucionários marxistas partem do mesmo pressuposto que é a separação entre matéria e idéia e que, no caso, poderíamos atualizar como economia e cultura.*
 
Joguemos intencionalmente com a palavra “matéria”... precisamente para mostrar como, em contexto diferente, o mesmo nome pode significar algo distinto. Se admitirmos as idéias, cultura, pensamentos como influenciadores, por que não haveriam de serem “materiais”, no sentido de terem respaldo em ações sociais e fatos da vida cotidiana? Se Marx não achava assim, é por que excluía uma parte significativa da vida social em sua filosofia. Mesmo por que se admitisse a primeira, teria que reformular a segunda.
 
Por outro lado, o materialismo que acusam os religiosos existe mesmo, ou apenas os ideais e a espiritualidade que advogam é buscada em outros “ambientes”? Lembre-se que com a urbanização, a pacata vida rural que tinha a paróquia como centro de manifestação cultural, com suas festas, quermesses etc., foi sendo substituída, por outros centros de lazer e (por que não?) reflexão. Sendo assim, fica fácil e, grotescamente equivocado, admitir que a fonte de espiritualidade encontra-se somente em alguma religião institucionalizada. Podemos tê-la nos teatros, cinemas, bibliotecas, na internet ou, “dependendo da alma”, nos bulevares, praças etc. No fundo, os conservadores religiosos ao não admitirem outros “pólos de inspiração espiritualista” querem, igualmente, o monopólio de toda e qualquer manifestação espiritual.
 
Recapitulando: se a civilização não é só, ou principalmente, cristã, mas tem relações e origem (parcial) no Cristianismo e a acusação de “materialismo” como causa de alguma decadência também é ficção, a crítica religiosa e o apelo ao criacionismo não se justificam. Além de tudo, o que fica patente perceber é que enquanto para religiosos o diagnóstico e cura para alguma mazela social já está pronto, já tem sua “receitinha de bolo”, para quem realmente quer discutir o tema em bases científicas, a discussão está apenas começando.
 
Se religiosos querem criar caso, agora têm que se expor à crítica de não religiosos, sejam eles teístas ou ateus.
 


*Para refutar este tipo de filosofia, Weber é de grande valia. O sociólogo dava um peso tão grande à cultura que, após ele e seu Economia e Sociedade, qualquer outro pensador que não afirme que a cultura seja “algo material”, i.e., com práticas e efeitos concretos sobre a realidade social, simplesmente não é levado a sério.
 
Admitir a capacidade de influenciar das idéias e da cultura em geral implica em aceitar que elas, assim como a economia, o ambiente, a genética determinam, mas não sob uma única lógica causal, isto é, uma determinação em última instância. Como diria Weber, são múltiplas determinações que acabam anulando, no mais das vezes, qualquer tentativa de hierarquização. O máximo que podemos ter neste sentido são modelos, tipos ideais na linguagem weberiana. Tais modelos são “estados puros”, não encontrados empiricamente, quando postos à verificação. São modelos que são utilizados como “redes” para captar justamente a variação de casos que constitui a própria realidade.
Sábado, 17 Junho 2006 21:00

Muito Além do Gramado

Futebol é diversão que dá lucro. Sigam seu exemplo, exportem-se, vendam-se, sejam seus próprios agenciadores por que existe mercado esperando pelos seus gols no campo e nos laboratórios. Sejam artilheiros com seus próprios regulamentos.

Conheci um sujeito que cursara escola técnica, passara no ITA em São José dos Campos, mas em épocas de pré-Embraer reavivada, achou que ganharia mais dinheiro como médico. Estudou, passou no vestibular e foi fazer medicina na USP de Ribeirão Preto. Desiludido com os percalços de sua profissão e com as tramóias que muitos profissionais da saúde fazem para gerar renda, deixou sua vocação guiá-lo novamente e se dedicou à pesquisa médica na área oftalmológica. Como bolsista, com muito esforço conseguiu participar de um congresso em Miami.

Alguns detalhes curiosos: esse sujeito tinha duas paixões, seu violão e o futebol. Apesar de fazer concessões a um Beatles ou outra coisa, tocava muita MPB mesmo, o que era um detalhe de seu nacionalismo estético: era do tipo que não dizia “e-mail”, mas “correio eletrônico”. Haja paciência...

Sempre falava que nunca abandonaria o país, que jamais sairia daqui por que amava demais esta terra e etc. etc. e etc. Bem, a vida é irônica. Na Flórida, foi descoberto por um japonês que se interessou por sua pesquisa, um método não invasivo de leitura dos olhos com uma câmera associada a um programa desenvolvido por ele. O pesquisador conseguiu-lhe um contato em Chicago que conseguiu outro em Tünbigen, onde foi parar fazendo pesquisas para o sistema de saúde alemão. Ele está lá até hoje fazendo seu pós-doutorado e não dá sinais de voltar. Querer voltar pode até querer, mas seu trabalho não encontra guarida aqui, no way... ôôps! Perdoe-me pelo anglicismo, mate!

O que quero dizer com esta história? Nosso país é bom naquilo que não tem medo de competir. Não se questiona que o futebol não é genuinamente nacional, não foi criado aqui ou outra bobagem destas. Ele foi incorporado e isto é mais importante, por que é praticado. Nossa matéria-prima são os milhões de jovens que o praticam sem ingerência estatal como as escolas têm do MEC. Por isto a qualidade de nosso futebol é inversamente proporcional a de nossa educação pública. Isto está além de qualquer ideologia de “esquerda”, de “direita” ou qualquer coisa. É algo que emana do povo, é genuíno.

Sei, sei, também detesto o ufanismo forçado que o cerca, mas isto ocorre por que é um dos poucos espaços que sobram a nossa livre iniciativa. Um país que exige de seus empresários mais de 150 dias para montar uma empresa não permite que se façam muitos “gols” em outras áreas. Portanto, sobra a área dos gramados, mas seu efeito vai além da goleira. O exemplo deste jovem que citei é de muitos que têm no exterior uma chance. É aí que nosso futebol e um “nacionalismo ativo” que interage com a globalização faz o país crescer. Viva os ronaldos por que eles não tiveram o pesar de serem cerceados em alguma escolinha pública de futebol. Aprenderam na marra e soltaram sua criatividade. Malgrado, nossa desorganização institucional e peso tributário exportam mais empregos neste setor, mas pelo menos geram empregos. Antes isto do que nada.

São os barcelonas, reais madris que lucram mais com eles. Que seja! Também, logo estaremos importando a tecnologia alemã na óptica feita por um brasileiro que não teve crédito no próprio Brasil.

Futebol não é para “mudar o país”. Quem achava que era uma espécie de “ópio do povo brasileiro”, eram os comunistas. Será que uma “direita impaciente” também não segue seus mesmos passos? Jogar bola é criar, como se criou um sincretismo religioso no Brasil para desgosto de uma ortodoxia católica. Contra esse conservadorismo estético, tome boas doses de anarquismo cultural.

Futebol é diversão que dá lucro. Sigam seu exemplo, exportem-se, vendam-se, sejam seus próprios agenciadores por que existe mercado esperando pelos seus gols no campo e nos laboratórios. Sejam artilheiros com seus próprios regulamentos.

Ah, sim! Meu camarada ainda contou-me que para se entrosar no referido congresso de Miami, procurou o time de médicos brasileiros que nunca tinham perdido uma “copa de futebol” nos congressos internacionais de oftalmologia. Como o time estava completo e diziam, era bom, não havia lugar para iniciantes como ele. Desconsolado, teve que apelar para os “perebas” escoceses.

Ao final do torneio, o placar era Escócia 1 X Brasil 0. E adivinhe de quem foi o gol da vitória?

Quinta, 25 Maio 2006 21:00

Murder Inc.

O diretor geral do DEIC, Godofredo Bittencourt, levou os presos a sua sede para uma reunião tentando evitar o massacre que se seguiu em São Paulo a partir do dia 30 passado. 768 detentos seriam transferidos para o interior paulista, mas para que os comensais ficassem bem nutridos e, creio eu, assim colocarem suas idéias em ordem e com bom senso, o diretor ofereceu-lhes um rodízio de pizza.
Murder Inc.
 
 
"As autoridades brasileiras insistem em dizer que, no Brasil, não há crime organizado. Isso é estranho e absurdo"
Giusto Sciacchitano, procurador antimáfia
"É o caso do jogo do bicho, o que mais se aproxima de um crime organizado como a da Máfia por aqui. (...) Esse é o modelo brasileiro. O resto é exagero."
Guaraci Mingardi, secretário de Serviços Públicos de Guarulhos
Valor Econômico, 14 de junho de 2002
 
 
O diretor geral do DEIC, Godofredo Bittencourt, levou os presos a sua sede para uma reunião tentando evitar o massacre que se seguiu em São Paulo a partir do dia 30 passado. 768 detentos seriam transferidos para o interior paulista, mas para que os comensais ficassem bem nutridos e, creio eu, assim colocarem suas idéias em ordem e com bom senso, o diretor ofereceu-lhes um rodízio de pizza. Um dos chefões, o “Marcola”, homem de fino gosto protestou e pediu chesse-picanha com fritas, no que foi prontamente atendido. Afinal, para quem tem três refeições ao dia, direito a visitas íntimas entre outros benefícios legais e outros ilegais que acaba adquirindo por “força da modernidade” como celulares, o que é um sanduíche?
 
Não sei, talvez todos estes petiscos tenham causado algum mal estar, pois o que se seguiu foi obra de alguém com mais que indigestão ou enjôo.
 
Também se esperava por algum pronunciamento, seja de nosso honorável presidente, líder latino-americano recém espoliado e “desmoralesado” pela Bolívia ou do candidato Alckmin. Nada. Mas, também era previsível a manifestação de nosso ministro da justiça, doutor Márcio Tomás Bastos, homem culto e douto nas sócio-lógicas da vida onde tudo se explica, marxianamente, pela malfadada desigualdade social. Sim, o sujeito veio a público dizer que a criminalidade só cessará com o desenvolvimento econômico. Engraçado... eu jurava ter ouvido de propagandas governamentais que já estávamos a galope ao primeiro mundo. Será que culparão a Bolívia?[1]
 
Numa tacada só, Bastos chamou os pobres de criminosos congênitos, pois se a pobreza é que causa tudo isto que vimos, então são eles! Será que nosso beautiful people do mundo das artes ou de nossa imprensa politicamente correta, dos Heródotos Barbeiros das CBNs não vêem aí alguma réstia de preconceito?
 
Interessante também que na visão do homem das leis que encarna, tudo não passe de uma simples lógica econômica. Pois, se as leis não são inadequadas, a justiça não é morosa, processos não são arquivados etc. tudo é causa menor, acessória, o problema mesmo reside no emprego formal. Como se para montar uma quadrilha não se precisasse de muito dinheiro.
 
Na maioria dos países africanos que não tem instituições ao estilo ocidental, solidamente edificadas, uma se destaca: as forças armadas. Por isto que tantos brasileiros crêem que só o exército pode por fim a situação que vimos em São Paulo, em que pese o fato do estado de direito vir a acabar.
 
Bem, estou falando em nome do povo. Mas, o povo realmente se importa com isto?
 
Quando o jornalista Tim Lopes foi morto, ele tinha sido atraído por moradores ligados aos traficantes, com o argumento de que ele poderia filmar cenas de aliciamento de menores trocando sexo por droga em bailes funks no Rio de Janeiro. A armação feita com a ajuda de moradores contradiz a retórica gasta de que os moradores são sempre reféns dos bandidos.
 
Não faltaram os que dizem que o desemprego induz ao crime e às drogas ou que a miséria é que gera a violência. O analfabetismo gera a violência, a desigualdade gera a violência, o ócio gera violência, tudo serve como justificativa. Nós próprios podemos justificar a indiferença pela estrutura econômica, daí não haver meios repressivos que valham a pena acionar, daí o nada serve ou nada funciona.
 
Qualquer classe social tem suas ovelhas negras e elas estão crescendo, por uma simples razão: o crime compensa.
 
Já que agora a (falta de) educação virou desculpa para tudo, façamos algumas correlações:
 
-         Massacre na cidade São Paulo;
-         75% do orçamento destinado à educação vai para o “ensino superior” e restos de 25% para o ensino básico.
 
Privatizemos as estatais, dando espaço subsidiado para centros de pesquisa e ampliemos o ensino básico e médio profissionalizante para vermos se, no longo prazo, a criminalidade não cai. Claro que, acompanhado de perto, por um sistema de repressão ao crime que já existe e não há mais como evitar. Sem as duas frentes de combate ao crime, a repressiva e a preventiva, nada funcionará. No entanto, isto é diferente do proselitismo de palanque de Lula que acusa a falta de investimento em educação nas últimas décadas como se agora houvesse algo neste sentido. Com o ECA e a aprovação automática não há educação que funcione.
 
E quando falo de crime, não estou me limitando a organizações mais violentas como o PCC ou o CV, mas também àquelas mais sorrateiras, como as máfias de roubo de carga de caminhões que dão propina aos policiais. Se a corrupção não for atacada, qualquer verba a mais para carros-patrulha ou armas não contará com um serviço de inteligência. Coisa aliás, que o PCC provou saber usar.
 
Já se disse que o que falta para a completa “colombianização” da sociedade brasileira é o crime calar a imprensa. Não precisa, ele a compra. Quando o “cantor” Belo foi preso, cansei de ler que “ele não era o traficante”, como se isto, por si só, fosse algum salvo-conduto para que não tivesse cometido crime algum.
 
Há uma cultura geral que vê no mafioso uma espécie de don, um “uomini d’onore”. Isto não é só influência de Hollywood. Por anos não só italianos como muitos mundo afora admiraram o homem de raízes humildes que respondia aos insultos valentemente e acima da lei, um justiceiro que se torna “a lei”. Analogamente, muitos brasileiros vêem a solução na volta dos grupos de extermínio.
 
Descobrir os canais de autofinanciamento do narcotráfico via lavagem de dinheiro é coisa que nosso congresso não fará, infelizmente, pois isto atentaria contra si próprio. Daí, ao bom e velho estilo colonial, criamos um pacote de projetos de lei contra o crime. Hoje em dia, o dinheiro que movimenta o crime é o mesmo, mas as polícias não o são. Sem um plano nacional, para não falar em conexões externas, como podemos querer enfrentar o crime organizado?
 
Mas, vejam bem, discordo da idéia de um grande polvo, com numerosos tentáculos que se espalham, como se nossa máfia fosse apenas uma subsidiária de um cérebro internacional. Se fosse assim, seria mais fácil, muitíssimo mais fácil desbaratar o crime organizado no Brasil. Na verdade, enquanto a mídia em peso avalia a atual situação como um confronto ao estado e a ordem vigente, como se o PCC fosse uma agremiação anarquista revolucionária, o que existe é um conluio com frações da própria burocracia estatal. O crime organizado é muito mais Lênin que Bakunin, por assim dizer.
 
O Brasil não só é um país emergente, como também é um país de máfias emergentes. Transporte e rotas da droga, venda de insumos destinados ao seu refino e comercialização e, principalmente, o fato de ser um paraíso para a lavagem de dinheiro, colocam o Brasil como um terreno fértil para o crime. Deveríamos começar procurando as atividades “limpas” que tiveram sua acumulação inicial com dinheiro sujo.
 
A máfia é uma velha que não teme a modernidade. Enquanto a cocaína tem um refluxo mundial, o Brasil se empenha na produção de novas drogas sintéticas, como o ecstasy. Custos menores e mercado afluente, facilidades para a compra de imóveis com seus lucros etc. são alguns dos motivadores desta organização no país.
 
Se encontrarem cocaína no Mato Grosso, as autoridades locais não investigarão de onde veio ou para onde iria. As polícias estaduais não têm método de trabalho em conjunto e o assunto morre aí. Nossa integração e capacidade de operação são também outro forte incentivo à criminalidade. Muitos confundem federação com isolamento das unidades políticas. Nós temos a polícia federal, a justiça federal, o ministério público federal, n-órgãos estaduais e vários estados que não apresentam sinergia entre si. Como fazer? Quem leva multa quando comete infração em outro estado? Francamente.
 
O que se veiculou quando a crise apertou em São Paulo? “Quem puder, saia de São Paulo.” Pode? Sim, pode, com a nossa mesma típica perspicácia, foi um sonoro “fuja!” Não passamos de cordeirinhos amedrontados com os uivos de lobos que nem vemos.
 
No início da década, Guaraci Mingardi[2], secretário de serviços públicos de Guarulhos em São Paulo, afirmava taxativamente, sobre o PCC e o CV que “não temos crime organizado do porte da Máfia no Brasil (...) o comando [vermelho] saiu de cena e se pulverizou. Quanto ao PCC, é uma organização de cadeia, como a Camorra napolitana. Mas não sabemos se ele tem poder de fogo fora da carceragem.”
 
E agora, será que sabem?
 
 


[1] A antropóloga Alba Zaluar que já se debruçara sobre o tema em seu A Máquina e a Revolta afirmou que o ocorrido em São Paulo corresponde a um movimento comum de “bolivianização” da América Latina. Em sua visão, como uma sublevação das “classes oprimidas”.[retorna]
 

[2] O secretário é um sociólogo que em estudo para o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, dividiu a criminalidade nacional em duas vertentes: a tradicional e a empresarial. Parece que tal dicotomia não deu conta de avaliar até onde uma organização “de carceragem” como o PCC conseguiu chegar. [retorna]

Sexta, 19 Maio 2006 21:00

Rios da Ignorância

Acho difícil provar isto, mas tenho a impressão que há menos realmente “atingidos” por construções de infra-estrutura energética do que agricultores de fato dentro do MST.
Tenho andado pelas universidades estatais deste país só sondando... E algo que me chamou a atenção foi uma frase de camiseta onde se lia “pela descriminalização dos movimentos sociais”. O que significa, em bom português, não julguemos os “movimentos sociais”, ou melhor, socialistas, pela lei. Criemos um regime especial para os mesmos. Em suma, descriminalizemos os criminosos! Em um país que passou por reino, império, república velha, estado novo, regime militar, nova república etc., mas os direitos ainda têm exceções como prisão especial para quem tem algum curso de graduação, nada como adapta-los ao novo contexto “politicamente correto”, segundo preceitos chavistas, claro.
 
Entre os inúmeros movimentos “sociais” que nossos participativos estudantes pretendem salvar, está o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), associação que apresenta nítidas ligações com o MST. Acho difícil provar isto, mas tenho a impressão que há menos realmente “atingidos” por construções de infra-estrutura energética do que agricultores de fato dentro do MST. E olhe que superar a farsa do MST não é fácil...
 
Onde quer que haja no Brasil de hoje, estacas fincadas indicando uma futura usina hidroelétrica já pode se avistar lonas de membros do MAB que indicavam (!) ali existirem residentes. Como? Não sei, talvez como alguma entidade da mitologia indígena às margens dos rios. Já que estamos no reino da imaginação, imaginemos um país onde haja um déficit energético em andamento, ou melhor, a galope. E este mesmo país tem um modelo econômico que afasta o capital externo e interno produtivos, especialmente os de longo prazo. Como se não bastasse nossa paquidérmica carga tributária que bloqueiam incentivos à construção de hidroelétricas, grupos ambientalistas procuram, na justiça, embargar a obra acusando falta de Estudo de Impacto do Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto do Meio Ambiente (RIMA). Tais estudos necessários, diga-se de passagem, são feitos e, por vezes, comprova-se que a obra pode continuar. Não satisfeitos com resultados positivos, grupos ambientalistas, o MAB e afins invadem o local da usina ou a sede da empresa responsável pela obra.
 
O ato seguinte conta com a participação de uma suposta organização internacional que diz representar interesses e regular conflitos internacionais intervindo para protestar contra quem foi preso, mesmo cometendo assassinato.
 
No dia 17 de dezembro passado, Hina Jilani, relatora para defensores dos direitos humanos da ONU, visitou Santa Catarina. O motivo de sua visita foram as acusações de prisões dos integrantes do MAB que defende, entre outras causas, o ressarcimento dos moradores da área da construção de barragens. No caso, a UHE de Campos Novos em SC. Em 12 de novembro passado, 500 ativistas do MAB ocuparam instalações de outra hidroelétrica, a de Manso no Rio Cuiabá. A sua retórica em prol dos direitos humanos não se estende como deveria aos funcionários da empresa construtora, que foram mantidos por 48 horas pelo MAB. Em maio de 2002, outra tentativa de invasão da usina em construção levou a morte de um vigia. O disparo foi dado com o revólver da vítima por um integrante do MAB e ex-PM! Aí, não há solidariedade da ONU aos familiares da vítima. Mas, a Relatoria Nacional para o Direito Humano ao Meio Ambiente da ONU acusa a construção da hidroelétrica de Manso como “genocídio cultural”.
 
Vejamos, 500 pessoas foram indenizadas pela construção da usina do grupo Enercan, mas outras 300 esperam por indenização. Isto é ou não é uma “indústria da indenização”, correlata a indústria do dano moral que acusa Josino Morais?
 
Diferente do “apagão ético e moral”, talvez o apagão energético demore um pouco a vir, dado o pífio crescimento de nossa economia. Para o governo, a redução de oferta não cria demanda, mas para os populares sem demanda devido à escassez de investimentos, não há relevância em ter ou não ter oferta. Com o freio de mão esgarçado, nossas metas inflacionárias ficam fáceis de ser alcançadas. Bom para a publicidade do “Brasil de tol... de todos”.
 
E nosso Ministério Público Federal (MPF), que mais parece uma sede petista no distrito federal, vai à justiça para impedir o prosseguimento de obras da usina a ser construída em território sagrado indígena. E o faz ancorado em argumentos de antropólogos indigenistas e ambientalistas. O mesmo tipo de ambientalistas que diz besteiras da grossa como a necessidade de preservar a “fauna marinha do rio Culuene”! Até o presente momento, eu não sabia que cardumes do oceano Atlântico pudessem viver em pleno sertão do Mato Grosso... será que peregrinaram de trem até Carajás e depois conseguiram carona? Ou algum profeta que disse que o sertão vai virar mar esqueceu de dizer que os rios do Centro-Oeste também fariam parte do Atlântico? Com este tipo de “argumento ecológico”, melhor chamar o Leonardo Boff e o Frei Betto para falarem de engenharia florestal...
 
A bem da verdade, para que serve este tipo de obstrução judicial? Nem para os antropólogos empenhados em preservar a cultura indígena, como se estes fossem incapazes de decidir qualquer coisa, ou para o MPF que não considera qualquer acordo satisfatório, a empresa Paranatinga doará recursos às tribos da região. Ao final das contas, tudo funciona como mais um imposto, só que informal. Para não dizer ilegal.
 
Por outro lado, não deveríamos substituir o domínio do Direito no Brasil pelo do “esquerdo”, uma vez que qualquer ação contra uma empresa tem um apreço muito maior? A usina de Corumbá IV, ao custo de R$ 600 milhões, cujas reservas são suficientes para assegurar água potável para 30 milhões de pessoas nos próximos 30 anos e energia para impedir cortes em pontos do DF, está impedida de ligar suas turbinas. A justiça federal de Goiás embarga a obra desde 2002. A alegação ambientalista é que a obra não suprirá a demanda por água. Ora, mas e o impacto ambiental que seria de sua alçada e interesse, o que dizem? O que importa é a utilização de qualquer argumento, mesmo com perda de foco, para se impedir o desenvolvimento econômico. O interesse implícito pode ser a estagnação do capitalismo brasileiro ou “apenas” mais um meio de subornar a empresa em questão. Afinal, tudo vale, estamos em ano de Copa do Mundo!
 
Aos trancos e barrancos ...secos, já que as usinas são impedidas de entrarem em operação, temos hoje um saldo negativo de 33 das 42 usinas hidroelétricas em construção no país dependendo de aprovação de órgãos públicos. O caso de Corumbá, o rio está correndo, pelo vertedouro. Sabe-se lá quando a obra for definitivamente aprovada, se não for acumulada água suficiente no período de seca, não haverá reservas suficientes.
 
E quando um membro de alguma ong, como o engenheiro da EcoData, Donizete Tokarski, disse em 1986 que poderia faltar água no DF em 2000, foi chamado de “louco”. O próprio IBGE e a Agência Reguladora de Águas e Saneamento do DF (Adasa), colocam o distrito como a terceira pior das unidades federativas quanto à disponibilidade hídrica por metro cúbico habitante/ano. Não se pode divergir, não se pode discordar... Se o fizeres, vais para um index dos irracionais, segundo o receituário ambientalista. Ou concordas que o problema não pode ser sanado por qualquer empresa em interação com o planejamento governamental ou és excluído dos sãos agraciados por mamãe Gaia.
 
Mas, não deixa de ser interessante observar que o Ibama não empaca qualquer obra. O gasoduto de 500 km da Bacia de Urucu explorado pela Petrobrás já foi assegurado. Será que tem algo a ver com o peso do sindicato dos petroleiros no governo Lula? Ou com qualquer ideologia corporativista endossada pela CUT? Será que toda ong de crédito tem que ser, no fundo no fundo, vermelhinha para ser tratada como séria?
 
Quando nem se averigua se os “atingidos pela barragem” são realmente moradores da região, qual a seriedade do MPF? Por testemunho? Como prová-lo, se não têm escritura de propriedades? Qual a credibilidade desses movimentos e, por extensão, do processo judicial? Sobradinho no São Francisco teve cerca de 25% de seu custo para realocar moradores em novos povoados. Mas, o mesmo não se deu em usinas no Rio Paraná. Eu sempre me perguntei sobre o porquê do tratamento diferenciado. Mais tarde vim a saber o óbvio: nem todos têm registro de propriedade, nem sequer habitavam a região. Apareceram depois, só pela indenização. É claro que cabe ao poder público não ceder, se o caso for de impropriedade. Mas, é justamente o contrário que ocorre.
 
Com este tipo de “consciência” ambiental, que não sabe sequer a diferença entre ambientes marinhos e fluviais, assim como a ação politiqueira de órgãos públicos, o tipo de ambientalismo que floresce no Brasil varonil é um saque ao nosso erário que financia ongs de interesses escusos e, cujos rios da discórdia não levam nem lavam sua ignorância embora deste continente para diluir num mar distante.
Domingo, 14 Maio 2006 21:00

Crise e Ironia

Estão reclamando do quê? A situação da Bolívia e a crise com o Brasil já eram previstas.
Estão reclamando do quê? A situação da Bolívia e a crise com o Brasil já eram previstas.
 
Em junho do ano passado, o governo boliviano impôs um novo regime que aumentava os impostos sobre companhias petrolíferas estrangeiras e estabelecia a custódia das jazidas outorgadas mediante contratos de operação em 1996. A legislação vigente era posta em dúvida.
 
Além de um imposto direto de 32% e 18% de regalias, outros indiretos a utilidades (25%), transações (3%), complementação ao valor agregado (13%) e remessas ao exterior (12,5%) eram criados. O estado boliviano adicionou ingressos de 106%. Segundo o ministro da presidência Ivan Avilés, o decreto instruía os ministérios de Hidrocarbonetos, de Governo e Defesa a “coordenar ações com a finalidade de garantir o domínio do Estado nas jazidas de hidrocarbonetos”.
 
Também foram criadas auditorias sobre outras empresas nas áreas financeira, operacional, jurídica e técnica que visavam a ampliação dos tentáculos da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPFB).
 
O aviso foi bem dado, disto ninguém pode reclamar. Mas, é incrível que nossa mídia em peso focalize a ação boliviana como uma espécie de “crise exclusiva”, enquanto que o mesmo tipo de nacionalismo primário, leia-se protecionismo, sempre foi à base do crescimento da Petrobras. A história prega peças. O mesmo princípio que sempre beneficiou a companhia brasileira é hoje utilizado do mesmo modo ilegítimo, contra ela própria.
 
Tome, caros órfãos varguistas, segurem esta agora. Onde estão os press releases laudatórios do governo?
 
Também em junho do ano passado, o senado americano aprovava um projeto de lei que incentivava o uso de combustíveis renováveis. Objetivo: diminuir a dependência nacional do petróleo importado.
 
Se o governo brasileiro visse nisto a possibilidade de vender biodiesel ou álcool combustível facilmente para os EUA, equivocou-se. O incentivo dado é para o álcool de milho produzido localmente. Morgan Freeman está rindo à toa... o ator é dono de uma das principais companhias que tem como sócio Miguel Dabdoub, um dos principais nomes da pesquisa brasileira no setor. No entanto, a notícia não seria ruim para nós, pois o mercado deles, conforme a demanda, pode futuramente exigir maior oferta de etanol. Aí, o Brasil entra... mas, sem a Alca, não duvido que países como o México, também produtor de cana e a baixos custos não pegue esta onda enquanto tentamos içar a vela de nossa jangada.
 
Sem a Alca, o produto importado é inviável para concorrer com a produção interna que é subsidiada ou qualquer outro membro do Nafta.
 
Se existisse no Brasil uma política externa sensata, teríamos chance. As condições de armazenamento para reserva estratégica de etanol não existem no momento nos EUA. Os investimentos de curto prazo são altos, especialmente quando se sabe que a produção de álcool é só 3% do volume de gasolina consumido no país. Mas, também teríamos que nos adiantar: os americanos prevêem diminuir o consumo de petróleo em um milhão de barris por dia até 2015. O Irã e a Venezuela não perdem por esperar...
 
Quem quiser que fale mal dos EUA, mas se há algo que aquele país sabe fazer é deixar suas diferenças internas de lado quando o assunto é ganhar dinheiro. Como disse Bush “eu aplaudo o Senado por trabalhar de uma maneira bipartidária para aprovar uma lei de energia consistente com a que eu propus em 2001”. Foram 85 votos de republicanos e democratas contra 12. Quatro anos se passaram sem acordo, mas quando a situação apertou e o barril de petróleo no ano passado ultrapassou os 60 dólares, o congresso soube agir.
 
Logo teremos outras medidas para outras fontes energéticas nos EUA e logo teremos mais uma década perdida graças à nossa política externa antiglobalização, anticomércio e pró-terceiro-mundista. Viva los pobrezitos de la América! Que se enterram só até o pescoço por que não têm cabeça.
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