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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Quinta, 27 Setembro 2007 21:00

Conspiração, Eu Quero Uma Pra Viver

Você sabia que a estrela de cinco pontas do PT alude ao pentagrama, símbolo de seitas demoníacas? Símbolo datado do século XVIII por adoradores de Satanás?

(…)
we've got mars on the horizon
says the national midnight star
(it's true)
what you believe is what you are
a pair of dancing shoes
the soviets are the blues
the reds
under your bed
lying in the darkness
dead ahead
and the mercury is rising
barometer starts to fall
you know it gets to us all
the pain that is learning
and the rain that is burning
feel red
still...go ahead
you see black and white
and i see red
red
(not blue)

Red Lenses, Rush

 

 http://www.thepeoplescube.com/

Você sabia que a estrela de cinco pontas do PT alude ao pentagrama, símbolo de seitas demoníacas? Símbolo datado do século XVIII por adoradores de Satanás?

Não é uma triste sina para este povo, cuja terra tomada pelos portugueses foi dedicada à Santa Cruz? Como o pentagrama existe nos jardins do Palácio do Alvorada parece uma prova incontestável que não somos governados por mãos santas.

Na verdade, a estrela dos adoradores do demo é de cinco pontas sim, mas invertida. Para entender o porquê da estrela, a imaginemos composta por cinco triângulos, suas pontas... O triângulo apontado para baixo representaria uma barbicha; os dois triângulos nas posições aproximadas de quatro e oito horas representariam as orelhas baixas de um bode; e os demais triângulos nas posições de uma e onze horas representariam os chifres. Invertida, a estrela simboliza o rosto de um caprino macho que, por sua vez, era o símbolo de Satanás que as tribos da atual região de Israel expiavam, afugentando-o para as montanhas. Era um ritual que simbolizava "bater no demônio" se redimindo de seus pecados.

Querer ver no comunismo uma associação com o satanismo é puro delírio de conservadores religiosos. Fosse assim, a acusação (igualmente paranóica) das esquerdas de que o Pentágono representa o demoníaco pentagrama também valeria: unindo-se os vértices do prédio que é sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos também temos um pentagrama. Nada mais conveniente do que isto para os comunistas.

Na verdade o comunismo é muito pior do que qualquer satanismo. E se fossemos levar a sério à teoria sobre a estrela, os Estados Unidos têm cinqüenta delas em sua bandeira. Mas, para tudo, os teóricos da conspiração têm sua resposta, "alguns dos founding fathers eram adeptos do Iluminismo, também ligado ao satanismo!" E há literatura especializada a respeito, como o romeno Richard Wurmbrand, pastor preso e torturado por Nicolau Ceaucescu, ditador da Romênia. O autor de Era Karl Marx um satanista?, sustenta que o ateísmo e materialismo do comunismo são apenas fachada para um culto de ódio a deus. Segundo os teóricos da conspiração, Karl Marx não era ateu. Se há alguma citação em carta a Engels proferindo ódio a deus está comprovado o culto satânico. Assim como desprezo pela humanidade também pode ser lido através de alguma citação em que demonstra desprezo ao estado atual do proletariado.

Eu só conheço o Marx que li e é este que realmente importa, não os devaneios de quem lê entrelinhas. Quando jovem, bem jovem eu já acreditei em mitos como o Triângulo das Bermudas que forrou os bolsos de gente como Charles Berlitz e também acreditei que os deuses eram astronautas porque li Erich von Däniken. Como se vê minha infância foi muito imaginativa. Talvez para compensar o fato de que eu era muito ruim jogando bola. Mas, deixei de acreditar em tudo isto quando soube que o Caribe é pródigo em ventanias e que há uma seção densa em sargaços. Também recusei a bobagem de uma engenharia fora do nosso alcance, feita por deuses ao ver uma foto de blocos de pedras empilhadas cheias de imperfeições no interior de uma pirâmide egípcia. Por maior que seja nosso apreço pelo sobrenatural, somos demasiados humanos. Nosso desespero ou o que, em doses comedidas, chamamos de "necessidade" é o que nos move. Seja através do lançamento de foguetes em Cabo Canaveral, seja atravessando um mar pleno em furacões e tubarões para chegar à Flórida.

Pelo visto, os satânicos tentáculos já teriam alcançado as elites políticas de nossa sincrética cultura, pois o numero de casas de umbanda em Brasília é tão grande quanto na Bahia. Brasília seria um centro de adoração do demônio. Bem, se há algum "diabo", o safado é o verdadeiro responsável por inflacionar o preço das amantes...

Levar isto na brincadeira e na curiosidade, tudo bem, mas quando cheia às raias da cientificidade de quem vê provas, intenções ocultas é demais. Quem explica o Brasil não são os teóricos de direita ou esquerda, não são politicólogos e outros especialistas. Quem explica o país são antropólogos. Eu já vi por aqui até luterano se converter ao catolicismo para casar no religioso. O mesmo ex-luterano freqüentaria, mais tarde, um terreiro para ajudar um dos filhos. Isto não tem nada a ver com satanismo, isto tem a ver com cultura brasileira.

Parece que todos precisamos temer algo para justificar um polvo com seus tentáculos manipulando tudo ao seu redor. Tal é a leitura satanista de Marx. Interpretação fantasmagórica similar é a que atribui a Darwin, a origem sobre o nazismo porque era comum a sua época se expressar utilizando o termo "raça", o que fez de forma análoga ao de "espécie" em sua teoria da Seleção Natural quando se referiu à humanidade. Novamente, conveniência pouca é bobagem se meu intento é atacar a teoria da Evolução e salvaguardar o Criacionismo. Nesta querela ideológica, todos instrumentos se mostram úteis.

Digam-me, o que a irmandade americana Skull and Bones tem além de um clubinho colegial? Recentemente, ela adquiriu notoriedade devido à antiga participação dos Bush. Qualquer fato ou mera suposição pode muito bem se adequar à teoria, como o de que alunos que não tenham cursado nenhuma faculdade de Direito da Ivy League serem preteridos em grandes firmas de advocacia nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a pluralidade cultural se dá de forma burocrática, com seitas, organizações, clubes. Aqui em nosso país é mais "fluída". Um território continental, antes povoado por tribos em estado neolítico, recebeu levas de africanos e seus descendentes não ficariam imunes ao animismo. Também não me basta o argumento de que a urbanização e o "progresso" diluem isto tudo. Um exemplo de reciclagem de mitos está nesta onda de eco-turismo, fototerápicos, engajamento ambientalista, nutrição "natural" etc., na qual a referência ao culto pagão de Wicca não passa imune. O bom nisto tudo é sua apropriação via mercado, mas por outro lado, também é sintomático que qualquer fiel assentado em crenças mais tradicionais, veja aí algo demoníaco, o retorno daquilo pelo qual sua Igreja lutou durante séculos. É um pavor, não pode ser gratuito, tem que haver alguém por trás manipulando tudo. Simplesmente não se pode aceitar a espontaneidade de várias ações somadas, tem que haver uma "mente inteligente" que tira proveito da situação e, logo, induziu ao atual estado de coisas.

Uma das mais interessantes é a de que o atentado ao WTC seria obra do próprio governo Bush e seus falcões, para obter apoio do congresso americano e fazer suas estripulias no Oriente Médio. E, mais doida ainda é a que aponta uma conspiração dos Democratas para atacar a administração atual. A primeira, obra da esquerda americana que foi, paranóica e devidamente, rechaçada por outra de igual pendor, a de que opositores estariam imiscuídos de um bem articulado plano para reduzir, quando não derrubar mesmo a influência dos Republicanos no governo do país. Choques espetaculares de aviões, implosões controladas, tudo para obter o monopólio do petróleo no Oriente Médio.

E os intentos de tão magnânima operação? O óbvio, o "ouro negro". Como Alan Greenspan afirmou que a guerra do Iraque é pelo petróleo está revelada toda a causa do conflito. Apesar de simplista, a afirmação, o que isto teria de conspiratório? Uma vez que seria o argumento mais previsível, declarado e exposto de todos? "Conspiração" pressupõe segredo, o que não há no caso das declarações do ex-presidente do Federal Reserve. Apenas há a asseveração taxativa de alguém que analisa tudo por uma lógica economicista. Pouco importa, novamente, que foi no governo Clinton que o boicote ao petróleo iraquiano tenha ocorrido e, com uma commodity destas escasseando seu preço tenderia a subir. Ora, se a locomotiva mundial precisa de petróleo mais que tudo a preços baixos, por que boicotá-lo? Para depois, se gastar ainda mais no saco sem fundo da guerra? Simplesmente, não faz sentido. Dizer também que as administrações Clinton e Bush têm estratégias distintas não faz jus às políticas americanas que, em se tratando de ações de longo prazo, não são de governo, mas de estado.

Ainda há outra hipótese, a conspiração cristã por um messias... Seria o próprio Bush? Antes do 11 de Setembro, a prioridade americana estava na China. Por exemplo, o incidente com o EP-3 Orion de reconhecimento e caças chineses. No Oriente Médio, o problema era o Irã com fome de Iraque. A simples possibilidade de este ser tomado, especialmente o sul, na proximidade dos campos petrolíferos sauditas já fazia a luz vermelha acender em Washington. Para os americanos, não se tratava de tomar mais campos petrolíferos, mas assegurar o fornecimento dos atuais, tal como foi o motivo da 1ª Guerra do Golfo por ocasião da invasão iraquiana do Kuwait. Com poucas divisões norte-americanas na região, daí sim uma operação de envergadura se faria necessária sem um necessário atentado ao próprio território.

Não se trata de confiar ou não em Bush, de toma-lo por sábio, ignorante, "iluminado" ou o que quer que seja. Uma coisa é o Bush, sua administração, outra bem diferente é o atentado que alguns chamam de "plano bem arquitetado". Lembre-se que, os maiores inimigos dos ordotodoxos na Europa Oriental não eram os muçulmanos. Os inimigos costumam estar mais próximos do que pretendemos que estejam. No caso dos ortodoxos eram os católicos mesmo. Quero dizer com isto que na briga com Bush e os Republicanos estão os Democratas, como rivais imediatos. Nesta disputa, a primeira vitima é a verdade. Então, se profere a idéia de complôs. Complô para tomar o petróleo, para atacar o Iraque... Ora, Washington não precisaria de tanta acrobacia para atacar quem quer que seja. Razões mais tangíveis poderiam ser alegadas, especialmente com uma oposição mal das pernas, como demonstravam os Democratas.

E o argumento técnico? O Airbus da TAM colidiu com um prédio que não tinha estrutura de aço e o mesmo não ruiu, já o WTC veio abaixo. E o impacto do Airbus foi equivalente aos dos jumbos no WTC? O desmoronamento lá de cima, com todo o peso não traria uma maior força ribanceira abaixo que um avião tentando frear na pista de Congonhas? Sem entrar em considerações técnicas que não são a minha praia, eu pergunto se um plano tão bem arquitetado, caso o fosse, não teria que ter todos seus passos já previstos e tomados? Como então, não pensaram nisto e planejaram mal as quedas das torres deixando que transparecessem ser estruturas frágeis?

Lutar contra o terrorismo pode ser propaganda. Longe de ser consensual, realmente há assessores na Casa Branca que criam nisto. Vide as divergências entre Wolfowitz e Cheney. O primeiro vê os EUA como tendo uma causa, o segundo mais pragmático se importava com o numero de soldados no Iraque.

Se bin Laden não tivesse capacidade operacional para uma operação de tal monta, se não houve divergências entre a CIA e o FBI que levaram a falhas na segurança, então os atentados às embaixadas americanas na África também não teriam sido obra dos fundamentalistas. Bali na Indonésia, Zamboanga nas Filipinas, também não teriam sido obras de grupos simpatizantes a al Qaeda? Seria uma obra do Pentágono... É o que falta aos teóricos conspiracionistas alegarem, assim como dizer que o caso de Wacko no Texas em 1993 pelos davidianos teria sido também algo forjado.

As alianças que correspondem a planos são conhecidas, tal é o caso do apoio americano a Saddam para retaliar Khomeini. Mas, nada aí de ultra-secretas conspirações que ninguém fica sabendo. Apenas, simples realismo político que dita os métodos da Realpolitik entre estados beligerantes, o que não significa que tais estratégias não sejam discutíveis ou condenáveis.

Se admitíssemos que a engenharia norte-americana tivesse que prever tudo, mesmo uma colisão de jumbos, por que uma ponte também não teria que ser projetada para agüentar a pressão e atrito dos veículos até 40 anos depois? O incidente às margens do Mississipi, no estado de Minnesota joga um banho de água fria nas teorias conspiratórias sobre a impossibilidade estrutural das torres ruírem. Não sou físico, mas contra o argumento conspiratório basta um pouco de lógica. Por que em um dos casos de desmoronamento, temos que ter confiança na engenharia que não poderia ter falhado e noutro podemos perdoar a falha ao admitir que foi um mero acidente? Se um raciocínio conspiratório vale para o WTC, por que não deveria valer igualmente para uma ponte na qual alguém também deveria ter tramado sua ruptura? Se não há "algo mais" para se levar em consideração, os "patriotas" só têm paranóia ao acusar os Democratas de conspirarem contra Bush ao derrubarem o WTC. Esta é novidade para mim, eu só ouvira falar da conspiração neocon ou de Israel já que se alegou que "não havia nenhum judeu nas torres que caíram"... Mas, paranóia por paranóia, agora se inventa outra de direita para retrucar a original, de esquerda.

O canal HBO anda veiculando um excelente documentário Protocolos de Sião de 2005, que aborda o ressurgimento do anti-semitismo. A paranóia é tanta que chega a ser hilária. Em determinado momento um jovem afirma que todos os poderosos são judeus, inclusive o ex-prefeito de Nova York, Rudolf Giuliani. Sua prova consistente é a primeira sílaba do sobrenome de Rudolf, "Giu" pronunciada como jew, judeu em inglês. Não é demais?! Não adianta tentar argumentar, sempre se terá justificativas para qualquer conspiração.

Enquanto que algumas teorias da conspiração nunca saem de moda, como atribuir os males do mundo aos judeus, outras são inovadoras, mais ou menos consistentes que, como as demais, são cheias de falhas. A teoria conspiratória da moda no Brasil é a do Foro de São Paulo, organização que congrega lideranças latino-americanas em prol do comunismo, embora os velhos comunistas tenham preferido denominar seu objetivo de modo mais suave como "socialismo". Seus investigadores, articulistas da mídia alternativa em grande parte, blogueiros, uma direita não raro tão ensandecida quanto uma velha esquerda comunista acusam a grande maioria dos cidadãos de ser presa de uma grande conspiração. Reiteram que estamos em plena revolução comunista gramscista onde não se propõe mais uma revolução via proletariado ao estilo bolchevique, nem a do tipo rural, maoísta, mas sim uma cultural. Tomando os centros de divulgação das idéias, das universidades ao mainstream midiático, teríamos a preparação do terreno para a inoculação de idéias marxistas sem que se perceba. Antes de tomarmos ciência do ocorrido já estaríamos todos vivendo em pleno comunismo. "As provas estão aí", dizem. Um exemplo incontestável estaria nas atas do último congresso nacional do PT, nas quais o Foro é citado. Vejamos como é secreta tal conspiração: tão secreta que é mencionada em congresso feito pelo partido governista e veiculada pelos meios de comunicação!

Vejamos um testamento do site Pravda:

É nesse preciso momento que o PT lança a formidável proposta de criar o Foro de São Paulo, trincheira onde nós pudéssemos encontrar os revolucionários de diferentes tendências, de diferentes manifestações de luta e de partidos no governo, concretamente o caso cubano. Essa iniciativa, que encontrou rápida acolhida, foi uma tábua de salvação e uma esperança de que tudo não estava perdido. Quanta razão havia, transcorreram 16 anos e o panorama político é hoje totalmente diferente.

Claro que não se trata do jornal soviético. O famoso jornal teve suas propriedades confiscadas pelo ex-presidente Boris Ieltsin, cujos jornalistas, na sua grande maioria pediram demissão. E o tradicional jornal não tem a ver com novas versões de dissidentes comunistas.

Mas, pesquisando na versão do "Pravda", que muitos tomam como a nova voz do Kremlin, repassada como verdade pelos quatro cantos do mundo virtual, me deparo com um link curioso (em 23 de setembro de 2007) que deve estar contribuindo em muito para a causa desta "revolução continental":

Bárbara Paz vai ser a gostosa de setembro

Tem mais:

Elvis Presley está vivo e mora na Argentina

E, para que não pensem que o site não tem caráter científico vejamos a seção correspondente:

Pescadores russos capturaram um alienígena e comeram-no (vídeo)

A notícia acima pode fazer parte de alguma conspiração comunista também. Subliminarmente, há uma apologia ao velho regime: os russos agora estão tendo que apelar para alienígenas para aplacar sua fome. Como me lembraram alguns amigos, nos áureos tempos soviéticos, seu cardápio mais diversificado incluía apenas criancinhas. Ou pode ser um alienígena-filhote... Já nem sei se é conspiração comunista ou capitalista. Comer alienígenas pode ser retratado como uma evolução gastronômica, já que outrora o mais freqüentemente encontrado, era um bolinho de carne de cavalo estupidamente apimentado no meio de um prato com sopa rala (para comer devagar). Destarte temos inegáveis subsídios para compreender os mecanismos ocultos, que regulam nosso mundo evidenciados na internet: Elvis, alienígenas, Foro de São Paulo... Realmente, Shakespeare tinha razão em dizer que há muito mais entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Parece que o mundo inteiro virou comunista. Quem ajuda ou, em interesse próprio, negocia com a América Latina acaba beneficiando lideranças que são membros do Foro. Logo, em Bruxelas, na sede da União Européia, devemos ter uma seção desta intrincada rede de conspiradores. Entre 2007 e 2010, o bloco europeu irá destinar US$ 614 milhões ao comércio externo para a América Latina. Ora, quem diria? Estão financiando o Foro! Tampouco importa que Evo Morales, presidente da Bolívia tenha lesado o Brasil ao estatizar uma refinaria da Petrobrás. Trata-se de uma "ação entre amigos". Morales, o cocalero bem que poderia ter prometido a redenção aos seus companheiros incas através do mote "a coca é nossa!" Mas, não se fazem mais típicos idiotas latino-americanos como antigamente... Que coca que nada! O que é isto para quem pode ter uma refinaria de graça! O resguardo de ativos de empresas se torna um eufemismo para a perda da soberania nacional. Então, um roubo institucionalizado se faz em nome do populismo e com o aval do Foro. No Brasil, setores de esquerda como nossa CUT que impregnam a Petrobras estariam ganhando na parada, pois são "farinha do mesmo saco". Para rescindir contratos sem aviso prévio basta que não seja mais interessante ao governo em questão e, dane-se a empresa contratada. Ou seja, a Petrobras influenciada pela CUT jogou contra si mesma. Se as mudanças nas leis que regem gás e petróleo na Bolívia e na Venezuela causaram perdas financeiras para a Petrobras em 2006, de mais de mais de R$ 1 bilhão em relação a 2005, tudo não passou de "jogada". Não seria muito mais fácil criar uma linha de crédito para estes países? Precisava toda uma acrobacia geopolítica para lesar uma empresa em benefício de uma organização de propaganda ineficaz de dinossauros comunistas? Alguém perdeu, mas em que pese fatos em contrário, o que vemos não é o que vemos: tudo se explica pelo avesso na lógica conspiratória.

Não vejo racionalidade econômica nas ações bolivianas. Por outro lado há uma centralização política a exemplo do que ocorre na "revolução bolivariana" na Venezuela. Ao se aliar à Venezuela, Chávez tem Lula e Morales nas mãos, se tornando o principal fornecedor de hidrocarbonetos. O caudilho venezuelano, isto é verdade, tem objetivo e seu principal inimigo não são os Estados Unidos, mas o Brasil. Alguém crê que a compra de armamentos por Chávez possa fazer frente aos porta-aviões, submarinos e marines americanos? Não sejamos ingênuos. No entanto, contra o Brasil e suas forças armadas estagnadas e sucateadas, têm sentido os sinais de atrito que se formam ao norte do cone sul. Chávez ainda soube manipular a ideologia ao colocar a Bolívia em sua órbita de influência e tornar o país sem saída marítima um sócio-dependente. Ao descartar a possibilidade de se tornar o principal fornecedor de energia externa ao Brasil, a Bolívia selou seu destino econômico. Se há alguma racionalidade em pertencer ao Foro, ela é antieconômica. Chávez é a real pedra no sapato dos liberais e, ele tem que ser deposto de alguma forma. Sua recente aproximação ao Irã, ora em curso, é um risco inaceitável.

Outro demagogo que perdura no poder é o presidente argentino Nestor Kirchner que instou os argentinos a boicotarem a Shell fechando a empresa no país, para abri-la tão logo a empresa se comprometesse com o investimento em "medidas ambientais". É bom que se diga que a clausura da empresa não tinha nada a ver com meio ambiente, mas com preços reajustados em 4,2%. De um sonoro "não compre nem uma lata de óleo da empresa", o macho de fôlego-curto porteño orçou a liberação da empresa em um módico suborno de US$ 60 milhões. Isto não me parece objetivo nem tática comunista, mas caudilhismo puro. Houve aí uma moeda de troca bem visível em que o estado surrupiou os ativos da empresa para depois barganhar sua devolução. Diferente de uma estatização geral comunista, o que vimos foi mais uma excrescência latino-americana onde contratos e propriedade não valem nada.

Querem apostar que o saldo final da ação de grupelhos esquerdistas que querem reestatizar a Vale do Rio Doce redundará em uma "saída de consenso", na qual a empresa será obrigada a pagar mais por sua atuação? Esta não é uma nova forma de arranjo produtivo, é apenas o típico despotismo do cone sul. Por outro lado, no Brasil, antes de um setor produtivo se firmar, como é o caso da infra-estrutura, a empresa privada é incentivada a ampliar sua presença. É o caso das estradas que podem ter mais concessões à iniciativa privada. Onde está o comunismo aí? Nosso risco real é de uma "mexicanização política", com um partido se sustentando por décadas através do puro fisiologismo na criação de dezenas de milhares de cargos comissionados. Este aparelhamento do estado brasileiro, seguido igualmente em esferas estaduais e municipais visa tornar a máquina pública um mero instrumento partidário.

Esse negócio de Foro está fora de foco. Pois o que se vê são ações parciais, ora estatizantes, ora tributaristas, ora liberalizantes às vezes dentro de um mesmo país. O que importa é arrecadar, arrecadar e arrecadar e quando não há capital constituído se incentiva o mesmo para depois, quem sabe, lesa-lo. Isto vem de antes de qualquer Foro, isto vem de Vargas, Peróns i tutti quanti.

Mas, agora que o influente jornalista Ali Kamel comentou a manipulação político-ideológica nos livros didáticos, muitos setores que acusam as teorias conspiratórias têm sua prova. Embora o jornalista, sabiamente, rejeite a formulação conspiratória no inicio de seu texto, muitos dos que leram, interpretaram o que quiseram. Há tempos venho afirmando isto em relação às provas de vestibular, assim como outros antes de mim em relação à educação de uma forma geral. Doutrinação esquerdista nas escolas não têm a ver com um plano, uma conspiração bem montada que só agora se revela. Veio bem antes de qualquer Foro, assim como leis ambientais não são fruto de uma conspiração de ONGs estrangeiras e da ONU para formatar um governo mundial antinacional. Algumas de nossas leis de preservação ambiental foram criadas durante o regime militar. O Código Florestal, por exemplo, data de 1965, ora bolas! Vão me dizer agora que os militares brasileiros também eram comunistas?

Há quem atribua a Gramsci a autoria desta estratégia. Isto é ingênuo. É puro delírio atribuir ao preso político do fascismo, um plano que está em plena execução na América Latina. Alguém aí já leu Gramsci? Eu li A Questão Meridional sobre o Mezzogiorno italiano, muito referenciado por "geógrafos" para "entender" o Nordeste. Fora deste círculo, nas "Ciências Sociais", o livro passa desapercebido. Se há algum "mérito" em Gramsci é ter analisado a esfera política como portadora de uma "autonomia relativa", como não o fez Marx devido a sua carga teórica economicista.

Outra é dizer que FHC é especialista em Gramsci… Bem, se for tão "especializado" como foi em suas teorias sobre o desenvolvimento feitas para a Cepal, isto não significa muita coisa. Mais uma: "Marilena Chauí é a intelectual que embasa o PT". Lendo a professora de filosofia, eu apenas vejo uma caroneira em defesa do partido, nada mais. Seus argumentos não chegam nem a ser um escorregadio wishful thinking, de tão toscas que são suas tentativas de justificar as falcatruas petistas. Isto não quer dizer nada, o que diz algo é o que acontece. Por exemplo, o Chile não destruindo reformas via Pinochet, Colômbia em rota de colisão com uma Venezuela (já dividida internamente)… A América Latina se explica mais pelo que conhecemos, o caudilhismo (travestido de comunismo com nova roupagem chavista) que qualquer outra coisa.

Atualmente, o Chile da "esquerdista" Bachelet está prestes a integrar o grupo Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e intensificar políticas liberalizantes no comercio externo. Alguma coisa não bate... Depois que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) foi derrotado pelo Partido da Ação Nacional (PAN) no México, alegaram que o país estava se submetendo ao Consenso de Washington em reformas liberais. Mas, agora o mesmo PAN propõe um novo imposto de 5,5% aos combustíveis a partir do ano que vem. Alguma coisa não bate de novo. Isto é América Latina, onde o estado sempre se antepôs à sociedade. Não há liberalismo strictu sensu por que não há movimentos antiestatistas legítimos. Em que medida um PL é liberal? Em que medida o PSDB traçou política social-democrata? Nada, nada e nada. São somente rótulos. E mesmo os que se dizem liberais, ao tomar o estado se vêem premidos por uma crise de governabilidade devido à falta de fundos carcomidos pela burocracia. Comunismo? Não, parasitismo mesmo.

Imagine se o PT (no governo federal) vai querer estatizar, ao invés de, simplesmente, tributar mais. A segunda opção é muito mais eficaz para seu roubo institucionalizado. Ao invés de pôr os brasileiros a trabalhar para o estado, apenas se toma o fruto do trabalho criado sob a égide produtiva do setor privado. Quer melhor do que isto? Vejo o que acontece e não o que direita e a esquerda dizem que vai acontecer. Hoje, o Brasil "apenas" exagera seus vícios de longa data que, aliás, não deixaram de existir em plena ditadura militar. Durante o período, estes apenas foram mais centralizados.

Voltando à manipulação na educação... A maioria dos estudantes não engole nenhum lixo didático denominado "livro", como o descrito por Kamel. A maioria não engole nada. Nos áureos tempos do comunismo, o materialismo histórico e dialético era ensinado como educação moral e cívica no extinto paquiderme soviético: os estudantes saíam aliviados das salas de aula por mais uma sessão de tortura mental encerrada. Nada além disto.

Acho engraçado quando alegam que os professores universitários, notadamente da USP terem lido Gramsci, seria uma prova incontestável de seus intentos manipulatórios. Ainda bem que eles, professores da USP, leram Gramsci, pois é obrigação de um politicólogo ou sociólogo conhecê-lo. Eu também li. Vai ver que é por isso então que estou argumentando em contrário: fui infectado!

Em Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, Gramsci nada mais faz do que tentar justificar Maquiavel para os marxistas. O que faz mal, pois para Maquiavel o fim justificava os meios e para marxistas, em geral, o método tem que ser "dialético" (entre aspas, por favor).

O que explica a realidade não é, nunca foi e nunca vai ser um medíocre como Gramsci. É Maquiavel quem explica. Por isto gosto de maquiavelistas (o que difere do simples adjetivo "maquiavélico"), aquela linha da ciência política que, realmente, objetiva a pesquisa percebendo formas de dominação em qualquer estrutura política. Nos dando, assim, a chance de escolher a "menos pior".

A educação marxista não foi casual, o que não quer dizer que foi "arquitetada". Ela se deu porque é mais facilmente digerível. Tem uma "lógica" própria onde "tudo se explica". Desobriga o sujeito a pensar muito. Como disse Popper, uma vez que a coisa toda parecia ser científica até mesmo, cientistas fora do circuito das humanidades (biologia etc.), se diziam "marxistas".

Portanto, nada de estratégia como se a educação fosse um detalhe de um plano maior de domínio. Ela antecedeu tudo isto. E hoje, tudo o que resta é uma acrobacia teórica para tentar justificar fenômenos familiares como a corrupção, patrimonialismo, nepotismo, fisiologismo como "de esquerda" enquanto que são apenas, tipicamente, brasileiros.

Não creio em Marx satanista. Não creio nos custos justificáveis de atentados forjados para se ativar uma operação militar. Não creio em congregações de chefes de estados-pária como tendo sinergia geopolítica. Não creio em um polvo chamado "ONU" e seus tentáculos de ONGs. Não creio na organização inteligente do professorado, esta classe que vê educação apenas como um reflexo de seus contra-cheques. Não creio na perspicácia e articulação de tantos agentes com interesses díspares que são facilmente cooptáveis, seja por um cargo de confiança, seja pelo sinal de crédito fácil a título de saneamento ambiental. Não creio em nada, apenas creio que muita gente precisa acreditar nisto tudo.

Tais crenças não são coisas antigas e datadas. São elementos bem atuais, assim como a aspirina, com a diferença de que a necessidade de explicar o mundo com urgência nos trai. Caros crentes, vocês não têm nada a temer, o mundo cético e empirista não triunfará. Vocês têm o mundo em sua imaginação.

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* Agradeço a André Balsalobre as dicas sobre a situação geopolítica envolvendo os Estados Unidos no contexto pré-2ª Guerra do Golfo e durante o decurso das operações.

Sábado, 15 Setembro 2007 21:00

O Troco

Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral.

Um dia normal da vida de um brasileiro. João vai ao banco sacar dois valores em separado para prestação de contas a terceiros. Explica o porquê à operadora e pede que seja o valor exato. Como se trata de uma associação de moradores, uma entidade pública sem fins lucrativos, mas que pode receber incentivo municipal há muitos inimigos. Sempre os há, quando se envolve com dinheiro. A funcionária do banco estadual pergunta se são necessários os centavos restantes (embora, o cliente já tivesse avisado que sim). Como a resposta foi afirmativa, lá vai a funcionária mal humorada recolher dois centavos que faltavam. Não encontrando, lhe forneceu dez centavos. Ao agradecer pelo gesto de boa vontade num país onde obrigação é interpretada como "favor", o rapaz guarda seus centavos e o rosto em desaprovação da funcionária.

Ao sair devagar, algum funcionário interpela a moça do caixa com dinheiro trocado ao que ela responde para ser bem ouvida "já dei dez centavos para ele!".

O que temos aqui, um erro repetido: a indisposição ao dar o valor exato e a entrega de valor excedente como se não fosse importante, como se a contabilidade de centavos inexata fosse supérflua ou incongruente. "Como eu não dou valor para o que dou a mais, como tu podes me exigir dois centavos?" É o que faltava ser dito para coroar a situação.

Mas, não termina aí. Ao sair da agência, um outro cliente ironiza a situação perante o detector de metais: "não tem revólver aqui na bolsa, não!" Se sofrem assaltos é incompetência da segurança. Pouco importa se para obter segurança, todos tenham que tomar medidas de… segurança! Isto é lógica, mas o que é a lógica senão um detalhe neste país?

A comparação com outro país é inevitável. Certa vez quando estive na Austrália fiquei admirado no supermercado. Como recém chegado tinha dinheiro grosso nos bolsos para qualquer eventualidade no outback e, ao trocá-lo no caixa, a atendente ergueu um saco cheio de moedas para me dar o valor exato do troco. Sem reclamações.

Claro que isto não deveria ser comum. A maioria das pessoas deveria sair com dinheiro picado para facilitar as compras, mas um dia na vida teve que trocar pela primeira vez. A situação normal, embora de baixa freqüência é respeitada como uma casualidade.

Não sei se eu que entendo tudo errado ou este país é que não tem lógica. E esta maneira de pensar faz com que se interprete errado, pequenos atos cotidianos ou até mesmo outros, com reflexos de maior envergadura na política nacional:

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse nesta quinta-feira que encomendou a confecção 78 broches com a inscrição: "eu sou 35″. A frase é uma referência ao placar da votação secreta de ontem, que absolveu o presidente do Senado, Renan Calheiros, no processo por quebra de decoro. Renan teve 40 votos pela absolvição, 35 pela cassação e seis senadores se abstiveram.

"Mandei fazer 78 bottons [broches] porque sei que o Renan, o Wellington Salgado [PMDB-MG] e o Almeida Lima [PMDB-SE] não vão mudar de opinião até o final da terceira representação. Já os outros que votaram contra e ou se abstiveram, quem sabe [mudem de opinião]", afirmou Cristovam.

"Cristovam encomenda broches 'eu sou 35′ para senadores que votaram pela cassação." Folha Online, 13/09/2007.

Ainda aturdido pelo que ouvira no rádio, minha mulher logo sacou a malandragem. Se tratasse de distinguir realmente quem votou pela cassação deveriam ser confeccionados apenas 35 broches! Se fosse para mudar a opinião dos que importam, excetuando os três mencionados pelo senador do PDT, deveriam ser 75 broches, no máximo. E, por fim, se fosse para angariar apoio de todos que votaram contra ou se abstiveram, deveriam ser 81, pois foram seis senadores petistas que optaram pela abstenção.

Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral. Mas, o jornalista que relatou esta notícia o fez pensando por vias totalmente tortas.

Diferente do que poderiam pensar, não vejo nisto uma conspiração, mas um sintoma. Como disse o Janer Cristaldo, "Renan fez ameaças explícitas (…) e explicam em parte o veredito do Congresso". Só a lei do silêncio explica o comportamento da elite política brasileira. Por outro lado, querer algo mais de um Congresso que já teve chances de incriminar nosso presidente e não o fez é ingenuidade.

Bem, com este exemplo, muitos diriam, o povo age da mesma forma… Não penso assim. O que se apresenta regularmente para nós e que, proporcionalmente, negamos como se fosse uma ilusão óptica é que o Congresso nada mais é do que um reflexo do cotidiano do brasileiro em sociedade.

Este é nosso troco pela falta de moedas, que vêm com juros altos.

Solução? Só com choque cultural, "globalização de gente"… Ou se muda a cultura, ao menos parcialmente, já que "pacote completo" não se compra nestes casos ou estamos fadados a uma dívida sem consciência.

Quarta, 08 Agosto 2007 21:00

Uma Questão de Ponto de Vista

Cheguei a ouvir que os atletas cubanos obrigados a voltar para casa pela ditadura castrista foram, na verdade, expulsos pela administração do PAN em benefício do Brasil!
Shhhhhh... Take a look in these eyes
Do they look sincere?. Do you read my lips
Do I make it clear? Bye bye so long,
I don't want you here...

Yeah, I tried to share your points of view
If not all then maybe just a few
I couldn't win on a compromise
I'd rather loose on my own
'Coz I feel kind of good when I'm all alone
And if I take a stand it'll be my own
Get out of my heart.
And my mind..
And my home...
Point Of View, D.A.D.

 

Os pontos de vista mudam assustadoramente, conforme o objeto avaliado. Em 1975 na Irlanda do Norte, grupos armados que chamaríamos perfeitamente de terroristas nos dias atuais, entraram em choque sem ter como alvo forças armadas britânicas, mas a população civil. Mataram mais do que os atentados à bomba em anos anteriores, mas dependendo do ponto de vista, eram “paladinos da liberdade” contra a opressão e o imperialismo. É difícil compreender uma cisão religiosa entre católicos e protestantes no século XX, em plena Europa Ocidental, mas ela existiu.
 
Organizações trabalhistas, sindicais costumam expressar apoio mútuo mundo afora, independente das condições políticas e sociais que vigorem em cada lugar específico. O único governo constitucional que contou com o apoio católico e protestante na Irlanda do Norte foi derrubado por uma greve do funcionalismo desencadeada pelo Conselho dos Trabalhadores do Ulster (UWC) em 1974. Mas, quem hoje em Hollywood se lembra de fazer um filme com alguma pobre família sendo vítima da ação sindical? Ora, sindicatos defendem o trabalhador, não é o que dizem? Se ajudaram a acirrar ânimos e disputas religiosas alhures é só um detalhe...
 
Nos anos seguintes, a guerrilha (ou seriam os terroristas?) católica e protestante continuou atacando civis indefesos de ambos os lados. O objetivo não pode ser limitado ao temor e terror trazido aos habitantes de pequenos vilarejos. Ele tem um subproduto desejável: a simpatia popular. Isto não diz respeito somente a conflitos religiosos. Diz respeito a qualquer movimento de massas em que a racionalidade não é prioridade. Quem ainda espera pela Razão não entendeu por que fenômenos bizarros como o Nazismo cresceram. Analogamente, seguindo o mesmo princípio, quando torcedores brasileiros no Pan gritam “Osama, Osama estão manifestando o quê? Algo equivalente seria uma partida nos EUA com sua torcida gritando “TAM, TAM, TAM”. Simpático, agora?
 
Objetivos pressupõem racionalidade, mas os métodos contam com forte ingrediente de irracionalismo de massas. Mesmo que uma guerrilha rural não atinja diretamente seu objetivo explícito, ela atinge outro, tácito, o de bloquear as atividades produtivas do país trazendo um clima de ingovernabilidade. Foi assim na China de 1940, no Vietnã, no Camboja etc., o que não se atingiu na Malásia ou nas Filipinas graças à eficácia da administração civil. Não é a toa que estes são países que ingressaram antes no clube dos “tigres”, industrializados e exportadores. A China e o Vietnã também o fariam, só que bem mais tarde e, o paupérrimo Camboja só recentemente saiu de um mar de disputas entre guerrilhas.
 
Qual o clima político brasileiro, latino-americano em geral? Manifestações estúpidas e erráticas de uma torcida que “queima seu filme” para as Olimpíadas são, em parte, reflexo de uma administração que serve como espelho da sociedade. Não fosse por isto, como reeleger um governo claramente corrupto? Enquanto que teóricos da conspiração temem por nossa Amazônia, se esquecem do velho e presente inimigo interno. São minorias como o MST, como o MTST, como o MAB quem ganham terreno. Sim são minorias, mas são minorias que encontram eco em uma maioria apática. Desiludidos com as instituições se agarram no primeiro tronco flutuando em meio à inundação. Para onde vai? Provavelmente desaguar e ficar a deriva.
 
Em uma situação de ingovernabilidade, quem ganha apoio é porque mostra um mínimo de organização. Esta é a situação do crime organizado. E o comércio ilegal de armas apresenta sinergia com o tráfico de drogas, embora nossas autoridades até bem pouco tempo atrás o negassem. Se não há apoio interno, se busca fora. Este foi o caso do apoio externo a MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola) e a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola). Quem ganhasse, teria Moscou ou Washington, alguma capital européia ou Havana como aliada. Quando ouvirem falar em “guerras de libertação nacional” não estamos à frente de libertação alguma, quando lerem “República Democrática Alguma Coisa” é porque não se trata de democrática coisíssima nenhuma. E la nave va...
 
Tome as rédeas porque se não o fizer, outros o farão. Quando o governo indiano apoiou a independência de Bengala Oriental em 1971 (atual Bangladesh), o Paquistão acusou a Índia de intromissão e expansionismo, mas para os bengalis era uma luta justa. Ambas justificativas eram verdadeiras, mas cada lado enfatiza o seu ponto de vista, somente isto. O que mudou foi à utilização, mais maquiavélica, do apoio interno, pois ao invés de ocupar regularmente a região, a Índia fez uma ocupação “homeopática” só na medida que seus simpatizantes bengalis assim necessitavam para suprimir a oposição. Esse negócio de exército regular é mantido por poucos. Os EUA de George Walker Bush são um dos que estão na contramão da moderna estratégia geopolítica.
 
Para estudantes estrangeiros na Europa, como os que facilitaram a entrada e estadia de terroristas palestinos na Alemanha em 1972, o Welfare State contava menos que o Pan-Arabismo. E se fosse hoje, qual seria a reação? Consternação ou simpatia, ainda que parcial? É notório como a percepção acerca de um fenômeno social pode mudar ligeira ou amplamente no espaço e no tempo. Obviamente que a mídia, enquanto meio de expressão tem um papel nisto. O antiamericanismo, antiocidentalismo, anticapitalismo e tuti quantti têm um peso considerável nisto tudo. Terroristas ontem, “guerreiros da liberdade” hoje. Ou o contrário, em Rambo III, o personagem de Sylvester Stallone luta ao lado dos mujahedin contra os soviéticos em defesa da Liberdade. Após o 11 de Setembro, os EUA ao lado das forças do norte do Afeganistão atacaram uma facção dos tais guerreiros que formaram uma tal de Talebã.[1]
 
Não se trata de uma massa amorfa e alienada pelo capitalismo, como poderiam afirmar Marx ou Bento XVI, mas principalmente de quem detém uma visão sobre o quê. Para os ultradireitistas, é sempre o comunismo internacional financiando as guerrilhas e o terrorismo, para a extrema-esquerda, a CIA está por trás de tudo, inclusive do atentado às Torres Gêmeas! Loucos e fanáticos não são vistos como o que são, loucos e fanáticos, mas como “manipulados” por forças ocultas, insondáveis. Se tais forças existem e têm atuação espasmódica, isto ocorre por que o caldo de cultura já existe. Mas, querer crer na onipotência de tais organizações secretas é demais. Elas seriam poderosas porque ocultas, secretas e tão, mas tão “insondáveis” que muitas das teorias conspiratórias andam totalmente explicadas pela internet...
 
Quais são os critérios morais que deveriam ser adotados? Deveriam ser supra-políticos, além de qualquer marco ideológico, no mínimo, mas não é isto que ocorre. Assim como muitos irlandeses viam o IRA como um bando de assassinos, outros descendentes de irlandeses na América viam-nos como bons garotos. Há aqueles que condenam Fidel, mas absolvem Pinochet e vice-versa. A violência e, no caso, a violência de estado se torna apenas um expediente, para se atingir um determinado fim. O “fim”, o objetivo último tudo absolve, tal qual a miragem de água numa estrada tórrida, que quanto mais nos aproximamos ela ressurge dezenas de metros adiante.
 
Mas, não é tão simples assim. O governo fantoche de Vichy na França tinha oposição sistemática de jovens guerrilheiros que não se renderam ao nazismo, que matavam o inimigo na clandestinidade. Seus métodos eram... Terroristas? Para os alemães na II Guerra, com certeza. Para franceses e ingleses, heróis. Dependendo do ponto de vista eram legítimos, se tomarmos “legitimidade” como uma manifestação de descontentamento frente um exército invasor.
 
E o separatismo? Acho que estamos de acordo que a Noruega ostenta elevadíssimo padrão de vida (muito antes do gás explorado no Mar do Norte), mas quem se disporia a apoiar sua separação da Suécia em 1905, exceto pelos próprios noruegueses? O mesmo não valeria para os sulistas norte-americanos em 1861 antes da Guerra de Secessão? Por que não? Iriam ficar mais pobres, valeu a manutenção da União... São argumentos ex post, não havia como saber à época. O interessante aqui é que alguns que responderiam afirmativamente em um caso, não o fariam em outro. O argumento moral se torna refém da política e nós o adotamos a todo o momento.
 
Se um movimento tem raízes populares, alguns podem argumentar que é, para o bem ou para o mal, legítimo. Mas, quando seus métodos consistem em difundir o terror a milhares ou milhões? E quando a extorsão através de seqüestros é tão freqüente e rotineira que se torna um fim em si mesmo?
 
Mas, que importa isto tudo? Há questões que são unânimes, como quando repudiamos atitudes autoritárias. Cheguei a ouvir que os atletas cubanos obrigados a voltar para casa pela ditadura castrista foram, na verdade, expulsos pela administração do PAN em benefício do Brasil! Há justificativas para todos os gostos... Fanatismo ideológico, teorias conspiratórias são, afinal, detalhes que embasam as percepções.
 
A conta-gotas, homeopaticamente, nos acostumamos ao terror e à tragédia. Terrorismo aqui? “Viagem”... PCC? Não chega a ser... Tragédia nos meios de transporte? Só se for em uma aeronave que não consegue frear, pois mais de 680 morreram só nas estradas federais em pouco mais de um mês e não nos indignamos de tão anestesiados que estamos pela loucura cotidiana. Tudo não passa de uma questão de ponto de vista. Se a violência for dada em doses homeopáticas, tudo bem.
 
Um bom acordo, diz o ditado, é aquele em que nenhuma das partes sai 100% satisfeita. Existe o preço do vendedor, o preço do comprador e o preço justo... Não. O que existe é o preço de mercado. É com a expansão do mercado e sua lógica concorrencial que as partes se tornam mutuamente dependentes e as guerras, paulatinamente, se tornam antieconômicas. No mercado interno e externo, as tragédias aéreas, terrestres diminuem. As empresas têm o ônus de investir segundo prioridades e, obviamente, a segurança virá em primeiro lugar sobre a estética de rodoviárias, portos e aeroportos que trazem uma vaga sensação de ordem e desempenho político.
 
No mercado político, os governos têm que se ater a políticas de estado. Se este têm o monopólio legítimo da violência, como já disse alguém, também têm a obrigação compactuada com segurança sobre a segurança, isto é, sua fiscalização. Trata-se de mais um ponto de vista, mas um ponto de vista baseado em custos e benefícios, não em uma miragem ou proselitismo político-partidário.


[1] Nem todo guerreiro anti-soviético constitui, necessariamente, o governo fundamentalista talebã. E nem os EUA poderiam adivinhar que parte deles, que foi financiada e apoiada para resistir ao avanço da URSS (tal qual fez a mesma contra os americanos no Vietnã) se tornaria um foco antiamericanista. Mais do que um movimento religioso, os talebãs tiveram origem e apoio no principal grupo étnico afegão, os patans
Quinta, 19 Julho 2007 21:00

Êta, nóis!

“Diga não a venda do etanol! O etanol é nosso.” É só o que falta ouvirmos sobre este combustível e sobre a possibilidade de efetuarmos um acordo com os EUA que contemple a maioria dos interessados. “Segredo nacional” que não pode ser dividido com os gringos, dizem os protecionistas que já perderam o bonde da história.
Não faz absolutamente nenhum sentido. É loucura, e definitivamente não é do interesse dos consumidores.
                                              Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia sobre o subsídio americano ao etanol doméstico.
 
 
“Diga não a venda do etanol! O etanol é nosso.” É só o que falta ouvirmos sobre este combustível e sobre a possibilidade de efetuarmos um acordo com os EUA que contemple a maioria dos interessados. “Segredo nacional” que não pode ser dividido com os gringos, dizem os protecionistas que já perderam o bonde da história. Quem expropria a riqueza nacional não é o comércio externo, mas o próprio estado através de seus tributos acachapantes. A carga tributária incluída na energia corresponde a 43,7% em média da conta paga pelos consumidores. Se as estatais que controlam a produção energética no país não abrem seu capital para investimentos, qual afluxo de capital pode ser garantido? É da governança corporativa e da transparência, que fogem as estatais.
 
Por outro lado, a obtenção de licenças ambientais, no caso as prévias que não garantem a licença de operação, podem levar até dois anos. Isto muito embora o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) preveja sua obtenção em, no máximo, 12 meses. Estes são alguns obstáculos reais, ameaças reais ao nosso desenvolvimento e não um paranóico “interesse externo”. Quem dera houvesse mais e mais interessados em produzir e comprar o que é nosso.
 
Planejamento também parece ser uma palavra ausente no dicionário de nossos ministérios. Contar com a alta do preço do petróleo para o sucesso do etanol é, no mínimo, medíocre. A perspectiva tem que ser outra, a do rebaixamento dos custos de produção. Nunca é demais lembrar que se para uma OPEP as reservas de petróleo estão “sempre em vias de se esgotar”, esta mentira que tem um propósito definido, o de inflacionar o preço do barril. Para a Agência Internacional de Energia (AIE) se estima a oferta do óleo para, pelo menos, mais um século.[1] O problema envolvendo o petróleo não é de oferta, nem tecnologia, mas sim político regional. São os conflitos e guerras locais que tendem a manter a oferta reduzida. Sempre que se falou que um poço tem capacidade para mais dez anos, ele acabou produzindo por mais algumas décadas.
 
Por outro lado, uma vertente crítica acusa a produção de etanol como causa da inflação do preço dos grãos. Como sempre, é a retrógrada ONU, com suas agências como a FAO e a OCDE, cujas premissas protecionistas e sedução tarifária enfatizaram em relatório um aspecto decorrente da produção. Esta maneira de analisar a realidade é singular: isola-se um setor econômico dos outros, se analisa o reflexo da produção de etanol no preço dos alimentos sem considerar os reflexos na produção em regiões que serão incorporadas à fronteira agrícola como produtoras, nem no campo do emprego que será largamente beneficiado pela estruturação de toda uma cadeia produtiva. Aspectos positivos para que? São “irrelevantes”... Não se os analisa porque afetam pouco os aspectos negativos ou porque o saldo final seria positivo? Silêncio, a ONU, a OCDE e o livro do destino se fecham para nós.
 
Mas, seu custo não se compara ao atual do petróleo. Se há algo que onera a qualidade de vida dos consumidores no mundo, é a escassez energética e no Brasil, o peso do estado. Se os Estados Unidos desejam reconstruir sua matriz produtora de energia, mesmo que parcialmente, aí está uma “égua selada passando debaixo de nossos narizes”. É uma oportunidade única que, independente de quem quer que seja que esteja no nosso governo, não podemos desperdiçar. O preço dos alimentos aumentará? So what? Isto é temporário, pois criará uma demanda que induzirá outras regiões a produzirem alimentos, redistribuindo oportunidades de produção para outras regiões no mundo. Ao final das contas, a maioria ganha e a minoria acomodada terá que se adaptar. Capitalismo sem crises e reestruturação não é capitalismo. Ao final das contas, isto é que torna este sistema tão criativo e dinâmico.
 
Imagine se, realmente, os Estados Unidos conseguirem reduzir sua dependência de petróleo em 20% em dez anos, como quer George W. Bush? Nada melhor para tirarmos a vaca do brejo, seríamos uma espécie de Arábia Saudita tropical, com o benefício de não termos como subproduto, as brigas pelo monopólio da produção que existem entre as oligarquias árabes.
 
E seria uma miopia se vislumbrássemos apenas os EUA. No rico interior paulista, japoneses projetam a construção de mais de 40 destilarias para a produção de combustível para exportação. Negociar com gringo inclui o respeito aos contratos, diferente do que se viu com o “império inca” recentemente. Qual o problema disso? Negociar com “líder bolivariano” implica em se sujeitar às mudanças nas regras do jogo no meio do campeonato. Deve ser efeito da altitude... O que estes novos caudilhos latino-americanos não percebem é que há um grande leque de opções energéticas, dentre as quais a nuclear é a grande vedete e outras, como a eólica têm crescido em demanda.
 
O Brasil já suplantou os EUA como maior exportador de soja. Já atingiu a primeira colocação na produção de carne bovina e agora tem a possibilidade de dobrar sua produção de cana de açúcar. Não nos deixemos levar pelo pessimismo que, confundindo política de estado com governo, nos leva a uma oposição infantil ao etanol só porque parte de um governo do qual podemos discordar em outros (vários) quesitos. O que o Brasil deve ter em mente é que tem, momentaneamente, a faca e o queijo nas mãos. Mas, só por enquanto... Assim como a China fez com as suas Zonas Econômicas Especiais atraindo capitais do mundo inteiro e oferecendo mão de obra barata e desburocratização, o Brasil deveria fazer de modo similar aproveitando-se de sua tecnologia no setor, infra-estrutura (a desenvolver) e fatores naturais favoráveis como o maior período de insolação, por exemplo. Mas, se ficarmos “de frescura” discutindo a “essência do colonialismo agrário” ou qualquer outra bobagem, nos suplantarão fácil, fácil. Vários produtores mundiais estão se adiantando neste quesito e não será por falta de diligência que pecarão. A própria China prepara seu zoneamento agrícola para alavancar a produção de etanol nacional.[2] Se houver sinal de vida inteligente no Planalto, acordos de transferência de tecnologia deverão ser implementados. Mas, “sentar em cima da mina”, como se fazia nos anos 60 e 70 com a exportação de minérios obrigando que cada empresa portasse capital nacional majoritário, só deslocará investimentos e produção para outras paragens.
 
Não só a China, mas também, quem sempre joga para ganhar está mudando a face de parte de sua paisagem rural. O estado do Iowa, por exemplo, não está beneficiando apenas os produtores locais. Já há centenas de pequenos investidores, e outras de porte como a John Deere. Ao invés de tributar “atividades poluidoras”, Washington enxergou nisto a possibilidade de reduzir poluentes gerando mais empregos. E que o Brasil apresenta como vantagem? Solos, clima, mão de obra? Na verdade, uma combinação que faz com que nossa produção tenha metade dos custos da UE e 2/3 nos EUA.
 
Temos mais algumas vantagens. O subsídio ao etanol doméstico pelos EUA é insano, como diz o “governator” Arnold Schwarzenegger. A produção deles é próxima da nossa, mas diferentemente, sua demanda é muito maior. Enquanto que alguns de nossos obstáculos são emissões de “selos verdes” para produção ambientalmente sustentável, de acordo com normas ambientais brasileiras e européias, a produção americana tem reflexos no preço do milho que é sua matéria-prima para etanol e está na base de sua dieta. Há ainda algumas vantagens ambientais, pouco comentadas aqui, como subproduto do bagaço de cana, ainda é possível produzir biocombustível do lixo urbano. E, dá um gostinho especial saber que no longo prazo, os governos que usam e abusam de seus estoques de hidrocarbonetos, como a Bolívia de Morales, o Irã de Ahmadinejad, a Rússia de Putin, a Venezuela de Chávez terão seu poder de barganha diminuído.
 
O problema brasileiro fundamental é outro. A Bahia apresenta excelentes condições para a produção, mas a falta de infra-estrutura e logística, obriga a trazer 80% do álcool consumido de estados vizinhos. E, pior do que isto, sempre cabe a lembrança de que o que traz benefícios ao Brasil a partir do exterior, nem sempre é devidamente aplicado no mercado interno. Não devido a torpe visão terceiro-mundista de que adquirimos “dependência” com a globalização, mas sim porque, internamente, há sempre um “atravessador” que monopoliza tradicionalmente a produção. Seu nome: Petrobras. É a ela que devemos temer. Imagine os estoques de etanol sendo controlados por esta empresa. Alguém duvida que os preços não seguirão sua lógica monopolista ou sofrerão manipulação política?
 
O que falta aos críticos do etanol é perceber que este não será a salvação na substituição do petróleo (longe disto), nem o fruto maldito (através de um suposto neocolonialismo), mas uma entre tantas das formas de se produzir energia. Tal como na globalização se obtém alternativas de comercializar com diversos parceiros, as diferentes fontes energéticas somadas, diversificam a matriz energética retendo altas ou até reduzindo seus custos. A baliza que temos que adotar é o interesse dos consumidores. Isto serve tanto a nós brasileiros, quanto a qualquer povo. Mais do que do interesse de grupos específicos alojados em setores específicos, o planejamento estatal tem que visar a demanda do mercado. É nela que deve residir o foco para contratos e políticas.
 
 
 


[1] “ ‘Todo dia surgem notícias de que as reservas têm um limite ou que são muito maiores do que se imagina. Não parece ser isso que vai definir por quanto tempo vamos usar o petróleo’, argumenta o professor Celso Lemme, do Instituto Coppead de Administração da UFRJ. O que deve determinar até quando o petróleo será utilizado é a velocidade com que os combustíveis alternativos ganharão competitividade no mercado – vale dizer, escala e preços compensadores.” (http://amanha.terra.com.br/edicoes/232/capa01.asp). [voltar]
 
[2] “Mas a introdução do biocombustível não será tão fácil como os próprios chineses esperavam. ‘Fizemos estudos e notamos que não podemos simplesmente passar a produzir no campo matéria-prima para combustível sem ver o impacto que isso poderá ter no fornecimento de alimentos. Com 1,3 bilhão de pessoas, nosso equilíbrio entre terras destinadas ao cultivo de alimentos e garantir que a fome não aumente é algo fundamental’ (...) Segundo o chinês, a falta de terras aráveis na China é um sério obstáculo para o etanol.” (Jamil Chade) Newsletter diária n.º 992 - 09/07/2007 - http://amanha.terra.com.br/. Esta dificuldade alheia deveria ser aproveitada por nós. Até onde nosso Itamaraty enxerga, em termos de visão estratégica, eu não sei, mas se isto não se contempla e, por contraposição, se visa reforçar laços com governos decrépitos como os de Chávez e Morales é alarmante. [voltar]
 
Se preparem, com este calor extemporâneo, logo, logo teremos tempestades, vendavais e, como subproduto, aparecerão os profetas do apocalipse chamando a atenção para mais uma “prova” do aquecimento global com mais bobagens lançadas ao vento como a última palavra em ciência. Mas, como se obtém “provas” neste âmbito?
Se preparem, com este calor extemporâneo, logo, logo teremos tempestades, vendavais e, como subproduto, aparecerão os profetas do apocalipse chamando a atenção para mais uma “prova” do aquecimento global com mais bobagens lançadas ao vento como a última palavra em ciência. Mas, como se obtém “provas” neste âmbito?
 
A EXXON pode financiar uma pesquisa sobre mudanças climáticas? Ela teria “isenção”, ou melhor, o pesquisador pago por ela teria tal traço sobre-humano em sua personalidade? Não, mas isto não impede que a pesquisa tenha papel relevante e objetividade... Uma grande empresa petrolífera, realmente, é parte interessada em justificar sua atividade como não agressora do meio ambiente e, por extensão, não influente em qualquer mudança climática, atualmente mal vista. Mas, uma pergunta, o principal agenciador de pesquisas e divulgações sobre o alardeado aquecimento global, a ONU, através do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) tem tal isenção? A bem da verdade, quem mais recebe recursos para “provar sua verdade”?[1]
 
Vejamos por que não. A ECO-92 foi um prosseguimento da Conferência de Estocolmo de 1972, na qual o Relatório Meadows – que levou a publicação de um famoso e exagerado livro Os Limites do Crescimento – enfatizara a questão ambiental pela óptica de que os recursos naturais estavam se esgotando. Ou seja, o meio ambiente passou a fazer parte da agenda internacional, justamente através de uma preocupação eminentemente econômica. E daí, alguém poderia dizer, o que isto tem a ver com a “necessária” isenção? E eu replicaria com outra pergunta, que leitura a ONU faria disto? A mesma organização internacional que criou organismos como a Cepal, cuja teoria desenvolvimentista foi seu principal esteio teórico-metodológico não poderia deixar de assegurar que para se desenvolver, faz-se necessário economizar os ditos recursos. Agora eu pergunto, o que seria melhor, que a economia do principal recurso econômico (na década de 70 e agora no século XXI igualmente), que o petróleo fosse economizado ou que sua escassez seria bem vinda, pois já teria forçado a uma mudança da matriz energética anteriormente? Em outras palavras, tal suposta isenção só nos levou a empurrar com a barriga um problema que já era latente.
 
E não se enganem, muitos dos que falam em “ecologia” e fazem desta retórica seu ganha-pão são, na verdade, arautos tributaristas que, tal como foi a Cepal, têm no meio ambiente e na Mamãe Gaia um pretexto para sua sanha estatista. Sua prioridade não reside no avanço tecnológico, mas sim no alcance das garras estatais via aumento da tributação.
 
Agora, pensemos um pouco, Al Gore foi vice de Bill Clinton, um membro dos Democratas americanos que, tradicionalmente, têm uma visão mais próxima do Welfare State europeu, isto é, uma visão em que o estado deve atuar mais, propositivamente, dirigindo a economia. E, para tanto, ele tem que, obrigatoriamente arrecadar em maior grau. Nesta linhagem política, a “solução” passa pelas multas, sanções e impostos para daí, quem sabe, obter fundos para a resolução de impactos ambientais. Uma observação: não sou contra as multas, caso haja desrespeito com alguma lei em vigor, mas sou, obviamente, contra altas cargas tributárias permanentes que mais se assemelham a uma guerra preventiva em que nada ficou provado contra um agente econômico acusado de agressão ao meio ambiente.
 
Outra pergunta, não haveria aí, uma forte compulsão para incentivar pesquisas de cientistas que são a priori simpáticos à idéia do aquecimento global por ação antrópica, sem que a controvérsia tenha deixado de existir? Ninguém tem dúvidas sobre o mesmo, dir-se-ia... Outro engano. Há sim, muitas dúvidas...[2]
 
“Não há fatos, apenas interpretações” disse um tal Nietzsche, mas, por que não algumas observações? A premissa pós-moderna herdade do filósofo alemão serve como passaporte para que muitos releguem a busca da verdade, que desdenhem da mesma em nome de uma “vontade de poder”. Tudo não passa de um jogo, mas se dinheiro por dinheiro, recurso por recurso, ambas fontes (Petrolíferas vs. Governos) nenhuma têm isenção, então prefiro “faço ciência para saber quanto posso suportar” do não menos ilustre Weber. Seja lá qual for a fonte, o debate científico existe e deve continuar com base em regras de inquirição propriamente científicas, aquelas que procuram, sistematicamente, refutar as hipóteses mais bem aceitas. Maioria não é critério para verdade em ciência.
 
Se X recebe recursos de quem polui, isto não impede Y de questionar a pesquisa de X, óbvio. Não tão óbvio, mas igualmente legítimo, no entanto, é que X também pode questionar a pesquisa de Y, sem necessariamente focalizar os laços políticos de X (que também existem). O que deveria estar em foco é a pesquisa, não um laço, uma amizade ou uma “concha psicológica”.[3] Recebeste financiamento de algum grupo econômico? Ou de um governo interessado em abocanhar mais do esforço de meu trabalho? Não tem problema, me passe aí teu paper que quero ver se porta erros de procedimento internos a busca objetiva de alguma explicação.
 
A questão do vínculo econômico não seria, portanto, objeto do debate físico-químico sobre o suposto aquecimento global antrópico, mas sim de outro debate científico, o da sociologia da ciência. Ninguém é neutro, mas isto não serve de desculpas para a falta de coerência metodológica. Dizer que todos são parte interessada não exime ninguém de aceitar as regras do “jogo de pesquisa”, estas sim, isentas.
 
 


 
2 - Cf.: Cientistas criticam relatório do IPCC, dentre muitos outros sites, links e bibliografia a serem discutidos no momento oportuno. [voltar]
 
3 - Um psicólogo obcecado por casos de maus tratos na infância não pode ter sua pesquisa, previamente, invalidada só por que sofreu abuso sexual na infância, mas sim por que a mesma pesquisa, eventualmente, não tenha cumprido passos necessários na obtenção, objetiva, de seus resultados. Isto é, o que se critica em um debate coerente é a metodologia adotada e não os motivos (subjetivos) que levaram alguém a se interessar por seu objeto de análise. [voltar]
 
Sábado, 23 Junho 2007 21:00

Democracia e Interesse

Democracia pressupõe conflito sim, mas um conflito regulado (e regulamentado) por regras transparentes.

Não existem em essência “interesses coletivos”. Todos interesses são, no limite, interesses privados. Mas, não raro, quando se demanda por maior força política ocorre a arte da associação. Se eu tenho interesse que meu bairro, localizado em uma área que recentemente deixou de ser rural tenha calçadas, isto vai depender de minha comunicação com os representantes políticos locais e/ou com a própria população. Se esta não demonstrar interesse nisto, terei que me esforçar por convence-la de sua importância. Do contrário, simplesmente não atinjo meu objetivo e fica comprovado que meu interesse particular não encontrou sintonia com o de outros.

Não há neste caso, um interesse coletivo que deixou de ser atingido. A coletividade em questão não achou interessante minha proposta individual, provavelmente por que outros indivíduos têm outras prioridades. O termo “coletivo”, no entanto, goza hoje de um favoritismo, como se fosse o certo ética e politicamente falando. Não é assim. Torna-se mais fácil pensarmos em uma lógica de ação coletiva quando não dispomos do referencial teórico de uma verdadeira democracia liberal. Em uma economia altamente oligopolista como a nossa em que alguns setores empresariais não têm no estado a necessária isenção de interesses políticos e sede por propinas, mas sim um corruptor, se sabe de antemão que jogar segundo preceitos individuais e de livre-mercado é como seguir os Dez Mandamentos numa Sodoma. O mecanismo público de apropriação dos interesses privados que se tornou mais conhecido em nossas latitudes como a malfadada “Lei de Gerson” é uma deturpação do liberalismo e não seu endosso. O que deveria existir para regular os interesses, apenas perverte.

O tão alardeado fracasso da “democracia burguesa” em prol de uma tão utópica quanto nefasta “democracia popular” se constitui em um estelionato sociológico de raciocínios totalitários. Primeiro por que a democracia não é “burguesa”. Burgueses, assim como quaisquer outros grupos têm no regime democrático seu lugar. A raiz do problema está na promiscuidade entre um poder público e os direitos (e deveres) privados, o que se chama patrimonialismo.

Costumamos associar esta perversão só na entidade todo-poderosa chamada de “estado”, esquecendo-nos que ela é, em última instância, um reflexo do que somos como sociedade... Por ocasião da greve da USP, um estudante me disse que “um dos princípios da democracia é o direito de greve”. Pois sim, mas também é um de seus princípios, intocáveis, o de “ir e vir”. Como manter aquele em detrimento deste quando professores e alunos que não simpatizavam com a causa são impedidos de entrar em suas salas de aula? Tão lícito quanto o direito à greve é o de não participar da mesma.

O que não se considera na ação de um agente corruptor incrustado em algum órgão público ou em um militante socialista que finge estudar para se aplicar na política estudantil, é que nossa civilização se apóia, mais do que no conceito de propriedade privada, na idéia de um contrato social. Este pode ser quebrado desde que assumidas determinadas conseqüências. Se eu não quero cumprir com minhas obrigações trabalhistas, este é um direito meu, mas devo saber que sofrerei algum tipo de sanção, que terei que arcar com os efeitos de meus atos. Simples.

Nenhum direito no caso pode subverter o direito à liberdade, o que foi o que se viu na greve dos estudantes da USP. Diga-se de passagem, insuflada, pelo sindicato dos funcionários, o SINTUSP.

Ocorre que a mentalidade de sindicatos não se pauta pela lógica de mercado que é, antes de tudo, uma ação coletiva cujos interesses são privados. Se a greve, realmente, tivesse o endosso da maioria, por que não deixar, justamente, esta suposta maioria decidir por si própria se queria ou não ter suas aulas? Por que o temor? O raciocínio sindical não parte da premissa do livre-arbítrio, ele procura anula-lo tal qual um corruptor procura anular a competição em seu próprio favorecimento.

Democracia pressupõe conflito sim, mas um conflito regulado (e regulamentado) por regras transparentes. No fundo, o que fazem os arautos da “democracia direta” ou da chamada “democracia participativa” é transformar a própria democracia numa “soma de opiniões ignorantes”.

A idéia subjacente é que não deve haver governo (“si hay gobierno, soy contra”), todos devem tomar o estado de direito de assalto e, posteriormente, perante uma anarquia reinante, sugerir um governo sim, porém despótico. Nada de doutrina de governo, mas que se doutrinem indivíduos para um governo alheio a eles, parece ser seu mote. Subverta qualquer arranjo institucional em nome de um vago conceito de “ação direta”. Para meliantes deste naipe, as instituições são apenas blocos de poder em que indivíduos não atuam, se submetem. Mas, o que eles fizeram senão submeter os que não concordavam?

O pior é que democracia pressupõe também uma antítese da insociabilidade. E, behavioristicamente, falando, o que mais se viu, foi a manifestação por parte dos estudantes, de um comportamento de matizes totalitárias. Em que pese seu adjetivo preferido: o “social”. Social isto, social aquilo, não teve na realidade nada de “social” em ameaçar aqueles que pleiteavam um raro desejo no Brasil, o de estudar.

Os socialistas gostam de chamar nossa democracia de “burguesa” confrontando-a com uma mágica democracia socialista. Ora, democracia é democracia, que me perdoem a tautologia. E ela não pode ser contraditória, isto é, que pressuponha a eliminação da própria liberdade de expressão, de comércio, de direito à propriedade etc. A democracia não subsiste também sem o republicanismo que separa a coisa pública (res publica) da propriedade privada. As duas são necessárias e devem ser bem definidas para que nenhuma suplante a outra.

No Brasil, só se começou a falar em democracia como princípio absoluto, em nossas academias plenas de marxismo, a partir dos anos 80, quando o socialismo moribundo da Europa já dava seus sinais mal cheirosos de putrefação. A incorporação do conceito por eles é recente e mal compreendido. Tal qual os corruptos do governo ou os que se beneficiam deles, nossos estudantes grevistas destroem cotidianamente a base da sociedade democrática ao misturar seus interesses privados com o que deveria ser comum a todos, a liberdade de opção.

Sexta, 01 Junho 2007 21:00

O Homem e o Mundo Natural

Não nos cabe ao propor uma tarefa de entendimento da realidade perguntando, metafisicamente, o que é a vida? Mas, sim como ela funciona?

Quando era garoto, na periferia de Porto Alegre onde me criei, havia uma espécie de limbo entre o meio urbano e o rural. De meu edifício de quatro andares, eu avistava um campo onde os bois e vacas pastavam. Não havia uma transição gradual como na maioria de nossas cidades atuais, era abrupta. Acostumei-me tanto a esta paisagem sui generis que ao avistar as paisagens citadinas de hoje, sinto um estranhamento pelo que, na realidade, é “normal”. Como dizia, hoje nosso espaço é marcado por uma espécie de continuum urbano, que vai dos sobrados do centro histórico aos edifícios espelhados do centro expandido, passando por áreas decadentes, chegando nos bairros que contrastam miséria arquitetônica e infra-estrutural com um luxo cercado por uma moderna e quase medieval barreira que, behavioristicamente, simplesmente nos esquecemos de nossa “natureza”. Mas, aí acabo de tocar numa palavrinha que gera um verdadeiro “rebu” na filosofia... O que, afinal de contas, é a “natureza humana”?

Nem sou louco de começar esta conversa. Nem com muito uísque e baforadas de meu Dunhill chegaria a algum lugar. Mas, lembrando do saudoso Popper, não nos cabe ao propor uma tarefa de entendimento da realidade perguntar, metafisicamente, o que é a vida? Mas, sim como ela funciona? Neste sentido, é que recomendo um dos melhores livros que já tive a oportunidade de ler em meus 40 e tantos anos: O Homem e o Mundo Natural de Keith Thomas, em que este arguto historiador analisa nossas sensibilidades e práticas com relação aos outros elementos da natureza do século XVII ao XIX. 

Há duas razões por que vale a pena lê-lo. A primeira se refere a atual coqueluche ambientalista mundial, que muitos atribuem a ascensão da ecologia como ciência. Não, vem de antes, muito antes para dizer a verdade. Outra se refere ao que é, ou ao menos o que deveria ser, um verdadeiro estudo de História por que baseado mais em fatos do que teorias... Thomas mostra como nosso sentimento atual em relação à natureza vem, em grande medida, da Inglaterra Vitoriana. Período e local histórico de intensa urbanização, que gerou sentimentos de frustração, especialmente, de literatos, poetas, utópicos, em geral, que começaram a expressar nas letras uma saudade do mundo que se ia embora. A intensa atividade nas crescentes urbes e o sumiço do canto dos pássaros e suas bucólicas paisagens campestres chamavam a atenção desses escritores. Só que o detalhe curioso é que muitos deles, realmente, não tinham vivido tal mundo, muito menos os duros afazeres da vida campestre. E é precisamente nesta medida que pintavam uma realidade tão idílica.

Em época anterior foi nesta mesma paisagem, mais real do que mental, que nobres ingleses criaram a raça de cão buldogue para matar touros na arena. Escapando das guampas por serem de baixa estatura e pulando com suas fortes patas grudavam suas mandíbulas hipertrofiadas no pescoço dos touros fazendo-lhes sangrar até o último suspiro. Este mundo alterou sua sensibilidade sim, mas justamente com o desenvolvimento dos costumes ligado à mesma corte que antes se deliciava com o chão salpicado de sangue.

Recordo-me agora quando uma das vacas que pastavam em frente a minha morada passou pelo cerca de arame farpado corrompido. A gurizada se atiçou toda e cada um queria ser o melhor na pontaria. Quando enxerguei o animal, seu rabo pingava sangue nas lajes de granito da calçada. Naquela época, eu, um “garoto de apartamento” daqueles com pouca vivência nas ruas ficara embasbacado sem entender o que acontecia. Minha “natureza” era diferente? Minha “essência” era outra? Nada disto. Eu só tive mais freqüência em frente à TV, na qual via Rin Tin Tin e vários desenhos da Disney ou Hanna-Barbera com seus personagens, animaizinhos antropomorfizados. Talvez esta tenha sido a primeira vez que me “relativizei” na minha tenra vida, que me coloquei no lugar do bovino com a cauda encharcada de sangue.

Portanto, não seria um suposto “retorno ao natural”, o que nos tornaria mais “humanos”, como querem nossos novos arautos da metáfora ambientalista. Foi tão somente uma sensibilização que teve data, local e autoria de nascimento que me permitiu, assim como a muitos hoje em dia, pegar e reprimir um moleque daqueles. Não foi uma essência que me fez, não foi um retorno que me orientou, foi um aprendizado.

Quando vejo que em Santa Catarina, onde resido, ainda se cultua a estúpida e covarde “farra do boi”(1) não concluo que se trata de uma “sociedade bárbara”. Não, nada disto, mas sim uma sociedade que ainda não atravessou sua “revolução vitoriana”.

Hail to England!

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(1) Mesmo que, hipocritamente, se mude seu nome.

Quinta, 24 Maio 2007 21:00

Não Seria Netuno?

Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Pois é, algumas vezes eu fui interpelado por crentes no centro de São Paulo. E crentes ali se vestem de acordo, com terno, gravata e portam valises cheias de panfletos coloridos. Alguns ainda em papel couché... Numa destas, pouco antes da (pseudo-)virada do milênio:

-- O mundo vai acabar! Estás ciente disto?! Por isto viemos trazer A Palavra do Senhor.

-- Ora, é mesmo? Por que vai acabar?

-- O homem destrói a si mesmo, peca e difama o nome de Deus.

-- Mas, como pode saber que vai, assim, acabar?

-- Já leu a Bíblia? Temos aqui um folheto explicativo(sic) que mostra que essas coisas que estão acontecendo, terremotos, vulcões são sinais, são sinais da vontade de Deus.

Isso que ainda não tinha ocorrido a tsunami de 2004 no Índico. Se fosse o caso, já estaria atestado o apocalipse. O mundo já deveria ter acabado. Só não sei se Netuno tomaria o lugar de Lúcifer...

Mas, vocês sabem o que é dar quatorze aulas no dia, cujo tema principal foi estrutura geológica e tectônica de placas? Não que eu tenha a profundidade de um geólogo, mas como professor de geografia tenho que tratar o tema para adentrar em relevo, tornando este mais “palatável” para alunos de pré-vestibular. E vos garanto, não é fácil... Daí, ao final de um dia sofrido vindo de Santos para São Paulo, com mochila nas costas por que, por alguma razão estava sem carro, vêm estes dois agourentos me encher a paciência quando o que eu mais queria era um pouco de água encanada na cabeça. Vir me falar de “fim do mundo” foi demais, enquanto eu é que já estava acabado.

-- Olha, eu não estou com tempo agora, mas não é nada disso não. Terremotos ocorrem todos os anos em países como o Japão. A probabilidade de que um seja muito forte ou devastador (por que depende de onde ocorre) é de seis em seis anos...

-- Mas, você não acha que é um sinal?

(Interrompendo) -- Não, não acho, mas me dá um desses papelzinho(sic) que vou ler, prometo.

-- Bem, se o Senhor puder ajudar, nosso trabalho é voluntário, mas aceitamos contribuições de fiéis... de quem possa nos ajudar.

-- O trabalho não é voluntário? Vocês estão cobrando por algo que não concordo.

-- Não se faz nada sem dinheiro nesse mundo.

-- Pois é, eu que o diga... Não, não vou pagar pelo que não concordo. Boa noite.

E fui embora tomar meu banho.

Algo parecido ocorre hoje, só que ao invés de encontrarmos respostas na Bíblia, é Al Gore um de seus sintomas. Autodeclarado “budista”, o político aumenta o séqüito dos que vêem o “grande satã” no capitalismo. Troque o nome de Lúcifer por “aquecimento global” e pouco muda nessa lógica. Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Sábado, 05 Maio 2007 21:00

XX Fórum da Liberdade

Na 20a edição do Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre dias 16 e 17 abril passados, cujo tema foi Propriedade e Desenvolvimento, fiquei um pouco apreensivo pela presença de alguns palestrantes como Frei Betto, consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com Miguel Rossetto, ex-Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Governo Lula.

Na 20a edição do Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre dias 16 e 17 abril passados, cujo tema foi Propriedade e Desenvolvimento, fiquei um pouco apreensivo pela presença de alguns palestrantes como Frei Betto, consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com Miguel Rossetto, ex-Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Governo Lula. Achei que o caráter do Fórum tinha sido corrompido em nome do "politicamente correto", mas felizmente me enganei...

Sem querer desmerecer os demais participantes e outros painéis interessantes, quero discorrer algumas letras sobre as contribuições destes dois senhores.

Frei Betto participou de um painel sobre “As Limitações Legais e Constitucionais ao Direito de Propriedade” com os juristas Ives Granda Martins e Manoel Gonçalves Ferreira Filho no segundo dia de fórum. Na verdade, as colocações de Betto fugiram por completo do tema. O tom de sua análise beirou a “auto-ajuda” ao advogar um sistema pautado na solidariedade. Mas, o que significa construir um “sistema solidário”? Além do que não fica claro como a solidariedade seria organizada, se com ou sem propriedade privada?

Tenho lido gente a qual me oponho. Desde que haja conteúdo no que dizem, sempre vale a pena. Não há, no entanto, nenhum mérito em quem escapa pela tangente de um debate com arremedos de metáforas. Exceto se considerarmos a incrível capacidade de ludibriar. Solidariedade, diferentemente, do que poderia pensar Betto não pressupõe uma limitação ao direito de propriedade. Adam Smith já dizia que o livre-mercado não depende, necessariamente, de um egoísmo como ética em todas as instâncias da vida de um indivíduo (1) .  É plenamente possível (e desejável) que as pessoas se empenhem em atividades filantrópicas, sem interferência estatal. E seria melhor ainda por que não se correria o risco de desvios, ou de institucionalização daquilo que a sociedade pode considerar necessário agora e não mais em outra conjuntura.

Segundo Betto, o problema residiria em nos “excessos”. Para ele, o excesso de governo é o totalitarismo; o excesso de sociedade civil é o anarquismo; e o excesso de empresários é o corporativismo. Mal teve tempo de terminar, o moderador lhe colocou uma posição contrária como ensejo para uma questão, onde o excesso de governo seria sim, o totalitarismo, mas o excesso de sociedade significa pluralidade e o excesso de empreendedorismo, capitalismo. Como esta palavra deve lhe causar alguma urticária, se limitou a dizer que “deveríamos nos envergonhar (sic) do capitalismo”. Talvez a ética católica de Betto seja mais forte do que imaginamos... Embora esta não fosse passível de se aplicar aos leigos, para o direito canônico um bom religioso não poderia ser comerciante.(2)

Ferreira Filho ainda contemplou que se fugiu completamente do tema “propriedade privada” e que o corporativismo vem da Idade Média. Acho importante observar isto, para que não se relacione, indevidamente, um fenômeno contemporâneo do capitalismo com sua própria gênese. O que tem menos a ver ainda com sua forma liberal.

Bem, o show viria mais tarde, dado por Denis Rosenfield, professor de filosofia da UFRGS, ao debater com o ex-ministro Rossetto no painel sobre reforma agrária. Como já seria de se esperar, Rossetto fez uma defesa apaixonada desta política alegando ser mais justa a conseqüente distribuição de terras e seus efeitos, como manter jovens no campo evitando a dispersão na cidade e sua falta de oportunidades. Acho incrível como pode se distorcer tanto o foco de um debate. Pois, até onde sei, a questão era se a reforma agrária implicou ou não em maior produtividade. Se sim, empregos seriam gerados, se não, valeria mais a pena investir na formação de empregos urbanos.

Mas, o que Rosenfield frisou foi que o MST, atualmente, não discute mais a questão se uma propriedade é ou não produtiva e sim, a “função social da propriedade”, conceito vago este que, a bem da verdade, sabemos que pode ser interpretado conforme as conveniências do próprio MST. Para esta sigla, simplesmente não importa mais se uma fazenda é ou não produtiva. Não haveria mais propriedades improdutivas no Sul e Sudeste brasileiros, situação discrepante de outras regiões. O caso emblemático da, altamente produtiva, Fazenda Coqueiros no norte do Rio Grande do Sul, serviu até como motivo para uma instalação nos stands do fórum onde havia o resto das ferragens de um caminhão queimado pela “movimento social”. A militância dos sem-terra utilizou o próprio combustível para queima-lo. Também fica difícil entender o conceito de função social da propriedade quando quem diz lutar por ele queima 130 hectares de uma fazenda. Aplicando a metodologia de Betto, talvez seja por “solidariedade aos piromaníacos”.

Prosseguindo na apresentação, Rosenfield mostrou alguns slides em que, além de garrafas de cachaça jogadas no pasto pelos invasores, havia um galpão em chamas, com madeira pronta para comercialização, que mais lembravam as ações da Ku Klux Klan no sul dos EUA. E, para mim, o mais chocante: um terneiro, cujos tendões nas patas foram cortados. Motivos para estes atos? Talvez, o caminhão represente o ciclo do capital que precisa de um mínimo de agilidade na distribuição de produtos ao mercado; o fogo, um purificador do que julgam o símbolo demoníaco no depósito, um fruto do engenho e empenho daqueles que fazem mais por sua sociedade que qualquer metafórica “função social da propriedade”; a cachaça, a inspiração para os covardes; e, por fim, o animal barbaramente torturado, um aviso da vontade de aplicar sua “justiça revolucionária”. Que explicação pode haver para o terror? O álcool não é, ele apenas ajuda a revelar o que são estes indivíduos.

Uma forma interessante de se entender uma situação social, seja cultural, política ou economicamente falando é se por no lugar de outra pessoa, especialmente quando vinda de uma realidade distante. Este foi o caso de Barun Mitra, pesquisador de políticas públicas de Nova Délhi. Muito estranhou que uma potência agrícola como o Brasil ainda estivesse discutindo a distribuição de terras no meio rural. Sim, parece paradoxal, exceto quando não se enxerga que o que falta não é terra, mas geração de emprego. Obviedades como esta parece nos escapar quando se ouve um Rossetto dizer que o Brasil espantaria um indiano ou francês pelo tamanho de suas propriedades, ao que foi confrontado pelo moderador, com um gráfico que mostrou propriedades médias em outros países, cujo tamanho era muitíssimo maior. A Austrália, por exemplo, me surpreendeu... Mas, pensando um pouco mais, fica fácil entender por que tamanha diferença: um país quase do tamanho do nosso, com uma população inferior a Grande São Paulo, só poderia ter uma baixíssima densidade demográfica e, logo abundância de terras. Rossetto se viu numa “cama de gato”, pois invocou a extensão média das propriedades para, minutos depois, ver sua própria linha de raciocínio voltar contra si próprio! O que lhe restou? Só dizer que média não prova nada, que “média distorce a realidade!” Se antes a propriedade média espantava pelo seu gigantismo, depois ela só distorcia.

Ocorre que esta não é a verdadeira questão e sim que países como a Austrália são altamente urbanizados, não havendo a menor possibilidade de, para se atingir maior grau de desenvolvimento, se questionar a estrutura agrária atual. O emprego em massa está nas cidades, o percentual de agricultores no mundo moderno é cada vez mais baixo. Negar isto pressupõe ingredientes mentais ludditas, pressupõe o atraso, pressupõe o populismo que é o caso do ex-ministro.

Dados concretos derrubam metáforas, pois afinal o que significa enfatizar a “função social da propriedade”, como se a própria propriedade já não fosse socialmente funcional?

 


 

 

Se os organizadores do fórum me permitem uma pequena crítica, só senti falta, dentre tantas formas de analisar a propriedade privada, de alguma consideração sobre a propriedade urbana. Após a Lei 10.257/2001 conhecida como “Estatuto da Cidade”, as cidades com mais de vinte mil habitantes são obrigadas a formarem seus Planos Diretores Participativos. E não podemos nos esquecer de que os mesmos subentendem que deve haver uma função social da propriedade urbana. Em tempos de Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), seria bom que fosse dado o alerta...

 

 

 

 

 

 

 



1-  Disaster relief: What would Adam Smith do? Sobre o que seria a posição de Smith em relação ao apoio às vítimas da tsunami asiática no Índico em 2004. E ainda sobre o cataclismo, conferir o “descaso” dos países ricos em relação aos atingidos: Tsunami aid: Who's giving what.

 

2-  “(...) Decididamente os comerciantes ocupam grande espaço na Idade Média desejosa de mutação. Apesar da Igreja. Sejamos justos: o preconceito anticomercial não é unicamente dela. Vai ao encontro de uma inveterada desconfiança popular contra o intermediário, que vende o que não foi produzido por ele mesmo: ‘Capelista que vende de tudo nada faz’, diz o provérbio. A Igreja não se priva de ir ainda mais longe.

“Ela decreta a proibição da atividade ‘comercial’ a seus próprios membros. O cânone 142 do Código de Direito Canônico é drástico: ‘É proibido aos clérigos exercer, para si ou para outrem, atividade nos negócios ou no comércio, seja em seu benefício, seja em benefício de terceiros’.
“A proibição não tem em mira os leigos, mas predomina a idéia de que não se pode ser, ao mesmo tempo, comerciante e bom cristão: ‘Raramente, talvez nunca, um comerciante pode agradar a Deus’” (Alain Peyrefitte. A Sociedade de Confiança: ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento. Rio de Janeiro : Topbooks : IL, 1999, p.90. Grifos meus).

Quarta, 11 Abril 2007 21:00

Uma Análise Infernal

Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo?
Ao invocar o conceito marxiano de “alienação” e dizer que o mesmo “forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos”, o Papa Bento XVI parte de um pressuposto, o de que as pessoas têm um desejo não satisfeito de realização. Pelo menos, assim pensava Karl Marx, em quem o papa se baseou. Não esqueçamos que tudo em Marx corrobora, teleológica e objetivamente falando, para um colapso do capitalismo. Não fosse isto não haveria nada demais em citar Karl Marx. Nada de mais, bem como desnecessário, pois alienação pode ter um significado bastante genérico como “falta de percepção de significado”. Mas, se entender que o significado de algo corresponde a mudar uma realidade criando um novo mundo, o autoconhecimento enquanto ser alienado para não alienado significa, no entendimento marxiano, passar de “classe em si” para uma “classe para si”. Sim, desconsidera-se o individuo para pensarmos em uma categoria coletiva, a classe social.
 
Para que o conceito marxiano de alienação faça o mínimo sentido é necessário que as pessoas (classe, na linguagem marxiana) tenham o mínimo desejo de mudar esta realidade. Neste particular sentido, “alienação” não é, portanto, um conceito solto no espaço. Ele se prende a uma teoria geral do capitalismo. Isto é diferente de pensarmos a alienação como resolvida ao voltarmos ao estado original da produção, quando um artesão não só produzia, como distribuía o fruto de seu trabalho sabendo muito bem ao que se destinava. Para Marx, esta não seria uma solução, pois não cabia como alternativa a abdicação da crescente utilidade marginal das benesses capitalistas. Assim, não se poderia revolucionar tendo como meta, por exemplo, a miséria feudal.
 
O papa acusa Marx de ter um conceito limitado de alienação, como derivado de seu “materialismo” entendido aqui como economicismo. Para Marx, no entanto, não era bem assim. Não era assim por que o materialismo de Marx não era alvo a ser atingido, um pressuposto para a ação, mas método. Equivocado, mas método de análise. Enquanto que o papa Bento almeja um mundo não ordenado pelo “materialismo”, Marx também almejava. A diferença, segundo a observação papal, é que Marx só via a opressão econômica. Nisto, pelo menos de modo explicito, é que o papa diz divergir do filósofo comunista. Em que pese à diferenciação formal entre ambos, há uma incrível semelhança na crítica ao capitalismo calcada em um ideal de harmonia. Outra semelhança não explicitada reside no fato de que tanto o catolicismo quanto o marxismo se pretendem explicações finais e abrangentes o suficiente para encerrar o veredicto sobre todas as mazelas sociais. Trata-se de teorias holísticas neste sentido.
 
Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo? O consumo, assim como a renda ou o lucro “não realiza ninguém”. Eles nada mais são do que índices da própria realização, em um sentido bem estrito, já consumada. Quando eu compro livros ou cds (sim, ainda os compro) não estou “sendo realizado”, mas “me realizo” pelo meu trabalho como professor. Neste caso, o ato de consumir é mera decorrência. Que o papa não veja assim é direito seu, que ele ache que pensemos o contrário, nos auto-realizando através do consumo é um erro grosseiro, uma pressuposição de que quem atua no mercado não passa de autômato sem vontade e consciência próprias.
 
Auto-realização no sentido estático de se realizar, finalizar, acabar vai, inclusive, em sentido contrário ao próprio significado do capitalismo e sua economia de mercado pautados na diversificação dinamicamente crescente. Se o consumo é valioso para nossas vidas é por que ele pressupõe algo que não é consumo, para além da própria necessidade, mas na auto-estima derivada de uma conquista individual. E esta não é um objetivo final, mas precondição para continuarmos trabalhando e, de vez em quando, diariamente, mensalmente também consumindo. Mas, sinceramente, como falar a marxistas ou aos espíritos religiosos mais ortodoxos que podemos ter uma consciência e livre-arbítrio pautados por uma moral que não seja hierarquicamente superior ao conceito de indivíduo?
 
Lembremos que os modelos de auto-realização, isto é, de seres não alienados em Marx são cientistas, filósofos, artistas, mas não os proletários! Ou seja, toda a retórica marxiana se baseia em uma revolução pautada na aliança entre operários e camponeses, mas os próprios modelos de integridade intelectual dados por Marx não estão nestas classes. Que o marxismo inclua erros de previsão histórica (que nem deveriam ser o objeto de investigação social, mesmo) e outros intrínsecos ao seu método ao desconsiderar os indivíduos como principais elementos e agentes de uma lógica social, não é nenhuma novidade. Mas, ao se basear em conceitos tomados soltos de uma teoria totalizante (que deu margem a um sistema totalitário...), o sumo pontífice cometeu um grave “pecado” para a lógica ao atribuir uma causa – o consumismo – a uma conseqüência – a alienação –, que nem sequer apresenta o status de ser um fato. Ao genérica e grosseiramente, identificar empregadores como “bandidos” para, parcialmente, argüir sobre os “males civilizacionais” lançou mão de uma lógica pouco celestial, para não dizer infernal mesmo.
 
Se a democracia para uma leva de socialistas pós-Muro de Berlim se tornou um conceito a considerar ou uma maneira conjunta de gerir os destinos da linha de produção fabril (e assim escapar da alienação), também não salva Marx que, reconhecidamente, desdenhava as possibilidades da própria democracia. E cá entre nós, imagine a bagunça derivada da ausência de meritocracia no ambiente fabril. Isto não tem coerência, exceto se o papa imaginasse dividir seu poder com níveis inferiores da hierarquia eclesiástica. Acho que não...
 
Se para Marx, a alienação residia no desconhecimento de todo processo de produção no qual participa o trabalhador, a critica explícita do papa é quanto à compulsão ao consumo. Como antípoda tanto Bento XVI, quanto Marx advogariam um utópico estágio de consciência e auto-realização. O segundo no comunismo, o primeiro em uma sociedade pautada por valores religiosos. Não sei bem como o papa definiria esta, mas me arrisco a dizer que implica em um estado não laico a tomar como exemplo as mais recentes críticas do Vaticano a ausência de referências às “raízes cristãs da Europa” na nova Constituição da União Européia. Ou seja, contra uma das maiores realizações da humanidade que é a separação entre estado e igreja.
 
Os que prontamente saíram em defesa do papa assinalaram as diferenças de seu pensamento em relação ao de Marx. Pois bem, não são só diferenças. As semelhanças entre o marxismo e conservadorismo papal são fundamentais para se entender as possíveis conseqüências de sua análise. Além da incompreensão da natureza do trabalho industrial e da coordenação em atividades complexas como a economia de mercado enseja, está a recusa em considerar as trocas entre valores como algo não superável, mas sim desejável para a verdadeira harmonia social. Embora Marx definisse seu socialismo como “cientifico”, no que estava inteiramente errado, o pensamento papal também tem um parti pris semelhante ao não partir do que é o ser humano e sua convivência em sociedade, mas o que ele deveria ser. Sua tentativa se resume em imputar às sociedades uma forma de agir, mal definida, e pautada em um voluntarismo utópico no qual os indivíduos abdicariam de seus desejos pessoais. Assim como Marx também procurou se distinguir de seus pares socialistas ao buscar “condições objetivas” de superação do capitalismo, o que o guiou foi uma forte ilusão de um sistema ideal (“ideal” para ele, bem explicado). O saldo tenebroso disto já se conhece bem, com seus 100.000.000 de mortos. Já o saldo dos tempos em que a igreja mandava e desmandava mundo afora parece distante... Especialmente quando não se percebe (ou se lembra) a gravidade de seus atos e prerrogativas.
 
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