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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Sábado, 23 Junho 2007 21:00

Democracia e Interesse

Democracia pressupõe conflito sim, mas um conflito regulado (e regulamentado) por regras transparentes.

Não existem em essência “interesses coletivos”. Todos interesses são, no limite, interesses privados. Mas, não raro, quando se demanda por maior força política ocorre a arte da associação. Se eu tenho interesse que meu bairro, localizado em uma área que recentemente deixou de ser rural tenha calçadas, isto vai depender de minha comunicação com os representantes políticos locais e/ou com a própria população. Se esta não demonstrar interesse nisto, terei que me esforçar por convence-la de sua importância. Do contrário, simplesmente não atinjo meu objetivo e fica comprovado que meu interesse particular não encontrou sintonia com o de outros.

Não há neste caso, um interesse coletivo que deixou de ser atingido. A coletividade em questão não achou interessante minha proposta individual, provavelmente por que outros indivíduos têm outras prioridades. O termo “coletivo”, no entanto, goza hoje de um favoritismo, como se fosse o certo ética e politicamente falando. Não é assim. Torna-se mais fácil pensarmos em uma lógica de ação coletiva quando não dispomos do referencial teórico de uma verdadeira democracia liberal. Em uma economia altamente oligopolista como a nossa em que alguns setores empresariais não têm no estado a necessária isenção de interesses políticos e sede por propinas, mas sim um corruptor, se sabe de antemão que jogar segundo preceitos individuais e de livre-mercado é como seguir os Dez Mandamentos numa Sodoma. O mecanismo público de apropriação dos interesses privados que se tornou mais conhecido em nossas latitudes como a malfadada “Lei de Gerson” é uma deturpação do liberalismo e não seu endosso. O que deveria existir para regular os interesses, apenas perverte.

O tão alardeado fracasso da “democracia burguesa” em prol de uma tão utópica quanto nefasta “democracia popular” se constitui em um estelionato sociológico de raciocínios totalitários. Primeiro por que a democracia não é “burguesa”. Burgueses, assim como quaisquer outros grupos têm no regime democrático seu lugar. A raiz do problema está na promiscuidade entre um poder público e os direitos (e deveres) privados, o que se chama patrimonialismo.

Costumamos associar esta perversão só na entidade todo-poderosa chamada de “estado”, esquecendo-nos que ela é, em última instância, um reflexo do que somos como sociedade... Por ocasião da greve da USP, um estudante me disse que “um dos princípios da democracia é o direito de greve”. Pois sim, mas também é um de seus princípios, intocáveis, o de “ir e vir”. Como manter aquele em detrimento deste quando professores e alunos que não simpatizavam com a causa são impedidos de entrar em suas salas de aula? Tão lícito quanto o direito à greve é o de não participar da mesma.

O que não se considera na ação de um agente corruptor incrustado em algum órgão público ou em um militante socialista que finge estudar para se aplicar na política estudantil, é que nossa civilização se apóia, mais do que no conceito de propriedade privada, na idéia de um contrato social. Este pode ser quebrado desde que assumidas determinadas conseqüências. Se eu não quero cumprir com minhas obrigações trabalhistas, este é um direito meu, mas devo saber que sofrerei algum tipo de sanção, que terei que arcar com os efeitos de meus atos. Simples.

Nenhum direito no caso pode subverter o direito à liberdade, o que foi o que se viu na greve dos estudantes da USP. Diga-se de passagem, insuflada, pelo sindicato dos funcionários, o SINTUSP.

Ocorre que a mentalidade de sindicatos não se pauta pela lógica de mercado que é, antes de tudo, uma ação coletiva cujos interesses são privados. Se a greve, realmente, tivesse o endosso da maioria, por que não deixar, justamente, esta suposta maioria decidir por si própria se queria ou não ter suas aulas? Por que o temor? O raciocínio sindical não parte da premissa do livre-arbítrio, ele procura anula-lo tal qual um corruptor procura anular a competição em seu próprio favorecimento.

Democracia pressupõe conflito sim, mas um conflito regulado (e regulamentado) por regras transparentes. No fundo, o que fazem os arautos da “democracia direta” ou da chamada “democracia participativa” é transformar a própria democracia numa “soma de opiniões ignorantes”.

A idéia subjacente é que não deve haver governo (“si hay gobierno, soy contra”), todos devem tomar o estado de direito de assalto e, posteriormente, perante uma anarquia reinante, sugerir um governo sim, porém despótico. Nada de doutrina de governo, mas que se doutrinem indivíduos para um governo alheio a eles, parece ser seu mote. Subverta qualquer arranjo institucional em nome de um vago conceito de “ação direta”. Para meliantes deste naipe, as instituições são apenas blocos de poder em que indivíduos não atuam, se submetem. Mas, o que eles fizeram senão submeter os que não concordavam?

O pior é que democracia pressupõe também uma antítese da insociabilidade. E, behavioristicamente, falando, o que mais se viu, foi a manifestação por parte dos estudantes, de um comportamento de matizes totalitárias. Em que pese seu adjetivo preferido: o “social”. Social isto, social aquilo, não teve na realidade nada de “social” em ameaçar aqueles que pleiteavam um raro desejo no Brasil, o de estudar.

Os socialistas gostam de chamar nossa democracia de “burguesa” confrontando-a com uma mágica democracia socialista. Ora, democracia é democracia, que me perdoem a tautologia. E ela não pode ser contraditória, isto é, que pressuponha a eliminação da própria liberdade de expressão, de comércio, de direito à propriedade etc. A democracia não subsiste também sem o republicanismo que separa a coisa pública (res publica) da propriedade privada. As duas são necessárias e devem ser bem definidas para que nenhuma suplante a outra.

No Brasil, só se começou a falar em democracia como princípio absoluto, em nossas academias plenas de marxismo, a partir dos anos 80, quando o socialismo moribundo da Europa já dava seus sinais mal cheirosos de putrefação. A incorporação do conceito por eles é recente e mal compreendido. Tal qual os corruptos do governo ou os que se beneficiam deles, nossos estudantes grevistas destroem cotidianamente a base da sociedade democrática ao misturar seus interesses privados com o que deveria ser comum a todos, a liberdade de opção.

Sexta, 01 Junho 2007 21:00

O Homem e o Mundo Natural

Não nos cabe ao propor uma tarefa de entendimento da realidade perguntando, metafisicamente, o que é a vida? Mas, sim como ela funciona?

Quando era garoto, na periferia de Porto Alegre onde me criei, havia uma espécie de limbo entre o meio urbano e o rural. De meu edifício de quatro andares, eu avistava um campo onde os bois e vacas pastavam. Não havia uma transição gradual como na maioria de nossas cidades atuais, era abrupta. Acostumei-me tanto a esta paisagem sui generis que ao avistar as paisagens citadinas de hoje, sinto um estranhamento pelo que, na realidade, é “normal”. Como dizia, hoje nosso espaço é marcado por uma espécie de continuum urbano, que vai dos sobrados do centro histórico aos edifícios espelhados do centro expandido, passando por áreas decadentes, chegando nos bairros que contrastam miséria arquitetônica e infra-estrutural com um luxo cercado por uma moderna e quase medieval barreira que, behavioristicamente, simplesmente nos esquecemos de nossa “natureza”. Mas, aí acabo de tocar numa palavrinha que gera um verdadeiro “rebu” na filosofia... O que, afinal de contas, é a “natureza humana”?

Nem sou louco de começar esta conversa. Nem com muito uísque e baforadas de meu Dunhill chegaria a algum lugar. Mas, lembrando do saudoso Popper, não nos cabe ao propor uma tarefa de entendimento da realidade perguntar, metafisicamente, o que é a vida? Mas, sim como ela funciona? Neste sentido, é que recomendo um dos melhores livros que já tive a oportunidade de ler em meus 40 e tantos anos: O Homem e o Mundo Natural de Keith Thomas, em que este arguto historiador analisa nossas sensibilidades e práticas com relação aos outros elementos da natureza do século XVII ao XIX. 

Há duas razões por que vale a pena lê-lo. A primeira se refere a atual coqueluche ambientalista mundial, que muitos atribuem a ascensão da ecologia como ciência. Não, vem de antes, muito antes para dizer a verdade. Outra se refere ao que é, ou ao menos o que deveria ser, um verdadeiro estudo de História por que baseado mais em fatos do que teorias... Thomas mostra como nosso sentimento atual em relação à natureza vem, em grande medida, da Inglaterra Vitoriana. Período e local histórico de intensa urbanização, que gerou sentimentos de frustração, especialmente, de literatos, poetas, utópicos, em geral, que começaram a expressar nas letras uma saudade do mundo que se ia embora. A intensa atividade nas crescentes urbes e o sumiço do canto dos pássaros e suas bucólicas paisagens campestres chamavam a atenção desses escritores. Só que o detalhe curioso é que muitos deles, realmente, não tinham vivido tal mundo, muito menos os duros afazeres da vida campestre. E é precisamente nesta medida que pintavam uma realidade tão idílica.

Em época anterior foi nesta mesma paisagem, mais real do que mental, que nobres ingleses criaram a raça de cão buldogue para matar touros na arena. Escapando das guampas por serem de baixa estatura e pulando com suas fortes patas grudavam suas mandíbulas hipertrofiadas no pescoço dos touros fazendo-lhes sangrar até o último suspiro. Este mundo alterou sua sensibilidade sim, mas justamente com o desenvolvimento dos costumes ligado à mesma corte que antes se deliciava com o chão salpicado de sangue.

Recordo-me agora quando uma das vacas que pastavam em frente a minha morada passou pelo cerca de arame farpado corrompido. A gurizada se atiçou toda e cada um queria ser o melhor na pontaria. Quando enxerguei o animal, seu rabo pingava sangue nas lajes de granito da calçada. Naquela época, eu, um “garoto de apartamento” daqueles com pouca vivência nas ruas ficara embasbacado sem entender o que acontecia. Minha “natureza” era diferente? Minha “essência” era outra? Nada disto. Eu só tive mais freqüência em frente à TV, na qual via Rin Tin Tin e vários desenhos da Disney ou Hanna-Barbera com seus personagens, animaizinhos antropomorfizados. Talvez esta tenha sido a primeira vez que me “relativizei” na minha tenra vida, que me coloquei no lugar do bovino com a cauda encharcada de sangue.

Portanto, não seria um suposto “retorno ao natural”, o que nos tornaria mais “humanos”, como querem nossos novos arautos da metáfora ambientalista. Foi tão somente uma sensibilização que teve data, local e autoria de nascimento que me permitiu, assim como a muitos hoje em dia, pegar e reprimir um moleque daqueles. Não foi uma essência que me fez, não foi um retorno que me orientou, foi um aprendizado.

Quando vejo que em Santa Catarina, onde resido, ainda se cultua a estúpida e covarde “farra do boi”(1) não concluo que se trata de uma “sociedade bárbara”. Não, nada disto, mas sim uma sociedade que ainda não atravessou sua “revolução vitoriana”.

Hail to England!

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(1) Mesmo que, hipocritamente, se mude seu nome.

Quinta, 24 Maio 2007 21:00

Não Seria Netuno?

Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Pois é, algumas vezes eu fui interpelado por crentes no centro de São Paulo. E crentes ali se vestem de acordo, com terno, gravata e portam valises cheias de panfletos coloridos. Alguns ainda em papel couché... Numa destas, pouco antes da (pseudo-)virada do milênio:

-- O mundo vai acabar! Estás ciente disto?! Por isto viemos trazer A Palavra do Senhor.

-- Ora, é mesmo? Por que vai acabar?

-- O homem destrói a si mesmo, peca e difama o nome de Deus.

-- Mas, como pode saber que vai, assim, acabar?

-- Já leu a Bíblia? Temos aqui um folheto explicativo(sic) que mostra que essas coisas que estão acontecendo, terremotos, vulcões são sinais, são sinais da vontade de Deus.

Isso que ainda não tinha ocorrido a tsunami de 2004 no Índico. Se fosse o caso, já estaria atestado o apocalipse. O mundo já deveria ter acabado. Só não sei se Netuno tomaria o lugar de Lúcifer...

Mas, vocês sabem o que é dar quatorze aulas no dia, cujo tema principal foi estrutura geológica e tectônica de placas? Não que eu tenha a profundidade de um geólogo, mas como professor de geografia tenho que tratar o tema para adentrar em relevo, tornando este mais “palatável” para alunos de pré-vestibular. E vos garanto, não é fácil... Daí, ao final de um dia sofrido vindo de Santos para São Paulo, com mochila nas costas por que, por alguma razão estava sem carro, vêm estes dois agourentos me encher a paciência quando o que eu mais queria era um pouco de água encanada na cabeça. Vir me falar de “fim do mundo” foi demais, enquanto eu é que já estava acabado.

-- Olha, eu não estou com tempo agora, mas não é nada disso não. Terremotos ocorrem todos os anos em países como o Japão. A probabilidade de que um seja muito forte ou devastador (por que depende de onde ocorre) é de seis em seis anos...

-- Mas, você não acha que é um sinal?

(Interrompendo) -- Não, não acho, mas me dá um desses papelzinho(sic) que vou ler, prometo.

-- Bem, se o Senhor puder ajudar, nosso trabalho é voluntário, mas aceitamos contribuições de fiéis... de quem possa nos ajudar.

-- O trabalho não é voluntário? Vocês estão cobrando por algo que não concordo.

-- Não se faz nada sem dinheiro nesse mundo.

-- Pois é, eu que o diga... Não, não vou pagar pelo que não concordo. Boa noite.

E fui embora tomar meu banho.

Algo parecido ocorre hoje, só que ao invés de encontrarmos respostas na Bíblia, é Al Gore um de seus sintomas. Autodeclarado “budista”, o político aumenta o séqüito dos que vêem o “grande satã” no capitalismo. Troque o nome de Lúcifer por “aquecimento global” e pouco muda nessa lógica. Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Sábado, 05 Maio 2007 21:00

XX Fórum da Liberdade

Na 20a edição do Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre dias 16 e 17 abril passados, cujo tema foi Propriedade e Desenvolvimento, fiquei um pouco apreensivo pela presença de alguns palestrantes como Frei Betto, consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com Miguel Rossetto, ex-Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Governo Lula.

Na 20a edição do Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre dias 16 e 17 abril passados, cujo tema foi Propriedade e Desenvolvimento, fiquei um pouco apreensivo pela presença de alguns palestrantes como Frei Betto, consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com Miguel Rossetto, ex-Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Governo Lula. Achei que o caráter do Fórum tinha sido corrompido em nome do "politicamente correto", mas felizmente me enganei...

Sem querer desmerecer os demais participantes e outros painéis interessantes, quero discorrer algumas letras sobre as contribuições destes dois senhores.

Frei Betto participou de um painel sobre “As Limitações Legais e Constitucionais ao Direito de Propriedade” com os juristas Ives Granda Martins e Manoel Gonçalves Ferreira Filho no segundo dia de fórum. Na verdade, as colocações de Betto fugiram por completo do tema. O tom de sua análise beirou a “auto-ajuda” ao advogar um sistema pautado na solidariedade. Mas, o que significa construir um “sistema solidário”? Além do que não fica claro como a solidariedade seria organizada, se com ou sem propriedade privada?

Tenho lido gente a qual me oponho. Desde que haja conteúdo no que dizem, sempre vale a pena. Não há, no entanto, nenhum mérito em quem escapa pela tangente de um debate com arremedos de metáforas. Exceto se considerarmos a incrível capacidade de ludibriar. Solidariedade, diferentemente, do que poderia pensar Betto não pressupõe uma limitação ao direito de propriedade. Adam Smith já dizia que o livre-mercado não depende, necessariamente, de um egoísmo como ética em todas as instâncias da vida de um indivíduo (1) .  É plenamente possível (e desejável) que as pessoas se empenhem em atividades filantrópicas, sem interferência estatal. E seria melhor ainda por que não se correria o risco de desvios, ou de institucionalização daquilo que a sociedade pode considerar necessário agora e não mais em outra conjuntura.

Segundo Betto, o problema residiria em nos “excessos”. Para ele, o excesso de governo é o totalitarismo; o excesso de sociedade civil é o anarquismo; e o excesso de empresários é o corporativismo. Mal teve tempo de terminar, o moderador lhe colocou uma posição contrária como ensejo para uma questão, onde o excesso de governo seria sim, o totalitarismo, mas o excesso de sociedade significa pluralidade e o excesso de empreendedorismo, capitalismo. Como esta palavra deve lhe causar alguma urticária, se limitou a dizer que “deveríamos nos envergonhar (sic) do capitalismo”. Talvez a ética católica de Betto seja mais forte do que imaginamos... Embora esta não fosse passível de se aplicar aos leigos, para o direito canônico um bom religioso não poderia ser comerciante.(2)

Ferreira Filho ainda contemplou que se fugiu completamente do tema “propriedade privada” e que o corporativismo vem da Idade Média. Acho importante observar isto, para que não se relacione, indevidamente, um fenômeno contemporâneo do capitalismo com sua própria gênese. O que tem menos a ver ainda com sua forma liberal.

Bem, o show viria mais tarde, dado por Denis Rosenfield, professor de filosofia da UFRGS, ao debater com o ex-ministro Rossetto no painel sobre reforma agrária. Como já seria de se esperar, Rossetto fez uma defesa apaixonada desta política alegando ser mais justa a conseqüente distribuição de terras e seus efeitos, como manter jovens no campo evitando a dispersão na cidade e sua falta de oportunidades. Acho incrível como pode se distorcer tanto o foco de um debate. Pois, até onde sei, a questão era se a reforma agrária implicou ou não em maior produtividade. Se sim, empregos seriam gerados, se não, valeria mais a pena investir na formação de empregos urbanos.

Mas, o que Rosenfield frisou foi que o MST, atualmente, não discute mais a questão se uma propriedade é ou não produtiva e sim, a “função social da propriedade”, conceito vago este que, a bem da verdade, sabemos que pode ser interpretado conforme as conveniências do próprio MST. Para esta sigla, simplesmente não importa mais se uma fazenda é ou não produtiva. Não haveria mais propriedades improdutivas no Sul e Sudeste brasileiros, situação discrepante de outras regiões. O caso emblemático da, altamente produtiva, Fazenda Coqueiros no norte do Rio Grande do Sul, serviu até como motivo para uma instalação nos stands do fórum onde havia o resto das ferragens de um caminhão queimado pela “movimento social”. A militância dos sem-terra utilizou o próprio combustível para queima-lo. Também fica difícil entender o conceito de função social da propriedade quando quem diz lutar por ele queima 130 hectares de uma fazenda. Aplicando a metodologia de Betto, talvez seja por “solidariedade aos piromaníacos”.

Prosseguindo na apresentação, Rosenfield mostrou alguns slides em que, além de garrafas de cachaça jogadas no pasto pelos invasores, havia um galpão em chamas, com madeira pronta para comercialização, que mais lembravam as ações da Ku Klux Klan no sul dos EUA. E, para mim, o mais chocante: um terneiro, cujos tendões nas patas foram cortados. Motivos para estes atos? Talvez, o caminhão represente o ciclo do capital que precisa de um mínimo de agilidade na distribuição de produtos ao mercado; o fogo, um purificador do que julgam o símbolo demoníaco no depósito, um fruto do engenho e empenho daqueles que fazem mais por sua sociedade que qualquer metafórica “função social da propriedade”; a cachaça, a inspiração para os covardes; e, por fim, o animal barbaramente torturado, um aviso da vontade de aplicar sua “justiça revolucionária”. Que explicação pode haver para o terror? O álcool não é, ele apenas ajuda a revelar o que são estes indivíduos.

Uma forma interessante de se entender uma situação social, seja cultural, política ou economicamente falando é se por no lugar de outra pessoa, especialmente quando vinda de uma realidade distante. Este foi o caso de Barun Mitra, pesquisador de políticas públicas de Nova Délhi. Muito estranhou que uma potência agrícola como o Brasil ainda estivesse discutindo a distribuição de terras no meio rural. Sim, parece paradoxal, exceto quando não se enxerga que o que falta não é terra, mas geração de emprego. Obviedades como esta parece nos escapar quando se ouve um Rossetto dizer que o Brasil espantaria um indiano ou francês pelo tamanho de suas propriedades, ao que foi confrontado pelo moderador, com um gráfico que mostrou propriedades médias em outros países, cujo tamanho era muitíssimo maior. A Austrália, por exemplo, me surpreendeu... Mas, pensando um pouco mais, fica fácil entender por que tamanha diferença: um país quase do tamanho do nosso, com uma população inferior a Grande São Paulo, só poderia ter uma baixíssima densidade demográfica e, logo abundância de terras. Rossetto se viu numa “cama de gato”, pois invocou a extensão média das propriedades para, minutos depois, ver sua própria linha de raciocínio voltar contra si próprio! O que lhe restou? Só dizer que média não prova nada, que “média distorce a realidade!” Se antes a propriedade média espantava pelo seu gigantismo, depois ela só distorcia.

Ocorre que esta não é a verdadeira questão e sim que países como a Austrália são altamente urbanizados, não havendo a menor possibilidade de, para se atingir maior grau de desenvolvimento, se questionar a estrutura agrária atual. O emprego em massa está nas cidades, o percentual de agricultores no mundo moderno é cada vez mais baixo. Negar isto pressupõe ingredientes mentais ludditas, pressupõe o atraso, pressupõe o populismo que é o caso do ex-ministro.

Dados concretos derrubam metáforas, pois afinal o que significa enfatizar a “função social da propriedade”, como se a própria propriedade já não fosse socialmente funcional?

 


 

 

Se os organizadores do fórum me permitem uma pequena crítica, só senti falta, dentre tantas formas de analisar a propriedade privada, de alguma consideração sobre a propriedade urbana. Após a Lei 10.257/2001 conhecida como “Estatuto da Cidade”, as cidades com mais de vinte mil habitantes são obrigadas a formarem seus Planos Diretores Participativos. E não podemos nos esquecer de que os mesmos subentendem que deve haver uma função social da propriedade urbana. Em tempos de Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), seria bom que fosse dado o alerta...

 

 

 

 

 

 

 



1-  Disaster relief: What would Adam Smith do? Sobre o que seria a posição de Smith em relação ao apoio às vítimas da tsunami asiática no Índico em 2004. E ainda sobre o cataclismo, conferir o “descaso” dos países ricos em relação aos atingidos: Tsunami aid: Who's giving what.

 

2-  “(...) Decididamente os comerciantes ocupam grande espaço na Idade Média desejosa de mutação. Apesar da Igreja. Sejamos justos: o preconceito anticomercial não é unicamente dela. Vai ao encontro de uma inveterada desconfiança popular contra o intermediário, que vende o que não foi produzido por ele mesmo: ‘Capelista que vende de tudo nada faz’, diz o provérbio. A Igreja não se priva de ir ainda mais longe.

“Ela decreta a proibição da atividade ‘comercial’ a seus próprios membros. O cânone 142 do Código de Direito Canônico é drástico: ‘É proibido aos clérigos exercer, para si ou para outrem, atividade nos negócios ou no comércio, seja em seu benefício, seja em benefício de terceiros’.
“A proibição não tem em mira os leigos, mas predomina a idéia de que não se pode ser, ao mesmo tempo, comerciante e bom cristão: ‘Raramente, talvez nunca, um comerciante pode agradar a Deus’” (Alain Peyrefitte. A Sociedade de Confiança: ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento. Rio de Janeiro : Topbooks : IL, 1999, p.90. Grifos meus).

Quarta, 11 Abril 2007 21:00

Uma Análise Infernal

Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo?
Ao invocar o conceito marxiano de “alienação” e dizer que o mesmo “forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos”, o Papa Bento XVI parte de um pressuposto, o de que as pessoas têm um desejo não satisfeito de realização. Pelo menos, assim pensava Karl Marx, em quem o papa se baseou. Não esqueçamos que tudo em Marx corrobora, teleológica e objetivamente falando, para um colapso do capitalismo. Não fosse isto não haveria nada demais em citar Karl Marx. Nada de mais, bem como desnecessário, pois alienação pode ter um significado bastante genérico como “falta de percepção de significado”. Mas, se entender que o significado de algo corresponde a mudar uma realidade criando um novo mundo, o autoconhecimento enquanto ser alienado para não alienado significa, no entendimento marxiano, passar de “classe em si” para uma “classe para si”. Sim, desconsidera-se o individuo para pensarmos em uma categoria coletiva, a classe social.
 
Para que o conceito marxiano de alienação faça o mínimo sentido é necessário que as pessoas (classe, na linguagem marxiana) tenham o mínimo desejo de mudar esta realidade. Neste particular sentido, “alienação” não é, portanto, um conceito solto no espaço. Ele se prende a uma teoria geral do capitalismo. Isto é diferente de pensarmos a alienação como resolvida ao voltarmos ao estado original da produção, quando um artesão não só produzia, como distribuía o fruto de seu trabalho sabendo muito bem ao que se destinava. Para Marx, esta não seria uma solução, pois não cabia como alternativa a abdicação da crescente utilidade marginal das benesses capitalistas. Assim, não se poderia revolucionar tendo como meta, por exemplo, a miséria feudal.
 
O papa acusa Marx de ter um conceito limitado de alienação, como derivado de seu “materialismo” entendido aqui como economicismo. Para Marx, no entanto, não era bem assim. Não era assim por que o materialismo de Marx não era alvo a ser atingido, um pressuposto para a ação, mas método. Equivocado, mas método de análise. Enquanto que o papa Bento almeja um mundo não ordenado pelo “materialismo”, Marx também almejava. A diferença, segundo a observação papal, é que Marx só via a opressão econômica. Nisto, pelo menos de modo explicito, é que o papa diz divergir do filósofo comunista. Em que pese à diferenciação formal entre ambos, há uma incrível semelhança na crítica ao capitalismo calcada em um ideal de harmonia. Outra semelhança não explicitada reside no fato de que tanto o catolicismo quanto o marxismo se pretendem explicações finais e abrangentes o suficiente para encerrar o veredicto sobre todas as mazelas sociais. Trata-se de teorias holísticas neste sentido.
 
Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo? O consumo, assim como a renda ou o lucro “não realiza ninguém”. Eles nada mais são do que índices da própria realização, em um sentido bem estrito, já consumada. Quando eu compro livros ou cds (sim, ainda os compro) não estou “sendo realizado”, mas “me realizo” pelo meu trabalho como professor. Neste caso, o ato de consumir é mera decorrência. Que o papa não veja assim é direito seu, que ele ache que pensemos o contrário, nos auto-realizando através do consumo é um erro grosseiro, uma pressuposição de que quem atua no mercado não passa de autômato sem vontade e consciência próprias.
 
Auto-realização no sentido estático de se realizar, finalizar, acabar vai, inclusive, em sentido contrário ao próprio significado do capitalismo e sua economia de mercado pautados na diversificação dinamicamente crescente. Se o consumo é valioso para nossas vidas é por que ele pressupõe algo que não é consumo, para além da própria necessidade, mas na auto-estima derivada de uma conquista individual. E esta não é um objetivo final, mas precondição para continuarmos trabalhando e, de vez em quando, diariamente, mensalmente também consumindo. Mas, sinceramente, como falar a marxistas ou aos espíritos religiosos mais ortodoxos que podemos ter uma consciência e livre-arbítrio pautados por uma moral que não seja hierarquicamente superior ao conceito de indivíduo?
 
Lembremos que os modelos de auto-realização, isto é, de seres não alienados em Marx são cientistas, filósofos, artistas, mas não os proletários! Ou seja, toda a retórica marxiana se baseia em uma revolução pautada na aliança entre operários e camponeses, mas os próprios modelos de integridade intelectual dados por Marx não estão nestas classes. Que o marxismo inclua erros de previsão histórica (que nem deveriam ser o objeto de investigação social, mesmo) e outros intrínsecos ao seu método ao desconsiderar os indivíduos como principais elementos e agentes de uma lógica social, não é nenhuma novidade. Mas, ao se basear em conceitos tomados soltos de uma teoria totalizante (que deu margem a um sistema totalitário...), o sumo pontífice cometeu um grave “pecado” para a lógica ao atribuir uma causa – o consumismo – a uma conseqüência – a alienação –, que nem sequer apresenta o status de ser um fato. Ao genérica e grosseiramente, identificar empregadores como “bandidos” para, parcialmente, argüir sobre os “males civilizacionais” lançou mão de uma lógica pouco celestial, para não dizer infernal mesmo.
 
Se a democracia para uma leva de socialistas pós-Muro de Berlim se tornou um conceito a considerar ou uma maneira conjunta de gerir os destinos da linha de produção fabril (e assim escapar da alienação), também não salva Marx que, reconhecidamente, desdenhava as possibilidades da própria democracia. E cá entre nós, imagine a bagunça derivada da ausência de meritocracia no ambiente fabril. Isto não tem coerência, exceto se o papa imaginasse dividir seu poder com níveis inferiores da hierarquia eclesiástica. Acho que não...
 
Se para Marx, a alienação residia no desconhecimento de todo processo de produção no qual participa o trabalhador, a critica explícita do papa é quanto à compulsão ao consumo. Como antípoda tanto Bento XVI, quanto Marx advogariam um utópico estágio de consciência e auto-realização. O segundo no comunismo, o primeiro em uma sociedade pautada por valores religiosos. Não sei bem como o papa definiria esta, mas me arrisco a dizer que implica em um estado não laico a tomar como exemplo as mais recentes críticas do Vaticano a ausência de referências às “raízes cristãs da Europa” na nova Constituição da União Européia. Ou seja, contra uma das maiores realizações da humanidade que é a separação entre estado e igreja.
 
Os que prontamente saíram em defesa do papa assinalaram as diferenças de seu pensamento em relação ao de Marx. Pois bem, não são só diferenças. As semelhanças entre o marxismo e conservadorismo papal são fundamentais para se entender as possíveis conseqüências de sua análise. Além da incompreensão da natureza do trabalho industrial e da coordenação em atividades complexas como a economia de mercado enseja, está a recusa em considerar as trocas entre valores como algo não superável, mas sim desejável para a verdadeira harmonia social. Embora Marx definisse seu socialismo como “cientifico”, no que estava inteiramente errado, o pensamento papal também tem um parti pris semelhante ao não partir do que é o ser humano e sua convivência em sociedade, mas o que ele deveria ser. Sua tentativa se resume em imputar às sociedades uma forma de agir, mal definida, e pautada em um voluntarismo utópico no qual os indivíduos abdicariam de seus desejos pessoais. Assim como Marx também procurou se distinguir de seus pares socialistas ao buscar “condições objetivas” de superação do capitalismo, o que o guiou foi uma forte ilusão de um sistema ideal (“ideal” para ele, bem explicado). O saldo tenebroso disto já se conhece bem, com seus 100.000.000 de mortos. Já o saldo dos tempos em que a igreja mandava e desmandava mundo afora parece distante... Especialmente quando não se percebe (ou se lembra) a gravidade de seus atos e prerrogativas.
 
Sexta, 16 Março 2007 21:00

Ilusões de apartamento

Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido.

Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido. Mas o jogo é conhecido, um produtinho embalado da mídia esperta que ganhou rios de dinheiro com uma bandinha de 5ª categoria. O responsável por esta alquimia barata foi o empresário Malcolm MacLaren, quem absorveu o clima reinante do underground nova-iorquino dos anos 70 e soube vendê-lo mundo afora. Uma de suas frases era: "se não te apoderas das coisas que te rodeiam, só porque te servem de inspiração, és estúpido. O mundo é feito de plágios."
 
Honrosas exceções existem. Mais verdadeiros seriam os pós-punk do New Model Army que com sua “51th State of America” fazendo menção à subserviência inglesa para os EUA. Não que eu corrobore o tema, mas eles são legítimos ao levarem adiante o que acreditam, uma canção que lhes rendeu a proibição de tocar seus esfuziantes acordes do outro lado do Atlântico.
 
Tempos depois, a fórmula "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" se repete num eterno retorno da rebeldia de apartamento. É a vez de uma banda (de horrível musicalidade, diga-se de passagem) chamada Rage Against the Machine. Com um vídeo clip bem produzido eles alternam imagens tocando na New York Stock Exchange (NYSE) na Wall Street, com cenas de desgraças do III Mundo. Ao final são presos pela polícia nova-iorquina. Tudo bem produzido de encomenda para atiçar os hormônios de jovens púberes que também começam a se coçar para gastar com o cdzinho. Ocorre que sua gravadora era a Epic, subsidiária da Sony, multinacional bem capitalista...
 
Que jovens queiram extravasar sua fúria com rock, não vejo nada de mais, mas que sejam tão ingênuos de não verem as conexões óbvias de seus ídolos com o big business é enjoativo demais, assim como não perceberem que são suficientemente tolos.
 
Integrantes desta horrorosa banda se juntaram ao vocalista Chris Cornell, de um bom grupo, o Soundgarden e formaram o Audioslave que tem sonoridade bem aprazível (quem disse que juntar laranjas podres com uma boa apodrecem esta?). Mas, o curioso sobre o Audioslave é que eles foram o primeiro grupo de rock a tocar na Praça Anti-Imperialista em Havana em 40 anos, com um público de 50.000 pessoas sedentas pelas delícias do capitalismo. Vi o show em documentário da HBO que intercalava com entrevistas e cenas na capital cubana. Em certo momento, os integrantes da banda comentam sobre a famosa foto de Che Guevara, como um rosto que simboliza a luta pela justiça ou algo assim... Mais tarde, o baixista tentava se lançar de bicicleta cross por íngremes paredões ao que era impedido pelo seu segurança. Desistindo, desabafou que se morasse em Cuba abriria uma loja de artigos esportivos para quem curte bicicleta(!). Aquilo me extasiou, pois isto resume muito bem o conhecimento adolescente sobre a política comunista. Como ele poderia achar que teria este direito? A liberdade ao comércio e à propriedade privada em uma ditadura comunista?! Por isto reafirmo, salvo raríssimas exceções, eu gosto é de "rock alienado", pois a grande maioria dos que se dizem "cabeça" são inocentes úteis a alguma causa perdida que só reproduz tipos bobos. Prefiro ouvir adolescentes cantando sobre garotas do que críticas à Margaret Thatcher, cujas políticas alçaram o Reino Unido a uma confortável posição em crescimento e baixo desemprego entre os grandes países europeus; prefiro ouvir cantarem odes a cerveja do que protestos indignados contra a fome na África para depois enviarem recursos e disponibilizarem fundos a líderes corruptos no continente; prefiro ouvir sobre carros velozes do que sobre o aquecimento global sem nenhum conhecimento de suas teorias nem de ciclos naturais etc. etc. e etc.
 
Mudando de saco pra mala, outro dia desses visitei a casa de um pessoal que era ligado ao “partidão”. Como sou meio tonto para relações sociais, fui logo “dando bola fora”. Havia uma médica que comentava sobre um belíssimo documentário sobre a Rússia, czares, a Era Stálin e quetais, uma psicóloga que mostrava como tinha ficado bonito o sindicato dos bancários como centro cultural em Porto Alegre etc. Após isto, ainda elogiou Saramago ao comentar sua opinião sobre o imbróglio do Papa vs. Islã etc. E eu só pontuando, Stálin matou mais que Hitler, mandou matar o namorado da própria filha, sindicato é máfia, Saramago é hipócrita ao defender Cuba como referência de democracia, o Papa foi mal como político, mas o Islã é hipócrita... Só depois de alguns minutos que a cerveja escasseou, percebi que não estava agradando. Se é que é possível apreender algo de bom quando a cerveja já está quente, concluo que minha crítica anterior aos adolescentes era um pouco injusta. Pior são alguns adultos.
 
Alguns são burros mesmo, outros apenas ingênuos. O documentário dinamarquês Smiling In A Warzone, também passado na HBO é sobre uma aviadora comovida com o relato de uma adolescente afegã que sonha pilotar aviões. Ela põe então um plano em execução que a faz voar 6.000 quilômetros até Kabul para transformar o sonho da menina em realidade. Toda uma equipe foi montada para atender ao vago desejo, sem ao menos conhecer as idiossincrasias da cultura tribal. Tudo para, no final, dar de cara com o muro da realidade: seu tio não deixou que ela realizasse seu sonho, pois seria ridicularizado pelos amigos e vizinhos.

 

Simone Aaberg Kaerns que dirigiu o documentário e pilotou o avião



Stone passou três dias em Havana com Fidel Castro

O mundo é mesmo um amontoado de ignorância.

Sexta, 19 Janeiro 2007 22:00

De BRIC Para Brick

Obviamente que não vou afirmar que a “democracia econômica é muito mais importante que a democracia política”, mas que uma sem a outra não há sustentabilidade no próprio sistema.
No ano passado, a ONU projetou crescimento global de 3,6%. Só o leste asiático era estimado em mais de 7% e, mesmo para uma burocratizada Comunidade dos Estados Independentes (CEI), se esperava mais de 6%. A Europa, ainda carregando o peso de seus welfare states, beirava os 3%. É mais difícil para “economias maiores” darem mostras de flexibilidade superiores que a de países emergentes, o que explica, em parte, a pequena taxa européia.
 
Tais projeções parecem corroborar o “fim da História” de Fukuyama. O capitalismo veio para ficar, apesar de capengar conforme a região. Então, para que tanta celeuma sobre “um outro mundo possível” do Fórum Social Mundial?
 
Não adianta, sempre teremos descontentes com a globalização ou o velho e bom capitalismo. Quem pensa que tais questões são exclusivas da “esquerda” se engana. Há quem ache que o comunismo ainda não morreu e que a ONU faz parte de uma conspiração mundial para alicerçá-lo em novas bases. Claro que se pode discutir que o capitalismo global não é liberal o suficiente e que os conluios entre transnacionais e estados nacionais implicam em uma nova forma de despotismo econômico. Despotismo enfim. Ou tudo isto é um jogo em que nos enganam ou as visões conspiratórias não se sustentam.[1]
 
Se for verdade que 70% dos produtos vendidos no Wal-Mart são de procedência chinesa, o capitalismo vige e vinga ou é usado pelas velhas ditaduras comunistas que se reciclam? Não creio em permanência na História. Não tenho conhecimento de nenhuma classe econômica que ampliasse seu poder sem almejar (e conquistar) o poder político igualmente. Assim, em Pequim aguardo por transformações democráticas. Posso ser ingênuo ou incuravelmente otimista, mas o estado chinês irá mudar.
 
Mais que oposições diplomáticas entre China e EUA, os dois países aprofundam uma salutar dependência. A reciprocidade no comércio externo e nos influxos de capital é benfazeja, pois quando crescem, diminui o potencial de conflito.
 
A sinergia econômica parece que vai ser acompanhada pela política. Com a mudança do secretário de Defesa dos EUA que trocou Donald Rumsfeld (2001-2006) para Robert Gates, finda o breve período neocon[2], cuja pedra de toque idealista era o “ataque preventivo”. O realismo político que deverá ser a tônica com esta nova administração não é nada novo. Permeou a maior parte da política externa norte-americana e, apesar de seus inúmeros erros, como apoiar ditaduras latino-americanas, trouxe mais benefícios do que as desbaratadas ações preventivas que, na retórica pretendiam disseminar o vírus da democracia em regiões tribais do globo. Os neoconservadores ingenuamente acreditam que ações externas intervencionistas, dirigidas a mudanças de regimes, criariam um mundo melhor e mais pacífico.[3]
 
Política para quem domina não se move por ideologia, mas justamente por necessidade e senso de oportunismo mesmo. México, Índia, Brasil e União Européia não são ambíguos quando se aproximam dos EUA. Só executam os mesmos princípios que tonalizam a própria política deste país no seu comércio externo. Dizer que a opinião dominante na mídia e instituições culturais é maciçamente antiamericana não reflete o que os governos em suas “razões de estado” definitivamente fazem.
 
E é a própria burocracia chinesa que está influindo em sua economia ao definir 39 princípios básicos que diminuem o peso do estado e a encaminham em direção do setor privado, objetivando utilizar os preços de mercado tanto quanto possível. Teoricamente, as bases para a democratização da sociedade no futuro estão sendo sedimentadas. Recente estudo da consultoria McKinsey evidencia a redução da pobreza chinesa de 77,3%, em 2005, para 9,7% em 2025, a continuar o atual ritmo de crescimento.[4]
 
A China de hoje, não é mais apenas um “mercado”. É um mundo a parte que toma as rédeas de seu próprio destino. Acabou de ultrapassar o próprio Japão, em gastos em pesquisas científicas e tecnológicas. Sim, estou me referindo aquele Japão, campeão em inovações tecnológicas. Os gastos chineses foram de USD 136 bilhões no ano passado, seis a mais que seu vizinho insular.
 
Quando pensamos em reformas no Brasil (que não saem) não deixa de ser triste a conclusão de que um forte desincentivo parte, justamente, do aumento dos preços das commodities no mercado internacional devido ao aumento do consumo chinês e indiano. Diferente do gigante asiático, nosso gigante (“de pés de barro”, nunca é demais lembrar...) surfa em uma inativa postura diante das ondas globais definidas por outros países. Isto somado a derrubada de barreiras comerciais aos produtos brasileiros nos EUA que por mais de uma década vigoraram, aponta para uma lei física de nossa economia: a inércia, pois o que China ou EUA vierem a executar, nos bastará.
 
Falar em globalização nestes “bobos trópicos” parece significar apenas redução de tarifas alfandegárias que, por si só, acaba aí sem atenção maior ao próprio mercado interno. Apesar da ditadura comunista na China, este país atingiu uma eficácia em seu desempenho econômico muito maior do que o Brasil com sua democracia. A redução das exportações de calçados em 11% em 2005, afetando duramente a Serra Gaúcha, tradicional região produtora, enquanto que o maior produtor mundial hoje em dia, é um gaúcho que atua na China revelam como um ambiente propício influi no desempenho individual. Estamos repletos de batalhadores por aqui, cuja melhor alternativa tem sido o aeroporto.
 
Obviamente que não vou afirmar que a “democracia econômica é muito mais importante que a democracia política”, mas que uma sem a outra não há sustentabilidade no próprio sistema. Por outro lado, no Brasil vige um pseudo-capitalismo, um “capitalismo de compadrio” em que contribuintes são explorados pelo estamento burocrático. A congênita inércia latino-americana tem a honrosa exceção do Chile que cresceu 4,3% entre 2001 e 2005. Mas, o próprio México, beneficiado pelo NAFTA não faz suas reformas internas e deixa de ser um atrativo para inversões externas. Não é a toa que nosso “grande mercado potencial” (e que sempre é potencial) esteja sob risco de perder posicionamento entre os BRICs – sigla formada pelas iniciais de economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China: nosso governo cuja “esperança venceu o medo” teve otimismo desproporcionalmente maior do que a competência, como é sabido.
 
Dizem que nossa sociedade brasileira é “conservadora” ao ser contra o desarmamentismo, contra o casamento gay, contra o aborto, contra as quotas raciais etc. Só esquecem de observar que este mesmo “conservadorismo” também é conservador para a estagnação econômica que vivenciamos, deixando tudo como está ao fornecer salvo conduto para um governo que não prima por reformas e uma estrutura de estado parasitária. Em suma, uma flexibilidade de tijolo.

[2] Rumsfeld e o vice-presidente Richard Cheney não se enquadram bem no rótulo “neo-conservador”. O título é mais adequado para aqueles, como Paul Wolfowitz que consideram os Estados Unidos da América como mais que uma nação, mas uma causa.
 
[3] Uma das figurinhas mais rasas do novo conservadorismo americano é Ann Coulter, responsável por pérolas do seguinte quilate: “Nós devemos invadir seus países, matar seus líderes e convertê-los ao Cristianismo” (13 de setembro de 2001, itálicos meus e estupidez dela).
 
[4] Newsletter diária n.º 853 - 08/12/2006 - http://www.amanha.com.br/. Enquanto isto, a projeção é que o Brasil tenha 55 milhões vivendo em favelas em 2020, algo próximo a 25% da população nacional.
Sexta, 15 Dezembro 2006 22:00

Pinheiro solitário

Teus galhos já agüentaram tanta neve, teus braços já sustentaram tantas asas e patas. Mas, o solstício assinala um novo tempo, para nascer e morrer.
Pinheiro solitário
 
A RATIO PRO LIBERTAS foi criada com o objetivo de promover eventos educacionais, como apresentação de palestras, cursos e treinamentos nas áreas comerciais, industriais e de prestação de serviços.Visite o site Ratio Pro Libertas, um espaço destinado à discussão de idéias e propostas sobre liberdade, cidadania e sociedade.Teus galhos já agüentaram tanta neve, teus braços já sustentaram tantas asas e patas. Mas, o solstício assinala um novo tempo, para nascer e morrer.
 
Seja qual for o hemisfério e clima, tu estarás lá para anunciar a festa da sobrevivência. Não te encontras entre copas que tudo cobre, acaso também não estás entre outros como tu a barrar o vento. Apenas dobras gentilmente para voltar reto. O garçom de deus te cobra a conta, mas tu o ignoras.
 
Só. Mas, só tudo que podes fazer é resistir. Tuas folhas escuras absorvem o calor como nossas rugas retêm as lágrimas. Um fluxo de luz e água parece uma síntese da vida.
 
Tu exiges uma cota do solo, que parece pouco para quem tanto deu. Mesmo após as serras virem ao teu encontro, tua espécie aponta o céu imponente. Sejam lá quais forem os mistérios daquela abóbada, penso que posso furar seu zênite.
 
O farfalhar perante a brisa é um hino constante para ouvidos em um outeiro. Não foi uma maravilha forjada. É uma condição para sublimar.
 
Teu cone carnudo é devorado e das fezes dos que se beneficiam, renasce em outro vale. Tua resina te previne do excesso tornando meu temor pífio.
 
Viver por si mesmo, por que não há nada mais importante. Teu presente foi fruto de teu egoísmo e aqui estamos. Não há espaço para lamúrias de uma vida dura ou um futuro penoso, apenas a vontade de se erguer.
 
Nosso yule é lembrado por ti. Continuarás em tua sina, anunciando os padrões do tempo e a sombra de tua presença. Nenhuma cidade, nenhuma blizzard derrubarão teu significado.
 
Sábado, 11 Novembro 2006 22:00

Involução Americana

Diferentemente do que relata a epígrafe, conheci um sujeito no Brasil que emigrou para Los Angeles. E, como é de se esperar para qualquer trabalhador dedicado e bem informado, se deu bem. Entregando pizzas, obtém o suficiente para dividir um apartamento com outros imigrantes e dispõe de toda parafernália eletrônica para o lar, um Courier da Ford para trabalhar e um Neon da Chrysler para se divertir e “caçar”...

Mais velho que seus companheiros de infortúnio, confessava envergonhado por ter de aparecer diante dos officiales dos Estados Unidos com a roupa tão lamacenta e suja por causa da travessia. Insistiu, por conseguinte, em me mostrar que, por baixo, trazia uma camisa e uma calça limpas para se apresentar a algum empregador eventual e, ainda por baixo destas, mais um terceiro traje para ir à missa no domingo. Na realidade, Zaragoza não possuía nada mais que essas três roupas superpostas. Um agente recrutador sem escrúpulos viera até sua aldeia, em Ahucanetzingo, no estado de Morelos, e roubara todas as suas economias, mil dólares, a pretexto de lhe vender o endereço imaginário de um empregador americano, um fazendeiro em Nova York! Zaragoza não fala uma única palavra em inglês e só faz repetir “Nueva-York, Nueva-York”. Um agente dos border patrols tenta, com dificuldades, fazê-lo compreender que Nova Iorque está a cinco mil quilômetros de Tijuana e que lá, de qualquer modo, não existe mais nenhuma terra para cultivar.

Guy Sorman, A Nova Riqueza das Nações

Diferentemente do que relata a epígrafe, conheci um sujeito no Brasil que emigrou para Los Angeles. E, como é de se esperar para qualquer trabalhador dedicado e bem informado, se deu bem. Entregando pizzas, obtém o suficiente para dividir um apartamento com outros imigrantes e dispõe de toda parafernália eletrônica para o lar, um Courier da Ford para trabalhar e um Neon da Chrysler para se divertir e “caçar”... Para um self-made man desses, o recentemente aprovado projeto para construção de uma cerca de mais de 1.100 km na fronteira com o México, não é um ato dos mais simpáticos. Já, para aquele tipo de conservador que cheira conspirações em todo canto, o brasileiro a que me referi poderia muito bem estar entrando nos EUA para disseminar o germe da revolução.

O fluxo migratório não é obra de revolucionários, mas de sonhadores em busca de uma terra de oportunidades. Se não fosse pelo péssimo sistema de ensino brasileiro [1], não haveria tantos debandando. Na verdade, é difícil acreditar que a Revolução Americana, feita com as mãos calejadas de imigrantes já tenha terminado. Enquanto tomada do poder do estado, a revolução acabou sim, ela já foi. Mas, se entendermos como a mesma se gestou antes e depois de sua independência em relação à Inglaterra, o mesmo princípio ativo permanece.

São 300.000.000 de americanos hoje. A cada onze segundos, um novo habitante é adicionado à “terra dos bravos”. E o principal elemento desta adição não se encontra no próprio crescimento vegetativo, mas na imigração. Alemanha e EUA detêm hoje, mais de 50% dos imigrantes no mundo, o que traz incompreensão e insegurança.

O país se debate com a questão da imigração [2], não só a ilegal, mas igualmente a legalizada. Atualmente, já existem trechos de contenção que são atravessados preferencialmente à noite, pois caso seja pego, o imigrante passa menos tempo na cadeia até ser deportado no dia seguinte. Tática prática e funcional, mas se estiver portando documentos falsos pode amargar meses em um presídio até ser liberado. Com sua longa linha fronteiriça e o ímã que exerce, não vejo muita possibilidade de sucesso no muro. Exceto se o objetivo for a simples redução, o problema em si do fluxo migratório não tende a desaparecer.

liberdade cidadania sociedade Forças Armadas eventos educacionais racionalidade razão educação à distância liberal democracia filosofia ciência política poliarquia direito Amazônia problemas brasileiros governo estado justiça militar OTAN Alberto Oliva Alexandre M. Seixas André Plácido Anselmo Heidrich Carlos H. Studart Claudio A. Téllez Claudio Shikida Dartagnan Zanela Editoria - MSM Editoria - RPL Huascar Terra do Valle Janer Cristaldo João Costa Jorge Geisel José Nivaldo Cordeiro Lorenzo Bernaldo de Quirós Luiz Antonio Moraes Simi Luiz Leitão da Cunha Márcio Coimbra Maria Lucia V. Barbosa Mario de O. Seixas Mario Guerreiro Olavo de Carvalho Percival Puggina Roberto Romano Rodrigo Constantino Thomas Korontai Ubiratan Iorio

Muros de contenção mais apropriados não são um equívoco frente a atual situação. O equivoco está na própria “meia-integração” do NAFTA que, diferente de uma UE não integra comunidades efetivamente.

Bush não é um político tão limitado quanto muito de seus pares republicanos. Seu projeto era muito melhor, previa um programa de reciclagem que admitia trabalhadores para servir aos interesses de empresas americanas, especialmente para os trabalhos em que o cidadão americano rejeitava ou demonstrava pouco interesse. Os membros do Partido Democrata também não têm alternativa viável, nem parecem se interessar pelo assunto realmente. Preferem ficar em um cômodo oposicionismo. E acusam seus pares republicanos de fazerem uso político da questão. Ora, quem não faz? Pior eles, cuja posição é meramente crítica e nada propositiva. No entanto, não duvido que seja um projeto feito às pressas mesmo, com fins imediatistas frente às próximas eleições. Enquanto isto 1,2 milhão de ilegais foram presos ao longo da fronteira só no ano passado.

Se os EUA têm direito a limitar ou, em caso extremo, proibir a entrada de mais imigrantes, me parece óbvio que sim. O problema reside nas premissas de um projeto sem sustentação econômica e que, endossa claramente a paranóia de alguns puristas. O congressista americano J.D. Hayworth lançou um livro sobre o assunto, Whatever It Takes: Illegal Immigration, Border Security and the War on Terror, em que aponta os malefícios causados pela imigração. Segundo ele, além de estar na raiz da criminalidade de seu país, acusa como falsa a idéia do México ser um “país amigo”. Seu alerta cai como uma luva em tempos de terrorismo internacional. Abusando de uma retórica cara ao paranóico republicano, a decadência de sua civilização e as conspirações externas.

Entre os supostos mitos analisados, estão:

  1. Mentira: a alegação de que uma maior criação de empregos no México e uma redução da taxa de natalidade levariam a diminuição da migração para os EUA;
  2. Os EUA necessitam de mão-de-obra mais barata proveniente do exterior? É um absurdo pensar que sua vasta economia em pleno século XXI necessite do fluxo contínuo de mão-de-obra de baixo custo através da fronteira.

Com uma população de mais de 107 milhões e uma taxa de crescimento populacional de 1,16% (2006), o México sofre com a típica estratificação social tão comum aos latino-americanos, em que a base da pirâmide social não detém meios adequados de reprodução. Apenas citar a taxa de crescimento anual de sua economia em torno dos 5%, não é suficiente para que o desenvolvimento se internalize entre as diversas camadas da sociedade. Inversões de capitais externos já não têm mais sido suficientes para alavancar a economia regional, o que, por si só, não é remédio liberal algum se reformas internas aos países não são adotadas. Não passa de um remendo e pretexto para os estatistas difamarem o tal “neoliberalismo”.

Sinto falta realmente de vozes liberais na política regional. Tudo que se vê por parte dos auto-intitulados “liberais” em países latino-americanos é um clamor por mais investimentos externos. Nada contra estes, mas não são, bem entendido, o único motor do desenvolvimento. Seu tipo de crescimento que não parece buscar o desenvolvimento do mercado interno pari passu ao externo leva ao respaldo de idéias nacional-desenvolvimentistas, isto é, protecionistas na melhor das hipóteses e outras, claramente socialistas. Exemplos nunca nos faltaram, como se vê na pobre e condenada Venezuela de Hugo Chávez.

Vejamos um endosso teórico da reciclagem nacional-desenvolvimentista, de um expert da ONU:

(...) el uso de aduanas y de protecciones temporales y mesurables puede ayudar al desarrollo si se saben manejar dentro de una política macroeconómica "ofensiva y no defensiva".

Esta “solução” nós já conhecemos bem com Perón e Vargas, dentre outros. Dívidas públicas, ineficiência burocrática, desincentivo à inovação tecnológica, uso político de estatais, privilégios aos funcionários públicos e, de quebra, muita apologia estatal e demonização do estrangeiro. Junte-se ao tipo de falsa solução latino-americana reprodutora de caudilhos políticos, o medo dos conservadores americanos e teremos o caldo de cultura perfeito ao não encaminhamento correto da situação. Hipocritamente, ambos os lados não disponibilizam solução alguma. A imigração ilegal continuará, novos governantes americanos reclamarão e gastarão mais de seu orçamento em medidas paliativas, ao lado de lideranças ao sul do Rio Grande que pouco ou nada farão, exceto distribuir algumas migalhas de seus estados hipertrofiados com o emprego público. O muro entre México e EUA promete ter tanta eficácia quanto o combate ao tráfico de drogas. Uma de suas externalidades será, possivelmente, a evolução e o encarecimento dos serviços de máfias que arrebanham braceros.

Embora todos os grupos envolvidos neste xadrez expressem seu descontentamento, conservadores, liberais, liberals [3], socialistas etc., a previdência social nos EUA ganharia com o projeto rejeitado de Bush. O incremento de uma enorme força de trabalho disposta a pagar um preço pelo seu “sonho americano” teria o agradecimento dos aposentados. Como nos EUA, estar integrado ao mercado de trabalho não significa, necessariamente, ser cidadão americano, a economia e o fisco ganham. Esta é uma das grandes diferenças da economia americana frente à européia, sua flexibilidade. Enquanto os europeus ficam temerosos de incorporar as dezenas de milhões de turcos (e outras dezenas de milhões de curdos, indiretamente) o crescimento dos maiores PIBs da UE é letárgico. Se for justo dizer que Europa está se “arabizando” devido à formação de cistos étnicos, os EUA poderão se “europeizar” no sentido econômico deste neologismo.

Claro está que ressaltar os benefícios trazidos à economia pelos imigrantes não significa aprovar os objetivos sindicais das ligas que dizem representar os mesmos. É absolutamente normal que qualquer sindicato trabalhista se utilize de retórica socialista, mais ou menos branda. Mas, nem por isto os imigrantes que atravessam a fronteira por que optaram pelas benesses da economia de mercado mais pujante do planeta acreditam que isto levaria a institucionalização de uma “república socialista”. Isto seria o mesmo que acreditar que alemães orientais entravam em Berlim Ocidental para encontrar uma estátua de Lênin.

Não que conspirações não existam, mas confundir a ação e intenção de grupos civis de índole e ideologia terceiro-mundistas com o posicionamento e, mais importante, ação do governo mexicano não passa de estratégia de um político esperto para angariar votos de caipiras mal informados. Se a imigração fosse assim tão ruim aos EUA como um todo, ela simplesmente não existiria pela simples razão de que não existiriam empregos. Crer no contrário é assumir a premissa que o congresso americano e o Pentágono estão sendo, ingenuamente, manipulados. Isto não é geopolítica, isto é teoria conspiratória da grossa. Infantil até.

Se for para afirmar que a imigração traz prejuízos à sociedade americana precisamos de números e não suposições fantasiosas. Quais seriam os padrões homogêneos para comprovar quanto os nativos sofrem ou se beneficiam pela entrada de imigrantes? Na verdade, a relação entre número de imigrantes e emprego no país mostra amplas variações.

Segundo estudo feito pelo Pew Hispanic Center, entre 2000 e 2004, cerca de 25% dos nativos americanos residiam em cidades onde o rápido crescimento da população estrangeira se relacionava com benefícios a estes e 15% dos nativos residia em cidades onde o fluxo intenso não trazia boas associações. E, o mais interessante, refere-se aos 60% restantes que vivem onde a entrada de estrangeiros era pequena. Neste caso, os nativos americanos não tiveram benefícios no plano trabalhista. Sim, a conclusão é que a imigração, no computo final, traz mais benefícios que prejuízos.

Claro que os puristas da cultura americana discordarão. Seja para um operário que já achava desnecessário o aprimoramento de suas habilidades profissionais, seja para uma KKK, a ambos convêm mesmo desdenhar do princípio que construiu aquela potência: o sonho e o trabalho do imigrante.

NOTAS

[1] Segundo estudo do Bird, divulgado pela Exame de setembro de 2006, o Brasil ostenta os piores índices em educação entre os chamados “emergentes”: 13% analfabetos; apenas cinco anos de escolaridade média; 9% de mão-de-obra qualificada; 21% de repetência no ensino fundamental. Notem que este último dado aponta mais para a (má) qualidade dos professores do que seus alunos.

[2] De acordo com a Oficina de Censos de Estados Unidos, se estima que o país tenha 34 milhões de imigrantes legais e ilegais maiores de 16 anos. Até 2001 eram quase 30 milhões. Mas, apesar da cifra estratosférica, o incremento de ingressantes no mercado americano continua menor que os trabalhadores nascidos nos EUA.

[3] Socialistas, social-democratas e, numa tradução grosseira, porém didática, “esquerdistas”.

Sábado, 14 Outubro 2006 21:00

Liquidez de Sofismas

Segundo, relatório citado do Conselho Mundial da Água (WWC) no 4o fórum mundial da água, realizado na Cidade do México com representantes de 121 países, a situação mais crítica encontrada no mundo é, como já é de conhecimento público, a africana.

Segundo, relatório citado do Conselho Mundial da Água (WWC) no 4o fórum mundial da água, realizado na Cidade do México com representantes de 121 países, a situação mais crítica encontrada no mundo é, como já é de conhecimento público, a africana.

O continente, com aproximadamente 3,5 vezes a extensão do Brasil, conta com uma densa rede hidrográfica que vai rareando em direção ao norte (Saara) e a sudoeste (Calaari). Apesar disto, o volume pluviométrico e sua distribuição variam imensamente no território. 

No entanto, o déficit hídrico é encontrado em regiões intensamente povoadas e não, como se poderia imaginar, nos desertos. Simplesmente por que ele ocorre onde a demanda é grande. Assim, temos 300 milhões de africanos que representam cerca de 5% da população mundial e utilizam 3,8% do total de água doce.[1]

Já, o conceito de stress hídrico se refere à diferença entre a água utilizada e a disponível em recursos naturais. E esta é sua distribuição mundial:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

WaterGAP 2.0 - December 1999 apud Water Crisis (http://www.worldwatercouncil.org/index.php?id=25)

Como se vê, claramente, no mapa acima extraído do próprio site do Conselho Mundial da Água, a maioria dos países situados ao sul do Saara não sofre de stress hídrico. É no mínimo estranho que o relatório anteriormente citado, seja contradito pela informação contida neste mapa... E por causas do stress entende-se as:

-         Quantitativas, como a sobre-exploração de aqüíferos, ressecamento de rios etc.

-         Qualitativas. Eutrofização, dejetos orgânicos, salinização etc.

Problemas como a eutrofização, que consiste na falta de oxigênio na água podem ser causados também por processos naturais como a presença excessiva de organismos vivos na água (animais, plantas, bactérias, algas) tornando a disputa por oxigênio mais intensa que pelo alimento. Claro, não poderia deixar de ser, que a tendência do nosso jornalismo ambiental, é a de enfatizar tão somente a eutrofização artificial, de causas antrópicas, como os esgotos e efluentes ricos em matéria orgânica que aumentam a concentração de seres vivos.

Não nos deixemos também levar por médias regionais em áreas tão vastas. Em uma análise mais depurada[2], observamos que é relativo. Bahamas e Cingapura, por exemplo, têm os mais baixos níveis de potencial per capita de água em m3/ano (menos de 500). Claro que como são países ricos, isto não chega a configurar um problema.[3] O Gabão, país africano equatorial tem grande disponibilidade, mas como já era de se esperar dado seu atraso econômico, usa muito pouco (pouca produção, baixo consumo...). Ao passo que os EUA, com reservas consideradas suficientes, detêm regiões em que o planejamento prevê o abastecimento apenas para os próximos dez anos, como é o caso do Utah. A Austrália, país que tem a maior porção de território desértico do mundo, graças a sua pequena população (menor que a da Grande São Paulo) e seu planejamento de uso dos recursos, encontra-se da confortável situação de rico em recursos hídricos. Mas, se achar que não há mais regiões onde a escassez pode vir a ser uma realidade, existe a Sibéria com mais de 100.000 m3/ano per capita disponíveis.[4] De fato, não é a ausência absoluta de água que configura um problema real, mas o não tratamento da mesma. Mundialmente falando, morre uma criança a cada 15 segundos por desnutrição e doenças relacionadas.

No Brasil, como seria de esperar no caso de tão vasto país, a disponibilidade varia muito. De mais de 1.500.000 m3/ano per capita em Roraima, podemos chegar aos pífios 1.270 de Pernambuco ou 1.555 m3/ano per capita do Distrito Federal. Com baixo investimento na infra-estrutura, já que obra subterrânea não dá voto, a construção de poços sem fiscalização traz riscos de consumo de água contaminada. Em todo o Brasil, estatísticas não oficiais acusam a existência de 700 mil poços artesianos clandestinos. Só no estado de São Paulo podem chegar a 40 mil.[5] De acordo com o Pnad (2002), somos 22,6 milhões sem acesso à água potável.

E, no caso africano relatado, em que cerca de 50-60% da população vive na zona rural, seria óbvio constatar que o stress de ordem qualitativa não é predominante, uma vez que a dispersão populacional coaduna seu “gênero de vida” com o equilíbrio de ecossistemas naturais. Mas, não. A tônica de qualquer reportagem sobre meio ambiente acusa fatores verdadeiramente alienígenas, como a industrialização ou a moderna agricultura em regiões que vivem na completa penúria e isolamento. Alguém em sã consciência diria que a realidade comum ao continente africano, expressa na foto abaixo tem causas industriais em seus problemas ambientais?

  

 

 

Photo by ADMVB

Ainda se pode questionar a racionalidade deste tipo de argumento, pois a obtenção de água mundo afora, especialmente para a agricultura, não depende exclusivamente, de recursos naturais disponíveis sem as devidas obras de infra-estrutura que podem ampliar a oferta.

O WWC, como qualquer organismo ambientalista, tem seus méritos e limites. Os méritos consistem em chamar a atenção para a gestão de recursos que, até bem pouco tempo, não detinha a devida atenção de administrações públicas; os limites teóricos (que levam às implicações práticas) consistem em partir da premissa sobre a finitude dos recursos como causas do problema em si. E o que resta a partir de então, senão o alarmismo?

Outro risco, frequentemente lembrado, é a possibilidade de conflitos civis ou internacionais devido à escassez hídrica. Com as migrações decorrentes em busca de sítios favoráveis, sua disputa em margens fluviais ou lacustres tende a crescer. Isto é certo, mas não é tão simples assim... Se for verdade afirmar que a disputa mundial pelas fontes hídricas leva às tensões onde a escassez seja diretamente proporcional ao conflito, o mundo teria bem mais guerras e genocídios que apresenta, mesmo por que cerca de 260 bacias hidrográficas no mundo são divididas por dois ou mais países. Se não é assim que se desenvolve a lógica da “guerra pela água” é por que há a mediação dos estados-nações. É a competência ou não dessas estruturas de poder que pode contar para a maior amplificação da destruição.

Algo pode e deve ser feito. Não é possível que continuemos a culpar “São Pedro” ou a vingativa “Mamãe Gaia” pelo que a humanidade faz... Antes da paranóia ambientalista-catastrofista tomar vulto, se falava em projetos, se procuravam soluções. Enquanto que no Piauí há uma probabilidade de quase 50 vezes mais de crianças não terem acesso à água comparado a São Paulo, estados que eventualmente são acossados pela seca também procuram eliminar o déficit hídrico.

O Rio Grande do Sul carrega problema crônico com a falta de chuva esporádica. Proporcionalmente, é mais grave que o caso do Sertão Nordestino, pois este tem a semi-aridez como uma constante. No estado, a Secretaria de Meio Ambiente (Sema) está realizando um plano estadual para diagnosticar e disponibilizar água para áreas mais problemáticas.[6] Serão 22 bacias hidrográficas a serem identificadas, seus maiores usuários e destino preponderante do recurso como à pesca e a agricultura.[7]

Ações filantrópicas internacionais têm seu mérito.[8] Não faço parte daqueles que a excluem, mas é evidente que isto vicia[9] e, assim sendo, as chances reais que tem um estado africano ou outro qualquer de adquirir independência, capacidade de gerência própria se tornam cada vez mais distantes.

Vez por outra também tomamos ciência de absurdos proferidos ou executados por aqueles que se dizem “porta-vozes dos excluídos”. Muitos, bem intencionados – embora, de boas intenções se diz que o Inferno está cheio... – baseiam-se em utopias. Como as “vermelhas” estão um pouco fora de moda mundo afora (exceto, na América Latina...), as mais disseminadas são as utopias “verdes”.

Em Eco-Imperialismo – Poder Verde, Peste Negra, Paul Driessen disseca a atuação do Greenpeace em sua “ajuda” à África. Em um capítulo, apropriadamente, chamado de “Bosta de vaca para sempre” diz que, através de sua influência em agências de fomento como o Bird, o Greenpeace obstrui a construção de hidroelétricas. A solução: consumo de biomassa renovável em suas choupanas, isto é, esterco. São um bilhão de mulheres e crianças expostas todos os anos à contaminação. São quatro milhões de mortes anuais de crianças no mundo todo. Pneumonia, asma ou câncer pulmonar, caso tenham tido a “sorte” de sobreviver às outras doenças. Tudo graças à “romantização da pobreza” feita pelos advogados dos “direitos étnicos” em sua luta contra a tecnologia.

Enquanto a tônica das análises continuar recaindo sobre a falaciosa e sofismática imagem geográfica da oposição “Norte/Sul”, os estados e estados-nações mais pobres continuarão pagando caro por tal conveniência, cujos pseudos-argumentos apresentam alta liquidez em nossos meios acadêmicos eivados de terceiro-mundismo até a medula.

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[1] Minha fonte que se arvora “o maior portal ambiental da América Latina”, contém alguns erros de análise ao afirmar que a África Subsaariana é uma região formada por 53 países e maior parte da água disponível desemboca no oceano ou se perde em ambientes áridos. Na verdade, 53 correspondem ao total de países no continente inteiro e não em uma secção deste, por maior que seja esta; ademais, “desembocar no mar” não é um problema em si, Brasil e Canadá têm drenagens predominantemente exorréicas e, nem por isto deixam de usufruir deste potencial. O Chade, por contraste, tem seus principais rios em drenagem endorréica, o que não exime o país de ter uma grande aridez e semi-aridez em seu território; e, algo que “se perde” em zonas desérticas revela o quê? Uma inclemência da natureza ou uma inadaptabilidade humana? É bem conhecida a experiência bem sucedida da ocupação israelense no Negev, sob as mais adversas condições naturais e políticas. Estas, aliás, é que são as mais difíceis de contornar. E para não ficar apenas com o bem sucedido caso israelense, tomemos exemplos de países africanos mesmo, como o Egito que desenvolve projeto de transferência de águas do Nilo deserto adentro ou a Líbia com vários campos de irrigação em pleno Saara ou a Argélia que está projetando 11 usinas de dessalinização no litoral para 2009.

[2] Decifrando a Terra/organizadores: Wilson Teixeira...[et al.]. – São Paulo : Oficina de Textos, 2000, pp. 425-426.

[3] Cingapura tem a cômoda posição de ser um dos maiores fornecedores de eletro-eletrônicos para o mundo e, de acordo com suas necessidades, importa água das Filipinas; o arquipélago das Bahamas, como é bem sabido, além de ser um famoso pólo turístico do Caribe, também é um “paraíso fiscal”.

[4] Com a internet, uma série de spams paranóicos têm circulado. Alguns dos mais freqüentes são sobre a intenção de os EUA efetivarem um plano maligno em conluio com a ONU para nos tirarem a Amazônia ou usar algum expediente para nos roubar a água da Bacia Amazônica! Estes antiamericanistas não se dão sequer ao trabalho de calcular, fosse o caso seria muito mais cômodo politicamente e barato economicamente importar água das geleiras e lagos canadenses, um dos países com maior capacidade hídrica mundial e além do mais, fracamente povoado.

[5] No estado de São Paulo, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) tem, em cadastro, apenas 15 mil poços (“Água clandestina” - OESP - Sábado, 25 de outubro de 2003).

[6]Estiagem: gaúchos querem aproveitar melhor o potencial hídrico do RS.” http://amanha.terra.com.br/ - Newsletter diária n.º 811 - 06/10/2006.

[7] "Para os primeiros anos, nós imaginamos ações preventivas, como reflorestamento das margens dos rios e programas de educação ambiental (...) No final de 2007, as conclusões serão transformadas em um projeto de lei. No médio prazo, um sistema de irrigação deverá ser implantado em todo o Estado." (idem).

[8] Acompanhe à respeito, o fantástico relato de Kaplan em Os Confins da Terra:

Dias depois em Abidjan jantei com um embaixador que me falou da viagem que fizera ao extremo nordeste da Costa do Marfim, perto da Guiné e do Mali, para observar um projeto internacional de erradicação da oncocercíase (cegueira de rio), apoiado pelas Nações Unidas. Moscas pretas que enxameiam nos rios do interior da África picam africanos que tomam banho e lavam roupa, e as picadas transmitem a doença. O objetivo do programa era erradicar as larvas borrifando repelente nos cursos d’água.

Dizer isto é fácil, fazer é que são elas. Os helicópteros borrifadores precisavam voar contra o vento a alta velocidade perto da água, sobre riachos não mais largos que as pás dos rotores, com árvores dos dois lados. Satélites transmitiam imagens computadorizadas indicando a condição de cada rio e riacho. Computadores de alta sensibilidade monitoravam a composição química da água do rio, o que requeria constantes ajustamentos na proporção dos seis elementos químicos do repelente. Os pilotos eram americanos, canadenses, peruanos, portugueses e antigos iugoslavos. O embaixador disse ter ficado impressionado com o espírito de equipe e a disciplina paramilitar dos pilotos. Eles tinham conseguido erradicar a cegueira de rio da região adjacente, porem ela podia voltar facilmente pela Libéria e Nigéria se o projeto parasse.

– Pense no esforço – disse o embaixador encantado com o que tinha visto. – Tecnologia do mais alto nível, atenção aos mínimos detalhes, os mais extraordinários talento e comportamento ético para erradicar uma doença em uma parte da África, e temporariamente. – Disse o embaixador que os pilotos levantavam-se todos os dias antes do amanhecer para receber instruções e estudar as imagens computadorizadas que orientariam seus planos de vôo, isso durante vários anos. Rações ocidentais eram mandadas de avião de Abidjan e depois levadas de caminhão para o alojamento dos pilotos, que tinham geradores próprios para eletricidade. A instalação mais parecia uma base na lua.

[9] Veja o apelo do economista queniano James Shikwati:

Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre. 

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