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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Quinta, 19 Julho 2007 21:00

Êta, nóis!

“Diga não a venda do etanol! O etanol é nosso.” É só o que falta ouvirmos sobre este combustível e sobre a possibilidade de efetuarmos um acordo com os EUA que contemple a maioria dos interessados. “Segredo nacional” que não pode ser dividido com os gringos, dizem os protecionistas que já perderam o bonde da história.
Não faz absolutamente nenhum sentido. É loucura, e definitivamente não é do interesse dos consumidores.
                                              Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia sobre o subsídio americano ao etanol doméstico.
 
 
“Diga não a venda do etanol! O etanol é nosso.” É só o que falta ouvirmos sobre este combustível e sobre a possibilidade de efetuarmos um acordo com os EUA que contemple a maioria dos interessados. “Segredo nacional” que não pode ser dividido com os gringos, dizem os protecionistas que já perderam o bonde da história. Quem expropria a riqueza nacional não é o comércio externo, mas o próprio estado através de seus tributos acachapantes. A carga tributária incluída na energia corresponde a 43,7% em média da conta paga pelos consumidores. Se as estatais que controlam a produção energética no país não abrem seu capital para investimentos, qual afluxo de capital pode ser garantido? É da governança corporativa e da transparência, que fogem as estatais.
 
Por outro lado, a obtenção de licenças ambientais, no caso as prévias que não garantem a licença de operação, podem levar até dois anos. Isto muito embora o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) preveja sua obtenção em, no máximo, 12 meses. Estes são alguns obstáculos reais, ameaças reais ao nosso desenvolvimento e não um paranóico “interesse externo”. Quem dera houvesse mais e mais interessados em produzir e comprar o que é nosso.
 
Planejamento também parece ser uma palavra ausente no dicionário de nossos ministérios. Contar com a alta do preço do petróleo para o sucesso do etanol é, no mínimo, medíocre. A perspectiva tem que ser outra, a do rebaixamento dos custos de produção. Nunca é demais lembrar que se para uma OPEP as reservas de petróleo estão “sempre em vias de se esgotar”, esta mentira que tem um propósito definido, o de inflacionar o preço do barril. Para a Agência Internacional de Energia (AIE) se estima a oferta do óleo para, pelo menos, mais um século.[1] O problema envolvendo o petróleo não é de oferta, nem tecnologia, mas sim político regional. São os conflitos e guerras locais que tendem a manter a oferta reduzida. Sempre que se falou que um poço tem capacidade para mais dez anos, ele acabou produzindo por mais algumas décadas.
 
Por outro lado, uma vertente crítica acusa a produção de etanol como causa da inflação do preço dos grãos. Como sempre, é a retrógrada ONU, com suas agências como a FAO e a OCDE, cujas premissas protecionistas e sedução tarifária enfatizaram em relatório um aspecto decorrente da produção. Esta maneira de analisar a realidade é singular: isola-se um setor econômico dos outros, se analisa o reflexo da produção de etanol no preço dos alimentos sem considerar os reflexos na produção em regiões que serão incorporadas à fronteira agrícola como produtoras, nem no campo do emprego que será largamente beneficiado pela estruturação de toda uma cadeia produtiva. Aspectos positivos para que? São “irrelevantes”... Não se os analisa porque afetam pouco os aspectos negativos ou porque o saldo final seria positivo? Silêncio, a ONU, a OCDE e o livro do destino se fecham para nós.
 
Mas, seu custo não se compara ao atual do petróleo. Se há algo que onera a qualidade de vida dos consumidores no mundo, é a escassez energética e no Brasil, o peso do estado. Se os Estados Unidos desejam reconstruir sua matriz produtora de energia, mesmo que parcialmente, aí está uma “égua selada passando debaixo de nossos narizes”. É uma oportunidade única que, independente de quem quer que seja que esteja no nosso governo, não podemos desperdiçar. O preço dos alimentos aumentará? So what? Isto é temporário, pois criará uma demanda que induzirá outras regiões a produzirem alimentos, redistribuindo oportunidades de produção para outras regiões no mundo. Ao final das contas, a maioria ganha e a minoria acomodada terá que se adaptar. Capitalismo sem crises e reestruturação não é capitalismo. Ao final das contas, isto é que torna este sistema tão criativo e dinâmico.
 
Imagine se, realmente, os Estados Unidos conseguirem reduzir sua dependência de petróleo em 20% em dez anos, como quer George W. Bush? Nada melhor para tirarmos a vaca do brejo, seríamos uma espécie de Arábia Saudita tropical, com o benefício de não termos como subproduto, as brigas pelo monopólio da produção que existem entre as oligarquias árabes.
 
E seria uma miopia se vislumbrássemos apenas os EUA. No rico interior paulista, japoneses projetam a construção de mais de 40 destilarias para a produção de combustível para exportação. Negociar com gringo inclui o respeito aos contratos, diferente do que se viu com o “império inca” recentemente. Qual o problema disso? Negociar com “líder bolivariano” implica em se sujeitar às mudanças nas regras do jogo no meio do campeonato. Deve ser efeito da altitude... O que estes novos caudilhos latino-americanos não percebem é que há um grande leque de opções energéticas, dentre as quais a nuclear é a grande vedete e outras, como a eólica têm crescido em demanda.
 
O Brasil já suplantou os EUA como maior exportador de soja. Já atingiu a primeira colocação na produção de carne bovina e agora tem a possibilidade de dobrar sua produção de cana de açúcar. Não nos deixemos levar pelo pessimismo que, confundindo política de estado com governo, nos leva a uma oposição infantil ao etanol só porque parte de um governo do qual podemos discordar em outros (vários) quesitos. O que o Brasil deve ter em mente é que tem, momentaneamente, a faca e o queijo nas mãos. Mas, só por enquanto... Assim como a China fez com as suas Zonas Econômicas Especiais atraindo capitais do mundo inteiro e oferecendo mão de obra barata e desburocratização, o Brasil deveria fazer de modo similar aproveitando-se de sua tecnologia no setor, infra-estrutura (a desenvolver) e fatores naturais favoráveis como o maior período de insolação, por exemplo. Mas, se ficarmos “de frescura” discutindo a “essência do colonialismo agrário” ou qualquer outra bobagem, nos suplantarão fácil, fácil. Vários produtores mundiais estão se adiantando neste quesito e não será por falta de diligência que pecarão. A própria China prepara seu zoneamento agrícola para alavancar a produção de etanol nacional.[2] Se houver sinal de vida inteligente no Planalto, acordos de transferência de tecnologia deverão ser implementados. Mas, “sentar em cima da mina”, como se fazia nos anos 60 e 70 com a exportação de minérios obrigando que cada empresa portasse capital nacional majoritário, só deslocará investimentos e produção para outras paragens.
 
Não só a China, mas também, quem sempre joga para ganhar está mudando a face de parte de sua paisagem rural. O estado do Iowa, por exemplo, não está beneficiando apenas os produtores locais. Já há centenas de pequenos investidores, e outras de porte como a John Deere. Ao invés de tributar “atividades poluidoras”, Washington enxergou nisto a possibilidade de reduzir poluentes gerando mais empregos. E que o Brasil apresenta como vantagem? Solos, clima, mão de obra? Na verdade, uma combinação que faz com que nossa produção tenha metade dos custos da UE e 2/3 nos EUA.
 
Temos mais algumas vantagens. O subsídio ao etanol doméstico pelos EUA é insano, como diz o “governator” Arnold Schwarzenegger. A produção deles é próxima da nossa, mas diferentemente, sua demanda é muito maior. Enquanto que alguns de nossos obstáculos são emissões de “selos verdes” para produção ambientalmente sustentável, de acordo com normas ambientais brasileiras e européias, a produção americana tem reflexos no preço do milho que é sua matéria-prima para etanol e está na base de sua dieta. Há ainda algumas vantagens ambientais, pouco comentadas aqui, como subproduto do bagaço de cana, ainda é possível produzir biocombustível do lixo urbano. E, dá um gostinho especial saber que no longo prazo, os governos que usam e abusam de seus estoques de hidrocarbonetos, como a Bolívia de Morales, o Irã de Ahmadinejad, a Rússia de Putin, a Venezuela de Chávez terão seu poder de barganha diminuído.
 
O problema brasileiro fundamental é outro. A Bahia apresenta excelentes condições para a produção, mas a falta de infra-estrutura e logística, obriga a trazer 80% do álcool consumido de estados vizinhos. E, pior do que isto, sempre cabe a lembrança de que o que traz benefícios ao Brasil a partir do exterior, nem sempre é devidamente aplicado no mercado interno. Não devido a torpe visão terceiro-mundista de que adquirimos “dependência” com a globalização, mas sim porque, internamente, há sempre um “atravessador” que monopoliza tradicionalmente a produção. Seu nome: Petrobras. É a ela que devemos temer. Imagine os estoques de etanol sendo controlados por esta empresa. Alguém duvida que os preços não seguirão sua lógica monopolista ou sofrerão manipulação política?
 
O que falta aos críticos do etanol é perceber que este não será a salvação na substituição do petróleo (longe disto), nem o fruto maldito (através de um suposto neocolonialismo), mas uma entre tantas das formas de se produzir energia. Tal como na globalização se obtém alternativas de comercializar com diversos parceiros, as diferentes fontes energéticas somadas, diversificam a matriz energética retendo altas ou até reduzindo seus custos. A baliza que temos que adotar é o interesse dos consumidores. Isto serve tanto a nós brasileiros, quanto a qualquer povo. Mais do que do interesse de grupos específicos alojados em setores específicos, o planejamento estatal tem que visar a demanda do mercado. É nela que deve residir o foco para contratos e políticas.
 
 
 


[1] “ ‘Todo dia surgem notícias de que as reservas têm um limite ou que são muito maiores do que se imagina. Não parece ser isso que vai definir por quanto tempo vamos usar o petróleo’, argumenta o professor Celso Lemme, do Instituto Coppead de Administração da UFRJ. O que deve determinar até quando o petróleo será utilizado é a velocidade com que os combustíveis alternativos ganharão competitividade no mercado – vale dizer, escala e preços compensadores.” (http://amanha.terra.com.br/edicoes/232/capa01.asp). [voltar]
 
[2] “Mas a introdução do biocombustível não será tão fácil como os próprios chineses esperavam. ‘Fizemos estudos e notamos que não podemos simplesmente passar a produzir no campo matéria-prima para combustível sem ver o impacto que isso poderá ter no fornecimento de alimentos. Com 1,3 bilhão de pessoas, nosso equilíbrio entre terras destinadas ao cultivo de alimentos e garantir que a fome não aumente é algo fundamental’ (...) Segundo o chinês, a falta de terras aráveis na China é um sério obstáculo para o etanol.” (Jamil Chade) Newsletter diária n.º 992 - 09/07/2007 - http://amanha.terra.com.br/. Esta dificuldade alheia deveria ser aproveitada por nós. Até onde nosso Itamaraty enxerga, em termos de visão estratégica, eu não sei, mas se isto não se contempla e, por contraposição, se visa reforçar laços com governos decrépitos como os de Chávez e Morales é alarmante. [voltar]
 
Se preparem, com este calor extemporâneo, logo, logo teremos tempestades, vendavais e, como subproduto, aparecerão os profetas do apocalipse chamando a atenção para mais uma “prova” do aquecimento global com mais bobagens lançadas ao vento como a última palavra em ciência. Mas, como se obtém “provas” neste âmbito?
Se preparem, com este calor extemporâneo, logo, logo teremos tempestades, vendavais e, como subproduto, aparecerão os profetas do apocalipse chamando a atenção para mais uma “prova” do aquecimento global com mais bobagens lançadas ao vento como a última palavra em ciência. Mas, como se obtém “provas” neste âmbito?
 
A EXXON pode financiar uma pesquisa sobre mudanças climáticas? Ela teria “isenção”, ou melhor, o pesquisador pago por ela teria tal traço sobre-humano em sua personalidade? Não, mas isto não impede que a pesquisa tenha papel relevante e objetividade... Uma grande empresa petrolífera, realmente, é parte interessada em justificar sua atividade como não agressora do meio ambiente e, por extensão, não influente em qualquer mudança climática, atualmente mal vista. Mas, uma pergunta, o principal agenciador de pesquisas e divulgações sobre o alardeado aquecimento global, a ONU, através do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) tem tal isenção? A bem da verdade, quem mais recebe recursos para “provar sua verdade”?[1]
 
Vejamos por que não. A ECO-92 foi um prosseguimento da Conferência de Estocolmo de 1972, na qual o Relatório Meadows – que levou a publicação de um famoso e exagerado livro Os Limites do Crescimento – enfatizara a questão ambiental pela óptica de que os recursos naturais estavam se esgotando. Ou seja, o meio ambiente passou a fazer parte da agenda internacional, justamente através de uma preocupação eminentemente econômica. E daí, alguém poderia dizer, o que isto tem a ver com a “necessária” isenção? E eu replicaria com outra pergunta, que leitura a ONU faria disto? A mesma organização internacional que criou organismos como a Cepal, cuja teoria desenvolvimentista foi seu principal esteio teórico-metodológico não poderia deixar de assegurar que para se desenvolver, faz-se necessário economizar os ditos recursos. Agora eu pergunto, o que seria melhor, que a economia do principal recurso econômico (na década de 70 e agora no século XXI igualmente), que o petróleo fosse economizado ou que sua escassez seria bem vinda, pois já teria forçado a uma mudança da matriz energética anteriormente? Em outras palavras, tal suposta isenção só nos levou a empurrar com a barriga um problema que já era latente.
 
E não se enganem, muitos dos que falam em “ecologia” e fazem desta retórica seu ganha-pão são, na verdade, arautos tributaristas que, tal como foi a Cepal, têm no meio ambiente e na Mamãe Gaia um pretexto para sua sanha estatista. Sua prioridade não reside no avanço tecnológico, mas sim no alcance das garras estatais via aumento da tributação.
 
Agora, pensemos um pouco, Al Gore foi vice de Bill Clinton, um membro dos Democratas americanos que, tradicionalmente, têm uma visão mais próxima do Welfare State europeu, isto é, uma visão em que o estado deve atuar mais, propositivamente, dirigindo a economia. E, para tanto, ele tem que, obrigatoriamente arrecadar em maior grau. Nesta linhagem política, a “solução” passa pelas multas, sanções e impostos para daí, quem sabe, obter fundos para a resolução de impactos ambientais. Uma observação: não sou contra as multas, caso haja desrespeito com alguma lei em vigor, mas sou, obviamente, contra altas cargas tributárias permanentes que mais se assemelham a uma guerra preventiva em que nada ficou provado contra um agente econômico acusado de agressão ao meio ambiente.
 
Outra pergunta, não haveria aí, uma forte compulsão para incentivar pesquisas de cientistas que são a priori simpáticos à idéia do aquecimento global por ação antrópica, sem que a controvérsia tenha deixado de existir? Ninguém tem dúvidas sobre o mesmo, dir-se-ia... Outro engano. Há sim, muitas dúvidas...[2]
 
“Não há fatos, apenas interpretações” disse um tal Nietzsche, mas, por que não algumas observações? A premissa pós-moderna herdade do filósofo alemão serve como passaporte para que muitos releguem a busca da verdade, que desdenhem da mesma em nome de uma “vontade de poder”. Tudo não passa de um jogo, mas se dinheiro por dinheiro, recurso por recurso, ambas fontes (Petrolíferas vs. Governos) nenhuma têm isenção, então prefiro “faço ciência para saber quanto posso suportar” do não menos ilustre Weber. Seja lá qual for a fonte, o debate científico existe e deve continuar com base em regras de inquirição propriamente científicas, aquelas que procuram, sistematicamente, refutar as hipóteses mais bem aceitas. Maioria não é critério para verdade em ciência.
 
Se X recebe recursos de quem polui, isto não impede Y de questionar a pesquisa de X, óbvio. Não tão óbvio, mas igualmente legítimo, no entanto, é que X também pode questionar a pesquisa de Y, sem necessariamente focalizar os laços políticos de X (que também existem). O que deveria estar em foco é a pesquisa, não um laço, uma amizade ou uma “concha psicológica”.[3] Recebeste financiamento de algum grupo econômico? Ou de um governo interessado em abocanhar mais do esforço de meu trabalho? Não tem problema, me passe aí teu paper que quero ver se porta erros de procedimento internos a busca objetiva de alguma explicação.
 
A questão do vínculo econômico não seria, portanto, objeto do debate físico-químico sobre o suposto aquecimento global antrópico, mas sim de outro debate científico, o da sociologia da ciência. Ninguém é neutro, mas isto não serve de desculpas para a falta de coerência metodológica. Dizer que todos são parte interessada não exime ninguém de aceitar as regras do “jogo de pesquisa”, estas sim, isentas.
 
 


 
2 - Cf.: Cientistas criticam relatório do IPCC, dentre muitos outros sites, links e bibliografia a serem discutidos no momento oportuno. [voltar]
 
3 - Um psicólogo obcecado por casos de maus tratos na infância não pode ter sua pesquisa, previamente, invalidada só por que sofreu abuso sexual na infância, mas sim por que a mesma pesquisa, eventualmente, não tenha cumprido passos necessários na obtenção, objetiva, de seus resultados. Isto é, o que se critica em um debate coerente é a metodologia adotada e não os motivos (subjetivos) que levaram alguém a se interessar por seu objeto de análise. [voltar]
 
Sábado, 23 Junho 2007 21:00

Democracia e Interesse

Democracia pressupõe conflito sim, mas um conflito regulado (e regulamentado) por regras transparentes.

Não existem em essência “interesses coletivos”. Todos interesses são, no limite, interesses privados. Mas, não raro, quando se demanda por maior força política ocorre a arte da associação. Se eu tenho interesse que meu bairro, localizado em uma área que recentemente deixou de ser rural tenha calçadas, isto vai depender de minha comunicação com os representantes políticos locais e/ou com a própria população. Se esta não demonstrar interesse nisto, terei que me esforçar por convence-la de sua importância. Do contrário, simplesmente não atinjo meu objetivo e fica comprovado que meu interesse particular não encontrou sintonia com o de outros.

Não há neste caso, um interesse coletivo que deixou de ser atingido. A coletividade em questão não achou interessante minha proposta individual, provavelmente por que outros indivíduos têm outras prioridades. O termo “coletivo”, no entanto, goza hoje de um favoritismo, como se fosse o certo ética e politicamente falando. Não é assim. Torna-se mais fácil pensarmos em uma lógica de ação coletiva quando não dispomos do referencial teórico de uma verdadeira democracia liberal. Em uma economia altamente oligopolista como a nossa em que alguns setores empresariais não têm no estado a necessária isenção de interesses políticos e sede por propinas, mas sim um corruptor, se sabe de antemão que jogar segundo preceitos individuais e de livre-mercado é como seguir os Dez Mandamentos numa Sodoma. O mecanismo público de apropriação dos interesses privados que se tornou mais conhecido em nossas latitudes como a malfadada “Lei de Gerson” é uma deturpação do liberalismo e não seu endosso. O que deveria existir para regular os interesses, apenas perverte.

O tão alardeado fracasso da “democracia burguesa” em prol de uma tão utópica quanto nefasta “democracia popular” se constitui em um estelionato sociológico de raciocínios totalitários. Primeiro por que a democracia não é “burguesa”. Burgueses, assim como quaisquer outros grupos têm no regime democrático seu lugar. A raiz do problema está na promiscuidade entre um poder público e os direitos (e deveres) privados, o que se chama patrimonialismo.

Costumamos associar esta perversão só na entidade todo-poderosa chamada de “estado”, esquecendo-nos que ela é, em última instância, um reflexo do que somos como sociedade... Por ocasião da greve da USP, um estudante me disse que “um dos princípios da democracia é o direito de greve”. Pois sim, mas também é um de seus princípios, intocáveis, o de “ir e vir”. Como manter aquele em detrimento deste quando professores e alunos que não simpatizavam com a causa são impedidos de entrar em suas salas de aula? Tão lícito quanto o direito à greve é o de não participar da mesma.

O que não se considera na ação de um agente corruptor incrustado em algum órgão público ou em um militante socialista que finge estudar para se aplicar na política estudantil, é que nossa civilização se apóia, mais do que no conceito de propriedade privada, na idéia de um contrato social. Este pode ser quebrado desde que assumidas determinadas conseqüências. Se eu não quero cumprir com minhas obrigações trabalhistas, este é um direito meu, mas devo saber que sofrerei algum tipo de sanção, que terei que arcar com os efeitos de meus atos. Simples.

Nenhum direito no caso pode subverter o direito à liberdade, o que foi o que se viu na greve dos estudantes da USP. Diga-se de passagem, insuflada, pelo sindicato dos funcionários, o SINTUSP.

Ocorre que a mentalidade de sindicatos não se pauta pela lógica de mercado que é, antes de tudo, uma ação coletiva cujos interesses são privados. Se a greve, realmente, tivesse o endosso da maioria, por que não deixar, justamente, esta suposta maioria decidir por si própria se queria ou não ter suas aulas? Por que o temor? O raciocínio sindical não parte da premissa do livre-arbítrio, ele procura anula-lo tal qual um corruptor procura anular a competição em seu próprio favorecimento.

Democracia pressupõe conflito sim, mas um conflito regulado (e regulamentado) por regras transparentes. No fundo, o que fazem os arautos da “democracia direta” ou da chamada “democracia participativa” é transformar a própria democracia numa “soma de opiniões ignorantes”.

A idéia subjacente é que não deve haver governo (“si hay gobierno, soy contra”), todos devem tomar o estado de direito de assalto e, posteriormente, perante uma anarquia reinante, sugerir um governo sim, porém despótico. Nada de doutrina de governo, mas que se doutrinem indivíduos para um governo alheio a eles, parece ser seu mote. Subverta qualquer arranjo institucional em nome de um vago conceito de “ação direta”. Para meliantes deste naipe, as instituições são apenas blocos de poder em que indivíduos não atuam, se submetem. Mas, o que eles fizeram senão submeter os que não concordavam?

O pior é que democracia pressupõe também uma antítese da insociabilidade. E, behavioristicamente, falando, o que mais se viu, foi a manifestação por parte dos estudantes, de um comportamento de matizes totalitárias. Em que pese seu adjetivo preferido: o “social”. Social isto, social aquilo, não teve na realidade nada de “social” em ameaçar aqueles que pleiteavam um raro desejo no Brasil, o de estudar.

Os socialistas gostam de chamar nossa democracia de “burguesa” confrontando-a com uma mágica democracia socialista. Ora, democracia é democracia, que me perdoem a tautologia. E ela não pode ser contraditória, isto é, que pressuponha a eliminação da própria liberdade de expressão, de comércio, de direito à propriedade etc. A democracia não subsiste também sem o republicanismo que separa a coisa pública (res publica) da propriedade privada. As duas são necessárias e devem ser bem definidas para que nenhuma suplante a outra.

No Brasil, só se começou a falar em democracia como princípio absoluto, em nossas academias plenas de marxismo, a partir dos anos 80, quando o socialismo moribundo da Europa já dava seus sinais mal cheirosos de putrefação. A incorporação do conceito por eles é recente e mal compreendido. Tal qual os corruptos do governo ou os que se beneficiam deles, nossos estudantes grevistas destroem cotidianamente a base da sociedade democrática ao misturar seus interesses privados com o que deveria ser comum a todos, a liberdade de opção.

Sexta, 01 Junho 2007 21:00

O Homem e o Mundo Natural

Não nos cabe ao propor uma tarefa de entendimento da realidade perguntando, metafisicamente, o que é a vida? Mas, sim como ela funciona?

Quando era garoto, na periferia de Porto Alegre onde me criei, havia uma espécie de limbo entre o meio urbano e o rural. De meu edifício de quatro andares, eu avistava um campo onde os bois e vacas pastavam. Não havia uma transição gradual como na maioria de nossas cidades atuais, era abrupta. Acostumei-me tanto a esta paisagem sui generis que ao avistar as paisagens citadinas de hoje, sinto um estranhamento pelo que, na realidade, é “normal”. Como dizia, hoje nosso espaço é marcado por uma espécie de continuum urbano, que vai dos sobrados do centro histórico aos edifícios espelhados do centro expandido, passando por áreas decadentes, chegando nos bairros que contrastam miséria arquitetônica e infra-estrutural com um luxo cercado por uma moderna e quase medieval barreira que, behavioristicamente, simplesmente nos esquecemos de nossa “natureza”. Mas, aí acabo de tocar numa palavrinha que gera um verdadeiro “rebu” na filosofia... O que, afinal de contas, é a “natureza humana”?

Nem sou louco de começar esta conversa. Nem com muito uísque e baforadas de meu Dunhill chegaria a algum lugar. Mas, lembrando do saudoso Popper, não nos cabe ao propor uma tarefa de entendimento da realidade perguntar, metafisicamente, o que é a vida? Mas, sim como ela funciona? Neste sentido, é que recomendo um dos melhores livros que já tive a oportunidade de ler em meus 40 e tantos anos: O Homem e o Mundo Natural de Keith Thomas, em que este arguto historiador analisa nossas sensibilidades e práticas com relação aos outros elementos da natureza do século XVII ao XIX. 

Há duas razões por que vale a pena lê-lo. A primeira se refere a atual coqueluche ambientalista mundial, que muitos atribuem a ascensão da ecologia como ciência. Não, vem de antes, muito antes para dizer a verdade. Outra se refere ao que é, ou ao menos o que deveria ser, um verdadeiro estudo de História por que baseado mais em fatos do que teorias... Thomas mostra como nosso sentimento atual em relação à natureza vem, em grande medida, da Inglaterra Vitoriana. Período e local histórico de intensa urbanização, que gerou sentimentos de frustração, especialmente, de literatos, poetas, utópicos, em geral, que começaram a expressar nas letras uma saudade do mundo que se ia embora. A intensa atividade nas crescentes urbes e o sumiço do canto dos pássaros e suas bucólicas paisagens campestres chamavam a atenção desses escritores. Só que o detalhe curioso é que muitos deles, realmente, não tinham vivido tal mundo, muito menos os duros afazeres da vida campestre. E é precisamente nesta medida que pintavam uma realidade tão idílica.

Em época anterior foi nesta mesma paisagem, mais real do que mental, que nobres ingleses criaram a raça de cão buldogue para matar touros na arena. Escapando das guampas por serem de baixa estatura e pulando com suas fortes patas grudavam suas mandíbulas hipertrofiadas no pescoço dos touros fazendo-lhes sangrar até o último suspiro. Este mundo alterou sua sensibilidade sim, mas justamente com o desenvolvimento dos costumes ligado à mesma corte que antes se deliciava com o chão salpicado de sangue.

Recordo-me agora quando uma das vacas que pastavam em frente a minha morada passou pelo cerca de arame farpado corrompido. A gurizada se atiçou toda e cada um queria ser o melhor na pontaria. Quando enxerguei o animal, seu rabo pingava sangue nas lajes de granito da calçada. Naquela época, eu, um “garoto de apartamento” daqueles com pouca vivência nas ruas ficara embasbacado sem entender o que acontecia. Minha “natureza” era diferente? Minha “essência” era outra? Nada disto. Eu só tive mais freqüência em frente à TV, na qual via Rin Tin Tin e vários desenhos da Disney ou Hanna-Barbera com seus personagens, animaizinhos antropomorfizados. Talvez esta tenha sido a primeira vez que me “relativizei” na minha tenra vida, que me coloquei no lugar do bovino com a cauda encharcada de sangue.

Portanto, não seria um suposto “retorno ao natural”, o que nos tornaria mais “humanos”, como querem nossos novos arautos da metáfora ambientalista. Foi tão somente uma sensibilização que teve data, local e autoria de nascimento que me permitiu, assim como a muitos hoje em dia, pegar e reprimir um moleque daqueles. Não foi uma essência que me fez, não foi um retorno que me orientou, foi um aprendizado.

Quando vejo que em Santa Catarina, onde resido, ainda se cultua a estúpida e covarde “farra do boi”(1) não concluo que se trata de uma “sociedade bárbara”. Não, nada disto, mas sim uma sociedade que ainda não atravessou sua “revolução vitoriana”.

Hail to England!

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(1) Mesmo que, hipocritamente, se mude seu nome.

Quinta, 24 Maio 2007 21:00

Não Seria Netuno?

Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Pois é, algumas vezes eu fui interpelado por crentes no centro de São Paulo. E crentes ali se vestem de acordo, com terno, gravata e portam valises cheias de panfletos coloridos. Alguns ainda em papel couché... Numa destas, pouco antes da (pseudo-)virada do milênio:

-- O mundo vai acabar! Estás ciente disto?! Por isto viemos trazer A Palavra do Senhor.

-- Ora, é mesmo? Por que vai acabar?

-- O homem destrói a si mesmo, peca e difama o nome de Deus.

-- Mas, como pode saber que vai, assim, acabar?

-- Já leu a Bíblia? Temos aqui um folheto explicativo(sic) que mostra que essas coisas que estão acontecendo, terremotos, vulcões são sinais, são sinais da vontade de Deus.

Isso que ainda não tinha ocorrido a tsunami de 2004 no Índico. Se fosse o caso, já estaria atestado o apocalipse. O mundo já deveria ter acabado. Só não sei se Netuno tomaria o lugar de Lúcifer...

Mas, vocês sabem o que é dar quatorze aulas no dia, cujo tema principal foi estrutura geológica e tectônica de placas? Não que eu tenha a profundidade de um geólogo, mas como professor de geografia tenho que tratar o tema para adentrar em relevo, tornando este mais “palatável” para alunos de pré-vestibular. E vos garanto, não é fácil... Daí, ao final de um dia sofrido vindo de Santos para São Paulo, com mochila nas costas por que, por alguma razão estava sem carro, vêm estes dois agourentos me encher a paciência quando o que eu mais queria era um pouco de água encanada na cabeça. Vir me falar de “fim do mundo” foi demais, enquanto eu é que já estava acabado.

-- Olha, eu não estou com tempo agora, mas não é nada disso não. Terremotos ocorrem todos os anos em países como o Japão. A probabilidade de que um seja muito forte ou devastador (por que depende de onde ocorre) é de seis em seis anos...

-- Mas, você não acha que é um sinal?

(Interrompendo) -- Não, não acho, mas me dá um desses papelzinho(sic) que vou ler, prometo.

-- Bem, se o Senhor puder ajudar, nosso trabalho é voluntário, mas aceitamos contribuições de fiéis... de quem possa nos ajudar.

-- O trabalho não é voluntário? Vocês estão cobrando por algo que não concordo.

-- Não se faz nada sem dinheiro nesse mundo.

-- Pois é, eu que o diga... Não, não vou pagar pelo que não concordo. Boa noite.

E fui embora tomar meu banho.

Algo parecido ocorre hoje, só que ao invés de encontrarmos respostas na Bíblia, é Al Gore um de seus sintomas. Autodeclarado “budista”, o político aumenta o séqüito dos que vêem o “grande satã” no capitalismo. Troque o nome de Lúcifer por “aquecimento global” e pouco muda nessa lógica. Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Sábado, 05 Maio 2007 21:00

XX Fórum da Liberdade

Na 20a edição do Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre dias 16 e 17 abril passados, cujo tema foi Propriedade e Desenvolvimento, fiquei um pouco apreensivo pela presença de alguns palestrantes como Frei Betto, consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com Miguel Rossetto, ex-Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Governo Lula.

Na 20a edição do Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre dias 16 e 17 abril passados, cujo tema foi Propriedade e Desenvolvimento, fiquei um pouco apreensivo pela presença de alguns palestrantes como Frei Betto, consultor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com Miguel Rossetto, ex-Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário (MDA) no Governo Lula. Achei que o caráter do Fórum tinha sido corrompido em nome do "politicamente correto", mas felizmente me enganei...

Sem querer desmerecer os demais participantes e outros painéis interessantes, quero discorrer algumas letras sobre as contribuições destes dois senhores.

Frei Betto participou de um painel sobre “As Limitações Legais e Constitucionais ao Direito de Propriedade” com os juristas Ives Granda Martins e Manoel Gonçalves Ferreira Filho no segundo dia de fórum. Na verdade, as colocações de Betto fugiram por completo do tema. O tom de sua análise beirou a “auto-ajuda” ao advogar um sistema pautado na solidariedade. Mas, o que significa construir um “sistema solidário”? Além do que não fica claro como a solidariedade seria organizada, se com ou sem propriedade privada?

Tenho lido gente a qual me oponho. Desde que haja conteúdo no que dizem, sempre vale a pena. Não há, no entanto, nenhum mérito em quem escapa pela tangente de um debate com arremedos de metáforas. Exceto se considerarmos a incrível capacidade de ludibriar. Solidariedade, diferentemente, do que poderia pensar Betto não pressupõe uma limitação ao direito de propriedade. Adam Smith já dizia que o livre-mercado não depende, necessariamente, de um egoísmo como ética em todas as instâncias da vida de um indivíduo (1) .  É plenamente possível (e desejável) que as pessoas se empenhem em atividades filantrópicas, sem interferência estatal. E seria melhor ainda por que não se correria o risco de desvios, ou de institucionalização daquilo que a sociedade pode considerar necessário agora e não mais em outra conjuntura.

Segundo Betto, o problema residiria em nos “excessos”. Para ele, o excesso de governo é o totalitarismo; o excesso de sociedade civil é o anarquismo; e o excesso de empresários é o corporativismo. Mal teve tempo de terminar, o moderador lhe colocou uma posição contrária como ensejo para uma questão, onde o excesso de governo seria sim, o totalitarismo, mas o excesso de sociedade significa pluralidade e o excesso de empreendedorismo, capitalismo. Como esta palavra deve lhe causar alguma urticária, se limitou a dizer que “deveríamos nos envergonhar (sic) do capitalismo”. Talvez a ética católica de Betto seja mais forte do que imaginamos... Embora esta não fosse passível de se aplicar aos leigos, para o direito canônico um bom religioso não poderia ser comerciante.(2)

Ferreira Filho ainda contemplou que se fugiu completamente do tema “propriedade privada” e que o corporativismo vem da Idade Média. Acho importante observar isto, para que não se relacione, indevidamente, um fenômeno contemporâneo do capitalismo com sua própria gênese. O que tem menos a ver ainda com sua forma liberal.

Bem, o show viria mais tarde, dado por Denis Rosenfield, professor de filosofia da UFRGS, ao debater com o ex-ministro Rossetto no painel sobre reforma agrária. Como já seria de se esperar, Rossetto fez uma defesa apaixonada desta política alegando ser mais justa a conseqüente distribuição de terras e seus efeitos, como manter jovens no campo evitando a dispersão na cidade e sua falta de oportunidades. Acho incrível como pode se distorcer tanto o foco de um debate. Pois, até onde sei, a questão era se a reforma agrária implicou ou não em maior produtividade. Se sim, empregos seriam gerados, se não, valeria mais a pena investir na formação de empregos urbanos.

Mas, o que Rosenfield frisou foi que o MST, atualmente, não discute mais a questão se uma propriedade é ou não produtiva e sim, a “função social da propriedade”, conceito vago este que, a bem da verdade, sabemos que pode ser interpretado conforme as conveniências do próprio MST. Para esta sigla, simplesmente não importa mais se uma fazenda é ou não produtiva. Não haveria mais propriedades improdutivas no Sul e Sudeste brasileiros, situação discrepante de outras regiões. O caso emblemático da, altamente produtiva, Fazenda Coqueiros no norte do Rio Grande do Sul, serviu até como motivo para uma instalação nos stands do fórum onde havia o resto das ferragens de um caminhão queimado pela “movimento social”. A militância dos sem-terra utilizou o próprio combustível para queima-lo. Também fica difícil entender o conceito de função social da propriedade quando quem diz lutar por ele queima 130 hectares de uma fazenda. Aplicando a metodologia de Betto, talvez seja por “solidariedade aos piromaníacos”.

Prosseguindo na apresentação, Rosenfield mostrou alguns slides em que, além de garrafas de cachaça jogadas no pasto pelos invasores, havia um galpão em chamas, com madeira pronta para comercialização, que mais lembravam as ações da Ku Klux Klan no sul dos EUA. E, para mim, o mais chocante: um terneiro, cujos tendões nas patas foram cortados. Motivos para estes atos? Talvez, o caminhão represente o ciclo do capital que precisa de um mínimo de agilidade na distribuição de produtos ao mercado; o fogo, um purificador do que julgam o símbolo demoníaco no depósito, um fruto do engenho e empenho daqueles que fazem mais por sua sociedade que qualquer metafórica “função social da propriedade”; a cachaça, a inspiração para os covardes; e, por fim, o animal barbaramente torturado, um aviso da vontade de aplicar sua “justiça revolucionária”. Que explicação pode haver para o terror? O álcool não é, ele apenas ajuda a revelar o que são estes indivíduos.

Uma forma interessante de se entender uma situação social, seja cultural, política ou economicamente falando é se por no lugar de outra pessoa, especialmente quando vinda de uma realidade distante. Este foi o caso de Barun Mitra, pesquisador de políticas públicas de Nova Délhi. Muito estranhou que uma potência agrícola como o Brasil ainda estivesse discutindo a distribuição de terras no meio rural. Sim, parece paradoxal, exceto quando não se enxerga que o que falta não é terra, mas geração de emprego. Obviedades como esta parece nos escapar quando se ouve um Rossetto dizer que o Brasil espantaria um indiano ou francês pelo tamanho de suas propriedades, ao que foi confrontado pelo moderador, com um gráfico que mostrou propriedades médias em outros países, cujo tamanho era muitíssimo maior. A Austrália, por exemplo, me surpreendeu... Mas, pensando um pouco mais, fica fácil entender por que tamanha diferença: um país quase do tamanho do nosso, com uma população inferior a Grande São Paulo, só poderia ter uma baixíssima densidade demográfica e, logo abundância de terras. Rossetto se viu numa “cama de gato”, pois invocou a extensão média das propriedades para, minutos depois, ver sua própria linha de raciocínio voltar contra si próprio! O que lhe restou? Só dizer que média não prova nada, que “média distorce a realidade!” Se antes a propriedade média espantava pelo seu gigantismo, depois ela só distorcia.

Ocorre que esta não é a verdadeira questão e sim que países como a Austrália são altamente urbanizados, não havendo a menor possibilidade de, para se atingir maior grau de desenvolvimento, se questionar a estrutura agrária atual. O emprego em massa está nas cidades, o percentual de agricultores no mundo moderno é cada vez mais baixo. Negar isto pressupõe ingredientes mentais ludditas, pressupõe o atraso, pressupõe o populismo que é o caso do ex-ministro.

Dados concretos derrubam metáforas, pois afinal o que significa enfatizar a “função social da propriedade”, como se a própria propriedade já não fosse socialmente funcional?

 


 

 

Se os organizadores do fórum me permitem uma pequena crítica, só senti falta, dentre tantas formas de analisar a propriedade privada, de alguma consideração sobre a propriedade urbana. Após a Lei 10.257/2001 conhecida como “Estatuto da Cidade”, as cidades com mais de vinte mil habitantes são obrigadas a formarem seus Planos Diretores Participativos. E não podemos nos esquecer de que os mesmos subentendem que deve haver uma função social da propriedade urbana. Em tempos de Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), seria bom que fosse dado o alerta...

 

 

 

 

 

 

 



1-  Disaster relief: What would Adam Smith do? Sobre o que seria a posição de Smith em relação ao apoio às vítimas da tsunami asiática no Índico em 2004. E ainda sobre o cataclismo, conferir o “descaso” dos países ricos em relação aos atingidos: Tsunami aid: Who's giving what.

 

2-  “(...) Decididamente os comerciantes ocupam grande espaço na Idade Média desejosa de mutação. Apesar da Igreja. Sejamos justos: o preconceito anticomercial não é unicamente dela. Vai ao encontro de uma inveterada desconfiança popular contra o intermediário, que vende o que não foi produzido por ele mesmo: ‘Capelista que vende de tudo nada faz’, diz o provérbio. A Igreja não se priva de ir ainda mais longe.

“Ela decreta a proibição da atividade ‘comercial’ a seus próprios membros. O cânone 142 do Código de Direito Canônico é drástico: ‘É proibido aos clérigos exercer, para si ou para outrem, atividade nos negócios ou no comércio, seja em seu benefício, seja em benefício de terceiros’.
“A proibição não tem em mira os leigos, mas predomina a idéia de que não se pode ser, ao mesmo tempo, comerciante e bom cristão: ‘Raramente, talvez nunca, um comerciante pode agradar a Deus’” (Alain Peyrefitte. A Sociedade de Confiança: ensaio sobre as origens e a natureza do desenvolvimento. Rio de Janeiro : Topbooks : IL, 1999, p.90. Grifos meus).

Quarta, 11 Abril 2007 21:00

Uma Análise Infernal

Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo?
Ao invocar o conceito marxiano de “alienação” e dizer que o mesmo “forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos”, o Papa Bento XVI parte de um pressuposto, o de que as pessoas têm um desejo não satisfeito de realização. Pelo menos, assim pensava Karl Marx, em quem o papa se baseou. Não esqueçamos que tudo em Marx corrobora, teleológica e objetivamente falando, para um colapso do capitalismo. Não fosse isto não haveria nada demais em citar Karl Marx. Nada de mais, bem como desnecessário, pois alienação pode ter um significado bastante genérico como “falta de percepção de significado”. Mas, se entender que o significado de algo corresponde a mudar uma realidade criando um novo mundo, o autoconhecimento enquanto ser alienado para não alienado significa, no entendimento marxiano, passar de “classe em si” para uma “classe para si”. Sim, desconsidera-se o individuo para pensarmos em uma categoria coletiva, a classe social.
 
Para que o conceito marxiano de alienação faça o mínimo sentido é necessário que as pessoas (classe, na linguagem marxiana) tenham o mínimo desejo de mudar esta realidade. Neste particular sentido, “alienação” não é, portanto, um conceito solto no espaço. Ele se prende a uma teoria geral do capitalismo. Isto é diferente de pensarmos a alienação como resolvida ao voltarmos ao estado original da produção, quando um artesão não só produzia, como distribuía o fruto de seu trabalho sabendo muito bem ao que se destinava. Para Marx, esta não seria uma solução, pois não cabia como alternativa a abdicação da crescente utilidade marginal das benesses capitalistas. Assim, não se poderia revolucionar tendo como meta, por exemplo, a miséria feudal.
 
O papa acusa Marx de ter um conceito limitado de alienação, como derivado de seu “materialismo” entendido aqui como economicismo. Para Marx, no entanto, não era bem assim. Não era assim por que o materialismo de Marx não era alvo a ser atingido, um pressuposto para a ação, mas método. Equivocado, mas método de análise. Enquanto que o papa Bento almeja um mundo não ordenado pelo “materialismo”, Marx também almejava. A diferença, segundo a observação papal, é que Marx só via a opressão econômica. Nisto, pelo menos de modo explicito, é que o papa diz divergir do filósofo comunista. Em que pese à diferenciação formal entre ambos, há uma incrível semelhança na crítica ao capitalismo calcada em um ideal de harmonia. Outra semelhança não explicitada reside no fato de que tanto o catolicismo quanto o marxismo se pretendem explicações finais e abrangentes o suficiente para encerrar o veredicto sobre todas as mazelas sociais. Trata-se de teorias holísticas neste sentido.
 
Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo? O consumo, assim como a renda ou o lucro “não realiza ninguém”. Eles nada mais são do que índices da própria realização, em um sentido bem estrito, já consumada. Quando eu compro livros ou cds (sim, ainda os compro) não estou “sendo realizado”, mas “me realizo” pelo meu trabalho como professor. Neste caso, o ato de consumir é mera decorrência. Que o papa não veja assim é direito seu, que ele ache que pensemos o contrário, nos auto-realizando através do consumo é um erro grosseiro, uma pressuposição de que quem atua no mercado não passa de autômato sem vontade e consciência próprias.
 
Auto-realização no sentido estático de se realizar, finalizar, acabar vai, inclusive, em sentido contrário ao próprio significado do capitalismo e sua economia de mercado pautados na diversificação dinamicamente crescente. Se o consumo é valioso para nossas vidas é por que ele pressupõe algo que não é consumo, para além da própria necessidade, mas na auto-estima derivada de uma conquista individual. E esta não é um objetivo final, mas precondição para continuarmos trabalhando e, de vez em quando, diariamente, mensalmente também consumindo. Mas, sinceramente, como falar a marxistas ou aos espíritos religiosos mais ortodoxos que podemos ter uma consciência e livre-arbítrio pautados por uma moral que não seja hierarquicamente superior ao conceito de indivíduo?
 
Lembremos que os modelos de auto-realização, isto é, de seres não alienados em Marx são cientistas, filósofos, artistas, mas não os proletários! Ou seja, toda a retórica marxiana se baseia em uma revolução pautada na aliança entre operários e camponeses, mas os próprios modelos de integridade intelectual dados por Marx não estão nestas classes. Que o marxismo inclua erros de previsão histórica (que nem deveriam ser o objeto de investigação social, mesmo) e outros intrínsecos ao seu método ao desconsiderar os indivíduos como principais elementos e agentes de uma lógica social, não é nenhuma novidade. Mas, ao se basear em conceitos tomados soltos de uma teoria totalizante (que deu margem a um sistema totalitário...), o sumo pontífice cometeu um grave “pecado” para a lógica ao atribuir uma causa – o consumismo – a uma conseqüência – a alienação –, que nem sequer apresenta o status de ser um fato. Ao genérica e grosseiramente, identificar empregadores como “bandidos” para, parcialmente, argüir sobre os “males civilizacionais” lançou mão de uma lógica pouco celestial, para não dizer infernal mesmo.
 
Se a democracia para uma leva de socialistas pós-Muro de Berlim se tornou um conceito a considerar ou uma maneira conjunta de gerir os destinos da linha de produção fabril (e assim escapar da alienação), também não salva Marx que, reconhecidamente, desdenhava as possibilidades da própria democracia. E cá entre nós, imagine a bagunça derivada da ausência de meritocracia no ambiente fabril. Isto não tem coerência, exceto se o papa imaginasse dividir seu poder com níveis inferiores da hierarquia eclesiástica. Acho que não...
 
Se para Marx, a alienação residia no desconhecimento de todo processo de produção no qual participa o trabalhador, a critica explícita do papa é quanto à compulsão ao consumo. Como antípoda tanto Bento XVI, quanto Marx advogariam um utópico estágio de consciência e auto-realização. O segundo no comunismo, o primeiro em uma sociedade pautada por valores religiosos. Não sei bem como o papa definiria esta, mas me arrisco a dizer que implica em um estado não laico a tomar como exemplo as mais recentes críticas do Vaticano a ausência de referências às “raízes cristãs da Europa” na nova Constituição da União Européia. Ou seja, contra uma das maiores realizações da humanidade que é a separação entre estado e igreja.
 
Os que prontamente saíram em defesa do papa assinalaram as diferenças de seu pensamento em relação ao de Marx. Pois bem, não são só diferenças. As semelhanças entre o marxismo e conservadorismo papal são fundamentais para se entender as possíveis conseqüências de sua análise. Além da incompreensão da natureza do trabalho industrial e da coordenação em atividades complexas como a economia de mercado enseja, está a recusa em considerar as trocas entre valores como algo não superável, mas sim desejável para a verdadeira harmonia social. Embora Marx definisse seu socialismo como “cientifico”, no que estava inteiramente errado, o pensamento papal também tem um parti pris semelhante ao não partir do que é o ser humano e sua convivência em sociedade, mas o que ele deveria ser. Sua tentativa se resume em imputar às sociedades uma forma de agir, mal definida, e pautada em um voluntarismo utópico no qual os indivíduos abdicariam de seus desejos pessoais. Assim como Marx também procurou se distinguir de seus pares socialistas ao buscar “condições objetivas” de superação do capitalismo, o que o guiou foi uma forte ilusão de um sistema ideal (“ideal” para ele, bem explicado). O saldo tenebroso disto já se conhece bem, com seus 100.000.000 de mortos. Já o saldo dos tempos em que a igreja mandava e desmandava mundo afora parece distante... Especialmente quando não se percebe (ou se lembra) a gravidade de seus atos e prerrogativas.
 
Sexta, 16 Março 2007 21:00

Ilusões de apartamento

Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido.

Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido. Mas o jogo é conhecido, um produtinho embalado da mídia esperta que ganhou rios de dinheiro com uma bandinha de 5ª categoria. O responsável por esta alquimia barata foi o empresário Malcolm MacLaren, quem absorveu o clima reinante do underground nova-iorquino dos anos 70 e soube vendê-lo mundo afora. Uma de suas frases era: "se não te apoderas das coisas que te rodeiam, só porque te servem de inspiração, és estúpido. O mundo é feito de plágios."
 
Honrosas exceções existem. Mais verdadeiros seriam os pós-punk do New Model Army que com sua “51th State of America” fazendo menção à subserviência inglesa para os EUA. Não que eu corrobore o tema, mas eles são legítimos ao levarem adiante o que acreditam, uma canção que lhes rendeu a proibição de tocar seus esfuziantes acordes do outro lado do Atlântico.
 
Tempos depois, a fórmula "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" se repete num eterno retorno da rebeldia de apartamento. É a vez de uma banda (de horrível musicalidade, diga-se de passagem) chamada Rage Against the Machine. Com um vídeo clip bem produzido eles alternam imagens tocando na New York Stock Exchange (NYSE) na Wall Street, com cenas de desgraças do III Mundo. Ao final são presos pela polícia nova-iorquina. Tudo bem produzido de encomenda para atiçar os hormônios de jovens púberes que também começam a se coçar para gastar com o cdzinho. Ocorre que sua gravadora era a Epic, subsidiária da Sony, multinacional bem capitalista...
 
Que jovens queiram extravasar sua fúria com rock, não vejo nada de mais, mas que sejam tão ingênuos de não verem as conexões óbvias de seus ídolos com o big business é enjoativo demais, assim como não perceberem que são suficientemente tolos.
 
Integrantes desta horrorosa banda se juntaram ao vocalista Chris Cornell, de um bom grupo, o Soundgarden e formaram o Audioslave que tem sonoridade bem aprazível (quem disse que juntar laranjas podres com uma boa apodrecem esta?). Mas, o curioso sobre o Audioslave é que eles foram o primeiro grupo de rock a tocar na Praça Anti-Imperialista em Havana em 40 anos, com um público de 50.000 pessoas sedentas pelas delícias do capitalismo. Vi o show em documentário da HBO que intercalava com entrevistas e cenas na capital cubana. Em certo momento, os integrantes da banda comentam sobre a famosa foto de Che Guevara, como um rosto que simboliza a luta pela justiça ou algo assim... Mais tarde, o baixista tentava se lançar de bicicleta cross por íngremes paredões ao que era impedido pelo seu segurança. Desistindo, desabafou que se morasse em Cuba abriria uma loja de artigos esportivos para quem curte bicicleta(!). Aquilo me extasiou, pois isto resume muito bem o conhecimento adolescente sobre a política comunista. Como ele poderia achar que teria este direito? A liberdade ao comércio e à propriedade privada em uma ditadura comunista?! Por isto reafirmo, salvo raríssimas exceções, eu gosto é de "rock alienado", pois a grande maioria dos que se dizem "cabeça" são inocentes úteis a alguma causa perdida que só reproduz tipos bobos. Prefiro ouvir adolescentes cantando sobre garotas do que críticas à Margaret Thatcher, cujas políticas alçaram o Reino Unido a uma confortável posição em crescimento e baixo desemprego entre os grandes países europeus; prefiro ouvir cantarem odes a cerveja do que protestos indignados contra a fome na África para depois enviarem recursos e disponibilizarem fundos a líderes corruptos no continente; prefiro ouvir sobre carros velozes do que sobre o aquecimento global sem nenhum conhecimento de suas teorias nem de ciclos naturais etc. etc. e etc.
 
Mudando de saco pra mala, outro dia desses visitei a casa de um pessoal que era ligado ao “partidão”. Como sou meio tonto para relações sociais, fui logo “dando bola fora”. Havia uma médica que comentava sobre um belíssimo documentário sobre a Rússia, czares, a Era Stálin e quetais, uma psicóloga que mostrava como tinha ficado bonito o sindicato dos bancários como centro cultural em Porto Alegre etc. Após isto, ainda elogiou Saramago ao comentar sua opinião sobre o imbróglio do Papa vs. Islã etc. E eu só pontuando, Stálin matou mais que Hitler, mandou matar o namorado da própria filha, sindicato é máfia, Saramago é hipócrita ao defender Cuba como referência de democracia, o Papa foi mal como político, mas o Islã é hipócrita... Só depois de alguns minutos que a cerveja escasseou, percebi que não estava agradando. Se é que é possível apreender algo de bom quando a cerveja já está quente, concluo que minha crítica anterior aos adolescentes era um pouco injusta. Pior são alguns adultos.
 
Alguns são burros mesmo, outros apenas ingênuos. O documentário dinamarquês Smiling In A Warzone, também passado na HBO é sobre uma aviadora comovida com o relato de uma adolescente afegã que sonha pilotar aviões. Ela põe então um plano em execução que a faz voar 6.000 quilômetros até Kabul para transformar o sonho da menina em realidade. Toda uma equipe foi montada para atender ao vago desejo, sem ao menos conhecer as idiossincrasias da cultura tribal. Tudo para, no final, dar de cara com o muro da realidade: seu tio não deixou que ela realizasse seu sonho, pois seria ridicularizado pelos amigos e vizinhos.

 

Simone Aaberg Kaerns que dirigiu o documentário e pilotou o avião



Stone passou três dias em Havana com Fidel Castro

O mundo é mesmo um amontoado de ignorância.

Sexta, 19 Janeiro 2007 22:00

De BRIC Para Brick

Obviamente que não vou afirmar que a “democracia econômica é muito mais importante que a democracia política”, mas que uma sem a outra não há sustentabilidade no próprio sistema.
No ano passado, a ONU projetou crescimento global de 3,6%. Só o leste asiático era estimado em mais de 7% e, mesmo para uma burocratizada Comunidade dos Estados Independentes (CEI), se esperava mais de 6%. A Europa, ainda carregando o peso de seus welfare states, beirava os 3%. É mais difícil para “economias maiores” darem mostras de flexibilidade superiores que a de países emergentes, o que explica, em parte, a pequena taxa européia.
 
Tais projeções parecem corroborar o “fim da História” de Fukuyama. O capitalismo veio para ficar, apesar de capengar conforme a região. Então, para que tanta celeuma sobre “um outro mundo possível” do Fórum Social Mundial?
 
Não adianta, sempre teremos descontentes com a globalização ou o velho e bom capitalismo. Quem pensa que tais questões são exclusivas da “esquerda” se engana. Há quem ache que o comunismo ainda não morreu e que a ONU faz parte de uma conspiração mundial para alicerçá-lo em novas bases. Claro que se pode discutir que o capitalismo global não é liberal o suficiente e que os conluios entre transnacionais e estados nacionais implicam em uma nova forma de despotismo econômico. Despotismo enfim. Ou tudo isto é um jogo em que nos enganam ou as visões conspiratórias não se sustentam.[1]
 
Se for verdade que 70% dos produtos vendidos no Wal-Mart são de procedência chinesa, o capitalismo vige e vinga ou é usado pelas velhas ditaduras comunistas que se reciclam? Não creio em permanência na História. Não tenho conhecimento de nenhuma classe econômica que ampliasse seu poder sem almejar (e conquistar) o poder político igualmente. Assim, em Pequim aguardo por transformações democráticas. Posso ser ingênuo ou incuravelmente otimista, mas o estado chinês irá mudar.
 
Mais que oposições diplomáticas entre China e EUA, os dois países aprofundam uma salutar dependência. A reciprocidade no comércio externo e nos influxos de capital é benfazeja, pois quando crescem, diminui o potencial de conflito.
 
A sinergia econômica parece que vai ser acompanhada pela política. Com a mudança do secretário de Defesa dos EUA que trocou Donald Rumsfeld (2001-2006) para Robert Gates, finda o breve período neocon[2], cuja pedra de toque idealista era o “ataque preventivo”. O realismo político que deverá ser a tônica com esta nova administração não é nada novo. Permeou a maior parte da política externa norte-americana e, apesar de seus inúmeros erros, como apoiar ditaduras latino-americanas, trouxe mais benefícios do que as desbaratadas ações preventivas que, na retórica pretendiam disseminar o vírus da democracia em regiões tribais do globo. Os neoconservadores ingenuamente acreditam que ações externas intervencionistas, dirigidas a mudanças de regimes, criariam um mundo melhor e mais pacífico.[3]
 
Política para quem domina não se move por ideologia, mas justamente por necessidade e senso de oportunismo mesmo. México, Índia, Brasil e União Européia não são ambíguos quando se aproximam dos EUA. Só executam os mesmos princípios que tonalizam a própria política deste país no seu comércio externo. Dizer que a opinião dominante na mídia e instituições culturais é maciçamente antiamericana não reflete o que os governos em suas “razões de estado” definitivamente fazem.
 
E é a própria burocracia chinesa que está influindo em sua economia ao definir 39 princípios básicos que diminuem o peso do estado e a encaminham em direção do setor privado, objetivando utilizar os preços de mercado tanto quanto possível. Teoricamente, as bases para a democratização da sociedade no futuro estão sendo sedimentadas. Recente estudo da consultoria McKinsey evidencia a redução da pobreza chinesa de 77,3%, em 2005, para 9,7% em 2025, a continuar o atual ritmo de crescimento.[4]
 
A China de hoje, não é mais apenas um “mercado”. É um mundo a parte que toma as rédeas de seu próprio destino. Acabou de ultrapassar o próprio Japão, em gastos em pesquisas científicas e tecnológicas. Sim, estou me referindo aquele Japão, campeão em inovações tecnológicas. Os gastos chineses foram de USD 136 bilhões no ano passado, seis a mais que seu vizinho insular.
 
Quando pensamos em reformas no Brasil (que não saem) não deixa de ser triste a conclusão de que um forte desincentivo parte, justamente, do aumento dos preços das commodities no mercado internacional devido ao aumento do consumo chinês e indiano. Diferente do gigante asiático, nosso gigante (“de pés de barro”, nunca é demais lembrar...) surfa em uma inativa postura diante das ondas globais definidas por outros países. Isto somado a derrubada de barreiras comerciais aos produtos brasileiros nos EUA que por mais de uma década vigoraram, aponta para uma lei física de nossa economia: a inércia, pois o que China ou EUA vierem a executar, nos bastará.
 
Falar em globalização nestes “bobos trópicos” parece significar apenas redução de tarifas alfandegárias que, por si só, acaba aí sem atenção maior ao próprio mercado interno. Apesar da ditadura comunista na China, este país atingiu uma eficácia em seu desempenho econômico muito maior do que o Brasil com sua democracia. A redução das exportações de calçados em 11% em 2005, afetando duramente a Serra Gaúcha, tradicional região produtora, enquanto que o maior produtor mundial hoje em dia, é um gaúcho que atua na China revelam como um ambiente propício influi no desempenho individual. Estamos repletos de batalhadores por aqui, cuja melhor alternativa tem sido o aeroporto.
 
Obviamente que não vou afirmar que a “democracia econômica é muito mais importante que a democracia política”, mas que uma sem a outra não há sustentabilidade no próprio sistema. Por outro lado, no Brasil vige um pseudo-capitalismo, um “capitalismo de compadrio” em que contribuintes são explorados pelo estamento burocrático. A congênita inércia latino-americana tem a honrosa exceção do Chile que cresceu 4,3% entre 2001 e 2005. Mas, o próprio México, beneficiado pelo NAFTA não faz suas reformas internas e deixa de ser um atrativo para inversões externas. Não é a toa que nosso “grande mercado potencial” (e que sempre é potencial) esteja sob risco de perder posicionamento entre os BRICs – sigla formada pelas iniciais de economias emergentes de Brasil, Rússia, Índia e China: nosso governo cuja “esperança venceu o medo” teve otimismo desproporcionalmente maior do que a competência, como é sabido.
 
Dizem que nossa sociedade brasileira é “conservadora” ao ser contra o desarmamentismo, contra o casamento gay, contra o aborto, contra as quotas raciais etc. Só esquecem de observar que este mesmo “conservadorismo” também é conservador para a estagnação econômica que vivenciamos, deixando tudo como está ao fornecer salvo conduto para um governo que não prima por reformas e uma estrutura de estado parasitária. Em suma, uma flexibilidade de tijolo.

[2] Rumsfeld e o vice-presidente Richard Cheney não se enquadram bem no rótulo “neo-conservador”. O título é mais adequado para aqueles, como Paul Wolfowitz que consideram os Estados Unidos da América como mais que uma nação, mas uma causa.
 
[3] Uma das figurinhas mais rasas do novo conservadorismo americano é Ann Coulter, responsável por pérolas do seguinte quilate: “Nós devemos invadir seus países, matar seus líderes e convertê-los ao Cristianismo” (13 de setembro de 2001, itálicos meus e estupidez dela).
 
[4] Newsletter diária n.º 853 - 08/12/2006 - http://www.amanha.com.br/. Enquanto isto, a projeção é que o Brasil tenha 55 milhões vivendo em favelas em 2020, algo próximo a 25% da população nacional.
Sexta, 15 Dezembro 2006 22:00

Pinheiro solitário

Teus galhos já agüentaram tanta neve, teus braços já sustentaram tantas asas e patas. Mas, o solstício assinala um novo tempo, para nascer e morrer.
Pinheiro solitário
 
A RATIO PRO LIBERTAS foi criada com o objetivo de promover eventos educacionais, como apresentação de palestras, cursos e treinamentos nas áreas comerciais, industriais e de prestação de serviços.Visite o site Ratio Pro Libertas, um espaço destinado à discussão de idéias e propostas sobre liberdade, cidadania e sociedade.Teus galhos já agüentaram tanta neve, teus braços já sustentaram tantas asas e patas. Mas, o solstício assinala um novo tempo, para nascer e morrer.
 
Seja qual for o hemisfério e clima, tu estarás lá para anunciar a festa da sobrevivência. Não te encontras entre copas que tudo cobre, acaso também não estás entre outros como tu a barrar o vento. Apenas dobras gentilmente para voltar reto. O garçom de deus te cobra a conta, mas tu o ignoras.
 
Só. Mas, só tudo que podes fazer é resistir. Tuas folhas escuras absorvem o calor como nossas rugas retêm as lágrimas. Um fluxo de luz e água parece uma síntese da vida.
 
Tu exiges uma cota do solo, que parece pouco para quem tanto deu. Mesmo após as serras virem ao teu encontro, tua espécie aponta o céu imponente. Sejam lá quais forem os mistérios daquela abóbada, penso que posso furar seu zênite.
 
O farfalhar perante a brisa é um hino constante para ouvidos em um outeiro. Não foi uma maravilha forjada. É uma condição para sublimar.
 
Teu cone carnudo é devorado e das fezes dos que se beneficiam, renasce em outro vale. Tua resina te previne do excesso tornando meu temor pífio.
 
Viver por si mesmo, por que não há nada mais importante. Teu presente foi fruto de teu egoísmo e aqui estamos. Não há espaço para lamúrias de uma vida dura ou um futuro penoso, apenas a vontade de se erguer.
 
Nosso yule é lembrado por ti. Continuarás em tua sina, anunciando os padrões do tempo e a sombra de tua presença. Nenhuma cidade, nenhuma blizzard derrubarão teu significado.
 
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