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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Terça, 12 Agosto 2008 21:00

Como Pensa o Brasileiro

Ninguém que trate seriamente do tema – cultura política – se contentará com uma generalização assim, tão grosseira.

Claro que este título tem o claro intuito de chamar atenção para leitura do texto. Ninguém que trate seriamente do tema – cultura política – se contentará com uma generalização assim, tão grosseira. Outros ainda dirão que deve ser levada em conta características regionais e locais, não se dando conta que o simplismo se mantém. O princípio da generalização nacional é o mesmo para a generalização regional ou local com mera mudança de escala.

Minha provocação vai no sentido de confrontar outras generalizações, piores, que teimam em dividir o mundo, dentre outras formas, em “direita” e “esquerda”. Veja bem, acho perfeitamente plausível que se divida assim em determinados contextos ou até mesmo, a título de didática, num tom coloquial em que os interlocutores sabem do que e de quem estão falando. Mas, tal dicotomia não resolve nem proporciona elementos de análise quando a questão tem temas comuns: o desenvolvimento social, urbano e ambiental. Todos, “direitistas” ou “esquerdistas” se dizem ser a favor destas premissas e o problema não pode prescindir da avaliação técnica em nome de uma ou outra cosmovisão em filosofia política.

Três casos ilustram o que tenho em mente.

Vivo em um bairro periférico em Florianópolis, com taxa de crescimento demográfico que figura entre as maiores do município. E a cidade passa por um processo de formação de seu plano diretor que, após a promulgação do Estatuto da Cidade – Lei nº 10.257/2001 – tem a premissa da “participação popular” como item obrigatório (artigos 43, 44 e 45 da referida lei). Acho desnecessário entrar em pormenores sobre como se processa a dita “participação”, na qual o típico aparelhamento político-ideológico feito nestes fóruns não é exceção à regra(1).

Meu bairro está sobre um aqüífero que conta com um delicado ecossistema exigindo um particular tratamento no desenvolvimento urbano. E o plano diretor precisa orientá-lo buscando compatibilizar a preservação tanto quanto possível com regulamentações que permitam o crescimento do bairro e outros bairros vizinhos de modo que não engessem a economia local. Como a maioria das pessoas não tem noção clara do que entende por “meio ambiente” ou “economia”, o normal é que se produzam orientações díspares, não raro conflitantes entre si. Isto sem falar que os planos diretores anteriores (o último data de 1997), recentes mesmo, não são cumpridos a risca por deficiência na fiscalização. Quando não é devido à corrupção, se dá por peculiaridades administrativas do setor público, nas quais o funcionário não atua de modo ostensivo ou sua administração saca a eterna desculpa de “falta de pessoal”. Como a coisa é feita para não funcionar, o desenvolvimento do jeito que é segue como um impávido colosso de arruamentos caóticos.

Dias atrás conversava com uma equipe de profissionais da área como arquitetos, urbanistas e geógrafos e demais interessados como professores, jornalistas e profissionais liberais. Eles, em sua associação civil, deliberaram que determinada região do distrito em análise tinha que manter certas características rurais (no que concordo) para permitir a infiltração das águas pluviais que realimentam o lençol freático. O lote mínimo requerido para essas áreas seria de 1.000 m2 (no que não concordo). Embora, eu more num assim, o problema é que a maioria não. E não creiam que daqui para frente será tudo diferente que não será não. Não funciona assim, a gente escreve o bonito e o ideal, vai para a Câmara aprovar e se der certo vira lei com todos acatando a nova normativa. Contemporizei que seria melhor adotarmos uma perspectiva realista de acordo com o maior adensamento populacional que ocorre, mas com princípios a serem adotados ao alcance de todos, como arborização e ajardinamento em percentual tal que permitisse a percolação da drenagem nos solos e calçamento correspondente que não o asfalto. Com exceção desta, a primeira sugestão fora terminantemente rejeitada, pois segundo meus colegas era melhor criar uma lei dura para que todos a temessem, criando assim um fator de dissuasão do urbanismo predatório. Insisti dizendo que não funciona e se vamos ajudar na elaboração de leis, que estas não tornem o plano, um mero instrumento figurativo e natimorto. Melhor partir das condições existentes (nem citei mercado para não ser objetado a priori) para ter maior chance de sucesso. Não adiantou.

Todo mês chegam novos moradores que se alojam em terrenos abaixo do mínimo estipulado em loteamentos irregulares que não são sequer de conhecimento do poder público. Mas, cujos fiscais da prefeitura podem levar alguma vantagem para fazer vistas grossas... É assim que funciona porque nosso pensamento é de bacharel. Basta criar algo escrito que o mundo irá ler e se adaptar. Quando perguntei à urbanista sobre os flagrantes casos que não se adaptam e o fato do plano diretor, caso passasse a normativa, me respondeu “daí aplica um TAC”, ou seja, um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, que endosse medidas reparadoras ou mitigatórias. Mas, se elas vão ou não funcionar, é outra questão...

Alguns dias depois assisti a uma exposição sobre a criação de uma Unidade de Conservação, na qual se diferencia de uma Área de Preservação Permanente porque não cabe só ao estado sua administração e manutenção. Esta pode contar com a ajuda e co-participação de agências financiadoras, inclusive estrangeiras. Faz o que o estado não faz e... Dá dinheiro. Perguntei a moça que explicava como seria o que tinham em mente, qual a participação do banco alemão KfW, cujo logo aparecia sutilmente no canto do slide? “Só na pesquisa...” Fiquei com coceirinha na língua para saber valores, mas deixei para outra ocasião quando eu já tiver uma informação para contestar, caso a resposta não me satisfaça(2). A verdade vem por vias indiretas... Dizia ela que há um número de moradores em situação de subsistência que vive em regime de posse no parque praticando atividades ilegais como a caça e a pecuária. Mas, que o faziam porque não tinham alternativas. Ainda reforçou que nas imediações não havia condomínios ou loteamentos, que quando ocorressem trariam um adensamento com as conseqüências e depredação que conhecemos. Objetei que se pensava em criar tais alternativas, elas poderiam se dar graças a estes loteamentos que demandariam serviços fazendo com que as práticas tradicionais fossem gradativamente abandonadas, em favor de uma nascente economia local de serviços. Senti-me um terráqueo pedindo a alienígenas que me levassem a seu líder. O idioma era outro. Sua solução imaginária se dava na pura e simples implantação de um novo conjunto de normativas legais e transferência de recursos estatais para manutenção de “neo-párias territoriais” que um dia sonharam ser cidadãos. Isto era o melhor que conseguiam criar, uma “bolsa-lote”, uma paródia de reforma agrária em zona urbana, só isto e nada mais. Sua perspectiva do que seja socialmente aceitável era de reassentamentos para posseiros e desapropriações, caso tivessem algum registro imóvel. Apesar da retórica politicamente correta previam o conflito. Ainda considerei que com o plano diretor, vários instrumentos de melhorias urbanas poderiam ser adotados propiciando assentamento adequado ao tipo de ambiente e, mais importante, mantendo os antigos moradores em suas casas. Silêncio foi o que recebi como resposta e passamos para outra pauta.

O que “salva” o Brasil de um socialismo autoritário com uma cúpula dirigente e despótica é o crescente socialismo na esfera legal. Por outro lado, como também existe uma descentralização da condução destas demandas, muitas delas se contradizem ou ainda se anulam. No entanto, uma das características socialistas efetivamente se impõe, pois é exclusiva do estado: a criação de novos impostos.

Hoje mesmo falava com um amigo, microempresário bem sucedido e representante do plano diretor em bairro vizinho que considerava certas questões sobre a inexistência de áreas públicas que valorizassem os bairros, a desarticulação na criação de loteamentos e condomínios, a inexistência do repasse municipal do orçamento do PAC para obras de saneamento. Que os empresários e poder público estavam matando a galinha dos ovos de ouro do turismo ao não se articularem em prol do desenvolvimento de uma infra-estrutura sanitária, ao mesmo tempo em que vendiam nacionalmente a imagem da cidade como paraíso etc. Boas análises que esbarraram num muro intelectual. Sua proposta de solução não era a mediação desses setores e uma reengenharia do estado por si só, ele queria mais, queria a criação de um novo imposto para sanar os problemas sociais e ambientais. Veja bem, um jovem empresário... Um novo imposto.

Desnecessário dizer aqui tudo o que disse a ele... Mas, uma coisa sim: já temos todos estes impostos direcionados para isto e aquilo que explicitou. O que falta sim é gerência e uma coisa é básica, a obrigatoriedade na aplicação de leis já existentes que se perdem no manancial de tantas outras desnecessárias. Tudo esbarra no estado. Por estas e outras é que não levo a sério liberais que só enfocam suas análises no mercado sem propor uma reforma (local, para começar) da administração pública. Como se o papel e a caneta fossem sagrados, nós brasileiros pensamos que mais leis e impostos resolverão algo enquanto que isto tudo já existe. Como psicanalistas da política deveríamos pensar no que nossos homens públicos não dizem.

 

 

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[1] Conferir: http://www.ilhacap.com.br/edicao_abril07/especial__pdp.html

 

[2] Não partilho da visão conspiratória de que toda e qualquer ong estrangeira atuante em território nacional signifique um atentado contra a soberania nacional. Há que diferenciar o joio do trigo. O que contesto, evidentemente, são as condições em que operam e, sobretudo, o papel de seus representantes e parceiros nacionais quando não apresentam declarações sobre o fomento e movimentações financeiras. Em uma palavra: transparência.

Sexta, 18 Julho 2008 21:00

Globalismo, O Que Diabos é Isto?

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita.

Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:

Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”. Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial. Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?

Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...

Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?

Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.

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Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.

2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.

3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates. 

Domingo, 29 Junho 2008 21:00

Algumas Considerações Sobre o Brasil

Nesta época de oportunismos nacionalistas, muito se fala da necessidade do povo brasileiro “reagir” aos interesses estrangeiros na Amazônia. Mas, me refresque a memória, há quantas anda nossa capacidade de reação aos problemas internos, mesmo?

 

Nesta época de oportunismos nacionalistas, muito se fala da necessidade do povo brasileiro “reagir” aos interesses estrangeiros na Amazônia. Mas, me refresque a memória, há quantas anda nossa capacidade de reação aos problemas internos, mesmo?
 
Não precisamos ir tão longe... Basta ver a “reação a dengue” no Rio de Janeiro, mais parece um caso para estudos antropológicos. Em plena epidemia, autoridades fracassam e a população mantêm seus lixões clandestinos contribuindo com sua cota para a disseminação dos mosquitos. Não admitir que a “cidade maravilhosa” esteja sendo acometida por uma peste, com índices 20 vezes maiores do que o tolerável segundo a OMS, é mesmo surreal. Postura muito próxima era adotada por nós em épocas de hiperinflação... Com incrível estabilidade comportamental, ignoramos o caos, tenha raiz econômica, social ou sanitária.
 
Minha percepção é de que vivemos de algo além da realidade, como se pode observar em nossa eterna mania de perseguição. O Brasil hoje parece uma imensa ilha, cujos pacíficos e tímidos nativos temem feras de além-mar. Somos bugios assustadiços em meio ao dossel que, ao menor sinal de estranhos atiramos-lhes excrementos, fruto talvez de uma mentalidade que tem por foco, estados, classes sociais, grandes entidades coletivas como “agentes históricos” em detrimento dos indivíduos. Se não é uma esquerda fossilizada enxergando multinacionais como sintomas de uma pandemia econômica global, é uma direita alucinada e atormentada por uma suposta onipotência satânica do globalismo através da ONU. Um pior do que o outro, eles se merecem.
 
Portanto, tenho minhas dúvidas sobre esta recente e súbita tomada de compromisso de uma responsabilidade forjada por uma “reação aos interesses estrangeiros”.
 
Em um mundo cada vez mais globalizado, os interesses se mostram igualmente mais visíveis, inclusive os de cunho mercantilista. O caso Bombardier vs. Embraer durante o governo FHC foi sintomático. O ex-premiê canadense Jean Chrétien teve a companhia canadense como principal financiadora de sua candidatura, além de ligações familiares com a empresa: seu filho é casado com a filha do ex-presidente da empresa. A época, o caso pegou mal em seu país devido aos subsídios fornecidos à empresa, mas aqui passou como “imperialismo”, Brasil vs. Canadá pela mídia alarmista.
 
Se uma companhia de aviação já trouxe alarde suficiente, vocês podem imaginar o tamanho do surto de paranóia coletiva deliberado pela “ameaça” ao inestimável patrimônio amazônico. Nossa atenção recai sobre “interesses escusos operando na floresta” ou uma enigmática malversação de recursos naturais. Segundo nosso novo ministro do MMA, Carlos Minc:


“[D]e cada 10 metros cúbicos de madeira extraída da Amazônia, apenas três chegam ao mercado. ‘É preciso modernizar o setor para evitar o desperdício. O setor tem que capacitar profissionais, melhorar as práticas e promover o manejo sustentável da floresta’, listou, ao comentar que conversou hoje sobre o assunto com representantes das indústrias madeireiras.”
 
 
Há algo de podre no “reino da floresta...” Se de cada 10 m3 de madeira extraída, apenas três chegam “ao mercado” para onde vão os outros sete? Claro que também chegam ao mercado, mas por vias informais. Ou será que tem tanto contraventor assim construindo decks e pérgolas?
 
Só aos olhos do burocrata há desperdício. Só para quem não enxerga como necessária a redução da arrecadação de impostos e demais taxas é que “chegam ao mercado” apenas 30% da madeira extraída. Se quiserem mesmo tributar o total de madeira extraída, fariam por bem baixarem as tarifas, pois do contrário, sempre haverá “desperdício”, isto é, desvio puro e simples.
 
E há os que em sua idiossincrasia, entendem como “desenvolvimento” o subsídio para não fazer nada. Um verdadeiro tributo a Paul Lafargue que advogava seu “direito à preguiça”. Este é o propósito da chamada “bolsa-floresta” que visa garantir sustento àqueles que “preservam a floresta”, ou seja, não a exploram produtivamente. Simplesmente, não faz sentido. “Preservar” significa ficar parado? É como se humanos também não fossem animais... Quer dizer então que outras espécies deveriam deixar seus instintos de lado e requerer algo como uma “bolsa baixo-metabolismo”? Só faz sentido se quisermos induzir o risco de perda moral, porque os que não fazem nada são sustentados pelos que fazem algo. E os que fazem algo estão chegando à floresta cada vez mais devido às oportunidades. Que tal seria incentivar outras práticas através da indução ao mercado com produtos que aproveitem a floresta sem retirá-la do solo?
 
Quando a esmola é grande, o santo desconfia. Se há tanto interesse assim no MDL – Mecanismo de Desenvolvimento Limpo – sob o escrutínio de Kyoto é porque alguém vai sair ganhando, seja emitindo créditos de carbono, seja comprando matéria-prima barata. O que, diga-se de passagem, não é nenhum crime. Mas, estamos com isto assinando um atestado de total incompetência na exploração substancial e produtiva da Amazônia. Emprego para que, se temos “bolsas”?
 
A exploração de substâncias amazônicas (insisto neste ponto) se traduz em uma inestimável fonte de recursos. E ela vai continuar ocorrendo, quer queiramos ou não. Através da biopirataria, cuja atividade enquanto não for incentivada dentro do marco legal, há de permanecer e se expandir como a alternativa. Agora, com um MMA engessado por “verdes” que dissociam ecologia de economia, que levam meses para emitir as necessárias, porém morosas, licenças ambientais que tipo de empresa vai querer produzir por aqui? Ainda mais quando quaisquer 100 reais são suficientes para o caboclo “fazer a festa”, depois de coletar o que conhece de cor e salteado, secar as folhas e raízes e enviar via barcaças a algum conhecido-agenciador. E este, por sua vez, a algum contato externo.
 
Sinceramente. Com nossa congênita “miopia de estamento”, não conseguimos focalizar esta égua passando selada debaixo de nossos narizes. As empresas nacionais ou estrangeiras deveriam ter um tapete vermelho estendido como mimo e convite a produzir em nosso solo e subsolo, com direito a canapés e licores finos. Mas, mesmo assim, com entraves burocráticos que totalizam 152 dias para se abrir uma empresa no Brasil, tenho minhas dúvidas se representamos um investimento atrativo.
 
Recordo-me de quando a Intel deixou de instalar uma fábrica de microprocessadores no Brasil, porque levávamos nada menos que três dias para conseguir autorização de Brasília às suas exportações. Obviamente, não ficou, preferiu implantar sua subsidiária na Costa Rica onde lhe custava apenas três horas. Burocracia? Imagine! Desde Weber sabemos que burocracia exige alguma racionalidade e isto, simplesmente, não o é. Trata-se de um verdadeiro nó em uma rede de repartições. Em plena era da internet, ainda temos que mandar fax para algum ministério perdido no Planalto Central. Por falta de conceito mais apropriado, só tenho a sensação de que ultraje é o termo exato.
 
E por falar em racionalidade, não há porque temer invasão ou anexação nenhuma de porções de nosso território, quando nada tem sido mais conveniente do que comprar baratinho, commodities contrabandeadas. Afinal, entre os igarapés e cipós, a selva das repartições e departamentos públicos é muito mais difícil de atravessar.
Domingo, 01 Junho 2008 21:00

Algumas Considerações Sobre a Amazônia

Em primeiro lugar, por mais importante que seja o fator de regulação climática da Amazônia (toda floresta o é), esta não exerce a função de "pulmão do mundo".

Em primeiro lugar, por mais importante que seja o fator de regulação climática da Amazônia (toda floresta o é), esta não exerce a função de "pulmão do mundo". Este é atributo dos oceanos, mais especificamente do fictoplâncton que absorve o gás carbônico da atmosfera levando-o ao fundo do oceano. À noite, a floresta amazônica absorve a mesma quantidade de oxigênio expelido no processo de fotossíntese executado durante o dia.

Se seu valor intrínseco estivesse na hipótese de ser um "pulmão do mundo", uma alternativa seria serra-la, pois as árvores absorvem mais gás carbônico durante a fase de crescimento deixando, em contrapartida, mais oxigênio na atmosfera. Portanto, se há algum "pulmão do mundo", em termos vegetais, ele está nas árvores "florestadas" ou nas "reflorestadas". A saber, as áreas sem este tipo de formação vegetal, nas quais foi artificialmente introduzido e, em áreas recuperadas para este fim.

Até recentemente, ambientalistas e nacionalistas não nutriam grande simpatia mútua no Brasil. Mas, hoje em dia se percebe que têm afinado seus discursos com uma retórica xenófoba comum... Penso que há uma certa confusão quando se fala em Amazônia na sua "manutenção da integridade territorial do país". Uma coisa é advogar a soberania do estado-nação, outra bem diferente (mas, de modo nenhum, oposta) é requisitar o direito de propriedade aos seus cidadãos. Ora, na Amazônia temos o preceito territorial do estado, mas há quantas anda o direito de propriedade garantido pela Constituição da República? Mesmo porque, não há como garantir a segurança da propriedade privada sem sua defesa constitucional. Em outras palavras “não haverá compradores para terrenos cuja posse não seja sequer garantida pelo governo local”. Não confundamos, por favor, o direito de propriedade com as ações sugeridas e incentivadas por uma miríade de ongs que propõe um status diferenciado da propriedade. No caso específico de Raposa Serra do Sol, o direito de propriedade de brasileiros, como bem sabemos, foi flagrantemente usurpado...

Da mesma forma, não vejo problema quando porções de "nossa terra" são vendidas a estrangeiros. Se todos países pensassem assim, a Gerdau teria então que ser chutada dos EUA por que adquiriu a siderúrgica Chaparral? Ao contrário, imigrantes com capital ou imigrantes sem capital, mas com ânimo para trabalhar sempre serão muito bem-vindos. Aliás, isto trouxe benefícios ao Brasil, embora tenham sido apenas cerca de 4 milhões de imigrantes em sua história contra os mais de 40 milhões que aportaram nos EUA. E, como se sabe, estes continuam a chegar àquele país por terra, no deserto, ou por mar, em meio aos tubarões.

O Brasil, entre tantas outras nações, deve muito aos seus imigrantes e a migração de capitais. A questão que vejo é outra: trata-se de se adequar às nossas leis e, quando isto não procede, aí reside o problema, real problema.

Este pavor que muitos dos nacionalistas de ocasião nutrem pelas multinacionais, simplesmente, não faz sentido. Trata-se de uma herança preconceituosa de nossa elite intelectual dos anos 60 que já deveria ter sido extinta. Reitero o que digo: o problema não é a multinacional em si, mas o desrespeito à lei ou abuso de poder, quando da formação de cartéis ou trustes, por exemplo. Aí, o malfeitor é malfeitor independente de ser estrangeiro ou brasileiro.

Usamos madeira e papel continuamente. Se realmente quisermos manter a "floresta em pé" temos que apoiar em outras tantas e abundantes áreas do Brasil, "matas de eucalipto” ou pinus. Só esta espécie de agricultura pode combater o simples extrativismo. Agora, por outro lado, querer manter a floresta intacta é uma utopia que não tem (nem nunca teve) lugar nem lógica no mundo. A floresta tem todos os requisitos para ser uma incomensurável geradora de riquezas ao nosso país. E nem me refiro aos minerais em seu subsolo, mas aos fármacos que são produzidos a partir de compostos orgânicos nela encontrados.

Se não se quer, realmente, perder grandes áreas da biomassa amazônica, um plano de ocupação tem que ser executado. Mas, diferentemente, da época do regime militar, ele precisa contar com maior agregação da sociedade civil, isto é, tem que ser apoiado na idéia da propriedade privada.

Por que, tal como a China faz com sua gigantesca mão-de-obra, não atrairmos capitais (nacionais e internacionais) para produzir na Amazônia? Entre eles, laboratórios e cobramos o que nos é devido, com o subproduto desejável de empregar gente que, hoje, sem opção está usando uma moto-serra?

Quarta, 14 Maio 2008 21:00

Toma Que o Filho é Teu

O espectro de Malthus ainda ronda a consciência dos países subdesenvolvidos em torno da escassez de recursos.

Muitos dos representantes de ONGs e centros de pesquisa universitários no Brasil são menos hipócritas do que ignorantes, mesmo. O não reconhecimento de focos de criminalidade em áreas específicas pressupõe a não discriminação, mas na realidade não assume o crime enquanto crime, não lhe atribui causalidade tangível. O jargão marxista de que por trás das aparências existe uma essência, assim como a matéria tem uma estrutura molecular serve, na realidade, de salvo-conduto para não dizer nem apontar o que qualquer morador de periferia sabe. Nossos acadêmicos e militantes forjam sua própria falsa consciência ao tapar o Sol com uma peneira. Vejamos o caso da pesquisadora Adriana Gragnani, descrito por Janer Cristaldo. Sua crítica a declaração do governador fluminense que defendeu a contracepção como expediente para combater a miséria e a criminalidade, se dá com base em que o “direito ao próprio corpo” das mulheres não deve incluir o “direito ao próprio corpo com o intuito de não proliferar a miséria e outros ‘subprodutos’ indesejáveis”. Embora, a moça não o afirmasse, sua proposição de que o direito ao corpo não se relaciona a um fim relacionado, passa a idéia de uma agenda vinculada a uma causa. Parece que se trata de um “direito” para se cobrar um dever do estado em financiar sua prole, isto sim. O que também é corroborado pela ongueira, Camilla Ribeiro ao lamentar a falta de um “estado protetor” aos pobres.

A tal Gragnani está certa em dizer que o desenvolvimento é conseqüência da elevação do nível de vida tanto quanto se pode abusar da tautologia porque, no contexto em que foi dito, são as mesmíssimas coisas. Esta controvérsia entre o que deve vir primeiro, o desenvolvimento ou a contracepção, o ovo ou a galinha é a que embasou, em passado recente, anti-malthusianos (que defendem o “desenvolvimento” como política) contra os neomalthusianos que, como herdeiros de Malthus[1], defendem métodos contraceptivos. Estes mais práticos e rápidos em seu resultado: de não aumentar o tamanho da miséria.

Evidente que a mera contracepção não acaba com a miséria e a criminalidade, por si só. Mas, tem o efeito benfazejo de diminuir o crescimento do problema permitindo com isto, tornar os custos para soluções significativamente menores. O argumento do desenvolvimento social como panacéia sempre foi usado para refutar a contracepção, vista como expediente “imperialista” já que advogado pelos representantes dos países ricos. A crítica dos anti-malthusianos tinha um tom revolucionário como se fosse possível, numa tacada só, resolver todas deficiências sociais na área da educação, segurança, saúde e emprego em uma estratégia conjunta através da distribuição de renda. A velha cantilena da revolução totalitária como libertação humana...

Se formos compelidos a optar por uma única alternativa, claro que a anti-malthusiana que prega o desenvolvimento através da geração de empregos e escolarização é a melhor. Mas, não é tão simples assim, ainda mais quando se sabe que a bi-polaridade destas posições é uma falsa questão... Onde quer que tenha ocorrido a adequação demográfica às condições de subsistência, as massas adaptaram-se sozinhas na busca pela melhoria da qualidade de vida. “Massas” aqui se constituem de indivíduos, que provocaram esta transição demográfica, rumo à redução da natalidade simultânea à queda dos índices de mortalidade. Menos filhos e maior expectativa de vida.

A migração rural-urbana chegou a levar uma centena de anos em alguns países europeus na passagem do século XIX ao XX. Não foi um governo ou “política social” que ensinou aos europeus a vantagem de ter menos filhos, foi a necessidade em um meio no qual ter muitos filhos não era um “bom negócio”. Ao contrário da realidade rural, na qual, filhos são mão de obra, na cidade são, antes de tudo, custos. O motivador foi determinante para se moldar uma cultura com tons administrativos em prol da unidade familiar. Não se trata de “economicismo”. Se fosse este o caso, regiões que demandam tal desenvolvimento e se encontram em franco processo de urbanização como a África Subsaariana e o Sudeste Asiático já estariam no mesmo caminho. O veredicto sobre a transição demográfica – quando ambas taxas de natalidade e mortalidade caem em sintonia --, não prescinde do chamado “capital cultural”. É necessário perceber que isto vai além das variáveis econométricas, se constituindo em uma resposta apreendida que procede de uma dada sociedade à pressão econômica, mas que nem todas foram, historicamente, capazes de efetivar.

A urbanização acelerada de décadas na conjuntura do pós-guerra nas sociedades latino-americanas, no entanto, não garantiu um aprendizado e transições auto-sustentáveis do ponto de vista do núcleo familiar. O que não significa que isto não esteja, tardiamente, ocorrendo. As taxas de crescimento vegetativo (crescimento populacional exclusive as imigrações) estão caindo em países como o Brasil que passou de 3% nos anos 60 para os atuais 1,3%. Em grande medida, as melhorias sociais que ocorrem em nosso país não derivam de políticas públicas, mas sim da resposta e adequação que os próprios indivíduos são capazes de dar.

A elevação do nível de vida não é, portanto, obra de um governo ou política de estado neste sentido. A interferência estatal, quando ocorreu, se limitou à distribuição de preservativos e anticoncepcionais. Há uma diferença entre estas e o fornecimento de bolsas-família nas quais não se cobra por nada em troca. A contracepção parte, antes de tudo, de uma decisão sobre a projeção de um problema futuro. O planejamento familiar e a contracepção são heranças do empenho a partir do legado de um capital cultural antiestatal contra a prática assistencialista endossada pelas “ações afirmativas”. Portanto, o direito ao próprio corpo pelas mulheres não deve servir de meio para inoculação de agendas ideológicas com o que deve ou não se relacionar. Isto só cabe aos indivíduos decidirem. Não importam quais sejam seus motivos (como a redução da criminalidade devido à parca subsistência), se seus efeitos, como uma melhor administração de recursos escassos dizerem respeito a quem mais sofre com a responsabilidade última de criar os filhos.

“Eles se preocupam quando nossos índices de natalidade aumentam, mas não dizem nada quanto às altas taxas de mortalidade infantil...” Era um mantra constantemente repetido em minhas aulas na faculdade. Os anti-malthusianos eram bem representados por socialistas, terceiro-mundistas, especialmente os nacionalistas que viam na força de trabalho em crescimento, um recurso necessário ao desenvolvimento do seu idolatrado, estado-nação. A idéia de que técnicas contraceptivas pudessem ser adotadas como parte de um programa de alfabetização e educação globais só viria a fazer parte, infelizmente, bem mais tarde no ideário comum das delegações que se reuniam em torno do tema em conferências internacionais.

Enquanto neomalthusianos tinham como premissa que “se é pobre porque se têm muitos filhos”, os “politicamente corretos” anti-malthusianos diziam que “se tem muitos filhos porque se é pobre”. Só que a receita como corolário destes era tomada por vias tortas, isto é, com aumento de gastos estatais.

Os neo geralmente se constituíam por delegações de países ricos e os anti pelas de países pobres. Nunca chegavam a um denominador comum e os debates não eram nada profícuos nas décadas de 70 e 80. Mas, décadas de sucesso de políticas antinatalistas (mais bem sucedidas devido ao acato individual que qualquer imposição governamental) sem controle compulsório da natalidade ao estilo chinês, foram bem sucedidas onde adotadas. Nos anos 90, os anti se renderam a força dos fatos, tanto quanto os neo também tiveram sua contribuição ao considerar cada vez mais a necessidade de educar quem utilizaria tais métodos, ou seja, as mulheres.

Devido à opressão e submissão a que são submetidas nos países subdesenvolvidos, até os anos 90, 80% dos analfabetos no mundo era do sexo feminino. Não há como usar pílulas anticoncepcionais nos rincões rurais do III Mundo sem saber ler... Sem alfabetização (anti-malthusianismo) não se pode adotar com eficácia um método contraceptivo (neomalthusianismo).

Como conseqüência da mudança desta alteração de curso, em 1994 foi realizada no Cairo, a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (C.I.P.D.) que agregava pressupostos de ambos grupos numa tentativa de ação sinérgica. Parecia que o bom senso, finalmente, havia chegado. Mas, um grupo de delegações irresponsáveis se opôs. Adivinhe quem? Quem acha que procriar feito coelho é “louvar a obra divina”? Dou-lhe uma, dou-lhe duas... O VATICANO, os MUÇULMANOS e a ARGENTINA[2] se opuseram a C.I.P.D.

Quando reclamarem do número de crianças nos semáforos, de esquálidas figuras humanas na Etiópia e Somália, e quiserem encontrar co-responsáveis, olhem em direção ao Crescente e o Crucifixo.

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[1] Thomas Robert Malthus mesmo, como pastor que foi, defendia a abstinência sexual como solução para o problema da superpopulação. Mesmo para religiosos como ele, a medida deve ser relativizada, pois teve vários filhos, o que não devia ser lá nenhum absurdo em fins do século XVIII…

[2] A delegação argentina foi orientada pelo governo de Carlos Menem para não se opor ao Vaticano por razões nitidamente eleitoreiras: para não alimentar a crítica de setores católicos conservadores contra o governo do presidente argentino, de ascendência árabe.

Quarta, 07 Maio 2008 21:00

Desigualdade e Desafio

Sua garantia: se quebrar, paga quantia fixa ao dono da terra sem ônus para o mesmo. Seu contrato, seu nome.

Quem já viu o filme ao lado, sabe do que vou falar a seguir...

Caro colega,

Eu também tive um amigo mais pobre como esse teu da Tijuca. Seus pais tiveram 12 filhos em Gravataí, na periferia de Porto Alegre. À época meio rural, meio urbana (anos 60-70). Meu camarada estudou em colégio agrícola na vizinha Cachoeirinha, onde morei por 9 longos anos. Quando me mudei para lá, com 15 anos, meus amigos me gozaram, pois morar naquela cidadezinha, que conseguia ser pior que Gravataí era um óbvio sinônimo de decadência.

Voltando ao sujeito, ele estudou neste colégio por um motivo muito simples: tinha verba estadual e dava quarto e comida pros alunos que lá ficavam em turno integral.

Ao se formar no ensino médio, quando todos ou quase todos nossos camaradas iam para a faculdade, o sujeito não teve outra alternativa senão encarar o batente como representante de venda de químicos para a agricultura, aquilo que vulgarmente se chama de "agrotóxicos". Além, é claro de adubos e outros utensílios. Isto lá pelos idos dos anos 80.

Eu me formei, entrei na pós em São Paulo, a qual não conclui e me lancei no mercado de escolas particulares e cursinhos em São Paulo. Acabei perdendo seu contato por um tempo... Lá pelos 90, voltei a encontra-lo, o que era um pouco dificil quando eu passava rapidamente por Cachoeirinha e, seu horário era das 7 às 21, 22h. Ele e a mulher compraram aparelho de som, tv numa casinha de madeira caindo aos pedaços onde moravam. Daquelas, cuja porta deve ter servido de inspiração aos filmes de ação hollywoodianos (com um chute qualquer se abria). Tudo a prestação, claro, pois não tinham fundos para comprar nada a vista. Certa noite ao chegarem em casa, na sala só tinha sobrado com um sofá velho, cujas costuras se desfaziam. Foram assaltados.

Cachoeirinha tem uma ponte que atravessa o Rio Gravataí, tão poluído que a água que sai da torneira parece leite de tanto cloro que é adicionado. Quando eu tomava banho, meus olhos ardiam pelo excesso de cloro. Hoje, aqui em Florianópolis tenho água de qualidade, mas minha mãe que ainda mora lá, todos os dias ainda fica com os olhos vermelhos. Uma vez por ano, no entanto, os olhos do sujeito não ardiam porque da perna pra baixo ele toma banho com a água da inundação do Gravataí (muito muito antes de se falar em "aquecimento global"), pois ele morava na várzea junto ao rio.

Ele mudou de firma de representação, foi fazer cursos rápidos em São Paulo para conhecer o produto e conseguiu abrir uma lojinha, mas não deixou de visitar seus clientes num raio de 100 a 300km em torno de sua casinha.

Juntou uma grana e construiu um sobrado no fundo do terreno. Tão logo ficou pronto, nem aproveitou e já vendeu, se capitalizando.

Conversávamos muito e eu era um defensor da reforma agrária. O sujeito ria e ria de mim. Eu falava com autoridade "conheço o MST, já visitei a Fazenda Anoni, sei como eles vivem..." Ele disse "certo, vou te levar para conhecer uns assentamentos".

Visitamos dois, um onde o pessoal realmente trabalhava, mas não tinham muito lucro, produtividade baixa e não dispunham de transporte para descartar os atravessadores; no outro, se esconderam quando nos viram chegando. Só vi porcos deitados na lama, nada mais.

- Como eles vivem aqui. Perguntei.
- Só esperam a grana do governo, me disse.
- Ué? Mas, já não ganharam terra?
- Ah ah ah, foi o que ouvi como resposta.

Meia década depois, lá estava o sujeito arrendando uma mega-propriedade para plantar arroz...

- Êi! Por que tu não compra alguma propriedade em vez de gastar com aluguel?
- Anselmo... Se eu comprar, pago mais todos os anos que se só alugar.

Enquanto conversávamos, ele arrumava uma bomba d'água com uma tira de borracha improvisada...

Isto se deu em uma época que eu ainda "ensinava" para vários alunos (seguindo meu livro didático) que arrendatários não têm terra e são "explorados" pelos proprietários. Voltei para São Paulo naquele verão e minhas aulas mudaram de tom, substancialmente: já não dizia mais que arrendatários eram todos pobres.

- Cara, por que tem tanta pobreza entre os agricultores, então? Tu é uma exceção, comentei.
- Não, Anselmo. A dificuldade deles é porque pensam como agricultores.

Ele estava comprando dívidas de seus antigos clientes e cobrando-lhes com juros menores que qualquer banco.

Eu poderia parar aqui, mas a saga deste "miserável" ainda vai muito mais longe...

Quando a ecologia começou a entrar na moda, ele se interessou em saber como aplica-la. Técnicas como "plantio direto" dispensavam alguns produtos reduzindo custos. O que, normalmente, alguém faria, seria desdenhar disso, para continuar vendendo mais caro. Ao longo de dez anos, como um pastor materialista, ensinava agricultores como economizar.

Quando falávamos de qualquer outra futilidade, como "que carro tu prefere", ele contemporizava com o ano do veículo, cuja relação custo-benefício seria melhor... "Zero quilômetro desvaloriza 20% ao sair da loja". E não pagava por um, mas trocava por "sacas de arroz".

Meia década depois, ele tinha duas grandes lojas de produtos agropecuários.

Ao fim do segundo mandato do FHC, ele votara no Lula por que estava descontente com a política econômica. Hoje, viu que fez besteira, mas que não era tão diferente do próprio governo FHC.

Com a alta do Real, ele se ferrou. Quebrou e o crédito sumiu. Uma grande empresa paulista estava prestes a decretar sua falência por falta de pagamento. Ele pagava se os clientes lhe pagavam, pois aí estava seu capital de giro. Mas, estavam quase todos quebrados. Do outro lado, seus vários fornecedores entendiam perfeitamente, mas esta grande empresa não poderia abrir exceções.

Como o telefone não ajudava, pegou sua pick-up com um advogado, um monte de papéis e veio para São Paulo. Chegou em casa na madrugada, pois se perdeu na Marginal e teve que pedir informações para algumas "mulheres estranhas" na Waldemar Ferreira ao lado da USP, o famoso "Putusp". Eram travestis... Demorou também porque ficou batendo papo por lá...

Conseguiu estender o prazo de pagamento e a dívida saltou de uns 300 mil para mais de um milhão.

Decretar falência seria muito mais fácil, mas isto implicava em chutar os empregados de suas duas empresas. Fazendo a limpa e cortando tudo que podia descobriu que seu cunhado o lesara em alguns milhares de reais.

Como era religioso, espírita, maçom, o diabo não quis matar o cara. Coisa que se fosse comigo, eu teria feito depois de torturar o infame. Sua opção acabou sendo decretar falência, mesmo.

Hoje, ele arrenda outra área em Guaíba, outra cidade da metrópole porto-alegrense. O que ele faz lá? Arroz, mas contrata agricultor de Santa Catarina e garante o lucro do proprietário.

Movimenta 300 mil reais por mês e tira pra si, no mínimo, 30 mil mensais.

Sua garantia: se quebrar, paga quantia fixa ao dono da terra sem ônus para o mesmo. Seu contrato, seu nome.

A desigualdade nunca o tornou marxista. A desigualdade o desafiou. Eu perdi a conta dos rounds que ele teve na sua vida, mas posso dizer que nunca foi nocauteado. Provavelmente, por que enquanto eu lia Os Grandes Escritos Anarquistas de George Woodcock, ele lia seus manuais de aplicação dos produtos químicos...

Quarta, 27 Fevereiro 2008 21:00

Que Venha Godzilla!

Mas, por mais que o Kremlin tente assegurar, sobremaneira, uma série de objetivos geopolíticos com a atuação de Putin, seu país figura na tela do radar japonês...

 

 

 

Apesar do Japão e EUA terem sofrido um “contratempo” na II Guerra Mundial, as duas nações têm um histórico de boas relações. Dentre outras razões, o Japão serviu como cabeça-de-ponte para Washington bloquear o livre-acesso soviético ao Pacífico. Hoje, no entanto, com a entrada de novos jogadores na disputa estratégica global, esta “tradição” tem esfriado... Em Geopolitical Diary: Japan's Plans for Godzilla, Mothra and the Russian Bear se evidencia a tomada de dianteira de Tokyo em seu próprio sistema de defesa, já que os EUA não têm feito o suficiente para assegura-la na Ásia Oriental. As restrições impostas com o fim da II GM tornaram o Japão dependente militarmente, mas com ameaças diretas como o sistema de mísseis balísticos da Coréia do Norte, a marinha chinesa e o crescente poderio russo sobre o Pacífico Norte, os japoneses se tornaram um dos principais alvos regionais.

Me surpreendi ao perceber que sua maior preocupação é com a Rússia, pois acostumei-me a pensar que Moscou estivesse com os olhos fixos no Ocidente, particularmente na Europa, ou no Oriente Médio. Por meses, o Kremlin voltara-se contra o desenvolvimento de mísseis antibalísticos pelos EUA em sua periferia. Como conseqüência, o Japão requer um sistema próprio na segurança nacional.

Em 1998, os norte-coreanos testaram um míssil balístico sobre o Japão. Guardadas as devidas proporções territoriais, imagine algo como a Bolívia lançar um projétil desses sobre o nosso território detonando-o no Atlântico. É disto que se trata. E em 2006, Pyongyang lançou um novo dispositivo nuclear, de modo similar ao que fez o Paquistão no Deserto de Thar. Mas, diferentemente da pronta resposta indiana em sua fronteira paquistanesa, o Japão não tinha o que mostrar. Agora caminha para isto...

Muito embora seja de difícil concretização, a hipótese de fusão entre o poder econômico sul-coreano com o poder bélico norte-coreano relegaria o Japão, claramente, a uma condição periférica no extremo oriente. E isto significa ter que acatar com uma ou outra imposição. E por maior que seja a atual proeminência russa, a China deslancha como superpotência ascendente. Diferente de seu, territorialmente, introspectivo passado militar, Pequim adota hoje uma clara diretriz marítima aliada ao seu natural domínio terrestre.

A lembrança da guerra com a Rússia em 1904-05 marcou o Japão como única potência não européia a derrotar, até então, um país daquele continente. De lá para cá, a supremacia ocidental voltou a reinar, sem que a Rússia firme um acordo de paz com a potência asiática. Mas, por mais que o Kremlin tente assegurar, sobremaneira, uma série de objetivos geopolíticos com a atuação de Putin, seu país figura na tela do radar japonês...

Quarta, 28 Novembro 2007 22:00

Apagão Mental

Nas duas últimas semanas, o Brasil este às voltas com um revival nacional-desenvolvimentista. A descoberta do Campo de Tupi, uma reserva de petróleo gigante incrustada abaixo de espessa camada de sal submerso, trouxe novamente as esperanças de “independência energética” ao país.

Nas duas últimas semanas, o Brasil este às voltas com um revival nacional-desenvolvimentista. A descoberta do Campo de Tupi, uma reserva de petróleo gigante incrustada abaixo de espessa camada de sal submerso, trouxe novamente as esperanças de “independência energética” ao país.
 
Ao comentar o salto da posição brasileira em reservas mundiais, a Carta Capital não poupou elogios à estatal e pretensões à entrada no seleto clube dos produtores (e exportadores) mundiais:
 
“É como se o sonho de Monteiro Lobato se realizasse com juros – ainda que ele jamais imaginasse que o petróleo pudesse ser extraído de um local como esse. Seu modelo eram os EUA (...)”
 
Ocorre que Monteiro Lobato, quem viveu nos EUA de 1927 a 1931, nutria admiração pelo modelo americano não apenas pela posse de jazidas petrolíferas, mas pela sua política em relação aos combustíveis fósseis. Em outras palavras, não é a simples posição em um ranking mundial que garantirá uma melhor qualidade de vida e consumo aos brasileiros, mas sim o acesso aos seus derivados em melhores condições de mercado.
 
Sem a concorrência que caracteriza a produção petrolífera interna nos EUA, os atrasos na produção brasileira têm uma causa objetiva: falta de competição. Como relatou o jornalista Vitor Vieria do site VideVersus.com.Br:
 
“O aumento previsto da produção da Petrobras foi afetado pelos atrasos na entrada de plataformas e pela queda de produção dos campos mais antigos da estatal, informou a companhia. A produção média de petróleo em campos nacionais no terceiro trimestre foi de 1,797 milhão de barris/dia, resultado 1% acima dos 1,779 milhão de barris/dia verificados de julho a setembro de 2006. O gerente de Exploração e Produção da companhia, Francisco Nepomuceno, admitiu que os atrasos na entrada de novos sistemas vêm contribuindo para o baixo crescimento da produção ao longo deste ano.”
 
Ainda neste ano, o lucro líquido da Petrobrás teve queda de 21% e, a tirar por sua dependência e influência da base sindical da CUT, a solução e medida lógicas que consistiriam na venda da parte do estado, dificilmente ocorrerão em nossa “pátria dos sindicatos”. O modus operandi da estatal ainda persiste no monopólio (real, não mais, apenas legal) da produção de petróleo no país. Para que este quadro de estagnação sofra alguma reviravolta, sem as medidas liberalizantes necessárias, só mesmo com achados fornecidos por nosso subsolo. Ademais, as declarações proféticas de nossa Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff de que o país virá a se tornar um exportador de petróleo foram flagrantemente desmentidas por Fernando Siqueira, diretor da Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET):
 
“O Brasil não pode exportar petróleo porque não tem reservas para isso. O País tem que guardar as reservas que tem e procurar investir maciçamente em fontes alternativas. O Brasil é o País do mundo que tem mais condição de substituir petróleo por energias renováveis”.
 
A bem da verdade, toda esta campanha de marketing político (provavelmente, para capitalizar apoio a um terceiro mandato) serve também para desviar atenção do problema energético atual, o “apagão do gás”. Em 13 de junho de 2005, informava o Valor Econômico:
 
Na reunião com a Fiesp, Dilma Rousseff também informou que a Petrobras deverá focar seu objetivo na antecipação de 2009 para 2007 da produção de gás do campo de Mexilhão, na Bacia de Santos, disponibilizando 12 milhões de metros cúbicos diários do insumo; e de outros 10 milhões de metros cúbicos por dia da Bacia do Espírito Santo também em 2007 (...)”.
 
Bem, o ano de 2007 está se indo e nada de gás. Pelo contrário, nosso presidente teve que, recentemente, mendigar a Evo Morales que mantenha o fornecimento de gás ao Brasil, por ocasião da XVII Cúpula Ibero-Americana.
 
Quando o próprio diretor da ANEEL, Jerson Kelman diz que o IBAMA obstaculiza as obras que seriam necessárias para o desenvolvimento nacional ao interferir em seara que não é da sua competência, indo muito além da exigência de licenciamento ambiental [1], vemos que a burocracia, bem como a ameaça ao status jurídico da propriedade privada e o populismo desenfreado de nosso Executivo corroboram para que retornemos à época das lamparinas. Antes de um apagão energético, o que temos é um verdadeiro “apagão mental” de nossa elite política.
 
[1] Cf.: “Uma luz no fim do apagão” em http://www.ilhacap.com.br/ - edição 38, novembro de 2007.
Domingo, 18 Novembro 2007 22:00

A César O Que é De César

Se o mérito pelos policiais desviarem as balas que seriam destinadas a nós ainda não encontra consenso por alguns, o mérito de Che já foi devidamente assegurado com um tiro de misericórdia no peito.

Mosaico: Veja
A efígie de Che Guevara virou um ícone para os desavisados, tolos e hipócritas ou, na melhor das hipóteses, uma mercadoria para biquinis e camisetas manchadas com o sangue das vítimas do assassino que a história se encarregou de mistificar.
 
No dia 17 passado, Carlos Heitor Cony comentou os 40 anos da morte de Che Guevara na BandNews. Começou “bem” lembrando os “50 anos de sua morte” e terminou “melhor ainda” dizendo que foi um herói que cometeu erros, pequenas falhas como assassinar quem discordasse dos seus propósitos revolucionários. Detalhes para quem o definiu como “maior herói do século XX”! Eu não compreendo mesmo o conceito de herói...
 
Para o site Vermelho: a esquerda bem informada em Goebbels inspira Veja, a revista faz parte de uma “rede mundial de comunicação neomacartista”, cuja matéria histórica “Che: há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa” põe uma pá de cal no facínora. O site dos fosseis vivos comunistas também critica a analise de Cony porque o mesmo teria chamado Che de um “péssimo administrador”, no que está coberto de razão. Alçado ao posto de Ministro da Economia após a Revolução Cubana, Che não se adaptou e deixou Cuba para fazer o que sabia: matar ameaçando populações a adotar o modelo comunista no Congo e depois na Bolívia onde foi finalmente e, merecidamente morto.
 
Mas, ouvindo Cony hoje notei que sua constatação não tem boa justificativa. Che teria continuado sua sanha guerrilheira porque era um adepto da “revolução permanente” não aceitando a influência (e direção) soviética, tampouco a de Fidel. Não é bem assim, a teoria da “revolução permanente” de Trotsky não era apenas de continuar a revolução em outros paises, mas de avança-la também nos que já tinham derrubado a burguesia. Caminhando do socialismo e de sua “ditadura do proletariado” ao comunismo, a teoria original marxista, compreenderia a própria extinção do estado. Apenas lembremos que Trotsky, então Comissário de Guerra da revolução teve em seu currículo de revolucionário, a repressão à Revolta de Kronstadt em 1921, na qual milhares foram executados. Nada mais irreal, portanto, para a práxis que adotava Guevara pinta-lo como um “libertário”, antiestatista ou coisa que o valha. Ele se afinava mais com Lênin na busca pelo poder a qualquer custo do que entrega-lo as massas subordinadas pelo totalitarismo comunista. Cony erra porque é mal informado; os vermelhos do Vermelho, por sua vez, erram porque são deturpadores ou fanáticos (o que dá no mesmo).
 
Entre fatos e deturpações existem interpretações. Vi muitas opiniões sobre o filme Tropa de Elite, mas há algo que penso ter escapado entre os que viram a ascensão neofascista no apelo por um justiciamento e a brutalidade policial como panacéia.
 
O filme tem o grande mérito de tomar posição em uma sociedade, cujas opiniões costumam ser insípidas. E é disto que o filme trata, das diferentes posições assumidas e suas conseqüências, inclusive da posição de não se posicionar, do “deixa estar” estudantil justificado de modo generalizante pela corrupção policial. No filme, a idiotia esquerdófila da “vitimização social” me pareceu bem ironizada pelo debate sobre Foucault em um curso de Direito. Hilário...
 
Só tenho duas observações a fazer sobre opiniões recorrentes sobre o panorama tratado no filme:
 
1ª) A legalização das drogas acabaria com o trafico. Isto, por si só, não basta. Sei que o filme não trata, explicitamente, desta questão, mas gostaria de chamar a atenção para que ninguém interprete mal achando que se sugere que a liberação seja suficiente para conter o crime. Conter o tráfico é uma coisa, conter o crime é outra... Imagine como seria uma simples legalização em nosso país, no qual adolescentes que participam de “rachas” e matam aleatoriamente... Apesar da obrigatoriedade do teste do bafômetro ter entrado em vigor com o Código de Trânsito em 1998, quem se recusar a faze-lo pode optar por pagar uma multa. O que não ocorreria se o consumo de maconha ou cocaína for legalizado? E se tratar de “celebridades”, a coisa fica pior ainda. Se a lei é permissiva com os erros de alguns, se abre um precedente para todos.
 
Mesmo na referenciada Holanda, onde o consumo de maconha é permitido, não se pode faze-lo em qualquer lugar de modo incondicional. O consumo fora de casa ou dos cafés é crime há mais de oito anos e, além disto, o país assiste há uma tendência inversa, de fechamento deste tipo de estabelecimento. É disto que nossa sociedade se exime. Assim como quase ninguém pensa sobre o que seria a ação contumaz de uma polícia correta e ordeira. Ou os cariocas e brasileiros em geral querem uma polícia dando batida em quem dá uma cheiradinha na Zona Sul carioca e bairros nobres de nossas metrópoles? A corrupção policial não existe no vácuo, ela é produto nosso. Se realmente queremos mudar as coisas, tem que se ir muito além da liberalização. Parafraseando o velho mestre Adam Smith “the inhabitant of the breast, the man within, the great judge and arbiter of our conduct”, a liberdade compreende grandes doses de responsabilidade ausentes em nossa cultura.
 
 
 
 
2ª) Outro dado que acho importante frisar é que com uma polícia tendo que torturar, para obter informações urgentes, o caso do protagonista do filme, o Capitão Nascimento é sintomático. Não foi a tortura que o levou a uma momentânea perturbação, mas o fato de ter libertado um informante que, sob coação, denuncia comparsas levando-o ao inevitável destino de cruzar o Hades. Sua crise se agrava com a acusação feita por uma mãe de que eles, os policiais mataram seu filho ao liberta-lo. Dentro do raciocínio do policial, a avaliação da mãe corrobora o que pensa sobre ser conivente com o tráfico: em uma das ações retratadas, o mesmo capitão esfrega o rosto de um consumidor no peito aberto de um dos traficantes pelas balas do BOPE acusando-o de ser responsável por sua morte. Outro mérito do filme é este, não cria heróis, mostra valentia mesclada com brutalidade convivendo com o erro.
 
Nossa sociedade não prescinde da tortura como método recorrente, infelizmente, porque se trata de uma guerra. Mas, é disto que se trata. A guerra é anarquia, falta de lei e império da corrupção. Com uma esquerda hipócrita (redundante, não?) e uma direita obtusa que vê o combate à corrupção como “perfumaria” estamos em maus lençóis.
 
Em nosso fantástico país, a morte de policiais não rende paginas de jornal nem consideração nenhuma por parte de jornalistas ou membros da elite cultural, artistas, personalidades ou celebridades. Em paises civilizados, por mais que se desgoste da policia, pelo menos subsiste um certo pensamento utilitarista quando um policial é morto: “se um bandido tem a audácia de assassinar um policial, imagine o que ele não faria comigo!” Por outro lado, a morte de um verme sanguinolento há 40 anos atrás na Bolívia provoca um rosário de lamúrias de tontos e imbecis que não são capazes sequer de entender o que significa defender a vida alheia. Cultuam assassinos, mas quando seus bens ou vida são ameaçados não titubeiam em clamar pelas “forças de repressão”.
 
Se o mérito pelos policiais desviarem as balas que seriam destinadas a nós ainda não encontra consenso por alguns, o mérito de Che já foi devidamente assegurado com um tiro de misericórdia no peito. 
Terça, 30 Outubro 2007 22:00

Aiatolás na mira

Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
E se o líder iraniano não desse o perdão?
Ninguém fica tão bonzinho da noite para o dia, ainda mais quando vocifera com beligerância contra aliados regionais do Ocidente, como é o caso de Israel e, na surdina usa o potencial atômico como arma de dissuasão. Exceto se tiver a suas margens porta-aviões inimigos armados até os dentes, como é o caso da fantástica embarcação USS Nimitz com poder de fogo suficiente para obliterar todo o Irã.
Segundo matéria do NewsMax.com, as forças americanas já estariam a postos para um possível ataque ao Irã. De acordo com Wayne White, ex-analista do Deptº de Estado americano para o Oriente Médio, não seria um “ataque cirúrgico”, mas uma guerra de anos. Uma operação com potencial suficiente para aniquilar submarinos, força aérea e, especialmente, os mísseis balísticos iranianos capazes de alvejar embarcações comerciais americanas no Golfo. Já, o envolvimento israelense neste possível conflito traria uma maior instabilidade regional permitindo uma retaliação vigorosa do Irã a um alvo mais fácil e maior. Tal cenário seria muito pior do que uma guerra civil iraquiana que se ocorresse, estaria confinada ao próprio país.
 
Embora o presidente Bush tenha se esforçado em torno de uma saída diplomática com o Irã, o cálculo estratégico através de uma guerra toma corpo. Esta não é uma preocupação exclusiva da administração Bush, seus aliados no Golfo também têm demonstrado preocupações crescentes com o aumento do poderio bélico iraniano, especialmente no quesito nuclear. Segundo o perito em Oriente Médio, Kenneth Katzman, a República Islâmica do Irã apresenta muitas vulnerabilidades capazes de ser exploradas o que torna sua posição reversível.
 
A visão que Teerã projeta sobre seu país é de uma “superpotência”, mas os vínculos que mantêm o país unido são fracos. Sua economia, por exemplo, é bastante “primitiva” e, exceto pelo petróleo, exporta praticamente nada. Mesmo o petróleo deve ter sua importância relativizada, pois sua capacidade de produção de hidrocarbonetos vem declinando rapidamente. Apesar de não poder prejudicar diretamente os EUA, isto é, em seu próprio território, o Irã se utiliza da capacidade de embargo econômico como blefe. Portanto, no curto prazo é mais promissor aos EUA aproveitar seu poder de barganha tanto quanto possível, do que enveredar para um confronto direto. As negociações devem ter prosseguimento.
 
Muito da vontade e força iraniana reflete a conjuntura do vizinho Iraque onde há muitos movimentos separatistas. Embora os motivos dos que entram para grupos dissidentes estejam calcados na religião, a força de suas cúpulas dirigentes vincula-se, como não poderia deixar de ser, ao petróleo. Os curdos, ao norte, estão se preparando para desenvolver a extração de modo independente a Bagdá. No artigo The Kurdish Oil Realitypublicado em Stratfor.com temos uma vaga noção, do complicado xadrez regional. O ministro do petróleo iraquiano afirmou ser inconstitucional a estratégia do Governo Regional Curdo (KRG) que já assinou acordos com companhias canadenses e americanas. Seu investimento nos campos setentrionais dará autonomia e capacidade de resistir à pressão da capital iraquiana, apesar de toda retórica de Washington em prol de um Iraque federado e unido. Enquanto a questão envolvendo a partilha do petróleo não estiver resolvida, o país não disporá de força nem capacidade de unificação real. Por outro lado é difícil para Washington pender claramente para um dos lados dentro do Iraque. Graças à aliança entre curdos e governo americano desde os anos 90 quando de sua união contra Saddam Hussein, uma relação favorável tem sido cultivada. Portanto, não é que os EUA não possam boicotar o plano autonomista dos curdos, apenas se torna inconveniente assumir algo sem um benefício visível e superior a seu custo político. O melhor é deixar rolar, lavando as mãos...
 
A posição curda parece ir contra os interesses sunitas, mas não porque estes controlem o petróleo iraquiano, pois, na verdade, a administração da produção do óleo iraquiano sequer é centralizada por eles. Localizada em região predominantemente sunita, fatores complicadores não faltam à Bagdá. Mais ao sul, os xiitas também almejam o controle sobre os campos de hidrocarbonetos meridionais. Se os curdos atingirem seu intento no norte do país, se abrirá um precedente perigoso ao poder central iraquiano em que poderá se perder, analogamente, o controle do sul. Provavelmente, os xiitas também irão querer sua independência administrativa e “autonomia federativa” aí não passará de um pobre eufemismo para um separatismo de fato.
 

Pode se tentar argumentar que a autonomia federativa é o melhor caminho... Sempre é, mas ao adotar este modelo antes de uma partilha regional do petróleo, o custo político pode ser muito maior do que se pretende como benefício. Dividindo o Iraque em três secções, o norte sob controle curdo, o centro com os sunitas e o sul sob o tacão xiita teremos mais “externalidades” que poderia compensar a empreitada. Além da perda do apoio sunita com a dispersão e autonomia das regiões petrolíferas ao sul e norte há o fator Turquia que incorpora parte do que se convencionou chamar “Curdistão” e, não há compensação alguma em agradar curdos se indispondo com uma velha aliada da OTAN. É neste contexto que se tem que avaliar o pedido de Bush e Rice contra o projeto do congresso americano pelo reconhecimento do massacre de 1,5 milhão de armênios pela Turquia entre 1915 e 1923. Com o mundo muçulmano em sua cola, os EUA não vão querer criar outro foco de antiamericanismo naquele país de suma importância estratégica com seus mais de 70 milhões de habitantes.

 

Entre os interesses turcos, sunitas, xiitas, iranianos e americanos está o Curdistão, uma pedra no sapato da estabilidade política regional.
 

 
Neste rearranjo geopolítico pró-separatista, Bagdá sairá perdedora, deixando de lucrar com o projeto autonomista e mais grave ainda, os xiitas tenderão a se aproximar do vizinho Irã, também xiita. Convém lembrar ainda que esta região faz fronteira com a Arábia Saudita, a principal fornecedora de petróleo aos EUA. Este cenário de um Iraque dividido, com uma federação capenga beneficiaria mais ao Irã do que o domínio sobre um Iraque unido. A aliança com uma região simpática, o sul xiita, lhe imporia menos sacrifícios (e gastos) do que um domínio ou ocupação extensiva. E, com o bônus, de conseguir uma “estrada” de livre acesso a possíveis e futuras incursões à Península Arábica.
 
O melhor para a política americana é não se meter em acrobacias diplomáticas para formatar uma outra arquitetura política regional “politicamente correta”. Quanto ao petróleo, o melhor também é deixar que os negócios sigam seu curso natural dando o tom para futuras estratégias, sem dirigismo nem obstrução por Washington.
 
Estratégia e logística têm a ver com uma forte dose de Realismo Político para não se cair no jogo argumentativo ideológico. Ou temos consciência disso ou passamos a vender desejos com o título de “análise”. Isto é muito mais freqüente do que se imagina... Não há mal nenhum em torcer por um dos lados desde que a torcida seja claramente discriminada como o que é, uma mera vontade. No entanto, quando não se tem consciência disto, a primeira conseqüência é ignorar como os inimigos de ontem podem se tornar os aliados de hoje (e vice-versa). Um exemplo do que digo está em Russian Roulette on Iran de Michael Rubin onde o autor sugere uma aliança de propósitos russo-iraniana em derrubar os EUA, ao mesmo tempo em que considera a “venalidade” russa. Ora! Ou é um ou é outro... “Aliança” para combater os EUA não é o objetivo, mas um meio necessário na atual estratégia russa. Se amanhã ou depois, o mercado guinar para outra região, Moscou abandonará Teerã e Damasco com a mesma desfaçatez que hoje adota sua flexibilidade para tratar os inimigos de Washington. Os russos (assim como quaisquer outros) querem a farinha para o seu pirão primeiro. Claro que nem se importam se os EUA foram atacados e fizeram acordos com Teerã menos de um mês após o 11 de Setembro. Sugerir o contrário não passa de um argumento sentimental... O que tem a ver os aiatolás com a al Qaeda e os talebãs? Para estes, o verdadeiro islamismo é o da facção waabita de bin Laden que trata o xiismo dos aiatolás como falso. Querer colocar tudo no mesmo saco é o primeiro passo para não saber contra quem se luta. Se os EUA têm oposição ao Irã (e por certo que têm) deve ser diferenciado de quem perpetrou o atentado ao país. As estratégias podem até se combinar num segundo momento, mas não têm as mesmas origens contra as mesmas causas ideológicas. Em primeiro lugar, a verdade.
 
Falar em “estratégia realista” soa infantilmente redundante. Toda estratégia de estado antes mesmo de Maquiavel é isto mesmo. Raras exceções, como a influência neocon na política externa, não deram resultados. Vide a substituição de Rumsfeld por Gates... Idealismo neste caso não vem desacompanhado de externalidades para lá de negativas. Apesar de acreditar na necessidade (e ação) de defesa americana, isto não significa insinuar ingenuidade de Bush e Rice. Faze-lo é como se tivéssemos, arrogantemente, mais conhecimento do que eles do que se passa nos corredores do Pentágono. No Entre-Guerras, Nicholas Spykman já definira para décadas adiante o que seria a realpolitik americana ao influenciar o país e colocar uma pá de cal no “isolacionismo” que previa a defesa do Hemisfério Ocidental e a concretização da “fortaleza americana” com suas garras retraídas.
 
Quem acredita que o poder americano se mantém em uma perspectiva de unilateralismo, bem como através de uma visão paroquial da política externa está equivocado. Faz-se necessária uma visão multidimensional para entender seu papel na conjuntura global onde nem tudo na chamada geopolítica almeja a eliminação total do oponente. Este pode servir melhor estando vivo. O alcance de objetivos de estado não pode ser concluído apenas com a visão de curto prazo.
 
Nesta linha de raciocínio, a Rússia sempre será um parceiro conveniente quando se tratar de apertar o ferrão no Islã, mas uma opositora em se tratando de Europa, por exemplo. Parece óbvio que a Rússia sempre colocará seus interesses nacionais (de mercado bélico, inclusive) em primeiro lugar. O mesmo se dá com os próprios EUA no tocante à questão energética (e eles têm sua razão) que são sua força e fraqueza concomitantes. Para a Rússia, a escassez mundial de petróleo é benfazeja, tornando-a uma fornecedora privilegiada. Quando as relações internacionais se acalmam e a oferta da commodity, temporariamente, aumenta, um Putin da vida assina protocolos como o de Kyoto que, em passado recente, ele mesmo rejeitara. Súbita conscientização ecológica do ex-agente da KGB? Não engulo essa. Tudo conveniência de acordo com as circunstâncias.
 
Enfraquecer a economia americana se torna um expediente momentâneo para ampliar as reservas externas russas. O objetivo é político-econômico, não um sonho ideológico contra o “mundo livre” querendo enterrar o capitalismo. A combinação de suas enormes jazidas petrolíferas, ainda com grande potencial de prospecção, e a instabilidade política na região do Golfo Pérsico são dádivas circunstanciais para a Rússia passar de provedor alternativo a preferencial. Por isto mesmo, o avanço da OTAN no Leste Europeu tem que ser comemorado e incentivado. Tu me alimentas, mas tenho uma faca na tua garganta...
 
Querer entender um conflito no Oriente Médio envolvendo EUA e Irã vai além de uma satanização russa. É jogo. E como todo jogo, não há espaço para a moral. Aliás, o que tem a ver geopolítica com moral?... Sem entrar em considerações éticas sobre uma guerra e operações militares, não tenho idéia de como seria um conflito entre EUA e Irã. A começar pela população iraniana, muito maior que a iraquiana e, até onde sei, não tão dividida internamente na maior parte do território. Talvez, no curto prazo, um prolongado ataque aéreo a partir do Golfo seria uma alternativa viável e, no médio prazo incentivar, de alguma forma (e não sei como se daria isto) os árabes contra os persas explorando, maquiavelicamente, as diferenças entre sunitas e xiitas. Ou seja, mesmo que se obtenha algum resultado positivo disto tudo teremos efeitos indesejáveis, porém previsíveis bem como o fomento a uma seqüência decorrente de guerras menores. No geral, uma grande droga.
 
Mesmo que os EUA tenham capacidade para um ataque massivo, a questão é outra. Vale a pena? Valeu ter invadido o Iraque? Quanto a este último há analistas que rejeitavam a guerra, mas admitem que uma desocupação, eufemismo para fuga, só pioraria tudo. E, de mais a mais, capacidade tecnológica não é tudo, quanto custaria uma "brincadeira" dessas?
 
Por isto sou levado a crer que se ocorresse um conflito de maior envergadura, ele não seria uma ocupação terrestre tal como o Iraque, mas um ataque aéreo intenso com apoio de aliados em terra como o foi no Afeganistão. A questão, no entanto, é saber quem faria o papel de "Aliança do Norte", como ocorreu no Afeganistão contra o Talebã? O dividido Paquistão? Russos? Se a Rússia entrasse em tal conflito, qual seria o papel da China? Esta, com certeza vai chiar... Se a guerra interessaria à Europa, ou melhor, França e Alemanha, estas não costumam ter culhões para arcar com os custos da mesma. Esta tarefa eles deixam aos americanos para depois, como é de seu caráter, criticá-los também.
 
Se a guerra for inevitável, eu fico com a opção mais pragmática: atacar instalações militares, com especial destaque para a força aérea iraniana que tem algum peso regional. Mas, cá com meus botões eu tenho vontade de dizer “chega desse negócio de se aliar com o fulano que é ‘menos pior’ do que o inimigo conjuntural. Que mostrem as cartas, logo!” Mas, isto não é fato nem norma, trata-se apenas de um sonho de virgem.
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