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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Quarta, 07 Maio 2008 21:00

Desigualdade e Desafio

Sua garantia: se quebrar, paga quantia fixa ao dono da terra sem ônus para o mesmo. Seu contrato, seu nome.

Quem já viu o filme ao lado, sabe do que vou falar a seguir...

Caro colega,

Eu também tive um amigo mais pobre como esse teu da Tijuca. Seus pais tiveram 12 filhos em Gravataí, na periferia de Porto Alegre. À época meio rural, meio urbana (anos 60-70). Meu camarada estudou em colégio agrícola na vizinha Cachoeirinha, onde morei por 9 longos anos. Quando me mudei para lá, com 15 anos, meus amigos me gozaram, pois morar naquela cidadezinha, que conseguia ser pior que Gravataí era um óbvio sinônimo de decadência.

Voltando ao sujeito, ele estudou neste colégio por um motivo muito simples: tinha verba estadual e dava quarto e comida pros alunos que lá ficavam em turno integral.

Ao se formar no ensino médio, quando todos ou quase todos nossos camaradas iam para a faculdade, o sujeito não teve outra alternativa senão encarar o batente como representante de venda de químicos para a agricultura, aquilo que vulgarmente se chama de "agrotóxicos". Além, é claro de adubos e outros utensílios. Isto lá pelos idos dos anos 80.

Eu me formei, entrei na pós em São Paulo, a qual não conclui e me lancei no mercado de escolas particulares e cursinhos em São Paulo. Acabei perdendo seu contato por um tempo... Lá pelos 90, voltei a encontra-lo, o que era um pouco dificil quando eu passava rapidamente por Cachoeirinha e, seu horário era das 7 às 21, 22h. Ele e a mulher compraram aparelho de som, tv numa casinha de madeira caindo aos pedaços onde moravam. Daquelas, cuja porta deve ter servido de inspiração aos filmes de ação hollywoodianos (com um chute qualquer se abria). Tudo a prestação, claro, pois não tinham fundos para comprar nada a vista. Certa noite ao chegarem em casa, na sala só tinha sobrado com um sofá velho, cujas costuras se desfaziam. Foram assaltados.

Cachoeirinha tem uma ponte que atravessa o Rio Gravataí, tão poluído que a água que sai da torneira parece leite de tanto cloro que é adicionado. Quando eu tomava banho, meus olhos ardiam pelo excesso de cloro. Hoje, aqui em Florianópolis tenho água de qualidade, mas minha mãe que ainda mora lá, todos os dias ainda fica com os olhos vermelhos. Uma vez por ano, no entanto, os olhos do sujeito não ardiam porque da perna pra baixo ele toma banho com a água da inundação do Gravataí (muito muito antes de se falar em "aquecimento global"), pois ele morava na várzea junto ao rio.

Ele mudou de firma de representação, foi fazer cursos rápidos em São Paulo para conhecer o produto e conseguiu abrir uma lojinha, mas não deixou de visitar seus clientes num raio de 100 a 300km em torno de sua casinha.

Juntou uma grana e construiu um sobrado no fundo do terreno. Tão logo ficou pronto, nem aproveitou e já vendeu, se capitalizando.

Conversávamos muito e eu era um defensor da reforma agrária. O sujeito ria e ria de mim. Eu falava com autoridade "conheço o MST, já visitei a Fazenda Anoni, sei como eles vivem..." Ele disse "certo, vou te levar para conhecer uns assentamentos".

Visitamos dois, um onde o pessoal realmente trabalhava, mas não tinham muito lucro, produtividade baixa e não dispunham de transporte para descartar os atravessadores; no outro, se esconderam quando nos viram chegando. Só vi porcos deitados na lama, nada mais.

- Como eles vivem aqui. Perguntei.
- Só esperam a grana do governo, me disse.
- Ué? Mas, já não ganharam terra?
- Ah ah ah, foi o que ouvi como resposta.

Meia década depois, lá estava o sujeito arrendando uma mega-propriedade para plantar arroz...

- Êi! Por que tu não compra alguma propriedade em vez de gastar com aluguel?
- Anselmo... Se eu comprar, pago mais todos os anos que se só alugar.

Enquanto conversávamos, ele arrumava uma bomba d'água com uma tira de borracha improvisada...

Isto se deu em uma época que eu ainda "ensinava" para vários alunos (seguindo meu livro didático) que arrendatários não têm terra e são "explorados" pelos proprietários. Voltei para São Paulo naquele verão e minhas aulas mudaram de tom, substancialmente: já não dizia mais que arrendatários eram todos pobres.

- Cara, por que tem tanta pobreza entre os agricultores, então? Tu é uma exceção, comentei.
- Não, Anselmo. A dificuldade deles é porque pensam como agricultores.

Ele estava comprando dívidas de seus antigos clientes e cobrando-lhes com juros menores que qualquer banco.

Eu poderia parar aqui, mas a saga deste "miserável" ainda vai muito mais longe...

Quando a ecologia começou a entrar na moda, ele se interessou em saber como aplica-la. Técnicas como "plantio direto" dispensavam alguns produtos reduzindo custos. O que, normalmente, alguém faria, seria desdenhar disso, para continuar vendendo mais caro. Ao longo de dez anos, como um pastor materialista, ensinava agricultores como economizar.

Quando falávamos de qualquer outra futilidade, como "que carro tu prefere", ele contemporizava com o ano do veículo, cuja relação custo-benefício seria melhor... "Zero quilômetro desvaloriza 20% ao sair da loja". E não pagava por um, mas trocava por "sacas de arroz".

Meia década depois, ele tinha duas grandes lojas de produtos agropecuários.

Ao fim do segundo mandato do FHC, ele votara no Lula por que estava descontente com a política econômica. Hoje, viu que fez besteira, mas que não era tão diferente do próprio governo FHC.

Com a alta do Real, ele se ferrou. Quebrou e o crédito sumiu. Uma grande empresa paulista estava prestes a decretar sua falência por falta de pagamento. Ele pagava se os clientes lhe pagavam, pois aí estava seu capital de giro. Mas, estavam quase todos quebrados. Do outro lado, seus vários fornecedores entendiam perfeitamente, mas esta grande empresa não poderia abrir exceções.

Como o telefone não ajudava, pegou sua pick-up com um advogado, um monte de papéis e veio para São Paulo. Chegou em casa na madrugada, pois se perdeu na Marginal e teve que pedir informações para algumas "mulheres estranhas" na Waldemar Ferreira ao lado da USP, o famoso "Putusp". Eram travestis... Demorou também porque ficou batendo papo por lá...

Conseguiu estender o prazo de pagamento e a dívida saltou de uns 300 mil para mais de um milhão.

Decretar falência seria muito mais fácil, mas isto implicava em chutar os empregados de suas duas empresas. Fazendo a limpa e cortando tudo que podia descobriu que seu cunhado o lesara em alguns milhares de reais.

Como era religioso, espírita, maçom, o diabo não quis matar o cara. Coisa que se fosse comigo, eu teria feito depois de torturar o infame. Sua opção acabou sendo decretar falência, mesmo.

Hoje, ele arrenda outra área em Guaíba, outra cidade da metrópole porto-alegrense. O que ele faz lá? Arroz, mas contrata agricultor de Santa Catarina e garante o lucro do proprietário.

Movimenta 300 mil reais por mês e tira pra si, no mínimo, 30 mil mensais.

Sua garantia: se quebrar, paga quantia fixa ao dono da terra sem ônus para o mesmo. Seu contrato, seu nome.

A desigualdade nunca o tornou marxista. A desigualdade o desafiou. Eu perdi a conta dos rounds que ele teve na sua vida, mas posso dizer que nunca foi nocauteado. Provavelmente, por que enquanto eu lia Os Grandes Escritos Anarquistas de George Woodcock, ele lia seus manuais de aplicação dos produtos químicos...

Quarta, 27 Fevereiro 2008 21:00

Que Venha Godzilla!

Mas, por mais que o Kremlin tente assegurar, sobremaneira, uma série de objetivos geopolíticos com a atuação de Putin, seu país figura na tela do radar japonês...

 

 

 

Apesar do Japão e EUA terem sofrido um “contratempo” na II Guerra Mundial, as duas nações têm um histórico de boas relações. Dentre outras razões, o Japão serviu como cabeça-de-ponte para Washington bloquear o livre-acesso soviético ao Pacífico. Hoje, no entanto, com a entrada de novos jogadores na disputa estratégica global, esta “tradição” tem esfriado... Em Geopolitical Diary: Japan's Plans for Godzilla, Mothra and the Russian Bear se evidencia a tomada de dianteira de Tokyo em seu próprio sistema de defesa, já que os EUA não têm feito o suficiente para assegura-la na Ásia Oriental. As restrições impostas com o fim da II GM tornaram o Japão dependente militarmente, mas com ameaças diretas como o sistema de mísseis balísticos da Coréia do Norte, a marinha chinesa e o crescente poderio russo sobre o Pacífico Norte, os japoneses se tornaram um dos principais alvos regionais.

Me surpreendi ao perceber que sua maior preocupação é com a Rússia, pois acostumei-me a pensar que Moscou estivesse com os olhos fixos no Ocidente, particularmente na Europa, ou no Oriente Médio. Por meses, o Kremlin voltara-se contra o desenvolvimento de mísseis antibalísticos pelos EUA em sua periferia. Como conseqüência, o Japão requer um sistema próprio na segurança nacional.

Em 1998, os norte-coreanos testaram um míssil balístico sobre o Japão. Guardadas as devidas proporções territoriais, imagine algo como a Bolívia lançar um projétil desses sobre o nosso território detonando-o no Atlântico. É disto que se trata. E em 2006, Pyongyang lançou um novo dispositivo nuclear, de modo similar ao que fez o Paquistão no Deserto de Thar. Mas, diferentemente da pronta resposta indiana em sua fronteira paquistanesa, o Japão não tinha o que mostrar. Agora caminha para isto...

Muito embora seja de difícil concretização, a hipótese de fusão entre o poder econômico sul-coreano com o poder bélico norte-coreano relegaria o Japão, claramente, a uma condição periférica no extremo oriente. E isto significa ter que acatar com uma ou outra imposição. E por maior que seja a atual proeminência russa, a China deslancha como superpotência ascendente. Diferente de seu, territorialmente, introspectivo passado militar, Pequim adota hoje uma clara diretriz marítima aliada ao seu natural domínio terrestre.

A lembrança da guerra com a Rússia em 1904-05 marcou o Japão como única potência não européia a derrotar, até então, um país daquele continente. De lá para cá, a supremacia ocidental voltou a reinar, sem que a Rússia firme um acordo de paz com a potência asiática. Mas, por mais que o Kremlin tente assegurar, sobremaneira, uma série de objetivos geopolíticos com a atuação de Putin, seu país figura na tela do radar japonês...

Quarta, 28 Novembro 2007 22:00

Apagão Mental

Nas duas últimas semanas, o Brasil este às voltas com um revival nacional-desenvolvimentista. A descoberta do Campo de Tupi, uma reserva de petróleo gigante incrustada abaixo de espessa camada de sal submerso, trouxe novamente as esperanças de “independência energética” ao país.

Nas duas últimas semanas, o Brasil este às voltas com um revival nacional-desenvolvimentista. A descoberta do Campo de Tupi, uma reserva de petróleo gigante incrustada abaixo de espessa camada de sal submerso, trouxe novamente as esperanças de “independência energética” ao país.
 
Ao comentar o salto da posição brasileira em reservas mundiais, a Carta Capital não poupou elogios à estatal e pretensões à entrada no seleto clube dos produtores (e exportadores) mundiais:
 
“É como se o sonho de Monteiro Lobato se realizasse com juros – ainda que ele jamais imaginasse que o petróleo pudesse ser extraído de um local como esse. Seu modelo eram os EUA (...)”
 
Ocorre que Monteiro Lobato, quem viveu nos EUA de 1927 a 1931, nutria admiração pelo modelo americano não apenas pela posse de jazidas petrolíferas, mas pela sua política em relação aos combustíveis fósseis. Em outras palavras, não é a simples posição em um ranking mundial que garantirá uma melhor qualidade de vida e consumo aos brasileiros, mas sim o acesso aos seus derivados em melhores condições de mercado.
 
Sem a concorrência que caracteriza a produção petrolífera interna nos EUA, os atrasos na produção brasileira têm uma causa objetiva: falta de competição. Como relatou o jornalista Vitor Vieria do site VideVersus.com.Br:
 
“O aumento previsto da produção da Petrobras foi afetado pelos atrasos na entrada de plataformas e pela queda de produção dos campos mais antigos da estatal, informou a companhia. A produção média de petróleo em campos nacionais no terceiro trimestre foi de 1,797 milhão de barris/dia, resultado 1% acima dos 1,779 milhão de barris/dia verificados de julho a setembro de 2006. O gerente de Exploração e Produção da companhia, Francisco Nepomuceno, admitiu que os atrasos na entrada de novos sistemas vêm contribuindo para o baixo crescimento da produção ao longo deste ano.”
 
Ainda neste ano, o lucro líquido da Petrobrás teve queda de 21% e, a tirar por sua dependência e influência da base sindical da CUT, a solução e medida lógicas que consistiriam na venda da parte do estado, dificilmente ocorrerão em nossa “pátria dos sindicatos”. O modus operandi da estatal ainda persiste no monopólio (real, não mais, apenas legal) da produção de petróleo no país. Para que este quadro de estagnação sofra alguma reviravolta, sem as medidas liberalizantes necessárias, só mesmo com achados fornecidos por nosso subsolo. Ademais, as declarações proféticas de nossa Ministra-Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff de que o país virá a se tornar um exportador de petróleo foram flagrantemente desmentidas por Fernando Siqueira, diretor da Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET):
 
“O Brasil não pode exportar petróleo porque não tem reservas para isso. O País tem que guardar as reservas que tem e procurar investir maciçamente em fontes alternativas. O Brasil é o País do mundo que tem mais condição de substituir petróleo por energias renováveis”.
 
A bem da verdade, toda esta campanha de marketing político (provavelmente, para capitalizar apoio a um terceiro mandato) serve também para desviar atenção do problema energético atual, o “apagão do gás”. Em 13 de junho de 2005, informava o Valor Econômico:
 
Na reunião com a Fiesp, Dilma Rousseff também informou que a Petrobras deverá focar seu objetivo na antecipação de 2009 para 2007 da produção de gás do campo de Mexilhão, na Bacia de Santos, disponibilizando 12 milhões de metros cúbicos diários do insumo; e de outros 10 milhões de metros cúbicos por dia da Bacia do Espírito Santo também em 2007 (...)”.
 
Bem, o ano de 2007 está se indo e nada de gás. Pelo contrário, nosso presidente teve que, recentemente, mendigar a Evo Morales que mantenha o fornecimento de gás ao Brasil, por ocasião da XVII Cúpula Ibero-Americana.
 
Quando o próprio diretor da ANEEL, Jerson Kelman diz que o IBAMA obstaculiza as obras que seriam necessárias para o desenvolvimento nacional ao interferir em seara que não é da sua competência, indo muito além da exigência de licenciamento ambiental [1], vemos que a burocracia, bem como a ameaça ao status jurídico da propriedade privada e o populismo desenfreado de nosso Executivo corroboram para que retornemos à época das lamparinas. Antes de um apagão energético, o que temos é um verdadeiro “apagão mental” de nossa elite política.
 
[1] Cf.: “Uma luz no fim do apagão” em http://www.ilhacap.com.br/ - edição 38, novembro de 2007.
Domingo, 18 Novembro 2007 22:00

A César O Que é De César

Se o mérito pelos policiais desviarem as balas que seriam destinadas a nós ainda não encontra consenso por alguns, o mérito de Che já foi devidamente assegurado com um tiro de misericórdia no peito.

Mosaico: Veja
A efígie de Che Guevara virou um ícone para os desavisados, tolos e hipócritas ou, na melhor das hipóteses, uma mercadoria para biquinis e camisetas manchadas com o sangue das vítimas do assassino que a história se encarregou de mistificar.
 
No dia 17 passado, Carlos Heitor Cony comentou os 40 anos da morte de Che Guevara na BandNews. Começou “bem” lembrando os “50 anos de sua morte” e terminou “melhor ainda” dizendo que foi um herói que cometeu erros, pequenas falhas como assassinar quem discordasse dos seus propósitos revolucionários. Detalhes para quem o definiu como “maior herói do século XX”! Eu não compreendo mesmo o conceito de herói...
 
Para o site Vermelho: a esquerda bem informada em Goebbels inspira Veja, a revista faz parte de uma “rede mundial de comunicação neomacartista”, cuja matéria histórica “Che: há quarenta anos morria o homem e nascia a farsa” põe uma pá de cal no facínora. O site dos fosseis vivos comunistas também critica a analise de Cony porque o mesmo teria chamado Che de um “péssimo administrador”, no que está coberto de razão. Alçado ao posto de Ministro da Economia após a Revolução Cubana, Che não se adaptou e deixou Cuba para fazer o que sabia: matar ameaçando populações a adotar o modelo comunista no Congo e depois na Bolívia onde foi finalmente e, merecidamente morto.
 
Mas, ouvindo Cony hoje notei que sua constatação não tem boa justificativa. Che teria continuado sua sanha guerrilheira porque era um adepto da “revolução permanente” não aceitando a influência (e direção) soviética, tampouco a de Fidel. Não é bem assim, a teoria da “revolução permanente” de Trotsky não era apenas de continuar a revolução em outros paises, mas de avança-la também nos que já tinham derrubado a burguesia. Caminhando do socialismo e de sua “ditadura do proletariado” ao comunismo, a teoria original marxista, compreenderia a própria extinção do estado. Apenas lembremos que Trotsky, então Comissário de Guerra da revolução teve em seu currículo de revolucionário, a repressão à Revolta de Kronstadt em 1921, na qual milhares foram executados. Nada mais irreal, portanto, para a práxis que adotava Guevara pinta-lo como um “libertário”, antiestatista ou coisa que o valha. Ele se afinava mais com Lênin na busca pelo poder a qualquer custo do que entrega-lo as massas subordinadas pelo totalitarismo comunista. Cony erra porque é mal informado; os vermelhos do Vermelho, por sua vez, erram porque são deturpadores ou fanáticos (o que dá no mesmo).
 
Entre fatos e deturpações existem interpretações. Vi muitas opiniões sobre o filme Tropa de Elite, mas há algo que penso ter escapado entre os que viram a ascensão neofascista no apelo por um justiciamento e a brutalidade policial como panacéia.
 
O filme tem o grande mérito de tomar posição em uma sociedade, cujas opiniões costumam ser insípidas. E é disto que o filme trata, das diferentes posições assumidas e suas conseqüências, inclusive da posição de não se posicionar, do “deixa estar” estudantil justificado de modo generalizante pela corrupção policial. No filme, a idiotia esquerdófila da “vitimização social” me pareceu bem ironizada pelo debate sobre Foucault em um curso de Direito. Hilário...
 
Só tenho duas observações a fazer sobre opiniões recorrentes sobre o panorama tratado no filme:
 
1ª) A legalização das drogas acabaria com o trafico. Isto, por si só, não basta. Sei que o filme não trata, explicitamente, desta questão, mas gostaria de chamar a atenção para que ninguém interprete mal achando que se sugere que a liberação seja suficiente para conter o crime. Conter o tráfico é uma coisa, conter o crime é outra... Imagine como seria uma simples legalização em nosso país, no qual adolescentes que participam de “rachas” e matam aleatoriamente... Apesar da obrigatoriedade do teste do bafômetro ter entrado em vigor com o Código de Trânsito em 1998, quem se recusar a faze-lo pode optar por pagar uma multa. O que não ocorreria se o consumo de maconha ou cocaína for legalizado? E se tratar de “celebridades”, a coisa fica pior ainda. Se a lei é permissiva com os erros de alguns, se abre um precedente para todos.
 
Mesmo na referenciada Holanda, onde o consumo de maconha é permitido, não se pode faze-lo em qualquer lugar de modo incondicional. O consumo fora de casa ou dos cafés é crime há mais de oito anos e, além disto, o país assiste há uma tendência inversa, de fechamento deste tipo de estabelecimento. É disto que nossa sociedade se exime. Assim como quase ninguém pensa sobre o que seria a ação contumaz de uma polícia correta e ordeira. Ou os cariocas e brasileiros em geral querem uma polícia dando batida em quem dá uma cheiradinha na Zona Sul carioca e bairros nobres de nossas metrópoles? A corrupção policial não existe no vácuo, ela é produto nosso. Se realmente queremos mudar as coisas, tem que se ir muito além da liberalização. Parafraseando o velho mestre Adam Smith “the inhabitant of the breast, the man within, the great judge and arbiter of our conduct”, a liberdade compreende grandes doses de responsabilidade ausentes em nossa cultura.
 
 
 
 
2ª) Outro dado que acho importante frisar é que com uma polícia tendo que torturar, para obter informações urgentes, o caso do protagonista do filme, o Capitão Nascimento é sintomático. Não foi a tortura que o levou a uma momentânea perturbação, mas o fato de ter libertado um informante que, sob coação, denuncia comparsas levando-o ao inevitável destino de cruzar o Hades. Sua crise se agrava com a acusação feita por uma mãe de que eles, os policiais mataram seu filho ao liberta-lo. Dentro do raciocínio do policial, a avaliação da mãe corrobora o que pensa sobre ser conivente com o tráfico: em uma das ações retratadas, o mesmo capitão esfrega o rosto de um consumidor no peito aberto de um dos traficantes pelas balas do BOPE acusando-o de ser responsável por sua morte. Outro mérito do filme é este, não cria heróis, mostra valentia mesclada com brutalidade convivendo com o erro.
 
Nossa sociedade não prescinde da tortura como método recorrente, infelizmente, porque se trata de uma guerra. Mas, é disto que se trata. A guerra é anarquia, falta de lei e império da corrupção. Com uma esquerda hipócrita (redundante, não?) e uma direita obtusa que vê o combate à corrupção como “perfumaria” estamos em maus lençóis.
 
Em nosso fantástico país, a morte de policiais não rende paginas de jornal nem consideração nenhuma por parte de jornalistas ou membros da elite cultural, artistas, personalidades ou celebridades. Em paises civilizados, por mais que se desgoste da policia, pelo menos subsiste um certo pensamento utilitarista quando um policial é morto: “se um bandido tem a audácia de assassinar um policial, imagine o que ele não faria comigo!” Por outro lado, a morte de um verme sanguinolento há 40 anos atrás na Bolívia provoca um rosário de lamúrias de tontos e imbecis que não são capazes sequer de entender o que significa defender a vida alheia. Cultuam assassinos, mas quando seus bens ou vida são ameaçados não titubeiam em clamar pelas “forças de repressão”.
 
Se o mérito pelos policiais desviarem as balas que seriam destinadas a nós ainda não encontra consenso por alguns, o mérito de Che já foi devidamente assegurado com um tiro de misericórdia no peito. 
Terça, 30 Outubro 2007 22:00

Aiatolás na mira

Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
Quando do impasse envolvendo 15 militares britânicos capturados pelo Irã chegou ao fim, nossa bem informada mídia não titubeou em assinalar uma vitória política de Ahmadinejad. Ainda considerou o desfecho como uma “surpreendente libertação” pelo presidente iraniano e focalizou a saída da crise como uma suposta negociação entre Londres e Teerã.
E se o líder iraniano não desse o perdão?
Ninguém fica tão bonzinho da noite para o dia, ainda mais quando vocifera com beligerância contra aliados regionais do Ocidente, como é o caso de Israel e, na surdina usa o potencial atômico como arma de dissuasão. Exceto se tiver a suas margens porta-aviões inimigos armados até os dentes, como é o caso da fantástica embarcação USS Nimitz com poder de fogo suficiente para obliterar todo o Irã.
Segundo matéria do NewsMax.com, as forças americanas já estariam a postos para um possível ataque ao Irã. De acordo com Wayne White, ex-analista do Deptº de Estado americano para o Oriente Médio, não seria um “ataque cirúrgico”, mas uma guerra de anos. Uma operação com potencial suficiente para aniquilar submarinos, força aérea e, especialmente, os mísseis balísticos iranianos capazes de alvejar embarcações comerciais americanas no Golfo. Já, o envolvimento israelense neste possível conflito traria uma maior instabilidade regional permitindo uma retaliação vigorosa do Irã a um alvo mais fácil e maior. Tal cenário seria muito pior do que uma guerra civil iraquiana que se ocorresse, estaria confinada ao próprio país.
 
Embora o presidente Bush tenha se esforçado em torno de uma saída diplomática com o Irã, o cálculo estratégico através de uma guerra toma corpo. Esta não é uma preocupação exclusiva da administração Bush, seus aliados no Golfo também têm demonstrado preocupações crescentes com o aumento do poderio bélico iraniano, especialmente no quesito nuclear. Segundo o perito em Oriente Médio, Kenneth Katzman, a República Islâmica do Irã apresenta muitas vulnerabilidades capazes de ser exploradas o que torna sua posição reversível.
 
A visão que Teerã projeta sobre seu país é de uma “superpotência”, mas os vínculos que mantêm o país unido são fracos. Sua economia, por exemplo, é bastante “primitiva” e, exceto pelo petróleo, exporta praticamente nada. Mesmo o petróleo deve ter sua importância relativizada, pois sua capacidade de produção de hidrocarbonetos vem declinando rapidamente. Apesar de não poder prejudicar diretamente os EUA, isto é, em seu próprio território, o Irã se utiliza da capacidade de embargo econômico como blefe. Portanto, no curto prazo é mais promissor aos EUA aproveitar seu poder de barganha tanto quanto possível, do que enveredar para um confronto direto. As negociações devem ter prosseguimento.
 
Muito da vontade e força iraniana reflete a conjuntura do vizinho Iraque onde há muitos movimentos separatistas. Embora os motivos dos que entram para grupos dissidentes estejam calcados na religião, a força de suas cúpulas dirigentes vincula-se, como não poderia deixar de ser, ao petróleo. Os curdos, ao norte, estão se preparando para desenvolver a extração de modo independente a Bagdá. No artigo The Kurdish Oil Realitypublicado em Stratfor.com temos uma vaga noção, do complicado xadrez regional. O ministro do petróleo iraquiano afirmou ser inconstitucional a estratégia do Governo Regional Curdo (KRG) que já assinou acordos com companhias canadenses e americanas. Seu investimento nos campos setentrionais dará autonomia e capacidade de resistir à pressão da capital iraquiana, apesar de toda retórica de Washington em prol de um Iraque federado e unido. Enquanto a questão envolvendo a partilha do petróleo não estiver resolvida, o país não disporá de força nem capacidade de unificação real. Por outro lado é difícil para Washington pender claramente para um dos lados dentro do Iraque. Graças à aliança entre curdos e governo americano desde os anos 90 quando de sua união contra Saddam Hussein, uma relação favorável tem sido cultivada. Portanto, não é que os EUA não possam boicotar o plano autonomista dos curdos, apenas se torna inconveniente assumir algo sem um benefício visível e superior a seu custo político. O melhor é deixar rolar, lavando as mãos...
 
A posição curda parece ir contra os interesses sunitas, mas não porque estes controlem o petróleo iraquiano, pois, na verdade, a administração da produção do óleo iraquiano sequer é centralizada por eles. Localizada em região predominantemente sunita, fatores complicadores não faltam à Bagdá. Mais ao sul, os xiitas também almejam o controle sobre os campos de hidrocarbonetos meridionais. Se os curdos atingirem seu intento no norte do país, se abrirá um precedente perigoso ao poder central iraquiano em que poderá se perder, analogamente, o controle do sul. Provavelmente, os xiitas também irão querer sua independência administrativa e “autonomia federativa” aí não passará de um pobre eufemismo para um separatismo de fato.
 

Pode se tentar argumentar que a autonomia federativa é o melhor caminho... Sempre é, mas ao adotar este modelo antes de uma partilha regional do petróleo, o custo político pode ser muito maior do que se pretende como benefício. Dividindo o Iraque em três secções, o norte sob controle curdo, o centro com os sunitas e o sul sob o tacão xiita teremos mais “externalidades” que poderia compensar a empreitada. Além da perda do apoio sunita com a dispersão e autonomia das regiões petrolíferas ao sul e norte há o fator Turquia que incorpora parte do que se convencionou chamar “Curdistão” e, não há compensação alguma em agradar curdos se indispondo com uma velha aliada da OTAN. É neste contexto que se tem que avaliar o pedido de Bush e Rice contra o projeto do congresso americano pelo reconhecimento do massacre de 1,5 milhão de armênios pela Turquia entre 1915 e 1923. Com o mundo muçulmano em sua cola, os EUA não vão querer criar outro foco de antiamericanismo naquele país de suma importância estratégica com seus mais de 70 milhões de habitantes.

 

Entre os interesses turcos, sunitas, xiitas, iranianos e americanos está o Curdistão, uma pedra no sapato da estabilidade política regional.
 

 
Neste rearranjo geopolítico pró-separatista, Bagdá sairá perdedora, deixando de lucrar com o projeto autonomista e mais grave ainda, os xiitas tenderão a se aproximar do vizinho Irã, também xiita. Convém lembrar ainda que esta região faz fronteira com a Arábia Saudita, a principal fornecedora de petróleo aos EUA. Este cenário de um Iraque dividido, com uma federação capenga beneficiaria mais ao Irã do que o domínio sobre um Iraque unido. A aliança com uma região simpática, o sul xiita, lhe imporia menos sacrifícios (e gastos) do que um domínio ou ocupação extensiva. E, com o bônus, de conseguir uma “estrada” de livre acesso a possíveis e futuras incursões à Península Arábica.
 
O melhor para a política americana é não se meter em acrobacias diplomáticas para formatar uma outra arquitetura política regional “politicamente correta”. Quanto ao petróleo, o melhor também é deixar que os negócios sigam seu curso natural dando o tom para futuras estratégias, sem dirigismo nem obstrução por Washington.
 
Estratégia e logística têm a ver com uma forte dose de Realismo Político para não se cair no jogo argumentativo ideológico. Ou temos consciência disso ou passamos a vender desejos com o título de “análise”. Isto é muito mais freqüente do que se imagina... Não há mal nenhum em torcer por um dos lados desde que a torcida seja claramente discriminada como o que é, uma mera vontade. No entanto, quando não se tem consciência disto, a primeira conseqüência é ignorar como os inimigos de ontem podem se tornar os aliados de hoje (e vice-versa). Um exemplo do que digo está em Russian Roulette on Iran de Michael Rubin onde o autor sugere uma aliança de propósitos russo-iraniana em derrubar os EUA, ao mesmo tempo em que considera a “venalidade” russa. Ora! Ou é um ou é outro... “Aliança” para combater os EUA não é o objetivo, mas um meio necessário na atual estratégia russa. Se amanhã ou depois, o mercado guinar para outra região, Moscou abandonará Teerã e Damasco com a mesma desfaçatez que hoje adota sua flexibilidade para tratar os inimigos de Washington. Os russos (assim como quaisquer outros) querem a farinha para o seu pirão primeiro. Claro que nem se importam se os EUA foram atacados e fizeram acordos com Teerã menos de um mês após o 11 de Setembro. Sugerir o contrário não passa de um argumento sentimental... O que tem a ver os aiatolás com a al Qaeda e os talebãs? Para estes, o verdadeiro islamismo é o da facção waabita de bin Laden que trata o xiismo dos aiatolás como falso. Querer colocar tudo no mesmo saco é o primeiro passo para não saber contra quem se luta. Se os EUA têm oposição ao Irã (e por certo que têm) deve ser diferenciado de quem perpetrou o atentado ao país. As estratégias podem até se combinar num segundo momento, mas não têm as mesmas origens contra as mesmas causas ideológicas. Em primeiro lugar, a verdade.
 
Falar em “estratégia realista” soa infantilmente redundante. Toda estratégia de estado antes mesmo de Maquiavel é isto mesmo. Raras exceções, como a influência neocon na política externa, não deram resultados. Vide a substituição de Rumsfeld por Gates... Idealismo neste caso não vem desacompanhado de externalidades para lá de negativas. Apesar de acreditar na necessidade (e ação) de defesa americana, isto não significa insinuar ingenuidade de Bush e Rice. Faze-lo é como se tivéssemos, arrogantemente, mais conhecimento do que eles do que se passa nos corredores do Pentágono. No Entre-Guerras, Nicholas Spykman já definira para décadas adiante o que seria a realpolitik americana ao influenciar o país e colocar uma pá de cal no “isolacionismo” que previa a defesa do Hemisfério Ocidental e a concretização da “fortaleza americana” com suas garras retraídas.
 
Quem acredita que o poder americano se mantém em uma perspectiva de unilateralismo, bem como através de uma visão paroquial da política externa está equivocado. Faz-se necessária uma visão multidimensional para entender seu papel na conjuntura global onde nem tudo na chamada geopolítica almeja a eliminação total do oponente. Este pode servir melhor estando vivo. O alcance de objetivos de estado não pode ser concluído apenas com a visão de curto prazo.
 
Nesta linha de raciocínio, a Rússia sempre será um parceiro conveniente quando se tratar de apertar o ferrão no Islã, mas uma opositora em se tratando de Europa, por exemplo. Parece óbvio que a Rússia sempre colocará seus interesses nacionais (de mercado bélico, inclusive) em primeiro lugar. O mesmo se dá com os próprios EUA no tocante à questão energética (e eles têm sua razão) que são sua força e fraqueza concomitantes. Para a Rússia, a escassez mundial de petróleo é benfazeja, tornando-a uma fornecedora privilegiada. Quando as relações internacionais se acalmam e a oferta da commodity, temporariamente, aumenta, um Putin da vida assina protocolos como o de Kyoto que, em passado recente, ele mesmo rejeitara. Súbita conscientização ecológica do ex-agente da KGB? Não engulo essa. Tudo conveniência de acordo com as circunstâncias.
 
Enfraquecer a economia americana se torna um expediente momentâneo para ampliar as reservas externas russas. O objetivo é político-econômico, não um sonho ideológico contra o “mundo livre” querendo enterrar o capitalismo. A combinação de suas enormes jazidas petrolíferas, ainda com grande potencial de prospecção, e a instabilidade política na região do Golfo Pérsico são dádivas circunstanciais para a Rússia passar de provedor alternativo a preferencial. Por isto mesmo, o avanço da OTAN no Leste Europeu tem que ser comemorado e incentivado. Tu me alimentas, mas tenho uma faca na tua garganta...
 
Querer entender um conflito no Oriente Médio envolvendo EUA e Irã vai além de uma satanização russa. É jogo. E como todo jogo, não há espaço para a moral. Aliás, o que tem a ver geopolítica com moral?... Sem entrar em considerações éticas sobre uma guerra e operações militares, não tenho idéia de como seria um conflito entre EUA e Irã. A começar pela população iraniana, muito maior que a iraquiana e, até onde sei, não tão dividida internamente na maior parte do território. Talvez, no curto prazo, um prolongado ataque aéreo a partir do Golfo seria uma alternativa viável e, no médio prazo incentivar, de alguma forma (e não sei como se daria isto) os árabes contra os persas explorando, maquiavelicamente, as diferenças entre sunitas e xiitas. Ou seja, mesmo que se obtenha algum resultado positivo disto tudo teremos efeitos indesejáveis, porém previsíveis bem como o fomento a uma seqüência decorrente de guerras menores. No geral, uma grande droga.
 
Mesmo que os EUA tenham capacidade para um ataque massivo, a questão é outra. Vale a pena? Valeu ter invadido o Iraque? Quanto a este último há analistas que rejeitavam a guerra, mas admitem que uma desocupação, eufemismo para fuga, só pioraria tudo. E, de mais a mais, capacidade tecnológica não é tudo, quanto custaria uma "brincadeira" dessas?
 
Por isto sou levado a crer que se ocorresse um conflito de maior envergadura, ele não seria uma ocupação terrestre tal como o Iraque, mas um ataque aéreo intenso com apoio de aliados em terra como o foi no Afeganistão. A questão, no entanto, é saber quem faria o papel de "Aliança do Norte", como ocorreu no Afeganistão contra o Talebã? O dividido Paquistão? Russos? Se a Rússia entrasse em tal conflito, qual seria o papel da China? Esta, com certeza vai chiar... Se a guerra interessaria à Europa, ou melhor, França e Alemanha, estas não costumam ter culhões para arcar com os custos da mesma. Esta tarefa eles deixam aos americanos para depois, como é de seu caráter, criticá-los também.
 
Se a guerra for inevitável, eu fico com a opção mais pragmática: atacar instalações militares, com especial destaque para a força aérea iraniana que tem algum peso regional. Mas, cá com meus botões eu tenho vontade de dizer “chega desse negócio de se aliar com o fulano que é ‘menos pior’ do que o inimigo conjuntural. Que mostrem as cartas, logo!” Mas, isto não é fato nem norma, trata-se apenas de um sonho de virgem.
Quinta, 27 Setembro 2007 21:00

Conspiração, Eu Quero Uma Pra Viver

Você sabia que a estrela de cinco pontas do PT alude ao pentagrama, símbolo de seitas demoníacas? Símbolo datado do século XVIII por adoradores de Satanás?

(…)
we've got mars on the horizon
says the national midnight star
(it's true)
what you believe is what you are
a pair of dancing shoes
the soviets are the blues
the reds
under your bed
lying in the darkness
dead ahead
and the mercury is rising
barometer starts to fall
you know it gets to us all
the pain that is learning
and the rain that is burning
feel red
still...go ahead
you see black and white
and i see red
red
(not blue)

Red Lenses, Rush

 

 http://www.thepeoplescube.com/

Você sabia que a estrela de cinco pontas do PT alude ao pentagrama, símbolo de seitas demoníacas? Símbolo datado do século XVIII por adoradores de Satanás?

Não é uma triste sina para este povo, cuja terra tomada pelos portugueses foi dedicada à Santa Cruz? Como o pentagrama existe nos jardins do Palácio do Alvorada parece uma prova incontestável que não somos governados por mãos santas.

Na verdade, a estrela dos adoradores do demo é de cinco pontas sim, mas invertida. Para entender o porquê da estrela, a imaginemos composta por cinco triângulos, suas pontas... O triângulo apontado para baixo representaria uma barbicha; os dois triângulos nas posições aproximadas de quatro e oito horas representariam as orelhas baixas de um bode; e os demais triângulos nas posições de uma e onze horas representariam os chifres. Invertida, a estrela simboliza o rosto de um caprino macho que, por sua vez, era o símbolo de Satanás que as tribos da atual região de Israel expiavam, afugentando-o para as montanhas. Era um ritual que simbolizava "bater no demônio" se redimindo de seus pecados.

Querer ver no comunismo uma associação com o satanismo é puro delírio de conservadores religiosos. Fosse assim, a acusação (igualmente paranóica) das esquerdas de que o Pentágono representa o demoníaco pentagrama também valeria: unindo-se os vértices do prédio que é sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos também temos um pentagrama. Nada mais conveniente do que isto para os comunistas.

Na verdade o comunismo é muito pior do que qualquer satanismo. E se fossemos levar a sério à teoria sobre a estrela, os Estados Unidos têm cinqüenta delas em sua bandeira. Mas, para tudo, os teóricos da conspiração têm sua resposta, "alguns dos founding fathers eram adeptos do Iluminismo, também ligado ao satanismo!" E há literatura especializada a respeito, como o romeno Richard Wurmbrand, pastor preso e torturado por Nicolau Ceaucescu, ditador da Romênia. O autor de Era Karl Marx um satanista?, sustenta que o ateísmo e materialismo do comunismo são apenas fachada para um culto de ódio a deus. Segundo os teóricos da conspiração, Karl Marx não era ateu. Se há alguma citação em carta a Engels proferindo ódio a deus está comprovado o culto satânico. Assim como desprezo pela humanidade também pode ser lido através de alguma citação em que demonstra desprezo ao estado atual do proletariado.

Eu só conheço o Marx que li e é este que realmente importa, não os devaneios de quem lê entrelinhas. Quando jovem, bem jovem eu já acreditei em mitos como o Triângulo das Bermudas que forrou os bolsos de gente como Charles Berlitz e também acreditei que os deuses eram astronautas porque li Erich von Däniken. Como se vê minha infância foi muito imaginativa. Talvez para compensar o fato de que eu era muito ruim jogando bola. Mas, deixei de acreditar em tudo isto quando soube que o Caribe é pródigo em ventanias e que há uma seção densa em sargaços. Também recusei a bobagem de uma engenharia fora do nosso alcance, feita por deuses ao ver uma foto de blocos de pedras empilhadas cheias de imperfeições no interior de uma pirâmide egípcia. Por maior que seja nosso apreço pelo sobrenatural, somos demasiados humanos. Nosso desespero ou o que, em doses comedidas, chamamos de "necessidade" é o que nos move. Seja através do lançamento de foguetes em Cabo Canaveral, seja atravessando um mar pleno em furacões e tubarões para chegar à Flórida.

Pelo visto, os satânicos tentáculos já teriam alcançado as elites políticas de nossa sincrética cultura, pois o numero de casas de umbanda em Brasília é tão grande quanto na Bahia. Brasília seria um centro de adoração do demônio. Bem, se há algum "diabo", o safado é o verdadeiro responsável por inflacionar o preço das amantes...

Levar isto na brincadeira e na curiosidade, tudo bem, mas quando cheia às raias da cientificidade de quem vê provas, intenções ocultas é demais. Quem explica o Brasil não são os teóricos de direita ou esquerda, não são politicólogos e outros especialistas. Quem explica o país são antropólogos. Eu já vi por aqui até luterano se converter ao catolicismo para casar no religioso. O mesmo ex-luterano freqüentaria, mais tarde, um terreiro para ajudar um dos filhos. Isto não tem nada a ver com satanismo, isto tem a ver com cultura brasileira.

Parece que todos precisamos temer algo para justificar um polvo com seus tentáculos manipulando tudo ao seu redor. Tal é a leitura satanista de Marx. Interpretação fantasmagórica similar é a que atribui a Darwin, a origem sobre o nazismo porque era comum a sua época se expressar utilizando o termo "raça", o que fez de forma análoga ao de "espécie" em sua teoria da Seleção Natural quando se referiu à humanidade. Novamente, conveniência pouca é bobagem se meu intento é atacar a teoria da Evolução e salvaguardar o Criacionismo. Nesta querela ideológica, todos instrumentos se mostram úteis.

Digam-me, o que a irmandade americana Skull and Bones tem além de um clubinho colegial? Recentemente, ela adquiriu notoriedade devido à antiga participação dos Bush. Qualquer fato ou mera suposição pode muito bem se adequar à teoria, como o de que alunos que não tenham cursado nenhuma faculdade de Direito da Ivy League serem preteridos em grandes firmas de advocacia nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a pluralidade cultural se dá de forma burocrática, com seitas, organizações, clubes. Aqui em nosso país é mais "fluída". Um território continental, antes povoado por tribos em estado neolítico, recebeu levas de africanos e seus descendentes não ficariam imunes ao animismo. Também não me basta o argumento de que a urbanização e o "progresso" diluem isto tudo. Um exemplo de reciclagem de mitos está nesta onda de eco-turismo, fototerápicos, engajamento ambientalista, nutrição "natural" etc., na qual a referência ao culto pagão de Wicca não passa imune. O bom nisto tudo é sua apropriação via mercado, mas por outro lado, também é sintomático que qualquer fiel assentado em crenças mais tradicionais, veja aí algo demoníaco, o retorno daquilo pelo qual sua Igreja lutou durante séculos. É um pavor, não pode ser gratuito, tem que haver alguém por trás manipulando tudo. Simplesmente não se pode aceitar a espontaneidade de várias ações somadas, tem que haver uma "mente inteligente" que tira proveito da situação e, logo, induziu ao atual estado de coisas.

Uma das mais interessantes é a de que o atentado ao WTC seria obra do próprio governo Bush e seus falcões, para obter apoio do congresso americano e fazer suas estripulias no Oriente Médio. E, mais doida ainda é a que aponta uma conspiração dos Democratas para atacar a administração atual. A primeira, obra da esquerda americana que foi, paranóica e devidamente, rechaçada por outra de igual pendor, a de que opositores estariam imiscuídos de um bem articulado plano para reduzir, quando não derrubar mesmo a influência dos Republicanos no governo do país. Choques espetaculares de aviões, implosões controladas, tudo para obter o monopólio do petróleo no Oriente Médio.

E os intentos de tão magnânima operação? O óbvio, o "ouro negro". Como Alan Greenspan afirmou que a guerra do Iraque é pelo petróleo está revelada toda a causa do conflito. Apesar de simplista, a afirmação, o que isto teria de conspiratório? Uma vez que seria o argumento mais previsível, declarado e exposto de todos? "Conspiração" pressupõe segredo, o que não há no caso das declarações do ex-presidente do Federal Reserve. Apenas há a asseveração taxativa de alguém que analisa tudo por uma lógica economicista. Pouco importa, novamente, que foi no governo Clinton que o boicote ao petróleo iraquiano tenha ocorrido e, com uma commodity destas escasseando seu preço tenderia a subir. Ora, se a locomotiva mundial precisa de petróleo mais que tudo a preços baixos, por que boicotá-lo? Para depois, se gastar ainda mais no saco sem fundo da guerra? Simplesmente, não faz sentido. Dizer também que as administrações Clinton e Bush têm estratégias distintas não faz jus às políticas americanas que, em se tratando de ações de longo prazo, não são de governo, mas de estado.

Ainda há outra hipótese, a conspiração cristã por um messias... Seria o próprio Bush? Antes do 11 de Setembro, a prioridade americana estava na China. Por exemplo, o incidente com o EP-3 Orion de reconhecimento e caças chineses. No Oriente Médio, o problema era o Irã com fome de Iraque. A simples possibilidade de este ser tomado, especialmente o sul, na proximidade dos campos petrolíferos sauditas já fazia a luz vermelha acender em Washington. Para os americanos, não se tratava de tomar mais campos petrolíferos, mas assegurar o fornecimento dos atuais, tal como foi o motivo da 1ª Guerra do Golfo por ocasião da invasão iraquiana do Kuwait. Com poucas divisões norte-americanas na região, daí sim uma operação de envergadura se faria necessária sem um necessário atentado ao próprio território.

Não se trata de confiar ou não em Bush, de toma-lo por sábio, ignorante, "iluminado" ou o que quer que seja. Uma coisa é o Bush, sua administração, outra bem diferente é o atentado que alguns chamam de "plano bem arquitetado". Lembre-se que, os maiores inimigos dos ordotodoxos na Europa Oriental não eram os muçulmanos. Os inimigos costumam estar mais próximos do que pretendemos que estejam. No caso dos ortodoxos eram os católicos mesmo. Quero dizer com isto que na briga com Bush e os Republicanos estão os Democratas, como rivais imediatos. Nesta disputa, a primeira vitima é a verdade. Então, se profere a idéia de complôs. Complô para tomar o petróleo, para atacar o Iraque... Ora, Washington não precisaria de tanta acrobacia para atacar quem quer que seja. Razões mais tangíveis poderiam ser alegadas, especialmente com uma oposição mal das pernas, como demonstravam os Democratas.

E o argumento técnico? O Airbus da TAM colidiu com um prédio que não tinha estrutura de aço e o mesmo não ruiu, já o WTC veio abaixo. E o impacto do Airbus foi equivalente aos dos jumbos no WTC? O desmoronamento lá de cima, com todo o peso não traria uma maior força ribanceira abaixo que um avião tentando frear na pista de Congonhas? Sem entrar em considerações técnicas que não são a minha praia, eu pergunto se um plano tão bem arquitetado, caso o fosse, não teria que ter todos seus passos já previstos e tomados? Como então, não pensaram nisto e planejaram mal as quedas das torres deixando que transparecessem ser estruturas frágeis?

Lutar contra o terrorismo pode ser propaganda. Longe de ser consensual, realmente há assessores na Casa Branca que criam nisto. Vide as divergências entre Wolfowitz e Cheney. O primeiro vê os EUA como tendo uma causa, o segundo mais pragmático se importava com o numero de soldados no Iraque.

Se bin Laden não tivesse capacidade operacional para uma operação de tal monta, se não houve divergências entre a CIA e o FBI que levaram a falhas na segurança, então os atentados às embaixadas americanas na África também não teriam sido obra dos fundamentalistas. Bali na Indonésia, Zamboanga nas Filipinas, também não teriam sido obras de grupos simpatizantes a al Qaeda? Seria uma obra do Pentágono... É o que falta aos teóricos conspiracionistas alegarem, assim como dizer que o caso de Wacko no Texas em 1993 pelos davidianos teria sido também algo forjado.

As alianças que correspondem a planos são conhecidas, tal é o caso do apoio americano a Saddam para retaliar Khomeini. Mas, nada aí de ultra-secretas conspirações que ninguém fica sabendo. Apenas, simples realismo político que dita os métodos da Realpolitik entre estados beligerantes, o que não significa que tais estratégias não sejam discutíveis ou condenáveis.

Se admitíssemos que a engenharia norte-americana tivesse que prever tudo, mesmo uma colisão de jumbos, por que uma ponte também não teria que ser projetada para agüentar a pressão e atrito dos veículos até 40 anos depois? O incidente às margens do Mississipi, no estado de Minnesota joga um banho de água fria nas teorias conspiratórias sobre a impossibilidade estrutural das torres ruírem. Não sou físico, mas contra o argumento conspiratório basta um pouco de lógica. Por que em um dos casos de desmoronamento, temos que ter confiança na engenharia que não poderia ter falhado e noutro podemos perdoar a falha ao admitir que foi um mero acidente? Se um raciocínio conspiratório vale para o WTC, por que não deveria valer igualmente para uma ponte na qual alguém também deveria ter tramado sua ruptura? Se não há "algo mais" para se levar em consideração, os "patriotas" só têm paranóia ao acusar os Democratas de conspirarem contra Bush ao derrubarem o WTC. Esta é novidade para mim, eu só ouvira falar da conspiração neocon ou de Israel já que se alegou que "não havia nenhum judeu nas torres que caíram"... Mas, paranóia por paranóia, agora se inventa outra de direita para retrucar a original, de esquerda.

O canal HBO anda veiculando um excelente documentário Protocolos de Sião de 2005, que aborda o ressurgimento do anti-semitismo. A paranóia é tanta que chega a ser hilária. Em determinado momento um jovem afirma que todos os poderosos são judeus, inclusive o ex-prefeito de Nova York, Rudolf Giuliani. Sua prova consistente é a primeira sílaba do sobrenome de Rudolf, "Giu" pronunciada como jew, judeu em inglês. Não é demais?! Não adianta tentar argumentar, sempre se terá justificativas para qualquer conspiração.

Enquanto que algumas teorias da conspiração nunca saem de moda, como atribuir os males do mundo aos judeus, outras são inovadoras, mais ou menos consistentes que, como as demais, são cheias de falhas. A teoria conspiratória da moda no Brasil é a do Foro de São Paulo, organização que congrega lideranças latino-americanas em prol do comunismo, embora os velhos comunistas tenham preferido denominar seu objetivo de modo mais suave como "socialismo". Seus investigadores, articulistas da mídia alternativa em grande parte, blogueiros, uma direita não raro tão ensandecida quanto uma velha esquerda comunista acusam a grande maioria dos cidadãos de ser presa de uma grande conspiração. Reiteram que estamos em plena revolução comunista gramscista onde não se propõe mais uma revolução via proletariado ao estilo bolchevique, nem a do tipo rural, maoísta, mas sim uma cultural. Tomando os centros de divulgação das idéias, das universidades ao mainstream midiático, teríamos a preparação do terreno para a inoculação de idéias marxistas sem que se perceba. Antes de tomarmos ciência do ocorrido já estaríamos todos vivendo em pleno comunismo. "As provas estão aí", dizem. Um exemplo incontestável estaria nas atas do último congresso nacional do PT, nas quais o Foro é citado. Vejamos como é secreta tal conspiração: tão secreta que é mencionada em congresso feito pelo partido governista e veiculada pelos meios de comunicação!

Vejamos um testamento do site Pravda:

É nesse preciso momento que o PT lança a formidável proposta de criar o Foro de São Paulo, trincheira onde nós pudéssemos encontrar os revolucionários de diferentes tendências, de diferentes manifestações de luta e de partidos no governo, concretamente o caso cubano. Essa iniciativa, que encontrou rápida acolhida, foi uma tábua de salvação e uma esperança de que tudo não estava perdido. Quanta razão havia, transcorreram 16 anos e o panorama político é hoje totalmente diferente.

Claro que não se trata do jornal soviético. O famoso jornal teve suas propriedades confiscadas pelo ex-presidente Boris Ieltsin, cujos jornalistas, na sua grande maioria pediram demissão. E o tradicional jornal não tem a ver com novas versões de dissidentes comunistas.

Mas, pesquisando na versão do "Pravda", que muitos tomam como a nova voz do Kremlin, repassada como verdade pelos quatro cantos do mundo virtual, me deparo com um link curioso (em 23 de setembro de 2007) que deve estar contribuindo em muito para a causa desta "revolução continental":

Bárbara Paz vai ser a gostosa de setembro

Tem mais:

Elvis Presley está vivo e mora na Argentina

E, para que não pensem que o site não tem caráter científico vejamos a seção correspondente:

Pescadores russos capturaram um alienígena e comeram-no (vídeo)

A notícia acima pode fazer parte de alguma conspiração comunista também. Subliminarmente, há uma apologia ao velho regime: os russos agora estão tendo que apelar para alienígenas para aplacar sua fome. Como me lembraram alguns amigos, nos áureos tempos soviéticos, seu cardápio mais diversificado incluía apenas criancinhas. Ou pode ser um alienígena-filhote... Já nem sei se é conspiração comunista ou capitalista. Comer alienígenas pode ser retratado como uma evolução gastronômica, já que outrora o mais freqüentemente encontrado, era um bolinho de carne de cavalo estupidamente apimentado no meio de um prato com sopa rala (para comer devagar). Destarte temos inegáveis subsídios para compreender os mecanismos ocultos, que regulam nosso mundo evidenciados na internet: Elvis, alienígenas, Foro de São Paulo... Realmente, Shakespeare tinha razão em dizer que há muito mais entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.

Parece que o mundo inteiro virou comunista. Quem ajuda ou, em interesse próprio, negocia com a América Latina acaba beneficiando lideranças que são membros do Foro. Logo, em Bruxelas, na sede da União Européia, devemos ter uma seção desta intrincada rede de conspiradores. Entre 2007 e 2010, o bloco europeu irá destinar US$ 614 milhões ao comércio externo para a América Latina. Ora, quem diria? Estão financiando o Foro! Tampouco importa que Evo Morales, presidente da Bolívia tenha lesado o Brasil ao estatizar uma refinaria da Petrobrás. Trata-se de uma "ação entre amigos". Morales, o cocalero bem que poderia ter prometido a redenção aos seus companheiros incas através do mote "a coca é nossa!" Mas, não se fazem mais típicos idiotas latino-americanos como antigamente... Que coca que nada! O que é isto para quem pode ter uma refinaria de graça! O resguardo de ativos de empresas se torna um eufemismo para a perda da soberania nacional. Então, um roubo institucionalizado se faz em nome do populismo e com o aval do Foro. No Brasil, setores de esquerda como nossa CUT que impregnam a Petrobras estariam ganhando na parada, pois são "farinha do mesmo saco". Para rescindir contratos sem aviso prévio basta que não seja mais interessante ao governo em questão e, dane-se a empresa contratada. Ou seja, a Petrobras influenciada pela CUT jogou contra si mesma. Se as mudanças nas leis que regem gás e petróleo na Bolívia e na Venezuela causaram perdas financeiras para a Petrobras em 2006, de mais de mais de R$ 1 bilhão em relação a 2005, tudo não passou de "jogada". Não seria muito mais fácil criar uma linha de crédito para estes países? Precisava toda uma acrobacia geopolítica para lesar uma empresa em benefício de uma organização de propaganda ineficaz de dinossauros comunistas? Alguém perdeu, mas em que pese fatos em contrário, o que vemos não é o que vemos: tudo se explica pelo avesso na lógica conspiratória.

Não vejo racionalidade econômica nas ações bolivianas. Por outro lado há uma centralização política a exemplo do que ocorre na "revolução bolivariana" na Venezuela. Ao se aliar à Venezuela, Chávez tem Lula e Morales nas mãos, se tornando o principal fornecedor de hidrocarbonetos. O caudilho venezuelano, isto é verdade, tem objetivo e seu principal inimigo não são os Estados Unidos, mas o Brasil. Alguém crê que a compra de armamentos por Chávez possa fazer frente aos porta-aviões, submarinos e marines americanos? Não sejamos ingênuos. No entanto, contra o Brasil e suas forças armadas estagnadas e sucateadas, têm sentido os sinais de atrito que se formam ao norte do cone sul. Chávez ainda soube manipular a ideologia ao colocar a Bolívia em sua órbita de influência e tornar o país sem saída marítima um sócio-dependente. Ao descartar a possibilidade de se tornar o principal fornecedor de energia externa ao Brasil, a Bolívia selou seu destino econômico. Se há alguma racionalidade em pertencer ao Foro, ela é antieconômica. Chávez é a real pedra no sapato dos liberais e, ele tem que ser deposto de alguma forma. Sua recente aproximação ao Irã, ora em curso, é um risco inaceitável.

Outro demagogo que perdura no poder é o presidente argentino Nestor Kirchner que instou os argentinos a boicotarem a Shell fechando a empresa no país, para abri-la tão logo a empresa se comprometesse com o investimento em "medidas ambientais". É bom que se diga que a clausura da empresa não tinha nada a ver com meio ambiente, mas com preços reajustados em 4,2%. De um sonoro "não compre nem uma lata de óleo da empresa", o macho de fôlego-curto porteño orçou a liberação da empresa em um módico suborno de US$ 60 milhões. Isto não me parece objetivo nem tática comunista, mas caudilhismo puro. Houve aí uma moeda de troca bem visível em que o estado surrupiou os ativos da empresa para depois barganhar sua devolução. Diferente de uma estatização geral comunista, o que vimos foi mais uma excrescência latino-americana onde contratos e propriedade não valem nada.

Querem apostar que o saldo final da ação de grupelhos esquerdistas que querem reestatizar a Vale do Rio Doce redundará em uma "saída de consenso", na qual a empresa será obrigada a pagar mais por sua atuação? Esta não é uma nova forma de arranjo produtivo, é apenas o típico despotismo do cone sul. Por outro lado, no Brasil, antes de um setor produtivo se firmar, como é o caso da infra-estrutura, a empresa privada é incentivada a ampliar sua presença. É o caso das estradas que podem ter mais concessões à iniciativa privada. Onde está o comunismo aí? Nosso risco real é de uma "mexicanização política", com um partido se sustentando por décadas através do puro fisiologismo na criação de dezenas de milhares de cargos comissionados. Este aparelhamento do estado brasileiro, seguido igualmente em esferas estaduais e municipais visa tornar a máquina pública um mero instrumento partidário.

Esse negócio de Foro está fora de foco. Pois o que se vê são ações parciais, ora estatizantes, ora tributaristas, ora liberalizantes às vezes dentro de um mesmo país. O que importa é arrecadar, arrecadar e arrecadar e quando não há capital constituído se incentiva o mesmo para depois, quem sabe, lesa-lo. Isto vem de antes de qualquer Foro, isto vem de Vargas, Peróns i tutti quanti.

Mas, agora que o influente jornalista Ali Kamel comentou a manipulação político-ideológica nos livros didáticos, muitos setores que acusam as teorias conspiratórias têm sua prova. Embora o jornalista, sabiamente, rejeite a formulação conspiratória no inicio de seu texto, muitos dos que leram, interpretaram o que quiseram. Há tempos venho afirmando isto em relação às provas de vestibular, assim como outros antes de mim em relação à educação de uma forma geral. Doutrinação esquerdista nas escolas não têm a ver com um plano, uma conspiração bem montada que só agora se revela. Veio bem antes de qualquer Foro, assim como leis ambientais não são fruto de uma conspiração de ONGs estrangeiras e da ONU para formatar um governo mundial antinacional. Algumas de nossas leis de preservação ambiental foram criadas durante o regime militar. O Código Florestal, por exemplo, data de 1965, ora bolas! Vão me dizer agora que os militares brasileiros também eram comunistas?

Há quem atribua a Gramsci a autoria desta estratégia. Isto é ingênuo. É puro delírio atribuir ao preso político do fascismo, um plano que está em plena execução na América Latina. Alguém aí já leu Gramsci? Eu li A Questão Meridional sobre o Mezzogiorno italiano, muito referenciado por "geógrafos" para "entender" o Nordeste. Fora deste círculo, nas "Ciências Sociais", o livro passa desapercebido. Se há algum "mérito" em Gramsci é ter analisado a esfera política como portadora de uma "autonomia relativa", como não o fez Marx devido a sua carga teórica economicista.

Outra é dizer que FHC é especialista em Gramsci… Bem, se for tão "especializado" como foi em suas teorias sobre o desenvolvimento feitas para a Cepal, isto não significa muita coisa. Mais uma: "Marilena Chauí é a intelectual que embasa o PT". Lendo a professora de filosofia, eu apenas vejo uma caroneira em defesa do partido, nada mais. Seus argumentos não chegam nem a ser um escorregadio wishful thinking, de tão toscas que são suas tentativas de justificar as falcatruas petistas. Isto não quer dizer nada, o que diz algo é o que acontece. Por exemplo, o Chile não destruindo reformas via Pinochet, Colômbia em rota de colisão com uma Venezuela (já dividida internamente)… A América Latina se explica mais pelo que conhecemos, o caudilhismo (travestido de comunismo com nova roupagem chavista) que qualquer outra coisa.

Atualmente, o Chile da "esquerdista" Bachelet está prestes a integrar o grupo Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e intensificar políticas liberalizantes no comercio externo. Alguma coisa não bate... Depois que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) foi derrotado pelo Partido da Ação Nacional (PAN) no México, alegaram que o país estava se submetendo ao Consenso de Washington em reformas liberais. Mas, agora o mesmo PAN propõe um novo imposto de 5,5% aos combustíveis a partir do ano que vem. Alguma coisa não bate de novo. Isto é América Latina, onde o estado sempre se antepôs à sociedade. Não há liberalismo strictu sensu por que não há movimentos antiestatistas legítimos. Em que medida um PL é liberal? Em que medida o PSDB traçou política social-democrata? Nada, nada e nada. São somente rótulos. E mesmo os que se dizem liberais, ao tomar o estado se vêem premidos por uma crise de governabilidade devido à falta de fundos carcomidos pela burocracia. Comunismo? Não, parasitismo mesmo.

Imagine se o PT (no governo federal) vai querer estatizar, ao invés de, simplesmente, tributar mais. A segunda opção é muito mais eficaz para seu roubo institucionalizado. Ao invés de pôr os brasileiros a trabalhar para o estado, apenas se toma o fruto do trabalho criado sob a égide produtiva do setor privado. Quer melhor do que isto? Vejo o que acontece e não o que direita e a esquerda dizem que vai acontecer. Hoje, o Brasil "apenas" exagera seus vícios de longa data que, aliás, não deixaram de existir em plena ditadura militar. Durante o período, estes apenas foram mais centralizados.

Voltando à manipulação na educação... A maioria dos estudantes não engole nenhum lixo didático denominado "livro", como o descrito por Kamel. A maioria não engole nada. Nos áureos tempos do comunismo, o materialismo histórico e dialético era ensinado como educação moral e cívica no extinto paquiderme soviético: os estudantes saíam aliviados das salas de aula por mais uma sessão de tortura mental encerrada. Nada além disto.

Acho engraçado quando alegam que os professores universitários, notadamente da USP terem lido Gramsci, seria uma prova incontestável de seus intentos manipulatórios. Ainda bem que eles, professores da USP, leram Gramsci, pois é obrigação de um politicólogo ou sociólogo conhecê-lo. Eu também li. Vai ver que é por isso então que estou argumentando em contrário: fui infectado!

Em Maquiavel, a Política e o Estado Moderno, Gramsci nada mais faz do que tentar justificar Maquiavel para os marxistas. O que faz mal, pois para Maquiavel o fim justificava os meios e para marxistas, em geral, o método tem que ser "dialético" (entre aspas, por favor).

O que explica a realidade não é, nunca foi e nunca vai ser um medíocre como Gramsci. É Maquiavel quem explica. Por isto gosto de maquiavelistas (o que difere do simples adjetivo "maquiavélico"), aquela linha da ciência política que, realmente, objetiva a pesquisa percebendo formas de dominação em qualquer estrutura política. Nos dando, assim, a chance de escolher a "menos pior".

A educação marxista não foi casual, o que não quer dizer que foi "arquitetada". Ela se deu porque é mais facilmente digerível. Tem uma "lógica" própria onde "tudo se explica". Desobriga o sujeito a pensar muito. Como disse Popper, uma vez que a coisa toda parecia ser científica até mesmo, cientistas fora do circuito das humanidades (biologia etc.), se diziam "marxistas".

Portanto, nada de estratégia como se a educação fosse um detalhe de um plano maior de domínio. Ela antecedeu tudo isto. E hoje, tudo o que resta é uma acrobacia teórica para tentar justificar fenômenos familiares como a corrupção, patrimonialismo, nepotismo, fisiologismo como "de esquerda" enquanto que são apenas, tipicamente, brasileiros.

Não creio em Marx satanista. Não creio nos custos justificáveis de atentados forjados para se ativar uma operação militar. Não creio em congregações de chefes de estados-pária como tendo sinergia geopolítica. Não creio em um polvo chamado "ONU" e seus tentáculos de ONGs. Não creio na organização inteligente do professorado, esta classe que vê educação apenas como um reflexo de seus contra-cheques. Não creio na perspicácia e articulação de tantos agentes com interesses díspares que são facilmente cooptáveis, seja por um cargo de confiança, seja pelo sinal de crédito fácil a título de saneamento ambiental. Não creio em nada, apenas creio que muita gente precisa acreditar nisto tudo.

Tais crenças não são coisas antigas e datadas. São elementos bem atuais, assim como a aspirina, com a diferença de que a necessidade de explicar o mundo com urgência nos trai. Caros crentes, vocês não têm nada a temer, o mundo cético e empirista não triunfará. Vocês têm o mundo em sua imaginação.

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* Agradeço a André Balsalobre as dicas sobre a situação geopolítica envolvendo os Estados Unidos no contexto pré-2ª Guerra do Golfo e durante o decurso das operações.

Sábado, 15 Setembro 2007 21:00

O Troco

Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral.

Um dia normal da vida de um brasileiro. João vai ao banco sacar dois valores em separado para prestação de contas a terceiros. Explica o porquê à operadora e pede que seja o valor exato. Como se trata de uma associação de moradores, uma entidade pública sem fins lucrativos, mas que pode receber incentivo municipal há muitos inimigos. Sempre os há, quando se envolve com dinheiro. A funcionária do banco estadual pergunta se são necessários os centavos restantes (embora, o cliente já tivesse avisado que sim). Como a resposta foi afirmativa, lá vai a funcionária mal humorada recolher dois centavos que faltavam. Não encontrando, lhe forneceu dez centavos. Ao agradecer pelo gesto de boa vontade num país onde obrigação é interpretada como "favor", o rapaz guarda seus centavos e o rosto em desaprovação da funcionária.

Ao sair devagar, algum funcionário interpela a moça do caixa com dinheiro trocado ao que ela responde para ser bem ouvida "já dei dez centavos para ele!".

O que temos aqui, um erro repetido: a indisposição ao dar o valor exato e a entrega de valor excedente como se não fosse importante, como se a contabilidade de centavos inexata fosse supérflua ou incongruente. "Como eu não dou valor para o que dou a mais, como tu podes me exigir dois centavos?" É o que faltava ser dito para coroar a situação.

Mas, não termina aí. Ao sair da agência, um outro cliente ironiza a situação perante o detector de metais: "não tem revólver aqui na bolsa, não!" Se sofrem assaltos é incompetência da segurança. Pouco importa se para obter segurança, todos tenham que tomar medidas de… segurança! Isto é lógica, mas o que é a lógica senão um detalhe neste país?

A comparação com outro país é inevitável. Certa vez quando estive na Austrália fiquei admirado no supermercado. Como recém chegado tinha dinheiro grosso nos bolsos para qualquer eventualidade no outback e, ao trocá-lo no caixa, a atendente ergueu um saco cheio de moedas para me dar o valor exato do troco. Sem reclamações.

Claro que isto não deveria ser comum. A maioria das pessoas deveria sair com dinheiro picado para facilitar as compras, mas um dia na vida teve que trocar pela primeira vez. A situação normal, embora de baixa freqüência é respeitada como uma casualidade.

Não sei se eu que entendo tudo errado ou este país é que não tem lógica. E esta maneira de pensar faz com que se interprete errado, pequenos atos cotidianos ou até mesmo outros, com reflexos de maior envergadura na política nacional:

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse nesta quinta-feira que encomendou a confecção 78 broches com a inscrição: "eu sou 35″. A frase é uma referência ao placar da votação secreta de ontem, que absolveu o presidente do Senado, Renan Calheiros, no processo por quebra de decoro. Renan teve 40 votos pela absolvição, 35 pela cassação e seis senadores se abstiveram.

"Mandei fazer 78 bottons [broches] porque sei que o Renan, o Wellington Salgado [PMDB-MG] e o Almeida Lima [PMDB-SE] não vão mudar de opinião até o final da terceira representação. Já os outros que votaram contra e ou se abstiveram, quem sabe [mudem de opinião]", afirmou Cristovam.

"Cristovam encomenda broches 'eu sou 35′ para senadores que votaram pela cassação." Folha Online, 13/09/2007.

Ainda aturdido pelo que ouvira no rádio, minha mulher logo sacou a malandragem. Se tratasse de distinguir realmente quem votou pela cassação deveriam ser confeccionados apenas 35 broches! Se fosse para mudar a opinião dos que importam, excetuando os três mencionados pelo senador do PDT, deveriam ser 75 broches, no máximo. E, por fim, se fosse para angariar apoio de todos que votaram contra ou se abstiveram, deveriam ser 81, pois foram seis senadores petistas que optaram pela abstenção.

Eu não duvido que senadores, premidos pelo espírito corporativista, dêem uma de malandro para bancar bons moços protegendo colegas de alguma retaliação popular, mesmo que meramente moral. Mas, o jornalista que relatou esta notícia o fez pensando por vias totalmente tortas.

Diferente do que poderiam pensar, não vejo nisto uma conspiração, mas um sintoma. Como disse o Janer Cristaldo, "Renan fez ameaças explícitas (…) e explicam em parte o veredito do Congresso". Só a lei do silêncio explica o comportamento da elite política brasileira. Por outro lado, querer algo mais de um Congresso que já teve chances de incriminar nosso presidente e não o fez é ingenuidade.

Bem, com este exemplo, muitos diriam, o povo age da mesma forma… Não penso assim. O que se apresenta regularmente para nós e que, proporcionalmente, negamos como se fosse uma ilusão óptica é que o Congresso nada mais é do que um reflexo do cotidiano do brasileiro em sociedade.

Este é nosso troco pela falta de moedas, que vêm com juros altos.

Solução? Só com choque cultural, "globalização de gente"… Ou se muda a cultura, ao menos parcialmente, já que "pacote completo" não se compra nestes casos ou estamos fadados a uma dívida sem consciência.

Quarta, 08 Agosto 2007 21:00

Uma Questão de Ponto de Vista

Cheguei a ouvir que os atletas cubanos obrigados a voltar para casa pela ditadura castrista foram, na verdade, expulsos pela administração do PAN em benefício do Brasil!
Shhhhhh... Take a look in these eyes
Do they look sincere?. Do you read my lips
Do I make it clear? Bye bye so long,
I don't want you here...

Yeah, I tried to share your points of view
If not all then maybe just a few
I couldn't win on a compromise
I'd rather loose on my own
'Coz I feel kind of good when I'm all alone
And if I take a stand it'll be my own
Get out of my heart.
And my mind..
And my home...
Point Of View, D.A.D.

 

Os pontos de vista mudam assustadoramente, conforme o objeto avaliado. Em 1975 na Irlanda do Norte, grupos armados que chamaríamos perfeitamente de terroristas nos dias atuais, entraram em choque sem ter como alvo forças armadas britânicas, mas a população civil. Mataram mais do que os atentados à bomba em anos anteriores, mas dependendo do ponto de vista, eram “paladinos da liberdade” contra a opressão e o imperialismo. É difícil compreender uma cisão religiosa entre católicos e protestantes no século XX, em plena Europa Ocidental, mas ela existiu.
 
Organizações trabalhistas, sindicais costumam expressar apoio mútuo mundo afora, independente das condições políticas e sociais que vigorem em cada lugar específico. O único governo constitucional que contou com o apoio católico e protestante na Irlanda do Norte foi derrubado por uma greve do funcionalismo desencadeada pelo Conselho dos Trabalhadores do Ulster (UWC) em 1974. Mas, quem hoje em Hollywood se lembra de fazer um filme com alguma pobre família sendo vítima da ação sindical? Ora, sindicatos defendem o trabalhador, não é o que dizem? Se ajudaram a acirrar ânimos e disputas religiosas alhures é só um detalhe...
 
Nos anos seguintes, a guerrilha (ou seriam os terroristas?) católica e protestante continuou atacando civis indefesos de ambos os lados. O objetivo não pode ser limitado ao temor e terror trazido aos habitantes de pequenos vilarejos. Ele tem um subproduto desejável: a simpatia popular. Isto não diz respeito somente a conflitos religiosos. Diz respeito a qualquer movimento de massas em que a racionalidade não é prioridade. Quem ainda espera pela Razão não entendeu por que fenômenos bizarros como o Nazismo cresceram. Analogamente, seguindo o mesmo princípio, quando torcedores brasileiros no Pan gritam “Osama, Osama estão manifestando o quê? Algo equivalente seria uma partida nos EUA com sua torcida gritando “TAM, TAM, TAM”. Simpático, agora?
 
Objetivos pressupõem racionalidade, mas os métodos contam com forte ingrediente de irracionalismo de massas. Mesmo que uma guerrilha rural não atinja diretamente seu objetivo explícito, ela atinge outro, tácito, o de bloquear as atividades produtivas do país trazendo um clima de ingovernabilidade. Foi assim na China de 1940, no Vietnã, no Camboja etc., o que não se atingiu na Malásia ou nas Filipinas graças à eficácia da administração civil. Não é a toa que estes são países que ingressaram antes no clube dos “tigres”, industrializados e exportadores. A China e o Vietnã também o fariam, só que bem mais tarde e, o paupérrimo Camboja só recentemente saiu de um mar de disputas entre guerrilhas.
 
Qual o clima político brasileiro, latino-americano em geral? Manifestações estúpidas e erráticas de uma torcida que “queima seu filme” para as Olimpíadas são, em parte, reflexo de uma administração que serve como espelho da sociedade. Não fosse por isto, como reeleger um governo claramente corrupto? Enquanto que teóricos da conspiração temem por nossa Amazônia, se esquecem do velho e presente inimigo interno. São minorias como o MST, como o MTST, como o MAB quem ganham terreno. Sim são minorias, mas são minorias que encontram eco em uma maioria apática. Desiludidos com as instituições se agarram no primeiro tronco flutuando em meio à inundação. Para onde vai? Provavelmente desaguar e ficar a deriva.
 
Em uma situação de ingovernabilidade, quem ganha apoio é porque mostra um mínimo de organização. Esta é a situação do crime organizado. E o comércio ilegal de armas apresenta sinergia com o tráfico de drogas, embora nossas autoridades até bem pouco tempo atrás o negassem. Se não há apoio interno, se busca fora. Este foi o caso do apoio externo a MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), a FNLA (Frente Nacional para a Libertação de Angola) e a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola). Quem ganhasse, teria Moscou ou Washington, alguma capital européia ou Havana como aliada. Quando ouvirem falar em “guerras de libertação nacional” não estamos à frente de libertação alguma, quando lerem “República Democrática Alguma Coisa” é porque não se trata de democrática coisíssima nenhuma. E la nave va...
 
Tome as rédeas porque se não o fizer, outros o farão. Quando o governo indiano apoiou a independência de Bengala Oriental em 1971 (atual Bangladesh), o Paquistão acusou a Índia de intromissão e expansionismo, mas para os bengalis era uma luta justa. Ambas justificativas eram verdadeiras, mas cada lado enfatiza o seu ponto de vista, somente isto. O que mudou foi à utilização, mais maquiavélica, do apoio interno, pois ao invés de ocupar regularmente a região, a Índia fez uma ocupação “homeopática” só na medida que seus simpatizantes bengalis assim necessitavam para suprimir a oposição. Esse negócio de exército regular é mantido por poucos. Os EUA de George Walker Bush são um dos que estão na contramão da moderna estratégia geopolítica.
 
Para estudantes estrangeiros na Europa, como os que facilitaram a entrada e estadia de terroristas palestinos na Alemanha em 1972, o Welfare State contava menos que o Pan-Arabismo. E se fosse hoje, qual seria a reação? Consternação ou simpatia, ainda que parcial? É notório como a percepção acerca de um fenômeno social pode mudar ligeira ou amplamente no espaço e no tempo. Obviamente que a mídia, enquanto meio de expressão tem um papel nisto. O antiamericanismo, antiocidentalismo, anticapitalismo e tuti quantti têm um peso considerável nisto tudo. Terroristas ontem, “guerreiros da liberdade” hoje. Ou o contrário, em Rambo III, o personagem de Sylvester Stallone luta ao lado dos mujahedin contra os soviéticos em defesa da Liberdade. Após o 11 de Setembro, os EUA ao lado das forças do norte do Afeganistão atacaram uma facção dos tais guerreiros que formaram uma tal de Talebã.[1]
 
Não se trata de uma massa amorfa e alienada pelo capitalismo, como poderiam afirmar Marx ou Bento XVI, mas principalmente de quem detém uma visão sobre o quê. Para os ultradireitistas, é sempre o comunismo internacional financiando as guerrilhas e o terrorismo, para a extrema-esquerda, a CIA está por trás de tudo, inclusive do atentado às Torres Gêmeas! Loucos e fanáticos não são vistos como o que são, loucos e fanáticos, mas como “manipulados” por forças ocultas, insondáveis. Se tais forças existem e têm atuação espasmódica, isto ocorre por que o caldo de cultura já existe. Mas, querer crer na onipotência de tais organizações secretas é demais. Elas seriam poderosas porque ocultas, secretas e tão, mas tão “insondáveis” que muitas das teorias conspiratórias andam totalmente explicadas pela internet...
 
Quais são os critérios morais que deveriam ser adotados? Deveriam ser supra-políticos, além de qualquer marco ideológico, no mínimo, mas não é isto que ocorre. Assim como muitos irlandeses viam o IRA como um bando de assassinos, outros descendentes de irlandeses na América viam-nos como bons garotos. Há aqueles que condenam Fidel, mas absolvem Pinochet e vice-versa. A violência e, no caso, a violência de estado se torna apenas um expediente, para se atingir um determinado fim. O “fim”, o objetivo último tudo absolve, tal qual a miragem de água numa estrada tórrida, que quanto mais nos aproximamos ela ressurge dezenas de metros adiante.
 
Mas, não é tão simples assim. O governo fantoche de Vichy na França tinha oposição sistemática de jovens guerrilheiros que não se renderam ao nazismo, que matavam o inimigo na clandestinidade. Seus métodos eram... Terroristas? Para os alemães na II Guerra, com certeza. Para franceses e ingleses, heróis. Dependendo do ponto de vista eram legítimos, se tomarmos “legitimidade” como uma manifestação de descontentamento frente um exército invasor.
 
E o separatismo? Acho que estamos de acordo que a Noruega ostenta elevadíssimo padrão de vida (muito antes do gás explorado no Mar do Norte), mas quem se disporia a apoiar sua separação da Suécia em 1905, exceto pelos próprios noruegueses? O mesmo não valeria para os sulistas norte-americanos em 1861 antes da Guerra de Secessão? Por que não? Iriam ficar mais pobres, valeu a manutenção da União... São argumentos ex post, não havia como saber à época. O interessante aqui é que alguns que responderiam afirmativamente em um caso, não o fariam em outro. O argumento moral se torna refém da política e nós o adotamos a todo o momento.
 
Se um movimento tem raízes populares, alguns podem argumentar que é, para o bem ou para o mal, legítimo. Mas, quando seus métodos consistem em difundir o terror a milhares ou milhões? E quando a extorsão através de seqüestros é tão freqüente e rotineira que se torna um fim em si mesmo?
 
Mas, que importa isto tudo? Há questões que são unânimes, como quando repudiamos atitudes autoritárias. Cheguei a ouvir que os atletas cubanos obrigados a voltar para casa pela ditadura castrista foram, na verdade, expulsos pela administração do PAN em benefício do Brasil! Há justificativas para todos os gostos... Fanatismo ideológico, teorias conspiratórias são, afinal, detalhes que embasam as percepções.
 
A conta-gotas, homeopaticamente, nos acostumamos ao terror e à tragédia. Terrorismo aqui? “Viagem”... PCC? Não chega a ser... Tragédia nos meios de transporte? Só se for em uma aeronave que não consegue frear, pois mais de 680 morreram só nas estradas federais em pouco mais de um mês e não nos indignamos de tão anestesiados que estamos pela loucura cotidiana. Tudo não passa de uma questão de ponto de vista. Se a violência for dada em doses homeopáticas, tudo bem.
 
Um bom acordo, diz o ditado, é aquele em que nenhuma das partes sai 100% satisfeita. Existe o preço do vendedor, o preço do comprador e o preço justo... Não. O que existe é o preço de mercado. É com a expansão do mercado e sua lógica concorrencial que as partes se tornam mutuamente dependentes e as guerras, paulatinamente, se tornam antieconômicas. No mercado interno e externo, as tragédias aéreas, terrestres diminuem. As empresas têm o ônus de investir segundo prioridades e, obviamente, a segurança virá em primeiro lugar sobre a estética de rodoviárias, portos e aeroportos que trazem uma vaga sensação de ordem e desempenho político.
 
No mercado político, os governos têm que se ater a políticas de estado. Se este têm o monopólio legítimo da violência, como já disse alguém, também têm a obrigação compactuada com segurança sobre a segurança, isto é, sua fiscalização. Trata-se de mais um ponto de vista, mas um ponto de vista baseado em custos e benefícios, não em uma miragem ou proselitismo político-partidário.


[1] Nem todo guerreiro anti-soviético constitui, necessariamente, o governo fundamentalista talebã. E nem os EUA poderiam adivinhar que parte deles, que foi financiada e apoiada para resistir ao avanço da URSS (tal qual fez a mesma contra os americanos no Vietnã) se tornaria um foco antiamericanista. Mais do que um movimento religioso, os talebãs tiveram origem e apoio no principal grupo étnico afegão, os patans
Quinta, 19 Julho 2007 21:00

Êta, nóis!

“Diga não a venda do etanol! O etanol é nosso.” É só o que falta ouvirmos sobre este combustível e sobre a possibilidade de efetuarmos um acordo com os EUA que contemple a maioria dos interessados. “Segredo nacional” que não pode ser dividido com os gringos, dizem os protecionistas que já perderam o bonde da história.
Não faz absolutamente nenhum sentido. É loucura, e definitivamente não é do interesse dos consumidores.
                                              Arnold Schwarzenegger, governador da Califórnia sobre o subsídio americano ao etanol doméstico.
 
 
“Diga não a venda do etanol! O etanol é nosso.” É só o que falta ouvirmos sobre este combustível e sobre a possibilidade de efetuarmos um acordo com os EUA que contemple a maioria dos interessados. “Segredo nacional” que não pode ser dividido com os gringos, dizem os protecionistas que já perderam o bonde da história. Quem expropria a riqueza nacional não é o comércio externo, mas o próprio estado através de seus tributos acachapantes. A carga tributária incluída na energia corresponde a 43,7% em média da conta paga pelos consumidores. Se as estatais que controlam a produção energética no país não abrem seu capital para investimentos, qual afluxo de capital pode ser garantido? É da governança corporativa e da transparência, que fogem as estatais.
 
Por outro lado, a obtenção de licenças ambientais, no caso as prévias que não garantem a licença de operação, podem levar até dois anos. Isto muito embora o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) preveja sua obtenção em, no máximo, 12 meses. Estes são alguns obstáculos reais, ameaças reais ao nosso desenvolvimento e não um paranóico “interesse externo”. Quem dera houvesse mais e mais interessados em produzir e comprar o que é nosso.
 
Planejamento também parece ser uma palavra ausente no dicionário de nossos ministérios. Contar com a alta do preço do petróleo para o sucesso do etanol é, no mínimo, medíocre. A perspectiva tem que ser outra, a do rebaixamento dos custos de produção. Nunca é demais lembrar que se para uma OPEP as reservas de petróleo estão “sempre em vias de se esgotar”, esta mentira que tem um propósito definido, o de inflacionar o preço do barril. Para a Agência Internacional de Energia (AIE) se estima a oferta do óleo para, pelo menos, mais um século.[1] O problema envolvendo o petróleo não é de oferta, nem tecnologia, mas sim político regional. São os conflitos e guerras locais que tendem a manter a oferta reduzida. Sempre que se falou que um poço tem capacidade para mais dez anos, ele acabou produzindo por mais algumas décadas.
 
Por outro lado, uma vertente crítica acusa a produção de etanol como causa da inflação do preço dos grãos. Como sempre, é a retrógrada ONU, com suas agências como a FAO e a OCDE, cujas premissas protecionistas e sedução tarifária enfatizaram em relatório um aspecto decorrente da produção. Esta maneira de analisar a realidade é singular: isola-se um setor econômico dos outros, se analisa o reflexo da produção de etanol no preço dos alimentos sem considerar os reflexos na produção em regiões que serão incorporadas à fronteira agrícola como produtoras, nem no campo do emprego que será largamente beneficiado pela estruturação de toda uma cadeia produtiva. Aspectos positivos para que? São “irrelevantes”... Não se os analisa porque afetam pouco os aspectos negativos ou porque o saldo final seria positivo? Silêncio, a ONU, a OCDE e o livro do destino se fecham para nós.
 
Mas, seu custo não se compara ao atual do petróleo. Se há algo que onera a qualidade de vida dos consumidores no mundo, é a escassez energética e no Brasil, o peso do estado. Se os Estados Unidos desejam reconstruir sua matriz produtora de energia, mesmo que parcialmente, aí está uma “égua selada passando debaixo de nossos narizes”. É uma oportunidade única que, independente de quem quer que seja que esteja no nosso governo, não podemos desperdiçar. O preço dos alimentos aumentará? So what? Isto é temporário, pois criará uma demanda que induzirá outras regiões a produzirem alimentos, redistribuindo oportunidades de produção para outras regiões no mundo. Ao final das contas, a maioria ganha e a minoria acomodada terá que se adaptar. Capitalismo sem crises e reestruturação não é capitalismo. Ao final das contas, isto é que torna este sistema tão criativo e dinâmico.
 
Imagine se, realmente, os Estados Unidos conseguirem reduzir sua dependência de petróleo em 20% em dez anos, como quer George W. Bush? Nada melhor para tirarmos a vaca do brejo, seríamos uma espécie de Arábia Saudita tropical, com o benefício de não termos como subproduto, as brigas pelo monopólio da produção que existem entre as oligarquias árabes.
 
E seria uma miopia se vislumbrássemos apenas os EUA. No rico interior paulista, japoneses projetam a construção de mais de 40 destilarias para a produção de combustível para exportação. Negociar com gringo inclui o respeito aos contratos, diferente do que se viu com o “império inca” recentemente. Qual o problema disso? Negociar com “líder bolivariano” implica em se sujeitar às mudanças nas regras do jogo no meio do campeonato. Deve ser efeito da altitude... O que estes novos caudilhos latino-americanos não percebem é que há um grande leque de opções energéticas, dentre as quais a nuclear é a grande vedete e outras, como a eólica têm crescido em demanda.
 
O Brasil já suplantou os EUA como maior exportador de soja. Já atingiu a primeira colocação na produção de carne bovina e agora tem a possibilidade de dobrar sua produção de cana de açúcar. Não nos deixemos levar pelo pessimismo que, confundindo política de estado com governo, nos leva a uma oposição infantil ao etanol só porque parte de um governo do qual podemos discordar em outros (vários) quesitos. O que o Brasil deve ter em mente é que tem, momentaneamente, a faca e o queijo nas mãos. Mas, só por enquanto... Assim como a China fez com as suas Zonas Econômicas Especiais atraindo capitais do mundo inteiro e oferecendo mão de obra barata e desburocratização, o Brasil deveria fazer de modo similar aproveitando-se de sua tecnologia no setor, infra-estrutura (a desenvolver) e fatores naturais favoráveis como o maior período de insolação, por exemplo. Mas, se ficarmos “de frescura” discutindo a “essência do colonialismo agrário” ou qualquer outra bobagem, nos suplantarão fácil, fácil. Vários produtores mundiais estão se adiantando neste quesito e não será por falta de diligência que pecarão. A própria China prepara seu zoneamento agrícola para alavancar a produção de etanol nacional.[2] Se houver sinal de vida inteligente no Planalto, acordos de transferência de tecnologia deverão ser implementados. Mas, “sentar em cima da mina”, como se fazia nos anos 60 e 70 com a exportação de minérios obrigando que cada empresa portasse capital nacional majoritário, só deslocará investimentos e produção para outras paragens.
 
Não só a China, mas também, quem sempre joga para ganhar está mudando a face de parte de sua paisagem rural. O estado do Iowa, por exemplo, não está beneficiando apenas os produtores locais. Já há centenas de pequenos investidores, e outras de porte como a John Deere. Ao invés de tributar “atividades poluidoras”, Washington enxergou nisto a possibilidade de reduzir poluentes gerando mais empregos. E que o Brasil apresenta como vantagem? Solos, clima, mão de obra? Na verdade, uma combinação que faz com que nossa produção tenha metade dos custos da UE e 2/3 nos EUA.
 
Temos mais algumas vantagens. O subsídio ao etanol doméstico pelos EUA é insano, como diz o “governator” Arnold Schwarzenegger. A produção deles é próxima da nossa, mas diferentemente, sua demanda é muito maior. Enquanto que alguns de nossos obstáculos são emissões de “selos verdes” para produção ambientalmente sustentável, de acordo com normas ambientais brasileiras e européias, a produção americana tem reflexos no preço do milho que é sua matéria-prima para etanol e está na base de sua dieta. Há ainda algumas vantagens ambientais, pouco comentadas aqui, como subproduto do bagaço de cana, ainda é possível produzir biocombustível do lixo urbano. E, dá um gostinho especial saber que no longo prazo, os governos que usam e abusam de seus estoques de hidrocarbonetos, como a Bolívia de Morales, o Irã de Ahmadinejad, a Rússia de Putin, a Venezuela de Chávez terão seu poder de barganha diminuído.
 
O problema brasileiro fundamental é outro. A Bahia apresenta excelentes condições para a produção, mas a falta de infra-estrutura e logística, obriga a trazer 80% do álcool consumido de estados vizinhos. E, pior do que isto, sempre cabe a lembrança de que o que traz benefícios ao Brasil a partir do exterior, nem sempre é devidamente aplicado no mercado interno. Não devido a torpe visão terceiro-mundista de que adquirimos “dependência” com a globalização, mas sim porque, internamente, há sempre um “atravessador” que monopoliza tradicionalmente a produção. Seu nome: Petrobras. É a ela que devemos temer. Imagine os estoques de etanol sendo controlados por esta empresa. Alguém duvida que os preços não seguirão sua lógica monopolista ou sofrerão manipulação política?
 
O que falta aos críticos do etanol é perceber que este não será a salvação na substituição do petróleo (longe disto), nem o fruto maldito (através de um suposto neocolonialismo), mas uma entre tantas das formas de se produzir energia. Tal como na globalização se obtém alternativas de comercializar com diversos parceiros, as diferentes fontes energéticas somadas, diversificam a matriz energética retendo altas ou até reduzindo seus custos. A baliza que temos que adotar é o interesse dos consumidores. Isto serve tanto a nós brasileiros, quanto a qualquer povo. Mais do que do interesse de grupos específicos alojados em setores específicos, o planejamento estatal tem que visar a demanda do mercado. É nela que deve residir o foco para contratos e políticas.
 
 
 


[1] “ ‘Todo dia surgem notícias de que as reservas têm um limite ou que são muito maiores do que se imagina. Não parece ser isso que vai definir por quanto tempo vamos usar o petróleo’, argumenta o professor Celso Lemme, do Instituto Coppead de Administração da UFRJ. O que deve determinar até quando o petróleo será utilizado é a velocidade com que os combustíveis alternativos ganharão competitividade no mercado – vale dizer, escala e preços compensadores.” (http://amanha.terra.com.br/edicoes/232/capa01.asp). [voltar]
 
[2] “Mas a introdução do biocombustível não será tão fácil como os próprios chineses esperavam. ‘Fizemos estudos e notamos que não podemos simplesmente passar a produzir no campo matéria-prima para combustível sem ver o impacto que isso poderá ter no fornecimento de alimentos. Com 1,3 bilhão de pessoas, nosso equilíbrio entre terras destinadas ao cultivo de alimentos e garantir que a fome não aumente é algo fundamental’ (...) Segundo o chinês, a falta de terras aráveis na China é um sério obstáculo para o etanol.” (Jamil Chade) Newsletter diária n.º 992 - 09/07/2007 - http://amanha.terra.com.br/. Esta dificuldade alheia deveria ser aproveitada por nós. Até onde nosso Itamaraty enxerga, em termos de visão estratégica, eu não sei, mas se isto não se contempla e, por contraposição, se visa reforçar laços com governos decrépitos como os de Chávez e Morales é alarmante. [voltar]
 
Se preparem, com este calor extemporâneo, logo, logo teremos tempestades, vendavais e, como subproduto, aparecerão os profetas do apocalipse chamando a atenção para mais uma “prova” do aquecimento global com mais bobagens lançadas ao vento como a última palavra em ciência. Mas, como se obtém “provas” neste âmbito?
Se preparem, com este calor extemporâneo, logo, logo teremos tempestades, vendavais e, como subproduto, aparecerão os profetas do apocalipse chamando a atenção para mais uma “prova” do aquecimento global com mais bobagens lançadas ao vento como a última palavra em ciência. Mas, como se obtém “provas” neste âmbito?
 
A EXXON pode financiar uma pesquisa sobre mudanças climáticas? Ela teria “isenção”, ou melhor, o pesquisador pago por ela teria tal traço sobre-humano em sua personalidade? Não, mas isto não impede que a pesquisa tenha papel relevante e objetividade... Uma grande empresa petrolífera, realmente, é parte interessada em justificar sua atividade como não agressora do meio ambiente e, por extensão, não influente em qualquer mudança climática, atualmente mal vista. Mas, uma pergunta, o principal agenciador de pesquisas e divulgações sobre o alardeado aquecimento global, a ONU, através do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) tem tal isenção? A bem da verdade, quem mais recebe recursos para “provar sua verdade”?[1]
 
Vejamos por que não. A ECO-92 foi um prosseguimento da Conferência de Estocolmo de 1972, na qual o Relatório Meadows – que levou a publicação de um famoso e exagerado livro Os Limites do Crescimento – enfatizara a questão ambiental pela óptica de que os recursos naturais estavam se esgotando. Ou seja, o meio ambiente passou a fazer parte da agenda internacional, justamente através de uma preocupação eminentemente econômica. E daí, alguém poderia dizer, o que isto tem a ver com a “necessária” isenção? E eu replicaria com outra pergunta, que leitura a ONU faria disto? A mesma organização internacional que criou organismos como a Cepal, cuja teoria desenvolvimentista foi seu principal esteio teórico-metodológico não poderia deixar de assegurar que para se desenvolver, faz-se necessário economizar os ditos recursos. Agora eu pergunto, o que seria melhor, que a economia do principal recurso econômico (na década de 70 e agora no século XXI igualmente), que o petróleo fosse economizado ou que sua escassez seria bem vinda, pois já teria forçado a uma mudança da matriz energética anteriormente? Em outras palavras, tal suposta isenção só nos levou a empurrar com a barriga um problema que já era latente.
 
E não se enganem, muitos dos que falam em “ecologia” e fazem desta retórica seu ganha-pão são, na verdade, arautos tributaristas que, tal como foi a Cepal, têm no meio ambiente e na Mamãe Gaia um pretexto para sua sanha estatista. Sua prioridade não reside no avanço tecnológico, mas sim no alcance das garras estatais via aumento da tributação.
 
Agora, pensemos um pouco, Al Gore foi vice de Bill Clinton, um membro dos Democratas americanos que, tradicionalmente, têm uma visão mais próxima do Welfare State europeu, isto é, uma visão em que o estado deve atuar mais, propositivamente, dirigindo a economia. E, para tanto, ele tem que, obrigatoriamente arrecadar em maior grau. Nesta linhagem política, a “solução” passa pelas multas, sanções e impostos para daí, quem sabe, obter fundos para a resolução de impactos ambientais. Uma observação: não sou contra as multas, caso haja desrespeito com alguma lei em vigor, mas sou, obviamente, contra altas cargas tributárias permanentes que mais se assemelham a uma guerra preventiva em que nada ficou provado contra um agente econômico acusado de agressão ao meio ambiente.
 
Outra pergunta, não haveria aí, uma forte compulsão para incentivar pesquisas de cientistas que são a priori simpáticos à idéia do aquecimento global por ação antrópica, sem que a controvérsia tenha deixado de existir? Ninguém tem dúvidas sobre o mesmo, dir-se-ia... Outro engano. Há sim, muitas dúvidas...[2]
 
“Não há fatos, apenas interpretações” disse um tal Nietzsche, mas, por que não algumas observações? A premissa pós-moderna herdade do filósofo alemão serve como passaporte para que muitos releguem a busca da verdade, que desdenhem da mesma em nome de uma “vontade de poder”. Tudo não passa de um jogo, mas se dinheiro por dinheiro, recurso por recurso, ambas fontes (Petrolíferas vs. Governos) nenhuma têm isenção, então prefiro “faço ciência para saber quanto posso suportar” do não menos ilustre Weber. Seja lá qual for a fonte, o debate científico existe e deve continuar com base em regras de inquirição propriamente científicas, aquelas que procuram, sistematicamente, refutar as hipóteses mais bem aceitas. Maioria não é critério para verdade em ciência.
 
Se X recebe recursos de quem polui, isto não impede Y de questionar a pesquisa de X, óbvio. Não tão óbvio, mas igualmente legítimo, no entanto, é que X também pode questionar a pesquisa de Y, sem necessariamente focalizar os laços políticos de X (que também existem). O que deveria estar em foco é a pesquisa, não um laço, uma amizade ou uma “concha psicológica”.[3] Recebeste financiamento de algum grupo econômico? Ou de um governo interessado em abocanhar mais do esforço de meu trabalho? Não tem problema, me passe aí teu paper que quero ver se porta erros de procedimento internos a busca objetiva de alguma explicação.
 
A questão do vínculo econômico não seria, portanto, objeto do debate físico-químico sobre o suposto aquecimento global antrópico, mas sim de outro debate científico, o da sociologia da ciência. Ninguém é neutro, mas isto não serve de desculpas para a falta de coerência metodológica. Dizer que todos são parte interessada não exime ninguém de aceitar as regras do “jogo de pesquisa”, estas sim, isentas.
 
 


 
2 - Cf.: Cientistas criticam relatório do IPCC, dentre muitos outros sites, links e bibliografia a serem discutidos no momento oportuno. [voltar]
 
3 - Um psicólogo obcecado por casos de maus tratos na infância não pode ter sua pesquisa, previamente, invalidada só por que sofreu abuso sexual na infância, mas sim por que a mesma pesquisa, eventualmente, não tenha cumprido passos necessários na obtenção, objetiva, de seus resultados. Isto é, o que se critica em um debate coerente é a metodologia adotada e não os motivos (subjetivos) que levaram alguém a se interessar por seu objeto de análise. [voltar]
 
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