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Last updateDom, 01 Set 2013 9am

Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Domingo, 11 Setembro 2011 16:06

O 11 de Setembro e a Nova Ordem Mundial

Nesta linha de argumentação, a obra mais bem acabada é o “documentário” Zeitgeist dividido em três partes, as duas últimas dedicadas a definir sua tese, de que todas grandes guerras e operações militares foram e são guiadas por interesses de grandes grupos mundiais dedicados a enganar a população mundial.

Quarta, 10 Agosto 2011 08:42

Civilidade Pela Metade

A solução para o problema, além de obedecer às regras de trânsito, é colocar pedestres e ciclistas no mapa mental dos motoristas.

Terça, 17 Setembro 2013 10:23

FORO FORA DE FOCO - 1

Após o período de manifestações que sacudiram o país no mês passado, qual foi nosso saldo? Vinte centavos economizados? Brincadeira a parte, não ficou claro qual teria sido o objetivo e resultado disto tudo, sobretudo para quem não é brasileiro e um tanto orientado sobre os acontecimentos da política nacional, bem como a percepção política e ideológica de nosso país.

Segunda, 09 Setembro 2013 14:49

O VERDADEIRO NOME DO "NACIONALISMO"

Comércio é troca e se troca por vantagem. Pensar que comércio beneficia somente "alguns poucos" é falta de conhecimento.

Quarta, 06 Outubro 2010 09:00

Valor, Justiça e Democracia

Há uma fronteira tênue entre o ceticismo e a justiça. O ceticismo requer mais a dúvida que a crítica (pré-determinada) e a justiça não pode descartar a possibilidade de reversão de nosso pré-julgamento quando tivermos motivos suficientes.

Quarta, 20 Maio 2009 21:00

Enem Que a Vaca Tussa

Já se tornou um clichê dizer que se procura melhorar a ponta e não a base do sistema, o ingresso na universidade e não o fundamento de tudo, que é o ensino básico

 
Porém, dizer só isto e concluir que a escola pública é um fracasso por ser pública não serve de subsídio para se entender o que passa. As escolas técnicas federais, antigos CEFETs, atuais IFs contam com elevado nível de concorrência para ingresso do professor. Os salários iniciais com mestrado são da ordem de R$ 5.000,00. Mas, não são boas só por isto. O aluno passa por avaliação prévia, como um vestibular. É um modelo bastante antigo, dos milicos se não me engano. Aliás, na época deles, ao contrário que se diz por aí, o ensino era muito melhor...
Aqui em Florianópolis, a escola que até bem pouco tempo mais aprovava nas universidades mais concorridas (que são públicas) era a militar.
 
No entanto, esta polarização entre socialistas e liberais empobrece o debate. Perde o foco mesmo. Se mais de 600 dentre as 1.000 piores avaliadas são públicas e apenas 35 destas estão entre as 1.000 melhores há um fato inquestionável: o ensino público está péssimo. Não adianta socialistas chiarem nem brigarem com números. No máximo pode se questionar a metodologia do ranking, mas não é o que costumo ver nas listas de discussão.
 
Por outro lado, os liberais que me perdoem, mas suas análises são ridiculamente pobres. Tem que se observar os detalhes: 50% das piores entre as públicas são nordestinas. E não me venham falar em preconceito, falemos em números que estão ali. O que provoca isto? Assim como a classe média se afastou do ensino público fazendo seu nível baixar, é sintomático que exista alguma correlação entre os índices e uma dada tradição. Se não gostou, brigue com quem formulou a pesquisa, diga que o Enem não avalia nada... No que não concordo, apesar de achar o Enem fraco: a prova deixa a desejar frente outras, como a Fuvest dos anos 80, p.ex.
 
Outra questão importante é por que algumas públicas estão entre as melhores se, como dizem por aí, é “lixo”? Isto é infantilidade, torcida... Nível baixo de argumentação, tão baixo quanto as piores notas da pesquisa em debate.
 
Por outro lado, o estado é dividido em vários níveis, esferas e o que se esperaria, caso a pesquisa servisse para algo efetivo é que o exemplo destas boas escolas públicas fosse estudado e, quiçá, adotado como modelo. As boas escolas públicas são federais, distantes da formulação de diretrizes locais, municipais do ensino. Ou seja, a própria sociedade não se envolve cobrando melhoria no ensino, que por sua vez parte, infelizmente, de Brasília. O que, aliás, eu detesto admitir, mas é o que os números mostram. O que elas fazem de diferente deveria ser nosso ponto de partida para o questionamento. É só salário? Com meus 20 anos de experiência na área digo que isto, sem dúvida, pesa, mas não é tudo. "Basta aumentar os salários dos professores para que a educação melhore" é o equivalente a dizer que para acabar com a corrupção policial basta aumentar o salário... Dos policiais corruptos!
 
Agora, longe de mim dizer que temos que melhorar o ensino público para que o ensino público se universalize. Vade retro! Nada disto. O que tem que haver é a competição, e não só com o ensino privado, mas entre todos os tipos de escola. Em outras palavras, a escola pública que funciona adota o melhor das escolas privadas. O melhor das melhores escolas privadas, bem entendido. Pois, o ensino privado via de regra no Brasil também é fraco. Ridículo, para dizer a verdade. Não adianta se comparar com a miséria intelectual e disciplinar e achar que está bom, assim como não adianta olhar para a Somália e achar que o IDH brasileiro está satisfatório. Quem solta foguete em nome da empresa privada porque está melhor do que o país tem de pior não conhece o meio cultural, a administração e a prática cotidiana do que foi avaliado.
 
O Enem foi feito para nivelar por baixo. Sem ele, dificilmente, os alunos da maioria das escolas públicas teriam alguma chance de ingressar nas universidades mais concorridas. Mas, vejam bem: quem criou o Enem é um ignorante em matéria de comportamento social. Isto é, de mercado. Pois, os alunos de escolas privadas, e cursinhos, também usam o Enem. Logo, são eles que obtêm os melhores resultados. Não adianta tentar curar febre com compressas de água fria. E se for para criar cotas para estudantes de escolas públicas também é falho, pois a classe média também está colocando seus filhos nas escolas públicas para lhes garantir vaga, nem que seja só no último ano como sacrifício. Tolice de quem não é do ramo criar o Enem, tolice de quem não conhece resultados/externalidades advindas de políticas públicas mal formuladas. Conheço gente, amigos que colocam seus filhos em boas escolas públicas podendo pagar por melhores instituições ou empresas. No entanto, estão agindo racionalmente, como agentes de mercado. Ou seja, o poder público criou um sistema, a guisa de melhorar a educação que favorece quem já não precisa.
 
Já se tornou um clichê dizer que se procura melhorar a ponta e não a base do sistema, o ingresso na universidade e não o fundamento de tudo, que é o ensino básico. Mas, a raiz disto está no fato de que o burocrata do MEC não conhece porque vive imerso em ideologias advindas do que há de mais inútil: uma pedagogia da 'inclusão', como se a capacidade do aluno aprender a concorrer e desenvolver seu potencial fosse perverte-lo.
Quarta, 03 Dezembro 2008 22:00

Perene e Ingênuo

Em Elite de Assassinos (The Killer Elite, 1975) dirigido por Sam Peckinpah, assassinos profissionais são contratados para proteger político japonês ameaçado de morte. Como do lado oposto havia um antigo colega e desafeto do mercenário-protagonista, o trabalho serviria como pretexto para um acerto de contas.

 

(The Killer Elite)
 Em Elite de Assassinos (The Killer Elite, 1975) dirigido por Sam Peckinpah, assassinos profissionais são contratados para proteger político japonês ameaçado de morte. Como do lado oposto havia um antigo colega e desafeto do mercenário-protagonista, o trabalho serviria como pretexto para um acerto de contas. A certa altura, Mac (Burt Young) diz a seu comparsa Mike (James Caan) que de tão envolvido na operação, ele já não sabe mais quem é o vilão da história. Que, na realidade, nenhum sistema vale a pena, que enquanto discutem sobre “liberdade e progresso”, a vida dos civis não é levada na devida conta. Então, num arroubo realista, Mike responde:
 
- O vilão é todo mundo que tenta me machucar.

É um filme de ação interessante, pleno de diálogos com “crise de consciência”. E, muito embora seu protagonista tenha alguma razão, não se sujeita fazer qualquer trabalho por dinheiro. Tem lá sua ética... Se o vilão é quem tenta machucá-lo, ele escolhe quem quer beneficiar. É o “bom bandido”, que só existe porque tem seu oposto, o vilão vilão mesmo, George Hansen, interpretado por
Robert Duvall. Este, literalmente, não está nem aí para quaisquer considerações de ordem moral. É apenas um mercenário puro e livre no exercício de sua profissão.

Melhor do que o filme em si é interpretar o tipo de padrão que orientava o argumento das produções hollywoodianas nos anos 70. Mesmo em uma situação nebulosa, assassino contra assassino, mercenário contra mercenário se tornava possível distinguir um ‘bem’ de um ‘mal’ que, se não absolutos, existem com certo critério. A primeira vista, com olhar assumidamente anacrônico, é de surpreender a ingenuidade daquela época.
 
(Man of the Year)

Ingênuo? Então, que tal isto... Candidato Aloprado (
Man of the Year, 2006), dirigido por BarryLevinson narra história de um apresentador de talk show que chega à presidência dos EUA. Além de me ser particularmente difícil assistir um filme protagonizado pelo intragável Robin Williams, seu personagem Tom Dobbs faz um discurso, hipocritamente açucarado, no qual critica o financiamento de campanhas eleitorais e seu comprometimento com lobbistas. Preocupações como saúde, educação e meio ambiente seriam postas em segundo plano frente aos compromissos com companhias petrolíferas, químicas e farmacêuticas. Não deveriam existir “estados Democratas” ou “estados Republicanos”, mas só os Estados Unidos etc e etc.

A diferença entre os argumentos adotados pelos personagens é que, embora o filme sobre os mercenários admita que os conflitos sejam perenes, resoluções imperfeitas, mas viáveis não só são possíveis, como desejáveis. O ônus é delegado, em última instância, somente ao indivíduo em busca de soluções aos seus dilemas. No filme com Williams, o indivíduo também escolhe, mas basicamente porque a harmonia é certa e o conflito aparenta um “erro de percurso”. Para o presidente Dobbs, conflitos são acidentais e o bom senso deve nos guiar. O mal é plenamente identificável, as empresas que almejam lucros. Como se milhões de famílias atendidas e empregadas nessas estruturas produtivas fossem simples vítimas e não cúmplices ou beneficiárias de tudo que se faz.
 
Sem dúvida que o financiamento sugere compromisso, mas será que sua diversidade não permite certa autonomia para contemplar interesses, por vezes, díspares? Se uma campanha for financiada por setores agrícolas e industriais, o governo eleito teria que se equilibrar entre decidir manter subsídios aos produtores de milho, no caso do etanol americano, bem como fornecer matéria-prima barata às plantas industriais, o que poderia contradizer o compromisso anterior. Se tratasse de uma eleição na qual, os protagonistas Mike, o mercenário e Tom, o presidente estivessem em disputa em quem você votaria? Naquele que considera haver critério para definir quem está contra nós, o vilão, ou quem acha que podemos nos harmonizar sem conflito de interesses?
 
Dito de outra forma: você votaria em um mercenário com crise de consciência ou um apresentador ingênuo? Em um realista ou um pacifista? Ou ainda, em um isolacionista ou um neocon?
 
Se o critério para votarmos no personagem de Robin Williams for o “bem maior”, como é o caso da saúde, como poderíamos ir contra companhias farmacêuticas, cujos impostos cobrados mantêm o orçamento da união? Como tributarmos grandes fortunas, como propõe Barack Obama,[1] sem prejuízo aos indivíduos que se formarão na educação pública e trabalharão para estas empresas? É muito fácil quando a causa dos problemas é externalizada, quando não se assume uma réstia de responsabilidade individual.

E vejam como é possível empurrar idéias com germens totalitários como se fossem o supra-sumo do bom-mocismo: “só há um Estados Unidos...” No limite, o argumento presidencial do personagem de Man of the Year é antidemocrático. Não ocorreu ao roteirista perguntar que os estados se dividem por suas representações políticas, que estas refletem os diversos e, por vezes, divergentes interesses de civis e estados. É fácil criticar uma vaga e nebulosa entidade como os “estados” ou os “lobbistas” ou, pior ainda, o “sistema” quando esquecemos que quem demanda pelos estados, lobbies e compõem um sistema são indivíduos que pensam, agem e votam em representantes. Culpar uma abstração não passa de tentar nos eximir de nossa concreta cota de responsabilidade.
 



[1] Embora McCain se
opusesse a este tipo de tributo passou a defender o contrário após o estouro da atual crise.

 

Terça, 26 Agosto 2008 21:00

Conhecimento de Causa é Conhecimento

O desejo revolucionário no sistema de ensino não passa de uma incapacidade para pensar em reformas. Por que parte da utópica miopia de um mundo sem disciplina e sem moral.

 Em Por que a escola deve acabar, o autor se pergunta por que deve estudar os componentes da célula ou sobre movimento uniformemente variado. "Para que eu vou precisar disso na minha vida?" A questão não está colocada de modo correto. O que o autor deveria se perguntar é "por que não oferecer isto a uma vida?"

O "anarco-libertário" pensa que o sistema público de ensino é, essencialmente, autoritário e no seu julgamento acha que só a ele cabe decidir que o ensino tradicional não deve ser oferecido. No mínimo, ele peca por falta de pragmatismo. Pais de todas as crianças no sistema de ensino nacional decidiriam e criariam o próprio sistema de ensino. Homeschooling para todos?

Se o jovem ainda não sabe o que vai ser no futuro, justamente por isto deveria usufruir de todo o conhecimento disponível. Escolher como, se não tem a mínima base para adivinhar sobre o que vai e não vai precisar? Quem aqui, mesmo como adulto, sabe exatamente de qual tipo e quantidade de conhecimento vai precisar amanhã? Por via das dúvidas é melhor pecar pelo excesso que pela falta.

"Do ensino médio, imagino que você também não tenha levado nada para sua vida." Não mesmo? Mesmo que não nos tornemos professores, biólogos, físicos ou químicos, nós aproveitamos algo disto tudo sim. Noções gerais permanecem conosco, mesmo que básicas e incompletas. É de uma grande prepotência achar que podemos decidir agora sobre o futuro de jovens que, no futuro poderão nos responsabilizar por não termos lhes dado tal oportunidade, mesmo levando em conta todas as imperfeições que tenha, porventura, o atual sistema de ensino.

Não se trata de poder responder perguntas ao "Show do Milhão", mas de dispor de opções. E sem conhecimento, mesmo que incompleto reitero, não há como ter subsídios para a imaginação, condição indissociável da liberdade. Se mais tarde achar isto insuficiente, cabe ao indivíduo suprir as deficiências por si mesmo.

Diz o autor:

"O único conteúdo educacional estritamente necessário às pessoas é o domínio básico da língua e de algumas operações matemáticas. As outras matérias são, no máximo, um complemento. O fato de que conteúdos obviamente complementares sejam obrigatórios e que isso seja aceito como natural por todos nos diz muito sobre a cultura que prevalece na sociedade hoje em dia. E, ademais, qualquer um pode testemunhar no orkut que os nossos milhões de alfabetizados (até mesmo em escolas particulares, das quais sai a maioria dos usuários de internet), poucos sabem escrever uma linha em português inteligível. Parem as aulas sobre moléculas cis e trans e os façam estudar concordância verbal."

Biologia não é complemento de matemática. Esta é que uma linguagem que pode ser adotada no estudo de outras matérias. E é justamente seu ensino deficiente que faz com que estes "estudos complementares" não sejam melhor aproveitados. O que se testemunha no Orkut, entre outros sites de relacionamento, não é conseqüência do ensino, mas do ensino fraco. Não se deve jogar o bebê fora com a água suja do banho. O problema destes anarco-libertários é não ter foco sobre o problema confundindo o problema inscrito no sistema com as proposições do próprio sistema.

"[A] s crianças não são animais que devem ser domesticados. Além disso, restaria saber quais valores são tão desejáveis à sociedade. Esses valores evidentemente seriam ditados pelos powers that be."

0k. Esta afirmação se assemelha muito com o mote de que "se há governo, sou contra". Que poderes são esses? São articulados? Têm algum nome, endereço, modus operandi conhecido? São ocultos? A crítica ao poder subjacente aos valores da sociedade não passa de um clichê recorrente. Se vamos nos opor a toda e qualquer base moral, qual deverá substituí-la? Ou a sociedade pode prescindir da moral? As crianças não devem ser "domesticadas" como animais, mas quem disse que a educação dispensada a animais e crianças deve ser a mesma? Só quem nunca educou/domesticou um animal pode proferir tamanha bobagem supondo que tenhamos uma guia numa das mãos e um pacote de biscoitos na outra quando tivermos que ensinar valores a um filho.

"[E]ssa socialização é desejável? Eu, ao menos, mantenho amizade com não muitos dos meus colegas de escola. Pela minha experiência, eu posso dizer que poucos dos amigos de escola permanecem no futuro. As pessoas, em geral, se tornam amigas daqueles com quem compartilham interesses ou que trabalham no mesmo ramo de atuação. A escola é só um espaço onde as crianças e os adolescentes passam seis horas por dia. Elas não têm nada em comum além do fato de que vão ter prova de matemática na próxima semana. Veja, leitor, o seu próprio caso. Quantos amigos do ensino médio você mantém até hoje? É possível que você tenha nutrido grande amizade por algumas pessoas durante o tempo que passou na escola, mas depois que saiu dela, sua amizade provavelmente morreu. É natural que isso tenha ocorrido. Se você fosse ligar para os seus antigos amigos, o que diria? 'Como foi a prova na terça?'"

Se restarem poucos amigos é porque a escola, assim como qualquer ambiente de encontro proporcionou que fizéssemos uma triagem. Mas, se não temos muitos amigos destas épocas não é porque eram de uma escola, mas porque pertencem ao passado distante de nossas vidas. Eu tenho muitos amigos de minha adolescência (o que é raro entre a maioria das pessoas), embora poucos advindos das escolas por que passei. Isto significa que os poucos que encontrei não valeram à pena? Tolice. E assim como nas escolas, há vários outros ambientes, clubes, ruas em que morei, bares que freqüentei, dos quais não encontro mais meus velhos conhecidos. Não é atributo exclusivo das escolas, ter memórias que se perdem na poeira do tempo. Isto ocorre em qualquer lugar e ambiente de trabalho, idem. Faz parte do que se entende por "socialização" se preparar e treinar para adversidades encontradas na vida. E se as pessoas em geral têm amizades com interesses comuns ou no mesmo ramo de atuação, isto significa que elas não têm lá interesses diversificados ou apenas mantêm suas vidas monótonas.

Não acho que a nota na prova determine a qualidade de profissional que porventura tu poderás vir a ser, não acho que a escola, tal como é no Brasil seja um bom exemplo de meio de socialização. Acho também que faltam vários elementos criativos que poderiam torná-las mais agradáveis e estimulantes e vejo com extrema simpatia o homeschooling. Mas, argumentos simplórios delineados pelo texto linkado são, claramente, insuficientes para a crítica ao que temos. Se vamos propor algo, que parta de melhores princípios. E, por enquanto, não são todos os pais que dispõem de meios – intelectuais, mesmo – de substituir o modelo atual de ensino. Melhor do que jogar este fora deixando milhões de jovens no limbo entre a rua e a vadiagem, seria tornar a escola um espaço público, diversificado e atraente.

Palavras fáceis, eu sei. Mas, o elemento completamente ausente na argumentação anarco-libertária do referido texto é o senso de disciplina que, seja qual for o modelo, é indissociável do ensino. O que propõem os anarco-libertários, além de shoppings e computadores?

A melhor crítica que se pode fazer ao modelo de ensino numa realidade particular não parte dos que não a conheceram, mas do que procuraram melhorá-la. O desejo revolucionário no sistema de ensino não passa de uma incapacidade para pensar em reformas. Por que parte da utópica miopia de um mundo sem disciplina e sem moral. Se a liberdade é a meta, aquilo que supostamente a limita não pode se tornar indisponível ou censurado. Isto me faz lembrar quando sugeri à dois professores negros que dessem Mein Kampf como leitura nas aulas de pedagogia, pois seria a melhor forma de ensinar o que devem combater... Que seja dada a oportunidade do conhecimento de causa a quem quer que queira rejeitar um sistema. Do contrário, os anarco-libertários incorrem num paradoxo, o de selarem o destino dos que não conheceram o que foi extinto. Autoritariamente.

Terça, 12 Agosto 2008 21:00

Como Pensa o Brasileiro

Ninguém que trate seriamente do tema – cultura política – se contentará com uma generalização assim, tão grosseira.

Claro que este título tem o claro intuito de chamar atenção para leitura do texto. Ninguém que trate seriamente do tema – cultura política – se contentará com uma generalização assim, tão grosseira. Outros ainda dirão que deve ser levada em conta características regionais e locais, não se dando conta que o simplismo se mantém. O princípio da generalização nacional é o mesmo para a generalização regional ou local com mera mudança de escala.

Minha provocação vai no sentido de confrontar outras generalizações, piores, que teimam em dividir o mundo, dentre outras formas, em “direita” e “esquerda”. Veja bem, acho perfeitamente plausível que se divida assim em determinados contextos ou até mesmo, a título de didática, num tom coloquial em que os interlocutores sabem do que e de quem estão falando. Mas, tal dicotomia não resolve nem proporciona elementos de análise quando a questão tem temas comuns: o desenvolvimento social, urbano e ambiental. Todos, “direitistas” ou “esquerdistas” se dizem ser a favor destas premissas e o problema não pode prescindir da avaliação técnica em nome de uma ou outra cosmovisão em filosofia política.

Três casos ilustram o que tenho em mente.

Vivo em um bairro periférico em Florianópolis, com taxa de crescimento demográfico que figura entre as maiores do município. E a cidade passa por um processo de formação de seu plano diretor que, após a promulgação do Estatuto da Cidade – Lei nº 10.257/2001 – tem a premissa da “participação popular” como item obrigatório (artigos 43, 44 e 45 da referida lei). Acho desnecessário entrar em pormenores sobre como se processa a dita “participação”, na qual o típico aparelhamento político-ideológico feito nestes fóruns não é exceção à regra(1).

Meu bairro está sobre um aqüífero que conta com um delicado ecossistema exigindo um particular tratamento no desenvolvimento urbano. E o plano diretor precisa orientá-lo buscando compatibilizar a preservação tanto quanto possível com regulamentações que permitam o crescimento do bairro e outros bairros vizinhos de modo que não engessem a economia local. Como a maioria das pessoas não tem noção clara do que entende por “meio ambiente” ou “economia”, o normal é que se produzam orientações díspares, não raro conflitantes entre si. Isto sem falar que os planos diretores anteriores (o último data de 1997), recentes mesmo, não são cumpridos a risca por deficiência na fiscalização. Quando não é devido à corrupção, se dá por peculiaridades administrativas do setor público, nas quais o funcionário não atua de modo ostensivo ou sua administração saca a eterna desculpa de “falta de pessoal”. Como a coisa é feita para não funcionar, o desenvolvimento do jeito que é segue como um impávido colosso de arruamentos caóticos.

Dias atrás conversava com uma equipe de profissionais da área como arquitetos, urbanistas e geógrafos e demais interessados como professores, jornalistas e profissionais liberais. Eles, em sua associação civil, deliberaram que determinada região do distrito em análise tinha que manter certas características rurais (no que concordo) para permitir a infiltração das águas pluviais que realimentam o lençol freático. O lote mínimo requerido para essas áreas seria de 1.000 m2 (no que não concordo). Embora, eu more num assim, o problema é que a maioria não. E não creiam que daqui para frente será tudo diferente que não será não. Não funciona assim, a gente escreve o bonito e o ideal, vai para a Câmara aprovar e se der certo vira lei com todos acatando a nova normativa. Contemporizei que seria melhor adotarmos uma perspectiva realista de acordo com o maior adensamento populacional que ocorre, mas com princípios a serem adotados ao alcance de todos, como arborização e ajardinamento em percentual tal que permitisse a percolação da drenagem nos solos e calçamento correspondente que não o asfalto. Com exceção desta, a primeira sugestão fora terminantemente rejeitada, pois segundo meus colegas era melhor criar uma lei dura para que todos a temessem, criando assim um fator de dissuasão do urbanismo predatório. Insisti dizendo que não funciona e se vamos ajudar na elaboração de leis, que estas não tornem o plano, um mero instrumento figurativo e natimorto. Melhor partir das condições existentes (nem citei mercado para não ser objetado a priori) para ter maior chance de sucesso. Não adiantou.

Todo mês chegam novos moradores que se alojam em terrenos abaixo do mínimo estipulado em loteamentos irregulares que não são sequer de conhecimento do poder público. Mas, cujos fiscais da prefeitura podem levar alguma vantagem para fazer vistas grossas... É assim que funciona porque nosso pensamento é de bacharel. Basta criar algo escrito que o mundo irá ler e se adaptar. Quando perguntei à urbanista sobre os flagrantes casos que não se adaptam e o fato do plano diretor, caso passasse a normativa, me respondeu “daí aplica um TAC”, ou seja, um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta, que endosse medidas reparadoras ou mitigatórias. Mas, se elas vão ou não funcionar, é outra questão...

Alguns dias depois assisti a uma exposição sobre a criação de uma Unidade de Conservação, na qual se diferencia de uma Área de Preservação Permanente porque não cabe só ao estado sua administração e manutenção. Esta pode contar com a ajuda e co-participação de agências financiadoras, inclusive estrangeiras. Faz o que o estado não faz e... Dá dinheiro. Perguntei a moça que explicava como seria o que tinham em mente, qual a participação do banco alemão KfW, cujo logo aparecia sutilmente no canto do slide? “Só na pesquisa...” Fiquei com coceirinha na língua para saber valores, mas deixei para outra ocasião quando eu já tiver uma informação para contestar, caso a resposta não me satisfaça(2). A verdade vem por vias indiretas... Dizia ela que há um número de moradores em situação de subsistência que vive em regime de posse no parque praticando atividades ilegais como a caça e a pecuária. Mas, que o faziam porque não tinham alternativas. Ainda reforçou que nas imediações não havia condomínios ou loteamentos, que quando ocorressem trariam um adensamento com as conseqüências e depredação que conhecemos. Objetei que se pensava em criar tais alternativas, elas poderiam se dar graças a estes loteamentos que demandariam serviços fazendo com que as práticas tradicionais fossem gradativamente abandonadas, em favor de uma nascente economia local de serviços. Senti-me um terráqueo pedindo a alienígenas que me levassem a seu líder. O idioma era outro. Sua solução imaginária se dava na pura e simples implantação de um novo conjunto de normativas legais e transferência de recursos estatais para manutenção de “neo-párias territoriais” que um dia sonharam ser cidadãos. Isto era o melhor que conseguiam criar, uma “bolsa-lote”, uma paródia de reforma agrária em zona urbana, só isto e nada mais. Sua perspectiva do que seja socialmente aceitável era de reassentamentos para posseiros e desapropriações, caso tivessem algum registro imóvel. Apesar da retórica politicamente correta previam o conflito. Ainda considerei que com o plano diretor, vários instrumentos de melhorias urbanas poderiam ser adotados propiciando assentamento adequado ao tipo de ambiente e, mais importante, mantendo os antigos moradores em suas casas. Silêncio foi o que recebi como resposta e passamos para outra pauta.

O que “salva” o Brasil de um socialismo autoritário com uma cúpula dirigente e despótica é o crescente socialismo na esfera legal. Por outro lado, como também existe uma descentralização da condução destas demandas, muitas delas se contradizem ou ainda se anulam. No entanto, uma das características socialistas efetivamente se impõe, pois é exclusiva do estado: a criação de novos impostos.

Hoje mesmo falava com um amigo, microempresário bem sucedido e representante do plano diretor em bairro vizinho que considerava certas questões sobre a inexistência de áreas públicas que valorizassem os bairros, a desarticulação na criação de loteamentos e condomínios, a inexistência do repasse municipal do orçamento do PAC para obras de saneamento. Que os empresários e poder público estavam matando a galinha dos ovos de ouro do turismo ao não se articularem em prol do desenvolvimento de uma infra-estrutura sanitária, ao mesmo tempo em que vendiam nacionalmente a imagem da cidade como paraíso etc. Boas análises que esbarraram num muro intelectual. Sua proposta de solução não era a mediação desses setores e uma reengenharia do estado por si só, ele queria mais, queria a criação de um novo imposto para sanar os problemas sociais e ambientais. Veja bem, um jovem empresário... Um novo imposto.

Desnecessário dizer aqui tudo o que disse a ele... Mas, uma coisa sim: já temos todos estes impostos direcionados para isto e aquilo que explicitou. O que falta sim é gerência e uma coisa é básica, a obrigatoriedade na aplicação de leis já existentes que se perdem no manancial de tantas outras desnecessárias. Tudo esbarra no estado. Por estas e outras é que não levo a sério liberais que só enfocam suas análises no mercado sem propor uma reforma (local, para começar) da administração pública. Como se o papel e a caneta fossem sagrados, nós brasileiros pensamos que mais leis e impostos resolverão algo enquanto que isto tudo já existe. Como psicanalistas da política deveríamos pensar no que nossos homens públicos não dizem.

 

 

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[1] Conferir: http://www.ilhacap.com.br/edicao_abril07/especial__pdp.html

 

[2] Não partilho da visão conspiratória de que toda e qualquer ong estrangeira atuante em território nacional signifique um atentado contra a soberania nacional. Há que diferenciar o joio do trigo. O que contesto, evidentemente, são as condições em que operam e, sobretudo, o papel de seus representantes e parceiros nacionais quando não apresentam declarações sobre o fomento e movimentações financeiras. Em uma palavra: transparência.

Sexta, 18 Julho 2008 21:00

Globalismo, O Que Diabos é Isto?

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita.

Dias atrás assistia a um seminário sobre o movimento internacional de ongs destinado a atacar de forma virulenta a soberania nacional, as bases econômicas liberais e nossa tradição cultural e religiosa. Era unânime entre os expositores a acusação de que a ONU é o principal organismo internacional com interesses escusos nesta empreitada de significado histórico. Ao final, no debate, um aluno colocou uma questão que, para mim, resumiu toda a fragilidade da tese globalista, do domínio e hegemonia mundial sob auspícios da ONU. Vou puxar de memória:

Meus professores de cursinho eram todos esquerdistas, principalmente os de geografia e história e, eles diziam a mesma coisa de vocês, só que ao invés de afirmar que havia uma conspiração mundial “de esquerda”, ela era “de direita”. Quer dizer... Que ao invés de dominar o mundo com ações da ONU, a ONU era submissa aos interesses dos países ricos e suas corporações mundiais. No fundo era o mesmo argumento de vocês, só que com conclusões opostas. Em vez de trazer o socialismo, elas estariam garantindo o capitalismo e monopólio mundial. Agora, eu fiquei na dúvida, quem é que tem razão?

Estes são dos bons... Sempre gostei de alunos que me desafiavam. Para mim, um round se passara e a próxima aula seria uma demonstração de que eu estaria certo e, para tanto, tinha que me preparar. Mas, lá viria novamente o mesmo insistente e teimoso aluno com novas e novas considerações que me deixariam atônito. Boas aulas contêm dúvidas e motivação para o próximo capítulo. Mesmo quando eu tinha uma resposta ensaiada, sua inconsistência me atormentava durante anos e, lá me via, tempos depois concordando com o querelante.

Agora, eu vou bancar o aluno chato.

Por trás das ações coordenadas em nível mundial e sua declarada agenda de boas intenções, em uma conspiração a portas abertas (!) estaria a ONU e suas várias agências apoiando constelações hierarquicamente descendentes de ongs. Seu objetivo: reduzir a soberania nacional, especialmente dos EUA, na medida inversa em que finca os pilares de um “governo mundial” no coração de territórios outrora separados por nítidas e irretorquíveis fronteiras.

Em tese, isto estaria ocorrendo sem que percebêssemos o real perigo da situação, encantados que estamos pelo canto da sereia de uma sociedade justa e igualitária. Porém, se observarmos como as coisas realmente funcionam, a teoria do “globalismo” mais parece um boneco de palha. Como o globalismo é visto como um processo em pleno curso, outros exercícios de futurologia podem ser aventados para confrontar sua suposta eficácia. Permita-me utilizar do mesmo recurso de seus teóricos, a “arte do chute”...

Cenários possíveis

O Conselho de Segurança (CS) da ONU pode sofrer modificações nos próximos anos. A UE poderá substituir a França e o Reino Unido, caso sua constituição européia venha a ser consolidada. Um outro equilíbrio de forças se avizinha no horizonte histórico com os já garantidos assentos à China, EUA e Rússia. África do Sul, Brasil, Índia e Japão também são candidatos viáveis a membros permanentes do CS.

As alianças militares poderão ser ampliadas, como ocorre atualmente com a Otan rumo ao leste europeu. A Rússia, através de sua Comunidade dos Estados Independentes, CEI (não tão independentes assim) poderá reincorporar a Bielorrússia. Como contrapeso ao tacão russo, as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central (do Cazaquistão ao Afeganistão) procurariam reforçar alguma aliança. Outra interessante aliança que funciona como filial americana neste rimland continental é a do Sudeste Asiático que vai do Paquistão à Oceania, sobretudo, Austrália e Nova Zelândia. Tradicionais aliados americanos para conter a expansão russa ao sul. Esta, na verdade, uma reedição do que já ocorrera na Guerra Fria. Outros problemas às forças ocidentais se formarão com a evolução da Liga Árabe (não “tão árabe”, caso venha abarcar o Irã), o que levaria a concentração dos maiores esforços ocidentais, sobretudo americanos, mais do que os da Otan. E só a manutenção da estabilidade do Iraque e acordos com o Irã já serão suficientes para manter o Pentágono ocupado, seja McCain ou Obama o novo presidente. Uma Otan, por sua vez, já estará suficientemente ocupada com as investidas do “urso russo” na Europa Oriental e suas ameaças de embargo de combustíveis à Europa Ocidental. Ameaças apenas, pois se a Rússia detém o precioso recurso, os ocidentais são clientes indispensáveis. O que, em outras palavras, pode significar um relativo isolamento de Washington. A Organização da Unidade Africana (OUA) continuará uma mera quimera, cujo continente tem sido o maior celeiro de guerras civis no globo. Falar em “globalismo”, no sentido de uma ordem global centralmente conduzida e bem sucedida, neste cenário é coisa para quem abusa da liberdade de imaginação... No continente americano teremos a união indelével entre Canadá e EUA, mas com o “acorde dissonante” do México oscilando entre a atração econômica do norte e seu atrasado sul (Chiapas, p.ex.). Bem como a reserva de mão de obra na fronteira norte, contígua ao sudoeste americano. E a América Central continuará sendo assediada por Washington. A “sala de treino” em stand-by permanece na América do Sul, com um Brasil periclitante nas relações externas, mas com a consciência de possíveis sanções americanas contra “estados-pária” da Argentina, Bolívia e Venezuela a sinalizar as políticas do Planalto Central. A China permaneceria, contida em si mesma, um universo à parte que ainda terá que se definir melhor neste cenário global do ponto de vista político.

É fácil imaginar uma teoria contrária e nada inverossímil. Se tais considerações parecem gratuitas, qual a base empírica das assertivas que afirmam o contrário de modo igualmente voluntarista?

Demandas globais

Se a ONU é um organismo tão ruim que visa prejudicar os povos diminuindo sua capacidade de autodeterminação, porque tantos governos a apóiam? Se a pedra de toque do “globalismo” não se sustenta sozinha, algo não faz sentido. Mas, ainda assim vejamos como esta organização tem asseverado seus “tentáculos hegemônicos” sobre o globo.

Seis países sul-americanos, três centro-americanos, dois norte-americanos, dez países asiáticos, a Rússia, a U.E. e outros europeus não-membros, 17 africanos apóiam a organização, financeira, logística e militarmente. Chega a ser hilário pensar que é de “cima para baixo” que ocorre a influência. É justamente o contrário que se dá. Talvez seja na própria miríade de estados que tentam alcançar uma coordenação e organicidade, a razão da maior inoperância da ONU. Muito chefe pra pouco índio...

Nos anos 90 tivemos 16 ações com tropas da ONU para intervir nos casos de desastres naturais. Como sabemos, não são “tropas independentes”, mas mantidas através de contribuições dos países que a sustentam. Onde está o “globalismo”? Trata-se de uma ação calculada que busca otimizar ações ao redor do mundo, inclusive por estados concorrentes em influência e hegemonia global.

No mesmo período, se contarmos as intervenções para conter atividades guerrilheiras e/ou terroristas foram 21, ou seja, superando com vantagem os danos causados por forças naturais. Isto, antes de 2001, o que significa que esta discrepância tende a aumentar, com maior número de esforços conjuntos para deter este estado de anarquia. Bem que podíamos ter um pouquinho de “globalismo”... Digo, ordem.

Também tivemos 14 operações das tropas no período no papel de “forças de paz” ou ocupação, termo muito mais direto e sincero, como é do meu gosto. Se pensarmos no conjunto, as ações militares contabilizam mais que o dobro às destinadas a amenizar os efeitos das forças naturais.

Não há logística mundial suficiente para sustentar estratégias que levem a um domínio coeso de um pequeno grupo sobre bilhões. Nem sinergia de “metacapitalistas” (capitalistas que devido ao seu poder e monopólio estariam criando um mundo sob o escrutínio de sua “engenharia social” por intermédio da ONU) contra os interesses de dezenas de países e centenas de elites oligárquicas e suas burocracias. Desconsiderar isto significa comprar o mesmo erro marxista de ignorar o estado e suas ramificações internas como dotadas de interesses e vontade próprias. Dentre os inúmeros erros dos marxistas, este contribuiu sobremaneira para sepultar seus intentos revolucionários de acordo com a teoria marxiana, mundo afora perante a perenidade (e necessidade) dos estamentos burocráticos. Analogamente, a suposição de um conluio ONU-metacapitalismo trabalha com um “marxismo de sinal invertido” ao tomar os sintomas de funcionamento de um mercado imperfeito, como objetivos expressos de uma política global e as políticas de contenção de conflitos como expressão de ganho e sustentação das corporações quando, justamente, as próprias mega-empresas é que são ameaçadas em cenários nacionais conturbados por guerrilhas e insurgências várias. O marxismo aí reside na visão de uma “necessidade” e porvir que se implantarão de um jeito ou de outro, uma fé no “destino histórico” desejado pelos marxistas, amaldiçoado pelos teóricos do globalismo, mas que não passa de uma mesma fé social-evolucionista. Uma fé otimista ou pessimista não deixa de ser uma fé que não se põe à prova.

A idéia de que um movimento globalista seja a “face do mal” da globalização se encontra amplamente disseminada, não só entre a dita esquerda, mas cada vez mais por uma auto-proclamada direita que, de liberal, não tem quase nada. Tais “direitistas” podem até defender o liberalismo, mas não usam métodos de análise desenvolvidos por liberais. Na medida em que temem o avanço do capitalismo mundial e, equivocadamente, concluem que este decorre de um arranjo previsto e pré-determinado, o caos e anarquia política são vendidos como uma contraproducente planificação.

Se para evitar os malefícios da ONU, dos quais não duvido que existam, tenhamos que acabar com a própria instituição e suas ações de contenção da barbárie, se para sanar imperfeições de mercado tenhamos que acabar com o próprio mercado, o imaginário super-estado global terá que ceder lugar a estados nacionais cada vez mais repressivos. A título de conter o avanço de forças destruidoras de nossas sociedades, não duvido que seu remédio possa ser mais amargo que a doença levando o enfermo a própria morte.

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Fontes:

1. Ian Pearson, Atlas of the Future, New York: Macmillan, 1998.

2. International Institute for Strategic Studies (IISS), The Military Balance 1996-97, London: IISS, 1997.

3. Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), Yearbook, New York and Oxford: Oxford University Press, various dates. 

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