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Anselmo Heidrich

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Apesar das particularidades nacionais, não é possível que uma população que já é a 5a do mundo fique à margem do que acontece, empurrando o problema com a barriga.

Aqui temos dois outros temas tratados no referido exame:

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Para acertar a resposta ‘A’, o aluno deveria sofrer de luddismo, ou seja, ver no avanço tecnológico um processo que “esfria as relações inter-pessoais”. Como se o capitalismo fosse, inexoravelmente, um sistema que torna as relações humanas cada vez mais impessoais. Sendo assim, esta comunicação entre eu e você que está lendo seria algo destituído de sentimento e apreço pessoal (ou mesmo ojeriza) e que, no limite, nos tornaria uma espécie de autômatos.

Não preciso dizer que a raiz desta loucura se baseie em uma leitura marxista da “desumanização da tecnologia” que leva a alienação do trabalhador em relação ao fruto de seu trabalho. Analogamente, pode-se inferir uma alienação entre consumidor e mercadoria. Por mais evidente que seja a contradição desta tese em um simples exame da realidade (“uma pessoa de verdade [atendeu] o telefone”) se prefere acreditar no contrário.

Antes de mais nada, tecnologia de informação é integração. Quando falamos em integração, normalmente imaginamos transportes e comunicações, mas estas nada são sem o gerenciamento das informações. E gerenciar significa operar em cima de valores tomados subjetivamente do ponto de vista individual ou tomados “objetivamente” em um plano social. Não é um processo neutro ou ‘carregado’ pelo desenvolvimento da tecnologia de modo autônomo. Isto não existe, exceto para marxistas que crêem no capitalismo operando como deus ex machina, como se este sistema não fosse formado por pessoas que portam valores. Quem explica o capitalismo não é, nem nunca foi Marx, mas Weber que em sua A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo mostra como a economia é que é resultante da cultura.

O pressuposto da tirinha acima é, diretamente, a desumanização das relações sociais e, indiretamente, a exclusão social e o “esfriamento das relações sociais”.

Tecnologia, descentralização e competitividade
Hoje em dia, mais do que nunca, o uso de tecnologia apresenta uma tendência a descentralização, proporcional ao grau de desenvolvimento do país. Se tomarmos por base que as ligações telefônicas aumentam 15% ao ano[1] e isto só é possível com a expansão da rede de telefonia e sua modernização, são os países mais avançados que têm descentralizado suas operações com base na moderna tecnologia de comunicação. Por outro lado, se nos voltarmos ao mercado de telefonia “estrategicamente protegido” de alguns países como o Brasil em passado recente ou de sua privatização para poucos grupos como hoje, o que veremos? Uma ou duas grandes companhias telefônicas controlando um vasto mercado, como é o caso da Embratel e Telefónica em São Paulo. Se o modelo americano de privatização fosse realmente aqui implantado, não teríamos que, obrigatoriamente, utilizar os serviços de uma ou duas companhias apenas, mas teríamos que digitar o número de uma das operadoras disponíveis mesmo antes de efetuar uma simples ligação local. Isto por que haveria várias oferecendo o mesmo tipo de serviço.

Se também levarmos em conta que a demanda por computadores em rede cresce 60% ao ano, o que tende a quadruplicar seu número em menos de três anos[2], não se pode negar seus benefícios para infra-estruturas através de sistemas automatizados de informação, como o tráfego aéreo e rodoviário.

Como esteio desta demanda encontra-se o processo de urbanização. Quanto a isto normalmente se adota uma compreensão equivocada, tomando-o como simples ‘inchaço’ da cidade. Não é bem assim, pois o processo de urbanização se refere mais a um continuum entre meio rural e urbano do que a uma simples concentração e segmentação populacionais nas cidades cortando quaisquer ligações com áreas de origem que não são simplesmente zonas rurais. Na urbanização, as pequenas e médias cidades se desenvolvem, servindo de escalas temporárias de migração e parte de uma rede urbana de serviços.

Como a modernização tecnológica teria seu impulso sem antes haver a difusão de idéias e criação de novas necessidades? A crítica implícita na tirinha acima parte do pressuposto de que isto é ‘imposto’. Não se trata disto, mas sim de um movimento anárquico do próprio mercado, no qual a própria população opta por acompanha-lo. Quem hoje, em nome da geração de empregos, proporia um retorno aos antigos caixas de bancos e suas filas ao invés dos serviços eletrônicos? Houve perda de empregos neste processo de modernização? Quem responde afirmativamente a esta pergunta esquece de avaliar quantos empregos ligados à informática foram criados. Os críticos ludditas dizem que o desemprego aumentou, mas eles não dispõem de dados, nem metodologias aceitas consensualmente.[3] A única coisa que tem é um pressuposto tecnófobo. Se fossemos aceitar seus argumentos para a geração de empregos deveríamos proibir as calças de terem zíper, pois este desempregou operárias especializadas na costura de botões.

Um misto de marxismo que vê na tecnologia uma fonte de alienação com um “paradigma eco-social” que prevê o retorno a “mãe natureza” está na raiz do preconceito sobre o capitalismo.

Quanto ao “esfriamento das relações sociais” é ridículo, como se antes nas morosas filas de atendimento bancário houvesse muito “calor humano’ no atendimento. O que mais se via eram rostos estressados ou, na melhor das hipóteses, com uma “apatia vegetal” ao perder precioso tempo que poderia ser melhor empregado.

Apavorados com o desenvolvimento social e tecnológico, estes críticos rasos não percebem o enorme beneficio que traz a modificação da estrutura industrial para a organização do mercado de trabalho, ao nível de emprego e à modificação das profissões. Se trata de um verdadeiro processo de inclusão social, muito diferente de um discurso pro-estatal. Vendedores, costureiras, encanadores e outros profissionais autônomos têm hoje a possibilidade de usar o telefone móvel como ferramenta de trabalho, como se tivessem serviços de secretária permanente ampliando seus serviços.

Os ludditas também são cegos para as mudanças positivas na obtenção de informações em diversos serviços como o correio, jornais, bibliotecas, compra de produtos, atendimento médico, segurança nas habitações etc.

Claro que este desenvolvimento não é uniforme nem homogêneo. Sua desigualdade é que deveria ser mais atentamente observada, mas não como decorrência de alguma “lei capitalista de extração de mais-valia”, mas sim da própria intervenção estatal, a maior geradora de uma desigualdade estagnante. Isto fica claro quando pensamos que durante décadas a telefonia se expandia a passos de lesma, alijando diversas camadas da população de um serviço básico que é o uso do telefone. Até parece que para as castas burocráticas que impregnam a estrutura estatal não há interesse em que as pessoas se comuniquem.

Mas, atente-se aqui o fato de que, mesmo com a atual privatização da telefonia, o serviço hoje é bem superior do que o monopólio estatal de outrora. Uma prova disto é que tais serviços se expandem mais e melhor do que aqueles, tradicionalmente, prestados pelos diversos níveis governamentais: a Pesquisa Nacional Por Amostragem de Domicílios (PNAD) de 2002, revela que o percentual de residências com telefone no Brasil passou de 19%, em 1992, para 61,6%, em 2002 – 8,8% delas têm apenas telefone móvel. Já é maior o número de domicílios com telefone do que com saneamento básico.

Para os pobres, o beneficio foi, proporcionalmente, maior: em 1998, apenas 10% das famílias da classe D tinham telefone; hoje, são quase 50%. São 39 milhões de linhas fixas no país. Na telefonia celular, processo similar aconteceu graças ao pré-pago – 74% dos 41 milhões de linhas móveis são pré-pagas.[4]

Além de democratizar as comunicações, a tecnologia favorece os empreendimentos (produtivos) sem incremento da transferência de renda via expansão do funcionalismo público.

Uma questão, esta sim preocupante, é se a colaboração que existe em certos países entre setor público e privado nas comunicações tende à monopolização da informação levando ao desaparecimento de empresas menores e assim, restringindo o acesso a informação. Esta é uma questão candente se, na medida em que cresce quantitativamente o acesso à informação, qualitativamente esta mesma informação entra em declínio.

Por outro lado também é de se perguntar se antes da revolução tecnológica de informação iniciada nos anos 70 e disseminada nos 90, a informação era verdadeiramente democratizada. Talvez agora, mais do que nunca, com o barateamento dos custos de geração da informação ela seja mais acessível não só quantitativamente. De qualquer forma, não é com a estagnação comunicativa da tecnologia engessada pelo estado, nem com o desemprego fomentado pelos sindicatos que teremos “relações sociais mais calorosas”.

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Sim, se trata de uma crítica à situação do trabalho contida na afirmativa ‘A’, tanto para os formalmente empregados como para os aposentados. Mas, a questão encobre a realidade ao recorta-la arbitrariamente. A situação dos aposentados deriva apenas da insensibilidade dos governos ou da falta de organização e pressão dos sindicatos e de setores da própria sociedade no sistema de aposentadoria? Entre inúmeros exemplos bem sucedidos que poderíamos nos basear, um salta aos olhos por pertencer à América Latina e ser nosso vizinho próximo com uma história similar de governo ditatorial: o Chile que adotou uma bem sucedida reforma trabalhista e previdenciária.

Apesar do Brasil ser um país relativamente jovem já tem problemas de financiamento de sua previdência que outros ainda não atingiram. Por outro lado, países com sistemas similares, como o Chile de 20 anos atrás não deixaram o problema evoluir como nós. Sua reforma levou a substituição do sistema oficial pelos fundos privados. Estes têm fins lucrativos podendo investir em ativos no exterior, o que não ocorre sem a análise dos interessados que podem, inclusive, rejeitar investimentos de alto risco.

No Brasil, a falta de informação sobre outras realidades serve de justificativa para desmandos. Aqui critica-se muito o ‘modelo americano’ e opta-se pelo ‘modelo europeu’ sem, no entanto, conhecer-se os dois profundamente. Embora eu ache o sistema europeu mais ‘pesado’ e pouco funcional, vários países europeus têm um sistema muito mais avançado que o brasileiro onde o governo garante um benefício básico e os trabalhadores escolhem um fundo próprio para a aposentadoria.

No caso americano, desde a reforma adotada em 1982 para os servidores federais ativos, quem ingressava no sistema a partir de então recebe 30% da média dos últimos três anos trabalhados depois de 57 anos de idade. Quem fosse empregado antes da reforma poderia mudar para o novo plano voluntariamente. Nesta fase de transição, os dois sistemas existem concomitantemente.[5]

Apesar das particularidades nacionais, não é possível que uma população que já é a 5a do mundo fique à margem do que acontece, empurrando o problema com a barriga.

Quanto aos trabalhadores formais, embora não se tenha discernido qual o tipo de causa seus déficits salariais, estes derivam muito menos de aumentos salariais corrigidos de acordo com a inflação do que com o aumento extorsivo de tributos diretos e indiretos.

O que defendem os professores universitários que formulam estas questões? Explícita ou implicitamente, defendem o atual caos da previdência social. A qual teve queda de contribuição nos últimos 40 anos. Quando na década de 60 a relação contribuinte/beneficiado era de 7 para 1, hoje está em apenas 1 para 1. Enquanto que a oito anos atrás déficit não passava de R$ 20 bilhões ao ano, em 2002 foi de mais de R$ 70 bilhões.

Enquanto que em outros países, os aposentados recebem 70% do último salário, no Brasil, os 3 milhões do Executivo, Legislativo, Judiciário, professores da rede pública universitária, militares etc. elevam o déficit para R$ 52 bilhões se aposentando com salário integral, quando não são acumulados de diferentes funções que não mais executam. Poucos países gastam mais do que 20% da folha do funcionalismo com os aposentados, mas no Brasil se gasta, ao menos, 50%.

A previdência pública brasileira sofre com:

1. cada vez mais inativos do que contribuintes;

2. crescimento da economia informal, ou seja, cada vez menos pessoas contribuem ao INSS;

3. o governo tenta manter o mesmo nível de arrecadação criando novos tributos;

4. a falta de fiscalização e corrupção são responsáveis por desvios freqüentes;

5. o próprio corporativismo de funcionários públicos não contribui para a agilidade do sistema que poderia evitar, na raiz, os desmandos do setor.

Há várias companhias que se vendo obrigadas a sobreviver não recolhem e repassam os 8% do salário à previdência. Vez ou outra, o governo abre mão de parte do dinheiro anistiando dívidas e isto cria um perigoso precedente: a legitimizaçao de um ‘furto calado’.

Acredito que a renúncia a este dinheiro ajuda a criar (ou evitar que acabem) mais empregos no país. No entanto, a previdência encontra-se mais e mais em fim de linha.

O fato de se ter no país aposentadorias do setor público que têm regime específico e outras especiais, além de obras megalomaníacas como Brasília que sacaram do fundo para serem realizadas só levou a diluição deste capital de forma improdutiva.

Os professores que elaboram tais questões procuram todos os meios para criticar a evolução do capitalismo, não percebendo ou não querendo em alguns casos, compreender que defendem, isto sim, a própria exclusão social que tanto acusam.

Não advogo o fim de qualquer estabilidade, mas ela não deve ser alcançada via decreto ou uma legislação que engessa o mercado de trabalho. A negociação coletiva e liberdade sindical visando a redução dos custos indiretos que incidem sobre a folha de pagamento, bem como o treinamento da mão-de-obra são mais úteis ao país que o sustentáculo deste câncer social que é a CUT.

Isto sim “esfria as relações sociais” criando uma casta de sanguessugas que não têm o critério da produtividade e geração de empregos como paradigmas.

[1] DE MASI, Domenico (org). A Sociedade Pós-Industrial. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999, p. 218. [retorna]

[2] Idem. [retorna]

[3] Quando na oposição adotam a metodologia do Dieese que não aceita empregos sem carteira assinada, superestimando assim o desemprego; quando na situação governamental passam, automaticamente, a adotar a metodologia do Ibge que considera qualquer atividade (temporária) em prazo inferior a um ano como vínculo empregatício que, obviamente, subestima o desemprego. O certo seria discriminar diversos tipos de emprego. [retorna]

[4] “Privatização e inclusão social” por Fernando Xavier Ferreira. VALOR ECONÔMICO. Terça-feira, 25 de novembro de 2003 - Ano 4 - Nº 895 - 1º Caderno. Uma prova do suprimento de serviços proporcionalmente maior do setor privado em substituição à inoperância do setor público é, como diz este trecho da matéria que: “O Brasil já tem densidade de telefonia fixa - 28,7 linhas por 100 habitantes -- superior à de países de desenvolvimento similar (e renda per capita superior), como o Chile (23,9/100), Argentina (21,6/100) e México (13,5/100). Em São Paulo, a densidade é maior (34/100 habitantes), próxima à de países desenvolvidos, como Portugal (40/100) e Espanha (43,1/100)”. Se a oferta de linha fixa outrora, antes da privatização fosse condizente com a demanda, não haveria crescimento atual tão acelerado. [retorna]

[5] “Fórmulas diferentes para enfrentar crises semelhantes.” Valor Econômico, 17 de março de 2003 - Ano 4 - Nº 718 - Previdência. [retorna]

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorrido no dia 22 de setembro passado foi um primor de manipulação. A base em que tal prova é feita decorre da própria cultura de nossos professores, essencialmente deturpada tanto pelas informações e senso comum divulgados pela mídia, como pelas fontes de referência que detêm, notadamente pró-socialistas na política e antiliberais na economia.Nem vem com esta droga de Enem: Ou como não explicar a África

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ocorrido no dia 22 de setembro passado foi um primor de manipulação. A base em que tal prova é feita decorre da própria cultura de nossos professores, essencialmente deturpada tanto pelas informações e senso comum divulgados pela mídia, como pelas fontes de referência que detêm, notadamente pró-socialistas na política e antiliberais na economia. Neste sentido, questões de história e, particularmente, de geografia são um ambiente preferencial para a proliferação da desinformação, deturpação analítica e o mais tosco maniqueísmo.

Comecemos com uma, muito cara ao terceiro-mundismo:

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O gabarito ‘E’ considerado correto pressupõe que os problemas e conflitos internos ao continente africano só foram criados a partir da colonização/conquista européia. Seria ingênuo crer que os europeus não trouxessem problemas às sociedades africanas, mas seria mais estúpido ainda imaginar que tais situações não existissem previamente e pior, que elas ainda se mantenham por força exclusiva da partilha da África ocorrida na Conferência de Berlim em 1884.

Há muitos outros fatores que contribuem para o atual caos social na África que não se relacionam nem de longe com as relações políticas que este continente teve com a Europa. A degradação ambiental e a ‘superpopulação’[1] são os piores, afetando muito mais a vida dos africanos que qualquer conferência no século XIX.

‘Detalhes’ nada ocultos
A África Subsaariana tem um crescimento demográfico de cerca de 3% anuais enquanto que o aumento de sua produtividade agrícola não chega nem perto disto. Este incremento chega a quase o dobro da média mundial. Mesmo regiões pobres da Ásia ficam em torno de 2,2%. E quando falamos em Índia, Tailândia ou China se pensa também em crescimento industrial, ao passo que na África predomina a subsistência agrícola e o pastoreio nômade. Nos anos 80, cerca de 28 países africanos tiveram PIBs em declínio e em 1994 a África tropical teve queda de 2% de suas economias em relação ao crescimento populacional. Se formos muito otimistas e excluirmos a Nigéria de nossa análise (o país mais populoso), o continente levaria 40 anos para alcançar rendimentos que tiveram nos anos 70.[2] Nesta conjuntura de fome e desespero, não é à toa que fundamentalismos como o islâmico cresça, disseminando promessas vazias de um paraíso em algum ponto na linha tormentosa do tempo além da vida.

Nas palavras de Robert Kaplan:

“Durante décadas, os simpatizantes da África criaram racionalizações para explicar a pobreza material ao mesmo tempo que projetavam cenários otimistas para o futuro. Enquanto isto, os padrões de vida continuavam caindo verticalmente e guerras proliferavam. As explicações dadas para essa confusão – ‘colonialismo’, ‘o sistema econômico internacional perverso’, ‘corrupção das elites’ africanas, a ‘sociedade patriarcal’ e assim por diante – podiam se aplicar também a outras regiões do Terceiro Mundo que no entanto passavam à frente da África economicamente. E de lá para cá, as estatísticas vitais africanas referentes a aumento populacional, padrão de vida e violência eram as piores do planeta.”[3]

Até 1998, dos 80 conflitos travados no continente desde 1945, apenas 28 assumiram a forma tradicional de estado contra estado. Os que vêem na Europa, a responsabilidade total dos conflitos africanos, inferem que não deveriam existir se suas fronteiras não fossem alteradas e/ou criadas durante o período colonial. Parece lógico, mas assim como a estatística, eu posso mostrar através de um simples recorte de dados históricos, certos fatos para corroborar qualquer tese, enquanto oculto outros.

Obviamente não quero induzir o leitor a pensar que a colonização/conquista européia sobre a África não teve qualquer influência negativa. Esta teve sim e, ao contrário de outras regiões do globo, não teve saldos positivos, mas querer fazer crer como nossos professores de geografia e história que tudo se explica por isto, inclusive a perpetuação dos conflitos é que é falacioso.

Outro ‘detalhe’ sistematicamente negado é a presença de exércitos socialistas na África, como Cuba e URSS na Etiópia em 1975 e Cuba em Angola em 1977. Assumir isto como parte integrante do imperialismo significa entender a categoria como algo além da lógica capitalista. Em outras palavras, toda crítica implícita nas questões se refere, exclusivamente, ao sistema econômico do capitalismo. A crítica ao socialismo/comunismo simplesmente não existe.

Sempre que revoluções se instalam no mundo procuram levar em conta as instituições nacionais, mesmo que seja para nega-las. O fato de que na África todas sejam decorrentes de golpes militares revela que as forças armadas são a única e duradoura instituição africana. A evolução sociopolítica do continente tem decorrido mais dos jogos de poder entre generais que têm origem em tribos diferentes e, geralmente, rivais que de influências externas. Mas, tampouco as revoluções podem ser consideradas irreversíveis. Diferente de países como Cuba ou Vietnã no passado que trilharam rumos com coerência de acordo com o totalitarismo comunista, os regimes africanos são fortuitos e adaptados à conjuntura de suas alianças externas. Seja o Gana de Nkrumah, o Mali de Modibo Keita ou a Guiné de Sékou Touré foram todos regimes que se dissiparam.

Como conseqüência, o método militarista de alcançar o poder se torna um fim em si mesmo. O orçamento militar elevado se torna uma necessidade constante para manter a ordem, muitas vezes 50% do total do PIB, com serviço militar obrigatório de quatro anos. A sociedade se torna um espelho da caserna. O que está fora dela não tem ordem nem civilidade que não seja a dada por sua estrutura tradicional, isto é, a tribo.

Um exemplo é o Sudão. Após uma década de luta armada, a minoria negra conseguiu arrancar do governo central árabe um status de autonomia relativa, mas hoje se vêem perseguidos novamente pelos muçulmanos. Chamados de kafirs (infiéis) são alvo de constantes perseguições e um verdadeiro genocídio a que a ONU se furta a considerar como tal. Nossos professores não acham que haja imperialismo muçulmano, esta é uma categoria aplicável apenas ao europeu e ao americano. Assim como as ideologias coletivistas ocidentais, socialismo e comunismo, o coletivismo islâmico também é imperialismo e do pior estilo, que emana da cultura. Mas estes não são alvo de críticas: dois pesos e duas medidas pelos professores que elaboram as questões.

Falando em instituições, o que significa a educação na África? Apenas um meio de se tornar ‘colarinho branco’, isto é, de se atingir um cargo público. Países como a Costa do Marfim já na década de 80 apresentavam saturação em seu quadro de funcionários.

A economia não pode tampouco ser analisada somente em setor privado e público. O modelo de desenvolvimento ocidental é essencialmente urbano e como isto se conecta a uma região do globo onde o principal esteio econômico está na mineração é uma das razões de por que o dinheiro não migra para as cidades como migram, no entanto, camponeses e refugiados.

O comércio externo por sua vez, prima por itens de baixo valor agregado. Nos anos 70 quando os indicadores sociais eram visivelmente melhores do que hoje em dia, a Europa era responsável por 65% das importações de minérios do continente africano, o Japão com 15% e a América do Norte por apenas 4%. Em contrapartida, meros 0,5% da produção mundial de manufaturados era proveniente da África. Ao passo que os EUA exportavam para a América Latina 48% de seus produtos manufaturados para os países subdesenvolvidos, a África ficava com apenas 8%. E enquanto que o Japão enviava 45% de suas exportações para países pobres do sudeste asiático, a África absorvia 17%. Mesmo após duas décadas de independência, o continente tem o escambo como um dos aspectos essenciais de sua economia.[4]

Se nem o comunismo e suas variantes socialistas deram certo na África, o que dizer do capitalismo? Falar em capitalismo significa falar em produtividade. E se existe uma palavra ausente nos dicionários de idiomas e dialetos africanos provavelmente é esta. A abundância de terras associada à baixa densidade demográfica no continente permitiu no passado aos africanos prover suas necessidades materiais com poucos dias de trabalho. Claro que falo de necessidades básicas, mas mesmo assim se compararmos o continente com seus pares latino-americano e asiático, veremos que a produtividade nunca foi um requisito para sua efetiva colonização. De certo modo, a África paga hoje um preço por não ter tido uma colonização mais profunda e internalizada como foi o caso da América Latina e Ásia. O relaxamento do trabalho e a ausência quase completa da capacidade de previsão (por falta de treino) são características historicamente adquiridas e praticadas há séculos.

E quando se pensa em discriminação sexual, na África a situação é inversa em certo sentido: se em muitos países é vedado às mulheres terem uma maior participação na vida social, no ‘continente negro’ elas são prioridade para o trabalho... Muitas vezes, o grosso do trabalho é atividade exclusivamente feminina. Se aos muçulmanos cabe a exclusão política e social da mulher, aos africanos ao sul do Saara fica a incorporação quase que exclusiva das mulheres no mundo do trabalho em muitas atividades tribais.

Nestas condições como realizar a chamada “acumulação primitiva” de que falava Marx para dar início ao capitalismo? Exemplos como o “investimento humano” como estratégia de mobilização econômica, realizado na Guiné entre 1960-1961 são rapidamente abandonados. A Tanzânia é um exemplo disto, naquele país pode-se esperar 40 anos para obter uma linha de telefone fixo.[5] Isto é tão profundamente arraigado que chega a afetar o desempenho de guerrilhas, como o PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e do Cabo Verde:

“Não devemos esquecer que há erros, faltas, atrasos: por exemplo, muitas emboscadas mal preparadas, tendência em chegar atrasado no lugar previsto, ausência de vigilância, importante nos rios, ainda que estejamos bem armados para atirar nos barcos, falta de coragem para atirar nos aviões, embora saibamos que, quanto mais atiremos neles, mais os aviadores têm medo. Não obstante saibamos que em Quitafine, e em outras regiões, como Boé, nossos companheiros foram capazes de combater os aviões portugueses com uma coragem extraordinária, muitos não seguiram este exemplo. Em muitos lugares atrasamos nossos ataques, imobilizamos nossa infantaria durante muito tempo. Muitos carregadores de patchanga[6] foram estragados, porque, uma vez carregados, não foram esvaziados nos combates. Não fizemos os necessários reconhecimentos antes de passar aos ataques. O resultado é que, muitas vezes, durante os ataques, fomos surpreendidos pelas minas. Não soubemos traçar os planos necessários, tendo em vista os ataques: um dirigente pode definir um plano geral de ataque, mas, quando se trata de planos mais pormenorizados, os próprios comandantes, no momento do ataque, se sentiram incapazes. Portanto, não pudemos extrair o máximo rendimento desses ataques. Devemos reconhecer, por exemplo, que até hoje só fizemos prisioneiros portugueses durante dois ataques: a Cantancunda e a Bissassema. É muito pouco, tendo em vista todos os ataques que fizemos aos seus quartéis. Quando os portugueses fogem de mais de vinte quartéis, avaliamos as oportunidades que perdemos de matar ou aprisionar um grande número de inimigos. A falta de vigilância, de constância e de perseverança é infelizmente um dos defeitos característicos de nossas forças armadas.”[7]

No entanto, se os fatores de desenvolvimento capitalista são desprezados, seus efeitos são desejados como se pode constatar pelas importações de luxo feitas pelas elites africanas. Some-se a isto o fato de que a pressão demográfica continua, particularmente, na zona do Sahel que há muito já rompeu o equilíbrio de uma população tecnologicamente primitiva com seu meio natural. Desde o pós-guerra, certas regiões do mundo subdesenvolvido se caracterizam pela alta da natalidade com mortalidade em queda devido ao maior acesso a vacinas e medicamentos, o que significa no final das contas, pelo abrupto aumento do crescimento vegetativo sem correspondente incremento da produtividade agrícola.

Crescimento demográfico, instituições sociais, imperialismo interno, pífio comércio externo, falta de produtividade, ausência de políticas sociais, discriminação e superexploração feminina... São alguns ‘detalhes’ sintomaticamente negados por quem ‘ensina’ a África para nossos alunos.

Além das ideologias

Aliás, entender a geopolítica regional (e a global) segundo categorias ideológicas se torna falacioso:

“O apoio da Argélia à Frente Polisário [no Marrocos] não é devido ao respeito excepcional ao direito dos povos à autodeterminação. Como explicar o apoio de israelense, até 1977, ao regime etíope que reivindica o marxismo-leninismo a não ser pelo interesse de Israel em não ver o mar Vermelho se tornar um lago árabe? Os interesses de Estado determinam as políticas. Do mesmo modo a China de Mao Zedong apoiava a FNLA e a União Nacional para Independência Total de Angola (UNITA), também ajudados pelos Estados Unidos e pelo Zaire [atual República Democrática do Congo] porque os dois movimentos se opunham ao MPLA, apoiado pela URSS. Se a dimensão ideológica fosse determinante, a FPLE teria sido apoiada pelos países ‘socialistas’”[8]

Da mesma forma é interessante observar a posição européia, aparentemente ambígua do ponto de vista ideológico. Quando os movimentos revolucionários africanos tinham ingrediente nacionalista era de se esperar algum apoio europeu. Mas, sua oposição aos regimes nacionalistas devido ao seu controle de capitais, os empurrava para a URSS, mesmo quando contrários ao marxismo-leninismo. Já os EUA e sua posição visceralmente contrária à influência soviética os tornava mais pragmáticos.

A ideologia é totalmente inócua para se entender a África. A geopolítica e a razão de estado é que a explica.

[1] Esta não deve ser analisada em números absolutos tão somente, mas, sobretudo na relação do contingente populacional com o meio natural e social em que se insere. Isto é, não se pode considerar deste ponto de vista o Japão um país superpopuloso, mas Bangladesh sim. Enquanto que o primeiro tem seus cidadãos provendo muito além de suas necessidades básicas, o segundo tem seu povo se esforçando para superar um limite de sobrevivência que o antepassado humano já garantira no Neolítico.[voltar]

[2] KAPLAN, Robert D. Os Confins da Terra: uma viagem na véspera do século 21. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 29.[voltar]

[3] Idem, pp. 25-26.[voltar]

[4] CHALIAND, Gérard. A Luta pela África: estratégias das potências. São Paulo: Brasiliense, 1982, p. 37.[voltar]

[5] Na Palestina são nove anos e em Uganda, 20. Cf. Ian Pearson. Atlas of the Future. MacMillan, EUA, 1998, p. 56.[voltar]

[6] Como chamavam a uma arma automática de fabricação soviética, o PPSM.[voltar]

[7] Amílcar Cabral apud CHALIAND. Op. cit., p. 52.[voltar]

[8] CHALIAND. Op. Cit., p. 47. [voltar]

A edição de 14 de setembro da Carta Capital não perdeu tempo em relacionar o furacão Katrina ao aquecimento global e a ‘deterioração do clima’. Procurando apoio para sua argumentação, a revista buscou um especialista da WWF. Sim, a mesma ong que até bem pouco tempo atrás afirmava que a Amazônia era o ‘pulmão do mundo’.

Sábado, 25 Junho 2005 21:00

Blizzard Filosófica

Passada a onda de responsabilizar a natureza por nossas próprias mazelas, como tem sido uma constante desde dezembro de 2004 após a tragédia asiática, algumas considerações sobre o fato se fazem necessárias.


"the inhabitant of the breast, the man within, the great judge and arbiter of our conduct"

 

Adam Smith

 

Passada a onda de responsabilizar a natureza por nossas próprias mazelas, como tem sido uma constante desde dezembro de 2004 após a tragédia asiática, algumas considerações sobre o fato se fazem necessárias.[1]

Especialistas em tsunamis[2]de Honolulu no Havaí enviaram um alerta para 26 países na bacia do Índico, entre os quais Tailândia e Indonésia que foram alguns dos mais atingidos pela devastadora onda em dezembro do ano passado. Pouco poderia ser feito nesse caso, mas na Índia, por exemplo, a onda destruidora chegou três horas depois do tremor verificado em Sumatra, uma das mais de 13 mil ilhas do arquipélago indonésio. Mesmo que a população residente na costa indiana não pudesse ser totalmente salva, milhares de pessoas poderiam ter escapado da morte.

O que isto tem a ver com filosofia? Na verdade, o que se pretende aqui é mostrar como a cegueira ideológica pode afetar o intelecto a ponto de se procurar, em vão, justificar a incompetência e o descaso político com a vida.

Descaso no Índico

Gary Becker e Richard Posner, conhecidos por sua defesa do liberalismo econômico, puseram o dedo na ferida ao indicar a corrupção e, sobretudo, malversação dos recursos públicos como um dos obstáculos para um plano de evacuação ou reconstrução das sociedades atingidas pelo cataclismo.[3]Isto bastou para que um conhecido professor de filosofia da USP os acusasse de preconceito.[4]

Se falar mal de países com alto índice de corrupção é “preconceito”, me permitam aqui expressar o meu: esta mentalidade é bastante parecida com certas manifestações de autoridades brasileiras que diziam não haver no Brasil um “poder paralelo” do crime organizado e hoje nós vemos como “ele não existe”. Assim como o atual governo tenta acalmar a sociedade com relação ao MST, uma verdadeira organização criminosa que tortura e mata, a probabilidade de ser assassinado por esta quadrilha travestida de “movimento social legítimo” é bem maior do que morrer afogado por uma tsunami na Ásia. Claro que para certos professores de filosofia ou não, é muito mais cômodo procurar ‘inimigos externos’, ‘conspirações direitistas’, ‘o grande capital internacional-monopolista-imperialista’, ‘os sábios do Sião’ ou os ‘marcianos’ do que tentar enxergar em nossa própria estrutura social essencialmente corrupta e um estado inchado e inepto que emana dela como o germe que espalha nossa epidemia de irresponsabilidade.

A ocorrência de tsunamis em outras áreas do planeta não é tão comum como no “Anel de Fogo do Pacífico” que apresenta uma grande área de instabilidade sísmica, com cerca de uma tsunami por década. Mas, há uma grande distância entre a baixa freqüência do fenômeno e este nunca ocorrer. Justamente, por se tratar de um fenômeno natural[5]é de se surpreender que as autoridades locais nunca tenham se empenhado em estabelecer planos de emergência.

Apesar de mais raras, tsunamis no Índico já ocorreram como em Bangladesh em 1762 ou na Índia em 1945, o que por si só já seria suficiente para que esses países testassem algum plano de evacuação e recuperação das áreas afetadas. Se não é possível deter uma tsunami, pelo menos se pode estar preparada para ela. Esta não é, no entanto, a opinião de autoridades da Índia, Tailândia ou Malásia que consideram os maremotos uma particularidade do oceano Pacífico. E, por “raro” entendesse uma por século, o que em termos geológicos é um sopro na vida do planeta.

A natureza extrema e seus cataclismos fazem parte do planeta.Furacões, choques entre frentes de ar tropicais e polares, tempestades de neve e tornados, inundações, secas, terremotos, erupções vulcânicas são interrupções contumazes do que chamamos de “normalidade” tomando parte no chamado “ciclo natural”.

O total de mortes no dia 26 de dezembro de 2004 ultrapassou a marca dos 150.000, no mesmo ano o terremoto de Bam no Irã matou 46.000, mais 20.000 feridos e outros 60.000 que perderam suas casas. O terremoto de Gujarat na Índia em 2001 levou mais de 20.000 para o túmulo e causou danos a mais 167.000. Noutra ordem de fenômeno, o furacão Mitch em 1998 na América Central vitimou 10.000 pessoas. Dezenas de milhares de pessoas morreram e outras mais tiveram suas vidas drasticamente afetadas e, o que fica evidente, especialmente em países pobres.

Por quê? Parece uma pergunta fácil de responder...

Não estou dizendo que estas tragédias não ocorrem em países desenvolvidos. Estou dizendo que os mais afetados devido a falta de infra-estrutura e organização social são as sociedades menos desenvolvidas econômica e institucionalmente.

Vejamos:

Maiores sismos do século XX

 

 

 

Magnitude

Mortes

1960

Sul do Chile

9,5

5.700

1964

Sul do Alaska (EUA)

9,2

131

1985

Michoacán (México)

8,1

9.500

1923

Tóquio (Japão)

7,9

142.810

1906

São Francisco (EUA)

7,7

3.000

1976

Tangshan (China)

7,4

655.000

1989

Loma Prieta (EUA)

7,0

62

1995

Kobe (Japão)

6,9

5.200

1994

Northridge (EUA)

6,7

60

Fonte: National Geographic Society. Restless Earth: Disasters of Nature. Washington D.C., 1997.

 

Claro que o saldo de mortes no Alaska não serve como termo de comparação devido à baixa densidade demográfica local. Mas, os desastres no Japão são altamente elucidativos, ambos em localidades extremamente povoadas, no qual Kobe apresentou cerca de 27 vezes menos vítimas. Isto é fruto de desenvolvimento da engenharia para impacto e preparo através de estudos geofísicos. E, como sabemos, há uma brutal diferença de desenvolvimento social e institucional do Japão anterior e posterior a II Guerra Mundial.

Se tomarmos os próprios países ricos, dependendo das políticas adotadas também há significativas diferenças. 20.000 pessoas morreram na Europa em 2003 pela onda de calor, o que não levou a mesma taxa de óbitos em latitudes próximas do outro lado do Atlântico. O climatologista Patrick J. Michaels disse na Fox News (20/08/03) que as temperaturas médias de verão em Paris são similares à Detroit, Chicago ou Denver. Qual a diferença dos EUA para com a França, então? Por que estariam morrendo mais no velho continente, por um aumento de temperatura? Simples. No país europeu, o ar-condicionado tem se tornado cada vez mais raro.Mas, como se a França não é um país pobre? Pobre não é, talvez menos lúcido. Baseado na mitologia do aquecimento global como retratado pelas ONGs ambientalistas, a França, assim como o conjunto da União Européia, impôs taxas maiores de consumo energético para sua redução. Seus custos na “Gloriosa França” são 25% maiores que nos EUA. Como a renda também é menor neste país europeu, comparativamente aos EUA, o custo da eletricidade é muito alto. Bem, não se pode dizer que os ambientalistas não estejam atingindo seus objetivos: reduzem o consumo energético sim ao consumir vidas.

Diferentemente do clima que segue padrões mais difusos, a movimentação de placas tectônicas tem padrões bem reconhecidos mundialmente, sendo mais fácil de prever a probabilidade de sua ocorrência. Seja na ilha de Sumatra, na Índia, Sri Lanka ou Tailândia há vários indícios que apontam para um sismo de grande magnitude como o que ocorreu. O fato é que nem essas pesquisas apresentam um histórico coerente na região, nem planos de evacuação têm sido tentados.[6]

Imagine os ganhos desse estudo para a própria educação. Crianças são fascinadas por extremos naturais. É plenamente possível integrar aí estudos de física, química, biologia ou matemática. No entanto, a saída mais fácil é esperar pela ajuda posterior de organizações não governamentais via Banco Mundial.

Corrupção econômica e mental

Bem, vamos ao ponto que gostaria de comentar: o professor de filosofia da USP, Renato Janine Ribeiro em matéria ao jornal Valor Econômico de 21 de janeiro passado acusou os críticos do envio de dinheiro para os países atingidos de preconceito. Seu argumento é que países tipicamente corruptos como a Indonésia, não tinham soberania total, uma vez que suas ditaduras eram apoiadas pelos EUA nos jogos de poder da Guerra Fria.

Não obstante, documento publicado pela Transparência Internacional em 2002 revela a freqüência com que são pagas propinas nos paises da Ásia Meridional para se ter acesso a simples serviços públicos. Isto ocorre com mais da metade dos usuários de hospitais públicos em Bangladesh, assim como 92% dos paquistaneses entrevistados tiveram que paga-las para ter direito ao “ensino público”. Trata-se de uma região onde 45% de uma população de 1,4 bilhão vivem na pobreza. Pobreza cujos parcos recursos são extorquidos justamente pelos funcionários públicos. Não se trata de crimes de “colarinho branco”, entendo estes como funcionários mais graduados, mas de servidores do baixo e médio escalão.

Estranho também que, para o filósofo da USP não haja nenhuma, mas nenhuma mesmo, consideração aos portugueses chegados no século XVI ou aos holandeses que permaneceram no arquipélago por 350 anos, transformando uma parte das ilhas em base de exportação de produtos primários. Nem mesmo se fala da influência japonesa durante a II Guerra Mundial que levou a seu nacionalismo. E, como sabemos, o “nacionalismo” – me refiro ao tipo “estatizante” -, normalmente, vem associado a uma boa dose de despotismo e, portanto, corrupção. Também seria demais esperar que a tentativa de golpe comunista em 1965 fosse lembrada. Nos anos 70, as relações com o Ocidente são fortalecidas sim, mas também os laços comerciais com a China. Fatos como estes mostram que, se procurarmos detidamente por “influências externas” para justificar qualquer corrupção, elas teriam várias origens. Haveria vários fatores indutores externos da corrupção se fossemos seguir a lógica de Renato Janine. Mas, por que ele considera apenas uma? E, arbitrariamente, a ligação com os EUA? Qual critério para elege-la como superior em má influência? O PIB do país envolvido diplomaticamente com a Indonésia seria uma prova por si só? Por que não considerar também os US$ 53 bilhões de ajuda externa do FMI ao país por ocasião da crise econômica asiática em 1997 como outra “fonte de corrupção”? Mas, como são as economias atingidas pela tsunami?

Uma maneira eficaz de analisar isto, que vai além do IDH adotado pela ONU que só vê conseqüências sem analisar causas, é pelo ILE – Índice de Liberdade Econômica – do Heritage Foundation. As notas variam de 1 a 5, sendo o primeiro uma economia aberta, e o segundo fechada. A, por exemplo, Indonésia fica com 3,54; a Malásia com 2,96; Tailândia com 2,98; Sri Lanka com 3,08; Índia com 3,53.

Outro indicador interessante para cruzarmos com os dados anteriores é o Índice de Percepção de Corrupção (CPI) avaliado pela Transparência Internacional. Segundo dados de 2004, os países atingidos pela tsunami atingem os seguintes scores: Malásia em 39a posição; Tailândia em 64a; Sri Lanka em 67a; Índia em 90a; Indonésia em 133a.[7]

Como se percebe, há uma nítida correlação entre economia fechada e corrupção. Mas, será que o filósofo da USP, de posse desses dados ainda sustentaria que a corrupção foi mero fomento americano? Isto permanecerá uma incógnita. Mas, digamos que concordamos com sua “lógica”. Se assim for então, a Indonésia só se tornou corrupta devido à influência do Pentágono. Seria mais viável crer que, justamente, pela corrupção que é tão endógena quanto a convergência entre placas tectônicas naquela região, é que um governo se submete aos desígnios dos planos e estratagemas de outro.

Renato Janine quer que acreditemos que uma civilização de 2.500 anos age prontamente sob a hegemonia de um país à milhares de quilômetros de distância. Teria brotado a corrupção, como que por encanto, a partir do momento que as exportações indonésias começaram a afluir oceano adentro.

Figurativamente, este tipo de “raciocínio” é tão peculiar quanto um cão correndo atrás do próprio rabo. É como se buscássemos atacar outro ser, enquanto que “ele” faz parte de nós mesmos...

Como diz a sabedoria popular “quando um não quer, dois não fazem”, exceto em se tratar de um caso de estupro, completamos. Mas, para esta metáfora corresponder à realidade teria que haver uma verdadeira violação territorial, isto é, uma invasão ou anexação, o que não foi o caso EUA-Indonésia. Ou o filósofo ignora por completo as aulas de lógica ministradas em sua faculdade ou o ditador Suharto foi abduzido por algum O.V.N.I. cooptado pela NASA e sofrido com uma lavagem cerebral.

Com rara humildade para nossos departamentos de filosofia, eu sugeriria outra questão: o que regimes democráticos e economias liberais têm a ensinar sobre o desastre?

Liberalismo e assistência social

Questões como esta já foram postas por Adam Smith em 1759. Contrariamente ao que muitos poderiam supor, o economista não endossava o “individualismo econômico” neste caso específico.A idéia de assistência, especialmente em situações calamitosas como a da Ásia, era endossada pelo economista. Não se trata de contradição no pensamento liberal. A ação individual para Adam Smith é decorrente da consciência moral individual, do indivíduo como seu próprio maior juiz. Este era seu maior pressuposto. Esta virtude é, normalmente, tomada em função do interesse pessoal, mas também era aplicada à benevolência e justiça. Para o pai da economia clássica, a virtude cívica era um dos fundamentos necessários ao desenvolvimento econômico, social e político.

Não se pode fazer uma análise da eficácia das sociedades atingidas pela tsunami sem levar em consideração outro tipo de capital: o moral. São os “hábitos, tradições, usos, costumes, atitudes e ações, fruto da herança acumulada durante gerações na sociedade ocidental”, como bem diz Ubiratan Jorge Iorio que formaram a base de nossa civilização. Sem o próprio envolvimento das comunidades atingidas no sentido de tentar se preparar para incidentes naturais ou não, qualquer plano de assistência, mesmo com apoio externo, não tem muitas chances de ser bem sucedido, exceto se tiver foco em apenas objetivos limitados e de curto prazo.[8]

Outro ponto importante, é que a solidariedade às vítimas de uma tragédia não conflita com o liberalismo econômico desde que, é claro, não seja uma “solidariedade compulsória”, ou seja, algo que o Estado defina como e quando (no caso, quanto também) deve se manifestar.

Para oportunistas e cegos terceiro-mundistas, o plano de assistência às vítimas se resume a uma questão financeira, não tardou para que acusassem os EUA de estar contribuindo aquém do que poderia fazer. Embora, a imediata contribuição governamental por parte deste país, tenha perdido somente para a do Japão, espera-se quase duplicar a quantia. Ainda se destinou mais a instituições filantrópicas e apoio logístico e de infra-estrutura. Estes foram até agora, a maior ajuda externa: 12.600 assistentes, 21 barcos, 14 aviões e mais de 90 helicópteros. Isto, sem contar as doações privadas que, junto com a Alemanha, foram as maiores. Já, países que clamam tanto pelo “social” e que tem simbólicos militantes anti-globalização como a França contribuíram bem menos.

O foco agora tem sido apenas quanto dinheiro é necessário para a reconstrução desses países. Como era de se esperar, o oportunismo toma a popa deste movimento. E ações internacionais que poderiam induzir a uma maior autonomia das nações para administrar seus problemas são colocadas de escanteio. Me refiro, especificamente, ao ajuste fiscal cortando, literalmente, gastos administrativos com pessoal e aposentadorias especiais para maior investimento no básico, a educação. Bem como extirpar o nacionalismo do tipo xenófobo e estatizante para incorporar mais investimentos (multinacionais ou não) a sua base produtiva. É interessante notarmos o que ocorreu nesse sentido, nos últimos 40 anos. Países como Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e o território de Hong Kong saltaram um abismo que para a maioria dos latino-americanos, dotados de mais recursos físicos, ainda parece intransponível.

Analisando em conjunto estas duas regiões do globo (Leste Asiático e América Latina) se vê que o estágio inicial de desenvolvimento não diz muito se as ações definitivas, como a importação tecnológica e aplicação das pesquisas não forem tomadas. Neste ponto é que um “nacionalismo positivo e integrador” se faz necessário, ao criar um caldo de cultura através do processo educacional que elimine os particularismos etno-tribais.[9]

Provisionar água, comida e cuidados médicos, apesar do enorme esforço para uma área tão grande, não poderia ser mais complicado se levarmos em consideração que se trata de países onde as clivagens étnicas e religiosas são enormes e mesmo após o tsunami, a luta pelo poder entre elas continua. Ao contrário do que poderia se supor, o cataclisma natural não criou uma sinergia entre as facções políticas, mas acirrou a luta pelo espólio.

E creio que se não fossem os crescentes laços econômicos entre o Ocidente e a Ásia através da bacia do Pacífico, a ajuda não seria tão imediata. Claro que não estou dizendo que se deve, exclusivamente, a isto, mas uma boa dose de interesse próprio (e mútuo) contribuiu para a ajuda internacional. A verdadeira parceria tem o comércio externo como esteio.

E, o que se pode esperar para o futuro? A resposta comportamental das populações da Ásia meridional será a que sempre houve: proliferar através da procriação com uma das taxas de crescimento vegetativo mais altas do globo. E, continuarão, construindo suas habitações junto às áreas de risco.

As opções entre construir nas mesmas áreas de risco e concentrar atividades vulneráveis aí também ou sua regulação e exclusão em áreas de desastres potenciais, terá a primeira como vencedora. A própria população considera, tacitamente, o risco como parte integrante de suas ações.

Muitos entendem que pouco poderia ser feito, mas não é bem assim. Como disse Gary Becker, “uma combinação de educação para os residentes das áreas costeiras aos sinais de surgimento de uma tsunami (tremores e repentina recessão do oceano), estabelecendo um sistema de aviso envolvendo programas de rádio emergenciais, avisos telefônicos e sirenes provavelmente diminuiria o saldo de mortes no desastre. A questão que se põe agora é: realocar a população nas áreas atingidas teria o custo suplantado pelo benefício?”

Por que, no entanto, não há antecipação de uma tsunami na escala que ocorreu? Esta é para Posner, a questão chave. Ela é uma conseqüência comum de maremotos. Há várias razões subjacentes:

- Primeiro, as tsunamis ocorrem uma vez por século em média. Também tem sido mais difícil sua ocorrência na primeira década de cada século. Os políticos costumam trabalhar com perspectiva de curto e médio prazos, que correspondem a suas carreiras, enquanto que estamos falando de fenômenos de longuíssimo prazo.

- Segundo, para estender uma ação de precauções efetivas se requer ação governamental e o fato de que o governo é um sistema centralizado de controle torna difícil aos representantes uma resposta abrangente aos possíveis riscos e seus custos. Fica mais fácil tributar nas contas de alguma divindade... Dentre todas as matérias que o governo tem que atender, as menos prováveis ficam em segundo plano sendo, freqüentemente, ignoradas.

- Terceiro, os riscos se dissipam em escalas regionais ou globais, enquanto que nos países pobres a maior parte dos recursos é alocada nas áreas mais ricas.

- Quarto e fundamental – exceto, talvez para a filosofia uspiana...-, tais países são freqüentemente pobres devido a um governo fraco, ineficiente e corrupto.

- Quinto, as pessoas têm dificuldade na tomada de decisões em cima de probabilidades. No presente momento histórico, as medidas adotadas com freqüência para reduzir os efeitos de desastres similares no Pacífico têm poucas chances de serem adotadas no Índico.

Não se trata de estigmatizar a Ásia Meridional como incompetente. Há quem acuse os EUA do mesmo defeito em outros setores. Um paralelo pode ser traçado entre as nações asiáticas e sua preocupação com a realidade sísmica com o que a pesquisa com a probabilidade de impacto de meteoros na Terra pelos EUA. Do orçamento anual da NASA (US$ 10 bilhões), US$ 4 milhões por ano são gastos com o mapeamento de rotas perigosas de asteróides. Há quem ache que, pela gravidade do problema, esta cifra também é pequena.

Voltando para o espaço terrestre, o que se pode fazer?

Tomando as rédeas

Críticos da ação internacional têm clamado apenas por mais e mais recursos. Mas, estes críticos têm noção de como se faz? Ou acham que se trata apenas de fazer um depósito numa conta corrente no exterior para publicar o feito? Se as medidas corretas não são tomadas, este pode ser mais um plano fracassado do tipo que a ONU é tão experiente. Como jogar alimentos de pára-quedas para que lideranças guerrilheiras barganhem os donativos com os flagelados. É mais do que dinheiro, isto envolve diagnóstico, plano e ação coordenados:

- Fase 1. Durante os minutos e horas que passam após a onda destruidora, a ajuda se concentra na ação mútua e aleatória de salvamento. Um barco que pode ser utilizado. Recolher pessoas empoleiradas em galhos de árvores, um telhado que sobrou etc. Vasculhar corpos na lama também se torna uma das atividades corriqueiras, providenciando cuidados médicos básicos e apoio emocional.

- Fase 2. Em seguida, o que pode variar de horas a dias, vêm a atenção com necessidades básicas como tratar feridos, fornecer alimento, água e algum saneamento básico para os casos prioritários.

- Fase 3. Em terceiro, o que leva de dias a semanas, tratar dos corpos, o que implica em reconhecer as particularidades ritualísticas de cada culto. Se pode ou não haver cremação etc. Identificação das vítimas, redução de danos em residências instáveis e infra-estrutura.

- Fase 4. Por fim, a maratona que levará de semanas a anos, ou seja, a própria reconstrução. A economia, suas comunidades e instituições como escolas, serviços públicos têm que ser reerguidos. As conseqüências emocionais do trauma mostram que não apenas a reconstrução física é necessária.

Uma das formas mais efetivas de tentar reconstruir a sociedade é criar um Sistema de Manejo de Incidentes que inclua uma organização temporária com capacidade de financiamento, planejamento, operação e logística. Isto abarca:

1. comando operacional (delegando atividades).

2. grupo de planejamento (desenvolvendo planos para o próximo “ciclo operacional” de horas, dias ou semanas).

3. rupo logístico (organizando o movimento de pessoas e material em áreas de ação).

4. grupo de financiamento (captando apoiadores e trabalhadores voluntários e empregados).

5. grupo de comunicação pública (mantendo os constituintes bem informados dos passos das operações).

Muito disto pode ser aprendido com as agências federais americanas, como por exemplo, os planos de combate à incêndios da Agência Florestal dos EUA.[10]

Evidentemente que o ocorrido no sul da Ásia apresenta complicadores, como a quantidade de países afetados e a distância entre as localidades. Ou as múltiplas e confusas jurisdições que envolvem a área do cataclisma. Imagine o que priorizar, as áreas com acidentes mais drásticos ou as melhor servidas de infra-estrutura rodoviária, se não se tratarem das mesmas? Por vezes, a decisão envolve critérios técnicos e aí, o filantropo que quer ajudar passa ao papel de “insensível” ou, na melhor das hipóteses, de “incompetente”.

Um outro fator complicador que não é raro nesta parte do mundo é sua instabilidade política. Neste tipo de ocorrência, normalmente as pessoas aceitam a liderança de quem se apresenta melhor preparado tecnicamente, indistintamente de sua filiação política, raça ou credo. Mas, neste caso, os povos atingidos não raro, têm suas expectativas operando em outras bases. Várias áreas afetadas pertencem a diferentes grupos em conflito que devem ser consultados em suas prioridades. Ter que atender a um grupo dominante, embora menos atingido ou um cacique local antes daqueles mais atingidos pode parecer uma injustiça, mas se torna, muitas vezes, recomendável se não se pretende piorar as coisas.

Não estamos falando somente dos 150.000 mortos e centenas de milhares de feridos, pois tal tipo de ação de apoio a reconstrução envolve muitos outros elementos. Enquanto que, a maior parte dos desastres costuma ser geograficamente concentrada, este tipo de tragédia tem seus efeitos descentralizados ao longo de milhares de localidades costeiras. Se a zona de impacto forma um anel incompleto, é razoável supor que a ajuda internacional comece num ponto e termine noutro. Mas, pode não ser assim, pois vários pontos tiveram alto impacto e iniciar por um país em detrimento de outro implica em privilegiar alguém, mesmo que não seja esta a intenção. Desta forma se angariaria mais problemas na decorrência da ajuda internacional.

Também não podem ser ignorados fatores físicos, como a variação topográfica dos terrenos leva a danos apenas costeiros por vezes, mas em alguns casos (em planícies que se alongam interior adentro) as ondas podem ter entrado quilômetros a partir da costa. Pequenas diferenças no nível do mar (regiões mais aquecidas têm nível do oceano mais baixo que outras devido a maior evaporação) implicam em impactos bastante diferenciados, com grande diferencial das inundações.

Assim como a natureza da distribuição demográfica é amplamente variada, às vezes se concentrando em áreas costeiras ou em elevações, a capacidade de ajuda às vítimas também varia enormemente de um lugar para outro. A Índia apresenta uma estrutura mais preparada para socorro enquanto que a ilha indonésia de Sumatra que, além de ser mais pobre teve grande parte de sua infra-estrutura atingida.

E, como se tudo isto não bastasse, as incertezas jurídicas com diferentes centros de comando (governos federais, governos locais, polícia, exército, EUA, agências humanitárias locais, grupos comunitários, ONGs, ONU etc.) formam uma ampla base para confusão, ressentimentos ou conflitos.

Este é um pequeno panorama das dificuldades e proposições de um plano de ajuda internacional para uma área de tamanha extensão. Podemos ter uma vaga noção das dificuldades e implicações de uma plano de ajuda internacional ou, simplesmente, crer que as nações atingidas não conseguem elaborar por si próprias sua reconstrução por que foram corrompidas por potências estrangeiras, como querem certos filósofos. Filósofos que não tiveram suas mentes lavadas por nenhuma onda gigantesca e avassaladora, mas que estão cegos por uma tempestade polar, cegos por uma blizzard filosófica.

 

 


 

[1]A pior matéria nesse sentido me pareceu a da revista Terra (março de 2005), cujo sugestivo título de capa foi “Natureza X Homem: uma guerra sem trégua”. À página 61, uma meteorologista, Caarem Studzinski é entrevistada e além de concluir “originalmente” o “aumento do número de fatalidades nas últimas décadas” tem ocorrido pela “questão do clima, alterado pela atividade humana” num acesso de “clarividência mitológica ambientalista”, ainda afirma que “essa tragédia asiática só teve destaque imediato na mídia porque havia suecos e outros europeus entre as vítimas” (p. 48). A meteorologista compara com o mesmo fenômeno que atingiu Papua Nova Guiné em 1998 dizendo que foi dado pouco destaque para este. Embora a tragédia do ano passado tenha vitimado cerca de cem vezes mais vidas, isto não é suficiente para a meteorologista. E, se o critério for repercussão na mídia, uma rápida pesquisa no buscador Google mostra, aproximadamente, 1.230.000 links sobre o incidente. Eu próprio fiquei sabendo do mesmo pela tv. O que queria a meteorologista? Informações por mala-direta? Sintomático também o mau-caráter da revista ao entrevistar uma meteorologista numa matéria cuja tônica é um fenômeno geofísico. Simples de entender, pois se entrevistasse um geofísico, o que este poderia acusar na atividade humana responsabilidade pelos sismos? Nada. Daí, não haveria como dramatizar mais o tema. Também perderia a “graça” e as vendas do periódico panfletário.

[2]Muito se falou da altura da tsunami, mas uma informação adicional pode ser reveladora da real extensão do problema: a distância entre uma crista e outra de uma tsunami pode chegar a 800 km, com variações de 10 a 60 minutos. No oceano aberto, a velocidade da tsunami depende do nível batimétrico (profundidade oceânica): com 150 metros, ela pode chegar a 140 km/h, enquanto que com 4.600 metros, a velocidade atingida é de 780 km/h. In: VOSS, Gilbert L. Oceanography. New York: Western Publishing Co., 1972, pp. 64-65.

[3]Cyro F. Andrade. “A economia política do tsunami.” Valor Econômico – 14/01/2005.

[4]Renato Janine Ribeiro. “A economia política do preconceito.” Valor Econômico – 21/01/2005.

[5]Embora nosso presidente tenha sugerido que ele ocorra devido a interferência humana e ainda em discurso na cidade de Guarulhos, trocou a sísmica pela meteorologia: "Nós sofremos muito em 2003, vocês acompanharam o sofrimento, porque peguei uma casa depois de um vendaval, como aquele que deu na Ásia".

[6]À propósito, conferir “Andrew C. Revkin. “Ondas são previsíveis, afirma especialista.” New York Times.

[7]A Filândia figura na primeira posição como menos corrupta e os países empatados na última posição (145a) são Haiti e Bangladesh.

[8]Observem que os críticos do capitalismo e dos valores da civilização ocidental gostam de chamar atenção para as privatizações na esfera econômica como atentando contra o patrimônio público, o “espírito público”, a “coisa pública” etc. Mas, o que é público decorre, justamente, da base cultural de uma sociedade. Não é algo que esteja apenas, formalmente, assinalado em qualquer lei se não detiver correspondência por parte da sociedade. Na medida em que sociedades centralmente planejadas, em grau maior ou menor de autoritarismo (socialismo, social-democracia etc.) alienam a população de sua participação e organização ao impingir ordens e regulações a partir de um ente pretensamente superior, o estado. Aí sim é que temos a ausência de domínio sobre o que é público pelos cidadãos. Cidadania, portanto, é o oposto do que definem os socialistas, pois significa dominar o que é público e não se submeter a ele.

[9]A África Subsaariana, a região mais pobre do globo, freqüentemente é alvo de sugestões desenvolvimentistas pautadas na maior ingerência estatal. O principal condicionante de desenvolvimento que é a educação tem que chance real de se enraizar nesta parte do planeta? Como países com dezenas de idiomas e dialetos podem, para começo de conversa, elaborar um simples plano de alfabetização se não adotarem um idioma neutro entre os diversos grupos tribais e clãs? Por “idioma neutro”, a solução mais viável tem sido a adoção do idioma do antigo colonizador. E, para efetiva-lo com uma infra-estrutura que atenda a todos, só se torna possível com uma maior taxa de urbanização, isto é, quando a maioria dos africanos tiver abandonada sua lida rural e migrado para a cidade onde, bem ou mal, existem escolas. Se a África seguir, por oposto, os planos de ambientalistas que pretendem amalgama-los a um status “ambientalmente correto”, ligado a economia primitiva e o esterco, como principal fonte energética, o desenvolvimento não passará de uma quimera. Os africanos deveriam, como já sugeriu Edward H. Wolff, bradar “Greenpeace, go home!”

[10]Veja a proposta do presidente Bush para este caso específico em Bushfire.

Quarta, 01 Junho 2005 21:00

Todo dia é dia de índio – final

Certa vez, quando era diretor do Parque Indígena do Xingu, Possuelo viu uma índia grávida aproximar-se do posto da Funai. Ela estava em trabalho de parto e precisava de ajuda. Mas o filho não tinha pai e, portanto, seria enterrado vivo, como rezava a tradição. Possuelo propôs um trato: ficaria com a criança e, em troca, daria à mãe redes e uma espingarda. A índia topou...

Quarta, 18 Maio 2005 21:00

Todo Dia é Dia de Índio - I

Há vários tipos de comunidades indígenas: desde aquela na qual o índio caça para subsistir e aquela onde toma seu helicóptero para averiguar seus negócios nos centros urbanos mais próximos ou até aquela que manda chacinar garimpeiros.

É necessário acabar com o subsídio que alimenta a vida ociosa, fútil e de mente estéril dos estudantes que se tornarão deputados prometendo favores, perdoando criminosos e fazendo escárnio do direito de viver de suas vítimas. © 2005 MidiaSemMascara.org

Debate promovido pela TV Assembléia paulista demonstra que em relação a segurança pública, a demagogia socialista continua mais forte do que a realidade dos fatos.

Notícia ruim vende, não é uma novidade. Mas tem sido uma novidade que cada vez mais, professores e especialistas tenham proferido informações alarmistas e análises metodologicamente falhas, pondo em cheque sua própria capacidade de experts.

Segunda, 17 Janeiro 2005 22:00

Dogmas Científicos

A revista Galileu tem se empenhado em divulgar conhecimento científico através de simplificações grosseiras. E, como está na moda, de tabela, estabelecer uma crítica a religião. Além de ser estranho que isto só valha para o Cristianismo (não me lembro de nenhuma crítica explícita ao Islamismo ou ao Hinduísmo, por exemplo), o modo como fazem defender a ciência é, no mínimo, dogmático.

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