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Ubiratan Iorio

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

Quarta, 08 Agosto 2007 21:00

O Letes do Caribe

Porque o “paraíso” cubano – a Disneylândia da esquerda - nada tem de paraíso. Está mais para um presídio leteu, encravado nas margens do Letes, um dos cinco rios do Inferno mitológico!

Em todas as competições esportivas internacionais de que Cuba participa, atletas daquele país escafedem-se da concentração, desaparecem por algum tempo e depois pedem asilo político ao país que organiza o evento. Nos Jogos Pan-Americanos recentemente realizados no Rio não foi diferente, a ponto do ditador-irmão-substituto, Raul Castro, após mais algumas dessas fugas e com medo de novas deserções, ter ordenado que a delegação antecipasse o seu retorno ao país, antes mesmo de receber as medalhas do basquete, embora, naturalmente, negasse com veemência a medida. É óbvio que precisava negar, para não passar recibo.

Até um obstinado carrapato agarrado a um esquálido jegue pastando placidamente em Garanhuns sabe a razão das fugas, mas os pretensos intelectuais tupiniquins e uma parte de nossa mídia teimam em apresentar a ilha-presídio comandada há meio século pelo mesmo ditador como um paraíso caribenho, um exemplo de “democracia popular” a ser imitado e implantado não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. Conforme os documentos do Foro de São Paulo e as ações da atual política externa de Amorim e do obsceno senhor Garcia estão aí para atestar, o sonho-pesadelo do risível Hugo Chávez, sorrateiramente acalentado pelas chamadas cabeças pensantes (sic) do petismo e das esquerdas latino-americanas, é remontar aqui uma réplica da antiga URSS. Parecem torcedores do São Cristóvão, campeão carioca de 1926...

O que leva nossa intelectualidade ballantines a continuar pintando o regime decrépito e comatoso de Cuba com as cores do paraíso, quando na realidade é um inferno, ao qual cabe perfeitamente o dístico de Dante, lasciate ogni speranza, voi ch´entrate? Hayek, em “Intellectuals and Socialism” e Mises, em diversos artigos e livros, esquadrinharam essa doença que acomete muitas pessoas bafejadas pela fama e sucesso, que as leva a adotarem o socialismo como um escudo, para simularem que, “apesar” de ricos (resultado que apenas reflete sua aptidão natural), preocupam-se com os “excluídos”. A explicação está muito mais nos meandros da psicologia do que nas frias escolhas da teoria econômica, despida de capacidade de mergulhar na alma humana. Sentindo-se, de alguma forma, culpadas pelo próprio sucesso, quando deveriam estar felizes com os resultados de seu trabalho e talento, precisam dar uma “explicação” para o seu êxito, até mesmo para que possam continuar a usufruir as delícias mundanas da fama, e o fazem apoiando o socialismo e, naturalmente, o cruel regime cubano. Assim, a massa ignorante - que não sabe discernir igualdade de oportunidades de igualdade por decreto -, os vê com bons olhos.

Os atletas de Cuba podem ser mal educados, mas são, em geral, excepcionais. Não mais do que os nossos, só que, como em qualquer ditadura que se preze, lá o Estado trata os esportes como uma questão política, de afirmação da pretensa superioridade do regime. Daí o seu sucesso e as suas medalhas. Mas quem se apropria de suas suadas vitórias, a não ser os que mandam no país? De que adianta você, amigo leitor, bater um recorde mundial em sua modalidade, se, ao retornar à sua casa, mesmo tendo comprovado o seu talento e vendo coroado de êxito o seu esforço, vai continuar a ter direito aos mesmos quatro ovos de galinha mensais que o governo estabelece como cota para todos? É óbvio que, na primeira oportunidade, após pesar custos e benefícios da decisão de pedir asilo no exterior, muitos decidem que o custo de ficar longe da pátria, da família e dos amigos é inferior ao benefício da liberdade e do êxito que podem obter no estrangeiro. Estes são os motivos das fugas. Não há outros. Se alguém com memória melhor do que a minha conseguir apontar algum caso de um vietnamita do sul que fugiu para o Vietnã do Norte, de um ex-alemão ocidental que se evadiu para a antiga Alemanha comunista, de um coreano do sul que escapou para o norte ou de um norte-americano que buscou asilo em Cuba, darei o braço a torcer.

Porque o “paraíso” cubano – a Disneylândia da esquerda - nada tem de paraíso. Está mais para um presídio leteu, encravado nas margens do Letes, um dos cinco rios do Inferno mitológico!

Segunda, 30 Julho 2007 21:00

Os Limites da Incompetência

Até quando a inépcia de um governo formado por pessoas despreparadas e por indicações meramente políticas de quem não entende do assunto e não sabe tomar decisões vai continuar ceifando vidas inocentes?

Após dez meses de indecisões, de dois desastres de proporções gigantescas, de declarações desencontradas dos responsáveis pela quase dezena de órgãos existentes hoje em nossa aviação civil, de deboches dos fantoches do Planalto ocupantes de cargos de ministros, de desconsideração das empresas aéreas para com os passageiros, de insubordinações de controladores de vôos, enfim, depois de quase um ano de demonstrações quase que diárias de incompetência por parte do governo federal, o que podemos esperar?

Até quando a inépcia de um governo formado por pessoas despreparadas e por indicações meramente políticas de quem não entende do assunto e não sabe tomar decisões vai continuar ceifando vidas inocentes? E até que ponto de desespero o despreparo oficial vai manter sob estado de permanente tensão os milhões de passageiros das aeronaves que cruzam – quando decolam - nossos céus que deixaram de ser de brigadeiro?

Anac, Infraero, DCEA, Cindacta, Ministério da Defesa, Comando da Aeronáutica, CONAC... A sopa de letras e siglas soa inexaurível, como sem fim é o sofrimento dos familiares das vítimas dos dois acidentes e inesgotável o dos usuários de nossos aeroportos com essa intolerável situação! Com tantas letras, afinal, quem controla o que e quem manda em quem? A impressão que se tem é que ninguém comanda ninguém, cada responsável pelos diversos órgãos diz o que lhe vem à telha – e isto quando se digna de dizer alguma coisa – e que, pelo andar da carruagem, o caos, tantas vezes negado quanto tantas confirmado pelos fatos, não tem data marcada para terminar. Para este governo, incompetência parece não ter limites.

O que pensar de um governo que, na mesma semana em que duzentas pessoas perderam tragicamente suas vidas, ousou condecorar com uma medalha “por bons serviços prestados à aviação brasileira” o presidente da Anac, um engenheiro especializado em turismo, colocado no cargo por ser politicamente ligado ao PT, que não pode ser demitido e que só pode largar o posto caso um ressaibo de remorso o faça a ele renunciar? De um governo cuja ministra do Turismo, há cerca de um mês, sugeriu aos passageiros que adotassem atitudes que alguém do primeiro escalão não pode sugerir? De um mesmo governo cujo mentor de nossa política externa terceiro-mundista, na companhia de um assessor, comemorou a notícia de que o avião da TAM estaria com um defeito com gestos obscenos? O que diriam disso os pioneiros de nossa aviação comercial, os fundadores da Varig, da Transbrasil e o comandante Rolim, da própria TAM, por exemplo, caso ainda vivessem? Certamente, devolveriam as próprias medalhas.

Este pandemônio não pode continuar sendo tolerado pelos brasileiros. O mercado de aviação civil no Brasil está mais concentrado que há alguns anos atrás: a rigor, está nas mãos de duas empresas e a solução seria abri-lo à competição com as companhias estrangeiras, o que geraria ganhos para os consumidores, tanto em termos de tarifas mais baixas quanto de liberdade de escolha. Os aeroportos – que são um bom negócio em termos econômicos – permanecem nas mãos do Estado, quando urge que sejam privatizados mediante concessões, tal como ocorreu com algumas rodovias. Os órgãos que compõem a sopa de letras estão inflados de “companheiros” que entendem tanto de aviação quanto um cupim de mecânica quântica. Alguns devem, simplesmente, ser extintos; outros necessitam passar por um processo severo de despolitização e fusão, passando a obedecer a um só comando, subordinado à Aeronáutica e formado por pessoal técnico oriundo da Força Aérea e das próprias empresas do setor.

Parece evidente que a troca do ministro da Defesa, embora tardia, não será suficiente para acabar com a crise, porque aviação não é a área do novo ministro e porque seu nome representa, apenas, mais uma dentre tantas escolhas políticas, em detrimento de uma decisão técnica. Talvez o presidente, quem sabe, o tenha escolhido por ter sobrenome de aeroporto internacional?

Terça, 24 Julho 2007 21:00

Vovô Ouviu as Vaias...

Poucas coisas apavoram tanto os políticos populistas e demagogos quanto o apupo, a vaia, o motejo e a assuada do povo que eles imaginam adorá-los.

Poucas coisas apavoram tanto os políticos populistas e demagogos quanto o apupo, a vaia, o motejo e a assuada do povo que eles imaginam adorá-los. O episódio em que o presidente foi vaiado seis vezes, na abertura do Pan do Rio, com uma nitidez que não passou despercebida nem aos ouvidos de 97 anos de meu querido sogro e amigo, retrata fielmente duas artimanhas de que o populismo de esquerda sempre se valeu. A primeira, repetir exaustivamente uma tolice, até transformá-la em verdade inquestionável, que passa então a ser repetida, sem qualquer reflexão, por milhões de papagaios, e a segunda, sempre que pressionada por adversários, colocar qualquer argumento racional no armário e partir para o ataque, na tentativa de desqualificar o oponente.

A estultice que acabou adquirindo ar de verdade irretorquível é a de que apenas governos de esquerda seriam “populares e democráticos”. Aquelas vaias, por si, desqualificaram essa baboseira. Mostraram que nosso presidente - desprovido de espírito esportivo e acostumado à inebriante exaltação dos áulicos de plantão -, não é tão popular como apregoam seus defensores e revelaram também que ele e seus assessores imediatos nada têm de democráticos, até pelo contrário, apresentam muitas dificuldades para tolerar a divergência, o que explica a quebra de um protocolo que vinha sendo respeitado há 56 anos, segundo o qual sempre coube ao presidente anfitrião declarar abertos os jogos. Vovô ouviu. E o mundo inteiro também...

A tentativa de desqualificar o “adversário” – formado por um coro de mais de 80 mil pessoas – foi ligar os apupos a uma pretensa “orquestração”, indiretamente atribuída ao prefeito do Rio. Conversa para boi dormir, mas que não faz sequer bocejar nem os gordos animais do rebanho do presidente do nosso Senado... Mas é sempre assim. É da psicologia dos demagogos não saber perder. Se César Maia – ou qualquer outro – conseguisse organizar um coro com aquelas proporções, mereceria todas as medalhas de ouro, prata e bronze que estão sendo disputadas, além do cargo de regente vitalício da orquestra do Teatro Municipal...

O Rio de Janeiro, mais uma vez, deu uma lição ao país, no mais democrático espaço público nacional, o Maracanã. O povo vaiou o presidente seis vezes (sem contar os apupos do ensaio geral do evento): à chegada, quando apareceu no telão; nas três saudações em que teve o nome citado; quando Carlos Nuzman pronunciou o seu nome; e, finalmente, ao ser chamado por Mario Vázquez Raña, presidente da Organização Desportiva Pan-Americana. A sétima, certamente, seria quando começasse a falar. A arquitetura e a alma do estádio mais importante do mundo tornaram impossível ao zeloso cerimonial da Presidência evitar o contacto do seu messias com o povo, o que não ocorre nas outras aparições públicas do “maior presidente de todos os tempos”, em que sempre é possível separar quem quer aplaudir de quem deseja vaiar, mantendo-se os últimos a uma distância que os impeça de gritar ou arremessar tomates...

Maracanã é lugar de classe média, que lê jornal: a turma do “Bolsa Família” não estava lá, nem tampouco a das ONGs petistas subvencionadas pelo governo, nem o séqüito de bajuladores oficiais aquinhoados com empregos de DAS e nem certos professores de História que crêem ser sua missão doutrinar crianças desde a mais tenra idade... E quem pertence à classe média é tão “trabalhador” quanto quem é pobre, muito mais trabalhador do que os puxa-sacos oficiais e, até prova em contrário, também faz parte do “povo”. Ou não?

O recado do Maracanã é claro: a parcela mais esclarecida do povo está cansada de ser enganada, ludibriada, tapeada, tungada e sugada por políticos que tudo prometem e que se acham os donos da verdade. A primeira reação foi vaiar e a seguinte, certamente, será votar. Os institutos de pesquisas de opinião precisam abrir os olhos, para não caírem em descrédito. A verdade, cedo ou tarde, sempre aparece.

Segunda, 16 Julho 2007 21:00

Buchanan e os Déficits

Como afirmou com propriedade o Prof. Buchanan, uma das características do século XX foi que, por influência do relativismo moral - de que o keynesianismo foi manifestação no campo da teoria econômica.

Aparentemente, as más conseqüências do hábito que os governos adquiriram, por influência das idéias de Keynes e de seus seguidores, de manterem déficits permanentes e de serem, conseqüentemente, obrigados a financiá-los, são mais compreendidas pelo público em geral do que pelos economistas profissionais. Essa anomalia, percebida pelo Professor James Buchanan, Nobel de Economia de 1986 e mentor da chamada Escola da Escolha Pública (Public Choice School), explica-se pela ênfase ao keynesianismo que os currículos das faculdades de Economia passaram a dar, no mundo inteiro, a partir dos anos 40 e que ainda prevalece, mesmo após o fracasso das políticas de "sintonia fina" e do "Estado do Bem-Estar Social".

A formação intervencionista dos economistas levou-os generalizadamente a crer que, com duas xícaras de política fiscal, algumas pitadas de política monetária, uma colher de sopa de controle cambial, uma raspa de política industrial e um tablete de “criatividade” - tudo isto levado ao forno do prestígio e poder de que passaram a usufruir -, poderiam, usando expressão jactanciosa do próprio Keynes, “transformar pedras em pães”. Mas o homem simples, obrigado a viver de acordo com suas posses, consegue enxergar com mais clareza os malefícios provocados pelos déficits crônicos. Com efeito, enquanto, para a grande maioria dos economistas, déficits são necessários, para o público eles são reflexo de hábitos perdulários. Como afirmou com propriedade o Prof. Buchanan, uma das características do século XX foi que, por influência do relativismo moral - de que o keynesianismo foi manifestação no campo da teoria econômica - a geração de déficits pelo setor público, assim como seus efeitos sobre a inflação, o desemprego e a dívida, deixaram de ser consideradas atitudes moralmente erradas.

Quando um chefe de família gasta permanentemente acima de sua renda, as conseqüências de sua imprudência não tardarão a surgir. Da mesma forma, quando uma empresa opera no "vermelho" durante vários exercícios seguidos, é quase certo que fechará as suas portas (a não ser que seus donos tenham “amigos” em Brasília). Em ambos os casos, para consertar a situação serão necessárias providências severas, com cortes de despesas. A rigor, tanto sob o ponto de vista moral como sob as óticas econômica e financeira, gastar seguidamente mais do que se ganha é uma decisão errada, que, se não corrigida, terminará sendo punida, não por algum carrasco conservador implacável, mas pelas próprias normas que regem a ação humana. O ponto essencial, mas que muitos não conseguem perceber, é que o Estado também está subordinado às restrições de natureza moral, econômica e financeira a que famílias e empresas necessariamente estão sujeitas. Como diria Adam Smith, o que é imprudente para chefes de família e empresários não pode ser prudente para os homens do governo. Keynes, mesmo involuntariamente, forneceu aos políticos o argumento “técnico” que sempre desejaram: gastem, porque isso gerará empregos...

Mas quem vai explicar isto para o deputado federal Pompeo de Mattos, do PDT gaúcho, que acaba de apresentar emenda constitucional propondo mais 5.189 vagas para vereadores, generosidade com o chapéu alheio que, se vier a ser aprovada por nosso patriótico Congresso, anulará resolução do TSE de 2004, que extinguiu mais de oito mil cadeiras nas câmaras municipais? Ou para os economistas da equipe de Mantega, que ainda crêem que o Estado é a grande e inexaurível fonte de geração de riqueza? Ou para o Judiciário, que curte alojar-se em verdadeiros palácios? Ou para este governo petista que vem irresponsavelmente inflando os gastos com pessoal à taxa anual de 13%, ou seja, oito e meio pontos percentuais acima da taxa média de crescimento do PIB real e que agora pretende substituir 30.000 terceirizados por funcionários concursados? Ou para políticos que preferem construir estádios e deixar escolas e hospitais à míngua? Ah, que bom seria essa gente ler The Calculus of Consent, de Buchanan!

Terça, 10 Julho 2007 21:00

Cotas e Lorotas

A ação realmente afirmativa de que carece o país é uma boa educação para todos, sem qualquer distinção, e que premie o mérito. Basta de cotas e de lorotas!

Há poucos dias, a Suprema Corte dos Estados Unidos, em decisão apertada – cinco votos contra quatro – desferiu um golpe letal no denominado princípio de ação afirmativa, ao decidir pela inconstitucionalidade do sistema de cotas étnicas em dois distritos: Seattle, no estado de Washington e Louisville, em Kentuky. Tal decisão deverá firmar jurisprudência, dando margem a ações judiciais contra as cotas, o que poderá pôr fim a essa prática. Entrementes, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o sistema de cotas acaba de ser aprovado...

Ações afirmativas são políticas que têm o objetivo de garantir o acesso à educação ou a empregos a grupos “historicamente não dominantes”, como as chamadas minorias - mulheres, homossexuais, negros e índios -, por meio de tratamentos preferenciais que os beneficiem, dos quais a imposição de cotas é um exemplo.

À época em que ocupava o cargo de diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, vi com preocupação o governo estadual impor, primeira vez no Brasil, cotas nos vestibulares da universidade, para candidatos afrodescendentes (dos quais a maioria - os mulatos - também são eurodescendentes) e para os originários de escolas públicas. Meu ceticismo era motivado por diversas razões: não há constituição, em qualquer sociedade que se preze, que não abrace o princípio da igualdade perante a lei; reprimindo pessoas qualificadas em favor de pessoas não qualificadas, fere-se a meritocracia; trata-se de uma forma aberta de discriminação; é uma prática do coletivismo; ao gerar ressentimentos contra os beneficiados, incita ao racismo; sob o ponto de vista da economia, as cotas são claramente contra-produtivas; contribuem para piorar a já tão enfraquecida qualidade acadêmica; tenta-se combater injustiças “históricas” mediante novas injustiças e enfrentar discriminação com discriminação - olho por olho e dente por dente.

Apenas com a melhoria da educação básica - e não usando critérios de raça, etnia ou sexo - é que seremos uma sociedade com mais igualdade de oportunidades! Isto é de uma clareza tão visível que é difícil acreditar existirem pessoas que não pensem assim! A luta deve ser por maior igualdade de oportunidades, ou seja, para que todos os cidadãos, indistintamente, tenham acessos semelhantes aos benefícios e que, mediante o esforço e a capacidade de cada um, possam deles usufruir. Não será lançando uns contra outros que construiremos uma grande nação!

O argumento de que as políticas afirmativas reparam “injustiças históricas” pode até ser bem intencionado, mas é uma bazófia que padece de impressionante falta de praticidade: muitos povos, historicamente, sofreram injustiças com guerras e outros flagelos, mas como consertá-las de forma “justa”? Babilônicos, assírios, sumérios, caldeus, amoritas, acádios, godos, visigodos, medos, celtas, samaritanos, cartagineses, etruscos, índios, negros, asiáticos, coríntios, efésios, hebreus e tantos outros... Se, por exemplo, algum remoto descendente de um cidadão da Esparta do general Leônidas fosse descoberto, seria “justo” obrigar um também longínquo descendente do exército de Xerxes da Pérsia a indenizá-lo por aquela injustiça “histórica”? Seria “justo” entregar a Alemanha para os judeus de hoje, a título de reparar os crimes hediondos de que seus pais, avós e bisavós foram vítimas? É “justo” contemplar descendentes de escravos negros com cotas, em detrimento de tataranetos de senhores de engenho, que nem conheceram? Quantas tribos foram massacradas por outras tribos, ainda na África? E quantos brancos, hoje, não serão descendentes distantes de escravos dos romanos ou atenienses, por exemplo?

Boas intenções, apenas, não bastam. Não se corrigem velhos erros com erros novos. A ação realmente afirmativa de que carece o país é uma boa educação para todos, sem qualquer distinção, e que premie o mérito. Basta de cotas e de lorotas!

Domingo, 01 Julho 2007 21:00

Nosso Dinheiro Não é Capim!

O governo, tão eficiente quando se trata de arrecadar, é de uma ineficiência aterradora na hora de gastar. Até quando vamos nos conformar em pagar essa conta?

É evidente que uma avestruz, que pesa de 90 a 150 kg, além de comer de tudo, aboca mais, muito mais, do que uma galinha, com cerca de 1,3 kg. O governo-avestruz do PT é o campeão absoluto da América Latina em número de ministérios: temos, já contando o novo “ministério da bola de cristal” confiado ao ininteligível – nas idéias e no sotaque - professor Mangabeira, 37 pastas de primeiro escalão; a ilha do decrépito tirano Fidel ocupa a vice-liderança com 28 e a Venezuela, do burlesco neo-ditador Chávez, aparece colada e cheia de inveja, em terceiro, com 27. É a combinação nefanda entre o patrimonialismo, que vê novos ministérios como soluções - quando são problemas - e a fragilidade institucional que leva, em nosso regime presidencialista sem partidos programáticos, os presidentes, no afã de obterem apoio político, a criarem pastas e mais pastas, para rateá-las entre companheiros e aliados.

O furor ministerial gera pencas de cargos de confiança que, no nível federal, abrangem desde o DAS 1, equivalente, hoje, a um salário de R$ 1.977, até os disputados DAS 5 e 6, que rendem, respectivamente, R$ 8.400 e R$ 10.488 por mês. Lula, que, quando candidato, jurou moralizar a administração pública, acaba de criar mais 626 cargos de confiança, para “atender à demanda gerada pela criação de mais ministérios para contemplar novos segmentos da sociedade” (é dose para avestruz). Na verdade, isto significa apenas aquinhoar os filiados ao PT e, em menor escala, os aliados de outros partidos que vendem apoio, pois os cargos comissionados são de livre provimento, sendo preenchidos por indicações políticas, sem qualquer vínculo com o serviço público e sem concurso. Aos amigos – tanto os fiéis como os de ocasião - tudo...

Em 1999, início do segundo mandato tucano, o total de cargos comissionados (DAS) já era extremamente elevado: 16.306; em 2003, começo do petelhato, havia 18.374 desses cargos e, atualmente, há 22.228. Eis para onde é destinada uma parte do nosso dinheiro, tomado à força pelo leão da Receita, certamente o animal mais eficiente, em sua insaciável voracidade, do zoológico estatal! E olhem que é uma bela parte: do início do período petista até hoje os gastos anuais com esses cargos experimentaram um crescimento nominal de cerca de 116,3% e um aumento real (descontada a inflação) de 63%, saltando de R$ 4,3 bilhões para R$ 9,3 bilhões, valor que supera o carro chefe da demagógica caravana dos barbudos, o Programa Bolsa Família, que suga R$ 8,7 bilhões anuais dos impostos que suamos para pagar. Se adicionarmos às sinecuras federais as estaduais e aquelas dos mais de 5.560 municípios, entenderemos a escassez de recursos nas áreas fundamentais da segurança, educação, saúde, justiça e infra-estrutura. Se somarmos, ainda, as tais “agências reguladoras”, que foram transformadas em cabides políticos pelo atual governo federal, bem como as estatais, ou infladas ou “ressuscitadas” pelo petismo, saberemos claramente porque a economia só cresce de forma sustentada na visão bufa e cínica do ministro da Fazenda, que, sem usar uma gota sequer de teoria econômica, enxergou nas multidões que padecem nos aeroportos um sinal de que a ordem e o progresso são incontestáveis.

Trabalhamos até o dia 26 de maio de cada ano para pagar tributos. Mas, se adicionarmos o que temos que gastar - em duplicidade - com educação, previdência e planos de saúde privados, porque, com justa razão, não confiamos nos serviços públicos, concluiremos com espanto, após ligeiros cálculos, que trabalhamos até meados de agosto para termos acesso digno a direitos nossos, pois nos são cobrados compulsoriamente. O governo, tão eficiente quando se trata de arrecadar, é de uma ineficiência aterradora na hora de gastar. Até quando vamos nos conformar em pagar essa conta? Nosso dinheiro suado não é capim para servir de refeição à avestruz estatal!

Quinta, 28 Junho 2007 21:00

Posturas, Composturas e Imposturas...

Já não chegam tantas notícias de crimes e corrupção pública? Já não basta o descrédito em que jaz o Congresso?

Nestes tempos em que o relativismo moral impinge praticamente qualquer atitude ou palavra, por mais chula, não só como tolerável, mas como aplaudível; mascara desvios de comportamento de “opções”; aclama mediocridades; justifica crimes; transforma terroristas e traidores - como Lamarca - em heróis; premia a esperteza e aceita palavrões em qualquer ambiente, é essencial recuperar dois atributos que soam ultrapassados: o da postura, que se refere ao corpo, ao andar, sentar e portar-se e o da compostura, que abrange as ações denotativas de boa educação. E, naturalmente, repelir a impostura, o ato de ludibriar sob a aparência de verdade.

Há certos comportamentos que não podemos deixar de exigir, especialmente de pessoas que se dizem públicas, sob pena de perdermos todo e qualquer ressaibo de respeito por elas e, conseqüentemente – o que é mais grave - pelas instituições. Um deles é a honestidade; outro, a preocupação com o bem comum e um terceiro a adoção de posturas e composturas compatíveis com as posições que exercem na sociedade. Presidentes, ministros, senadores, deputados, vereadores, magistrados, religiosos, professores, jornalistas, artistas e outros, na Suíça, na bella Italia e aqui, precisam ter compostura, para darem exemplo e para não caírem em descrédito. O descumprimento desses atributos por parte dessas pessoas especiais nos faz imaginá-las como impostoras e vigaristas, despreparadas para os cargos que ocupam, até mesmo no ambiente deteriorado vigente, em que a competência, os princípios morais e a boa educação não contam.

Essa exigência elementar deveria ter levado a ministra do Turismo, autora de uma das mais infelizes declarações pronunciadas por uma pessoa pública em todos os tempos - aquela besteira pornô a respeito do “apagão aéreo” – a ter pedido demissão. Seu deboche, cinismo e desrespeito para com os milhares de passageiros que padecem nos aeroportos superaram a reação falsamente atribuída a Maria Antonieta de França, há mais de duzentos anos, quando, ao ser informada de que a massa faminta invadiria o palácio porque não tinha pão, teria sugerido que lhe oferecessem brioches... Um pedido de desculpas, mesmo bisado, como aconteceu, é muito pouco para um caso colossal de falta de compostura como o da ex-prefeita paulistana. O péssimo exemplo exigiria, além de um pedido de perdão à população que a mantém, uma carta de demissão, senão de sua parte, pelo menos da de seu chefe.

Ma che, daquele mato não sai coelho... O chefe, no mesmo dia e referindo-se ao mesmo assunto, regurgitou mais algumas das tolices que se lhe esvaem com naturalidade do aparelho fonador, qual cascata em moto perpétuo, quando se põe a falar de improviso. Há posturas absolutamente incompatíveis com chefes de governo e ministros, sejam iletrados ou doutores!

As centenas de cartas de leitores publicadas em nossos jornais e os milhares de mensagens que circularam na Internet sobre os dois episódios podem ser resumidas em uma frase, como que pronunciada em uníssono por um coral de 180 milhões de vozes (já descontadas as dos bajuladores e fanáticos): “respeito é bom e eu gosto!”, à qual podemos aduzir um “gosto, exijo e é absolutamente necessário, porque os sustento”.

Já não chegam tantas notícias de crimes e corrupção pública? Já não basta o descrédito em que jaz o Congresso? Já não é suficiente a turma da ação “social” do estado do Rio querer instituir uma Bolsa Bad Boy para premiar famílias de menores infratores? Já não é demais pedagogos de gabinete decretarem a aprovação automática de todos os alunos? Já não é um descalabro que traidores sejam promovidos post mortem e suas famílias aquinhoadas com Bolsas Terrorismo? Será que, além de tudo isso, ainda temos que ouvir declarações chulas, infelizes, vulgares e desrespeitosas? A impostura, o embuste, a prestidigitação e o charlatanismo não têm limites!

Terça, 29 Maio 2007 21:00

Pega Ladrão!

Está difícil agüentar toda a roubalheira, exaltação do vício, condenação da virtude e premiação da mediocridade!

Está difícil agüentar toda a roubalheira, exaltação do vício, condenação da virtude e premiação da mediocridade! Está insuportável saber de tantos crimes, tanta demagogia, tantas mentiras e sentir tanto desencanto. Parece até que o mau cheiro que tresanda do Brasil subiu aos céus e virou a terra de pernas para o ar, levando, em um giro vertical de cento e oitenta graus, o hemisfério sul para o norte e o norte para o sul. Roubam juízes, desembargadores, deputados e senadores; roubam senhoras e senhores, ministros e assessores; roubam funcionários, construtores, vereadores e mentores; roubam atacantes e defensores, analfabetos e doutores; roubam agnósticos e pastores, prefeitos e governadores... Pega ladrão!

Curioso é que muitos dos que, aqui e ali, na mídia, reclamam contra todo esse descalabro moral que contaminou a política e a economia nacionais nem de longe imaginam que têm alguma culpa no cartório. Sim, pois muitos deles não condenaram, por “falso moralismo”, os que sempre levantaram as bandeiras da ética? Não atacaram e continuam atacando a tradição judaico-cristã em que sempre se baseou o ocidente? Não tentaram e tentam romper com nossas raízes católicas, esquecidos de que o Brasil foi batizado antes como Terra da Santa Cruz e de que o primeiro ato oficial aqui realizado pelos portugueses foi uma missa? Não compraram e compram revistas que exibem mulheres participantes dos big brothers da vida, estimulando o “vencer na vida sem fazer força”? Quantos desses fariseus não entraram e entram com seus carros, nos fins de semana, nos acostamentos de nossas estradas, para ganharem um tempinho e ultrapassarem os motoristas “otários”? Ou não defenderam e defendem que ganhar cada vez mais dinheiro, em detrimento do convívio familiar e de princípios morais universais, é o que conta? Ou não sustentaram e sustentam que a defesa da família não passa de um tradicionalismo incompatível com o mundo atual? Ou, ainda, que os valores políticos e econômicos devem sobrepor-se aos morais?

Não é difícil perceber que atitudes como essas guardam forte correlação positiva com a roubalheira geral que apodrece a nação, tornando-a fétida. Quando os princípios morais sob os quais fomos educados são atacados, espezinhados e ridicularizados; quando os valores éticos de nossos ancestrais são adrede postos de lado e substituídos por um verdadeiro supermercado de produtos “éticos” à escolha do freguês; quando Deus é rendido pelo “super-homem” de Nietzsche, com o pretexto de que o estado moderno é laico e que não importa a liberdade interior, mas a falsa liberdade exterior de fazer o que der na veneta; quando padres de passeata deixam o Evangelho na estante e incentivam invasões de propriedades; quando, enfim, tudo isso acontece, passa automaticamente a vigorar uma das poucas leis respeitadas “neste país”: a lei do vale-tudo!

O mundo – e, especialmente, o Brasil – está doente e a causa é bastante clara para continuar a ser escamoteada: o abandono dos princípios morais judaico-cristãos que sempre nortearam o ocidente! Quem quiser “xingar” os que pensam desta forma de “falsos moralistas” que o faça e que continue bebendo do veneno que ajudou a destilar, mas que não reclame diante das notícias de corrupção que se sucedem na imprensa a um andamento prestissimo, que chega a fazer com que o escândalo de hoje nos leve até a esquecer um pouco o de ontem e a apagar completamente da memória o de anteontem...

Quando o sistema moral está se putrefazendo, acaba inelutavelmente contaminando os dois outros que compõem a sociedade: o político e o econômico. A crise brasileira é, com todas as letras, uma crise de valores morais! E a opção é clara para quem preza a dignidade: lutar para que o moralismo deixe de ser um “delito” politicamente incorreto ou continuar a conviver com o verdadeiro crime, do qual toda essa corrupção generalizada é apenas uma das manifestações!

Segunda, 21 Maio 2007 21:00

Sobre Bezerros e Bebês...

Não é preciso recorrer a argumentos religiosos para condenar o aborto: os econômicos e jurídicos bastam!

Naquela fazenda distante, festeja-se o nascimento de mais um bezerro. Júbilo nos olhares, alegria nos corações e esperança nas mentes, já que, afinal, acaba de vir ao mundo mais uma fonte de geração de renda e riqueza! Já se prevê a contribuição que o novo animal proporcionará à produção de carne e os lucros daí decorrentes, ao longo de toda a cadeia produtiva.

Entrementes, naquele posto de saúde, em uma grande cidade, uma mulher acaba de saber que está grávida. Mas os olhares, corações e mentes não mostram júbilo, nem alegria e nem tampouco esperança, mas preocupação, chateação e aborrecimento, já que, afinal, aparecerá mais uma fonte de estorvos e despesas... Já se antevê o quanto custará para os seus pais e para a sociedade aquela criança, mesmo antes de nascer.

Infelizmente, há gente que festeja nascimentos de bezerros, potros, crocodilos e micos-leões-dourados, enquanto o simples anúncio de que mais uma pessoa humana virá à luz as incomoda a ponto de defenderem – alegando motivos de “saúde pública” – que a gravidez pode ser interrompida. A insensatez e a frieza não têm mesmo limites!

Há um argumento puramente financeiro, que nada tem a ver com princípios religiosos, que demonstra claramente o erro desse tipo de atitude: é que, inapelavelmente, o valor presente dos fluxos de rendimentos a serem proporcionados por um ser humano, ao longo de sua vida, é infinitamente superior ao de um bezerro, ou seja, a adição ao estoque de capital da economia é necessariamente maior, quando se trata de pessoas humanas! Basta dar-lhes acesso à educação e à saúde, um ambiente institucional estável e liberdade para regerem suas próprias vidas e isto é muito mais verdadeiro no mundo de hoje, em que as principais fontes do crescimento econômico são a inteligência, a criatividade e o capital humano, do que antigamente.

É claro que o nascimento de um bezerrinho deve ser recebido com alegria, por representar manifestação de vida e por ser a incorporação de mais uma fonte de renda e riqueza: a carne e seus derivados, como sabemos, têm valor de mercado. Mas o de uma criança – e isto é indiscutível! – tem um valor incomensuravelmente maior, por ser a mais perfeita forma de manifestação de vida que existe, porque se trata de um ser que, contrariamente aos bezerros, é dotado de dignidade e porque sua capacidade de geração de renda e riqueza é muito superior!

Aves agourentas – e perigosas -, dentro e fora do governo federal, alegando motivos de “saúde pública”, vêm sugerindo que se faça uma “ampla discussão” (que lugar-comum!) sobre o aborto, prática que, velada ou abertamente, defendem. Só que, ao fazê-lo, estão implicitamente reconhecendo sua incompetência e a falência de nosso sistema político, econômico, jurídico e social para cumprir o axioma da superioridade do valor presente do bebê, mesmo que ainda no útero materno. Além de ignorantes em economia, são pessimistas de carteirinha: aquele ser, que já possui vida desde o momento da concepção, para essa gente, já está condenado a ser um marginal por toda a sua vida, ou a ser um menor abandonado, ou, na melhor das hipóteses, a ser mais um dentre os milhões de pobres que o país ostenta. Estão redondamente errados! Ao invés de defenderem o “direito” à prática do aborto, o correto seria que brigassem sem tréguas por boa educação e boa saúde ou, em outras palavras, que lutassem pela igualdade de oportunidades, o que garantiria a realização do axioma elementar. Mas, para elas, a depreciação do capital humano excederá sempre, por algum teorema - tão falso quanto misterioso - sua formação bruta...

Não é preciso recorrer a argumentos religiosos para condenar o aborto: os econômicos e jurídicos bastam! Aqui mesmo no JB, o jurista Ives Gandra Martins, ao invocar o direito constitucional à vida, o fez com precisão. A economia e o direito são suficientes para a condenação dessa abominável prática, embora o peso moral da questão seja inquestionável.

Quinta, 26 Abril 2007 21:00

Legítimo?

A “função social da terra” é uma filigrana jurídica, um arabesco redundante.

Desde criança, sempre desejei um piano Steinway & Sons de cauda inteira, cujo valor equivale ao de um bom apartamento de três quartos na zona sul do Rio. Um instrumento maravilhoso e uma aspiração legítima, mas nem por isso vou encostar um caminhão na porta de uma loja musical e, ajudado por meia dúzia de companheiros da musculação, levá-lo para casa, pois estarei infringindo a lei, por ferir o direito de propriedade estabelecido constitucionalmente.

Onde não se respeita esse princípio - que, ao lado dos direitos à vida e à liberdade, é basilar na sociedade -, a lei do mais forte passa a regular as relações pessoais: Brederodes é um “sem mulher” e deseja casar-se - o que é legítimo - mas, por isso, como é forte, rapta a noiva de Xerxes, que é fraco; Pafúncio não tem cabelos, mas desejaria tê-los - o que também é legítimo – e, sendo assim, avança sobre Menelau e, tesoura nas mãos, tosa-lhe a vasta cabeleira; Criméia gostaria de usar os perfumes franceses de Cremelinda e, como seu desejo é legítimo, rouba-os. Imaginem que tipo de sociedade seria resultante de uma visão torta desse tipo! É claro que o desejo de possuir um ótimo piano, de casar-se, de ter cabelos e de usar bons perfumes, como de resto o de ter a posse de um bem qualquer, é legítimo, mas o que importa não é isso, porém a forma como esse desejo se realiza. Roubar ainda é crime!

No entanto, no país do faz-de-conta em que o Brasil está transformado – uma autêntica terra sem lei -, se os pianistas, Brederodes, Pafúncios e Criméias conseguirem organizar os que possuem suas mesmas aspirações em “movimentos sociais”, terão respaldo do governo, que “legitimará” os delitos que cometerem e ainda por cima colocará a culpa nas “elites”, nos “ricos” e – naturalmente – no “neoliberalismo excludente”. Claro, nas cabeças povoadas de minhocas de muitos dos que teriam obrigação de zelar pelo cumprimento da lei, Brederodes não tem noiva porque Xerxes, que pertence à “elite”, o impede; Pafúncio é careca porque Bush arrancou-lhe os cabelos e Criméia não pode comprar perfumes de grife porque é “explorada” pela perua Cremelinda... Tais considerações vêm a propósito de três fenômenos impensáveis em uma sociedade onde se preza a lei, mas que vêm sendo não apenas tolerados, como – o que é um verdadeiro crime – incentivados, mesmo que por omissão, por nossas autoridades.

O primeiro são as invasões aos montes perpetradas pelos ditos “sem teto” em diversas grandes cidades brasileiras, sob a benção da secretária nacional de Habitação, que as qualificou como “legítimas”. Sim, segundo a referida ministra-“heroína”, “não pode haver gente sem moradia num país onde outros têm imóveis demais”... Ora bolas, penso que, ao invés de dizer abobrinhas (estragadas) como essa, seu papel seria o de construir habitações populares e, caso o ministro da Fazenda lhe negasse os recursos para tal, o de pedir o boné e largar o cargo, por simples imposição do que conhecemos, há séculos, como dignidade.

O segundo é o nosso Largo do Boticário, tombado pelo patrimônio histórico e cultural, que está com uma de suas casas invadida há um ano por dezenas de “sem teto”, que se mostraram também sem-vergonhas, ao tentarem organizar uma festa rave cobrando ingresso, no que foram impedidos pela polícia. Por que o governo do Rio ainda não os expulsou de lá? Como, caro leitor, você dirá levá-los para onde? Ora, não existe uma secretaria de Habitação, recheada de políticos e apadrinhados, encarregada exatamente de resolver problemas graves como esse?

Por fim, temos as invasões dos arruaceiros “sem terra”, engolidas e até estimuladas pelo governo e por pseudo-acadêmicos marxistas. A “função social da terra” é uma filigrana jurídica, um arabesco redundante: galinhas, vacas, porcos, jacas, açaís, eleitores, professoras, cidadãos, clubes de futebol, médicos, tudo, enfim, o que existe na sociedade tem uma “função social”...

Madonna mia, ser brasileiro tem sido um permanente e exaustivo exercício de paciência!

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