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Ubiratan Iorio

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

Quinta, 26 Abril 2007 21:00

Legítimo?

A “função social da terra” é uma filigrana jurídica, um arabesco redundante.

Desde criança, sempre desejei um piano Steinway & Sons de cauda inteira, cujo valor equivale ao de um bom apartamento de três quartos na zona sul do Rio. Um instrumento maravilhoso e uma aspiração legítima, mas nem por isso vou encostar um caminhão na porta de uma loja musical e, ajudado por meia dúzia de companheiros da musculação, levá-lo para casa, pois estarei infringindo a lei, por ferir o direito de propriedade estabelecido constitucionalmente.

Onde não se respeita esse princípio - que, ao lado dos direitos à vida e à liberdade, é basilar na sociedade -, a lei do mais forte passa a regular as relações pessoais: Brederodes é um “sem mulher” e deseja casar-se - o que é legítimo - mas, por isso, como é forte, rapta a noiva de Xerxes, que é fraco; Pafúncio não tem cabelos, mas desejaria tê-los - o que também é legítimo – e, sendo assim, avança sobre Menelau e, tesoura nas mãos, tosa-lhe a vasta cabeleira; Criméia gostaria de usar os perfumes franceses de Cremelinda e, como seu desejo é legítimo, rouba-os. Imaginem que tipo de sociedade seria resultante de uma visão torta desse tipo! É claro que o desejo de possuir um ótimo piano, de casar-se, de ter cabelos e de usar bons perfumes, como de resto o de ter a posse de um bem qualquer, é legítimo, mas o que importa não é isso, porém a forma como esse desejo se realiza. Roubar ainda é crime!

No entanto, no país do faz-de-conta em que o Brasil está transformado – uma autêntica terra sem lei -, se os pianistas, Brederodes, Pafúncios e Criméias conseguirem organizar os que possuem suas mesmas aspirações em “movimentos sociais”, terão respaldo do governo, que “legitimará” os delitos que cometerem e ainda por cima colocará a culpa nas “elites”, nos “ricos” e – naturalmente – no “neoliberalismo excludente”. Claro, nas cabeças povoadas de minhocas de muitos dos que teriam obrigação de zelar pelo cumprimento da lei, Brederodes não tem noiva porque Xerxes, que pertence à “elite”, o impede; Pafúncio é careca porque Bush arrancou-lhe os cabelos e Criméia não pode comprar perfumes de grife porque é “explorada” pela perua Cremelinda... Tais considerações vêm a propósito de três fenômenos impensáveis em uma sociedade onde se preza a lei, mas que vêm sendo não apenas tolerados, como – o que é um verdadeiro crime – incentivados, mesmo que por omissão, por nossas autoridades.

O primeiro são as invasões aos montes perpetradas pelos ditos “sem teto” em diversas grandes cidades brasileiras, sob a benção da secretária nacional de Habitação, que as qualificou como “legítimas”. Sim, segundo a referida ministra-“heroína”, “não pode haver gente sem moradia num país onde outros têm imóveis demais”... Ora bolas, penso que, ao invés de dizer abobrinhas (estragadas) como essa, seu papel seria o de construir habitações populares e, caso o ministro da Fazenda lhe negasse os recursos para tal, o de pedir o boné e largar o cargo, por simples imposição do que conhecemos, há séculos, como dignidade.

O segundo é o nosso Largo do Boticário, tombado pelo patrimônio histórico e cultural, que está com uma de suas casas invadida há um ano por dezenas de “sem teto”, que se mostraram também sem-vergonhas, ao tentarem organizar uma festa rave cobrando ingresso, no que foram impedidos pela polícia. Por que o governo do Rio ainda não os expulsou de lá? Como, caro leitor, você dirá levá-los para onde? Ora, não existe uma secretaria de Habitação, recheada de políticos e apadrinhados, encarregada exatamente de resolver problemas graves como esse?

Por fim, temos as invasões dos arruaceiros “sem terra”, engolidas e até estimuladas pelo governo e por pseudo-acadêmicos marxistas. A “função social da terra” é uma filigrana jurídica, um arabesco redundante: galinhas, vacas, porcos, jacas, açaís, eleitores, professoras, cidadãos, clubes de futebol, médicos, tudo, enfim, o que existe na sociedade tem uma “função social”...

Madonna mia, ser brasileiro tem sido um permanente e exaustivo exercício de paciência!

Segunda, 16 Abril 2007 21:00

Um Bonito Exemplo

Que Deus abençoe você, Marlene, que não é “pobre por vocação”, pois nunca esperou que os governos fizessem chover o maná!

Nestes tempos inacreditáveis, em que uma ministra que ganha para promover uma “igualdade racial” que já existe constitucionalmente, manda às favas o seu cargo de “heroína” – que, sobre ser redundante, também é caro para os contribuintes -, para semear nos nossos irmãos negros o ódio contra os brancos; em que, a pretexto de uma “igualdade na chegada”, muitos, inclusive magistrados, justificam crimes bárbaros pelas “desigualdades”; em que se pretende premiar famílias de bandidos com “bolsas”; em que um rabino esquerdista tisna a respeitável tradição moral judaica furtando gravatas (caras, pois ele não é bobo); em que “teólogos”, que se dizem católicos, atacam o Papa e exaltam hereges da “Teologia da Libertação”; em que a hierarquia militar é desrespeitada pelos controladores de vôo e o governo cede à insubordinação, só recuando por pressão; em que os deputados decidem que não trabalharão mais em Brasília às segundas-feiras; em que a mediocridade é enaltecida e a inteligência execrada; nestes tempos incríveis, o exemplo – real – de Marlene é uma lufada de ar fresco no ambiente moral podre que nos circunda e um veemente desmentido às teses sociológicas e antropológicas das “esquerdas”.

Moradora de um morro carioca em área bastante violenta - que redundância! -, abandonada pelo marido com quatro filhos ainda crianças, pobre, mas digna, não buscou as bolsas-esmolas que os governos distribuem, em troca de votos e de adesão compulsória à seita do mau pastor de plantão que detém sua partilha. Pelo contrário, olhou para dentro de si e enxergou-se uma mulher de fibra, valente, honesta, trabalhadora e, sobretudo, empreendedora. Esperar pelos governos? Para que? Reclamar? Nada disso! E Marlene foi à luta, sozinha. Primeiro, voltou a estudar, no supletivo de uma escola estadual, perto do pé do morro. Esforçada e sempre com um sorriso para oferecer, despertou a simpatia de professoras dedicadas, verdadeiras heroínas como ela e abandonadas como ela pelos governantes. Abriu uma tendinha ao lado de sua casa, onde vendia café e média com pão e manteiga, feitos com esmero e carinho, mostrando que qualquer trabalho honesto, por mais humilde que seja, deve ser realizado com dedicação. Em meses, passou a vender também sanduíches, com grande saída, porque, além de bem feitos, tinham preços justos.

Soube ser firme com os filhos: nenhum deles envolveu-se com o tráfico que domina o morro e que, diversas vezes ao ano, “ordena” que a escola seja fechada. O mais velho, inclusive, está terminando o segundo grau, prepara-se para prestar vestibular no segundo semestre deste ano e vai ganhar um computador da mãe, comprado a prazo, ainda neste mês.

Vendo que seu negócio ia bem, matriculou-se em um curso gratuito de preparação de salgadinhos, que já sabia fazer, mas sem aquela arte que, segundo ela, cativaria os consumidores. Assim que se sentiu em condições, passou a vendê-los em sua tendinha, sempre com limpeza, capricho, ingredientes de boa qualidade e preços bons. A demanda, naturalmente, foi grande, o que a conduziu, com seu espírito de iniciativa, à quarta etapa, a de preparar refeições “quentinhas”, vendidas, primeiro, no morro, mas, logo, a famílias do asfalto, atraídas pela fama, já corrente, de limpeza, qualidade e bom preço. Hoje, Marlene vive a quinta fase de seu empreendimento: fornece refeições para alguns restaurantes e, como a procura tem sido grande, já conta com quatro auxiliares de cozinha, que, com olho na qualidade, orienta em tempo integral. Segue firme na escola, sempre com bons conceitos e notas. E a sexta etapa já sabe qual será: abrir uma loja no asfalto, daqui a um ou dois anos.

Que Deus abençoe você, Marlene, que não é “pobre por vocação”, pois nunca esperou que os governos fizessem chover o maná! Houvesse muitas e muitos com a sua têmpera, os políticos populistas que preferem manter a pobreza, ao invés de atacar suas causas, morreriam de fome.

Domingo, 08 Abril 2007 21:00

Auctoritas Quae Sera Tamen!

A Nação precisa e quer saber o que existe de fato por trás desses lamentáveis episódios em nossos aeroportos.

Vivemos uma crise de autoridade sem precedentes em todos os níveis e não poderíamos esperar que assim não fosse, porque a virtude da autoridade, essencial em qualquer sociedade organizada, tem sido, nas últimas décadas, maliciosamente confundida com o vício do autoritarismo. Com efeito, nossa esquerda – jurássica, mas muito mais bem organizada do que os telespectadores e leitores, tratados, durante duas gerações, como bonecos de ventríloquos, sequer imaginam – conseguiu transformar o termo “autoridade” em uma palavra maldita, própria da “ditadura militar” que alguns pegaram em armas para derrubar. Só que – mas isso eles não dizem - para implantar em seu lugar um regime verdadeiramente autoritário, como fez Fidel e como Chávez e Morales vêm fazendo, abertamente e sem pudor, na Venezuela e na Bolívia, seguidos de perto, com a inveja dos que correm atrás, pelo novo presidente do Equador...

Já escrevia São Tiago (3; 10) que a boca que louva é a mesma que amaldiçoa. E a cavidade bucal presidencial, habitualmente mais descontrolada do que carro sem freio descendo ladeira, mostrou a verdade deste ensinamento. No dia da inadmissível greve dos controladores de vôo, falando pela boca do ministro do Planejamento, passou a mão na cabeça dos insubordinados, massacrou a hierarquia militar e a própria Constituição, aceitando negociar com os que paralisaram o país e prometendo que o setor seria desmilitarizado (decerto, para ser “petetizado”, como outros). Deixou em posição incômoda a Força Aérea, seu comandante e as demais armas, que, por sinal, vêm sendo tratadas há bastante tempo a pão e água, por conta de um revanchismo evidente, embora disfarçado. No dia seguinte, a boca que abençoara os insubordinados passou a maldizê-los, afirmando que sua atitude fora absurda, ao mesmo tempo em que tentava benzer os chefes militares, amaldiçoados na véspera, agora com promessas de liberações de verbas e com o anúncio de que a tal desmilitarização (“petetização”?) do Sindac seria adiada.

A Nação precisa e quer saber o que existe de fato por trás desses lamentáveis episódios em nossos aeroportos. Falta de autoridade tem um nome, bastante claro: baderna! Já não basta o crime desrespeitar as forças de segurança interna e aterrorizar os cidadãos? Já não chega a ocupação dos pontos estratégicos das principais estradas do país pelos baderneiros dos “movimentos sociais”, sob a complacência benevolente das pseudo-autoridades? Já não é suficiente que responsáveis por esquemas de desvio de recursos públicos não tenham ainda sido punidos, desde o episódio Waldomiro Diniz e passando pelos mensaleiros e sanguessugas?

É preocupante, em qualquer país, quando um partido que está no poder ocupa espaços que transcendem a órbita normal de governo, o que vem ocorrendo de forma bastante clara, embora silenciosa. Se muitos dos espaços não estão sendo preenchidos com membros do PT, o estão com “movimentos sociais”, “entidades” e Ongs milionários, muitos até mais radicais em seu socialismo retrógrado do que alguns setores do partido do presidente.

Será que a lição de 63 não foi aprendida? Nem o que ocorreu em 64? Ou nos anos seguintes? A quem, a esta altura, pode interessar a instauração da baderna, com a democracia consolidada e com as costas calejadas pelos estragos provocados por aqueles episódios, se nem direita organizada existe mais e seções da CNBB parecem escritórios de partidos de esquerda?

Com a insubordinação tolerada dos controladores de vôo, um de meus filhos, que está morando em Brasília, não pode vir ao Rio para assistir ao sepultamento da avó materna. Como este, poderemos encontrar milhares de outros transtornos que seu levante causou.

Autoridade, leitor, não é “autoritarismo” e é fundamental! A Nação está a clamar: “autoridade, ainda que tardia”!

Segunda, 02 Abril 2007 21:00

Mentiras Calculadas

Se a tolerância é uma virtude a ser cultivada e a intolerância um vício a ser combatido, no campo da religião ela pode assumir o status de crime hediondo, a ser extirpado pelo bem da humanidade.

Se a tolerância é uma virtude a ser cultivada e a intolerância um vício a ser combatido, no campo da religião ela pode assumir o status de crime hediondo, a ser extirpado pelo bem da humanidade.

Quando se fala que o cristianismo é “intolerante” com os homossexuais, é uma grossa mentira, pois jamais Cristo pregou isso. O que condenou – e veementemente – foi o pecado, embora sempre tenha ensinado que os pecadores, uma vez mostrando-se arrependidos, devem ser perdoados, “setenta vezes sete”, se for preciso, ou seja, tantas vezes quantas o arrependimento for sincero.

O homossexualismo é, para a Igreja Católica e para qualquer cristão, um vício que precisa ser combatido. Mas, se um cristão de verdade, de qualquer denominação, não “discrimina”, não deve e nem pode ser intolerante com os homossexuais, também deve repudiar o homossexualismo, senão não será um cristão de obras, mas de fachada.

Os mesmos que acusam o cristianismo de ser intolerante com os homossexuais calam-se diante da postura dos islâmicos, que os tratam, no Oriente, com verdadeira intolerância, a ponto de castigá-los fisicamente. Os acusadores são movidos por duas razões: ideologia e medo.

As razões ideológicas são bastante evidentes. Existe no mundo de hoje uma infernal orquestração da esquerda mundial que, em seu afã de implantar o “Outro Mundo Possível” – o horror do socialismo – infiltrou-se em todas as manifestações da cultura ocidental, para deformá-la e semear a cizânia. A finalidade, assustadoramente clara para quem tem olhos e quer enxergar, é destruir os fundamentos de nossa sociedade e, entre eles, toda a tradição judaico-cristã, que vêm como um elemento vital do capitalismo e, portanto, como enorme empecilho à implantação do socialismo ateu. Infiltraram-se também no seio da Igreja de Roma, com a “Teologia da Libertação”, que substituiu a figura de Cristo pela de Marx, distorcendo a doutrina do primeiro para tentar justificar as teorias do segundo.

Condenada diversas vezes por João Paulo II, que chegou a advertir, de dedo em riste, ainda nos anos 70, em um aeroporto da América Central, um famoso cardeal “libertador”, a heresia, contudo, parece ter encantado muitos bispos latino-americanos, incluindo alguns da CNBB, aqui no Brasil. Asseguro que são, dentro do episcopado, minoria, mas provocam barulho, sempre com o palco gratuito e os aplausos interesseiros da mídia esquerdista, por razões óbvias. Alguns são bem intencionados. Outros, infelizmente, não. Erraram duplamente, pois sua vocação é a política e não o serviço de Deus.

O atual Pontífice, Bento XVI, desde os tempos em que era o Cardeal Ratzinger, um dos braços direitos de João Paulo II, soube combater o bom combate contra a heresia marxista. Vários “teólogos” marxistas foram expulsos do seio da Igreja e Gaudêncio Boff (cujo nome, quando religioso, era Leonardo), dele retirou-se antes que fosse expulso.

Muitos, sabendo de minha condição de católico, me perguntam, com justa dúvida, por que a Igreja não “passa um carão” definitivo nos padres e bispos que teimam em rezar (este não seria o verbo indicado) pelo “catecismo marxista”. Sempre respondo que, em seus mais de dois mil anos de história, a postura da Igreja sempre foi de cautela, tolerância e comedimento, porque sabe que a Verdade haverá de vir à tona e que “as forças do inferno jamais haverão de prevalecer contra ela”. De fato, basta conhecer a história da Igreja (ver, por exemplo, a fenomenal obra de Daniel Rops), para saber perfeitamente que a “Teologia da Libertação” não é a primeira e nem será a última das heresias.

O segundo motivo que move os acusadores da tradição judaico-cristã e, em especial, os que tentam desqualificar como “antiquada”, “conservadora” ou “anti-progressista” a postura firme dos Papas em assuntos como o homossexualismo é o medo. Sim, o medo, ou melhor, a falta dele... Não dos cristãos, mas dos intolerantes de outras religiões, como os fundamentalistas islâmicos. Ora, se não têm medo de acusar cristãos, ou judeus, é porque estes, naturalmente, são tolerantes e jamais açoitarão ou deceparão pescoços de homossexuais a golpes de cimitarra, com transmissão pela TV Al Jahzira, pelo simples fato de serem homossexuais.

Isto é que é “homofobia”, e não o fato de considerar o homossexualismo um desvio moral! O que o Ocidente judaico-cristão não deve e não pode aceitar são aberrações como a PL 5003/2001, proposta para atender ao movimento “gay” no Brasil, que colocará na cadeia quem pronunciar qualquer palavra ou frase que não seja do agrado desses movimentos, pelo crime de “homofobia”... Como explica magistralmente Olavo de Carvalho em artigo no Jornal do Brasil de 29/3/2007, não existe a escolha entre “homofobia” e “anti-homofobia”, caso contrário, se os heterossexuais usassem as mesmas armas, por absurdo que fosse, poderiam também tentar aprovar uma lei instituindo o crime de “heterofobia”...

É triste. Tantas pessoas passando fome, tantos políticos roubando, tantos crimes sendo cometidos impunemente contra a população e as pessoas que deveriam zelar pelo crescimento da economia, pela ética e pela ordem pública perdendo tempo com propostas como essa da PL 5003/2001.

São as mentiras calculadas, que Carvalho denomina de “moldar o debate”, ou seja, de desviar a atenção da plebe ignara da essência dos problemas sociais, canalizando-as para posturas artificialmente impostas, para servirem aos interesses da vontade de poder dos “esquerdopatas”.

Sinceramente, de tanta desilusão, dá até para pensar em ser “brasilfóbico”... Mas não dá. Um dia, o sol voltará a brilhar.

Segunda, 19 Março 2007 21:00

Cinco Disparates

Recolhi ao acaso cinco exemplos esparsos de disparates veiculados pela imprensa, quatro no Brasil e o último na América Latina.

O noticiário no Brasil, na América Latina e no mundo tem sido desalentador. Ler a seção política de jornais e assistir a telejornais é um enorme exercício de paciência e de luta interior, para controlar a justa indignação que toma conta de nós. Recolhi ao acaso cinco exemplos esparsos de disparates veiculados pela imprensa, quatro no Brasil e o último na América Latina.

Os três primeiros vieram do campeão brasileiro em cometê-los, o presidente. Talvez pelas pressões para transformar a sexóloga Marta em ministra, nosso falante mandatário desandou a falar sobre sexo. Primeiro, dizendo que a não distribuição de preservativos por parte do governo seria uma “hipocrisia”. Que belo exemplo moral para um primeiro mandatário, equivalente à afirmativa de que, se todos quisessem ser assaltantes, não importando estarem errados, o Estado deveria entregar-lhes armas! Depois, alardeando, de modo bordalengo, quando da visita de Bush a São Paulo, que o Brasil e os Estados Unidos deveriam esforçar-se para encontrar o “ponto G”. Bem, como se trata de dois substantivos masculinos, provavelmente estava se referindo a uma busca homossexual entre ambos... Por fim, simplesmente, destruiu séculos de Teoria Econômica, por ocasião do cômico episódio dos pênaltis que bateu no Maracanã, descalço e com as calças arregaçadas, contra o nosso brioso governador (um complacente “frangueiro”). Ao liberar mais verbas para o Pan, declarou, diante de microfones e câmeras: “tem gente no Rio de Janeiro que tem a hipocrisia de dizer que, se dermos dinheiro para o esporte, faltará para outros setores” (a frase não foi exatamente esta, mas foi muito parecida). Nosso presidente ainda não intuiu a chatice que é o fato de a Economia só existir por causa do problema da escassez, algo que se aprende na primeira aula da ciência de Adam Smith, em qualquer sala de aula do mundo.

A quarta tolice veio do ministro da Fazenda, ao dizer que ordenaria ao Banco Central cumprir à risca o centro da meta de inflação em 2007 e 2008 (4,5%), não aceitando que o mesmo entregue no fim deste ano a inflação em 3,14%, como em 2006, graças a uma dosagem considerada “exagerada” da taxa básica de juros. Mamma mia, paesano, che sbaglio! Os economistas e políticos da ala retrógrada do governo – que se auto-intitulam “desenvolvimentistas” – ainda crêem piamente, após décadas de evidências contrárias, que o Banco Central pode estimular permanentemente a economia com taxas de juros artificialmente baixas, como se houvesse uma escolha entre inflação e desemprego. Mantega estudou com economistas heterodoxos, caso contrário saberia que não tal escolha não existe, pelo mesmo motivo que não se pode escolher entre comer demais e ter indigestão. Ao reduzir a taxa básica artificialmente (ou seja, sem o respaldo das reformas estruturais do monstrengo comilão que é o Estado brasileiro) e – o que é pior – com o agravante de que está aceitando uma inflação maior, não haverá “boom” de investimentos nem mesmo no curto prazo e a inflação escapará de controle rapidamente. O desemprego decorre da inflação: esta, no longo prazo, gera aquele, desativando qualquer aventura heterodoxa e/ou política de crescimento!

A quinta asneira partiu do atual campeão mundial, Hugo Chávez, neoditador da Venezuela. Imaginem se um presidente de um país europeu, a Itália, por exemplo, organizasse uma passeata, digamos, em Lisboa, pagando o transporte dos seus participantes, para protestar contra a visita do presidente dos Estados Unidos, suponhamos, à Espanha... Atitude inadmissível para povos civilizados, mesmo com o jeito latino de viver. Pois o Chapolin de Miraflores, quando da visita de Bush ao Brasil, foi a Buenos Aires e, sob a condescendência do presidente argentino, armou o seu espetáculo de quinta categoria, cercado das bandeiras vermelhas do atraso.

Tinha razão Roberto Campos, não há mesmo perigo de melhorar...

Domingo, 04 Março 2007 21:00

Em Defesa do Banco Central

Deixem o Banco Central trabalhar em paz! Não tenho receio de afirmar com todas as letras que o quadro técnico do Banco Central do Brasil não fica nada a dever a nenhum outro, de país desenvolvido ou não.

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro, sempre que os bancos centrais procuram manter a moeda estável sofrem pressões por parte de três grupos: o dos economistas heterodoxos, o dos empresários mal acostumados e o dos políticos da base dos próprios governos. Os primeiros não podem ver um preço no lugar certo, isto é, estabelecido pelo mercado, que têm ataques histéricos e, barulhentos como as gralhas e maritacas, tentam reinventar a roda. Pensam, decerto, que se um quadro estiver torto na parede, ao invés de ajustá-lo, é melhor derrubá-la e construir uma outra, inclinada, para ficar paralela à moldura... Os segundos fogem da competição como o capeta da cruz santa. Já os políticos, bem, são políticos e creio que não é preciso dizer mais nada...

Tenho sido bastante crítico em relação ao presidente, porém já escrevi diversas vezes, aqui mesmo no JB, que a autonomia que ele vem concedendo, desde o primeiro mandato, ao Banco Central, vem sendo o solitário ponto forte de seu governo. Por isso, são muito preocupantes as fortes pressões que as autoridades monetárias vêm sofrendo, oriundas de políticos “mensaleiros” (alguns até acusados de formação de quadrilha), de setores rupestres de seu desmoralizado partido, de aliados interesseiros de ocasião, de federações e confederações de empresários viciados na proteção do Estado, de palpiteiros sempre de plantão e de alguns de seus ministros.

A função principal dos bancos centrais é manter a moeda estável e ponto final! Seu papel não é o de promover o crescimento da economia, nem o de gerar empregos, nem o de “redistribuir” a renda e como é frustrante para um economista ter que repetir isto, já no sétimo ano do novo milênio! Tal discussão podia fazer sentido até os anos 50 do século passado, todavia – e que ninguém venha falar de “pensamento único”, pois se trata de constatação empírica – está completamente ultrapassada!

Como sempre, o berreiro é “contra” a valorização do real e o “conservadorismo” que reluta em diminuir a taxa básica de juros e o tom minimalista da desafinada cantoria é que o Banco Central “não está fazendo nada” para conter a valorização do dólar e acelerar a queda da taxa Selic. Ora, nosso regime cambial é de metas de inflação, que pressupõe taxa de câmbio flutuante e, como bem observou o economista Roberto Fendt Jr., “não está escrito em lugar nenhum que a taxa só pode “flutuar” para cima, com a desvalorização do real”. Ademais, não há evidência empírica de bancos centrais que tenham tido sucesso em estabilizar o câmbio frente a movimentos especulativos contra a sua moeda. A verdade pode incomodar, mas precisa ser dita: o câmbio, simplesmente, está onde deve estar.

E a taxa de juros também. É evidente – ou já deveria sê-lo, a esta altura do campeonato – que as taxas de juros são altas no Brasil tão apenas porque o Estado recusa-se, há décadas, a promover cortes substanciais e estruturais em suas despesas, especialmente nas de custeio. Enquanto não o fizer, qualquer aventura heterodoxa por parte de alguma diretoria do Banco Central estará fadada ao fracasso, vale dizer, a provocar, após alguns meses de falsa euforia, semelhante a uma bebedeira, uma enorme ressaca - a estagflação -, que, no caso brasileiro, estará mais para uma cirrose. A história é velha, mas, outra vez, a verdade parece aborrecer...

Deixem o Banco Central trabalhar em paz! Não tenho receio de afirmar com todas as letras que o quadro técnico do Banco Central do Brasil não fica nada a dever a nenhum outro, de país desenvolvido ou não. É urgente regulamentar o dispositivo constitucional que estabelece a sua autonomia, engavetado desde 88. Como escreveu com propriedade Hayek, a autonomia dos bancos centrais equivale a separar o pires de leite dos gatos, ou, adaptando para o nosso país, dos gatunos perspicazes, dos ladravazes contumazes e dos oportunistas mordazes.

Domingo, 18 Fevereiro 2007 22:00

O Empobrecimento do Samba-Enredo

O samba-enredo pede socorro, ao lado das marchinhas e sambas carnavalescos que ele próprio, por uma ironia, ajudou a destruir, a partir dos anos 70.

Tendo um piano sempre à frente e música por perto desde que fui gerado e sendo carnaval, vou deixar de lado a economia e comentar a deterioração melódica, harmônica e rítmica, bastante perceptível, dos sambas-enredo das escolas cariocas. Em quem pôr a culpa por sua progressiva transformação quase que em marchas? Em Bush? No “aquecimento global”? No “neoliberalismo”? Ou, talvez, no dólar desvalorizado? Ou, ainda, nos malvados do Copom?

O samba – e a música, em geral - é uma ordem espontânea, ou seja, um fenômeno que, embora gerado pela ação humana, não é fruto de planejamento deliberado e, portanto, evolve naturalmente ao longo do tempo, tal como a linguagem. Para decepção dos que vêem ideologia até em um simples sanduíche de mortadela, as causas do empobrecimento do samba-enredo são mais simples: a imposição de regras e mais regras aos desfiles, em clara interferência externa na ordem espontânea, descaracterizando-a, fato agravado pelo Sambódromo e as alterações que provocou, especialmente nos critérios de cronometragem dos desfiles, cada vez mais parecidos com competições de atletismo; a descabida apropriação do evento por parte de uma solitária emissora de TV, que impõe às escolas os seus critérios comerciais e éticos (sic); a politização crescente dos enredos, cujo exemplo mais contundente ocorreu em 2006, quando o neoditador da Venezuela financiou a Vila Isabel para enaltecer Simon Bolívar e vencer o desfile; a invasão de gente que jamais participou de uma roda de samba genuína ou subiu em uma favela; a escolha de “jurados” por critérios duvidosos; a transformação do espetáculo em um show business de cores, luzes, artistas plásticos e de novelas, “madrinhas”, nudez, sexo, devassidão, depravação, luxúria e hedonismo, que fulminou os antigos bailes dos clubes e os tradicionais sambas e marchinhas (de que Lamartine e Braguinha foram as maiores expressões), distanciando-o cada vez mais da sua origem genuinamente negra e da sua pureza sadia.

Os primeiros sambas-enredo remontam a 1933, na Unidos da Tijuca e na Mangueira (composto por Carlos Cachaça), com letras de temática patriótica, exaltando as belezas e riquezas do Brasil, característica dos desfiles até os anos 70. No início, as músicas não possuíam segunda parte, que era improvisada durante os desfiles, a exemplo do que ainda fazem os geniais repentistas nordestinos. Com a obrigatoriedade de uma segunda parte não improvisada, os sambistas passaram a ter que pesquisar em livros para comporem longas letras, prática que Sérgio Porto, décadas depois, com sua irreverência, glosou em um famoso samba, que hoje talvez chamasse, para ser “politicamente correto”, de “Samba do Afro-Descendente Aloprado”...

As linhas melódicas, até os anos 60, eram ricas, freqüentemente com modulações em tons menores e estruturadas sobre um andamento lento, com riqueza harmônica (vários acordes), em contraposição aos sambas-enredo atuais, cada vez mais ligeiros (em breve chegarão ao prestissimo) e pobres de melodia e harmonia. As letras foram se tornando cada vez mais simples, formadas por colagens, justaposição de palavras e recursos abusivos a refrões, para tentar empolgar a platéia, formada em sua maioria por turistas e pessoas sem qualquer ligação com as raízes do processo espontâneo de criação. Malgrado seu esplendor, os desfiles na Sapucaí transformaram-se em correrias loucas contra o tempo, prejudicando, pela velocidade e compactação exigidas, a qualidade das letras e os três elementos essenciais da arte musical - melodia, harmonia e ritmo. Pode ter crescido como espetáculo, mas perdeu em qualidade musical.

O samba-enredo pede socorro, ao lado das marchinhas e sambas carnavalescos que ele próprio, por uma ironia, ajudou a destruir, a partir dos anos 70. É preciso salvá-lo e resgatar as marchinhas e sambas de carnaval, deixando fluir a espontaneidade, como os blocos vêm fazendo.

Segunda, 12 Fevereiro 2007 22:00

Os Mercenários e os Otários

O país carecendo tanto de reformas no paquidérmico, indolente e mandrião Estado e um bando de mercenários no Congresso, com exceções que se contam em dois ou três pares de mãos limpas, as impedindo!

Entre uma democracia languidescida e uma tirania assumida há mais em comum do que uma rima paralela: em ambas o cidadão, justo fim da atividade política decente, é transformado em mero pacóvio (como escreveria aquele Luiz, o de Camões) ou otário (como diria o outro Luiz, o da Silva)... O país carecendo tanto de reformas no paquidérmico, indolente e mandrião Estado e um bando de mercenários no Congresso, com exceções que se contam em dois ou três pares de mãos limpas, as impedindo! A pouca-vergonha escancarada é tamanha - embora escape à obnublação mental dos que julgam ser a democracia um fim e não um simples meio -, que chega a desanimar, de tanto sermos enganados, iludidos, ludibriados e roubados, mas, como não devemos abdicar de ser brasileiros, consola-nos lembrar o mestre Eugenio Gudin, quando escreveu: “o Brasil é a única amante que continuo amando, apesar de repetidamente corneado”...

Nossa democracia padece de languidez e, portanto, carece da robustez que só virá com o aperfeiçoamento das instituições, entre as quais o Congresso Nacional. Democracia não é tudo, gente, é só o começo! Lorpas e pascácios há que julgam, por exemplo, que o neoditador da Venezuela, por ter sido eleito “democraticamente” (fingindo desconhecer as dúvidas que pairam sobre a lisura de suas vitórias), pode fazer de seu país uma extensão do banheiro de sua casa e de seu povo uma multidão de lacaios. Ora, Hitller e Mussolini também chegaram ao poder e nele se mantiveram “democraticamente”; Stalin e Fidel juravam-se “democratas” e, no entanto, conhecemos os estragos que fizeram. Em uma democracia de verdade, seriam defenestrados pelo voto, punição a que todos os presidentes dos Estados Unidos estiveram e estão sujeitos, desde George Washington até o George atual que, ao lado do “aquecimento global” e do “neoliberalismo”, é apontado pelos “esquerdopatas” como o culpado de todos os males do mundo.

Um dos motivos da prostração institucional é, sem dúvida, o Legislativo. As eleições para presidente do Senado e da Câmara – especialmente a segunda – proporcionaram um triste espetáculo de agressão à cidadania e desnudaram os vícios de nossa democracia. Uma procela insopitável de tramóias, conchavos, ardis, velhacarias, trampolinices, maranhas, trapaças, acordos por baixo dos panos e traições que enrubesceriam de vergonha até a Madame Bovary de Flaubert, mas encenadas como gestos “patrióticos” pelos delinqüentes autores e atores da peça. Consumada a vitória do candidato oficial, madrugada a dentro, entre afagos e festejos de assessores - que o lusitano letrado Luiz chamaria de lambe-molhos e nosso patrício apedeuta homônimo de puxa-sacos – não é que, somente na sexta-feira que se seguiu ao encenamento da pantomima, 21 parlamentares (2 senadores e 19 deputados federais) simplesmente trocaram de partido? E o fizeram sem culpas, remorsos ou arrependimentos: até pelo contrário, fizeram-no afirmando, batendo nas panças infladas pelos impostos arrancados dos contribuintes, que optaram pela troca para poderem melhor ajudar seus respectivos Estados... Como diria meu avô, managgia!

Para eliminar a tirania camuflada de nossa grimpada democracia, ou para evitar que seus defeitos a transformem em um totalitarismo aberto, como o de Castro e o do Chapolin de Miraflores, só há uma solução, a Sociedade Aberta, sobre a qual tão bem escreveu o austríaco Karl Popper, em que a democracia é um meio para conter a concentração de poder. Isto exige diversos aperfeiçoamentos institucionais, a começar por aquele que, neste momento, desponta como marco da moralização: o instituto da fidelidade partidária, sucessiva - e interesseiramente! - adiado pelos que, carecendo de convicções e pudores, agem como mercenários de apoios, para preservarem a intocabilidade de suas sinecuras e prebendas. Aos otários – nós -, as custas!

Quinta, 08 Fevereiro 2007 22:00

Um Ilustre Desconhecido

Tem gente que pensa,que, para a economia crescer, basta os bancos centrais fixarem a taxa básica de juros em um nível baixo; outros, inspirados na “Teoria Geral” de Keynes.

Já escrevi aqui que ninguém pode ser “contra” o crescimento sustentado, a não ser que seja louco ou queira aparecer. Por isso, todas as vezes que ouço, vejo ou leio alguém dizer-se um “desenvolvimentista”, troco de estação, canal ou página, porque paciência tem limite.

Crescer – ou, como se dizia em tempos priscos – “gerar riqueza” já significou, para uma nação ou povo, sucessivamente, ao longo da história, acumular cabeças de gado, amealhar metais preciosos, possuir terras agricultáveis e, já no século XVIII, inserir-se na Revolução Industrial. Adam Smith, embora antecedido por diversos pós-escolásticos europeus, foi quem primeiro tentou identificar de forma sistemática as causas da criação de riqueza. Antes de Smith, cuja obra sobre o tema – “A Riqueza das Nações” - data de 1776, simplesmente não se falava em “desenvolvimento econômico”, porta da esperança que ele descortinou, enfatizando que as chaves para abri-la eram a livre iniciativa e a ética do trabalho e da poupança. No mundo de hoje, com tantas transformações tecnológicas, os segredos do crescimento sustentado – isto é, ano após ano e não por espasmos – resumem-se à trilogia educação, liberdade econômica (economia de mercado) e liberdade política (democracia representativa), fundamentada em valores éticos e morais milenares e insubstituíveis, consubstanciados em leis sucintas e estáveis.

Tem gente que pensa – se é que podemos chamar a esse trabalho cerebral de “pensamento” – que, para a economia crescer, basta os bancos centrais fixarem a taxa básica de juros em um nível baixo; outros, inspirados na “Teoria Geral” de Keynes (em que ele mesmo já não acreditava pouco antes de falecer, em 1946), que é suficiente o Estado aumentar os seus gastos e injetar “demanda efetiva” na economia, para que um curandeiro chamado “efeito multiplicador” opere o milagre de transformar pedras em pães e empregos; e outros, mais raivosos e rupestres, que um país torna-se rico se fizer uma reforma agrária e distribuir terra para todos.

Não se dão conta de que são três falácias. Ora, os juros são elevados não porque os presidentes dos bancos centrais sejam pessoas de má índole, mas porque são obrigados a buscar empréstimos junto ao setor privado para financiar a orgia orçamentária dos governos que, por sua vez, deriva da idéia de que os gastos públicos sempre geram crescimento, quando o que provocam, na verdade, é inflação, maior tributação e endividamento interno e externo do setor público, ou – como costuma ser mais comum – uma combinação desses quatro elementos ou de alguns deles. Injetar “demanda efetiva” na economia não gera crescimento sustentado: quando muito, pode provocar um surto efêmero de aquecimento das vendas, acompanhado de uma tentativa por parte do setor produtivo de aumentar a produção, que poderá durar algum tempo caso as expectativas de inflação estejam sob controle, mas que, mais cedo ou mais tarde, será abortada pela inflação e pelo desemprego, pela mais elementar das razões, que é o fato de a demanda estar para a oferta assim como o Alonso está para o Rubinho... Sempre chega a hora em que o excesso de demanda não é mais atendido pela expansão da capacidade produtiva, que exige tempo de maturação nos investimentos, assim como sempre, seja na largada, na terceira ou na vigésima volta, o simpático piloto brasileiro é ultrapassado pelo espanhol mais veloz...

Enquanto não aprimorarmos a educação, praticarmos a liberdade econômica e atacarmos de frente a questão da reforma política, urgente para melhorar a representatividade da democracia brasileira; enquanto não adotarmos o federalismo; enquanto o sistema ético continuar podre e enquanto nossos governos acreditarem no conto-do-vigário de que é bom inchar a demanda, o crescimento sustentado continuará sendo o ilustre desconhecido que tem sido para a nossa economia e sociedade.

Terça, 30 Janeiro 2007 22:00

Êta Pacote Fracote!...

O pacote é tão fracote que o próprio presidente solicitou à sua gerente Dilma, dois dias depois de anunciado, uma lista dos descontentes com seus efeitos, para uma eventual revisão.

Planos de governos costumam ser fracassos com datas marcadas. Este PAC, anunciado com pompa, circunstância e jactância, até que, em alguns itens, tateia pontos corretos, como destributação, desburocratização e investimentos em infraestrutura. Só que entre sonho e realização, entre desejos e ensejos, existe sempre esta chata de galocha, a realidade.

O programa não é gradualista, como disse a ministra Dilma: é apenas fraco e de uma timidez de freira carmelita descalça, ao não tocar no essencial, o inchaço do Estado! A obviedade disto é claríssima, mas o óbvio ululante a Lula parece não dizer nada... Será muito difícil nossa economia crescer 5% neste ano e manter essa taxa nos anos seguintes, por muitas razões.

A principal é que o programa não se dispõe a desfazer a disparidade que existe em nossa economia, entre um setor privado moderno, dinâmico e inserido nos moldes do mundo globalizado e um setor público ineficiente, pesado e inchado, que só tem feito atrapalhar o primeiro. Por não ter o governo petista-peemedebista disposição e cacife político para promover um forte choque de gestão no setor público e para cortar efetivamente gastos correntes - e não apenas contê-los -, o plano vai gorar rapidamente. A hora de modernizar o Estado seria agora, início do novo mandato; “depois”, à luz da evidência, costuma ser o advérbio dos incompetentes.

Outra falha é que se trata de um plano heterodoxo e os economistas heterodoxos são como aqueles lutadores de boxe que sempre vão à lona, mas levantam-se rapidamente, apenas para caírem de novo, sem que o juiz jogue a toalha. Tudo, rigorosamente, o que fizeram “neste país” deu errado, desde aquela quimera de JK de crescer “50 anos em cinco”, passando pela desarrumação que provocaram na economia no governo Jango, por algumas invenções de Delfim e desaguando nos cinco pacotes que quase mataram de inanição a produção e engordaram a inflação: os planos Cruzado, Bresser, Verão e os dois capitaneados por aquela senhora, no governo Collor. A piadinha sem graça do ministro da Fazenda sobre a taxa básica de juros, bulindo com Meirelles, revelou um racha no governo, entre o Banco Central, ortodoxo, e os demais ministérios, heterodoxos, estes sempre se arrogando o monopólio de um pretenso “desenvolvimentismo”.

Um terceiro equívoco é que os autores do PAC ainda acreditam na falácia de que gastos públicos geram crescimento. Dos R$ 503,9 bilhões a serem empregados em infra-estrutura até 2010, apenas R$ 67,8 bilhões, ou seja, parcos 13,5%, sairão do orçamento da União; os restantes 86,5%, que somam R$ 436,1 bilhões, virão das estatais federais e do setor privado e, mesmo assim, parte dos recursos públicos será desviada do FGTS e uma parcela do dinheiro das estatais será obtida com a venda de ações em mercado. Parece que os autores do PAC inventaram o keynesianismo com recursos privados. Nobel para eles! É o “Pacote Muquirana”, em que o governo entra com as ordens e os empresários e trabalhadores com a grana...

A quarta “trava” não removida pelo programa é seu caráter absolutamente centralizador na União, sem o menor respeito para com o federalismo e o respectivo princípio da subsidiariedade. Permanecem o terrível vício brasileiro de tudo decidir em Brasília e a crença de que os iluminados burocratas do governo têm o poder de puxar e repuxar as cordinhas do crescimento, fazendo dos agentes privados simples marionetes sem vontade e sempre prontos a agirem de acordo com os comandos dos planejadores.

O pacote é tão fracote que o próprio presidente solicitou à sua gerente Dilma, dois dias depois de anunciado, uma lista dos descontentes com seus efeitos, para uma eventual revisão.

Pensei que a triste época dos planos havia ficado para trás. Doce ilusão!

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