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Mario Guerreiro

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

Sexta, 26 Dezembro 2008 21:00

Felizardos Serão os Emprenhadores

E é preciso acrescentar que não sou a favor de uma limitação forçada da população: penso que o indivíduo goza do direito de ter ou não ter filhos e, caso opte por tê-los, que os tenha tantos quantos assim for seu desejo.

Malgrado não seja eu Lulinha-Paz-e-Amor - segundo o triunfal slogan de Duda Mendonça - estou convencido. Convencido de que? De que nossos preclaros legisladores, aboletados na Ilha da Fantasia, prestariam um inestimável benefício para o povo e para o bem-estar geral da nação, se não promulgassem mais nenhuma lei e dedicassem seu precioso tempo a revogar as milhares de leis idiotas ou perversas existentes neste país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

E digo isto, porque a difícil tarefa de legislar está sujeita a produzir leis escabrosas, ao passo que a fácil tarefa de revogar leis tem muito menos probabilidade de cometer desatinos, principalmente num país como a República da Bruzundanga – assim batizou esta terra o inconveniente Lima Barreto – em que 9 em 10 leis, quando não são inócuas e redundantes, são ridículas e desastrosas. Além disso, como dizia o sóbrio e sereno Montesquieu, “as leis inúteis debilitam as necessárias”.

Recentemente nossos ilustres deputados no Planalto baixaram uma lei em que os empregadores não podem despedir, sem justa causa, empregados cujas esposas estejam grávidas. Espíritos altruístas, adeptos das causas trabalhista e socialista, da teologia da libertação et caterva compreenderam imediatamente o espírito da lei: trata-se de evitar que o trabalhador, num período em que ele aumenta seus gastos com a saúde de sua esposa, se veja na precária condição de desempregado.

Por acaso não é esta uma medida justa? Não, porque é unilateral e abre um perigoso precedente: sabedor de que não pode ser despedido quando sua esposa estiver grávida, o trabalhador nunca mais vai usar camisinha nem recorrer a qualquer outro meio anticoncepcional. Será uma gravidez após outra, tal como em dias de antanho.

Desse modo, em vez de ter um ou dois filhos – média atual da geração de novos brasileiros – ele terá no mínimo dez ou doze. O eficaz programa de controle de natalidade irá para o brejo e o Brasil será uma nova Índia, uma produtiva fábrica de miseráveis.

E é preciso acrescentar que não sou a favor de uma limitação forçada da população: penso que o indivíduo goza do direito de ter ou não ter filhos e, caso opte por tê-los, que os tenha tantos quantos assim for seu desejo.

Todavia, cabe ao Estado criar programas educativos de limitação da natalidade, bem como colocar meios à disposição dos que a desejam, porém carecem de instrumentos adequados, para limitar suas proles. È importante não esquecer a etimologia de “proletário”: aquele que possui uma grande prole.

Outra idéia torta sobre gravidez: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou em (6/11/2008) a lei que obriga o pai a dar toda assistência à mãe da criança durante a gravidez. Antes, somente após o nascimento do filho existia esta obrigação. Agora, o futuro pai terá que pagar todas as despesas durante os nove meses de gestação e assumir gastos como alimentação especial, assistência médica e psicológica, exames complementares, internações, parto e medicamentos.

A lei permite que a mulher recorra à Justiça para ter acesso a esse direito, chamado de alimentos gravídicos. O pai terá que se apresentar ao juiz em até cinco dias e, durante a audiência, será fixada o valor da pensão a ser paga neste período. A condição econômica do pai será levada em conta. A mulher também deverá contribuir e ajudar nessas despesas. Hoje, as mulheres só podem requerer a pensão após o nascimento do filho e depois da comprovação, por exame de DNA, da paternidade. A lei diz que o juiz fixará o valor após estar convencido da existência dos "indícios da paternidade”.

Prima facie, isto parece bastante razoável, uma vez que desestimula a paternidade irresponsável, principal elemento desagregador da família e gerador de menores abandonados, potenciais pedintes ou delinqüentes, sendo a maioria de ambas as categorias constituídas de viciados em cheirar cola de sapateiro.

Mas o que são “indícios da paternidade”? Fosse o caso de indícios de maternidade, e não haveria nenhum problema: embora haja filho de pai desconhecido – e no Brasil, desde a época colonial, bastardos proliferam mais do que ratazanas em Copacabana - não há filho de mãe desconhecida. Mas, para ser sincero, não consigo vislumbrar o que “indício da paternidade”... Um homem ter comprovadamente mantido conúbio sexual com uma mulher – ainda que por longo tempo - não é um indício da paternidade, pois o que nos garante que o emprenhador não tenha sido o vizinho do quarto andar com o qual a moçoila costumava pular a cerca?!

O jurista Esdras Dantas alerta que se a mãe apontar o homem errado como pai, pode ser processada com base no Código Civil a devolver com juros o dinheiro que recebeu e ainda ser condenada a indenizar o homem por danos morais, caso tenha sido intentada uma ação com má-fé, quer dizer, uma pessoa que queria se aproveitar de uma situação e indicasse um pai que na verdade não era o pai da criança. No entanto, isto pode ocorrer sem que haja dolo: suponhamos que a mulher mantivesse relações sexuais com três ou quatro homens, um de cada vez, entenda-se. Neste caso, ela simplesmente teria se enganado ao apontar um deles como o pai. Este bem poderia dizer: “Logo eu? Por que eu?!”

Lula vetou seis artigos da lei aprovada pelo Congresso. Um deles previa que, caso fique comprovado que o acusado não é o pai, ele terá direito a ser indenizado por danos morais e materiais causados pela gestante. Ora, este é um caso típico de litigância de má-fé acarretando prejuízo para o suposto pai da criança! Que seja então punido, na forma da lei, o litigante.

O presidente afirmou na justificativa que é uma medida intimidadora. "Cria a hipótese de responsabilidade objetiva pelo simples fato de se ingressar em juízo e não obter êxito. Pressupõe que o simples exercício do direito de ação pode causar danos a terceiros”. Mas o fato é que a medida atenta contra o livre exercício do direito de ação.

No texto, foi vetado ainda que o início do pagamento da despesa por parte do pai ocorra após a sua citação judicial. Lula justificou que, se fosse assim, como o réu pode recorrer e usar manobras para impedir essa citação, demoraria muito tempo para começar a pagar. Dessa forma, o auxílio financeiro devido à gestante teria início no final da gravidez, ou até mesmo após o nascimento da criança.

Legisladores do meu querido Brasil: por favor, não façam mais leis, revoguem tantas quantas assim for necessário. Garanto que se fizerem isso, terão muito mais probabilidade de acertar, embora eu não possa garantir que terão menos trabalho.

Apêndice I

Durante o nazismo Hitler pariu uma lei, mas estava em dúvida sobre a correta forma legal. Assim sendo, chamou um famoso jurista alemão para uma consulta. Após breve olhada no texto da lei, o jurista respondeu: Mein Führer, Papier ist geduldig! (Meu Führer, o papel é paciente!, i.e. o papel aceita tudo!). Muito antes dele, Bismarck, o Chanceler de Ferro, o unificador da Alemanha - raposa política das mais felpudas - já dizia: “O povo jamais deve ficar sabendo como são feitas as salsichas e as leis”. E deve ter sido por isso que Lloyd George costumava dizer: “Tenho muito mais medo das salsichas dos alemães do que de seus canhões”.

Apêndice II

A mais recente pesquisa sobre o índice de popularidade de Lulla revela: 70% acham que seu governo é bom ou ótimo. 23% acham que é razoável e apenas 7% acham que é ruim ou péssimo. Disto se infere algo que venho há muito tempo afirmando: 7% de brasileiros - ou menos ainda - costumam praticar com afinco a aeróbica dos neurônios. 

Domingo, 14 Dezembro 2008 21:00

Quem Disse Que a Era Vargas Já Acabou?

Como se sabe, o excesso de regulamentação desnecessária, assim como a carência de regulamentação necessária, são um dos mais poderosos entraves para a atividade empresarial no Brasil.

Tenho constantemente feito acerbas críticas aos artiguetes publicados pelo jornaleco da ADUFRJ [Associação dos Do(c)entes da UFRJ] quase sempre inspirados por um esquerdismo de botequim. Mas eis que finalmente deparo-me com um artigo do professor Marcelo Badaró [Dept.o de História da UFF] intitulado “Estrutura sindical brasileira continua baseada no modelo fascista” que mais parece um estranho no ninho, uma vez que diz algumas coisas extremamente sensatas sobre um entulho autoritário da Era Vargas - a era que já era, porém ainda não acabou - embora eu não possa dizer o mesmo das conclusões a que ele chega após sua crítica do modelo fascista.

De acordo com o referido professor, a principal especificidade da estrutura sindical brasileira é que ela é uma estrutura de sindicalismo oficial, ou seja: na linguagem dos cientistas políticos, trata-se de um corporativismo oficial, mas em um sentido diferente daquele geralmente emprestado a “corporativismo” que é o de “defesa dos interesses de um determinado grupo contra os interesses da maioria da sociedade”.

À primeira vista, tudo indica que Badaró está equivocado neste particular, pois o que está em jogo é realmente o sentido usual de “corporativismo”, uma vez que o sindicalismo brasileiro atende tão-somente ao interesse dos pelegos – e obviamente daqueles que os têm mantido - em detrimento do dos trabalhadores e dos da sociedade em geral. Apesar disto, vejamos o que Badaró tem a nos dizer...    

Ele chama a atenção para o fato que a atual estrutura sindical se formou a partir de uma peculiar conjuntura: o Estado Novo de Vargas, e não por mera coincidência já nasceu marcada por fortes traços autoritários como, por exemplo, a presença do Estado como o regulador das desavenças entre o capital e o trabalho. Criado na década de 30, como cópia servil da Carta del Lavoro de Benito Mussolini, o modelo sindical permanece o mesmo, inatingível pelas mudanças sociais ocorridas nos últimos 70 anos. Parece até o PRI (Partido Revolucionário Institucional) mexicano – uma contradição em termos! - que durante 70 anos não tinha perdido nenhuma eleição, até a recente eleição de Vicente Fox pertencente a outro partido.

Segundo Badaró, “os militantes das lutas sociais já naquela época denunciavam a regulamentação sindical do governo Vargas como uma cópia da Carta del Lavoro do governo Mussolini”. [Jornal da AUFRJ, 3/11/2008]. Só não entendo por que faziam tal coisa, uma vez que a referida Carta foi a matriz dos atuais sindicatos como a CUT-PT – único sindicato-partido do mundo! – tão apreciados pelos movimentos sociais hodiernos, inclusive a ANDES (Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior) impenitentes ou arrependidos eleitores do PT-CUT e de Lulinha Paz e Amor, que não deveria ser eleito nem para Presidente do Corinthians ou síndico de edifício.

Badaró prossegue dizendo que, com a derrota do nazifascismo e após a Segunda Guerra, os modelos sindicais de corporativismo estatal foram dissolvidos na Europa, tanto na ditaduras pró-fascista de Salazar em Portugal como na de Franco na Espanha. Porém, com o fim da ditadura Vargas no Brasil, em 1945, tudo ficou como dantes no quartel de Abrantes. A Constituição de 46 e a Constituição de 88, a Popozuda, não modificaram absolutamente nada no modelo sindicalista da Era Vargas. Êta país retrógrado e atrasado! Millôr Fernandes tem toda a razão: “Quando uma ideologia fica bem velhinha, carcomida e andando de bengala, faz as malas e vem para o Brasil”.

Criada também durante o Estado Novo de Vargas, a Justiça do Trabalho – coisa que só existe em Terra Brasilis ! – “vai fazer valer o conceito de que o Estado era o árbitro dos interesses entre capital e trabalho, seja em conflitos individuais (entre um empregado e seu empregador, seja em conflitos coletivos (entre sindicatos que representa os trabalhadores e sindicatos que representam os patrões)”.

Segundo pensamos, tanto o Ministério do Trabalho como a Justiça do Trabalho são gorduras do Estado-Dinossauro, coisas perfeitamente dispensáveis. Litígios trabalhistas poderiam ser resolvidos pelas Justiças estaduais ou mesmo por juizados arbitrais, como o são no resto do mundo. Pensando bem: por que razão é preciso o Estado atuar como mediador em pendengas que não lhe dizem respeito? Será que empregadores e empregados carecem de entendimento e responsabilidade e têm de ser tutelados por uma instância estatal como se crianças ou débeis mentais fossem? Ah! aqui quem fala em defesa da Justiça do Trabalho é o velho e carcomido paternalismo sempre disposto a “proteger” os trabalhadores da “sanha do vil capitalista que os explora impiedosamente”. E é por isso que, na Justiça do Trabalho, o patrão nunca tem razão.

Apesar da Carta del Lavoro, isso não tem cheiro do fascismo de Mussolini e sim do marxismo de Karl Marx. Aliás, uma coisa difícil de compreender é como nossos intelectuais de esquerda, militantes e “companheiros de viagem” - ou seja: idiotas úteis - todos defendem ardorosamente coisas geradas - direta ou indiretamente - pelo fascismo, coisas tais como a Carta del Lavoro, sua cópia servil, as leis trabalhistas, a Justiça do Trabalho, Ministério do Trabalho, etc. Falta de coerência das idéias, ecletismo oportunista ou crassa ignorância? Quartum non datur.

Prosseguindo, Badaró aponta uma verdadeira excrescência jurídica de mentes governadas pela tentação totalitária: “Entre suas características, o sindicalismo de Estado tem o conceito de unicidade sindical pelo qual só pode existir um sindicato por categoria profissional em cada região. A esta idéia está acoplada a idéia de monopólio da representação”. Não é de surpreender tal coisa no país dos grandes monopólios estatais como o da Petrobras, Correios e Telégrafos, etc. E apesar da Constituição nos garantir o direito de livre associação, ninguém até hoje que eu saiba arguiu a constitucionalidade do sindicato único. Deve ser porque 99% os brasileiros só pensam por associação livre de idéias ou então por escusos interesses: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. “Mateus, primeiro os teus”.

Pior do que isso somente o imposto sindical estendendo-se até aos trabalhadores não-sindicalizados. E isto unicamente para encher as barrigas dos líderes sindicais, verdadeiros pelegos que infestam este pobre país pobre desde Vargas até Lulla. E esta é uma das razões pelas quais insistimos em asseverar que a Era Vargas não acabou, uma vez que ainda persistem suas mais nefastas características: peleguismo, clientelismo, empreguismo, analfabetismo (total e funcional), culto da personalidade do líder carismático, autoritarismo, culto do Estado provedor, nacionalismo tupiniquim, protecionismo, deslavada corrupção, etc. É mesmo difícil apontar quais dessas coisas já não estavam presentes no Governo Geral de Tomé de Souza...

Como se sabe, o excesso de regulamentação desnecessária, assim como a carência de regulamentação necessária, são um dos mais poderosos entraves para a atividade empresarial no Brasil.  Badaró mostra muito bem que também são não menos poderosos entraves para a atividade sindical:

“E o Estado também define como o sindicato deve funcionar, por um ‘estatuto-padrão’, pois todos os sindicatos devem seguir as mesmas regras: mesmo número de diretores, mesmo número de assembléias anuais, entre outros dispositivos: e ainda se garante ao Estado um poder de intervenção, se o Ministério do Trabalho achar que as regras não estejam sendo cumpridas, pode retirar diretorias eleitas e colocar interventores nos sindicatos”. Coisa que não é de causar espécie, uma vez que no Estado Novo de Vargas não havia governadores, mas sim interventores nomeados e exonerados pelo próprio Vargas, que devia ter uma grande admiração por Il Duce, Mussolini: “O Estado é tudo e nada há fora do Estado”.

Badaró defende uma idéia liberal quando afirma: “Pelo conceito de pluralismo sindical, podem existir tantos sindicatos numa empresa quanto os trabalhadores deliberem criar”, mas logo após defende outra tipicamente sindicalista: “Esse modelo também pode levar à fragmentação, se não houver a denominada “unidade sindical” dentro dessa liberdade”. Ora, da idéia de unidade à de unicidade, basta um passo. E ele foi dado quando da criação da CUT, que pretendeu de saída ser uma Central Única dos Trabalhadores, enquanto o PT fingia e finge ser a favor da pluralidade de partidos políticos por uma questão de estratégia gramsciana de hegemonia.

E para que não se pense que eu estou inspirado no wishful thinking do conspiracionismo, Badaró põe suas manguinhas de fora: “Na maior parte da Europa onde esse conceito [a saber: o de unidade sindical] ganhou força no pós-fascismo, o que se viu surgir foram centrais sindicais nacionais ou sindicatos nacionais organizados a partir de referências político-partidárias”. Ora, um sindicato só tem sua razão de ser como uma instituição voltada para os interesses de uma categoria profissional, ao passo que um partido político não deve se restringir a esse particularismo. Sindicato e partido político têm portanto finalidades incompatíveis. Lenin também pensava assim, embora por razões bastante diferentes das minhas. Para ele, os sindicatos não deviam estar defendendo os interesses de suas particulares categorias profissionais, mas sim o interesse único do proletariado em derrubar a ordem vigente e ser inteiramente subserviente ao novo “Czar”de todas as rússias: o Politburo do PCUS.

Mas Badaró completa seu pensamento dizendo: “Embora tivesse a indiscutível vantagem da liberdade de organização sindical, [o pluralismo sindical] mostrou-se um modelo frágil na medida em que seus sindicatos tenderam para a conformação com a ordem vigente”. O que queria ele? Centrais sindicais devidamente preparadas para mudar a ordem vigente por meio da revolução do proletariado ou tomar o poder por meio da greve contínua propugnada por George Sorel? Houve época em que o PT-CUT dedicou-se tanto ao grevismo que cheguei a pensar que era a idéia deste último que estava comandando sua estratégia anarco-sindicalista, mas hoje percebo que estava enganado, pois bastou Lulla ser eleito para o grevismo cessar. Era apenas uma tática para desastabilizar os governos de outros partidos.

Afirma Badaró que os movimentos dos trabalhadores sempre foram favoráveis às reformas sindicais. Suas principais reivindicações foram e são: (1) fim do controle do Estado sobre os sindicatos, (2) fim da unicidade, (3) fim do poder normativo da Justiça do Trabalho, (4) fim do imposto sindical e (5) a possibilidade de se organizarem em centrais sindicais.

Quanto a (1), estou disposto a concordar, desde que os sindicatos não façam nada contrário ao estabelecido pela lei, como também isto se estende a quaisquer outras pessoas jurídicas. Podem fazer greves de caráter estritamente reivindicatório, não greves de caráter político. Podem persuadir seus filiados a entrar em greve, mas não gozam do direito de impedir - mediante qualquer forma de coação - aqueles que não desejem aderir à greve e queiram trabalhar. Greve é um direito do trabalhador, mas piquete é e deve mesmo ser uma infração da lei, pois é um desrespeito ao direito de livre associação.

Quanto a (2) Sou inteiramente favorável, por entender que há um direito constitucional de livre associação estendendo-se a quaisquer indivíduos que venham a se associar com vistas a qualquer fim, desde que este mesmo fim não produza danos materiais e/ou morais para os demais indivíduos, como, por exemplo, a formação de uma quadrilha. Isto significa dizer que sou a favor de um irrestrito pluralismo sindical, desde que os sindicatos formados não recebem um só centavo do governo.  

Quanto a (3), vou ainda mais longe: sou a favor da extinção da Justiça do Trabalho e do Ministério do Trabalho, entulhos autoritários do Estado Novo e da mentalidade fascista. Pendengas na relação capital/ trabalho, devem ser resolvidas pelas partes litigantes que, caso concordem, podem escolher, de comum acordo, um árbitro de um juizado arbitral.

Quanto à (4) sou contra o imposto sindical. Um sindicato deve se manter com contribuições voluntárias de seus associados, do mesmo que um clube ou uma igreja. Acredito mesmo que a maioria dos trabalhadores deseje o fim desse imposto absurdo, que lhes retira uma quantia equivalente a um dia de trabalho. Todavia, quem não quer tal coisa é justamente os nababescos pelegos e sua cortes de parasitas, isto para não falar nos políticos sem os quais o peleguismo não teria sido inventado como massa de manobra dos trabalhadores.

Quanto a (5), as centrais sindicais como a Central “Única” dos Trabalhadores (CUT) durante muito tempo permaneceram na ilegalidade – uma associação que não é reconhecida como pessoa jurídica é uma entidade à margem da lei – como o MST até hoje permanece. Com a diferença de que a CUT sempre desejou se tornar uma pessoa jurídica, ao passo que o MST nunca desejou, por motivos escusos que não cabe enumerar aqui. Porém, recentemente, a CUT conseguiu ser legalmente reconhecida, o que significa um grande passo para o fim do pluralismo sindical e a preparação de um monopólio sindical nesta terra dos grandes monopólios estatais e privados.

Ora, já temos um antro de corrupção que é o SUS (Sistema Único de Saúde), criado pela mentalidade centralizadora. Por que não um único sindicatão, como sempre foi a aspiração do Sindicato Único dos Trabalhadores. Caso isto venha a ocorrer, teremos um Quarto Poder, para o desalento de Montesquieu – um Poder com o qual o Presidente da República terá que negociar muito sob constante ameaça de greve geral comandada pelos novos pelegos.

É por estas e outras que insistimos em dizer: a Era Vargas não acabou. Não por mero acaso Lulla certa vez disse que gostaria que seu governo fosse lembrado como o governo Vargas...

 

Não resta a menor dúvida de que, apesar de à miúde confundidas, a burrice é uma coisa, a ignorância outra, e bem distinta!

Não resta a menor dúvida de que, apesar de à miúde confundidas, a burrice é uma coisa, a ignorância outra, e bem distinta! E quem não é burro nem ignorante, pode ainda ser adepto da pilantragem ou da prática do mau caráter. [Males estes que proliferam mais do que ratazanas no Planalto]. Já dizia o gênio da raça, o saudoso Nelson Rodrigues, o homem que teve a coragem de dizer o que muitos pensavam, porém careciam de coragem para dizer: “No Brasil, quem não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte”.

O fato é que a ignorância e a burrice nada têm a ver com a moralidade: preciosíssima coisa de que mais carece o habitante de Pindorama, Terra das Palmeiras, onde não canta sabiá nenhum, porque sabiá nunca cantou em palmeiras, ao menos do ponto de vista dos melhores especialistas em ornitologia. Não sabe o que é? Não é vergonha consultar o famoso “pai dos burros” conhecido também pelo nome de “dicionário”.

A ignorância decorre da falta de informação e de conhecimento, porém a inteligência é gerada pela falta de inteligência e discernimento. Em última análise, maior ou menor inteligência, deste ou daquele tipo, é uma herança da loteria genética. A ignorância, contudo, jamais é inata: trata-se de uma disposição adquirida. É estranho, porém corretíssimo dizer: adquire-se a ignorância por não se adquirir informações e conhecimento. Sabemos que, de duas maneiras, um indivíduo pode ser cego: por não poder ou - coisa muito pior - não querer ver! A primeira forma de cegueira é deficiência que não depende de nós, mas a segunda só depende de nós. E por isso mesmo, tem de ser considerada muito pior.

Tanto a ignorância como a burrice comportam graus: o mínimo grau de inteligência confina com a oligofrenia e o máximo com a genialidade. O mínimo grau de burrice não faz de ninguém um burro; apenas impede de considerá-lo um gênio. Todavia, um máximo grau de burrice faz de um indivíduo um completo capadócio, um pascácio, um rematado imbecil. Como sou professor universitário há mais de 20 anos, tenho farta experiência didática neste particular tópico.

Há indivíduos e povos burros e ignorantes. É claro que qualquer povo, considerado portador do primeiro e/ou do segundo atributos, é assim avaliado mediante estatística. Um povo em que mais de 70% dos seus integrantes, apesar de saber ler, não entende o que lê – caso do assim chamado “analfabeto funcional” – tem que ser considerado um povo ignorante e talvez mesmo burro, não obstante a existência de verdadeiros gênios entre seus membros.

Por sua vez, tem que ser considerado burro – e não qualquer outra coisa - um povo em que mais de 70% dos seus integrantes mostram-se incapazes de fazer raciocínios elementares. Por exemplo: não conseguem responder corretamente à seguinte pergunta: “A médica explicou que o paciente deveria tomar 1 comprimido do mesmo medicamento a cada seis horas. Quantos comprimidos desse medicamento o paciente deve tomar por dia?” 

É espantoso! Verdadeira calamidade pública! Mas o fato é que o brasileiro, além ignorante, é um povo burro. Leiamos, entendamos e levemos bastante a sério este editorial de O Estado de São Paulo.

 
 
 

“As perguntas eram bem simples, até para uma criança de 10 anos. Leia-se um exemplo: "A médica explicou que o paciente deveria tomar 1 comprimido do mesmo medicamento a cada seis horas. Quantos comprimidos desse medicamento o paciente deve tomar por dia?”

"Poucos alunos de 4ª série serão capazes de resolver problemas assim se estiverem matriculados na rede estadual. Segundo os dados agora divulgados pela Secretaria da Educação, 80,8% dos estudantes da rede pública nessa faixa apresentavam, em 2007, níveis de aprendizagem abaixo do adequado.”

“No terceiro ano do ensino médio, 95,7% não atingem os padrões de desempenho previstos. Dificuldades com subtração e porcentagem se verificaram em 71% dos alunos que concluíam o colegial na escola pública.São esses alguns dos resultados do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo).”

“Dentro desse quadro alarmante, é pelo menos positivo que finalmente, em 2007, o governo estadual tenha adequado seus métodos de aferição escolar (vigentes desde 1996), tornando-os comparáveis aos aplicados na esfera federal.”

“A despeito das possíveis vantagens de uma grande continuidade administrativa (a hegemonia tucana no poder estadual se prolonga desde 1995), e a despeito do nível de desenvolvimento econômico atingido pelo Estado, o desempenho do ensino paulista se mostra tão indigente quanto a média nacional.”

“Em matemática, a pontuação média obtida no ano passado pelas escolas estaduais foi de 231,5 na 8ª série, levemente abaixo da pontuação federal (232,9) em 2005. Considera-se "adequado" o nível mínimo de 300 pontos.No último ano do ensino médio, no qual se espera uma pontuação acima de 350, a rede paulista contabilizou 263,7 pontos em 2007, contra 260 da média nacional em 2005.”

“A diferença reduz-se, portanto, a minúcias percentuais, do tipo daquelas que um aluno de rede pública, depois de 11 anos na escola, teria sérias dificuldades para calcular. Progressos na qualidade educacional, como se sabe, são lentos e exigem grande empenho na qualificação dos professores, assim como no combate, que mal se inicia, ao absenteísmo endêmico na categoria e aos fatores de desestímulo que o originam.”

“Mínimas melhoras no ensino de português foram registradas pelo Saresp em comparação com 2005. Em matemática, a calamidade persiste. A secretária estadual de Educação, Maria Helena Guimarães Castro, não sabe dizer quanto dos R$ 2 bilhões investidos na capacitação de professores foram destinados à área de exatas. ‘Essa conta eu vou ter de fazer imediatamente’, declarou à reportagem. Só se pode esperar que não tenha dificuldades em chegar a um pronto resultado.”

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E me abstenho de apresentar aqui as péssimas colocações de estudantes brasileiros no ranking de avaliações, feitas juntamente com estudantes de outros países, em que o Brasil geralmente tem uma colocação abaixo do indigente Paraguai. Boris Casoy certamente diria: “É uma vergonha!”. Tinha toda a razão e não estava exagerando o saudoso Roberto Campos: “No Brasil, a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor”.

Mas, antes de quaisquer considerações sobre as causas da burrice e da ignorância, uma observação faz-se imprescindível. A dificuldade de aprendizagem na área de Matemática é de diferente natureza da dificuldade nas áreas de história, geografia, etc., bem como na de toda a qualquer disciplina que envolva conhecimento de caráter factual – coisa que nem a Matemática, nem a Lógica, nem tampouco a Filosofia não envolvem.

Nestas disciplinas está em jogo puro raciocínio lógico. Fatos de qualquer tipo estão completamente fora de questão, mas isto não significa dizer que o aprendizado dependa, única e exclusivamente da inteligência, pois nos primeiros momentos se aprende coisas básicas cujo desconhecimento inviabilizaria o conhecimento de coisas mais complexas por elas pressupostas. Ou seja: se um indivíduo desconhece completamente álgebra elementar, não saberá resolver uma equação de primeiro grau; não sabendo resolver esta, não saberá resolver uma de terceiro grau, und so weiter...

Em seu imperdível diálogo intitulado: Menão (ou Do Bem), Platão colocou em cena Sócrates ensinando um teorema de geometria a um escravo notoriamente ignorante. Como veremos um pouco mais adiante, ele podia ser considerado ignorante, mas não burro! Tinha desconhecimento de muitas coisas, inclusive de geometria... Mas seria interessante indagar: “Como procedeu  Sócrates, para realizar tal proeza pedagógica?"

A resposta é de uma apaixonante simplicidade: primeiro, ele apresentou alguns axiomas que, como verdades autoevidentes - do tipo: “Uma reta é uma sucessão de pontos contíguos” – podem ser compreendidos por todo e qualquer membro da espécie Homo sapiens, desde que este mesmo saiba falar uma língua qualquer e não esteja nos limites da oligofrenia. Uma vez compreendidos os axiomas, Sócrates começou a fazer alguns raciocínios dedutivos, de modo a fazer uma demonstração do teorema.

Ora, o aprendizado desses raciocínios não depende de nenhum conhecimento prévio, a não ser o dos referidos axiomas que, por sua vez, dependem tão-somente da inteligência. Assim, pouco a pouco, Sócrates fez a demonstração do teorema e o escravo mostrou compreendê-la muito bem. Este escravo não tinha conhecimento, nem precisou de conhecimento nenhum, além do de proposições autoevidentes. Era ignorante, mas não era burro. Supondo que fosse, Sócrates jamais conseguiria realizar sua tarefa.

Quando está em jogo o aprendizado do conhecimento de caráter factual o que é basicamente exigido é a capacidade de aquisição de informações e boa memória, para não esquecê-las. Mas quando está em jogo a aquisição de conhecimento de caráter conceitual o que é exigido é a aquisição de esquemas dedutivos, o que pressupõe a posse de razoável grau de inteligência abstrata.

Dito isto, podemos levantar uma hipótese a respeito da causa da ignorância brasileira (mas não da burrice). Desde a escola básica até a universidade, a maioria dos docentes só sabe enfiar informações (conhecimento factual) pela goela abaixo dos discentes. Estes que as digiram como bem puderem! Mais tarde, terão que vomitá-las - de preferência com as mesmas palavras do do(c)ente - nos testes de verificação de aprendizagem, chamados “provas” (que só provam mesmo a precariedade da pedagogia empregada).

A isto dá-se o nome de decoreba, uma detestável forma de aprendizagem em que a boa memória passa a ocupar o lugar da inteligência e ser mais valorizada do que ela. No entanto, o que foi memorizado será brevemente esquecido após o vestibular, assim como o que foi memorizado durante o curso de graduação será esquecido, uma vez de posse o canudo de papel. Autoengano, pois o que realmente importa é o conhecimento que se porta. O mercado de trabalho acaba inevitavelmente fazendo a “seleção natural”!

E é impressionante que até mesmo em cursos em que a Matemática desempenha um papel bastante importante – cursos de Física, Engenharia, Economia, por exemplo – a decoreba corre solta. Na impossibilidade de memorizar sem entender esquemas de raciocínio dedutivo, memorizam-se fórmulas de resolução de problemas, que – pela aplicação da fórmula correta - são resolvidos sem que o discente compreenda como o foram.

Não temos a menor dúvida de que raciocínios indutivos - ou algo bastante semelhante a eles – até as galinhas fazem. Por exemplo: se um avicultor dá milho para suas galinhas - e repete este comportamento todas as manhãs durante considerável tempo - quando elas o vêem entrando no galinheiro ficam todas alvoroçadas, porque nutrem a expectativa de ganhar sua refeição. No cérebro das galinhas, as coisas devem estar se passando mais ou menos assim:

 

Toda vez que aquele vivente entra no galinheiro, ele dá milho pra gente.

Aquele vivente está entrando agora no galinheiro.

Logo: vamos ganhar nosso milho.

 

Não se pode dizer que um esquema de pensamento como o exposto acima não é racional, não importando que o mesmo se passe no cérebro de uma galinha, ave possuidora de chicken’s brain. Mas não se pode dizer tampouco que seja um raciocínio dedutivo, ao que tudo indica: exclusividade do Homo sapiens. O animal carece dele e Deus não precisa dele, porque conhece tudo por intuição, i.e.apreensão sem mediação.

Se a capacidade de fazer deduções stricto sensu é uma faculdade exclusiva do Homo sapiens, é de se esperar que todos os membros desta espécie – salvo os oligofrênicos e outros com problemas neurológicos semelhantes – a possuam. E de fato todos a possuem em maior ou menor grau. Mas, como um músculo do corpo humano, se a inteligência dedutiva não for freqüentemente exercitada, ela não se desenvolverá ou até mesmo se atrofiará. No Brasil pratica-se muito a musculação, mas muito pouca gente pratica a aeróbica dos neurônios.

Deve ser por isso que há milhões de eleitores e admiradores do Lulla, que ignorante sabe ser, mas burro de nada tem: possui aquele tipo de inteligência peculiar ao matuto Jeca Tatu: “esperteza” ou “matreirice”. Ele é a cara do povo, seu legítimo representante. Logo: os incomodados que se mudem!

Podemos agora levantar agora uma hipótese sobre a burrice do povo brasileiro (não sobre sua ignorância): Não sabemos dizer se a maioria dos indivíduos componentes do referido povo foi agraciada ou não, pela aleatoriedade da loteria genética, com uma brilhante inteligência. No entanto, supondo que tenha sido, nada tem feito para desenvolvê-la, como mostra, entre muitos outros, o oportuno texto do editorial de O Estado de São Paulo. Acorda Brasil, antes que seja tarde demais!

Terça, 18 Novembro 2008 21:00

Dura Lex Sed Lex, No Cabelo Só Gumex

Nesta época de permissividade e de excessiva complacência para com os maus costumes, ainda há espíritos inquebrantáveis na dura lida de combater tudo aquilo que conspire contra a harmonia social e constitua séria ameaça para o bem-estar das famílias deste País.

 

Nesta época de permissividade e de excessiva complacência para com os maus costumes, ainda há espíritos inquebrantáveis na dura lida de combater tudo aquilo que conspire contra a harmonia social e constitua séria ameaça para o bem-estar das famílias deste País.
Neste sentido, recentemente nossos valorosos legisladores promulgaram uma rigorosa lei contra o consumo de bebidas alcoólicas por motoristas nas ruas e nas estradas, não só tornando obrigatório o teste do bafômetro como também punindo severamente os reprovados neste mesmo.
Nada mais oportuno e necessário, ainda que uma minoria irrisória de motoristas venham a subornar os policiais cometendo, assim, mais uma execrável transgressão da lei e ainda que o número de bafômetros seja insuficiente em face da quantidade de motoristas nas ruas e nas estradas deste país-continente.
Após a promulgação da referida lei, podemos ler, com inenarrável satisfação, em um site da Internet, a notícia de mais uma atitude tão corajosa como imprescindível tomada por um preclaro fiscal da lei:
“O procurador do Ministério Público Federal Fernando Lacerda Dias entrou com uma ação civil pública contra as cervejarias Ambev, Schincariol e Femsa (que distribui a marca Kaiser) cobrando uma indenização de R$ 2,76 bilhões por danos causados pelo álcool. O valor impressionante, à primeira vista, parece superestimada, mas o procurador diz ter chegado a esse número com base em danos mensuráveis (gastos do SUS decorrentes do consumo excessivo de bebidas alcoólicas e despesas previdenciárias) e incomensuráveis (danos individuais, como o afastamento da família por conta do alcoolismo). A ação, segundo o Estadão, determina que as três empresas paguem a indenização ao governo e ainda invistam o montante gasto com publicidade em programas de prevenção e tratamento de dependentes.” [Ralph J.Hofmann em Rede Liberal, 31/10/2008].
Em nossa modesta opinião de leigo, o ilustre Procurador não devia ter movido a ação contra a Ambev, Schincariol e Femsa, mas sim contra todos os fabricantes de aguardente, marafa, birita, cachaça vinho, rum, conhaque, gin, uísque, vodka, tequila e demais fábricas de bebidas alcoólicas, pois os danos materiais e morais produzidos por estas mesmas não são menores do que os produzidos pela “lourinha”.
Além disso, tal ação contra as grandes cervejarias pode ter causado a indesejável impressão de que há um parti pris em relação ao especial tipo de bebida alcoólica por elas produzido ou então - coisa muito pior – espíritos maldosos podem ser levados a pensar que o referido Procurador está servido aos interesses dos concorrentes, fabricantes de outros tipos de bebidas alcoólicas desejosos de arruinar as cervejarias.
Pensem o que quiserem pensar, pois estamos numa democracia em que há liberdade de pensamento - coisa, aliás, que somente o superego de Freud pode coibir. Porém, isto em nada afeta a oportuna ação movida pelo Ministério Público cujo espírito é meridianamente claro: cobrando pesadas indenizações de fabricantes de cerveja, estar-se-á inibindo a fabricação dessa peçonha no Brasil, não importando os milhares de desempregados e dos possíveis empregos que poderiam ter sido gerados, caso continuasse prosperando essa indústria do letal veneno.
Esperamos que a corajosa iniciativa do referido Procurador Federal sirva de exemplo aos nossos valorosos legisladores e que estes votem logo uma Lei Seca como a Dry Law americana, que proibiu a fabricação e comercialização não só da cerveja mas também de todo e qualquer tipo de bebida alcoólica, medida esta ardentemente reivindicada por tradicionais associações pró-temperança como a conhecida WCTU (Women’s Congregation for Temperance Union).
E não me venham com essa fábula neoliberal de que a Dry Law teve como conseqüência destilarias clandestinas, bares camuflados com bebidas vendidas no câmbio negro, aumento assustador da criminalidade gerada por este mesmo comércio ilegal, etc.
Isso é estória de Hollywood em que entram em cena personagens fictícios como Elliot Ness e Os Intocáveis combatendo a quadrilha do terrível Scarface, também conhecido como Al Capone.
Sábado, 01 Novembro 2008 21:00

Vinte Anos da (Des)Constituição

Diante desses e de muitos outros desacertos da demagógica Carta Política, não temos nenhuma razão para comemorar seus 20 anos, nem teríamos nenhuma para comemorar uma possível revisão constitucional.

Como quase todo mundo sabe, a Constituição de 88 (a Popozuda) está fazendo vinte anos. Saudada por Ulysses-no-País-das-Maravilhas como a “Constituição dos miseráveis”, como se fosse atribuição de uma Carta Política resolver o problema da miséria. Diferentemente do referido demagogo, foi chamada por Yves Gandra como a “Constituição da hiperinflação” e por Miguel Reale como um “totalitarismo normativo”. Com certeza, estes dois últimos epítetos estão mais apropriados.

Nunca nos esqueceremos da aguda observação de Roberto Campos numa conferência na Universidade Estácio de Sá em que ele falava sobre a nossa Carta Política: “Ela estabeleceu muitos intitulamentos para poucas provisões”, ou seja: concedeu muitos direitos individuais sem levar em consideração a capacidade de o Estado arcar com as despesas geradas em curto, meio e longo prazo.

E o brasilianista Thomas Skidmore foi, segundo pensamos, quem apresentou a melhor visão sintética da Constituição de 88: “Ela tornou o país ingovernável, na mão de um aparato administrativo permissivo e ultrapassado”. Por sua vez, o jurista Ney Prado entrou em detalhes, apontando as mazelas constitucionais e indicando as passagens em que estão as mesmas:

“Além de utópica, demagógica e corporativista, nossa Constituição revela aspectos socializantes. (...) no tocante ao regime de bens, restringe o direito de propriedade (artigos 172, 176, 178, parágrafo 4, incisos I,II e 3, artigo 186); no que diz respeito ao regime de pessoas, restringe o domínio da iniciativa no campo econômico (artigos 171, 172, 174, 176, 184, 190, 192, 222, 223, 231, 237 e 238), no que concerne ao regime de renda, restringe a percepção dos lucros, tornando-os relativos não à produção, mas às necessidades tidas como de justiça social (artigos172, 179, inciso VII e parágrafo 3) e, por último, no que tange ao regime de produção-distribuição, restringe e limita o controle privado na produção de bens e disciplina, fora das forças de mercado, os mecanismos de circulação e consumo das riquezas” (N. Prado: Razão das Virtudes e Vícios da Constituição de 1988, São Paulo, Ed. Inconfidentes 1994, p.54).

Por sua vez, Alfred Pögler, presidente da ABIGRAF (Associação Brasileira da Indústria Gráfica) e vice-presidente da ABRASCA (Associação Brasileira das Companhias Abertas), embora considere a Constituição de 88 “a mais avançada da nossa história e um marco institucional da democracia” [obs. minha: Ele deve ser certamente um espírito irônico] reconhece seus gravíssimos defeitos. Entre eles, o de que é demasiadamente prolixa e redundante: “permeada de artigos e princípios, alguns deles detalhados e regulamentados por meio de leis ordinárias, que conspiram contra o desenvolvimento sustentado.” (Jornal do Commercio, 7/10/2008).

Dentre as distorções encontráveis no texto da Constituição, estão um oneroso sistema tributário. De nossa parte, entendemos que Millôr Fernandes estava certo quando disse que quem melhor qualificou o supramencionado sistema foi Winston Churchill quando disse: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”. E conforme já asseveramos e reasseveramos várias vezes, este mesmo sistema tributário transformou o Brasil na Alemívia: tributos da Alemanha, mas serviços públicos da Bolívia.

Concordamos inteiramente com Pögler quando ele caracteriza o sistema como oneroso, burocrático e atrelado à irresponsabilidade fiscal. Em segundo lugar, está a Previdência Social que se tornou ao mesmo tempo deficitária e cruel com os aposentados. Entendemos que uma das causas disso se deve à concessão de aposentadoria a trabalhadores rurais que não contribuíram nem sequer com um centavo para o caixa da Providência – uma medida bem ao estilo do Dr. Ulysses, demagógica e irresponsável. Acresce-se a esse espúrio “direito social”, ainda segundo Pögler, “os avanços acrescidos à já anacrônica legislação trabalhista, estimulando a informalidade dos empregos e limitando o crescimento da massa salarial.

De nossa parte, pensamos que o artigo revelador da mais crassa ignorância em matéria de Economia dos constituintes que o aprovaram – com a honrosa exceção de Roberto Campos e poucos outros - foi o que estabeleceu uma taxa de juros fixa quando sabemos que este instrumento de controle do Estado deve receber aumento ou diminuição dependendo de condições variáveis da atividade econômica.

Parece que o pouco que há de bom na Constituição, principalmente no que propicia maior participação dos cidadãos no sentido de exercer seu direito de controlar e fiscalizar as ações do Estado, foi relegado ao esquecimento. Como diz Pögler muito bem:

“Nesses 20 anos, quantos projetos de lei da autoria dos cidadãos, nos moldes como prevê a Carta, foram elaborados, encaminhados e transformados em lei? Quantas vezes valeram-se os brasileiros dos mandados de injunção? Nos governos da União, estados e municípios, qual a efetiva representatividade dos empresários, trabalhadores, cientistas e entidades de classe? É triste, mas inevitável, constatar que o País inverteu os valores da Carta Magna, aplicando o que ela tem de pior e negligenciando suas virtudes” (Jornal do Commercio, 7/10/2008). Embora poucas, não podemos negar que as há.

Mas a Constituição de 1988 não criou somente entraves econômicos: criou também estorvos de natureza política. Rodrigo Constantino apontou alguns deles cujo o mais grave, segundo pensamos, afeta diretamente a representação política numa república que se diz “federativa”, mas não passa de arremedo grotesco de uma federação:

“Um grave problema do Brasil, a desproporcionalidade da representação na Câmara dos Deputados em desfavor do centro-sul, foi bastante agravado com a Constituição de 1988 também. A criação de novos estados na Constituição gerava uma distorção ainda maior, particularmente contra São Paulo. Para eleger um deputado nordestino, com o mesmo poder de um paulista, precisa-se de bem menos votos. Isso cria um deslocamento de poder para as regiões do norte e nordeste, dificultando reformas econômicas que seriam mais facilmente aprovadas se dependessem da escolha do sul e sudeste, que carregam a economia do país nas costas.”

E este mesmo autor acrescenta: “Além disso, ao remover quaisquer barreiras, tanto de criação como de representação legislativa dos partidos, a Constituição de 1988 "nos legou um multipartidarismo caótico com partidos nanicos que não representam parcelas significativas da opinião pública, sendo antes clubes personalistas e regionalistas ou exibicionismo de sutilezas ideológicas". Conforme conclui [Roberto] Campos, ficamos muito mais com uma ‘demoscopia’ que uma democracia.” (R.Constantino: “A Constituição Besteirol” em www.parlata.com.br em 6/10/2008).

Diante desses e de muitos outros desacertos da demagógica Carta Política, não temos nenhuma razão para comemorar seus 20 anos, nem teríamos nenhuma para comemorar uma possível revisão constitucional; pois, se é para piorar, é melhor deixar como está.

Terça, 21 Outubro 2008 21:00

Finalmente o Sangue Foi Estatizado!

Diante de tão bela e humanitária declaração, concluímos que, no Brasil das Mil Estatais, o lucro é sempre político e o prejuízo sempre econômico.

 

Eu sou daqueles poucos que não tem a menor dúvida de que o Brasil é uma social democracia pervertida.
Como sabemos, em sociais democracias o cidadão é espoliado por impostos e atormentado pela forte intervenção do Estado, mas ao menos recebe uma série de bons serviços gratuitos: assistência médica e dentária, educação, salário-desemprego, etc. Mas o Brasil acabou se transformando na Alemívia: impostos da Alemanha, serviços da Bolívia.
Nossos monopólios estatais, grandes cabidões de empregos de políticos e assolados por constantes desvios de verbas, proliferam mais do ratazanas em Copacabana. Só o presidente Ernesto Geisel, o Estatizante, criou mais de 150 estatais! E seu sucessor, João Figueiredo, uma vez indagado pela mídia quantas estatais tinha o Brasil, foi sincero: disse que não fazia a menor idéia. Dito pelo patrão das empresas, isto é algo simplesmente espantoso!
 Embora não tenham ainda sido criadas a feijãobras e a arrozbras, foi finalmente criada a sanguebras, perdão: a hemobras, pois não irá criar um banco de sangue para atender as necessidades dos vampiros do SUS, mas sim produzir hemoderivados como o plasma, soro, albumina, etc.
A justificativa para sua criação é sempre a mesma, always the same old shit: reduzir a dependência nacional das execráveis multinacionais. Só não é considerada execrável a multinacional-nacional, como é o caso de uma empresa que, no Brasil, atende pelo nome de petrobras, mas, em países do terceiro mundo em que se instalou e em que exerce deplorável exploração imperialista, recebe o pseudônimo de brazpetro (Brazilian Petrol). Desse modo, não será de causar espécie se, futuramente, for criada mais uma multinacional-estatal: a brashemo, e esta mesma venha a sugar o sangue de países pobres do terceiro mundo.
Criada em 2005 e, na ocasião, orçada em R$ 327.000.000 (Trezentos e vinte e sete milhões de reais) - uma merrequinha, convenhamos! - a hemobras (Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia) deverá produzir 500.000 litros de plasma por ano e diz o governo que isto representará uma “substituição de importados por similares nacionais” reduzindo as despesas em R$ 400.000.000, 00 (Quatrocentos milhões de reais) por ano.
Não questiono o que diz o governo, questiono o que ele não diz: Qual o custo das mordomias, dos desvios de verbas e do desvairado empreguismo gerados pela hemobras? De qualquer modo, criada em março de 2005, só em julho de 2008 começaram as obras de terraplanagem para a fábrica em Goiana (PE). Mas por que em Pernambuco, tão distante do Rio, São Paulo, Belo Horizonte, grandes centros consumidores dos hemoderivados e onde há o maior número de hemofílicos?!
Ora, por uma razão muito simples. Porque o Ministro da Saúde na ocasião da criação era Humberto Costa e ele - assim como o Supremo Manda Otário da nação – era e é pernambucano. Mas segundo o presidente da hemobras, Paulo Baccara – não sei se é também pernambucano ou se é parente da Roleta - “a decisão foi tomada pelo foco desse governo na responsabilidade social. O desenvolvimento e o conhecimento têm que ser levados para outras regiões do país” (Jornal do Commercio, 29/9/2008). Falou bonito! Beleza Pura!
Diante de tão bela e humanitária declaração, concluímos que, no Brasil das Mil Estatais, o lucro é sempre político e o prejuízo sempre econômico.
Mas segundo ainda Baccara, a grande distância entre fonte produtora dos hemoderivados e os grandes centros consumidores dos mesmos, só aumentará o preço dos bens com o custo de transporte em apenas míseros 8%. Ora quem faz a primeira afirmação relativa à “responsabilidade social” marcada pela irracionalidade econômica, desperta inevitavelmente a suspeita quanto à veracidade da segunda.
 Mas seguindo esse mesmo critério estratégico, por que não fazer uma estatal de peças de computador, a chipsbras, no sertão de Quixaramobim ou em Brejo das Almas Penadas? Arre égua!
Terça, 16 Setembro 2008 21:00

As Paixões da Alma V: A Ira

De acordo com o Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da ABL, a palavra “ira” é definida como: “Furor breve, excitado por mal ou injúria que se quer repelir; cólera, raiva contra alguém; indignação; desejo de vingança”.

 

De acordo com o Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da ABL, a palavra “ira” é definida como: “Furor breve, excitado por mal ou injúria que se quer repelir; cólera, raiva contra alguém; indignação; desejo de vingança”.
 Trata-se de uma definição-de-dicionário (ou definição nominal), que se limita a registrar usos lingüísticos. Embora eles sejam úteis como orientação, não estamos obrigados a aceitar todos quando queremos oferecer uma definição essencial. Como esta é nossa finalidade no presente ensaio, podemos adiantar que, de acordo com esta mesma, excluímos as noções de “raiva contra alguém”, “desejo de vingança” e “cólera.
Pensamos que estas três noções estão mais próximas de ódio do que de ira, que não devem ser tomados como sinônimos a igual exemplo de hatred e wrath respectivamente em inglês. Daí a Bíblia falar, em diversas passagens, na ira de Deus (the wrath of God), mas nunca no “ódio de Deus” (“the hatred of God”). Como veremos isto não é uma variação de palavras de acordo com o colorido estilístico, mas sim uma importante distinção conceitual.
Ao chamar a atenção para a brevidade desta paixão, a ira, o lexicógrafo toca num ponto importante: ela é diferente do ódio, justamente pelo fato de que este tem um caráter mais estável do que a forte e efêmera erupção de cólera caracterizadora daquela. O ódio é uma paixão que fica remoendo quem a abriga, antes de se exteriorizar em relação a algo ou alguém e à vezes não se extingue numa só descarga emotiva.
A ira tem uma vida breve: ele surge quando alguma coisa ou alguém a motiva, não é remoída, exterioriza-se imediatamente e tão logo se exterioriza é apaziguada. E é por isso que quem odeia algo ou alguém costuma guardar rancores, mas quem fica irado com algo ou alguém não guarda nenhum ressentimento. A ira se consome com sua própria exteriorização, produzindo assim um efeito catártico.
Um dos traços definitórios da definição do referido dicionário é “desejo de vingança”. Creio que este sentimento está muito mais relacionado com o ódio do que com a ira. Para nutrir um desejo de vingança em relação a alguém, é preciso odiar; é preciso ter abrigado um prolongado e corrosivo ódio no coração.
Ora, isto está em desacordo com essa breve erupção que caracteriza a ira. Temos a impressão de que a ira está antes relacionada com a indignação, que por sua vez pode ser totalmente improcedente ou pode ser o que costuma ser chamada “justa indignação”.
No Antigo Testamento, há várias passagens em que a ira de Javé se manifesta de forma avassaladora sobre Israel, toda vez que este mesmo comete um grave pecado. E não esqueçamos que foi a ira de Javé que inundou o mundo com o dilúvio, afogando toda uma geração perversa, à exceção de Noé e sua família.
 No Novo Testamento, no episódio em que Cristo expulsa, com chicote em punho, os vendilhões do templo – praticantes do pecado da simonia - não devemos entender que ele estava tomado pelo ódio - o ódio é o contrário do amor e o cristianismo - entendido como a doutrina da Cristo que nem sempre se identifica com a cristandade - é essencialmente amor – mas sim que ele estava irado, neste sentido positivo da ira em que ela constitui uma reação de justa indignação. Como disse o profeta: “O zelo pela casa do Pai o consumirá”.
Infeliz daquele que perdeu a capacidade de se indignar diante de determinadas coisas feitas neste mundo, omitindo-se de reagir, desta ou daquela forma, diante de uma situação indignante. Como diz a letra de Blowing in The Wind, aquela bela canção de Bob Dylan de década de 1970:
 
How many years does a man turn his head
and pretend that he just doesn’t see?
The answer,my friend, is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind 
 
[tradução: Por quantos anos ainda um homem há de virar a sua cabeça/ e fingir que ele não está vendo? / A resposta, meu amigo, está soprando no vento/ A resposta está soprando no vento].
Terça, 26 Agosto 2008 21:00

As Paixões da Alma IV: A Gula

Resumo da ópera: entendemos que “guloso” não é um indivíduo possuidor de um apetite lupino, que procura apaziguá-lo comendo “em demasia”, mas sim aquele que, apesar de ter apaziguado seu apetite, não consegue resistir diante de uma iguaria especial.

 

Na discoteca, CDteca e/ou DVDteca de melômanos irrecuparáveis como este que vos escreve, certamente não há de estar ausente uma gravação de uma peça musical de Karl Orff intitulada Carmina Burana (Cantos Profanos).
Trata-se de uma composição para orquestra, coro e solistas cuja letra o referido compositor encontrou em alfarrábios da Idade Média, em um mosteiro na Alemanha, contendo versos provenientes da cultura popular da época em gritante dissonância com manifestações religiosas de então – tais como o canto gregoriano e os autos - pois retratavam o submundo do medievo em que eram freqüentemente encontrados os goliardos.
Monges voltados para uma vida nômade, eles perambulavam pelas tabernas onde comiam e bebiam à farta, fazendo jus à vetusta expressão portuguesa “Ele comeu e bebeu como um abade” ou aquel’outra canção medieval espanhola cuja libertina letra expressava o Carpe Diem horaciano: Hoy bibamos y comamos que manãna lloraremos...
 Ou ainda aqueles versinhos tão apreciados por Lutero: Wer liebt nicht Wein, Weib und Gesang/ Der bleibt ein Narr sein Lebenslang (Aquele que não aprecia vinho, mulher e canção/ Permanece um idiota por toda a vida), versinhos estes capazes de deixar corado um puritano ou um quacre (quaker) aquele que treme de medo(quakes) só em pensar no Judgement Day (Dia do Juízo Final).
Mas, assim como o alegre e extrovertido Martin Luther, os goliardos não estavam preocupados com o que saía das suas bocas, mas sim com o que entrava. E nas suas bocas costumavam entrar muito vinho e sair versos profanos e até pornográficos. Daí a origem de determinados ditos populares bastante conhecidos como “Desta vida só se leva o que se come e o que se bebe”, “Quem bebe, morre, quem não bebe morre também, logo: comamos e bebamos enquanto pudermos”.
Creio que acabei de esboçar em rápidas pinceladas os traços de um dos assim chamados pecados capitais: a gula, bem como daquele que o comete: o guloso.
Mas o que é gula? Quando podemos dizer, com propriedade, que um indivíduo humano é um guloso? Trata-se realmente de um “pecado” ou, coisa menos grave, um vício moralmente reprovável? Ou será que, antes de ser uma coisa ou outra, é uma propensão genética presente em determinados indivíduos, ausente em outros?
Supondo que esteja em jogo est’última alternativa, será inteiramente descabido falar em um pecado ou em um vício moral, uma vez que não se pode culpar um indivíduo por seguir um irrefreável instinto de sua peculiar natureza.
Ou será que devemos considerar que, ainda que ele não possa ser responsabilizado por aquilo que lhe foi dado por seu singular genoma, pode sê-lo por seguir uma inclinação passivamente sem se opor firmemente à mesma?! Moralistas austeros e rígidos, como Calvino e Kant, não hesitariam em endossar est’última alternativa, mas, de minha parte, tenho forte impressão de que se trata de uma vexata quaestio (questão controversa).
De acordo com o indefectível Dicionário Ilustrado da Língua Portuguesa da ABL (vol. III, p.834), gula é “vício de beber e comer em demasia”. Não podemos criticar o lexicógrafo, Antenor Nascentes, uma vez que ele se limitou a registrar um uso lingüístico, e sua definição do vocábulo está inteiramente de acordo com o sentido conferido ao mesmo por milhões de falantes da última flor do Lácio inculta e bela.
Porém, podemos e devemos fazer indagações tais como: Por que a gula é geralmente considerada um vício? O que vem a ser “comer e beber em demasia”? Parece que se trata de uma estranha questão de “estatística subjetiva”: aquele que está aquém da média, come pouco (por falta de vontade ou poder aquisitivo), aquele que está muito acima da média, come muito (por excesso de vontade ou exuberância de vitalidade). Mas não diziam, por acaso, os práticos e objetivos romanos que quid abundat non nocet (Onde abunda não há mal)?!
Isto é bastante semelhante àquela famosa “média do economista”: se um indivíduo colocar seus pés num freezer e sua cabeça num forno de micro-ondas, a temperatura média
de seu corpo fica chuchu-beleza. Além disso, se um indivíduo come menos e um outro come mais do que o comedor médio, é porque o primeiro tem mais apetite do que o segundo, e apetite é que nem bocejo, espirro ou tosse: coisas que fogem ao comando da nossa faculdade volitiva. Há remédios capazes de diminuir o apetite, mas em compensação aumentam nossa despesa e dependência dos mesmos.
Resumo da ópera: entendemos que “guloso” não é um indivíduo possuidor de um apetite lupino, que procura apaziguá-lo comendo “em demasia”, mas sim aquele que, apesar de ter apaziguado seu apetite, não consegue resistir diante de uma iguaria especial – digamos: um paté de foie de canard avec Moet et Chandon - que estimula sua vontade de comê-la, não para preencher um vazio no seu estômago, mas sim satisfazer suas papilas gustativas.
Isto é o que se deve denominar apropriadamente “gula”, mas devemos considerar que não costumamos comer somente para preencher um vazio no estômago, mas também para satisfazer nosso refinado paladar. Moros y cristianos (feijão preto com arroz branco) todo santo dia, faça chuva ou faça sol, ainda que em farta dose, não há cubano capaz de suportar. Na ausência de variedade de consumo, consumido é o ser humano pela mesmice. porta aberta para inenarrável tédio...
Ainda hoje trago na lembrança aquele bem humorado comercial de uma marca de espaguete na TV. Um sacerdote está babando de desejo diante de um belo spaghetti al puro sugo quando se faz ouvir um vozeirão vindo do Alto em tom de advertência: “Olha a gula, padre Leonardo!!!”. Ao que ele, autoindulgentemente, responde: “Olha a massa, Senhor!”
E para ilustrar ainda o sentido conferido por mim à palavra “gula” vou contar uma estorinha que li quando criança no fabuloso Mil e Uma Noites em que a inventiva Scherazade entretinha o califa de Bagdad...Muito antes de Satan Hussein, é claro...
O exército do Califa estava há muito tempo em guerra com um país vizinho. Apiedado da incômoda situação dos seus soldados tanto tempo longe de casa, o Califa decidiu escolher aleatoriamente um deles, para receber uma dispensa do serviço militar por alguns dias. Aí então, o sortudo foi levado para o palácio e convidado para um magnífico banquete ao lado do soberano.
Após ter comido vorazmente, o Califa indagou se ele queria mais alguma coisa ou se estava satisfeito. Ao que o soldado respondeu: “Satisfeitíssimo, Alteza, meu estômago está cheio!”
Foi aí então que um dos serventes do palácio passou por ele portando uma bandeja em que estava um belo pato dourado deliciosamente recheado e exalando um aroma inigualável. Não se contendo, ele disse para o servente deixar ali mesmo o pato, arrancou com avidez uma perna da ave e a saboreou deliciado.
Quando acabou de degustar o acepipe, o Califa se voltou para ele e disse severa e solenemente: “Dissestes que estavas satisfeito e, no entanto, comestes ainda um bom pedaço do pato. Mentistes para teu Califa [obs. O Califa não era kantiano, mas não admitia a mentira em hipótese nenhuma, nem para salvar a vida da mãe!] e, sendo assim, serás enforcado amanhã.” Perplexo e aturdido, o soldado foi levado para o cárcere onde ficou aguardando sua execução.
Na manhã seguinte chegaram os guardas e foram logo perguntando, como era de praxe, qual o seu último desejo. O prisioneiro então disse: “Peço à Sua Alteza, o Emir dos Crentes, o Magnânimo, que sejam trazidos todos os meus camaradas de divisão e que entrem todos nesta cela. E que o Califa, pela Vontade de Allah, o Altíssimo, venha me fazer uma visita”.
O pedido era muito estranho, mas os guardas o comunicaram ao Califa que, apesar de não compreender aquele último desejo do condenado, decidiu satisfazê-lo. Foram trazidos os camaradas e entraram na cela. Esta estava apinhada quando chegou finalmente o Califa. Um dos guardas vociferou: “Abram espaço para Sua Alteza, o Emir dos Crentes!”
Os soldados se espremeram mais do que passageiros do Metrô na hora do rush, de tal modo que o Califa pôde entrar. Aí então, o soldado falou: “Veja, Alteza, esta cela estava repleta de gente, mas, mesmo assim, conseguimos um lugar para nosso rei. Do mesmo modo, meu estômago, apesar de não ter mais lugar para nada, conseguiu arranjar um lugar para o pato dourado, o rei das iguarias. Escusado dizer que o soldado foi indultado pelo Califa.
Há, no entanto, um caso que não sabemos se devemos qualificar como gula ou como expressão do cúmulo do grotesco. Trata-se do indivíduo que morreu de inanição, perdão: morreu de tanto comer ou, pior ainda: conta-se que na decadência romana os romanos comiam como ogros vorazes e quando não conseguiam comer mais nada, enfiavam o dedo na garganta, vomitavam e continuavam comendo...
Diante disso, só citando aquele conhecido dito popular: “A melhor maneira de evitar uma ressaca é continuar bebendo” ou o que disse conhecido político pinguço, autor de uma gramática da língua portuguesa e famoso por seu escorreito vernáculo, quando lhe perguntaram por que bebia tanto: “Bebo, porque líquido é. Se sólido fosse, comê-lo-ia”. E assim chegamos, finalmente, a uma conclusão: Não existe mulher feia. Existe homem que bebe pouco.
Terça, 12 Agosto 2008 21:00

As Paixões da Alma III: A Vaidade

Todo homem por natureza deseja ser reconhecido pelos seus semelhantes; “ser reconhecido” pode ser entendido como “ser respeitado”, mas pode também ser entendido como “ser admirado”.

Todo homem por natureza deseja ser reconhecido pelos seus semelhantes; “ser reconhecido” pode ser entendido como “ser respeitado”, mas pode também ser entendido como “ser admirado”. Talvez um artista prefira a segunda alternativa, mas um tirano, de acordo com Maquiavel, deve preferir ser respeitado e temido a ser admirado pelo povo.

Todavia, se admitirmos que ser admirado faz parte da natureza humana, ser vaidoso não poderá ser considerado um vício nem uma virtude, mas sim algo tão esperado das pessoas quanto elas desejarem o bem para si próprias, independentemente de o desejarem para os outros – o que é evidentemente uma virtude – ou desejarem o mal – o que é evidentemente um vício.
Porém a vaidade – assim como a liberdade, a sensatez, a prudência, etc. – está entre as feições humanas que comportam graus. Não tem sentido dizer que uma pessoa é mais honesta ou menos honesta. Uma pessoa é honesta ou não. [Quem rouba pouco não é menos desonesto do que quem rouba muito: a diferença entre ambos é geralmente uma questão de oportunidade ou de competência para a prática do mal] . Mas tem sentido dizer que ela é mais prudente ou menos prudente, mais sensata ou menos sensata ou que é mais vaidosa ou menos vaidosa.
 
Talvez um pouco de vaidade faça parte da natureza humana e se assemelhe ao amor- próprio. É de estranhar que um indivíduo sinta admiração por si próprio? Seria algo lamentável, caso não sentisse nenhuma admiração por si, que não encontrasse nada em si mesmo que fosse digno de admiração, pois neste caso ele estaria sofrendo de baixa auto-estima, é isto é o caminho mais rápido para o fracasso na vida. Mas quando termina o amor próprio e começam o egoísmo e a vaidade? Temos de admitir que, embora não tenhamos a menor dificuldade em reconhecer as diferenças entre essas três coisas, experimentamos grande dificuldade em apontar quando o excesso de x produz y ou z.
 
Talvez o egoísmo e a vaidade comecem quando um indivíduo passa a nutrir uma admiração tão grande por si próprio, que isto o torna cego para os outros, indiferente ao aspecto de que os outros também sentem um grau maior ou menor de admiração por si próprios e que também, por natureza, desejam ser reconhecidos e respeitados. Quando atingem um alto grau, tanto o egoísmo como a vaidade tornam-se tão cegos quanto o fanatismo e o narcisismo. Não há dúvida de que a cegueira está presente em todas estas coisas, mas elas são diferentes umas das outras e mantêm sutis vínculos entre si.
 
Há uma cena da minha infância que permanece vívida na minha memória: o caso de uma jovem senhora que levava horas diante do espelho se embonecando. Uma tia minha disse para uma jovem que ela era muito vaidosa. Ao que ela respondeu que não: alegou que se arrumava para si própria, para ser admirada por si própria. Minha tia evidentemente desconfiou da sua alegação. Ela sabia intuitivamente que ninguém melhora sua aparência para ser admirado para sua única satisfação.
 
Mas se ela tinha uma desconfiança, esta se transformou em certeza quando a jovem senhora afirmou: “Gosto de olhar para o espelho e dizer para mim mesma: ‘Puxa! Como você ficou bonita’”. E isto é o que se pode chamar de “entregar a alma de bandeja” para um observador da natureza humana, que não precisa ser dos mais penetrantes e argutos.
 
Ela não se deu conta de que tinha interiorizado um alter-ego: o do seu admirador, e talvez ficasse perplexa, caso se deparasse com aquela sentença de Zaratustra – não o profeta persa, mas a personagem de Friedrich Nietzsche: “Bela estrela, que seria da tua luz, se não houvesse ninguém para te admirar?” Neste ponto, parece que há uma importante diferença entre o egoísmo e a vaidade. De vez em quando, temos de admitir, até Frederico, “o Bufão dos Deuses”, acerta uma!
 
O egoísta nutre uma fantasia de auto-suficiência, que o faz se considerar independente dos outros ou só vê o outro como alguém que lhe pode ser útil em algum sentido. Isto pode fazer com que ele costume evitar a convivência humana, e nos casos extremos: acabar se tornando um amargurado misantropo. Mas o vaidoso não pode proceder assim: ele sabe que precisa do outro e o procura constantemente, pois ele quer ser admirado pelo outro, ele precisa ser admirado pelo outro e precisa do outro para ser admirado.
 
O egoísta pode ser discreto e reservado, mas o vaidoso não pode dispensar a ostentação. Ele quer chamar a atenção, ele adora ser o centro das atenções, faz tudo para que isto ocorra e se sente bastante contrariado quando não o consegue.
 
Mas o que impede de alguém ser egoísta e vaidoso ao mesmo tempo? Nada, desde que algumas feições do vaidoso predominem sobre algumas do egoísta. Por exemplo: a tendência ao isolamento tem de ser substituída pela da aproximação constante dos outros, não para realizar uma autêntica interação com eles, participando das suas alegrias e tristezas, não para trocar idéias e experiências, mas tão-somente para angariar sua admiração. E temos a impressão de que quando o egoísmo se reúne com a vaidade, temos isto que se chama “narcisismo”.
 
Como sabemos, o mito de Narciso é em síntese a estória de um jovem que se apaixonou por sua própria imagem refletida nas águas tranqüilas de um lago. Baseado na idéia central desse mito, somos levados a identificar o narcisismo como a vaidade pura e simplesmente.
 
Porém, em um sentido psicológico, o narcismo não envolve somente a vaidade ou o exagero da admiração por si próprio - talvez para preencher a carência de uma desejada admiração da parte do outro – mas também a auto-referência ou uma extrema dificuldade de sair de si mesmo e tentar ver o outro como o outro é. É claro que jamais poderemos ver o outro como ele realmente é, pois só podemos vê-lo com os nossos próprios olhos – só podemos vê-lo como somos e a partir do que somos. Contudo, podemos fazer um esforço para vê-lo de um modo mais próximo do que ele realmente é e mais distante do que o que projetamos nele.
 
A vaidade nem sempre é uma vontade de ser muito admirado pela aparência pessoal, tampouco é uma característica exclusivamente feminina, como se costuma pensar. Há homens que são muito mais vaidosos do que muitas mulheres, embora tenham mais dificuldade em admitir isto do que elas. A vaidade nem sempre se dirige para o mundo das aparências: muitas vezes se dirige para o dos símbolos, e nada impede que ela se dirija para ambos ao mesmo tempo.
 
O poder exerce uma poderosa atração sobre a maioria das pessoas. Algumas vezes, trata-se de um poder real, como o poder aquisitivo ou o poder político – um podendo comprar quase tudo, o outro podendo mandar e interferir na vida das pessoas em uma sociedade. Porém, há também um poder meramente simbólico cuja atração não é menor do que a suscitada pelo real. Mas se ele não confere a quem o exerce nem poder aquisitivo nem poder de mando, por que motivo há os que o procuram tão avidamente? Parece só haver uma motivação: a vaidade, mais especificamente a de ser admirado não pela aparência pessoal, mas sim por alguma forma de status social.
 
É difícil imaginar que benefícios a vaidade pode trazer para o vaidoso, pois ela faz com que ele viva das aparências e da ostentação e construa uma falsa imagem de si mesmo, julgando-se sempre muito melhor do que realmente é e muito melhor do que os outros, que são vistos por ele muito piores do que são. Pois o vaidoso tende a hipovalorizar o que é dos outros e a hipervalorizar o que é seu, sejam posses materiais ou qualidades pessoais.
 
Mas se é difícil imaginar um possível benefício que ele possa produzir para si mesmo, não é difícil imaginar o que ele pode produzir para os outros. Um filantropo pode doar muito dinheiro para instituições de caridade ou outras instituições bem-feitoras e fazer isto pelo sincero desejo de ajudar os outros. Contudo pode também fazê-lo para sustentar uma mera aparência e angariar a admiração generalizada. Seja por um motivo ou por outro, em ambos os casos o benefício é real e o beneficiado experimenta seu efeito.
 
Há vícios privados que se transformam em benefícios públicos, como reconheceu B. de Mandeville (século XVIII) na sua Fábula das Abelhas. Ele tinha em vista o egoísmo e a avidez de lucros crescentes dos empresários, que trouxeram a prosperidade econômica, pagaram impostos e forneceram muitos empregos.
 
Mas por que não a vaidade de alguns filantropos, que se transforma em benefícios para centenas e às vezes milhares de pessoas? E que dizer da indústria da vaidade – a dos cosméticos e perfumes, a de comida para cachorros de madame, etc.? Ao preencher a vaidade dos seus consumidores, ela preenche também a barriga de muitos que trabalham nela. Como se sabe, boas intenções nem sempre produzem bons resultados e péssimas intenções podem produzir excelentes resultados.
 
Talvez seja difícil encontrar uma pessoa vaidosa que não seja ao mesmo tempo ambiciosa. Assim como a falta de vaidade – ou aquele mínimo de vaidade que se confunde com o amor próprio – esteja quase sempre acompanhada da falta de ambição – ou aquele mínimo de ambição que se confunde com o legítimo desejo de auto-realização – a grande vaidade parece estar sempre acompanhada da grande ambição. Egoísmo, vaidade, narcisismo, ambição exagerada e possessividade parecem fazer parte de um todo e este todo parece caracterizar um tipo humano.
 
Se examinarmos a psicologia dos grandes conquistadores - seja dos que se voltaram para a conquista do poder político como Alexandre ou Napoleão, seja a dos que se voltaram para a do poder econômico como o Barão de Rotschild ou David Rockfeller ou mesmo a dos que se dedicaram com afinco às conquistadas amorosas como Don Juan ou Casanova – talvez encontremos todos os traços de personalidade elencados acima. Parece difícil separar as desmedidas, seja a vaidade desmedida, seja a ambição desmedida.
 
Contudo, a psicologia dos grandes conquistadores não se resume a quatro ou cinco traços. Eles devem ser considerados apenas um esboço para uma análise mais aprofundada em que a vaidade nem sempre produz efeitos negativos, porque não se trata de assumir apenas uma aparência e esperar passivamente a admiração dos outros: trata-se de se fazer admirar, de desempenhar esforços e produzir grandes realizações. E é justamente neste sentido que a grande vaidade aliada à grande ambição podem transcender os limites do vaidoso e do ambicioso, pois os grandes empreendedores passam, mas suas grandes realizações ficam na História.
 
Mahatma Gandhi, por exemplo, não era um homem vaidoso – vivia da maneira mais simples possível e detestava a ostentação. Mas como se pode dizer que ele não era ambicioso? Almejar a independência da Índia em relação ao mais poderoso império da época – o Império Britânico em que o sol nunca se punha – não contando com nenhum exército e não pregando nenhuma ação violenta, antes de ter sido uma admirável conquista foi uma grande ambição nutrida por poderosas força de vontade e determinação.
 
Mas temos de reconhecer que uma coisa é ambicionar posses e honrarias para si mesmo, outra, bem distinta, ambicionar bens para a humanidade, para uma comunidade ou uma nação. No primeiro caso, a ambição é inseparável da vaidade e daqueles outros traços de personalidade elencados acima; mas no segundo a vaidade cede seu lugar à humildade, a possessividade ao despreendimento e o egoísmo ao altruísmo. E é essa mudança de traços que permite distinguir o ambicioso possessivo do não-possessivo tal como este último pode ser encontrado no autêntico herói, digamos: Mahatma Gandhi. *
 
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* Seu nome completo era Mohandas Karamachand Gandhi. Mahatma (do hindi:maha (grande) e atman (alma) foi um título honorífico concedido a ele e merecido por ele.
Segunda, 28 Julho 2008 21:00

As Paixões da Alma II: O Ciúme

Quem sente ciúme de alguém expressa, para quem sente, um grande medo de perder quem ama.

Quem sente ciúme de alguém expressa, para quem sente, um grande medo de perder quem ama; expressa, para o bom observador, possessividade e insegurança; finalmente, para quem é o objeto das manifestações ciumentas, tanto pode expressar algo desejável: ser alvo da intensa paixão de outro, como algo indesejável: ser demasiadamente solicitado, sufocado por alguém que não concede nenhum espaço, cerceado em suas legítimas liberdades de ir e vir e de se relacionar com quem bem entende, e às vezes até mesmo de se relacionar consigo próprio em momentos de solidão propícios ao reencontro com sua indevassável, porém cerceável, intimidade.

Uma coisa é certa: o ciumento pode acabar possuído por uma paixão incontrolável. Pode ser criticado por estar amando de uma forma errada, mas jamais por ser indiferente a quem diz amar intensamente. E esta talvez seja a razão de ser da analogia popular: “Ciúme é que nem pimenta: em dose pequena é bom; mas em dose forte estraga tudo”. De fato, um pouco de ciúme pode ser encarado como uma coisa natural em quem ama e até apreciado por quem é amado, porém o ciúme exagerado só pode ser visto como algo doentio produzindo más conseqüências para o alvo do enciumado e piores ainda para ele próprio.

A serpente de olhos verdes poderia ter olhos azuis ou castanhos - pois não há nenhuma evidência científica capaz de fundamentar a crença de que o portador de olhos verdes é ciumento por natureza - mas se trata certamente de uma serpente peçonhenta. O ciúme é um terrível veneno, que age lentamente contaminando a alma de quem é por ele infectado.

O caráter gradual da referida contaminação, bem como a possessividade e a insegurança motivadoras desse tipo de sentimento, foram magistralmente caracterizadas por Shakespeare em seu drama Othello. O Mouro de Veneza passa por um processo que o leva de pequenos ciúmes a um ciúme doentio e avassalador cujo desfecho – resultado final de uma crescente e injustificada falta de confiança em sua esposa, Desdêmona, e de uma adesão cada vez mais forte às intrigas de Iago - fizeram com que ele acabasse sufocando a quem amava com um travesseiro de seu próprio leito de amor.

De fato, o ciúme é sufocante: a asfixia produzida por ele sempre começa no sentido figurado, mas pode acabar no literal - como de fato ocorreu em Othello. [No Brasil, dizem que a coisa se resume a duas interjeições: começa no “ôba, ôba” e acaba no “êpa! êpa!”].

Entre outras coisas, não escapou do olhar aguçado do Bardo de Avon – perto de quem Freud não passava de um pigmeu - o estado de fragilidade emocional, que costuma se intensificar juntamente com o crescimento do ciúme. Tal fragilidade faz com que o ciumento torne-se cada vez mais vulnerável a intrigas.

Sob a pretensão de estar alertando um amigo de uma possível traição, o intrigante na realidade bota mais lenha no fogo lento e devorador que consome a alma do enciumado. Sua confiança nas insinuações do pérfido intrigante cresce à medida que decresce a depositada na pessoa amada. Ele acaba se sentindo naquela situação de que “quem sabe menos das coisas sabe muito mais que eu”.

E a perspectiva de ser olhado por outros homens como portador de chifres - ainda que na realidade não os tenha adquirido e provavelmente não os venha a adquirir - torna-se uma terrível ameaça à sua honra como macho. Um conhecido provérbio acentua o caráter desonroso do homem traído, bem como o caráter freqüente de tal coisa: “ Se tutti i cornuti portaseno lampioni, mamma mia, ch’illuminazione!”. (Se todos os cornudos levassem lampiões, nossa, que iluminação!).

Não sabemos dizer se o ciúme é mais freqüente nos homens ou nas mulheres -provavelmente, apresenta a mesma freqüência em ambos os sexos. Não sabemos dizer se o medo de ser traído é mais freqüente nos homens ou nas mulheres - quase com certeza trata-se de um temor peculiar ao ser humano, pois a possessividade e a insegurança parecem desconhecer diferenças genitais. Mas uma coisa é certa: para os homens em geral, trair é motivo de orgulho; ser traído, de vergonha.

Para as mulheres em geral, trair é uma forma de vingança; ser traída, uma desonra não levada em consideração pelo macho, pois séculos e séculos de cultura machista - e neste particular temos de concordar com as feministas - sedimentaram uma condição unilateral em que a honra de um homem ficou localizada entre as pernas de uma mulher, mas a dela não ficou entre as dele.

Diziam os antigos provérbios: “Coração de homem é que nem estribo de bonde: sempre tem lugar para mais um” [ou seja: “mais uma”] e “ Trair e coçar é só começar”. Isto pode não ser verdade em relação a alguns, mas parece ser em relação à maioria.

Na cultura tradicional dos nossos avôs e dos avôs deles, considerava-se que o homem ter várias mulheres era algo plenamente aceitável: sinal da virilidade de um insaciável conquistador; mas a mulher ter mais de um homem, algo decididamente inaceitável: sinal de furor uterino estigmatizado como caráter de reles mundana. Por isto mesmo, se admitia que o homem traído, quando matava a traidora, agia em “legítima defesa da honra”; mas se a traída matasse seu traidor, geralmente o júri a condenava por homicídio doloso, quando muito reconhecendo a atenuante de ter agido sob forte comoção.

Isto não se devia ao fato de, na composição, do corpo de jurados ter mais homens do que mulheres, pois o fato dele ter membros do sexo feminino não constituía nenhuma garantia de que as mulheres não pensassem como os homens, para estar de acordo com a mentalidade vigente em que eram vistas como seres não-pensantes, que - tal como a Lua - careciam de luz própria e se limitavam a refletir a do Sol.

O ciúme pode causar transtornos e pode até matar, mas quem mata nunca ama aquele que mata, a não ser que queiramos dar a “amor” o péssimo nome de “vingança cruel” - quase sempre motivada por grandes insegurança e possessividade. Tanto a mulher como homem podem ser levados a matar por ciúme, mas na traição parece haver uma diferença.

Por questões de educação ou de caráter cultural, ou mesmo pelas diferenças dos modos de ser de cada sexo, o homem costuma trair para afirmar sua masculinidade ou para satisfazer um poderoso desejo de variação, mais raramente para se vingar de algo que sua mulher tenha feito[a não ser se ela o tiver traído antes]. Por sua vez, a mulher pode trair por se sentir insatisfeita, sexual ou afetivamente, com seu homem, mas geralmente faz tal coisa para se vingar dele, principalmente quando ele a traiu primeiro.

Contudo, o ciúme não ocorre somente no relacionamento amoroso e não tem necessariamente como desfecho a traição. Um irmão pode sentir ciúme de outro por considerar que seus pais dão mais atenção ao outro. Pode ocorrer que eles ajam assim, mas, mesmo que concedam um tratamento igual aos seus filhos, isto não impede que um deles se sinta enciumado do(s) outro(s), pois o que está realmente em jogo não é necessariamente o que os pais fazem, mas sim como o(s) filho(s) reagem diante do que fazem, e sua reação depende bastante do seu grau de exigência de atenção e da sua demanda de afeto. E isto evidentemente varia bastante de um indivíduo humano a outro.

Quando uma criança de uns cinco ou seis anos ganha um irmãozinho, o ciúme é quase certo, pois o primogênito deixa de ser filho único, deixa de ser o centro das atenções dos pais e dos parentes mais próximos, e se sente ameaçado por seu irmãozinho na competição pela atenção e pelo afeto dos pais. À exceção de casos mórbidos, isto não leva a criança enciumada a matar seu irmão, mas pode a levar a hostilizá-lo e maltratá-lo.

O ciúme entre irmãos é um tópico clássico na literatura, desde Cástor e Pólux na mitologia grega, Jacó e Essaú na Bíblia, etc. Neste caso, não há o ingrediente do amor sexual de um homem por uma mulher, como no caso do amor de Othello por Desdêmona, mas há os mesmos motivos básicos mobilizando o comportamento do enciumado: possessividade e insegurança, a essência do ciúme. 

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