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Mario Guerreiro

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

Terça, 30 Junho 2009 21:00

Brasil: A Viúva Rica do Terceiro Mundo

Nunca antes neste país tivemos uma política externa de tão pífia, canhestra e perdulária com tantos diplomatas medíocres e despreparados num mundo globalizado.

Fico só imaginando que “bons negócios”, Lulla estaria fazendo com a Turquia em sua recente viagem a este país, além de dizer que, no Brasil, turco é aquele sujeito que vende bugigangas de porta em porta. Já podemos ouvir os protestos do grande modernizador do ex-Império Otomano, Mustafá Kemal Ataturk (O Pai dos Turcos) vindos do além.

Como todo mundo sabe, o governo Lulla e seu chanceler Excelso Amorim têm se esmerado em tomar medidas internacionais “politicamente corretas”, como manda o figurino pós-moderno.

Entre estas, a indicação do neonazista ministro egípcio Osni Farouk, aquele xiita raivoso que deseja queimar todos os livros em hebraico existentes na terra do herético Aknaton e do panarabista Gamal Abdel Nasser da República Árabe Unida, para a direção da UNESCO. Será que não havia nenhum brasileiro à altura do cargo?

E a recusa de extradição do terrorista italiano Batistti, fugitivo da Justiça italiana com vários assassinatos a sangue frio no seu belo curriculum - recusa esta que nos cobriu de vergonha aos olhos do primeiro e do segundo mundo.

Mais recentemente, Amorim manifestou seu desejo de abrir uma embaixada em Pyong Yang na Coréia do Norte daquele anão asqueroso Kim Jong Il, sob pretexto de dar uma contribuição para romper o isolamento daquele país que é o Museu Oriental do Comunismo, o Museu Ocidental, como todo mundo sabe, é Cubanacan, misterioso país del amor... Ao menos, a Cuba de El Comandante não representa mais uma ameaça atômica como foi nos tempos de JFK.

Mas não são só medidas políticas manchando a imagem do Brasil no exterior e fazendo os ossos do grande diplomata José Maria da Silva Paranhos tremerem no túmulo, também temos medidas políticoeconômicas dilapidando o Tesouro nacional.

Entre estas o perdão da dívida de Moçambique, uma bagatela da ordem de R$ 1.000.000.000,00 (um bilhão de reais), seguida provavelmente de novos “empréstimos”, caso se queira chamar a coisa assim. E tudo isto movido pela vã ambição brasileira de conquistar um lugar no Conselho de Segurança da ONU. Ó Amorim, pode ir tirando teu cavalinho da chuva!

E não vou mencionar aqui o prejuízo causado por Primevo Inmorales, cerca de R$ 2.000.000.000,00 (dois bilhões de reais), ao encampar duas refinarias da Petrobras na Bolívia com a complacência do governo Lulla e sob a pífia alegação de que “a Bolívia é um país pobre”. Ora, só porque é pobre goza do direito de fazer apropriações indébitas?

E nem falo da nossa relação com a Argentina da nova Evita, sempre sobretaxando produtos importados do Brasil e exigindo diminuição de taxas para produtos argentinos. E o que é pior: conseguindo tudo o que quer. Parece que Lulla e Amorim tem medo de cara feia de índio e de mulher espevitada.

Mas por que? Por que o Brasil têm desenvolvido essa política externa que só acarreta desprestígio e prejuízos para o País? Só encontro uma explicação: quer ser um país comunista e pobre, bem com líder de outros países comunistas e mais pobres ainda do terceiro mundo.

Querem mais uma evidência do que afirmei? Ei-la:

“CARACAS, Venezuela, 22 Mai 2009 (AFP) - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, negocia um empréstimo de 10 bilhões de dólares com o brasileiro Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), revelou o próprio líder venezuelano nesta quinta-feira.

Segundo Chávez, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, está na Venezuela para analisar os "mecanismos" destes projetos comuns de "desenvolvimento".

"Coutinho me disse que o Brasil está disposto a financiar projetos aqui por até 10 bilhões de dólares. Há que ver os mecanismos", explicou Chávez, citando o setor petroquímico venezuelano como uma prioridade nestas negociações. [obs. minha: Curiosa coincidência: Lula pediu um empréstimo de 10 bilhões recentemente na China!]

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva "é um grande companheiro e sempre disse que até onde for possível, o Brasil vai ajudar na industrialização da Venezuela", destacou Chávez.”

"O Brasil importa milhões de toneladas de ureia por ano, da África e do Oriente Médio, e nós, no futuro, poderemos produzir isto e ser uma potência petroquímica mundial. A Venezuela vai ser uma potência", garantiu Chávez, que viaja na próxima semana ao Brasil para se reunir com Lula, dentro dos encontros trimestrais entre os dois líderes. [fonte: France Press].

Já ocorreu o primeiro encontro dos dois e fui na Bahia. Entre outras coisas, Hugorila Chávez prometeu enviar para o Brasil um grupo de educadores, de modo a trazer para esta terra desvairada os benefícios da pedagogia bolivariana, ou seja: doutrinação comunista nas escolas, para preparar el socialismo del siglo veinte uno. Carmba! Por las barbas de Simón, que so no las tenia ahora las tiene a remojar!

Nunca antes neste país tivemos uma política externa de tão pífia, canhestra e perdulária com tantos diplomatas medíocres e despreparados num mundo globalizado. Ah! que saudade dos tempos de Macedo Soares, Roberto Campos, Meira Penna, MárioVieira de Melo, José Guilherme Merquior, Pio Correa e tantos outros ilustres nomes do Itamaraty!
Sexta, 15 Maio 2009 21:00

Reflexão Sobre A Vergonha

A palavra “vergonha” é uma destas palavras ambíguas e é de uma peculiar forma de ambigüidade. Tem ao menos dois sentidos, sendo que um designa um sentimento moral positivo, mas outro negativo - tudo dependendo do contexto sentencial em que ocorrem.

A palavra “vergonha” é uma destas palavras ambíguas e é de uma peculiar forma de ambigüidade. Tem ao menos dois sentidos, sendo que um designa um sentimento moral positivo, mas outro negativo - tudo dependendo do contexto sentencial em que ocorrem.

Consideremos (1) “Ele sentiu uma grande vergonha de ter feito o que fez”. Supondo que o indivíduo em questão realmente tenha se sentido envergonhado por uma ação praticada, a vergonha aqui é um sentimento moral positivo, pois é um efeito produzido pelo reconhecimento de culpa acompanhado de arrependimento.

Suponhamos agora (2) “Ele não sentiu a menor vergonha diante de tudo aquilo que fez”. Era esperado que o indivíduo que praticou uma ação vergonhosa sentisse vergonha pelo que fez. Mas a não-produção do referido efeito é uma indicação de que ele não se sentiu culpado e, por não ter se sentido assim, não experimentou nenhum arrependimento.

Segue-se, portanto, que o sentimento de culpa leva à vergonha e esta ao arrependimento.

Temos de fazer uma distinção entre culpa e o sentimento de culpa. Aquela tem um caráter objetivo, mas este tem um caráter subjetivo. Tanto no sentido ético como no jurídico, uma alegação de culpa pode e tem que ser provada, mas o sentimento de culpa simplesmente não pode ser provado, embora possa ser inferido por um sinal: o rubor da face indicando vergonha.

E é justamente por isso que um indivíduo pode ser culpado e sentir vergonha, mas pode não sentir e ser culpado e pode ainda não ser culpado e sentir.

Na peça de Sófocles Édipo-Rei, a personagem principal Édipo mata Laio, seu pai, mas não sabendo que o indivíduo morto em um duelo era seu pai; casa com Jocasta, sua mãe, sem saber que aquela linda mulher era sua mãe.

Devemos considerá-lo autor de um parricídio e de um incesto? Não há dúvida que ele praticou um homicídio, mas este teve lugar num duelo, cabendo, portanto, a alegação de legítima defesa. Além disso, na Grécia antiga os duelos não eram punidos por lei, eram considerados uma questão de honra.

Não há dúvida de que ele casou com sua mãe, mas não teve a intenção de cometer um incesto ao desposar a rainha de Tebas. Talvez fosse cabível a alegação de um incesto culposo, mas jamais doloso. Mas sendo culposo ou não, Édipo se sentiu culpado pelo ato incestuoso, bem como pelo homicídio de Laio. E em conseqüência disto, furou seus olhos e passou a vagar pelo mundo como um mendigo.

É conhecido o caso daquele indivíduo que, padecendo de um grave transtorno mental, vai a uma delegacia de polícia e confessa ter cometido um homicídio que não cometeu. Ele não é objetivamente culpado, mas isto não o impede de se sentir culpado e sentir vergonha pelo ato que alega ter praticado.

Por outro lado, sabemos que um psicopata, mesmo tendo cometido diversos crimes hediondos, nunca se sente culpado e jamais se sente envergonhado. Considera-se que ele é definitivamente incapaz de ter sentimentos morais.

Contudo, seria açodado considerá-lo um indivíduo imoral: ele não é um indivíduo moral nem imoral, porém amoral. Nem tampouco está além do bem e do mal, tal como o Zaratustra de Nietzsche: Ele está aquém do bem e do mal, tal como uma criança de colo. Porém, diferentemente dela, ele é um caso de internação e tratamento psiquiátrico.

De tudo isso que dissemos, podemos concluir que a capacidade de sentir vergonha é uma das mais importantes feições do homem como ser moral, seja quando ele reconhece seus erros e se arrepende dos mesmos, seja quando olha à sua volta a se reconhece como um homem moral vivendo em uma sociedade imoral, de acordo com o título do livro de Reinhold Niebuhr: Moral Man and Immoral Society (Nova Iorque. Scribner’s. 1932).

Entre nós, talvez ninguém tenha expressado melhor a referida condição do que Rui Barbosa nos inícios do século XX:

Sinto Vergonha de Mim

Tenho vergonha de mim,
Pois faço parte de um povo que não reconheço
Enveredando por caminhos que não quero percorrer.
Ao lado da vergonha de mim,
Tenho pena de ti,
Povo deste mundo!

De tanto ver triunfar as nulidades,
De tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver crescer a injustiça,
De tanto ver agigantarem-se os poderes
Nas mãos dos maus,
O homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
A ter vergonha de ser honesto.

A que ponto chegamos! Os desonestos não sentem vergonha nenhuma; os honestos sentem, mas sentem vergonha de serem honestos!

Segunda, 06 Abril 2009 21:00

A Raposa e As Uvas Azedas de Roraima

O imbroglio da reserva indígena Raposa Serra do Sol vem de longa data.

O imbroglio da reserva indígena Raposa Serra do Sol vem de longa data. Primeiramente, uma canhestra decisão da ONU resolveu decretar que tribos são “nações”. Ora, o conceito de nação implica unidade territorial e soberania. Se tribos são consideradas nações, elas têm de possuir ambos os atributos.

Como a Constituição de 1988 incorporou essa demagógica tolice colossal, as tribos indígenas brasileiras passaram a ser consideradas nações, o que entra em gritante contradição com seus membros serem tutelados pelo Estado brasileiro ou, caso aculturados, receberem atendimento da FUNAI. Ora, se são tutelados e/ou com direito a atendimento, como podem ser cidadãos de outra nação? E se as tribos indígenas são de de jure nações, as reservas deixam de ser reservas e passam a ser outras nações encravadas dentro do território nacional brasileiro.

Isto é uma complicação pior do que a da antiga Prússia Oriental separada da Prússia Ocidental por uma extensa fatia do território da Polônia, ou do Estado de Israel com enclaves de tribos de palestinos espalhadas em seu território, sob o nome de uma pretensa Autoridade Palestina, esta patrocinadora de terroristas fundamentalistas.
No caso específico da Raposa, ela é habitada somente por 19.000 índios, mas possui um território maior do que o da Bélgica. Quando foi feita a demarcação do mesmo foi apresentada a pífia alegação de que os indígenas eram nômades e viviam da caça. De fato, este era o caso da maior parte das tribos brasileiras na época da colonização e nos romances indianistas e saudosistas do século XIX. Acontece que há muito tempo os membros das tribos da Raposa foram aculturados, adotaram o sedentarismo e abandonaram a vida de caçadores, mesmo porque nas redondezas a caça está cada vez mais escassa.

A Raposa ocupa parte da fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana e possui destacamentos militares brasileiros, com mais de 80% dos soldados nativos da Amazônia. Pode-se entender isto como uma concessão dos indígenas, uma vez que eles - como membros de uma nação - possuem soberania sobre seu território e poderiam expulsar os militares de outra nação, no caso: o Brasil. No entanto, até agora - por mera ignorância ou esperta conveniência - eles não fecharam a fronteira com o estado de Roraima: limitaram-se a cobrar pedágio de ocasionais visitantes.

Além disso, a Raposa possui propriedades de agricultores brasileiros, mais especificamente de arrozeiros, alguns dos quais fixados na terra desde o século XIX e que fornecem empregos aos índios.
Ora, no momento em que o cacique quiser pode expulsá-los como indesejáveis estrangeiros e eles não terão nenhuma defesa legal, pois a legislação brasileira não pode ser aplicada numa outra nação, a não ser ferindo gravemente a soberania nacional dest’outra nação.

Recentemente o Supremo Tribunal Federal foi provocado e teve que tomar uma decisão sobre a continuidade ou descontinuidade do território da Raposa. Sinceramente, essa nos parece uma questão esdrúxula. Se o território de uma nação foi demarcado, é óbvio que ele é contínuo. Caso não fosse, isto teria que ser estabelecido quando da demarcação. De acordo com o conceito jurídico e político de nação, o que é regra é a continuidade territorial, a descontinuidade é que é exceção. Há poucos casos como o das duas Prússias...

Mas deixemos isso de lado. Reunido o STF, oito ministros declararam-se favoráveis à continuidade, mas como dois ministros pediram mais tempo para pensar, o Presidente Gilmar Mendes suspendeu a sessão.

O ministro Carlos Alberto Direito, embora tenha aceitado a continuidade, fez 16 ressalvas, entre elas as de que os índios não poderiam impedir a presença e as atividades dos militares brasileiros na região, não podiam explorar e comerciar minerais valiosos, não podiam impedir a abertura de estradas no território da Raposa, não podiam cobrar pedágio nas estradas, etc.

Essas e outras ressalvas feitas pelo ministro Direito nos parecem sábias e oportunas, dignas mesmo de um bom legislador - coisa que infelizmente o referido ministro não é - , porém cremos que não poderão entrar em vigência.

Se a Raposa é uma nação, seus habitantes não são brasileiros: são raposeiros. Se a Raposa é uma nação, ela é possuidora de soberania nacional e cabe a ela - e somente a ela - decidir o que fazer dentro de seu território, inclusive permitir a presença de ONGs européias neste mesmo território, que promovam acampamentos para as FARC, extraiam madeira e minerais valiosos, criem bases para terroristas fundamentalistas, etc. E, caso as forças armadas brasileiras penetrarem em território da Raposa sob qualquer alegação, estarão violando as fronteiras de uma nação soberana e contando, assim, com o severo repúdio da ONU - este ninho de terceiromundistas financiados por Tio Sam - alardeado aos quatro cantos do mundo globalizado.

Será preciso acrescentar mais alguma coisa, para deixar bem claro o imbróglio criado pela Constituição de 1988, bem denominada “a Constituição dos Miseráveis” por Ulysses no País das Maravilhas?! Ô louco, meu! Trem doido, sô! ‘Tá variando, meu rei!

Após essa inenarrável sessão, O Supremo voltou a se reunir novamente e acabou decidindo pela continuidade, com ilustre voto vencido do ministro Marco Aurélio de Mello - e com os aplausos de dona Sensatez! -, bem como com as ressalvas feitas pelo ministro Carlos Alberto Direito cujo oportuno e correto das mesmas é indiscutível.
Porém, ao tomar a referida decisão, o Supremo violou aberta e claramente a própria Constituição, pois sua atribuição constitucional não é fazer leis, porém preservar o estrito cumprimento da Carta Política, a Lei Maior do País.

Ah! Se Montesquieu ressuscitasse e visse o que está acontecendo num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Ele ficaria de olhos esbugalhados e cabelos em pé!

O Poder Legislativo padece de uma profunda letargia e só produz escândalos corporativistas, além de julgar mediante CPIs e CPMIs, o Poder Executivo legisla mediante as autocráticas medidas provisórias e, finalmente, o Judiciário acabou fazendo leis e ocupando, abusivamente, a lacuna deixada pelo Legislativo.

Diante disso, o País acabou se transformando na folclórica Casa da Mãe Joana!

 

 

APÊNDICE I: OS PERECIS PARECIAM, MAS NÃO ERAM FELIZES

Vi na televisão uma reportagem simplesmente patética: os índios parecis estão dirigindo uma plantação de soja extremamente produtiva. Até aqui, tudo bem: muito melhor ser fazendeiro do que morrer de fome e doenças.
Acontece que os ambientalistas estão criando problemas, a FEEMA levantou questões relativas à preservação ambiental e o Ministério Público pediu para rever o contrato dos índios com o governo federal.

Mas, apesar de os índios venderem o que plantam em larga escala e se beneficiarem do fruto de seu trabalho, uma antropóloga rousseauniana, fervorosa adepta do culto do “bom selvagem”, meteu sua cara na TV e disse estar horrorizada pelo fato de os silvícolas terem sido contaminados pela cultura dos brancos, pois, além de seus jipes e tratores, em suas casas eles possuem computador, televisão, geladeira, entre outras detestáveis coisas supérfluas da “sociedade de consumo” que a mesma antropóloga certamente possui em sua casa.

Jamais passou pela cabeça doentia de J.J.Rousseau o sucesso que ele faria entre (des)governantes e intelectualóides da América Latina. [a este respeito vide C. Rangel: Do bom Selvagem ao Bom Revolucionário, Brasília, EDUNB].

 

 

APÊNDICE II: E A PAZ FOI DESTRUÍDA PELO BELICOSO HOMEM BRANCO

Uma vez fui convidado a participar de um debate promovido pela UNESCO sobre a tolerância. Quando cheguei ao auditório, um silvícola aculturado deitava sua falação mais ou menos nestes termos: “Índio no Brasil vivia bem. Chegou português, desgraça, guerra, não mais paz.”

De fato, nossos índios eram extremamente felizes e pacíficos. Tapuias fazendo guerras e mais guerras com tamoios, tupinambás comendo os bravos tupiniquins caídos em sangrentas batalhas, carijós abrindo a cabeça de patachós com golpes de borduna Era a melhor exemplificação do estado natural do sereno Thomas Hobbes em que vigia a bellum omnium contra omnes. [leituras complementares recomendadas: Paul Johnson: Os Intelectuais, Editora Imago, Rio - especialmente o capítulo: “Rousseau, um louco muito interessante”. Thomas Hobbes: Leviatã, coleção Os Pensadores, Editora Abril Cultural, São Paulo].

É sabido que muita gente compra feijão, arroz ou sapato e paga com vale transporte, e quem o compra o revende mediante pequeno ágio.

 

O primeiro grande feito da história da tecnologia foi sem dúvida a pedra lascada, pois aí já estava presente o trabalho transformador da natureza, que faz do natural o cultural pela ação criativa humana.

E no primeiro grande feito também já está caracterizada uma das feições básicas e imutáveis da tecnologia: a capacidade do Homo technologicus de usar um instrumento tanto para o bem como para o mal. O mesmo machado de pedra que servia para abrir um coco, servia igualmente para abrir a cabeça de alguém.

Da pré-história até hoje, muita coisa mudou. Mas a ambivalência inerente a todo e qualquer instrumento permanece inalterável: todo instrumento dá margem a usos devidos e a usos indevidos.

E esta é a razão pela qual as normas de segurança internacionais dos aeroportos não permitem que você entre no aparelho portando guarda-chuva, tesoura de unhas e até mesmo um cortador de papéis ainda que seja feito de madeira.

Por que? Todas essas e mais algumas tantas coisas se prestam a usos indevidos. Com uma tesoura você pode cortar suas unhas, mas pode também cortar a veia jugular de uma possível vítima de um seqüestro aéreo.

Os supramencionados usos fazem parte da lista de candidatos a usos indevidos bastante conhecidos, pois, considerando a forma da coisa, não é difícil imaginar a possibilidade de uma perversão de seu uso, ainda que esta não tenha sido prevista por seu inventor. A cola foi inventada para colar solas de sapatos, não para ser cheirada por menores abandonados. Mas como eles não têm mesmo sapatos, usam a cola para cheirar! É a cocaína dos mendigos.

Há coisas que requerem um pouquinho de imaginação, para que se possa antecipar um possível uso indevido. Mas parece que os socialistas de todas as cepas carecem de imaginação ou são crentes fervorosos do culto rousseauniano da “bondade natural” do ser humano, bondade esta inversamente proporcional ao poder aquisitivo do cidadão, ou seja: quanto mais pobre, mais bondoso. E com um pezinho no Reino dos Céus, de acordo com a teologia da libertação... Não é mesmo, Frei Betto e ex-Frei Boff?!

Num dos governos do Partido Democrata americano, espíritos solidários, altruístas e extremamente preocupados com as dificuldades financeiras das mães solteiras resolveram criar a bolsa filho.

As mães solteiras, uma vez comprovada sua carência de recursos, recebiam determinada quantia por cada filho que tivessem. Isto parece um daqueles programas alemães de incentivo à natalidade, mas a diferença é que estes eram doados somente a mães casadas e o do Partido Democrata exclusivamente a mães solteiras. Odiosas exclusões de ambos, diriam logo os patetas impensantes.

E como a bolsa aumentava de valor a cada filho - e a grana tornava-se polpuda –as adeptas da “produção independente” jogaram fora os preservativos e passaram a parir mais do que ratazanas nos porões da vida. Com isto, concorreram bastante para o aumento populacional da pobreza. E dos bastardos também!

E como a fiscalização do governo era precária - e o amor materno mera ficção romântica - as mães entregavam seus rebentos aos cuidados de orfanatos ou ao Deus-dará. [Mais uma despesa pública produzida pela besteira dos políticos].

Elas fizeram o mesmo que o hipócrita inspirador dessa cretina política pública: Jean-Jacques Rousseau, que teve seis filhos com sua empregada, mas, movido pela “bondade natural” do ser humano, relegou-os todos aos cuidados de um orfanato.

Mas não pense o leitor que essas coisas não ocorrem num “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” [Obrigado, Jorge Ben].

No governo de Sir Ney, o jeca de jaquetão [Obrigado, Millôr Fernandes] - que só não foi o pior que tivemos, porque viria ainda Lulinha-Paz-e-Amor [Esta é do Duda Mendonça] – apiedados com a triste situação de crianças pobres que não tomavam leite, porque seus pais não tinham dinheiro pra comprar, nossos políticos não pensaram nem por um momento no grave problema social da paternidade irresponsável.

Pais de crianças pobres recebiam o bolsa leite para cada filho. Isto não só concorreu para o aumento da população pobre como também para o aumento do alcoolismo, pois o bolsa leite prontamente se transformou no bolsa pinga. Êta branquinha danada de boa, sô! Justifica-se, portanto, o conhecido lema do folclore liberal: Ótimas intenções, péssimos resultados.

È de se observar que não só a finalidade pretendida pelo doador não coincide com a finalidade visada pelos doados, como também qualquer bem ofertado torna-se inevitavelmente moeda.

É sabido que muita gente compra feijão, arroz ou sapato e paga com vale transporte, e quem o compra o revende mediante pequeno ágio. Brasileiro gosta de levar vantagem em tudo, não é mesmo Gérson?! Assim são estas belas invenções socialistas! Mais, Lulla, queremos mais!

“TERESINA - O cartão Bolsa Família estava sendo usado como garantia de pagamento de drogas em ‘bocas’ (posto de venda) de maconha na Parnaíba, região norte do Piauí. Uma operação conjunta realizada pelas polícias Militar e Civil encontrou diversos cartões na casa de um traficante. Ele contou aos policiais que os cartões tinham sido deixados por viciados como garantia de pagamento da droga comprada fiado. No dia da liberação do dinheiro do Bolsa Família, o traficante a acompanhava o dono do cartão até uma casa lotérica, onde o dinheiro era sacado, e o vendedor da droga recebia a sua parte.” [Rafael Picate, em www.redeliberal.yahoo.grupos, 2/3/2009]

A droga da bolsa acabou se transformando na bolsa da droga.

 

Quinta, 26 Fevereiro 2009 21:00

Eles Todos São Palestinos

O saudoso Roberto Campos ficava impressionado com a grande capacidade do povo brasileiro cultivar os heróis errados e sustentar as idéias mais tortas.

O saudoso Roberto Campos ficava impressionado com a grande capacidade do povo brasileiro cultivar os heróis errados e sustentar as idéias mais tortas. Nestes particulares, o Jornal da Associação dos Do(c)entes da UFRJ é incomparável.

Durante o recente conflito no Oriente Médio, o referido jornaleco publicou um artiguete intitulado: “Somos todos palestinos”. Todos, menos eu! Vale citar aqui o dionisíaco Nelson Rodrigues: “Toda unanimidade é burra!”. Mais eis como o referido artiguete mancha com tinta o puro branco do papel:

“Uma grande manifestação contra o extermínio do povo palestino praticado pelo Estado de Israel nas últimas semanas na Faixa de Gaza reuniu mais de mil pessoas na Cinelândia, Centro do Rio, na tarde da última quinta feira, dia 8.” (Jornal da ADUFRJ, 13/1/2009).

Como se vê o Estado de Israel – sitiado pelos bárbaros, cercado de terroristas muçulmanos por todos os lados - é qualificado como “genocida”. O que está de pleno acordo com o pensamento do PT (Perda Total), que considera a ação defensiva de Israel contra os foguetes palestinos chovendo sobre seu território como “terrorismo de Estado”.

Mas prossegue o mencionado pasquim: “A indignação e revolta com a morte de 770 palestinos pelas forças militares israelenses foram as marcas do protesto que culminou com a queima das bandeiras dos EUA e Israel em frente do Consulado dos Estados Unidos”. (idem, ibidem).

Pode parecer uma manifestação de antissemitismo, mas não é exatamente isto. É mais uma manifestação do mais simplista antiamericanismo. O raciocínio desses microcéfalos funciona assim: é americano ou aliado dos Estados Unidos, então é ruim. É contra americano, não importando o porquê, então é bom. E é por isso que o presidente da Colômbia, Uribe, é ruim. Mas, o ditador da Vene(zar)zuela, Chávez, é bom. Israel é ruim, mas todo e qualquer país tribal muçulmano é bom.

Não é de surpreender que Osama Bin Laden tenha angariado tantos admiradores no Brasil. Há mesmo quem só não o admire por ele ter destruído as Torres Gêmeas quando devia ter destruído a Estátua da Liberdade, “ícone da opressão imperialista”.

Marco Antonio dos Santos, diretor do Centro Cultural Antonio Carlos Carvalho – provavelmente mais um antro de comunistas – abriu a boca e disse: “Não se trata de uma resposta de Israel aos foguetes caseiros do Hamas” – ora, pipocas: “foguete caseiro” não é de festa de São João! Também mata! – “O objetivo desta guerra é submissão ao imperialismo norte-americano, que financia as ações israelenses na região”. Que submissão?

Lembro que, em árabe, “submissão” é islam!

Já o representante da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) – provavelmente mais um pelego como o Paulinho da Força Sindical – declarou que o Brasil deve romper relações com o Estado israelense.

Penso que deve romper relações com os Estados Unidos também, só para agradar Hugorila Chávez, Primevo Inmorales e Correa Solta e Lugo Azul de Ipacaray, o famigerado Quarteto Bolivariano.

Penso ser desnecessário continuar elencando as tolices desse colar de chavões e simplismos. No entanto, reitero: não se trata de antissemitsmo, mas sim de antiamericanismo em dose cavalar. O único erro de Israel é ser um antigo aliado dos Estados Unidos, desde os tempos da guerra fria quando a finada União Soviética apoiava a malfadada República Árabe Unida, formada pelo Egito e pela Síria e liderada pelo ditador egípcio Gamal Abdel Nasser.

Felizmente seu exército foi derrotado pelo general Moshe Dayan, na Guerra dos Seis Dias, e a referida república foi desfeita, para a tranqüilidade do povo de Israel.

APÊNDICE I: RESPOSTA DE GÊNIO!

Millôr Fernandes lançou um desafio através de uma pergunta:- Qual a diferença entre Político e Ladrão ?
Chamou muita atenção a resposta enviada por um leitor (Fábio Viltrakis, Santos-SP) __ Caro Millôr, após longa pesquisa cheguei a esta conclusão: a diferença entre o político e o ladrão é que um eu escolho, o outro me escolhe. Estou certo ?

Eis a réplica do Millôr __ Puxa, Viltrakis, você é um gênio... Foi o único que conseguiu achar uma diferença !...

Quarta, 11 Fevereiro 2009 21:00

A Balança da Justiça Adulterada

Dois pesos, duas medidas: este é o lema do esquerdista e autoritário governo do PT (Perda Total, no jargão das companhias de seguros, para os não-iniciados).

Estou assistindo aos primeiros capítulos da novela da Globo "Caminho das Índias" de Glória Perez. Já no começo a trama evidencia que se trata de uma crítica dos costumes, gênero literário em que se notabilizaram Montesquieu com as suas "Cartas Persas" e Voltaire com seu "Zadig". É escusado dizer que admiro profundamente ambos, bem como o referido gênero.

É claro que Glória Perez tem pretensões muito mais modestas, mas, a julgar por sua novela anterior, "O Clone", ambientada no mundo muçulmano, ela demonstra bastante talento e excelente senso de humor ao explorar esse interessante gênero.

Em "Caminho das Índias", a produção mostra-se impecável. Além da locação ser na própria Índia, não mediante recurso a cenários de estúdio, o guarda-roupa é de primeira linha. A trama se passa em ambientes da aristocrática classe média alta indiana, contrastando com a miséria das ruas, seus arraigados preconceitos e superstições.

Um país de fortes contrastes... Realmente, os indianos têm muito mais em comum com os brasileiros do que peles morenas, miséria e analfabetismo.

Mas vamos diretamente ao ponto. Uma particular cena chamou minha atenção. Um vendedor de essências aromáticas vai vender suas mercadorias para um perfumista, dono de uma loja de finos perfumes. Este as experimenta uma a uma mostrando-se inebriado com seus aromas. Toma a decisão de comprá-las e grita na direção do interior da loja: __ Filho mais velho! Filho mais velho!

Aí aparece um jovem trazendo os pesos de uma balança. O dono da loja mostra-se contrariado. Pede licença ao vendedor de essências e vai para dentro da loja falar alguma coisa com o filho. Diz algo mais ou menos assim:
___ Quantas vezes tenho que lhe dizer! Não são estes pesos! Quando digo "filho mais velho" você tem que trazer os pesos que uso para comprar. Quando são os para vender, eu digo: Filho mais moço!

Percebi então que se tratava não só de um código como também de uma excelente exemplificação do vetusto provérbio: "Dois pesos, duas medidas" (conforme a conveniência do astuto mercador que gosta de levar vantagem em tudo).

Inevitavelmente, minha mente deslocou-se da cena da novela para a cena política brasileira da atualidade. Nos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, quando dois boxeadores cubanos abandonaram a delegação cubana e fugiram para a Região dos Lagos (RJ), o governo brasileiro não os considerou como dois refugiados políticos fugindo da ditadura cubana e apressou-se em repatriá-los para ilha de El Coma Andante.

Mas quando, mais recentemente, o guerrilheiro e autor de 4 homicídios Battisti foi preso no Brasil, após ter sido condenado pela Justiça italiana à prisão perpétua, e o governo italiano pediu sua extradição, o ministro Tarso Genro alegou que havia indícios de "perseguição política" e que o facínora não teve "direito à ampla defesa". Que alegações pífias! Comprometem não só o conhecimento jurídico como também o senso de justiça de quem as alega!

Dois pesos, duas medidas: este é o lema do esquerdista e autoritário governo do PT (Perda Total, no jargão das companhias de seguros, para os não-iniciados).

APÊNDICE 1: ITALIANO CONTA COMO BATTISTI ASSASSINOU SEU PAI

(na Coluna de Cláudio Humberto no Correio Braziliense em 22/1/2009)

“Atualmente aos 46 anos de idade, Adriano Sabbadin tinha 17 quando o terrorista Cesare Battisti e seu bando invadiram o açougue de seu pai, Lino Sabbadin, e o mataram. Indignado com a proteção do governo Lula ao assassino, concedendo-lhe asilo político, Sabbadin fez publicar no jornal Corriere del Veneto uma carta aberta aos brasileiros. A tradução é do jornalista Giulio Sanmartini:

"Vivo em uma pequena cidade na província de Veneza. Escrevo a todos os brasileiros, pois hoje me sinto profundamente ferido pela decisão de vosso ministro da Justiça de considerar Cesare Battisti um refugiado político. Há 30 anos ele assassinou meu pai. Não quero vingança, mas uma justiça que não chega. Quem é Battisti: ele começou na política dentro do cárcere, detido que estava por crimes comuns, aí conheceu o terrorista de extrema esquerda, Arrigo Cavallina.

A primeira vítima dos Proletários Armados para o Comunismo – PAC, foi o suboficial da guarda carcerária Antonio Santoro. Quando este sai de casa para o trabalho, Battisti lhe atira nas costas (6/6/1978). Retornando ao seu grupo ele conta excitado à sua companheira os efeitos de ver “alguém jorrando sangue”. Depois de uma série de assaltos o grupo resolver centrar contra aos agentes da “contra-revolução”, isto é, comerciantes que haviam reagido contra assaltos comuns.

Inicialmente pensou-se em somente feri-los, mas a vontade de mostrar a própria força a outros grupos de terroristas de esquerda, convence o PAC que é necessário fazer ver que se é capaz de matar. Chegaram a nosso açougue pelas 4 e meia da tarde. Meu pai, ajudado por minha mãe, atendia a algum cliente, eu estava nos fundos falando ao telefone, quando ouvi os tiros de pistola que ribombavam nos meus ouvidos. Apavorado, corri para nossa casa que ficava no andar superior, depois de longuíssimos minutos vi homens que saiam num carro em disparada. Quando cheguei ao açougue, vi minha mãe com o avental branco todo ensangüentado e meu pai no chão dentro de uma poça de sangue. A ambulância chegou rapidamente, mas nada pôde fazer.

Nos processos, seja a perícia e o testemunho de um arrependido, fez ver que Battisti tinha dado, sem piedade, os tiros mortais em meu pai. Battisti esteve sempre presente no grupo armado, colocando à disposição sua experiência de bandido e ficou conhecido por sua determinação em matar, jamais hesitando em fazê-lo.

Por todos estes crimes Battisti cumpriu somente um ano da cadeia, enquanto minha vida ficou completamente destruída. Me vi aos 17 anos como o chefe de família e um vazio que com o tempo só fez aumentar. Não pode existir paz sem justiça e a minha família justiça, não a teve.

Não consigo entender o que levou vosso ministro da Justiça e classificar Battisti como um refugiado político, declarando que na Itália existem aparatos ilegais de repressão ligados a Máfia e a CIA (Central Intelligence Agency), por isso não pode conceder a extradição, o fato me parece uma folia e mais que isso, ofensivo à nossa democracia. Peço que façam um apelo ao vosso presidente para que reveja essa decisão.”

APÊNDICE II: DEU NA FOLHA DE SÃO PAULO EM 19/1/2009

Armando Spataro, 60 anos, procurador da República de Milão (Itália), coordenador do Departamento contra o Terrorismo, declarou:

“Integrei o Ministério Público italiano, no âmbito do qual, ao lado de outros magistrados, conduzi as investigações que levaram às condenações contra Cesare Battisti. Portanto, em relação à decisão do ministro Tarso Genro, espero poder oferecer à opinião pública brasileira uma contribuição para a verdade, com a finalidade de preencher as lacunas de informação sobre as quais aquela decisão encontra-se fundamentada. Com efeito, é difícil para os italianos entender como a um assassino puro como ele pode ter sido reconhecido o refúgio. É oportuno partir dos fatos para desmontar os argumentos frequentemente utilizados por Battisti e seus "amigos".

1) Battisti não é um extremista perseguido na Itália por seus ideais políticos, e sim um criminoso comum que praticava roubos com o fim de lucro pessoal e que se politizou na prisão.Em seguida, filiou-se a uma organização terrorista que praticou lesões corporais e homicídios. Battisti foi preso em junho de 1979 com outros cúmplices em uma base terrorista de Milão, onde foram apreendidos metralhadoras, revólveres, fuzis e documentos falsos. Com certeza, portanto, não se tratava de dissidente político!

2) Battisti foi condenado à prisão perpétua por muitos graves crimes, entre os quais também quatro homicídios: em dois destes (homicídio do marechal Santoro, praticado em Udine em 6/6/78; homicídio do policial Campagna, praticado em Milão em 19/4/79), foi ele a atirar materialmente nas vítimas; em outro homicídio (o de L. Sabbadin, um açougueiro morto em Mestre, em 16/2/79), deu cobertura aos assassinos, e, no quarto (o homicídio de P. Torregiani, acontecido em Milão, em 16/2/79), colaborou na sua organização.Gostaria de perguntar ao ministro brasileiro quais motivações políticas enxerga nos homicídios de um joalheiro e de um açougueiro, "justiçados" por vingança (por terem reagido com as armas aos assaltos sofridos) ou nos homicídios de policiais que cumpriam seu dever.

3) Não é verdade que Battisti foi condenado somente com base nas acusações do delator premiado Pietro Mutti; tampouco é verdade que este não fosse confiável. Afirmar isso significa ofender a seriedade da Justiça italiana. As confissões de Pietro Mutti, com efeito, foram confirmadas por inúmeros outros testemunhos e pelas sucessivas colaborações de outros ex-terroristas. A verdade, portanto, está escrita nas sentenças, que pesam como pedras enormes e que se encontram à disposição de todos os que tenham a paciência de as ler.

4) Não é verdade que a Battisti foi negada a possibilidade de se defender nos processos em que estava ausente. Na verdade, foi Battisti quem se furtou à Justiça, evadindo-se em 1981 da carceragem em que estava preso.Não por acaso a Corte Europeia de Direitos Humanos de Estrasburgo (França) negou provimento ao recurso de Battisti contra a concessão de sua extradição por parte da França, julgando-o, por essa razão, "manifestamente sem fundamento" e afirmando que, de qualquer forma, em todos os processos ele foi assistido por seus advogados de confiança. Será que também a corte de Estrasburgo está perseguindo Battisti?”

5) É falso que a Itália e seu Judiciário não foram capazes de garantir a tutela dos direitos das pessoas acusadas de terrorismo durante os denominados "anos de chumbo". Trata-se de uma afirmação que nos fere. Inúmeros foram os magistrados, os advogados, os homens das instituições, os policiais assassinados de maneira vil por pessoas como Battisti pelo simples fato de aplicarem a lei. A Itália, no contexto da luta contra o terrorismo, não conheceu tribunais de exceção ou militares nem desvios antidemocráticos. Tal fato foi ressaltado também por nosso presidente da República Sandro Pertini, que afirmou que a Itália podia louvar-se de ter vencido o terrorismo nas salas dos tribunais, e não "nos estádios", aludindo aos métodos ilegais que nós não conhecemos e aos quais também hoje nos opomos.Acredito que o refúgio não foi concebido pelos fundadores de nossas democracias para garantir a impunidade de pessoas como Battisti, um dos assassinos mais cruéis e frios que o terrorismo italiano conheceu e que nunca se dissociou do uso das armas.

Espero, com todo o respeito, portanto, que as autoridades brasileiras competentes tenham a possibilidade de rever suas próprias decisões. Não pelo fato de a justiça ser equivalente à vingança, mas pelo fato de ela representar o lugar da afirmação das regras do Estado de Direito: e quem as violar, ainda mais se matar o próximo, deve pagar. Do contrário, as democracias desmentem a si mesmas.” 

Não faz muito tempo, quando dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, dois boxeadores cubanos abandonaram sua equipe e pediram asilo político ao Brasil. O que fizeram as autoridades brasileiras? Prenderam-nos e os repatriaram para Cuba.

Não faz muito tempo, quando dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, dois boxeadores cubanos abandonaram sua equipe e pediram asilo político ao Brasil. O que fizeram as autoridades brasileiras? Prenderam-nos e os repatriaram para Cuba. Certamente porque, para elas, eles não eram considerados fugitivos políticos, mas sim inimigos da revolução cubana, apesar de não terem praticado nenhum atentado ao grande líder nem quaisquer atos de subversão da ordem.

Todo mundo sabe que aqueles que fogem de Cuba são descontentes com o regime, descontentes são vistos como dissidentes e dissidentes, perigosos inimigos do socialismo cubano. Certa feita, indagado sobre a questão dos direitos humanos na ilha, Fidel Castro, El Coma Andante, disse: “En Cuba no hay prisioneros políticos, hay inimigos de la revolución”. Parece que o governo brasileiro está de pleno acordo com o ditador da Perla del Caribe, Cubanacan, misterioso país del amor.

Recentemente foi preso no Brasil o italiano Cesare Battisti, não por ter praticado nenhum crime em Terra Brasilis, mas sim na bella Italia. Trata-se de um réu julgado à revelia, condenado e fugitivo procurado pela Interpol. Quem é o meliante? Um ex-membro do grupo guerrilheiro Proletários Armados Para o Comunismo. Condenado na Itália por quatro homicídios, isto para não falar em atentados terroristas e outros delitos.

Como fugitivo da lei, ele viveu tranqüilamente na França durante o governo socialista de François Mitterand, mas quando um governante não-esquerdista assumiu o Poder, a saber: Jacques Chirac, Battisti - que pode ser considerado criminoso, mas de bobo nada tem – fez as malas e fugiu para onde fogem todos que desejam um lugar para viver sem serem incomodados pela polícia: São Sebastião do Rio de Janeiro. No entanto, por incrível que pareça, ele conseguiu realizar a proeza de ser preso quando freqüentava um cabaré da Lapa ou tomava banho de mar em Ipanema, ou coisa parecida.

Sabedor de sua prisão no Brasil, o governo italiano pediu sua extradição. O Procurador Geral da República, Antonio Fernando Souza - como já era de se esperar de um zeloso fiscal da lei - deu uma opinião favorável ao pedido italiano. Mas o Ministro da Justiça, Tarso Genro, mostrou-se desfavorável sob as pífias alegações de que havia indícios de “perseguição política” e que o meliante Battisti não desfrutara do direito de ampla defesa.

Ora, é óbvio que se tratava de perseguição, não de perseguição “política”, porém de perseguição da polícia. E se o referido facínora teve ou não direito à ampla defesa, isto é uma questão que diz respeito à, e somente à, Justiça italiana. E ao que consta, Tarso Genro não é Ministro da Justiça da Itália. E aqui entre nós e que ninguém nos ouça: essa história de “crime político” é uma balela esquerdista: não há “crimes políticos”: há crimes dos políticos, mas estes gozam de imunidade parlamentar ou impunidade para lamentar.

Wálter Fanganiello Maierovitch (em www.redeliberal.yahoo.grupos.com.br em 16/1/2009) foi ainda mais contundente: (...) “Por outro lado, espanta o desconhecimento do ministro Genro sobre questões elementares, que seguramente o reprovariam num exame da Ordem dos Advogados do Brasil. O ministro Genro afrontou uma decisão soberana do Estado italiano e, simplesmente, a desvalorizou por entender estar baseada em “leis de exceção”.

“A Itália republicana sempre viveu em plena democracia e jamais cunhou leis de exceção, que o ministro Genro confunde com emergências geradoras de reformas legislativas, por Congresso eleito pelo povo. Por acaso, as leis brasileiras, modificadas em razão dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a sobre crimes hediondos em face da escalada da criminalidade, são leis de exceção ? Lógico que não.”

E por sua vez Rodrigo Constantino (ibidem) não fez por menos: “A simpatia de determinados membros do PT por terroristas e ditadores é antiga e conhecida. No entanto, não deixa de ser mais chocante quando esta simpatia é transformada em medidas oficiais do governo, colocando o país numa situação vergonhosa perante a diplomacia internacional. Foi justamente o que aconteceu com a recente decisão do ministro da Justiça Tarso Genro, ao oferecer abrigo para o assassino italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua pela Justiça de seu país.”

E disse ainda este mesmo autor: “A ajuda oficial do governo a criminosos não é novidade. Em 2006, o governo brasileiro concedeu ao líder das FARC Francisco Antonio Cadenas Collazzos a condição de refugiado. O "Padre Medina", como Collazzos era conhecido, tinha sido preso pela Polícia Federal em 2005, e o governo da Colômbia desejava sua extradição. Mas o governo da Colômbia não era um aliado político do PT, ao contrário dos terroristas e traficantes das FARC, que são parceiros do PT no Foro de São Paulo desde 1990. Ao lado de outros partidos de esquerda, o PT fez campanha pela soltura do criminoso colombiano, acusado de homicídio, seqüestro, rebelião e terrorismo.” [Gente fina, como se pode ver!]

“Como fica claro, nada disso é visto como crime pelos membros do PT, se realizado em nome do comunismo. Matar inocentes não tem problema, contanto que seja com uma foice e um martelo! Não dá para exigir uma postura muito diferente de um partido que pretende colocar uma ex-assaltante como candidata à presidente. Afinal, a ministra Dilma Rousseff sente orgulho de seu passado no crime, já que ela lutava pela "causa nobre", tentando implantar uma ditadura no estilo cubano no país.”

Depois de tudo que foi dito, o título deste artigo está plenamente justificado: no caso dos boxeadores cubanos - que não eram criminosos, mas sim refugiados políticos - o governo brasileiro negou asilo e os repatriou, só para ser agradável a um ditador decrépito. No caso de um criminoso contumaz e de alta periculosidade, preso ao fugir da Interpol, nosso Ministro da Justiça não só nega um justo pedido de um país democrático como também dá palpites infelizes sobre assuntos da alçada da Justiça italiana.

Nada surpreendente, Lula da Silva mostrou-se solidário para com o barbarismo jurídico de Tarso Genro. Contudo, ainda temos a esperança de que o recurso feito pela Justiça italiana ao STF, Supremo Tribunal Federal, será atendido. Será que ainda há juízes em Berlim?

O fiel da balança da Justiça é fiel, porque não deve oscilar nem para a direita, nem para a esquerda, mas sim porque está justamente no centro, eqüidistante dos indesejáveis extremos. In medio virtus, como já sabia o velho e bom Aristóteles. Mas com dois pesos e duas medidas, não podemos dizer que todos são iguais perante a lei. 

Parafraseando Epicuro, podemos dizer: quando a vida é os impostos são, quando a vida não é os impostos não são.

Parafraseando Epicuro, podemos dizer: quando a vida é os impostos são, quando a vida não é os impostos não são. Caindo no popular: se há uma vantagem na morte, é que ela nos livra de uma série de aborrecimentos e contrariedades. Morto não tem que aturar chatos, pagar aluguel, condomínio e, principalmente: impostos.

Na realidade, os impostos são um mal necessário, pois o Estado é também um mal necessário e sem tributação como pagaríamos os serviços indispensáveis que ele nos presta? E é por isso que quanto menor o Estado, melhor para nosso bolso.

Mas o morto, como diz a própria palavra latina defunctus – que originou a portuguesa “defunto” – é aquele que está “fora de função”, quer dizer: aquele que já não exerce mais nenhuma atividade e, por isso mesmo, não compra, nem vende, não consome produtos, não possui nenhum veículo, etc.

Já dizia o Dr. Samuel Johnson, com seu indefectível British sense of humour: “Nesta vida só existem duas coisas certas: a morte e os impostos”. Claro está que estes últimos não se estendem desta vida para a cova, nem muito menos desta para outra vida.

Assim é e assim tem sido desde os mais vetustos tempos do faraó Tutankamon, mas parece que assim não será mais em Goiânia (GO) em que sua excelência, o prefeito Íris Rezende (PMDB) - num de seus momentos de sublime inspiração - decidiu instituir um IPTU dos defuntos. Juro que é mais pura verdade! Ainda bem que aí está O Globo, para evitar que eu passe por um mentiroso sensacionalista:

“GOIÂNIA __ Donos de sepultura nos cemitérios de Goiânia foram surpreendidos com a proposta de uma nova taxa municipal. Eles poderão ter que pagar, já em 2009, pela manutenção dos jazigos. O valor anual será estipulado conforme o tipo e o tamanho da sepultura”. (O Globo, 20/12/2008)

Reconhecemos que “manutenção dos jazigos” é uma expressão ambígua, pois pode estar se referindo à mera manutenção da propriedade pela qual o proprietário já pagou ou ao serviço de conservação, embora eu não consiga imaginar que tipo de conservação um jazigo possa precisar.

Como o ilustre alcaide conta com folgada maioria na Câmara de Vereadores – 27 dos 35 representantes do povo de Goiânia – não terá a menor dificuldade em aprovar essa lei escabrosa. De acordo ainda com O Globo, em 20/12/2008, a assessoria do prefeito declarou que a taxa é necessária à manutenção e à extensão dos serviços. Mais do que isso: segundo Walter Pereira, o novo tributo ajudará a manter em bom estado os túmulos de famílias que não podem pagar pela manutenção.

Eu só fico imaginando o que seja essa tal de “manutenção de túmulos”. Será que se trata de limpar titica dos pombos, lavar as lápides com um bom sabão? Será que túmulo se deteriora com o tempo? Confesso que não sei o que vem a ser um “túmulo em mau estado”, a menos que seja saqueado por ladrões em busca de dentes de ouro, coisa, aliás, que há muito saiu de moda. Nem bicheiro usa mais, a não ser nos romances e peças de Nelson Rodrigues.

A oposição, embora minoria irrisória, protestou alegando que o referido tributo é ilegal, uma vez que não consta do contrato com os cemitérios. Já o Presidente da Comissão Permanente dos Serviços Funerários, vereador Anselmo Pereira (PSDB) manifestou seu bom humor ao declarar: “A sociedade não suporta mais taxas abusivas. Se o projeto for aprovado, a pessoa terá que pagar pelo resto da morte”. E se a pessoa resolver não pagar? Que fará a prefeitura? Despejará o defunto?

Não parece que a prefeitura pretenda despejar os que já estão lá, mas parece que pretende cassar o direito de propriedade de futuros ocupantes de túmulos vazios, quer dizer: pessoas que compram sua última morada tendo a intenção ocupar a mesma num futuro próximo ou distante. Ao menos é o que se pode depreender da matéria de O Globo:

“Ele [o projeto da prefeitura] não estipula punição para inadimplentes. Porém permite que os cemitérios executem judicialmente as famílias devedoras que poderão perder o direito aos jazigos, abrindo a possibilidade para que sejam novamente comercializados”. Ora bolas, é de se supor que o proprietário de um jazigo já pagou - e não pagou pouco! - pelo mesmo. Sendo assim, o que quer o ilustre alcaide, que o dono do jazigo continue pagando pelo mesmo?!

Lembra o referido vereador da oposição que a prefeitura e os donos dos cemitérios já faturam com a venda de carneiros, serviços funerários, estacionamento e aluguel de sala para velórios. Além disso, um terreno num cemitério público em Goiânia custa em média R$1.250,00 e nos particulares esse preço é ainda maior variando conforme o tamanho e a localização da área.

Mas o gerente do cemitério Jardim das Palmeiras não se deu por vencido: aprovou a medida da prefeitura nos seguintes termos: “Aqui é um condomínio como outro qualquer. Não dá para administrar 15.000 jazigos sem verba.” Ora, se este é o caso por que não aumenta o preço dos terrenos e dos jazigos? Ou então muda de ramo para um negócio mais rendoso, desde que não levado à cabo ao arrepio da lei?! 

Quinta, 08 Janeiro 2009 21:00

É Titica à Brasileira!

O Brasil real é um país cristão em que o povo é humano e solidário. Isto é que é ética. Ou é titica?

Recentemente, no interior da Bahia, foi descoberto que em cerca de vinte municípios suas excelências os prefeitos dos mesmos desviavam dinheiro da merenda escolar. Mata o velhote e ainda chora copiosamente no velório? Não, isto é coisa da Flora de A Preferida, novela da Globo, pura ficção. O Brasil real é um país cristão em que o povo é humano e solidário. Isto é que é ética. Ou é titica?

O referido episódio é episódico: não pense o amigo que se trata de uma prática comum na terra de Tuninho Malvadeza, Pópó e Pai Juca de Oxóssi: costuma ocorrer em todo o território nacional do Oiapoque ao Chuí, embora, a bem da verdade, seja evento assaz infreqüente.

Abro o Jornal do Commercio, em16/12/2008, e leio: “Soldados do exército designados para ajudar as vítimas da chuva em Santa Catarina foram flagrados ao desviar roupas doadas pela população de todo o país da central de distribuição em Blumenau.” [E os doadores devem ser considerados otários? Não, os surrupiadores é que devem ser considerados salafrários!]. “Voluntários também foram filmados ao selecionar e furtar objetos do local.” Como se pode depreender, é uma grande inverdade dizer que o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo. O promulgador da Lei de Gerson - Gerson, o Canhotinha de Ouro - estava redondamente equivocado.

“Uma câmera escondida da RBS TV (afiliada à Rede Globo) gravou militares, alguns sem camisa, descarregando um caminhão com doações para Blumenau e cidades vizinhas. Enquanto uma parte jogava e chutava roupas para fora do veículo, outra abria caixas e sacolas. __ Que tu vai fazer com esse sutiã aí, velho?, perguntou um militar para um colega. __ Eu vou dar pra minha mãe, respondeu. Em seguida, outro comenta que levará um dos produtos da central para a namorada.” E ainda costumam dizer por aí: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. Que expressão chula, maldosa e inteiramente despropositada!

(...) “As gravações ocultas também flagraram um grupo de mulheres que carregava sacolas e recolhia produtos para levar para casa. __ Tem coisa boa. Esse aqui eu vou levar para meu guri”, disse uma mulher que segurava um par de tênis. [E ainda vimos e ouvimos no Jornal da Globo outra moçoila dizer: __ Bá! Esse não serve! Tá com a sola descolada!]. O grupo chegou a ser repreendido por uma mulher, que presenciava indignada a rapina __ Aqui não é mais para mexer nas roupas, disse ela. __ Isso aqui é para quem não tem dinheiro para comprar. A gente tem que dar graças a Deus que tem saúde para trabalhar e comprar.” Como vemos, havia uma, e somente uma nota em dissonância com o acorde formado por muitas. Mas uma andorinha só não faz verão!

“Outras imagens mostravam uma voluntária saindo do centro de distribuição com um carrinho de supermercado lotado de produtos, que foram levados até o carro. Um homem se aproximou dela em seguida com outros produtos. Eles encheram o porta-malas do veículo.” Será que era a primeira viagem ou já tinham feito meia dúzia de carregamentos?! Cesteiro que faz um cesto faz um cento.

Acrescenta ainda a referida matéria que, diante da bela demonstração de sólida eticidade em Blumenau, o comandante da 14.a Brigada de Infantaria Motorizada disse que afastou 13 militares da operação de auxílio às vítimas, que foram transferidos para funções administrativas. Se foi aplicada alguma forma de punição a esses soldados, violadores do código de conduta militar, a reportagem nada disse nem desdisse. Mas esclareceu que a polícia civil de Santa Catarina está investigando o envolvimento de voluntários no referido desvio de bens. [Voluntários, não por altruísmo, porém por frio oportunismo].

“Temendo que o flagrante desmotive futuras doações – inclusive de dinheiro – o secretário estadual de Justiça e Cidadania, responsável pela Defesa Civil, disse que haverá um controle sério e que as pessoas podem ficar tranqüilas.”

Disto se pode inferir – e com muito boa lógica - que o próprio secretário admite que, até então, não havia um “controle sério”. E você acredita que, após as supimpas demonstrações de sólidos princípios éticos, haverá de fato?

Certo estava o general De Gaulle: “Le Brésil n’est pas un pays sérieux” (tradução: “O Brasil não é um país sério”). E ainda há quem ache que o saudoso Nelson Rodrigues estava expressando uma hipérbole literária quando afirmou: “No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte”. “No Brasil, todo mundo é Peixoto” (canalhão de Bonitinha Mas Ordinária).

Enquanto isso, o índice de popularidade de Lulla cresce mais do que a prole de Aedes Aegypti - o popular Dengue - no Méier, a Rainha do Subúrbio. Brevemente, o temível inseto - cuja picadura faz qualquer um ficar dengoso - estará no Rei da Orla Marítima: o Leblon. 

Segunda, 28 Janeiro 2008 21:00

O Que é Iluminismo? - Parte II

Se Leibniz não pode ser considerado um pensador afinado com os ideais iluministas, muito menos ainda Wolf cujo principal mérito parece ter sido o de produzir uma sistematização do pensamento leibniziano.

Se Leibniz não pode ser considerado um pensador afinado com os ideais iluministas, muito menos ainda Wolf cujo principal mérito parece ter sido o de produzir uma sistematização do pensamento leibniziano, gerando na Prússia o que ficou sendo conhecido no século XVIII como “pensamento leibniz-wolfiano” e passou a constituir o currículo oficial das universidades na época. De acordo com F. Jodl (195l, p.376), Wolf “não formulou um só ponto de vista novo” e, além disso, “atacava o que considerava o livre pensamento absurdo dos ingleses e franceses” (Jodl, 1951, p.377). Diante disto, resta-nos tão-somente examinar o caso de Kant.

Contudo, é imprescindível assinalar que, diferentemente de Leibniz, Kant não tinha a menor ligação com a metafísica e a teologia católicas, porém uma estreita relação com a visão de mundo protestante, coisa que se revela claramente na dimensão da razão prática em que ele não só sofreu nítida influência do luteranismo, como também estabeleceu um diálogo com Locke e Rousseau (ambos filósofos filiados ao protestantismo).
Desse modo, contrariando à maioria dos historiadores das idéias que costuma situar Leibniz, Wolf e Kant como as três grandes figuras da Aufklärung, temos boas razões para manter o nome de Kant e substituir os dois primeiros por Martinho Lutero (1483-1546) e W. von Humboldt (1767-1835). Lutero é o grande precursor, Kant é a gigantesca figura que projeta uma grande sombra sobre seus contemporâneos na Prússia , ao passo que W. von Humboldt - não J.G.Fichte (1762-1814) - o mais ilustre herdeiro do pensamento liberal kantiano. Seu livro sobre os limites da ação do Estado - Ideen zu einem Versuch die Grenzen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen - traduzido para o inglês como The Limits of State Action (Humboldt, 1969) exerceu uma influência considerável sobre On Liberty de J.S.Mill (l967) no século XIX.

Urge estabelecer as diferenças para que nosso ponto de vista não seja mal compreendido. Lutero foi um grande líder religioso que, por circunstâncias relativas às suas tomadas de posição radicais, acabou se transformando, malgré lui, em um líder político. Kant, por sua vez, não pode ser considerado nem uma coisa nem outra, pois foi o filósofo por excelência, um dos mais importantes da sua época e de todas. Contudo, suas ênfases no imperativo categórico (consciência moral do dever) e na autotelia (autodeterminação dos indivíduos) revelavam claramente uma influência direta do pietismo e indireta do luteranismo.

Diferentemente de Leibniz e Wolf, Kant não pode ser considerado um apologista do status quo. Quando, já no fim da sua vida, em 1793, ele publicou seu opúsculo Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft (A Religião nos Limites da Estrita Razão), o rei da Prússia, Frederico Guilherme II, que não fazia questão de ser considerado tolerante como Frederico II, ordenou a seu Ministro da Educação, Wöllner, a escrever para Kant na longínqua Königsberg persuadindo-o a fazer a promessa de não escrever mais sobre assuntos religiosos. Kant não só fez como cumpriu a referida promessa.

Desse episódio, pode-se inferir que o pensamento religioso de Kant tinha perigosas ressonâncias políticas, pois, supondo que não as tivesse, não teria perturbado tanto um soberano absolutista, assim como no século XVII o pensamento científico de Galileu havia perturbado bastante o papado, coisa que o levara a uma humilhante retratação como alternativa para o destino do desditoso Giordano Bruno (1548-1600), condenado pelo Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, à morte “sem derramamento de sangue”, ou seja: à fogueira.

Como vemos, trata-se de um estilo diferente do praticado pelos jacobinos na Revolução Francesa, que resolveram adotar o humanitário invento do médico J. Guillotin. Malgrado este mesmo invento não poder evitar o horripilante espetáculo produzido pela abundante vazão do rubro e precioso fluido vital - coisa abominável aos olhos da Inquisição - podia proporcionar a inegável vantagem de uma morte instantânea e indolor.
Assim como não devemos pensar que Kant tenha sido um conservador como Leibniz, também não devemos pensar que tenha sido um irreverente contestador como Voltaire. Digamos que é mais acertado situá-lo a meio caminho entre ambos. Como veremos mais adiante, o contexto político da Prússia ao longo do século XVIII não incentivava nenhum tipo de participação política: os reis não costumavam procurar filósofos para receber assessoria, preferiam mantê-los encastelados nas universidades. Mas há que considerar também o próprio temperamento de Kant, que não possuía as ambições de poder e prestígio de Leibniz e Bacon, tampouco o notório mau caráter deste último. No entanto, apesar de ter se mantido afastado da Realpolitik, Kant não se mostrou de nenhum modo indiferente à vida pública e às grandes concepções da teoria política.

É sempre oportuno ter em mente que, entre as posturas hiperconservadoras e hiper-revolucionárias, abre-se uma gama de matizes e mediações, assim como entre as chamadas “esquerda” e “direita”, que não devem ser tomadas como meras rotulações desprovidas de sentido, mas devem ser avaliadas com bastante ponderação, de modo evitar juízos simplistas e maniqueístas (Bobbio, 1994. Maciel de Barros, 1992, pp.1-42). Apesar de concordarmos com as teses gerais de G. Gusdorf sobre o Iluminismo, a revolução francesa e a revolução americana, não podemos concordar com o particular juízo, feito surpreendentemente por ele, em relação aos iluministas franceses.

Quando Diderot empreendeu sua viagem à Rússia, não o fez para apoiar a ação dos sovietes de operários e camponeses, mas para conversar em intimidade com a impera-triz que o cobriu de ouro. Os filósofos franceses não contestavam os reis, eles os bajulavam. Mesmo pessoas como Mably, o cura Meslier e o padre Raynal, assim como os riquíssimos Helvetius e d’Holbach, apesar da liberdade que às vezes se encontra em suas idéias, eram partidários da ordem estabelecida. Especulavam escrevendo, mas as construções teóricas bastava à felicidade deles. ( Gusdorf, 1993, p.37, os grifos são nossos).

Há algo de despropositado e canhestro na passagem acima. De saída, é preciso ser dito que Diderot não falava russo, assim como camponeses e operários russos no século XVIII não falavam francês - língua somente falada pela aristocracia em que se encontrava a própria Imperatriz como déspota esclarecida. Se por acaso Diderot tivesse feito o que sugere Gusdorf, poderia ter se deparado com a mesma insólita e quixotesca situação de Che Guevara na Bolívia - cercado de índios e mestiços que só falavam quéchua e aimara, e que estavam muito mais interessados em mascar folhas de coca para tapear a fome do que em fazer a revolução do proletariado.

Dizer que os philosophes “eram partidários da ordem estabelecida” e bajuladores das cabeças coroadas é sob certo aspecto um rematado exagero e sob outro uma generalização abusiva. As relações entre os intelectuais e o poder sempre foram extremamente complexas e delicadas e, no que se refere particularmente aos mencionados philosophes, adquirem uma considerável gama de matizes sutis. Diderot, por exemplo, foi preso diversas vezes por ter violado às rígidas leis de censura, e evidentemente isto não ocorreu por ele ter injuriado o rei em praça pública, tampouco por ter escrito historinhas pornográficas para o bas fond parisiense.

Montesquieu poderia ser considerado partidário da ordem estabelecida, mas da ordem estabelecida na Inglaterra com uma monarquia constitucional e um autêntico parlamento, não da estabelecida na França absolutista dos Bourbon. Voltaire costumava bajular a aristocracia em suas peças de teatro, mas a espezinhava impiedosamente nos seus contos e ensaios publicados anonimamente, para fugir das malhas das censuras real e eclesiástica. Contudo, mesmo no palco voltairiano ficava às vezes difícil determinar se um desabrido elogio não estava envenenado com a peçonha da ironia e se o que se apresentava era para ser tomado em um sentido literal ou simbólico. 

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