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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Sexta, 30 Dezembro 2005 21:00

América Latina: O Continente Perdido

Como os demais populistas latino-americanos, Luiz Inácio elegeu um inimigo, os Estados Unidos; brada contra um liberalismo ou neoliberalismo inexistente; optou claramente em política externa pelo atraso.

O ano de 2005 passará à história como o ano da vergonha nacional, em que pese o tom triunfante do presidente da República. Já vai cansando sua verborragia populista, o recurso de por a culpa de seus próprios erros no governo passado como se governasse pelo retrovisor, a deturpação de dados, a propaganda enganosa que recrudesce na obsessiva campanha da reeleição.

Os sentimentos de vergonha e de frustração são, inclusive, pertinentes aos petistas românticos que acreditavam em uma espécie de ideologia mística; aos simpatizantes do “pobre operário de esquerda” que embarcaram na teoria da vitimização; aos tradicionais grupos de interesse que sempre apoiaram o PT ou mesmo ajudaram a gerá-lo, como parte da Igreja católica; aos movimentos sociais que esperavam as prometidas mudanças radicais e se vêem diante de caridades oficiais, como o Programa Bolsa Família que sucedeu ao fracassado Fome Zero.

Satisfeitos apenas os companheiros beneficiados pelo loteamento estatal, os banqueiros com seus lucros astronômicos, os investidores de curto prazo. E, naturalmente, existem os fanáticos, sempre dispostos a bater bandeira nas ruas e a pagar os dízimos que sustentam a doce e rica vida dos dirigentes. Como beatos cegos pela fé eles repetem em forma de mantra o que lhe foi inculcado: a culpa de tudo vem desde Cabral, provém dos Estados Unidos, origina-se do neoliberalismo, decorre da herança maldita. Nós, os puros, nunca erramos, corrompemos, mentimos. Nossos crimes não passam de faltas leves. Cremos em nosso líder todo-poderoso, criador da igualdade social, na comunhão dos companheiros, na remissão pelo socialismo, na ressurreição do petismo, amém. E essa cantilena irracional é destilada não tanto pelo homem comum, desinformado ou mesmo analfabeto, mas por expoentes de nossa intelectualidade universitária que, não tendo como defender o indefensável se calam de forma vergonhosa, sendo que deveriam ser os primeiros a denunciar os fracassos desse governo, sua corrupção deslavada, suas notórias mentiras.

O senhor presidente afirmou que caixa dois não tem importância porque todo mundo pratica esse crime. Ele nega o “mensalão” mesmo diante da avalanche de pistas, testemunhas e provas acumuladas. Esquiva-se de suas responsabilidades dizendo que nada sabia sobre as maracutaias cometidas por seus companheiros mais antigos e íntimos. Vangloria-se da macroeconomia que de forma ortodoxa foi copiada do governo anterior. A macroeconomia seria o grande trunfo eleitoreiro num período bafejado pela calmaria internacional. Mas que êxito é esse, se em 2005 ficamos em termos de crescimento na rabeira dos países emergentes, incluindo os da América Latina?

 Com todo nosso potencial, nosso tamanho, nossas riquezas naturais, o esforço da iniciativa particular que fez deslanchar as exportações, só conseguimos empatar com o crescimento de 2,5% de El Salvador e ficar acima do miserável Haiti que registrou aumento de 1,5% no seu Produto Interno Bruto (PIB).

O governo do PT, que a todo custo tenta se manter no poder, deixará atrás de si um rastro de destruição econômica, social e moral, que talvez só possa ser resgatada, se o for, por gerações. Note-se, por exemplo, como sobre a égide do lulismo-petismo o Legislativo se corrompeu ainda mais e o Judiciário, através de sua instância mais alta, o Supremo Tribunal Federal (STF), se politizou e se pôs a serviço do Executivo e não da execução da Lei. Em suma, o governo do PT está fazendo do Brasil um país ainda menos civilizado e não passa de conversa mole essa de que nossas instituições estão sólidas, pois não contamos com partidos oposicionistas para valer, com legisladores sérios nem com aplicação justa das leis.

Enquanto navegamos nas águas turvas do atraso e da corrupção vemos a América Latina mergulhar numa onda de governos populistas, ditos de esquerda, que juntamente com o ditador cubano Fidel Castro são exemplos para nosso governo. Este, em vez da propalada liderança, serve apenas para suprir os países vizinhos com recursos e obras por nós custeadas.

O continente retrocede sob a égide de Hugo Chávez, Evo Morales e outros mais, e como tão bem afirmou o escritor argentino, Marcos Aguinis, em entrevista ao Estado de S. Paulo (25/12/2005): “As receitas populistas sempre terminaram mal. Não conseguem evitar a corrupção, o autoritarismo, a cultura da esmola”.

Como os demais populistas latino-americanos, Luiz Inácio elegeu um inimigo, os Estados Unidos; brada contra um liberalismo ou neoliberalismo inexistente; optou claramente em política externa pelo atraso. Caso consiga ser reeleito, utilizando para tanto a propaganda enganosa e a máquina estatal, estaremos condenados a perpetuar o característico fracasso desse continente perdido chamado América Latina. A escolha é nossa.

Sexta, 16 Dezembro 2005 21:00

Sinais Particulares

Por inaptidão, despreparo ou falta de vontade, o presidente Luiz Inácio é a perfeita ilustração da música que ele mesmo disse gostar, e que parece ter adotado como hino particular: “Deixa a vida me levar”.

Por inaptidão, despreparo ou falta de vontade, o presidente Luiz Inácio é a perfeita ilustração da música que ele mesmo disse gostar, e que parece ter adotado como hino particular: “Deixa a vida me levar”.  Mas enquanto Sua Excelência leva a vida, que certamente não quer largar de jeito nenhum (tão-pouco seus companheiros de alto escalão acostumados às doçuras, privilégios e bem-aventuranças comuns aos donos do poder), sinais particulares vão surgindo nitidamente no quadro político do momento. Sem nada a ver com infâmias, como gosta de dizer o presidente que sempre se coloca no papel de vítima, esses sinais agourentos para ele são decorrência de um processo, onde se acumularam de forma desmedida a incompetência e a ganância do modo petista de governar.

Os maus agouros surgiram claramente nas últimas pesquisas, e em que pese essas sondagens de opinião muitas vezes não serem confiáveis, traduzindo modos camuflados de propaganda ou a falsa certeza dos números, não devem ter agradado à atual corte brasiliense.

Conforme pesquisa CNI/Ibope, divulgada em 14/12, adversários do PSDB, partido que Luiz Inácio mais detesta e teme, vão se posicionando favoravelmente. José Serra ganha no segundo turno por folgados 13 pontos porcentuais e Geraldo Alckmin já está empatado tecnicamente com o eterno candidato presidencial que começa a se ver reduzido aos seus tradicionais 30%, porcentagem de votos que lhe ocasionaram três derrotas seguidas.

O grande fenômeno eleitoral da pesquisa é o governador de São Paulo, que saiu de um dígito para ascender rapidamente nas intenções de votos. O argumento de que não é conhecido não é tão importante. Naturalmente Serra é mais conhecido porque chegou ao segundo turno das eleições presidenciais passadas. Mas o palanque eletrônico da TV rapidamente garantirá a visibilidade necessária a Geraldo Alckmin, caso seja ele escolhido como candidato do PSDB. Calmo, articulado, dando demonstrações reais de competência em sua trajetória política, elegante e sóbrio, ele apresenta um contraste estonteante com o candidato à reeleição. E como tudo nessa vida cansa, pode ser que o povo queira agora algo diverso do que elegeu em 2002. Mesmo porque, a pesquisa CNI/Ibope mostra que hoje são apenas 43% os que confiam no presidente, contra os 76% que confiavam em junho de 2003. Os que não confiavam naquela época eram apenas 19% e agora chegam a 53%.

Para piorar, a pesquisa indicou que a reprovação popular incidiu justamente em áreas nas quais Luiz Inácio se gaba de ser um condutor genial. Reprovaram o combate à pobreza 50% dos entrevistados, contra 46% que aprovaram. Programas de educação e saúde: 48% reprovaram e 47% estão satisfeitos. Segurança pública: 65% reprovaram e apenas 29% aprovaram. Combate à inflação: 54% estão insatisfeitos contra 37% de satisfeitos. Taxas de juros: 63% reprovaram e 25% aprovaram. Combate ao desemprego: 62% reprovaram e 34% aprovaram. Impostos: 69% criticaram contra 23% que aprovaram.

É também sinal particular significativo o resultado de uma pesquisa da GlobaScan, divulgada na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Hong Kong. A sondagem que ouviu 20 mil pessoas em 20 países mostra que o Brasil foi o país em que o governo mais perdeu prestígio diante de sua população, na comparação com outros 14, nos últimos 12 meses.

Além das análises quantitativas, há certos sinais particulares importantíssimos que incidem sobre aspectos qualitativos. Por exemplo, O Estado de S. Paulo, de 15/12, trouxe duas notícias que demonstraram a insatisfação de duas instituições que, através de nossa história, quando desfavoráveis ao governo o colocavam em sérias dificuldades: a Igreja Católica e as FFAA. Portanto, mesmo sem o poder de outrora, é significativo o fato dos bispos do Brasil, segundo o jornal citado, terem ido recentemente se queixar ao Papa com relação às políticas sociais do governo Luiz Inácio. Recorde-se que o PT é filho dileto da Ecclesia e sempre contou com seu apoio.

Em outra página, o comandante do Exército, General Francisco Albuquerque, reclamava entre outras coisas de que os militares não estão conseguindo fazer as três refeições por dia.

Analistas e adeptos do governo petista falam que Luiz Inácio pode reverter o quadro. Ele possui a máquina estatal que é pródiga em benefícios e caridades oficiais quando interessa. Talvez isso aconteça, pois em política os cenários mudam rapidamente e o PT no poder acostumou-se a comprar tudo e todos. Mas que os sinais particulares do momento estão adversos, marcantes e pressagiadores de derrota para o PT, isso lá estão.

Domingo, 11 Dezembro 2005 21:00

Sob o Comando de Hugo Chávez

O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco.

No primeiro ano de seu mandado, o presidente Luiz Inácio aparecia como líder triunfal de esquerda não só do Brasil, como da América Latina. Além disso, ele se colocava para o mundo como um fenômeno capaz de impressionar os Estados Unidos e a Europa.

Em parte essa imagem foi ardilosamente construída pela propaganda, em parte pela ambição de poder do PT que se reveste da característica paranóica tão bem analisada por Elias Canetti. O autor mostra, entre outras coisas, em sua obra-prima “Massa e Poder”, que o paranóico trata sempre de defender e assegurar para si uma posição exaltada, importante, e que o poderoso também possui esse sentimento.

Essa análise se encaixa bem nesse governo transparecendo, inclusive, nas constantes viagens internacionais nas quais do presidente da República. Ele partia cercado de grandes comitivas, sendo divulgados para uso interno grandes pompas, honras, elogios e sucessos obtidos por nosso mais alto mandatário. Com tal estratégia se pretendeu também manter a alma nacional otimista e imersa em ufanismo. Isso apesar da péssima política internacional do governo petista, mergulhada em visão ideológica terceiro-mundista e que trouxe conseqüências econômicas duvidosas ou desastradas como, só para citar um exemplo, o grande negócio da China que agora está provocando temores de empresários e demissões de trabalhadores.

Qualquer alusão a esta realidade é tida como preconceito ou conspiração contra o pobre operário, que vive como um emir, simula governar o país e só aceita boas notícias. E aqui também aparece o traço paranóico do poder relativo às conspirações. Como mostrou Canetti na obra citada: “As conspirações ou conjurações estão na ordem do dia para o paranóico. Ele se sente cercado. Seu inimigo principal jamais se contentará com atacá-lo sozinho. Sempre procurará atiçar sobre ele uma malta odiosa, soltando-a no momento exato”. De certo modo isso também explica porque José Dirceu sempre fala em conspirações da oposição – que de fato não existe – e na necessidade de reagir a ela jogando na rua os movimentos sociais para defender o injustiçado presidente da República. Por movimentos sociais referidos por José Dirceu entenda-se o MST, a CUT e a UNE, todos devidamente pagos pelo governo do PT segundo se tem mostrado na imprensa.

Mas se agora as viagens internacionais não podem ser mais tão constantes, pois o presidente, em franca campanha de reeleição precisa viajar pelo Brasil fazendo inaugurações mesmo das obras de seus predecessores, pelo menos sua influência no Mercosul deveria existir visto que somos a maior economia da região. Mas nem isto está ocorrendo. O Brasil vem se curvando às imposições comerciais da Argentina e para agravar a situação, a partir da 29ª Cúpula do Mercosul, em Montevidéu (Uruguai), quando se consuma a entrada da Venezuela como quinto sócio do bloco, o Brasil poderá se ver na situação de apenas assumir os custos de projetos comuns e de se submeter às lideranças reunidas por interesses econômicos, como as de Nestor Kirchner e Hugo Chávez.

Sobre essa hipótese de subalternidade ainda não se levantou no Brasil nenhuma voz nacionalista, seja de direita, seja de esquerda. Aqui se prefere o pseudo-democráta Chávez ou ditador Fidel de Castro, mas não se admite nossa participação na Alca.

Sobre esse aspecto de xenofobia antiamericanista, Chávez é um sucesso e já proclamou: “Nosso destino é o mercado comum do Sul e isso é anti-Alca”. Essa fala demagógica extasia seus deslumbrados seguidores e admiradores como os integrantes das Farc, do MST, notadamente seu líder João Pedro Stédile, e governadores como Roberto Requião, do Paraná, que como homem de esquerda adora também as delícias de Paris. Até entre os norte-americanos menos aquinhoados pela prosperidade Hugo Chávez tem se intrometido para seduzi-los com promessas de benefícios. Enfim, o presidente venezuelano lidera espetacularmente o atraso latino-americano que inclui o isolamento da região e caminha na contra-mão da globalização tida como um dos males mundiais.

Tratando de armar-se até os dentes e com sonhos atômicos povoando sua mente também paranóica no sentido do poder, Chávez, que acaba de ganhar uma eleição na qual mais de 75% dos eleitores não votou, dá sinais de que não deixará o poder tão cedo. 2030 já é seu novo marco temporal de permanência no cargo. Afinal, o caudilho venezuelano já dominou os Poderes Legislativo e Judiciário, portanto, governa impávido o país a partir apenas do Executivo. Diga-se de passagem, que tal modelo também norteia o governo petista de Luiz Inácio, mas ainda não foi alcançado em plenitude apesar da politização do STF e do funcionamento dos mensalões na Câmara de Deputados no primeiro ano de mandato.

O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco. Mas enquanto a economia brasileira dá sinais de retrocesso e o país se encontra mergulhado em corrupção jamais vista, a propaganda tentará fazer crer que Luiz Inácio é o grande líder de esquerda da América Latina, quiçá do mundo. Muita gente ainda acreditará nisso.

Terça, 06 Dezembro 2005 21:00

Bengaladas Cívicas

Implacável com adversários, mão de ferro no governo, arrogante quando detinha poder, defensor no passado de CPIs, Dirceu alega que sua cassação foi fuzilamento político.

A cassação do ex-todo-poderoso José Dirceu, que finalmente aconteceu depois de longos e enjoativos malabarismos jurídicos, representou considerável derrota do presidente da República e maior desmoralização de seu partido, o PT. E ainda que se diga que a Luiz Inácio interessava a queda do companheiro, como meio de livrar a própria pele e atenuar a crise política em que seu governo se encontra imerso desde muitos meses, o fato é que o presidente se desgasta ao perder seus homens fortes, invariavelmente acusados de corrupção. Além do mais, apesar da corrupção ser antiga e endêmica no Brasil, jamais a história havia registrado tal magnitude de amoralismo nos meios governamentais. A sensação é que se perdeu completamente a compostura, a vergonha e um mínimo de senso moral, prevalecendo de modo desmesurado o vale tudo do poder.

Sem ser orador brilhante ou líder carismático, aquele que já foi chamado de primeiro-ministro tentou e continuará tentando passar a impressão de que nada fez de errado. Ao contrário, é um pobre coitado, um humilde, um inocente. Obstinado em se colocar como vítima, Dirceu, de certo modo promovido a herói em biografia levada ao ar pela TV Globo, diz que vai processar o escritor paranaense, Yves Hublet que no Congresso lhe desferiu três bengaladas cívicas. Tal vingança do ex-camarada Daniel (codinome de José Dirceu) parece excessivo e o tornará figura ainda mais execrada pela sociedade. Mesmo porque, as bengaladas de Hublet traduziram simbolicamente o grito de “fora Dirceu”, o que deixou lavada a alma de muitos brasileiros. Desse modo, tal atitude do agora também ex-deputado só faz confirmar sua prepotência, sua alma de ditador, sua intolerância stalinista, sua personalidade rancorosa.

Implacável com adversários, mão de ferro no governo, arrogante quando detinha poder, defensor no passado de CPIs, Dirceu alega  que sua cassação foi fuzilamento político. Contradição de quem chora nas barbas do ditador Fidel Castro e que deve ver no paredão cubano uma forma democrática de se fazer justiça, ou que fuzilou sem piedade companheiros dissidentes agora reagrupados no PSOL.

José Dirceu, que já teve outros nomes e outra cara, apesar de chamar a imprensa de partidarizada, foi brindado com a chance de uma entrevista coletiva devidamente televisionada, proeza que nenhum cassado havia conseguido. Muito à vontade ele usou a velha tática esquerdista de transformar derrota em vitória, de deturpar fatos e abusar de inverdades. Alegou falta de provas no seu julgamento, no que foi posteriormente secundado pelo companheiro presidente da República, que tardiamente veio em sua defesa.

Em todo caso, causa novamente estranheza que Luiz Inácio nada soubesse acerca do comportamento de um de seus auxiliares mais diretos, o conselheiro dileto, o companheiro mais antigo e chegado que lhe poupou a pesada tarefa de governar para qual não está habilitado. Daí a necessidade do presidente dizer: “não há provas contra Dirceu”. Assim, eximem-se todos de todas as culpas.

Mas será que faltam provas contra Dirceu? Segundo o senador Álvaro Dias, “como não existem provas, se José Dirceu está no epicentro da crise? E o esquema de Santo André, em que o dinheiro da propina era transportado para São Paulo e entregue para Dirceu? Com Waldomiro Diniz, a figura emblemática de Dirceu também apareceu, assim como nas negociações com os bancos BMG e Rural, em que se fraudava a contabilidade para registrar empréstimos que não ocorreram”.

Por outro lado, há um fato bastante intrigante que funciona como espécie de auto-atestado de culpa: José Dirceu deixou o importante cargo de ministro da Casa Civil em obediência a ordem de Roberto Jefferson: “sai daí rápido”. Se era tão inocente, por que agiu assim?

Em meio à crise política, que está longe de arrefecer mesmo com a retirada de cenário daquele que foi chamado de chefe do mensalão, esboça-se agora a crise econômica, setor do qual o governo vem se vangloriando. A má notícia surgiu com a inesperada queda de 1,2% do PIB no terceiro semestre. Com isso as projeções para o crescimento em 2005 caíram de 3% para 2,5%, o mais baixo entre os países em desenvolvimento. À luz desse fato recrudescem as discussões entre empresários e governo, e são refeitos cálculos dos economistas que erraram feio em suas projeções. A sensação é de que o governo começa a ficar aturdido em que pesem os discursos que, distantes da realidade, seguem a linha das boas notícias. No ano que vem certamente virão as bondades lulianas de campanha para a conquista da reeleição. Mas qual será de fato o preço pago pela sociedade para manter Lula lá? Esse PT no poder é de dar medo.

Sábado, 26 Novembro 2005 21:00

Mixórdia Brasil

Ao chegar ao topo do poder o PT instalou no Brasil a mais incrível mixórdia já registrada em toda nossa história.

Ao chegar ao topo do poder o PT instalou no Brasil a mais incrível mixórdia já registrada em toda nossa história. Isso porque, acostumados a militarem na oposição, os petistas são governo que não sabe governar.

 Exemplo disso se constata no próprio presidente Luiz Inácio, que parece ser incapaz de dirigir uma repartição pública. Homem de muita sorte, mesmo sem condições para exercer o cargo que ora ocupa obteve sucesso apelando ao símbolo operário, algo de efeito emocional e calcado nos recuados tempos em que seu partido surgiu de forças sindicais.

 Mesmo tendo trabalhado apenas por breve período, Luiz Inácio se apresenta, e é apresentado pela chamada esquerda (essa mixórdia ideológica cujos adeptos agem como direita e vivem como burgueses) como o pobre e injustiçado proletário, o que pretende também significar para efeitos de sedução populista o defensor de seus supostos iguais fracos e oprimidos.

Contradição ambulante que atinge seu paroxismo na farsa, Luiz Inácio, sempre se dizendo o torneiro mecânico que não é mais, encena a pantomima em que surge como paladino de uma hipotética luta de classes. Vestido como patrão, usufruindo as delícias da burguesia, os privilégios da corte, os luxos palacianos, ele simula ser o coitadinho perseguido pelas malvadas elites que, na verdade, ajudaram sua ascensão ao poder e nele o sustentam.

Em que pese a última pesquisa da CNT/Sensus, divulgada em 22/11, que aponta para expressiva queda de popularidade do presidente, uma porcentagem de crédulos – cada vez menor, é verdade – ainda não percebeu que o ídolo de pés de barro atingiu seu nível máximo de incompetência e, o que é pior, sustentou e sustenta junto a si ministros e assessores muito próximos sobre os quais pairam pesadas acusações de corrupção que lhes inviabilizariam a permanência no cargo não fosse o Brasil o país da mixórdia. Sem falar que em sua maioria os ministros são, por sua vez, inoperantes.

Espantosamente, esse presidente da República que em última instância é o responsável pela impressionante corrupção que grassa em seu governo, se apresenta feliz e risonho para a reeleição. A ele a ao seu partido (outra mixórdia onde predominam a falsa ética e a truculência oposicionista) interessa apenas a manutenção do poder custe o que custar e pelo maior tempo possível. Para tanto o PT supõe que basta cultivar o mito do eterno retirante para superar a realidade que afunda na sordidez das falcatruas e dos crimes acobertados pelo Legislativo, pelo Judiciário e por fortes interesses econômicos.

Mas se os atuais governantes não sabem governar, as oposições não sabem se opor. Sem partidos verdadeiramente oposicionistas se acentua a mixórdia. Vê-se, por exemplo, o PSDB proteger o PT do próprio PT sempre autofágico, no que conta com a ajuda do PFL, enquanto o PMDB utiliza sua tradicional estratégia de ser ao mesmo tempo oposição e situação.

No primeiro ano do governo Luiz Inácio, quando o Congresso foi quase dominado pelo Executivo a partir do modelo Hugo Chávez, o PSDB e o PFL, mesmo sem se venderem por mensalões foram os fiéis votantes das vontades governamentais a partir da postura de “oposições responsáveis”. E quem desenvolveu a tese de enfraquecer Luiz Inácio ao invés de pedir seu impeachment?” O cordato PSDB, que sempre demonstrou um amor não correspondido ao PT que, implacável, berrou durante oito anos “fora FHC”, e no poder tem clamado contra a herança maldita que lhe possibilitou o relativo sucesso na macroeconomia.

Somos faltos de oposição, exceção feita a certos parlamentares, e quando esta resolve assumir seu papel é crivada de críticas pela mídia. Na linha do bom-mocismo jornais passaram a acusar a cúpula do PSDB de “políticos de borduna”. E não faltam próceres desse partido que defendem o comportamento punhos de renda, como Aécio Neves que declarou: “não conseguiremos transformar o Lula em ladrão porque ninguém vai acreditar”. Será que não? O governador mineiro passa a impressão de que nada lhe agradaria mais do que ser o vice de Luiz Inácio na chapa da reeleição. E, afinal, no ano que vem a máquina do Estado jorrará de suas engrenagens a felicidade dos pobres com o aumento de esmolas governamentais que os deixarão mais pobres, os lucros dos ricos que ficaram mais ricos, enquanto as classes médias receberão alguns benefícios capazes de lhes despertar a gratidão que se externa em votos.

O PT tudo compra, tudo corrompe e na mixórdia Brasil, sem governo nem oposição, todas as surpresas, todas as malandragens, todas as iniqüidades, todas as hipocrisias são possíveis, pois acreditamos até em juiz de futebol ladrão.

Nada muda na espécie humana e pensando em 2006, meditemos sobre a frase proferida poucos anos antes de Cristo, na Roma Antiga, por Gaio Otávio, chamado de Augusto: “Cidadãos corruptos criam governantes corruptos, e é a turba que finalmente decide quando a virtude morrerá”.

Segunda, 14 Novembro 2005 21:00

A Exarcebação da Mentira

Mas acredito que perdemos a taça do festival de mentiras quando ouvi Fidel Castro dizer a Maradona, num programa de TV, que sofreu 600 atentados cometidos pela CIA.

Ao mentirmos nos isentamos de culpas e responsabilidades, criamos um mundo à nossa imagem e semelhança, pretendemos enganar aos outros e a nós mesmos. Mas para além das mentiras individuais, desde as mais grosseiras até as piedosas, a mentira trespassa todas as nossas instituições políticas e econômicas, e entranha nosso tecido social. E o que é pior, a mentira é bem aceita por nós. Como disse Otávio Paz, “a mentira política se instalou em nossos povos quase constitucionalmente e o dano moral tem sido incalculável, alcançando zonas muito profundas do nosso ser. Movemo-nos na mentira com naturalidade”.

Mas se todos os povos mentem existem países onde os poderes constituídos são mais respeitáveis que os nossos, que as atividades econômicas costumam se processar em níveis mais leais que nossas costumeiras práticas corruptas, que a confiança mútua é bem mais generalizada do que entre nós por força mesmo de outra formação cultural. O resultado disso se verá na estabilidade política, no notável desenvolvimento econômico, e aqui cito como exemplo os Estados Unidos, cuja mentalidade é bem diferente daquela dos latino-americanos o que inclui, é claro, a mentalidade brasileira.

Entretanto, nunca se mentiu tanto quanto agora. Avoluma-se de modo sem precedentes a mentira praticada pelo presidente da República e pelas mais altas autoridades do país. Mentem próceres petistas que se diziam exemplos de políticos éticos. Mentem depoentes nas CPIs e o último  a dar um show enojante de mentiras foi Vladimir Poleto, ex-assessor do ministro Antonio Palocci que por sua vez mente ao se esquivar das acusações de corrupção feitas por seus ex-homens de confiança com relação a sua administração como prefeito de Ribeirão Preto.

Nas CPIs a mentira é permitida legalmente por ministros do STF, que antes de tudo são companheiros do presidente, sendo que alguns devem à Sua Excelência a nomeação. Mente-se à vontade e os mentirosos não podem ser presos. Mas num país em que criminosos confessos são soltos, que a impunidade é a norma, o direito de mentir não parece chocar a sociedade que se move na mentira com naturalidade.

A questão é que estamos diante da exacerbação da mentira praticada pelos poderes mais altos da República que, se sempre mentiram, nunca mentiram tanto quanto agora. Pior, a mentira que contamina toda a estrutura governamental leva à completa imoralidade, à corrupção total da coisa pública, à eliminação de valores. Vale tudo. O PT, enquanto partido e enquanto governo, elevou a imoralidade no Brasil a um nível jamais visto.

Isso já era perceptível através da propaganda enganosa, engenharia da mentira brilhantemente construída por Duda Mendonça, aliás, um dos atuais desaparecidos do palco circense da mentira em que se transformou o País. Dados e estatísticas, que exaltam estrondoso êxito econômico, são mentiras revestidas da falsa verdade dos números. Bravatas lançadas pelo presidente da Republica, que se vangloria de um grandioso e fictício sucesso, compõe a mentira demagógica. E sua última entrevista, gravada, ensaiada, coreografada e exibida no circo eletrônico da TV, não me deixa mentir.

A mentira nesse momento da vida nacional levou ao apogeu o cinismo. Isso é visível quando o ex-ministro, José Dirceu, diz calmamente, e em tom de vítima, “sou Inocêncio”. Quando o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, debocha da sociedade com seu eterno riso de felicidade e mente sob cobertura judicial relativizando o caixa dois, o mensalão e outros crimes classificados por ele como piada de salão que será facilmente esquecida. Quando Marcos Valério, o office-boy de luxo da lavanderia do PT, nega seus crimes com aquele sorrisinho de Mona Lisa. E esses são apenas uns poucos exemplos de mentirosos.

Em meio à mentira exercida sem escrúpulos pelo presidente da República e por eminentes petistas (relembre-se José Genoino) se estabelece a amnésia. Ninguém viu nada. Ninguém sabe de nada. São todos “inocêncios”. E quando o presidente Luiz Inácio admite pela primeira vez que é responsável por seu governo, mas que sua função consiste em mandar apurar as pesadas acusações que denigrem a própria imagem do Brasil, a mentira raia ao absurdo. Quem tem um mínimo de informação sabe que manobras de todos os tipos, originadas no núcleo do governo e exibidas por sua tropa de choque no Congresso, são obstáculos freqüentes à elucidação dos deprimentes fatos.

Quando o mau exemplo vem de cima o que se pode esperar?  Como se educar um filho lhe ensinando a dizer a verdade, a ser honesto, a procurar através do trabalho o mérito que advém da competência?

Mas acredito que perdemos a taça do festival de mentiras quando ouvi Fidel Castro dizer a Maradona, num programa de TV, que sofreu 600 atentados cometidos pela CIA. Esses americanos

Vão ter pontaria ruim assim no inferno.

Domingo, 06 Novembro 2005 21:00

Os Fora-da-Lei

Não é à-toa que fomos chamados de fora-da-lei.

A reportagem da revista Veja versando sobre US$ 3 milhões de dólares, que teriam vindo de Cuba em garrafas de rum e uísque entre agosto e setembro de 2002 para incrementar o caixa dois do candidato Luiz Inácio, foi classificada por governistas e defensores do governo do PT como fantasiosa. E antes que mais esse escândalo caia no esquecimento, ou seja ultrapassado por outros como o mais recente que indica que R$ 10 mi foram repassados via Marcos Valério para o caixa dois do PT, volto a ele.

Entre os homens do presidente, o influente assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, foi um dos primeiros que se posicionou de maneira veemente contra a denúncia. O grande artífice de nossa desastrada e terceiro-mundista política externa, de Paris ironizou e desclassificou a matéria como uma “fabulação absoluta”.  Já o ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, alegou transparência nos gastos de campanha do PT (ele parece desconhecer os escândalos do governo a que pertence) e taxou a publicação da revista de “especulações que não passam de fantasia”. No Congresso, a tropa de choque do governo entrou em ebulição e passou a repetir como um mantra que a reportagem era “frágil” e “fantasiosa”. Quanto ao presidente do PT, Ricardo Berzoine, conforme seu estilo, ameaçou processar a Veja. Curiosamente foram poupados os companheiros ou ex-companheiros Rogério Burati e Vladimir Poleto, ex-assessores do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que fizeram as denúncias. Em compensação, mais uma vez culpou-se a oposição. Para culminar, o próprio presidente Luiz Inácio prometeu guerra aos opositores, que a rigor não existem a não ser alguns poucos heróis da resistência. Repetiu-se, assim, a conhecida técnica de defesa petista: desmerecer, desclassificar, ameaçar, esmagar.

Pode ser que essa estória das garrafas de fato pareça algo mirabolante, lembrando apenas que já foi pego petista com dólar na cueca o que, convenhamos, é um método inusitado de transportar dinheiro. Por sinal, nada ficou esclarecido sobre o episódio que envolveu o assessor do deputado irmão de José Genoino, assim como não se houve mais falar dos três. De todo modo, seria interessante considerar alguns aspectos que decorrem da matéria da Veja:

A reação quase histérica que tomou conta dos governistas, ainda que tenham afirmado reiteradamente que tudo não passa de fantasia, não deixa de demonstrar que os petistas sabem que, se tal denúncia tivesse atingido o governo anterior eles teriam se encarregado prontamente derrubar o presidente da República.

Também não se pode alegar que é mera suposição sem provas os elos fraternos que unem Luiz Inácio e Fidel Castro, castristas, petistas e esquerdistas de todas as nuances. Pode-se dizer, sem desdouro para Hugo Chávez, que Cuba, juntamente com a cerveja, é uma de nossas paixões nacionais. Aliás, como explica o cubano Carlos Alberto Montaner na sua magistral obra “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, “a relação sentimental mais íntima e duradoura do idiota latino-americano é com a revolução cubana”. E no sentido de maior esclarecimento transcrevo aqui a conceituação de idiota que Álvaro Vargas Lhosa dá no prefácio da referida obra:

“A idiotice que impregna esse manual não é a congênita...” “É de outra índole. Em verdade, ela não é só latino-americana, corre como azougue e deita raízes em qualquer parte. Postiça, deliberada e eleita, se adota por preguiça intelectual, modorra ética e oportunismo civil. Ela é ideológica e política, mas, acima de tudo, frívola, pois revela uma abdicação de pensar por conta própria, de cotejar as palavras com os fatos, de questionar a retórica que faz às vezes de pensamento. Ela é a beataria da moda reinante, o deixar-se levar sempre pela corrente, pela religião do estereótipo e pelo lugar comum”.

Porém, uma coisa é certa: o ditador Fidel Castro não dispõe de tão vultosa quantia que teria sido enviada ao companheiro Lula. Na verdade, Cuba, além de tabaco, cana de açúcar e prostituição, hoje sobrevive com a ajuda do Brasil e, certamente com a do companheiro Chávez. Entretanto, não é tão fantasioso assim imaginar o pequeno e pobre país caribenho como ponte de trambique internacional. E Duda Mendonça (que sumiu também) não deixa ninguém mentir sobre a existência da origem externa de recursos para o caixa 2 do PT.

Finalmente, duas constatações emergem como efeitos colaterais da denúncia da Veja: a impressionante impunidade relativa ao governo petista, o que inclui o presidente da República, e o estado de anestesia geral do povo que a tudo assiste com a indiferença do cúmplice ou do alienado como se tudo não passasse de piada de salão. Não é à-toa que fomos chamados de fora-da-lei.

Sábado, 29 Outubro 2005 21:00

Dá Para Confiar em Nossas Autoridades?

Como evidência da falência do governo Lula, também em matéria de segurança, dinheiro e drogas foram roubados dentro das sedes das Polícias Federais do Rio e de São Paulo.

No noticiário da Band, dia 27deste, uma notícia ilustrou bem a falência institucional da autoridade nesse país violento. O fato se passou em Belo horizonte. Um bandido, com farta ficha policial, tentou assaltar uma empresa. O vigia, que possuía porte de arma, atirou. Certamente no intuito de afugentar o criminoso. A polícia prendeu o vigia e o bandido. O vigia ficou preso durante quatro dias, acusado de desrespeitar o Estatuto do Desarmamento. Foi solto, mas está em liberdade provisória. O bandido? O delegado soltou imediatamente.

O que se poderia esperar da parte do Estado diante dessa aberração? No mínimo uma indenização ao vigia por danos morais, além da expulsão do delegado que merecia, por sua vez, experimentar o ambiente da cadeia. O delegado foi apenas afastado e mais adiante, provavelmente, voltará e continuará a cometer abusos e injustiças. Dá para confiar nesse tipo de autoridade?

Em meio à crise que assola o país, no dia 26 desse agitado outubro o presidente da República foi comemorar no Rio de janeiro, num hotel de luxo, seu aniversário. Em mais um ambiente cinematográfico foi homenageado e ganhou “Parabéns pra Você”, cantado por Fafá de Belém que depois abraçou efusivamente o presidente Luiz Inácio tal qual uma Monroe morena enlaçando seu charmoso Kennedy. A musa das Diretas-já homenageou também em tempos idos Teotônio Vilela, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Mas como o presidente Luiz Inácio diz ter o corpo fechado, tudo bem.

Enquanto o presidente se divertia a valer, Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete, homem de confiança, companheiro de longa data – como era Waldomiro Diniz com relação ao então ministro da Casa Civil, José Dirceu – era acareado na CPI dos Bingos com os irmãos do prefeito assassinado, Celso Daniel.

Carvalho seguiu a tradicional tática petista: desqualificou os irmãos, acusou um deles de desequilibrado, assumiu o papel de vítima, negou, negou e negou que tivesse dito ao Dr. João Francisco Daniel que transportava dinheiro extorquido de empresários de Santo André para alimentar o caixa 2 da campanha presidencial de Luiz Inácio. E para não perder o costume afirmou que por trás da atitude dos irmãos em busca de justiça se escondiam interesses da oposição.

Carvalho foi auxiliado pela tropa de choque petista. A senadora Ideli, como sempre estridente, de tudo fez para impedir que o senador Álvaro Dias lesse trechos de uma fita altamente comprometedora para Gilberto de Carvalho e outros companheiros. Também o senador Arns, em estilo Santo Ofício, tentou fazer com que Bruno Daniel caísse em contradição ao inquiri-lo sobre detalhes desnecessários, relativos a uma das vezes em que Carvalho falou aos irmãos sobre do transporte do dinheiro. Só faltou perguntar a cor do prato do bolo de aipim que Carvalho saboreara na casa de João Francisco enquanto contava sobre seus temores com relação o transporte de mais de um milhão de reais que seriam entregues a José Dirceu. Mas se alguém perguntar ao presidente Luiz Inácio se ele sabia de alguma coisa a respeito dessas misteriosas ocorrências ligadas a sua campanha, naturalmente ele dirá que nada sabe, nada viu e nada tem a ver com isso. Dá para confiar em alguma autoridade do PT?

No Congresso se assiste ao estrebuchar do deputado José Dirceu. Desesperadamente ele manobra para não ser cassado. Perdeu fragorosamente na Comissão de Ética por 13 voto a 1 e imediatamente seu advogado recorreu de novo ao STF. Zeloso de suas atribuições, o ministro Eros Grau ordenou que o relatório que pede a cassação seja refeito, o que enseja ao advogado de José Dirceu solicitar a anulação da sessão da Comissão de Ética que indicou a cassação.

O STF tem dado a depoentes das CPIs como, por exemplo, Delúbio Soares, o bode expiatório do PT que recentemente foi expulso do Partido o que confirma sua culpa, o direito de mentir e não ser preso. O ministro Jobim é também muito solicito com os companheiros. Se isso tudo isso é legal não parece legítimo. Portanto, pergunto: podemos confiar na autoridade de todos os ministros do STF? E o que Dirceu quer provocar, uma crise entre o Legislativo e o Judiciário para que prevaleça o Executivo? Lembremos que o Camarada Daniel só chora diante de Fidel Castro, seu ídolo e modelo.

Como evidência da falência do governo Lula, também em matéria de segurança, dinheiro e drogas foram roubados dentro das sedes das Polícias Federais do Rio e de São Paulo. Dá para confiar nessas autoridades?

Enquanto isso, um silêncio profundo caiu sobre a febre aftosa e seus calamitosos prejuízos. Leilões estão suspensos, frigoríficos fecham as portas, o agronegócio, esteio de nossa balança comercial, sofre profundo abalo enquanto cresce o número dos países que embargam a carne brasileira. Dá para confiar na autoridade desse governo? Eu não confio.

Segunda, 24 Outubro 2005 21:00

Enganação Nunca Mais

A propaganda, que é sempre enganosa, parece, portanto, ter encontrado seus limites na realidade e o recado está dado: enganação nunca mais.

De forma estrondosa, ultrapassando os resultados dos institutos de pesquisa, o povo consagrou o NÃO no referendo sobre a comercialização de armas.  Na Globo News, a apuração rápida dos votos foi entremeada por opiniões de cientistas políticos, que se esmeravam para explicar o que para eles era inexplicável. Entre os doutos intérpretes, Lucia Hipólito, a mais nova revelação global, contratada da CBN, “menina do Jô”, comentarista da Globo News, dona de uma coluna no O Estado de S. Paulo disse que a turma do SIM era vista como “da paz”, e a turma do NÃO como “da bala”. Depois, num rasgo de iluminação, aconselhou o governo a conservar o impedimento da comercialização legal de armas (visto que sobre o comércio ilegal não há controle por parte do Estado, o que beneficia os bandidos) através de um sutil estratagema: aumentar os impostos sobre as armas de modo a tornar quase impossível sua aquisição pelo cidadão comum. A comentarista não considerou que a “turma do NÃO” traduziu em votos mais da metade do eleitorado, ou seja, 63,94%, e que isso tem de ser respeitado.

Outro que se esmerou em explicar o maciço repúdio popular a mais uma violação dos direitos individuais por parte do governo foi o cientista político Abrucio, da Fundação Getúlio Vargas, o qual com certa freqüência também é visto na Globo News. Ele parecia indignado e partiu para uma espécie de defesa dos fracos e oprimidos ao afirmar que, se os partidários do NÃO defenderam o direito de portar armas, direito é coisa universal, como os pobres não têm recursos financeiros para comprar armas, logo se deveria dar a eles, na cesta básica, um revólver ao lado da goiabada.

O especialista em política estava também muito preocupado com os partidos políticos. Para ele a participação efetiva dos partidos no referendo teria sido essencial. O jovem cientista político pareceu não se dar conta de que, em primeiro lugar, a rigor não temos partidos políticos, mas clubes de interesse e, segundo, numa democracia o poder soberano vem do povo.

Além dessas houve várias interpretações de outros cientistas políticos que desfilaram para a fama televisiva, mas não se esmiuçou pontos fundamentais que podem lançar luz sobre a decisão popular.

O primeiro ponto se refere à falência do Estado em cumprir com sua obrigação fundamental: dar segurança aos cidadãos. Isso foi percebido pelos eleitores, o que não quer dizer que os que escolheram o NÃO vão sair por aí comprando armas de forma alucinada (mesmo porque foram mantidos os vários critérios que em nada facilitam a compra) ou atirando a esmo por puro prazer.

Outro aspecto importante foi a vitória inequívoca do povo e a derrota acachapante do governo. Este perdeu de maneira ainda mais contundente do que quando fracassou em sua intenção totalitária de impor a lei da mordaça aos promotores, a censura stalinista sobre os meios de comunicação e à imprensa. Alguém se lembra do malfadado Conselho de Jornalismo?

Nesses casos houve reação de grupos profissionais envolvidos. No referendo, na verdade mais um factóide do governo Lula para distrair as atenções da crise que o atinge, foi a população que fez a escolha e nela está implícito o repúdio não só ao Estado, mas ao governo o que, sem dúvida, se refletirá nas eleições de 2006.

Recorde-se que o próprio presidente da República declarou de forma aberta e politicamente imprudente, seu voto no SIM, tornando-se mais uma vez campeão em duas modalidades de tiro: tiro no pé e tiro pela culatra.

O resultado do referendo fez, portanto, incidir uma luz amarela sobre a reeleição de Luiz Inácio, cujo governo deverá enfrentar de agora em diante sérias dificuldades na área econômica com a eclosão da febre aftosa. Por mais que se queria subestimar este imenso problema é óbvio que já está sendo abalado um dos pilares de nossa economia, o agronegócio que sustenta quase metade de nossa balança comercial.

Diante do descalabro, economistas se revezam em explicações tão mirabolantes quanto as de certos cientistas políticos. Dizem eles, que a febre aftosa é ótima porque não podendo vender para o mundo consumiremos nós mesmos a carne contaminada, o que vai barateá-la pelo aumento da oferta e, portanto, a desgraça contribuirá para baixar a inflação e, de quebra, os juros. Os economistas não mencionaram a seca no norte e a possível entrada no Brasil da gripe do frango. Parece também que a calmaria econômica internacional poderá sofrer alterações. É muita urucubaca.

A propaganda, que é sempre enganosa, parece, portanto, ter encontrado seus limites na realidade e o recado está dado: enganação nunca mais.

Sexta, 21 Outubro 2005 21:00

Socialismo Selvagem

E assim vamos nós, embalados pelo socialismo selvagem que se refestela na mentira, se locupleta na corrupção, administra pelo cinismo, se impõe pela falsa propaganda e tem dado demonstrações de total incompetência.

No Brasil, onde é politicamente correto ser de esquerda, sempre se criticou o capitalismo selvagem, com especial ênfase no capitalismo norte-americano. Naturalmente, nunca nos importamos de passar o chapéu para que o FMI resolvesse os problemas gerados pelos governos por nós eleitos, e que tradicionalmente se mostraram perdulários, incompetentes e corruptos, com as honrosas exceções de sempre.

Agora temos novidade. O primeiro presidente de esquerda do Brasil, conforme alardeado no dia da vitória triunfal de Luiz Inácio e do seu partido, o PT, instaurou no país o socialismo selvagem cujos pilares são: o marxismo de mercado, os recursos não contabilizados e a piada de salão.

O marxismo de mercado consiste em tentar fazer o que a China faz, ou seja, a mais pura economia de mercado num país politicamente socialista. Como estamos anos-luz atrás dos chineses e nossa realidade sócio-econômica nada tem a ver com a deles, os homens do presidente acabaram por nos por em situação difícil diante do colosso asiático. Na ânsia de conquistar o almejado assento no Conselho de Segurança da ONU, o Brasil declarou a China economia de mercado e agora nossos empresários, faltos em competitividade, se desesperam para obter salvaguardas que os livre da concorrência daqueles adoráveis e baratos produtos chineses que começam a inundar nossas lojas com atraentes e desejáveis mercadorias.

Em que pese o fracasso dos negócios da China, o governo persiste em sua ortodoxia macroeconômica, que se não encontra o esperado respaldo na China, na Rússia ou na União Européia, segue comercialmente atrelado ao odiado Estados Unidos. Assim, apesar de todo blábláblá sobre a decadência capitalista e a conversa mole de que este sistema cruel está nas últimas, enquanto os governantes petistas sonham com o dia em que poderão transferir o capital dos particulares para seus bolsos, “o mundo moderno”, conforme disse Henry Louis Mencken, “tanto pode dispensar o capital acumulado quanto a polícia ou as ruas pavimentadas”.

Os recursos não contabilizados compõem outro elemento intrínseco do socialismo selvagem, variante petista. Eufemismo semântico para o caixa 2, a maracutaia foi consagrada pelo presidente Luiz Inácio. Segundo ele, todo mundo faz, portanto, não tem a mínima importância fazer também. O ministro da Justiça disse que caixa 2 é crime e Collor foi julgado politicamente e cassado por causa de caixa 2, mas para o presidente tal ação é um pecadilho sem importância, desde que seja, é claro, praticado pelos seus. Aos outros, o rigor da lei, especialmente da lei do ministro Nelson Jobim, presidente do Supremo Tribunal Federal. E conforme o presidente do PT, Ricardo Berzoine, temos “caixa 2 com corrupção” e caixa 2 sem corrupção”. Traduzindo, a deles e a dos outros.

Também as diabruras dos deputados petistas, que receberam do Office-boy de luxo do PT, Marcos Valério, quantias respeitáveis, são perdoadas pelo presidente. Apoiando o chefe, o companheiro Tarso Genro diz que caixa 2 “é um problema grave, mas meramente tributário”.Isso significa, que no socialismo selvagem onde o limite entre a moral e a imoralidade se esvaiu, temos a corrupção do bem e a corrupção do mal.

O terceiro pilar foi construído por Delúbio Soares. Para o ex-tesoureiro do PT, tudo que se passa agora em seu governo e em seu partido, incluindo os mensalões e outras falcatruas, será logo considerado como piada de salão. Desse modo, ao mesmo tempo em que se relativiza os crimes cometidos pelo poder público e se consagra a desfaçatez, o socialismo selvagem medra na mais plena certeza de impunidade dos que comandam o crescimento do espetáculo da corrupção.

Nesse sistema não é de se espantar que o Índice de Percepções de Corrupção, da Transparência Internacional, divulgado em 18 de outubro desse conturbado 2005, tenha mostrado o Brasil como país com grave nível de corrupção, ocupando a 62ª posição de um total de 158 países, sendo que no ano passado estávamos em 59º lugar num universo de 158 países.

E enquanto o tempo passa, seguem no Congresso as manobras da tropa de choque petista e de seus aliados para salvar da cassação José Dirceu, o Inocêncio, além dos companheiros deputados que já foram denominados jocosamente de “gang dos cinco”. Assim, no saldo final das CPIs, é capaz de restarem dois cassados: Roberto Jefferson, que se cometeu erros foi o único a falar a verdade, e o brilhante e combativo deputado do PFL, Onyx Lorenzoni, que corajosamente levantou uma ponta do véu de falsa vestal de José Dirceu, que já havia assinado uma confissão de culpa quando obedeceu prontamente a ordem de Roberto Jefferson para deixar rapidinho seus imensos poderes governamentais.

E assim vamos nós, embalados pelo socialismo selvagem que se refestela na mentira, se locupleta na corrupção, administra pelo cinismo, se impõe pela falsa propaganda e tem dado demonstrações de total incompetência.

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