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Maria Lúcia V. Barbosa

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

Terça, 14 Março 2006 21:00

PT: A Transição do Governo Para o Poder

Existe um processo em marcha que poucos se dão conta: o fortalecimento do Executivo que se sobrepõe aos desgastados Poderes Legislativo e Judiciário.

Existe um processo em marcha que poucos se dão conta: o fortalecimento do Executivo que se sobrepõe aos desgastados Poderes Legislativo e Judiciário.

Com relação ao Judiciário, destaque-se sua instância mais elevada, o Supremo Tribunal Federal, onde paradoxalmente têm prevalecido julgamentos políticos que beneficiam os interesses do atual governo e não decisões baseadas na Lei. Mesmo quando resolve sobre questões legais o STF produz estupor, como no caso dos crimes hediondos. Inspirados na idéia do ministro Thomaz Bastos, os ministros do STF concederam a estupradores, homicidas, corruptos, torturadores, traficantes, seqüestradores, terroristas o direito ao regime de progressão da pena em caso de bom comportamento, permitindo assim aos facínoras da pior espécie passar do regime fechado ao semi-aberto. Humanitários com os criminosos os ministros foram desumanos para com os cidadãos honestos. Mais uma vez se conclui que no Brasil direitos humanos são para os bandidos.

Note-se que as proteções legais estão ao tal ponto deterioradas, que a família do prefeito petista assassinado, Celso Daniel, está tendo que deixar o país por conta de ameaças sofridas. Coincidentemente estas ameaças começaram depois das denúncias que os irmãos de Celso Daniel fizeram de membros importantes do governo na CPI dos Bingos.

Quanto ao MST, que deflagrou nova onda de vandalismo em vários Estados, permanece impune. Respaldado pelo governo do PT que tem nesse movimento sua porção guerrilheira, os chamados sem-terra sabem que nada lhes acontece mesmo quando de forma criminosa investem sobre o horto florestal da Aracruz Celulose, no RS, destruindo laboratórios e pesquisas de mais de vinte anos, e cinco milhões de mudas de eucaliptos numa ação que se pode classificar de terrorista. Mas como disse o presidente Luiz Inácio, “o MST é um movimento sério”.

Já o Legislativo vai se tornado cada vez mais desacreditado desde que os mensalistas eclodiram na mídia. Até agora foram cassados apenas José Dirceu, chamado de chefe do mensalão, e Roberto Jéferson, que denunciou a compra dos deputados pelo governo, além de outras falcatruas. E enquanto a sociedade espera mais cassações, os deputados, assim como o presidente Luiz Inácio que perdoou as “piadas de salão” de seus correligionários, praticaram mais uma boa ação. Depois de salvar Sandro Mabel (PL) e Romeu Queiroz (PTB), no dia 9 deste absolveram os colegas Roberto Brant (PFL) e Luizinho (PT).

O deputado Luizinho deve ter obtido a piedade de seus pares quando certa vez se defendeu dizendo que não se pode condenar com o mesmo rigor um grande ladrão e um batedor de carteiras. Desse modo o petista proletarizou seu crime tornando-o humilde e atraiu simpatias que, aliás, já tinha do companheiro presidente da República. Coitado do Luizinho recebeu pouco mensalão via Marcus Valério, foi um corrupto mais ou menos, como uma grávida mais ou menos.

Outro procedimento que desmoralizou o Legislativo foi o gesto do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB) e do presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PC do B) promulgando a emenda constitucional que põe fim a verticalização. Note-se que ao instituir de novo a mixórdia partidária, mesmo contrariando a decisão do TSE, aquelas autoridades violaram o Estado Democrático de Direito.

Esse processo – onde a deterioração da moralidade pública é evidente, o desrespeito à Lei por quem deveria zelar por ela uma constante e o fortalecimento do Executivo uma realidade – faz lembrar o pensamento do companheiro frei Betto, quando este afirmou que “o PT estava no governo, mas não ainda no poder”.

Ao mesmo tempo, numa época em que proliferam na América Latina ditaduras populistas de esquerda disfarçadas de democracia, é significativa a visão do chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia: “o último ano desse governo deve ser entendido como primeiro ano do próximo”. Mais ainda, no documento reservado do PT, que está sendo elaborado para a campanha da reeleição de Luiz Inácio, Conjuntura, Tática e Política de Alianças, Valter Pomar sentencia: “o período 2003-2006 deve ser entendido como uma transição necessária de um velho Brasil para um novo projeto nacional de desenvolvimento” (0 Estado de S. Paulo, 9/3/06).

O documento – que seria o avesso da Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002, e prega a intervenção no Banco Central e outras medidas na condução da economia – tem tal teor de radicalização que preocupou o Planalto, segundo o jornal já citado.

Naturalmente os autores enfatizam o PSDB como o inimigo por excelência, mas admitem siglas que integram as bases do governo. É assim que se chega ao poder. Entretanto é bom lembrar, que se no governo o PT tem dado mostras de amoralidade e incompetência, imagine se chegar ao poder quando nada mais poderá cerceá-lo. Aí é que os eleitores vão ver o que é Plano B.

Sexta, 03 Março 2006 21:00

Gigante Adormecido

Talvez, seja nosso destino ser apenas um gigante adormecido deitado eternamente em berço esplêndido.

Em 2002, uma idéia esquisita circulou e acabou persuadindo um bom número de indivíduos. Se a princípio aquele palpite que se pretendeu genial parecia inofensivo, acabou por produzir efeito contrário e serviu aos interesses de outros que não os crédulos da dita maquinação. A idéia consistia em eleger Luiz Inácio não porque era o candidato ideal, muito pelo contrário, mas porque assim os brasileiros aprenderiam através de amarga experiência a nunca mais votar no PT.

Eleito, Luiz Inácio e seu partido foram ao paraíso. O deslumbramento foi tanto que o discurso ético foi pulverizado. Tudo que antes era criticado duramente eles fizeram com mais capricho. Caixa dois todo mundo tem e ainda inovaram na modalidade do mensalão e dos dólares na cueca.  Fizeram alianças políticas antes consideradas espúrias. Praticaram a ortodoxia macroeconômica e obsequiaram com isenções de impostos e da CPMF os especuladores estrangeiros. Os privilégios concedidos ao Lulinha e ao primeiro irmão lobista foram considerados tão normais quanto o loteamento do Estado pelos companheiros e companheiras, com decorrente nepotismo (que o digam algumas mulheres de ministros). Praticaram impostos escorchantes, juros mirabolantes e deram aos banqueiros os maiores lucros da história. Os pobres ficaram com as esmolas que os mantém sempre pobres e agradecidos.

Tem mais: José Dirceu, Waldomiro Diniz, Delúbio Soares, Silvinho Land Rover, José Genoino, Marcus Valério e outros mais viraram piada de salão. Todo mundo achou graça. Na república sindicalista tudo é permitido, aos companheiros, claro. O STF garante o que for preciso. Quanto ao presidente da República, como o Jamanta da novela não sabe, não viu. E sem oposição para valer no momento pesquisas indicam que o PT veio para ficar. Quem sabe alguém ainda diga num momento iluminado: “vamos dar mais um mandato a ele para confirmar a idéia de que não se deve votar no PT”. E ainda fazemos piada de português. Eles até podem nos dizer: “ora, pois, vocês tiveram a quem puxar”.

Outra idéia espantosa surgiu não em meio aos palpiteiros da coisa pública, mas entre os que se supõe serem profissionais da política. As autodenominadas “oposições responsáveis”, ou seja, o PSDB e o PFL resolveram não pedir o impeachment do presidente da República. Deixar ele lá sangrando e depois ganhar facilmente o cobiçado cargo foi rasgo inspirado dos cardeais oposicionistas. A esbórnia pública, o fracasso dos planos sociais, o espanto da opinião pública com as denúncias do então deputado Roberto Jefferson, as provas que se acumulavam nas CPIS, a confissão de Duda Mendonça de que recebera em paraísos fiscais, enfim, um acúmulo de fatos escabrosos que em bem menor quantidade teriam derrubado um presidente da República não foram suficientes para que as “oposições responsáveis” agissem. Como ensina o ditado, “o que não mata engorda”, e agora a candidatura de sua excelência está gorda e sem hematomas.

Mas as idéias estapafúrdias não param por aí. Quando surge no PSDB a chance de ganhar com um homem público do nível de Geraldo Alckmin o tucanato protela a escolha de seu candidato, cardeais do partido pendem para o lado de Serra (o opositor predileto do Planalto) e até já circula outra tese genial: lançar Aécio Neves, que provavelmente entraria para perder. Ah, os portugueses que nos perdoem por aquelas piadas sem sentido.

Enquanto isso o PMDB da oposição e o PMDB governista confabulam em seus respectivos bastidores. A vice-presidência na chapa petista, quem sabe seria melhor do que um candidato sem chances de chegar lá? Unindo as duas poderosas máquinas, a estatal e a do PMDB, que substituiria o afundado PT, a força eleitoral seria praticamente imbatível. Sem medo de ser feliz o eterno candidato do PT torce para que isso aconteça e faz campanha sob os olhares complacentes das "oposições responsáveis" e atentos de possíveis aliados.

Mas brasileiro não desiste nunca. Do inconformismo e da total ingenuidade brota, especialmente através da Internet, a campanha do voto nulo. Confunde-se a eleição presidencial altamente complexa com o referendo sobre as armas que consagrou o Não como vitória sobre o governo. Pensa-se que serão atingidos os 51% de votos nulos e, assim, a eleição seria anulada. Nada mais errado. Não se trata agora de sim ou não, pois nomes e partidos estarão em disputa acirrada. E adeptos, simpatizantes e incautos não deixarão de votar no Pai Lula. Na Venezuela, onde tem oposição popular para valer a abstenção deu a Chávez (agora revolucionário carnavalesco que compra escola de samba do Rio e primeiro lugar) o poder absoluto. Imagina aqui.

E assim, de idéia em idéia, nós mesmos consentimos nosso mal. A família de Celso Daniel, que sob ameaça de morte está sendo obrigada a fugir para o exterior, que o diga. Talvez, seja nosso destino ser apenas um gigante adormecido deitado eternamente em berço esplêndido.

Quinta, 23 Fevereiro 2006 21:00

Os "Carismáticos" Latino-Americanos

Na verdade, precisamos urgentemente de um presidente de resultados e não de mais um “carismático” latino-americano, que deles o continente anda cheio.

Começam a aumentar as críticas ao PSDB. Isso porque, no melhor estilo tucano os cardeais do partido têm travado a escolha de seu candidato, criando assim condições propícias para que o presidente da República que usa e abusa da máquina estatal, se escora em intensa propaganda, utiliza de forma intensiva a televisão acelere sua campanha rumo à reeleição. Aliás, segundo o próprio Luiz Inácio, “um homem público faz campanha da hora que acorda à hora em que dorme, 365 dias por ano”. Pelo menos dessa vez Sua Excelência foi sincero e admitiu que nunca governou, mas que apenas faz campanha.

Naturalmente a atitude do PSDB leva a várias especulações. Alguns dizem que os tucanos querem ajudar Luiz Inácio, o que sempre fizeram como “oposição responsável”, e responsável até demais, pois não pediram seu impeachment na hora certa. Outros apelam para o reino do fantástico e calculam que o PSDB lançará outro nome que não os de Serra ou Alckmin. Em todo caso, a grande novidade que ora se apresenta entre os tucanos é Geraldo Alckmin e por um motivo bem simples: ele possui firmeza de propósitos em vez de ficar em cima do muro.

Significativamente o governador paulista vem sofrendo os maiores de ataques entre os possíveis opositores de Luiz Inácio. Isso indica que o PT receia que a partir de agosto, quando começa de fato a campanha se estabeleça o contraste entre aquele (se ele for o escolhido do PSDB) e seu eterno candidato. Alckmin é sóbrio, objetivo, fala bem e em português correto, tem realizações a apresentar que confirmam sua competência e nada o desabona moralmente. É se é impossível prever com certeza o que vai acontecer em outubro (mesmo que com base em recentes pesquisas alguns já dêem Luiz Inácio como reeleito), certamente o povo não será insensível a diferença entre o discurso articulado e inteligente de Geraldo Alckmin e a algaravia populista de Sua Excelência Luiz Inácio.

Dirão, contudo, os defensores do presidente da República, que enquanto o petista esbanja carisma, Alckmin não possui tal dom para vencê-lo. Mas convenhamos que essa argumentação é contraditória, pois se o tucano é tão pouco conhecido no Brasil, como se costuma dizer, como saber se é dotado ou não de alguma dose de carisma?

Quanto ao lendário carisma atribuído a Luiz Inácio, o termo merece algumas considerações. Foi cunhado no sentido sociológico por Max Weber, que se inspirou no significado de “dom da graça”. O líder carismático, na interpretação weberiana, é seguido pelos que estão em desgraça e que acreditam ser ele capaz de feitos extraordinários. Milagres e revelações, feitos heróicos de valor e êxito surpreendentes são características da estatura desses líderes e Weber aponta como tais os fundadores de religiões mundiais, os profetas, os heróis militares e políticos. Enfim, o líder carismático é um gênio, um homem dotado de personalidade extraordinária.

Há, portanto, para o bem ou para o mal, uma grandeza no carisma, que na concepção atual foi apequenada e mal interpretada como o são os termos elite e liberalismo que tomaram acepções negativas e equivocadas. E não se pode dizer que os gracejos popularescos, as metáforas futebolísticas, as gafes monumentais, os auto-elogios do presidente Luiz Inácio façam dele um gênio ou um herói, em que pese tentar convencer “os que estão em desgraça” sobre seus “feitos extraordinários” e, de tal modo, que daqui a pouco vai anunciar que descobriu o Brasil bem antes de Cabral.

 Tivemos poucos líderes realmente carismáticos e muitos sedutores de massas. Além do mais, de acordo com nossa cultura, aceitamos facilmente homens sem qualificação e até corruptos para nos comandar, pois como afirmou Weber, “a corrupção só pode ser tolerada por um país com oportunidades econômicas ainda limitadas”.

 Perguntemos, então, se existem carismáticos em outros partidos. Note-se que imprensa, que se dedica com certo estardalhaço ao caso do PSDB, quase nada diz sobre o PMDB. Não se comenta se Rigotto e Garotinho estão dividindo seu partido ou se está havendo demora para o lançamento de um deles. Enquanto isso, Garotinho trabalha incessantemente e começa a ser visto pelo PMDB como suficientemente “carismático” para enfrentar Luiz Inácio, que por sua vez ainda sonha com um vice do PMDB.

Na verdade, precisamos urgentemente de um presidente de resultados e não de mais um “carismático” latino-americano, que deles o continente anda cheio. Isso fica claro quando se lê algumas matérias como, por exemplo, as da Folha de São Paulo, de 24 de fevereiro, que ilustram notícias nada boas: “Banco Central tem prejuízo de R$ 10,45 bi”. “Desemprego aumenta e renda diminui em janeiro”. “Inadimplência aumenta 13,3% em janeiro”. “Cai a confiança do consumidor na economia”. “TCU cobra da presidência por gasto com bebida no cartão”.

Sábado, 11 Fevereiro 2006 21:00

Big Brother PT

Especialmente o PT e seu eterno candidato Luiz Inácio apostam no esquecimento popular das más notícias. Para eles a corrupção desapareceu nas páginas amarelecidas dos jornais velhos.

Ler jornais velhos é exercício interessante porque se nota que muitas previsões foram apenas palpites que não deram certo. Constata-se que não existem fatos, mas versões. Comprova-se que liberdade de imprensa é algo relativo.

Experimentem, caros leitores, passarem os olhos nas notícias de uma semana, quinze dias, um mês atrás e se surpreenderão com contradições, desencontros, inverdades contidos em matérias e notícias. Fulano vai depor, fulano não apareceu para depor. O deputado x vai ser cassado, não vai ser mais, vai renunciar. A candidatura do presidente afundou na lama e sua reeleição está perdida, seu segundo mandato está garantido. Fulano de tal está à frente nas pesquisas, fulano perdeu a eleição.

Sobretudo, agora, quando além do único candidato-presidente já se delineiam outros postulantes, especialmente os dos principais partidos, e o tempo parece correr mais rápido em direção a outubro, explodem lendas e crendices de campanha enquanto balões de ensaio de candidaturas povoam os céus da política. Nesse cenário de eloqüências acelera-se a guerra de palavras expressa em elogios ou ataques. Multiplicam-se as pesquisas, essas peças preciosas de campanha que muitas vezes tentam arregimentar votos para este ou aquele candidato. No momento recrudesce a propaganda governamental a partir de obras faraônicas inauguradas no papel e algumas bondades não praticadas em três anos.

Especialmente o PT e seu eterno candidato Luiz Inácio apostam no esquecimento popular das más notícias. Para eles a corrupção desapareceu nas páginas amarelecidas dos jornais velhos. E tem mais: eles sabem que brasileiro para valer quase não lê jornal, mas apenas assiste TV, não desiste nunca de ganhar a copa do mundo e é fã do Big Brother Brasil.

Por falar nisso, sem dúvida José Dirceu, Delúbio Soares, Silvinho Land Rover, Waldomiro Trem Pagador, o assessor da cueca cheia de dólares, tantos outros membros do PT mais ou menos importantes e seus auxiliares como Marcos Valério, além da base aliada dos mensalistas, fariam imenso sucesso num Big Brother PT. Imagine-se expostos ao público, sem “imprecisões terminológicas”, (termo usado pelo ministro Palocci para substituir a palavra mentira), seus jogos, tramas, trapaças, acusações, intrigas como fazem os participantes do programa da Globo. E olha que os BBB, assim como tantos petistas, saem do nada de sua insignificância para a fama e a glória, com oportunidades de sucesso que nenhum pós-doutor depois de anos de estudo e esforço pode sequer sonhar.

O Big Brother Brasil faz sucesso porque, convenhamos, é a consagração do mau-caratismo tão caro à cultura nacional dos antivalores. Afinal, estamos longe de ser uma meritocracia na qual vencem os melhores. No Brasil a preferência vai para os coitados ou os que se dizem coitadinhos. E ai está mais um dado que poderá ajudar a manter Lula lá.

Enquanto o clima eleitoral vai dominando o noticiário, o presidente voa sem medo de ser feliz no seu aerolula de US$ 56,7 milhões, que teve o bar reformado ao custo de R$ 300 mil, em que pese o ministro Furlan ter anunciado que o presidente não bebe há quarenta dias. Mas, o que importa é manter no imaginário popular um presidente pobre coitado, o proletário defensor dos oprimidos.

Foi dada a largada rumo ao prêmio máximo da política e o clima mental das ilusões e das persuasões vai se adensando. Enquanto isso, erros são cometidos novamente pelo PSDB, partido tido como mais apto para enfrentar o PT. Aquela idéia de deixar sangrar o presidente da República (que se supunha abatido pelos escândalos de corrupção) em vez de pedir seu impeachment, pode agora se mostrar desastrosa. Serve também para críticos e adversários dos tucanos os acusarem de ter protegido Luiz Inácio e serem coniventes com o PT. E no momento a demora do PSDB em definir seu candidato ajuda o candidato-presidente a subir nas pesquisas, porque, enquanto as intenções de votos se concentram em Luiz Inácio, seguem dividas entre Serra e Alckmin.

O mesmo acontece com o PMDB no caso Rigotto/Garotinho. A diferença entre este partido e o PSDB reside no fato de que o PMDB, que ao mesmo tempo é situação e oposição, poderá ainda optar pela vice-presidência na chapa de Luiz Inácio, apesar das negativas dos peemedebistas de oposição. Em todo caso, seus possíveis candidatos também dividem a opinião pública concentrada num benfazejo Papai Noel que promete bondades sem conta e obras faraônicas que só precisam de mais tempo de governo do PT e da paciência do povo.

De todo modo, se no Big Brother os resultados parecem pré-estabelecidos, a política é por demais mutável e fica difícil saber com antecedência quem ganhará. Muitos prognósticos de hoje ficarão apenas nas páginas amarelecidas dos jornais velhos.

Domingo, 29 Janeiro 2006 21:00

Governo das Trevas

Muitos outros crimes foram cometidos, inclusive, assassinatos de estrangeiros, sem que fossem esclarecidos nos três anos do governo Luiz Inácio. Em compensação, criminosos foram soltos.

Quando pela quarta vez Luiz Inácio, o eterno e único candidato do PT, chegou finalmente lá rompendo a barreira de seus tradicionais 30% de votos, deu para perceber que quem ganha eleição quase sempre não é o candidato, mas sua imagem construída pela propaganda. Afinal, Duda Mendonça (agora suspeito de crimes banais segundo ensina a “moral” brasileira, como evasão de divisas etc. e tal), havia conseguido transformar Lula em Lulinha de paz e amor, algo palatável para a maioria da sociedade. O resultado foi a estrondosa vitória petista consagrada nas urnas por quase 53 milhões de brasileiros cheios de fé no candidato, esperança no futuro e caridade para com o símbolo operário-pobre-coitado. Qualquer crítica a Luiz Inácio era tida como preconceito inadmissível e imperdoável.

Muitos dos que não eram petistas renderam-se à sedução da propaganda.  Outros construíram a seguinte esdrúxula teoria: “é preciso eleger o homem para provar que o PT não tem competência para governar”. Era como dizer: vamos pegar um pouquinho de aids para ver como funciona a doença.

No poder, o PT, dito partido da ética que vinha para acabar com a corrupção na política, infectou o Brasil agravando a doença nacional da corrupção. E em que pese as constantes “boas notícias”, a propaganda intensiva, a campanha de Luiz Inácio jamais descontinuada desde que assumiu a presidência, o crescimento contínuo do espetáculo da corrupção oferecido pelo governo do PT, pelo menos os brasileiros que têm um mínimo de brio estão hoje indignados ou se sentindo traídos. Quanto aos que possuem algum grau de informação e discernimento já sabem que esse governo é um redundante fracasso. Malograram as promessas de campanha para a área social, nossa política externa é uma sucessão de fracassos e, se investidores, especuladores e banqueiros estão felizes com os enormes lucros auferidos, nosso crescimento tem sido pífio mesmo num cenário mundial excepcionalmente favorável. Além do mais, os numerosos ministros não tiveram capacidade de gastar seus orçamentos, não se sabe onde vão parar as arrecadações recordes dos impostos e está havendo queda no emprego industrial e na renda. Indiferente a tudo, o candidato Luiz Inácio vai inaugurando cada buraco tampado nas estradas que seu governo deixou intransitáveis, mesmo que algumas empreiteiras amigas que fazem o serviço tenham sido condenadas pelo TCU. O presidente da República nunca sabe de nada.

Há, porém, outro aspecto desse governo que se pode qualificar de tenebroso, e que demonstra que a transparência do PT era outra farsa para conquistar votos de incautos. Vejamos alguns exemplos que confirmam a opacidade petista:

1 - Os crimes até agora não desvendados de Celso Daniel, barbaramente torturado e assassinado, em 20 de janeiro de 2002, do cortejo de mortos que o seguiram e de Toninho do PT, assassinado em setembro de 2001. 2 - O desaparecimento no Iraque há um ano do engenheiro Rodrigo de Vasconcellos JR., sendo que o governo foi incapaz de deslindar o caso e não teve competência sequer para trazer o corpo e entregá-lo a família. 3 - A recente morte do general Urano Teixeira da Mata Bacellar, que comandava a Força de Paz da ONU, no Haiti. A apressada versão de suicídio cometido pelo general, e as notícias contraditórias sobre o fato fazem lembrar a explicação de suicídio também dada para a morte do legista Carlos Delmonte, encontrado sem vida em seu escritório particular, em São Paulo, em outubro de 2005. Delmonte havia num primeiro laudo apontado marcas de tortura em Celso Daniel e estava preparando um laudo complementar quando apareceu morto. 4 – O empenho do governo de impedir ou abafar as CPIs e o intuito da tropa de choque do PT no Congresso de apresentar relatório paralelo aos dos membros da CPI dos Correios.

Ainda sobre o general Bacellar, tido como pessoa calma e militar altamente preparado, além exímio atirador, pode-se dizer que teve uma morte inglória, pois a tragédia aconteceu por conta do verdadeiro motivo do Brasil ter pleiteado o comando no Haiti: a conquista do assento no Conselho de Segurança da ONU, algo que pelo visto não será dado ao Brasil.

Muitos outros crimes foram cometidos, inclusive, assassinatos de estrangeiros, sem que fossem esclarecidos nos três anos do governo Luiz Inácio. Em compensação, criminosos foram soltos. Se essa é uma constante no Brasil da impunidade, onde a “lei se acata, mas não se cumpre”, o fracasso do PT também no tocante ao controle da violência, sua incapacidade de elucidar mesmo os assassinatos dos companheiros podem, sem duvida, levar a classificar esse governo como das trevas. Mas como não se sabe quem é eleito, se o candidato ou sua imagem esculpida pela propaganda, resta esperar o resultado das urnas em outubro para saber se os eleitores estão informados sobre os detalhes tenebrosos do PT no poder ou não.

Quarta, 18 Janeiro 2006 21:00

Eixo das Bananas

De todo modo, enquanto outubro não chega o Brasil se une cada vez mais ao Eixo das Bananas, cuja característica marcante é a mentalidade do atraso.Janeiro. Começam para valer as férias. O tempo nas praias adquire ritmo mais lento e a vida recebe pinceladas azuis de céu e mar. Período em que a leitura de jornais, que já é pouca, se torna escassa ou nula. Na TV, meio de comunicação de massa por excelência, os noticiários se limitam a temas amenos ou a tragédias internacionais. De janeiro a março o Brasil se espreguiça enquanto fervem os bastidores da política. Principalmente quando o ano é de eleições.

Também o presidente da República resolveu tirar quatro dias de folga (não ficou explicado folga do quê) em uma praia privativa da Marinha próxima a Salvador. Curiosamente, o mesmo local onde por três vezes descansou seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. Deste o governo Luiz Inácio também pirateou a política macroeconômica e tentou, sem êxito, copiar programas sociais. Lembremos que produtos piratas não têm garantia contra defeito.

Sua Excelência viajou com um dos filhos e dona Marisa Letícia, primeira-dama que estabelece notável e sensato contraste com o marido. Nada fala. Pelo menos em público. Certamente uma mudez que pode ser interpretada como medida de precaução semelhante a que impede o presidente de dar entrevistas coletivas. Os marqueteiros lhe permitem apenas entrevistas gravadas, devidamente ensaiadas e cuidadosamente editadas. Mesmo assim há risco de fracasso como aconteceu na recente entrevista concedida pelo presidente ao jornalista Pedro Bial.

 Para quem duvidava ficou claro naquela ocasião que Luiz Inácio está longe de ser um grande comunicador, conforme um dos mitos que foi elaborado para seu culto. Semblante preocupado, por vezes assustado, só sorriu no fim, quem sabe ao comando de algum assessor. Foi repetitivo em demasia. Novamente afirmou que nada sabia a respeito da corrupção do seu governo e do seu partido. Faltou dizer que mensalão é piada de salão, como fez seu companheiro Delúbio Soares, por mais abundantes que sejam as provas acumuladas na CPI dos Correios (para a qual a tropa de choque do PT no Congresso prepara um relatório paralelo). Naturalmente, não faltaram os auto-elogios. Mas já vai saturando até o tom de voz de Sua Excelência.

Em todo caso é tempo de férias e o presidente Luiz Inácio, que muda repentinamente discurso e ação, não vai ficar apenas quatro dias de folga na Bahia. Contrariando afirmação anterior de que nesse ano viajaria apenas pelo Brasil (entenda-se isso à luz da campanha da reeleição) está de viagem marcada para Venezuela e Bolívia. Vai se encontrar de novo com dois de seus diletos companheiros do Eixo das Bananas ou da República das Bananas, Hugo Chávez e Evo Morales. Depois voltará à África.

Pode ser que com esses périplos o presidente esteja tentando reaver o sonho perdido referente ao Assento no Conselho de Segurança da ONU, obsessão do chanceler de fato, Marco Aurélio Garcia. Pode ser que ele simplesmente esteja querendo resgatar outro de seus mitos perdido: o de líder mundial. De todo modo, essas viagens sempre devem preocupar a nós, contribuintes, que custeamos o turismo político presidencial, assim como as generosas dádivas em dólares ou em obras que Luiz Inácio distribui com desenvoltura aos países subdesenvolvidos. Para nós restam recursos para tampar buracos, sem licitação. Ressalve-se que, segundo o ministro dos Transportes Alfredo Nascimento, a maquiagem das estradas só vai durar um ano. Tudo vai esburacar de novo e mais gente vai morrer, mas, então, o presidente já estaria em seu segundo mandato. Se o for reeleito, é claro.

De todo modo, enquanto outubro não chega o Brasil se une cada vez mais ao Eixo das Bananas, cuja característica marcante é a mentalidade do atraso que inclui: o ataque sistemático aos Estados Unidos e a um nebuloso neoliberalismo, o vezo estatizante e a postura autoritária.

Com relação ao autoritarismo, exceção feita a Fidel Castro cuja ditadura é escancarada, os neocaudilhos populistas do Eixo das Bananas simulam uma democracia que de fato inexiste. O Brasil que segue sob a inspiração e a liderança de Hugo Chávez não escapa à regra. Observe-se, por exemplo, a estranha demissão de Boris Casoy da Record. Coincidentemente Casoy fazia o único noticiário independente da TV. E ainda que a emissora negue a pressão, curiosamente em agosto do ano passado o Banco do Brasil retirou seu patrocínio ao “Jornal da Record”.

No caso da tentativa de criação da Ancinav ou do Conselho de Jornalismo, houve forte reação. Com relação à demissão de Boris Casoy, nem a mídia nem qualquer grupo de pressão se manifestou. Sinal de que estamos cada vez mais integrados ao Eixo das Bananas?

Sexta, 30 Dezembro 2005 21:00

América Latina: O Continente Perdido

Como os demais populistas latino-americanos, Luiz Inácio elegeu um inimigo, os Estados Unidos; brada contra um liberalismo ou neoliberalismo inexistente; optou claramente em política externa pelo atraso.

O ano de 2005 passará à história como o ano da vergonha nacional, em que pese o tom triunfante do presidente da República. Já vai cansando sua verborragia populista, o recurso de por a culpa de seus próprios erros no governo passado como se governasse pelo retrovisor, a deturpação de dados, a propaganda enganosa que recrudesce na obsessiva campanha da reeleição.

Os sentimentos de vergonha e de frustração são, inclusive, pertinentes aos petistas românticos que acreditavam em uma espécie de ideologia mística; aos simpatizantes do “pobre operário de esquerda” que embarcaram na teoria da vitimização; aos tradicionais grupos de interesse que sempre apoiaram o PT ou mesmo ajudaram a gerá-lo, como parte da Igreja católica; aos movimentos sociais que esperavam as prometidas mudanças radicais e se vêem diante de caridades oficiais, como o Programa Bolsa Família que sucedeu ao fracassado Fome Zero.

Satisfeitos apenas os companheiros beneficiados pelo loteamento estatal, os banqueiros com seus lucros astronômicos, os investidores de curto prazo. E, naturalmente, existem os fanáticos, sempre dispostos a bater bandeira nas ruas e a pagar os dízimos que sustentam a doce e rica vida dos dirigentes. Como beatos cegos pela fé eles repetem em forma de mantra o que lhe foi inculcado: a culpa de tudo vem desde Cabral, provém dos Estados Unidos, origina-se do neoliberalismo, decorre da herança maldita. Nós, os puros, nunca erramos, corrompemos, mentimos. Nossos crimes não passam de faltas leves. Cremos em nosso líder todo-poderoso, criador da igualdade social, na comunhão dos companheiros, na remissão pelo socialismo, na ressurreição do petismo, amém. E essa cantilena irracional é destilada não tanto pelo homem comum, desinformado ou mesmo analfabeto, mas por expoentes de nossa intelectualidade universitária que, não tendo como defender o indefensável se calam de forma vergonhosa, sendo que deveriam ser os primeiros a denunciar os fracassos desse governo, sua corrupção deslavada, suas notórias mentiras.

O senhor presidente afirmou que caixa dois não tem importância porque todo mundo pratica esse crime. Ele nega o “mensalão” mesmo diante da avalanche de pistas, testemunhas e provas acumuladas. Esquiva-se de suas responsabilidades dizendo que nada sabia sobre as maracutaias cometidas por seus companheiros mais antigos e íntimos. Vangloria-se da macroeconomia que de forma ortodoxa foi copiada do governo anterior. A macroeconomia seria o grande trunfo eleitoreiro num período bafejado pela calmaria internacional. Mas que êxito é esse, se em 2005 ficamos em termos de crescimento na rabeira dos países emergentes, incluindo os da América Latina?

 Com todo nosso potencial, nosso tamanho, nossas riquezas naturais, o esforço da iniciativa particular que fez deslanchar as exportações, só conseguimos empatar com o crescimento de 2,5% de El Salvador e ficar acima do miserável Haiti que registrou aumento de 1,5% no seu Produto Interno Bruto (PIB).

O governo do PT, que a todo custo tenta se manter no poder, deixará atrás de si um rastro de destruição econômica, social e moral, que talvez só possa ser resgatada, se o for, por gerações. Note-se, por exemplo, como sobre a égide do lulismo-petismo o Legislativo se corrompeu ainda mais e o Judiciário, através de sua instância mais alta, o Supremo Tribunal Federal (STF), se politizou e se pôs a serviço do Executivo e não da execução da Lei. Em suma, o governo do PT está fazendo do Brasil um país ainda menos civilizado e não passa de conversa mole essa de que nossas instituições estão sólidas, pois não contamos com partidos oposicionistas para valer, com legisladores sérios nem com aplicação justa das leis.

Enquanto navegamos nas águas turvas do atraso e da corrupção vemos a América Latina mergulhar numa onda de governos populistas, ditos de esquerda, que juntamente com o ditador cubano Fidel Castro são exemplos para nosso governo. Este, em vez da propalada liderança, serve apenas para suprir os países vizinhos com recursos e obras por nós custeadas.

O continente retrocede sob a égide de Hugo Chávez, Evo Morales e outros mais, e como tão bem afirmou o escritor argentino, Marcos Aguinis, em entrevista ao Estado de S. Paulo (25/12/2005): “As receitas populistas sempre terminaram mal. Não conseguem evitar a corrupção, o autoritarismo, a cultura da esmola”.

Como os demais populistas latino-americanos, Luiz Inácio elegeu um inimigo, os Estados Unidos; brada contra um liberalismo ou neoliberalismo inexistente; optou claramente em política externa pelo atraso. Caso consiga ser reeleito, utilizando para tanto a propaganda enganosa e a máquina estatal, estaremos condenados a perpetuar o característico fracasso desse continente perdido chamado América Latina. A escolha é nossa.

Sexta, 16 Dezembro 2005 21:00

Sinais Particulares

Por inaptidão, despreparo ou falta de vontade, o presidente Luiz Inácio é a perfeita ilustração da música que ele mesmo disse gostar, e que parece ter adotado como hino particular: “Deixa a vida me levar”.

Por inaptidão, despreparo ou falta de vontade, o presidente Luiz Inácio é a perfeita ilustração da música que ele mesmo disse gostar, e que parece ter adotado como hino particular: “Deixa a vida me levar”.  Mas enquanto Sua Excelência leva a vida, que certamente não quer largar de jeito nenhum (tão-pouco seus companheiros de alto escalão acostumados às doçuras, privilégios e bem-aventuranças comuns aos donos do poder), sinais particulares vão surgindo nitidamente no quadro político do momento. Sem nada a ver com infâmias, como gosta de dizer o presidente que sempre se coloca no papel de vítima, esses sinais agourentos para ele são decorrência de um processo, onde se acumularam de forma desmedida a incompetência e a ganância do modo petista de governar.

Os maus agouros surgiram claramente nas últimas pesquisas, e em que pese essas sondagens de opinião muitas vezes não serem confiáveis, traduzindo modos camuflados de propaganda ou a falsa certeza dos números, não devem ter agradado à atual corte brasiliense.

Conforme pesquisa CNI/Ibope, divulgada em 14/12, adversários do PSDB, partido que Luiz Inácio mais detesta e teme, vão se posicionando favoravelmente. José Serra ganha no segundo turno por folgados 13 pontos porcentuais e Geraldo Alckmin já está empatado tecnicamente com o eterno candidato presidencial que começa a se ver reduzido aos seus tradicionais 30%, porcentagem de votos que lhe ocasionaram três derrotas seguidas.

O grande fenômeno eleitoral da pesquisa é o governador de São Paulo, que saiu de um dígito para ascender rapidamente nas intenções de votos. O argumento de que não é conhecido não é tão importante. Naturalmente Serra é mais conhecido porque chegou ao segundo turno das eleições presidenciais passadas. Mas o palanque eletrônico da TV rapidamente garantirá a visibilidade necessária a Geraldo Alckmin, caso seja ele escolhido como candidato do PSDB. Calmo, articulado, dando demonstrações reais de competência em sua trajetória política, elegante e sóbrio, ele apresenta um contraste estonteante com o candidato à reeleição. E como tudo nessa vida cansa, pode ser que o povo queira agora algo diverso do que elegeu em 2002. Mesmo porque, a pesquisa CNI/Ibope mostra que hoje são apenas 43% os que confiam no presidente, contra os 76% que confiavam em junho de 2003. Os que não confiavam naquela época eram apenas 19% e agora chegam a 53%.

Para piorar, a pesquisa indicou que a reprovação popular incidiu justamente em áreas nas quais Luiz Inácio se gaba de ser um condutor genial. Reprovaram o combate à pobreza 50% dos entrevistados, contra 46% que aprovaram. Programas de educação e saúde: 48% reprovaram e 47% estão satisfeitos. Segurança pública: 65% reprovaram e apenas 29% aprovaram. Combate à inflação: 54% estão insatisfeitos contra 37% de satisfeitos. Taxas de juros: 63% reprovaram e 25% aprovaram. Combate ao desemprego: 62% reprovaram e 34% aprovaram. Impostos: 69% criticaram contra 23% que aprovaram.

É também sinal particular significativo o resultado de uma pesquisa da GlobaScan, divulgada na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Hong Kong. A sondagem que ouviu 20 mil pessoas em 20 países mostra que o Brasil foi o país em que o governo mais perdeu prestígio diante de sua população, na comparação com outros 14, nos últimos 12 meses.

Além das análises quantitativas, há certos sinais particulares importantíssimos que incidem sobre aspectos qualitativos. Por exemplo, O Estado de S. Paulo, de 15/12, trouxe duas notícias que demonstraram a insatisfação de duas instituições que, através de nossa história, quando desfavoráveis ao governo o colocavam em sérias dificuldades: a Igreja Católica e as FFAA. Portanto, mesmo sem o poder de outrora, é significativo o fato dos bispos do Brasil, segundo o jornal citado, terem ido recentemente se queixar ao Papa com relação às políticas sociais do governo Luiz Inácio. Recorde-se que o PT é filho dileto da Ecclesia e sempre contou com seu apoio.

Em outra página, o comandante do Exército, General Francisco Albuquerque, reclamava entre outras coisas de que os militares não estão conseguindo fazer as três refeições por dia.

Analistas e adeptos do governo petista falam que Luiz Inácio pode reverter o quadro. Ele possui a máquina estatal que é pródiga em benefícios e caridades oficiais quando interessa. Talvez isso aconteça, pois em política os cenários mudam rapidamente e o PT no poder acostumou-se a comprar tudo e todos. Mas que os sinais particulares do momento estão adversos, marcantes e pressagiadores de derrota para o PT, isso lá estão.

Domingo, 11 Dezembro 2005 21:00

Sob o Comando de Hugo Chávez

O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco.

No primeiro ano de seu mandado, o presidente Luiz Inácio aparecia como líder triunfal de esquerda não só do Brasil, como da América Latina. Além disso, ele se colocava para o mundo como um fenômeno capaz de impressionar os Estados Unidos e a Europa.

Em parte essa imagem foi ardilosamente construída pela propaganda, em parte pela ambição de poder do PT que se reveste da característica paranóica tão bem analisada por Elias Canetti. O autor mostra, entre outras coisas, em sua obra-prima “Massa e Poder”, que o paranóico trata sempre de defender e assegurar para si uma posição exaltada, importante, e que o poderoso também possui esse sentimento.

Essa análise se encaixa bem nesse governo transparecendo, inclusive, nas constantes viagens internacionais nas quais do presidente da República. Ele partia cercado de grandes comitivas, sendo divulgados para uso interno grandes pompas, honras, elogios e sucessos obtidos por nosso mais alto mandatário. Com tal estratégia se pretendeu também manter a alma nacional otimista e imersa em ufanismo. Isso apesar da péssima política internacional do governo petista, mergulhada em visão ideológica terceiro-mundista e que trouxe conseqüências econômicas duvidosas ou desastradas como, só para citar um exemplo, o grande negócio da China que agora está provocando temores de empresários e demissões de trabalhadores.

Qualquer alusão a esta realidade é tida como preconceito ou conspiração contra o pobre operário, que vive como um emir, simula governar o país e só aceita boas notícias. E aqui também aparece o traço paranóico do poder relativo às conspirações. Como mostrou Canetti na obra citada: “As conspirações ou conjurações estão na ordem do dia para o paranóico. Ele se sente cercado. Seu inimigo principal jamais se contentará com atacá-lo sozinho. Sempre procurará atiçar sobre ele uma malta odiosa, soltando-a no momento exato”. De certo modo isso também explica porque José Dirceu sempre fala em conspirações da oposição – que de fato não existe – e na necessidade de reagir a ela jogando na rua os movimentos sociais para defender o injustiçado presidente da República. Por movimentos sociais referidos por José Dirceu entenda-se o MST, a CUT e a UNE, todos devidamente pagos pelo governo do PT segundo se tem mostrado na imprensa.

Mas se agora as viagens internacionais não podem ser mais tão constantes, pois o presidente, em franca campanha de reeleição precisa viajar pelo Brasil fazendo inaugurações mesmo das obras de seus predecessores, pelo menos sua influência no Mercosul deveria existir visto que somos a maior economia da região. Mas nem isto está ocorrendo. O Brasil vem se curvando às imposições comerciais da Argentina e para agravar a situação, a partir da 29ª Cúpula do Mercosul, em Montevidéu (Uruguai), quando se consuma a entrada da Venezuela como quinto sócio do bloco, o Brasil poderá se ver na situação de apenas assumir os custos de projetos comuns e de se submeter às lideranças reunidas por interesses econômicos, como as de Nestor Kirchner e Hugo Chávez.

Sobre essa hipótese de subalternidade ainda não se levantou no Brasil nenhuma voz nacionalista, seja de direita, seja de esquerda. Aqui se prefere o pseudo-democráta Chávez ou ditador Fidel de Castro, mas não se admite nossa participação na Alca.

Sobre esse aspecto de xenofobia antiamericanista, Chávez é um sucesso e já proclamou: “Nosso destino é o mercado comum do Sul e isso é anti-Alca”. Essa fala demagógica extasia seus deslumbrados seguidores e admiradores como os integrantes das Farc, do MST, notadamente seu líder João Pedro Stédile, e governadores como Roberto Requião, do Paraná, que como homem de esquerda adora também as delícias de Paris. Até entre os norte-americanos menos aquinhoados pela prosperidade Hugo Chávez tem se intrometido para seduzi-los com promessas de benefícios. Enfim, o presidente venezuelano lidera espetacularmente o atraso latino-americano que inclui o isolamento da região e caminha na contra-mão da globalização tida como um dos males mundiais.

Tratando de armar-se até os dentes e com sonhos atômicos povoando sua mente também paranóica no sentido do poder, Chávez, que acaba de ganhar uma eleição na qual mais de 75% dos eleitores não votou, dá sinais de que não deixará o poder tão cedo. 2030 já é seu novo marco temporal de permanência no cargo. Afinal, o caudilho venezuelano já dominou os Poderes Legislativo e Judiciário, portanto, governa impávido o país a partir apenas do Executivo. Diga-se de passagem, que tal modelo também norteia o governo petista de Luiz Inácio, mas ainda não foi alcançado em plenitude apesar da politização do STF e do funcionamento dos mensalões na Câmara de Deputados no primeiro ano de mandato.

O ingresso de Chávez no Mercosul certamente terá como conseqüência seu comando sobre o Brasil e os demais países do bloco. Mas enquanto a economia brasileira dá sinais de retrocesso e o país se encontra mergulhado em corrupção jamais vista, a propaganda tentará fazer crer que Luiz Inácio é o grande líder de esquerda da América Latina, quiçá do mundo. Muita gente ainda acreditará nisso.

Terça, 06 Dezembro 2005 21:00

Bengaladas Cívicas

Implacável com adversários, mão de ferro no governo, arrogante quando detinha poder, defensor no passado de CPIs, Dirceu alega que sua cassação foi fuzilamento político.

A cassação do ex-todo-poderoso José Dirceu, que finalmente aconteceu depois de longos e enjoativos malabarismos jurídicos, representou considerável derrota do presidente da República e maior desmoralização de seu partido, o PT. E ainda que se diga que a Luiz Inácio interessava a queda do companheiro, como meio de livrar a própria pele e atenuar a crise política em que seu governo se encontra imerso desde muitos meses, o fato é que o presidente se desgasta ao perder seus homens fortes, invariavelmente acusados de corrupção. Além do mais, apesar da corrupção ser antiga e endêmica no Brasil, jamais a história havia registrado tal magnitude de amoralismo nos meios governamentais. A sensação é que se perdeu completamente a compostura, a vergonha e um mínimo de senso moral, prevalecendo de modo desmesurado o vale tudo do poder.

Sem ser orador brilhante ou líder carismático, aquele que já foi chamado de primeiro-ministro tentou e continuará tentando passar a impressão de que nada fez de errado. Ao contrário, é um pobre coitado, um humilde, um inocente. Obstinado em se colocar como vítima, Dirceu, de certo modo promovido a herói em biografia levada ao ar pela TV Globo, diz que vai processar o escritor paranaense, Yves Hublet que no Congresso lhe desferiu três bengaladas cívicas. Tal vingança do ex-camarada Daniel (codinome de José Dirceu) parece excessivo e o tornará figura ainda mais execrada pela sociedade. Mesmo porque, as bengaladas de Hublet traduziram simbolicamente o grito de “fora Dirceu”, o que deixou lavada a alma de muitos brasileiros. Desse modo, tal atitude do agora também ex-deputado só faz confirmar sua prepotência, sua alma de ditador, sua intolerância stalinista, sua personalidade rancorosa.

Implacável com adversários, mão de ferro no governo, arrogante quando detinha poder, defensor no passado de CPIs, Dirceu alega  que sua cassação foi fuzilamento político. Contradição de quem chora nas barbas do ditador Fidel Castro e que deve ver no paredão cubano uma forma democrática de se fazer justiça, ou que fuzilou sem piedade companheiros dissidentes agora reagrupados no PSOL.

José Dirceu, que já teve outros nomes e outra cara, apesar de chamar a imprensa de partidarizada, foi brindado com a chance de uma entrevista coletiva devidamente televisionada, proeza que nenhum cassado havia conseguido. Muito à vontade ele usou a velha tática esquerdista de transformar derrota em vitória, de deturpar fatos e abusar de inverdades. Alegou falta de provas no seu julgamento, no que foi posteriormente secundado pelo companheiro presidente da República, que tardiamente veio em sua defesa.

Em todo caso, causa novamente estranheza que Luiz Inácio nada soubesse acerca do comportamento de um de seus auxiliares mais diretos, o conselheiro dileto, o companheiro mais antigo e chegado que lhe poupou a pesada tarefa de governar para qual não está habilitado. Daí a necessidade do presidente dizer: “não há provas contra Dirceu”. Assim, eximem-se todos de todas as culpas.

Mas será que faltam provas contra Dirceu? Segundo o senador Álvaro Dias, “como não existem provas, se José Dirceu está no epicentro da crise? E o esquema de Santo André, em que o dinheiro da propina era transportado para São Paulo e entregue para Dirceu? Com Waldomiro Diniz, a figura emblemática de Dirceu também apareceu, assim como nas negociações com os bancos BMG e Rural, em que se fraudava a contabilidade para registrar empréstimos que não ocorreram”.

Por outro lado, há um fato bastante intrigante que funciona como espécie de auto-atestado de culpa: José Dirceu deixou o importante cargo de ministro da Casa Civil em obediência a ordem de Roberto Jefferson: “sai daí rápido”. Se era tão inocente, por que agiu assim?

Em meio à crise política, que está longe de arrefecer mesmo com a retirada de cenário daquele que foi chamado de chefe do mensalão, esboça-se agora a crise econômica, setor do qual o governo vem se vangloriando. A má notícia surgiu com a inesperada queda de 1,2% do PIB no terceiro semestre. Com isso as projeções para o crescimento em 2005 caíram de 3% para 2,5%, o mais baixo entre os países em desenvolvimento. À luz desse fato recrudescem as discussões entre empresários e governo, e são refeitos cálculos dos economistas que erraram feio em suas projeções. A sensação é de que o governo começa a ficar aturdido em que pesem os discursos que, distantes da realidade, seguem a linha das boas notícias. No ano que vem certamente virão as bondades lulianas de campanha para a conquista da reeleição. Mas qual será de fato o preço pago pela sociedade para manter Lula lá? Esse PT no poder é de dar medo.

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